CELEBRAR O DOMINGO PRIMEIRO DE ADVENTO


Tempo de Advento: a palavra de Deus, no início deste ano litúrgico (Ano C), prepara os nossos corações para a vinda de Jesus Cristo. O primeiro domingo de Advento marca o início de um itinerário: não é apenas para celebrar o nascimento dum bebé, num presépio; também não é para nos meter medo com um final do mundo cheio de sinais extraordinários (evangelho). É para estar vigilantes. Esta é a mais bela atitude dos cristãos, a atitude de quem ama o seu Senhor e vigia enquanto aguarda o seu regresso. Para que nos encontre a progredir na santidade (segunda leitura), nos caminhos de Deus (salmo). Outrora, o primeiro Natal foi um sinal para Israel (primeira leitura). Hoje, a nossa esperança confirma a concretização da promessa.

«Farei germinar para David um rebento»
Com a chegada do Advento, a Liturgia da Palavra faz-nos tomar consciência de que a graça de Deus torna-se presente para nos oferecer novas oportunidades de libertação e de plenitude: Deus dispõe-se sempre a fazer coisas novas, a tomar novas iniciativas na vida das mulheres e dos homens de cada tempo.
Num momento de grande comoção na história do povo bíblico, a Cidade Santa de Jerusalém foi destruída pelos babilónicos e a população foi deportada; ruiu a dinastia de David. Então, o profeta Jeremias, em nome de Deus, anuncia que as coisas vão mudar: «Dias virão, em que cumprirei a promessa que fiz… farei germinar para David um rebento… o reino de Judá será salvo e Jerusalém viverá em segurança».
A notícia jubilosa consiste em fazer reviver a casa de David. A imagem é de uma árvore da qual, inesperadamente, brotará um rebento. E esse rebento será o cumprimento da promessa: fazer reviver a casa de David que tinha sido extinta pela força das armas poderosas do império da Babilónia. Esta imagem leva-nos a contemplar uma vida que brota de forma inesperada, após a queda da árvore. À chegada deste novo membro da família de David, o país «será salvo» e a cidade «viverá em segurança». A obra deste novo rei será fruto da ação do próprio Deus de Israel, por isso receberá este nome: «O Senhor é a nossa justiça».

O Advento traz alegria ao coração das pessoas fiéis porque é o tempo que, de forma especial, torna presente a vinda do Filho de Deus. O amor de Deus encontra o cumprimento desejado na salvação das pessoas, na sua presença na vida do povo. O tempo de dor e de desgraça acaba quando se concretiza na história o anúncio profético: «farei germinar para David um rebento». De facto, o Advento é sempre caracterizado pela espera e pela esperança. Deus continua a vir até nós; e fá-lo sempre, como sublinha o papa Francisco, em chave de misericórdia. Vivemos momentos difíceis?! Mas sabemos que continuamos nas mãos de Deus misericordioso que se fez um de nós para nos perdoar e salvar. A misericórdia é uma boa atitude para alimentar a nossa pequena esperança, «essa menina, que arrasta tudo consigo» — como bem dizia o escritor francês Charles Péguy. «É ela que faz andar o mundo inteiro». Não renunciemos à esperança!

© Laboratório da fé, 2015



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.11.15 | Sem comentários

ORAÇÃO DIÁRIA A PARTIR DO EVANGELHO

29 DE NOVEMBRO DE 2015


Evangelho segundo Lucas 21, 25-28.34-36

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas e, na terra, angústia entre as nações, aterradas com o rugido e a agitação do mar. Os homens morrerão de pavor, na expectativa do que vai suceder ao universo, pois as forças celestes serão abaladas. Então, hão-de ver o Filho do homem vir numa nuvem, com grande poder e glória. Quando estas coisas começarem a acontecer, erguei-vos e levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima. Tende cuidado convosco, não suceda que os vossos corações se tornem pesados pela intemperança, a embriaguez e as preocupações da vida, e esse dia não vos surpreenda subitamente como uma armadilha, pois ele atingirá todos os que habitam a face da terra. Portanto, vigiai e orai em todo o tempo, para que possais livrar-vos de tudo o que vai acontecer e comparecer diante do Filho do homem».



Segunda, 23: VIR

No próximo domingo, entramos no tempo de Advento. O que é o Advento? No evangelho, Jesus lembra-nos: «Hão de ver o Filho do homem vir…». O Advento é o tempo em que Jesus Cristo nos fala da sua vinda, seja do seu nascimento em Belém, seja da sua presença em nós ou da sua vinda constante ao nosso coração, ou ainda do seu regresso no final dos tempos! Jesus Cristo não é um homem do passado. É um homem que vem ao nosso encontro, hoje. Ele vem fazer história connosco, comigo. Por isso, tenho de me preparar. Vem, Senhor Jesus!



Terça, 24: SER ABALADO

Para falar da sua vinda, Jesus menciona sinais grandiosos no céu, no mar, na terra. Tudo é abalado. Haverá melhor forma de significar o desabar do mundo antigo com a vinda de Jesus Cristo? Com ele, o mundo avança para uma nova era. Com ele, sou levado/a a entrar na novidade de Deus. Isto mete-me medo? Vem, Senhor Jesus!



Quarta, 25: ESPERAR

Se é certo que Jesus virá a nós «com grande poder e glória», se o mundo que conhecemos será abalado, o que é que podemos fazer? Esperar. Esperar sem receio do que poderá acontecer. Mas esperar com um grande desejo de ver o Senhor vir ao mundo, à nossa história, à minha vida. Esperar aquilo que desejo na profundidade do meu ser: uma nova terra onde reinará a justiça e a paz. Esperar um mundo em que todos os pobres sejam saciados. Esperar um Reino no qual o sofrimento e os medos deixarão de existir. Esperar… Na minha oração, posso confiar a Deus aquilo em que espero realmente. Vem, Senhor Jesus!



Quinta, 26: ERGUER-SE

Jesus não esconde que os seres humanos morrerão de medo quando tudo isso acontecer. A novidade, a irrupção dum novo mundo, não vai alegrar espontaneamente toda a gente. E como estarão os discípulos de Jesus Cristo? «Quando estas coisas começarem a acontecer, erguei-vos e levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima». Com medo? Não. Com confiança? Sim, e com a posturar erguida, de cabeça levantada e não de cabeça baixa. É a posição dos ressuscitados, dos salvos, dos que entram na vida nova. Por isso, hoje, rezo de pé, bem erguido, olhando o futuro de frente. Vem, Senhor Jesus!



Sexta, 27: TORNAR-SE PESADO

Jesus sabe que a espera pode ser longa. O nosso coração, cansado de esperar a vinda de Jesus Cristo, pode tornar-se pesado. Com o tempo, as «preocupações da vida» podem impor-se e distrair-nos da atitude correta para esperar e receber Jesus Cristo quando ele vier. Aliviar o coração, recentrar as preocupações é uma bela maneira de se preparar para o Natal. Vou fazê-lo? Vem, Senhor Jesus!



Sábado, 28: PERMANECER VIGILANTES

Como lutar contra o que nos desanima e nos distrai da espera daquele que amamos? Como combater os fardos da vida que com o seu peso nos fazem cair? Como fazer face à falta de esperança que, às vezes, nos faz curvar a coluna? Jesus não propõe soluções milagrosas, mas apela à nossa liberdade. Ele procura suscitar em nós um suplemento de liberdade convidando-nos a duas atitudes muito concretas. Antes de mais, pernanecer vigilantes. Por conseguinte, afastar de mim tudo o que anestesia a esperança e a coragem. Depois, orar em todo o tempo. Então, volto-me para o Senhor e conto-lhe agora e sempre a minha vontade. Vem, Senhor Jesus!



Domingo, 29: COMPARECER DIANTE DO FILHO DO HOMEM

O evangelho do primeiro domingo de Advento termina com uma atitude que marca o início deste tempo de Advento: estar preparado para comparecer diante do Filho do homem. Jesus não pede para estar de joelhos ou prostrado quando ele vier. Pede para estarmos de pé, que permaneçamos de pé. É a posição do homem/mulher livre, que se sabe salvo/a e que está de pé para receber o seu libertador. Então, neste domingo, aprendamos a estar de pé diante de Jesus Cristo, na eucaristia por exemplo (no momento da comunhão), ao dar uma oferta a um mendigo (figura privilegiada de Jesus Cristo), ao abrir os braços para acolher as crianças, ao abençoar a refeição partilhada em família ou entre amigos… Vamos, de pé!



© www.versdimanche.com
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.11.15 | Sem comentários

Anunciar a alegria da fé! [7]


O papa Francisco na Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual («A Alegria do Evangelho» — «Evangelii Gaudium» [EG]), em sintonia com o Documento de Aparecida (DAp), confronta todos os cristãos com uma identidade essencial: ser discípulos missionários (cf. tema 6). Neste e nos próximos temas, vamos apresentar, segundo o Documento de Aparecida, cinco aspetos fundamentais que constituem a base na formação de discípulos missionários: «cinco aspetos fundamentais que aparecem de maneira diversa em cada etapa do caminho, mas que se complementam intimamente e se alimentam entre si» (DAp 278). São eles: o encontro pessoal com Jesus Cristo; a conversão; o discipulado; a comunhão; a missão. Antes de mais, «o discípulo é alguém apaixonado por Cristo, a quem reconhece como o mestre que o conduz e acompanha» (DAp 277).

Encontro com Jesus Cristo

No início da vida cristã está o «encontro pessoal com Jesus Cristo». Por isso, o Papa convida cada cristão «em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar. Não há motivo para alguém poder pensar que este convite não lhe diz respeito, já que ‘da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído’. Quem arrisca, o Senhor não o desilude; e, quando alguém dá um pequeno passo em direção a Jesus, descobre que Ele já aguardava de braços abertos a sua chegada» (EG 3). E os bispos da América Latina e do Caribe declaram: «Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria» (DAp 29). Trata-se de uma alegria (cf. tema 3) que bebe «na fonte do amor maior, que é o de Deus, a nós manifestado em Jesus Cristo. Não me cansarei de repetir estas palavras de Bento XVI que nos levam ao centro do Evangelho: ‘Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo’» (EG 7). Graças a este encontro «com o amor de Deus, que se converte em amizade feliz, é que somos resgatados da nossa consciência isolada e de autorreferencialidade» (EG 8). O Documento de Aparecida explicita assim este aspeto essencial na formação do discípulo missionário: «Aqueles que serão seus discípulos já o buscam (cf. João 1, 38), mas é o Senhor quem os chama: “Segue-me” (Marcos 1, 14; Mateus 9, 9). É necessário descobrir o sentido mais profundo da busca, assim como é necessário propiciar o encontro com Cristo que dá origem à iniciação cristã. Esse encontro deve renovar-se constantemente pelo testemunho pessoal, pelo anúncio do ‘querigma’ e pela ação missionária da comunidade. O ‘querigma’ não é somente uma etapa, mas o fio condutor de um processo que culmina na maturidade do discípulo de Jesus Cristo. Sem o ‘querigma’, os demais aspetos desse processo estão condenados à esterilidade, sem corações verdadeiramente convertidos ao Senhor. Só a partir do ‘querigma’ acontece a possibilidade de uma iniciação cristã verdadeira. Por isso, a Igreja precisa tê-lo presente em todas as suas ações» (DAp 278). Ora, o encontro «com o amor de Deus em Cristo Jesus» (EG 120) acontece na cruz e é um encontro capaz de transformar o cristão em discípulo missionário. Assim, «a primeira motivação para evangelizar é o amor que recebemos de Jesus, aquela experiência de sermos salvos por Ele que nos impele a amá-Lo cada vez mais» (EG 264).

Encontro com o outro

Com Jesus Cristo aprendemos um método (simples) para o encontro com o outro: «Se falava com alguém, fitava os seus olhos com uma profunda solicitude cheia de amor: ‘Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele’ (Marcos 10, 21). Vemo-Lo disponível ao encontro, quando manda aproximar-se o cego do caminho (cf. Marcos 10, 46-52) e quando come e bebe com os pecadores (cf. Marcos 2, 16), sem Se importar que O chamem de glutão e beberrão (cf. Mateus 11, 19). Vemo-Lo disponível, quando deixa uma prostituta ungir-Lhe os pés (cf. Lucas 7, 36-50) ou quando recebe, de noite, Nicodemos (cf. João 3, 1-15). A entrega de Jesus na cruz é apenas o culminar deste estilo que marcou toda a sua vida» (EG 269).

Aceito o convite do Papa para renovar o encontro com Jesus Cristo ou, pelo menos, a deixar-me encontrar por Jesus Cristo? Onde está a minha fonte de amor e de alegria?

© Laboratório da fé, 2015 










Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.11.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [12]


Terminamos o resumo da Constituição Pastoral do II Concílio do Vaticano sobre a Igreja no mundo atual («Gaudium et Spes» [GS]). Neste último tema seguimos o texto publicado na obra de Darlei Zanon, «Para ler o Concílio Vaticano II», ed. Paulus. No início, o Concílio não tinha previsto uma comissão para o estudo dos problemas sociais e da relação da Igreja com o mundo. Esta comissão foi criada a partir do pedido do cardeal Suenes, da Bélgica. Dos estudos desta comissão surgiu um texto inicial que foi reelaborado e ampliado diversas vezes até ser promulgado a 7 de dezembro de 1965. A «Gaudium et Spes» (em português, «Alegrias e Esperanças») foi o último documento aprovado: 2309 votos a favor, 75 contra e 10 nulos. Comparado com outros documentos, o número de votos contra é alto, o que é compreensível devido ao facto de abordar temas delicados para a Igreja daquela época.

Base da Doutrina Social da Igreja

A quarta das constituições do Concílio trata fundamentalmente das relações entre a Igreja Católica e o mundo. A GS é apresentada como «Constituição Pastoral», pois apresenta na primeira parte a compreensão do ser humano e da sociedade em chave teológica (parte doutrinária) e na segunda trata de alguns problemas concretos (parte pastoral). O seu texto é profundo e completo, constituindo a base de toda a Doutrina Social da Igreja. Mais tarde (26 de março de 1967), Paulo VI escreveu a Encíclica sobre o desenvolvimento dos povos («Populorum Progressio») para reforçar a linha de pensamento assumida pela Igreja nesta área, ou seja, alertar para o descompasso crescente entre o crescimento económico e o desenvolvimento integral, para o contraste entre o progresso tecnológico e a capacidade produtiva, de um lado, e o subdesenvolvimento de tantos povos, de outro.

Estrutura e conteúdo

A maior riqueza da GS é apresentar um olhar profético, eclesiológico e pastoral sobre a sociedade, sempre em busca da promoção da justiça e da paz. Ela visa «iluminar o mistério do ser humano e cooperar na solução das principais questões do nosso tempo» (GS 10). A sua primeira frase traduz o espírito do próprio Concílio como um todo: «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e mulheres de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por seres humanos, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao género humano e à sua história» (GS 1). Aí está expressa claramente a nova conceção de Igreja assumida pelo Concílio, como Povo de Deus, Corpo de Cristo e Templo do Espírito. A «Introdução» recorda a necessidade de a Igreja conhecer o mundo e acompanhar as suas transformações técnicas e sociais. Na primeira parte, o documento trata da doutrina da Igreja acerca do ser humano e do mundo. Aborda temas como a dignidade humana (números 12 a 22), a condição humana (23 a 32), a atividade do ser humano no mundo (33 a 39) e o papel da Igreja no mundo (40 a 45). Na segunda parte, estabelece linhas pastorais, respondendo à missão da Igreja no mundo. Considera vários aspetos da vida humana e da sociedade, respondendo a problemas de maior urgência para a época: matrimónio e família (47 a 52), progresso cultural (53 a 62), vida económica e social (63 a 72), comunidade política (73 a 76), promoção da paz e da Comunidade Internacional (77 a 90). Esta parte, inicialmente foi designada como «anexos», mas devido à sua importância e aos debates gerados foi incluída no corpo do documento. Ao analisarmos com cuidado a situação da sociedade atual, em clima de crise económica e principalmente de crise de valores, constatamos que os problemas não são muito diferentes, assumindo apenas uma nova face, mais moderna. Por ser o último documento aprovado, a GS bebeu de toda a nova mentalidade conciliar. Ela põe em prática todas as novidades do Concílio, especialmente o que diz respeito a uma Igreja mais aberta, comprometida e missionária. Tem especial ligação com a Constituição «Lumen Gentium», sobre a Igreja e com o Decreto «Ad Gentes», sobre a atividade missionária da Igreja: «A Igreja é por natureza missionária». O conteúdo apresentado na GS é de uma profundidade e beleza impressionantes e merece ser conhecido e retomado com frequência por todos os cristãos.

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.11.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO TRIGÉSIMO QUARTO


Na última solenidade do Ano Litúrgico (Ano B), Jesus Cristo faz rimar realeza com humildade e verdade: não se trata de um rei à maneira do mundo! A sua realeza não é deste mundo. Ele veio para «dar testemunho da verdade» (evangelho), para nos libertar do pecado (segunda leitura). Jesus Cristo é o Servo perfeito, o filho do homem que deu a vida para obter a salvação de todos e reunir todas as nações na sua glória (primeira leitura). O poder da sua majestade (salmo) brota do serviço, da doação, da fidelidade, do amor. Ele é «Aquele que é, que era e que há de vir, o Senhor do Universo».

«O seu reino não será destruído»
O capítulo sete de Daniel inicia a segunda parte do livro (7, 1 — 12, 13), que é caracterizada por «visões» de pendor apocalíptico difíceis de interpretar.
Daniel tem uma primeira visão em que vislumbra quatro feras, «quatro grandes animais, diferentes uns dos outros» (7, 3). Atribuiu-se esta referência às últimas grandes potências sanguinárias que importunaram o povo bíblico (desde o tempo de Nabucodonosor): babilónicos, medos, persas, macedónios. É importante esta referência para entender o alcance da nova figura que, entretanto, aparece no texto proposto para primeira leitura.
O profeta é testemunha de um facto surpreendente que ocorre no céu: um «Ancião» — figura que se interpreta como uma referência a Deus —, sentado como juiz, julga o quarto animal, que é o mais insolente. Trata-se do rei da Síria, Antíoco IV, que oprimia religiosamente o povo de Israel, perseguia os judeus que permaneciam fiéis à fé dos seus antepassados.
A luta só em aparência é política, porque, na realidade, por detrás dos grandes impérios há uma potência sobre-humana que combate contra o Deus da Aliança: a interpretação da história há de ser, pois, teológica, lida a partir de Deus. É certo que os impérios passam e não há estabilidade duradoira, mas a opressão do povo bíblico pede uma intervenção divina que interrompa as sucessivas investidas do mal.
Daniel constata a necessidade de instaurar o Reino de Deus, um reino que substitua a série dos impérios humanos, um reino liderado por uma figura humana, um «filho do homem», que mostrará a decisão divina de alterar o rumo da história: «O seu poder é eterno, não passará jamais, e o seu reino não será destruído».

O texto culmina numa mensagem de esperança: não são os poderes deste mundo que dominam a história; o triunfo será do verdadeiro Senhor da história, Deus, que há de instaurar o seu Reino através do seu enviado: «alguém semelhante a um filho do homem». A última palavra pertence a Deus. Assim, o povo adquire a chave que permite interpretar o sentido da história. Esta figura do «filho do homem», que vem de Deus, a quem é dado o domínio universal, que reina sobre todos os povos, é vista pela teologia cristã como uma antecipação profética do domínio universal de Jesus Cristo. Ele não usará o poder para escravizar como fazem os poderosos deste mundo, mas para nos libertar e fazer de nós seus irmãos, filhos de Deus.

© Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.11.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO TRIGÉSIMO TERCEIRO


Na reta final do ano litúrgico, a Liturgia da Palavra remete para o «final dos tempos». É preciso estar preparado? Jesus Cristo alerta: não sabemos o dia nem a hora desse fim do mundo que suscita tantas especulações… Mas a fé abre-nos novas perspectivas: Jesus Cristo vai reunir-nos na glória (evangelho) e, uma vez que o seu perfeito e «único sacrifício» nos salva (segunda leitura), saborearemos a vida eterna que nos foi prometida (primeira leitura). É esta convicção, esta confiança, que aclamamos (salmo 15), certos do amor com que somos amados.

«Brilharão como estrelas por toda a eternidade»
O livro de Daniel pertence ao género apocalíptico. Não se pode ler como o quarto dos «profetas maiores» (Isaías, Jeremias e Ezequiel), mas como representante da apocalítica judaica canónica: textos que têm uma predileção pelo contraste entre o presente dececionante e a esperança num futuro glorioso!
O protagonista situa-se na Babilónia, no império que resulta dos sucessos de Nabucodonosor, o conquistador e destruidor de Jerusalém, causador da deportação do povo de Deus. Mas, na realidade, refere-se à época da opressão causada pelos reis helenistas da Síria contra Jerusalém e da perseguição religiosa que acabou por desencadear a revolta dos Macabeus, no século segundo antes de Cristo.
Na segunda parte deste livro especial e complexo — escrito em três línguas: hebraico, aramaico, grego — estão as «visões de Daniel». Na imagética do texto proposto para primeira leitura do trigésimo terceiro domingo (Ano B) contempla-se o futuro escatológico. Os eleitos de Deus são aqueles cujos nomes estão «inscritos no livro de Deus». Estes, apesar dos sofrimentos, serão salvos. O mundo divino representado aqui por Miguel – «o grande chefe dos Anjos, que protege os filhos do teu povo» – irrompe na história para levar a cabo o seu plano. Encontramo-nos num contexto singular: a luta das forças que obstaculizam o plano divino contra o Deus que salva o seu povo. O resultado final é uma vitória clara de Deus, que agrega a si os sábios e os justos: «brilharão como estrelas por toda a eternidade».
O texto é muito especial porque é, provavelmente, o primeiro do Antigo Testamento em que se evoca a ressurreição dos mortos (embora não se use o termo): «Muitos dos que dormem no pó da terra acordarão, uns para a vida eterna, outros para a vergonha e o horror eterno».

O Ano Litúrgico atualiza e realiza o mistério global da salvação. É preciso orientar o olhar para o futuro, movidos pela esperança, enquanto vivemos a experiência presente com constância e paciência. É importante percorrer o caminho que conduz ao final glorioso. Os crentes (cristãos) têm a missão ser testemunhas da esperança enquanto partilham com os irmãos as circunstâncias da vida, sejam marcadas pelo sofrimento, sejam marcadas pela alegria. A interpretação dos textos apocalípticos possui estas duas versões: esperança para o futuro e testemunho consolador para o presente. Uma tarefa nada fácil de assumir no concreto do dia a dia!

© Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.11.15 | Sem comentários

Anunciar a alegria da fé! [6]


«A evangelização obedece ao mandato missionário de Jesus: ‘Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado’ (Mateus 28, 19-20)» (EG 19). Esta é a missão da Igreja (cf. tema 1). Por isso, «este mesmo mandato continua a ser confiado aos discípulos de hoje (e de sempre), a quem compete, em primeiro lugar, ‘viver a alegria do Evangelho’» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga). Com este tema iniciamos a segunda parte desta proposta (cf. tema 1). Nesta parte dedicada à reflexão sobre os «discípulos missionários», sem deixar de ter como ponto de referência a Exortação Apostólica do papa Francisco sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual (EG), não podemos ignorar o contributo essencial dado pelo Documento de Aparecida (DAp) para iluminar esta temática.

Discípulos

A EG afirma que a Igreja é constituída por comunidades de discípulos e discípulas, que têm de ser «sal da terra e luz do mundo»: «Precisamente nesta época, inclusive onde são um ‘pequenino rebanho’ (Lucas 12, 32), os discípulos do Senhor são chamados a viver como comunidade que seja sal da terra e luz do mundo (cf. Mateus 5, 13-16). São chamados a testemunhar, de forma sempre nova, uma pertença evangelizadora» (EG 92). O conteúdo da EG sobre o discipulado sintetiza o que se encontra no Documento de Aparecida sobre os «discípulos missionários de Jesus Cristo». Eles são enviados como comunidade e pela comunidade eclesial para «dar testemunho do amor» (DAp 386), anunciar a chegada do Reino, a dinâmica «transformadora do Reino de Deus que se faz presente em Jesus» (DAp 382) e assumir «as tarefas prioritárias» para o bem comum e a dignificação do ser humano (DAp 384).

Discípulos missionários

Em virtude do Batismo recebido, cada membro do povo de Deus tornou-se discípulo missionário» (EG 120). E por conseguinte todos os cristãos são sujeitos de evangelização, porque «em todos os batizados, desde o primeiro ao último, atua a força santificadora do Espírito que impele a evangelizar» (EG 119). Evangelizar não é uma tarefa de alguns; «seria inapropriado pensar num esquema de evangelização realizado por agentes qualificados enquanto o resto do povo fiel seria apenas recetor das suas ações» (EG 120). Não se trata de uma opção, mas de uma característica essencial que brota do batismo. «O batismo não é um título que recebemos, mas um chamamento para o serviço ativo na vida da Igreja, dentro e fora de portas. O (cristão) batizado não pode não ser ‘discípulo missionário’. Na reflexão do Papa percebe-se claramente que não se trata duma opção, duma escolha entre ser ou não ser» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga). Por isso, a missão dos «discípulos missionários» é universal: todos são enviados e todos são convidados. A missão é também universal quanto aos destinatários: é para todos, a começar pelos mais frágeis. «Todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho» (EG 20). Uma Igreja «em saída» é uma comunidade que caminha ao encontro dos mais necessitados para estar ao serviço: «Faz falta ajudar a reconhecer que o único caminho é aprender a encontrar os demais com a atitude adequada, que é valorizá-los e aceitá-los como companheiros de estrada, sem resistências interiores. Melhor ainda, trata-se de aprender a descobrir Jesus no rosto dos outros, na sua voz, nas suas reivindicações; e aprender também a sofrer, num abraço com Jesus crucificado» (EG 91). A comunidade dos discípulos é «uma fraternidade mística, contemplativa, que sabe ver a grandeza sagrada do próximo, que sabe descobrir Deus em cada ser humano» (EG 92). Ser discípulo missionário significa existir para estar ao serviço dos outros. «Com obras e gestos, a comunidade missionária entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até à humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo» (EG 24). Não há outro caminho. «Trata-se de ‘cumprir’ aquilo que o Senhor nos indicou como resposta ao seu amor, sobressaindo, junto com todas as virtudes, aquele mandamento novo que é o primeiro, o maior, o que melhor nos identifica como discípulos: ‘É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei’ (João 15, 12)» (EG 161).

Vive-se o mandato de Jesus Cristo, quando os «paroquianos» se conformam em ficar sentados nos bancos da igreja e não se dispõem a ir, a servir a comunidade?

© Laboratório da fé, 2015 









Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.11.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [11]


A segunda secção do quinto capítulo encerra as temáticas propostas pelo II Concílio do Vaticano na Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual («Gaudium et Spes» — GS). Trata-se de uma reflexão sobre a Comunidade Internacional inserida na conjuntura da promoção da paz. «Para edificar a paz, é preciso, antes de mais, eliminar as causas das discórdias [...]. Como o ser humano não pode suportar tantas desordens, delas provém que, mesmo sem haver guerra, o mundo está continuamente envenenado com as contendas e violências entre os humanos. E como se verificam os mesmos males nas relações entre as nações, é absolutamente necessário, para os vencer ou prevenir, e para reprimir as violências desenfreadas, que os organismos internacionais cooperem e se coordenem melhor e que se fomentem incansavelmente as organizações que promovem a paz» (GS 83).

A Comunidade Internacional

Tendo como meta o «bem comum universal» é urgente que «a comunidade dos povos se dê a si mesma uma estrutura à altura das tarefas atuais [...]. Para obter tais fins, as instituições da comunidade internacional devem prover, cada uma por sua parte, às diversas necessidades humanas, no domínio da vida social — a que pertencem a alimentação, saúde, educação, trabalho — como em certas circunstâncias particulares, que podem surgir aqui ou ali, tais como a necessidade geral de favorecer o progresso das nações em vias de desenvolvimento, de obviar às necessidades dos refugiados dispersos por todo o mundo, ou ainda de ajudar os emigrantes e suas famílias» (GS 84). E também «é preciso abolir o apetite de lucros excessivos, as ambições nacionais, o desejo de domínio político, os cálculos de ordem militar bem como as manobras para propagar e impor ideologias» (GS 85).

Algumas normas oportunas

A GS sugere algumas orientações para assegurar o acesso de todos aos bens necessários para viver: que «a plena perfeição humana dos cidadãos» seja a finalidade expressa das nações; que os povos desenvolvidos ajudem os que estão em vias de desenvolvimento; que se estabeleça uma Comunidade Internacional com autoridade e poder para coordenar e estimular o desenvolvimento, bem como «regular as relações económicas no mundo inteiro»; que se revejam as atuais estruturas sociais e económicas, tendo em conta as necessidades materiais, mas também as de ordem cultural e espiritual (GS 86). A Igreja aponta também para a necessidade de auxílio educacional e tecnológico aos «povos que, além de muitas outras dificuldades, sofrem especialmente da que deriva dum rápido aumento da população» e aos que não têm acesso a técnicas modernas de produção ou não possuem adequada formação educacional e profissional. Entretanto, «o Concílio exorta todos a que evitem as soluções, promovidas privada ou publicamente ou até por vezes impostas, que sejam contrárias à lei moral» (GS 87). Com estas indicações, pretende despertar os cristãos para a sua responsabilidade: «Não se dê o escândalo de haver algumas nações, geralmente de maioria cristã, na abundância, enquanto outras não têm sequer o necessário para viver e são atormentadas pela fome, pela doença e por toda a espécie de misérias» (GS 88). Por isso, é «absolutamente necessário que a Igreja esteja presente na comunidade das nações, para fomentar e estimular a cooperação entre os humanos» (GS 89). Entre as possibilidades, «uma das melhores formas de atuação internacional dos cristãos consiste certamente na cooperação que, isoladamente ou em grupo, prestam nas próprias instituições criadas ou a criar para o desenvolvimento da cooperação entre as nações» (GS 90).

Conclusão

A GS pretende fazer com que todas as pessoas tornem «o mundo mais conforme à sublime dignidade humana, aspirem a uma fraternidade universal mais profundamente fundada e, impelidos pelo amor, correspondam com um esforço generoso e comum às urgentes exigências da nossa era» (GS 91). Impõe-se, assim, que a fraternidade e a caridade impulsionem o diálogo, o entendimento e o respeito pela legítima diversidade entre as nações, as raças, as culturas e religiões, sem excluir ninguém. «Por isso, chamados pela mesma vocação humana e divina, podemos e devemos cooperar pacificamente, sem violência nem engano, na edificação do mundo na verdadeira paz» (GS 92). Os cristãos «nada podem desejar mais ardentemente do que servir sempre com maior generosidade e eficácia os homens e mulheres do mundo de hoje. [...] ‘Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros’ (João 13, 35). Essa é «a vontade do Pai» (GS 93).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.11.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO TRIGÉSIMO SEGUNDO


Um ensinamento sobre a sinceridade de coração: Deus não olha às aparências, conhece o íntimo dos nossos pensamentos; e a sinceridade da fé é garantia da nossa salvação. Neste trigésimo segundo domingo (Ano B), o que está em causa é a generosidade, a caridade: a viúva de Sarepta partilha o pouco que tem para alimentar o profeta Elias (primeira leitura), a pobre viúva, no Templo, não hesita em dar tudo o que possui (evangelho). Deus, que «ampara o órfão e a viúva» (salmo 145), aprecia a beleza do gesto, a gratuidade da oferenda. A nossa salvação não pode ser comprada pelos nossos méritos; é uma dádiva recebida graças à oferta vital («sacrifício») de Jesus Cristo (segunda leitura).

«A mulher foi e fez como Elias lhe mandara»
Os livros dos Reis contêm narrações sobre as diversas atividades dos profetas Elias e Eliseu. Estes viveram numa época muito antiga da história de Israel (século nono antes de Cristo). São uns personagens singulares de quem não temos qualquer escrito próprio. Esta é a característica principal dos grandes profetas bíblicos: homens que comunicam a palavra de Deus que dá sentido à história de um tempo concreto. Neste caso, apenas temos conhecimento de atos singulares e prodigiosos realizados por intermédio de Elias e Eliseu.
A história narrada no Primeiro Livro dos Rei — texto proposto para primeira leitura — tem como protagonista o profeta Elias, o porta-voz de Deus contra a corrupção política e espiritual da vida israelita. A função do profeta consiste em contribuir para romper com o ciclo de violência e de apostasia que caracterizava o Reino do Norte desde a sua fundação.
As atitudes de Acab, rei de Israel, fizeram aumentar «a ira do Se­nhor, Deus de Israel, mais do que todos os reis de Israel, seus predecessores» (cf. 1Reis 16, 29-34). Então, Deus enviou uma seca extrema. Em consequência, o profeta, perseguido pelo rei, teve que fugir. Depois de várias peripécias, chega a Sarepta, uma cidade fenícia.
A viúva com quem o profeta se encontra não é uma adoradora do Deus de Israel. Ela diz: «Tão certo como estar vivo o Senhor, teu Deus…». Neste fragmento, aprendemos uma lição importante sobre o amor universal de Deus, um amor que vai para além dos estreitos limites dos reinos de Israel (Norte) e de Judá (Sul). E também recebemos o testemunho da bondade e da compaixão duma pessoa não crente para com um homem de Deus.
«A mulher foi e fez como Elias lhe mandara», mesmo sem ter qualquer outro recurso para sobreviver juntamente com o seu filho. O profeta, perante a generosidade extrema da mulher anuncia um prodígio. Não se trata de um qualquer poder mágico de Elias; a comida milagrosa é um dom de Deus à mulher que teve compaixão pelo profeta.

O texto questiona as nossas oferendas: fazemos contas ao que damos, damos «as sobras» ou aquilo que nos faz falta? Vale a pena experimentar que a dinâmica do compartilhar multiplica o que parece pouco, acrescenta em vez de subtrair. Essa é a caridade que brota, não das aparências, mas do íntimo do coração.

© Laboratório da fé, 2015



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.11.15 | Sem comentários

Anunciar a alegria da fé! [5]


«O que é que é feito, em nossos dias, daquela energia escondida da Boa Nova, suscetível de impressionar profundamente a consciência dos homens e mulheres? Até que ponto e como é que essa força evangélica está em condições de transformar verdadeiramente o ser humano deste nosso século? Quais os métodos que hão de ser seguidos para proclamar o Evangelho de modo a que a sua potência possa ser eficaz? Tais perguntas, no fundo, exprimem o problema fundamental que a Igreja hoje põe a si mesma e que nós poderíamos equacionar assim: [...] encontrar-se-á a Igreja mais apta para anunciar o Evangelho e para o inserir no coração dos seres humanos, com convicção, liberdade de espírito e eficácia? Sim ou não?» (EN 4) — escritas em 1975 pelo papa Paulo VI, no décimo aniversário da conclusão do Concílio, são palavras (ainda) atuais passados 40 anos (50 do Concílio).

Quem evangelizamos?

A alegria do Evangelho tem um alcance universal (cf. tema 3). Por isso, todos são destinatários da evangelização, a começar pelos que aceitam a missão de ser evangelizadores! O papa Francisco sintetiza a dinâmica evangelizadora em três âmbitos: «pastoral ordinária»; «pessoas batizadas que não vivem as exigências do Batismo»; os que «não conhecem Jesus Cristo». Para explicitar estes três âmbitos o Papa serve-se de palavras proferidas pelos seus antecessores (João Paulo II e Bento XVI): «Em primeiro lugar, mencionamos o âmbito da pastoral ordinária, ‘animada pelo fogo do Espírito a fim de incendiar os corações dos fiéis que frequentam regularmente a comunidade, reunindo-se no dia do Senhor, para se alimentarem da sua Palavra e do Pão de vida eterna’. Devem ser incluídos também neste âmbito os fiéis que conservam uma fé católica intensa e sincera, exprimindo-a de diversos modos, embora não participem frequentemente no culto. Esta pastoral está orientada para o crescimento dos crentes, a fim de corresponderem cada vez melhor e com toda a sua vida ao amor de Deus. Em segundo lugar, lembramos o âmbito das ‘pessoas batizadas que, porém, não vivem as exigências do Batismo’, não sentem uma pertença cordial à Igreja e já não experimentam a consolação da fé. Mãe sempre solícita, a Igreja esforça-se para que elas vivam uma conversão que lhes restitua a alegria da fé e o desejo de se comprometerem com o Evangelho. Por fim, frisamos que a evangelização está essencialmente relacionada com a proclamação do Evangelho àqueles que não conhecem Jesus Cristo ou que sempre O recusaram. Muitos deles buscam secretamente a Deus, movidos pela nostalgia do seu rosto, mesmo em países de antiga tradição cristã. Todos têm o direito de receber o Evangelho» (EG 14). Aliás, «João Paulo II convidou-nos a reconhecer que ‘não se pode perder a tensão para o anúncio’ àqueles que estão longe de Cristo, ‘porque esta é a tarefa primária da Igreja’» (EG 15).

Proselitismo ou atração?

O anúncio da alegria do Evangelho é um dever de todos os cristãos, «sem excluir ninguém, e não como quem impõe uma nova obrigação, mas como quem partilha uma alegria, indica um horizonte estupendo, oferece um banquete apetecível. A Igreja não cresce por proselitismo, mas ‘por atração’» (EG 14).

Pastoral missionária

Inspirada na Encíclica sobre a validade permanente do mandato missionário («Redemptoris Missio»), dada à Igreja pelo papa João Paulo II no dia sete de dezembro do ano de 1990, no vigésimo quinto aniversário do decreto conciliar «Ad gentes», a EG recorda que «a atividade missionária ‘ainda hoje representa o máximo desafio para a Igreja’ e ‘a causa missionária deve ser [...] a primeira de todas as causas’. Que sucederia se tomássemos realmente a sério estas palavras? Simplesmente reconheceríamos que a ação missionária é o paradigma de toda a obra da Igreja. Nesta linha, os Bispos latino-americanos afirmaram que ‘não podemos ficar tranquilos, em espera passiva, em nossos templos’, sendo necessário passar ‘de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária’. Esta tarefa continua a ser a fonte das maiores alegrias para a Igreja: ‘Haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não necessitam de conversão’ (Lucas 15, 7)» (EG 15).

Estou pronto para anunciar a alegria do Evangelho? Reconheço que, em primeiro lugar, preciso de ser evangelizado para ser um bom evangelizador? Quero ser um evangelizador que «partilha uma alegria» ou que «impõe uma nova obrigação»? A missão pode ser comparada a uma pesca: prefiro a linha (um a um) ou a rede (multidão)? Fico à espera ou vou ao encontro?

© Laboratório da fé, 2015 







Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.11.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [10]


A Igreja, no quinto capítulo da GS intitulado «a promoção da paz e a Comunidade Internacional», declara que «chegou a hora decisiva» no «processo de maturação» da família humana, reconhecendo que «as dores e angústias derivadas da guerra ou da sua ameaça ainda oprimem tão duramente os seres humanos». E desafia a que «todos se orientem com espírito renovado à verdadeira paz. [...] Por isso, o Concílio, explicando a verdadeira e nobilíssima natureza da paz, e uma vez condenada a desumanidade da guerra, quer apelar ardentemente para que os cristãos, com a ajuda de Cristo, autor da paz, colaborem com todos os seres humanos no estabelecimento da paz na justiça e no amor» (77). O desenvolvimento deste capítulo concretiza-se em duas secções: «evitar a guerra»; «construção da Comunidade Internacional». Neste tema damos conta dos conteúdos essenciais da primeira secção.

Natureza da paz

«A paz não é ausência de guerra; nem se reduz ao estabelecimento do equilíbrio entre as forças adversas, nem resulta duma dominação despótica. [...] É um fruto da ordem que o divino Criador estabeleceu para a sociedade humana [...]. A paz nunca se alcança duma vez para sempre, antes deve estar constantemente a ser edificada. [...] Absolutamente necessárias para a edificação da paz são ainda a vontade firme de respeitar a dignidade dos outros e a prática assídua da fraternidade. A paz é assim também fruto do amor, o qual vai além do que a justiça consegue alcançar. A paz terrena, nascida do amor do próximo, é imagem e efeito da paz de Cristo, vinda do Pai. Pois o próprio Filho encarnado, príncipe da paz, reconciliou com Deus, pela cruz, todos os seres humanos; restabelecendo a unidade [...], extinguiu o ódio e, exaltado na ressurreição, derramou nos corações o Espírito de amor» (78).

Evitar a guerra

«Apesar de as últimas guerras terem trazido tão grandes danos materiais e morais, ainda todos os dias a guerra leva por diante as suas devastações em alguma parte da terra. Mais ainda, o emprego de armas científicas de todo o género para fazer a guerra, ameaça, dada a selvajaria daquelas, levar os combatentes a uma barbárie muito pior que a de outros tempos. Além disso, a complexidade da atual situação e o intrincado dos relações entre países tornam possível o prolongar-se de guerras mais ou menos larvadas, pelo recurso a novos métodos insidiosos e subversivos. Em muitos casos, o recurso aos métodos do terrorismo é considerado como uma nova forma de guerra. Tendo diante dos olhos este estado de prostração da humanidade, o Concílio quer, antes de mais, recordar o valor permanente do direito natural internacional e dos seus princípios universais» (79). Daí a necessidade de fazer valer os acordos e as convenções internacionais que exigem o respeito pela dignidade humana. «Saibam os homens e mulheres de hoje que darão grave conta das suas atividades bélicas. Pois das suas decisões atuais dependerá em grande parte o curso dos tempos futuros». Reafirmando a tradição de condenar sempre a guerra, declara que qualquer ação bélica genocida «é um crime contra Deus e o próprio ser humano, que se deve condenar com firmeza e sem hesitação» (80). Lembra, também, que «a corrida aos armamentos, a que se entregam muitas nações, não é caminho seguro para uma firme manutenção da paz; e de que o pretenso equilíbrio daí resultante não é uma paz segura nem verdadeira. [...] É preciso escolher outros caminhos, partindo da reforma das mentalidades, para eliminar este escândalo e poder-se restituir ao mundo, liberto da angústia que o oprime, uma paz verdadeira» (81). Neste contexto, é função das autoridades nacionais e internacionais buscar os meios mais aptos para assegurar a vida, garantir o direito e a justiça. É função de todos promover uma cultura que seja capaz de suplantar aquilo que divide a humanidade. Pouco adiantarão os esforços daqueles que buscam edificar a paz, «enquanto os sentimentos de hostilidade, desprezo e desconfiança, os ódios raciais e os preconceitos ideológicos dividirem os seres humanos e os opuserem uns aos outros. Daqui a enorme necessidade duma renovação na educação das mentalidades e na orientação da opinião pública. [...] Todos nós temos de reformar o nosso coração, com os olhos postos naquelas tarefas que podemos realizar juntos para o progresso da humanidade. [...] A Igreja de Cristo, no meio das angústias do tempo atual, não deixa de esperar firmemente. À nossa época quer ela propor, uma e outra vez, oportuna e importunamente, a mensagem do Apóstolo: ‘eis agora o tempo favorável’ para a conversão dos corações, ‘eis agora os dias da salvação’» (82).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.11.15 | Sem comentários

CELEBRAR A SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS


É uma felicidade contemplar a imagem da multidão que domina a Liturgia da Palavra da Solenidade de Todos os Santos (não se celebra o trigésimo primeiro domingo). É a festa de todos os que se deixaram amar por Deus e escolheram seguir o caminho das bem-aventuranças (evangelho). Será que também nós queremos ser esses pobres em espírito, humildes, misericordiosos, puros de coração… de que o mundo tanto precisa? Se sim, podemos estar certos da bênção divina (salmo), pois estamos a dignificar o nosso batismo: viver como filhos de Deus (segunda leitura). Na eucaristia, celebramos as núpcias do Cordeiro, associados à multidão imensa, felizes por darmos graças ao nosso Deus (primeira leitura).

«Esses que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e de onde vieram?»
O texto da primeira leitura forma um interlúdio entre a abertura dos seis primeiros selos e o último, segundo o relato do livro do Apocalipse. A primeira parte do texto descreve a marcação dos redimidos de Israel, designados como «os servos do nosso Deus». Esta ação indica que foram confirmados como membros da comunidade do Cordeiro, Jesus Cristo. O número 144 mil é simbólico: resulta da multiplicação de 12 — as tribos de Israel — por 12 e depois por mil; exprime um grande número, embora seja uma referência ao povo de Israel.
A segunda parte é a descrição da incorporação na comunidade do Cordeiro daqueles que são provenientes de fora do judaísmo: «de todas as nações, tribos, povos e línguas». Estes não são associados a um número concreto como o grupo anterior, mas a uma «multidão imensa, que ninguém podia contar». Estão vestidos de branco, símbolo da pureza; transportam palmas na mão, sinal da vitória do Cordeiro e, através dele, de todos os salvos. O hino que cantam é em louvor e ação de graças a Deus e ao Cordeiro.
«Esses que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e de onde vieram?». A resposta faz pensar em quem deu a vida para defender a fé, os primeiros mártires da Igreja. Hoje, pode-se dizer o mesmo de quem continua a dar a vida no anúncio alegre da fé. Diz-se que chegaram aí depois «da grande tribulação». Contudo, é importante reter que a vitória não é obtida pelo méritos pessoais, mas pelo «sangue do Cordeiro», a morte e a vitoriosa ressurreição de Jesus Cristo.

Os caminhos são diversos, mas a meta é a mesma: a santidade. Santos são aqueles/as de quem se pode dizer verdadeiramente que, tendo vivido na terra, agora vivem nos Céus; e tendo alcançado a glória dos Céus, não deixam de estar presentes na terra. Os santos, que contemplamos na glória e na presença de Deus, são a multidão imensa que deu a vida em oferenda de amor, os que viveram movidos pela sabedoria do coração. Esses homens e mulheres são nossos/as irmãos/ãs e como nós plenos de humanidade, também com as suas fragilidades. Porque é que são santos? Porque foram capazes de abrir no seu interior um amplo espaço para a graça de Deus. Por isso, são apresentados como santos, isto é, como amigos dos seres humanos e amigos de Deus.

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Celebrar a solenidade de Todos os Santos (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.10.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [9]


A temática relacionada com a política, na Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual («Gaudium et Spes»), ocupa o quarto capítulo da segunda parte, que é dedicada a «alguns problemas mais urgentes». Este capítulo reconhece as hodiernas transformações profundas que também afetam a comunidade política «especialmente no que se refere aos direitos e deveres de cada um no exercício da liberdade cívica, na promoção do bem comum e na estruturação das relações dos cidadãos entre si e com o poder público» (GS 73). E destaca que a crescente consciência sobre a dignidade humana pede uma ordem política e jurídica que assegure os direitos de todos a participar ativamente na vida e na gestão da sociedade. Por isso, os padres conciliares condenam as formas políticas que impedem a liberdade civil ou religiosa em benefício dos partidos e/ou dos próprios governos.

Natureza e fim da comunidade política

A comunidade política existe em vista do bem comum. «Os indivíduos, as famílias e os diferentes grupos que constituem a sociedade civil, têm consciência da própria insuficiência para realizar uma vida plenamente humana e percebem a necessidade duma comunidade mais ampla, no seio da qual todos conjuguem diariamente as próprias forças para cada vez melhor promoverem o bem comum. E por esta razão constituem, segundo diversas formas, a comunidade política. A comunidade política existe, portanto, em vista do bem comum; nele encontra a sua completa justificação e significado e dele deriva o seu direito natural e próprio. Quanto ao bem comum, ele compreende o conjunto das condições de vida social que permitem aos indivíduos, famílias e associações alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição. [...] O exercício da autoridade política, seja na comunidade como tal, seja nos organismos representativos, deve-se sempre desenvolver e atuar dentro dos limites da ordem moral, em vista do bem comum» (GS 74). Ora, faz parte da natureza humana participar politicamente na sociedade através do voto livre, que é tanto um direito quanto um dever. «É plenamente conforme com a natureza do ser humano que se encontrem estruturas jurídico-políticas nas quais todos os cidadãos tenham a possibilidade efetiva de participar livre e ativamente, dum modo cada vez mais perfeito e sem qualquer discriminação, tanto no estabelecimento das bases jurídicas da comunidade política, como na gestão da coisa pública e na determinação do campo e fim das várias instituições e na escolha dos governantes. Todos os cidadãos se lembrem, portanto, do direito e simultaneamente do dever que têm de fazer uso do seu voto livre em vista da promoção do bem comum. A Igreja louva e aprecia o trabalho de quantos se dedicam ao bem da nação e tomam sobre si o peso de tal cargo, em serviço dos seres humanos». E pede que «todos os cristãos tenham consciência da sua vocação especial e própria na comunidade política». Além disso, valoriza a importância da educação política: «deve atender-se cuidadosamente à educação cívica e política, hoje tão necessária à população e sobretudo aos jovens, para que todos os cidadãos possam participar na vida da comunidade política» (GS 75).

A comunidade política e a Igreja

É fundamental que haja clareza sobre as relações da comunidade política e a Igreja; e «que se distingam claramente as atividades que os fiéis, isoladamente ou em grupo, desempenham em próprio nome como cidadãos guiados pela sua consciência de cristãos, e aquelas que exercitam em nome da Igreja e em união com os seus pastores». Contudo, a Igreja e comunidade política estão ao serviço da sociedade: façam-no em mútua cooperação. «Ambas servem a vocação pessoal e social [...]. E tanto mais eficazmente exercitarão este serviço para bem de todos, quanto melhor cultivarem entre si uma sã cooperação». Mas sem pôr em causa a autonomia e independência. «A Igreja que, em razão da sua missão e competência, de modo algum se confunde com a sociedade nem está ligada a qualquer sistema político determinado, é ao mesmo tempo o sinal e salvaguarda da transcendência da pessoa humana». Por isso, não devem servir-se uma da outra e tampouco usufruir de vantagens advindas desta relação. Até porque a Igreja tem por missão ensinar e denunciar o que não estiver de acordo com os direitos humanos. «Aderindo fielmente ao Evangelho e realizando a sua missão no mundo, a Igreja — a quem pertence fomentar e elevar tudo o que de verdadeiro, bom e belo se encontra na comunidade humana — consolida, para glória de Deus, a paz entre os seres humanos» (GS 76).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.10.15 | Sem comentários

Anunciar a alegria da fé! [4]


A Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual («Evangelii Gaudium — EG) convida a descobrir «a doce e reconfortante alegria de evangelizar» (EG 9-13). Quem acolhe a salvação tem de fazer esta descoberta; é chamado a perceber o sentido duma autêntica «antropologia da missão» que assenta no duplo movimento de acolhimento e partilha (cf. tema 3).

Porque é que evangelizamos?

Em primeiro lugar, porque o Senhor Jesus Cristo confiou essa missão aos seus discípulos; é a missão da Igreja (cf. tema 1). Neste sentido, «é absolutamente indispensável colocar-nos bem diante dos olhos [...] o dever também de o apresentar aos homens e mulheres do nosso tempo, tanto quanto isso é possível, de uma maneira compreensível e persuasiva» (Paulo VI, Exortação Apostólica sobre a evangelização no mundo contemporâneo — «Evangelii Nuntiandi» — EN 3). Por isso, não nos pode surpreender a afirmação de Paulo: «Ai de mim, se eu não evangelizar!» (1Coríntios 9, 16; cf. EG 9). Evangelizamos para anunciar ao mundo a salvação oferecida por Jesus Cristo. Na sequência dos números anteriores (cf. tema 3), o papa Francisco acrescenta: evangelizamos porque «o bem tende sempre a comunicar-se. Toda a experiência autêntica de verdade e de beleza procura, por si mesma, a sua expansão; e qualquer pessoa que viva uma libertação profunda adquire maior sensibilidade face às necessidades dos outros. E, uma vez comunicado, o bem radica-se e desenvolve-se. Por isso, quem deseja viver com dignidade e em plenitude, não tem outro caminho senão reconhecer o outro e buscar o seu bem» (EG 9). Na verdade, citando o Documento de Aparecida, a EG recorda: «quando a Igreja faz apelo ao compromisso evangelizador, não faz mais do que indicar aos cristãos o verdadeiro dinamismo da realização pessoal: “[...] ‘A vida se alcança e amadurece à medida que é entregue para dar vida aos outros’. Isto é, definitivamente, a missão”». Então, não é possível ser evangelizador e «ter constantemente uma cara de funeral». Pelo contrário, é preciso recuperar — usando as palavras do papa Paulo VI — «a suave e reconfortante alegria de evangelizar, mesmo quando for preciso semear com lágrimas! [...] E que o mundo do nosso tempo, que procura ora na angústia ora com esperança, possa receber a Boa Nova dos lábios, não de evangelizadores tristes e descoroçoados, impacientes ou ansiosos, mas sim de ministros do Evangelho cuja vida irradie fervor, pois foram quem recebeu primeiro em si a alegria de Cristo» (EG 10; EN 80). Importa ter presente o constante recurso que a EG faz aos textos do Documento de Aparecida (V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, realizada em 2007) e da Exortação Apostólica do papa Paulo VI sobre a evangelização no mundo contemporâneo (publicada no dia 8 de dezembro de 1975).

Uma eterna novidade

«A verdadeira novidade é aquela que o próprio Deus misteriosamente quer produzir, aquela que Ele inspira, aquela que Ele provoca, aquela que Ele orienta e acompanha de mil e uma maneiras» (EG 12). Neste sentido, o Papa lembra que o verdadeiro motor da renovação pessoal e comunitária consiste em «voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho», de onde «despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo atual» (EG 11). Assim sendo, a renovação da Igreja depende, em grande parte, da capacidade em «recuperar o frescor original do Evangelho». Trata-se de um desafio decisivo. Compete-nos aceitá-lo com ousadia. Caso contrário, tudo pode ficar apenas em reformas e inovações que em nada contribuem para a conversão radical a Jesus Cristo. Até porque a evangelização não é uma «heroica tarefa pessoal»; é «obra de Deus»: Jesus Cristo é que «é ‘o primeiro e o maior evangelizador’. Em qualquer forma de evangelização, o primado é sempre de Deus, que quis chamar-nos para cooperar com Ele e impelir-nos com a força do seu Espírito» (EG 12). Esta abertura ao «Deus missionário» (que toma sempre a iniciativa) pede-nos para não esquecer que «a memória é uma dimensão da nossa fé», pelo que «a alegria evangelizadora refulge sempre sobre o horizonte da memória agradecida» de todas as «pessoas simples e próximas de nós, que nos iniciaram na vida da fé [...]. O crente é, fundamentalmente, ‘uma pessoa que faz memória’» (EG 13).

O Evangelho de Jesus Cristo é sempre «boa» e «nova» notícia? Ou é uma notícia já conhecida e aborrecida? Como posso recuperar o «frescor original do Evangelho»? Qual é a minha experiência da «novidade» de Deus?

© Laboratório da fé, 2015 






Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.10.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO TRIGÉSIMO


O evangelho do trigésimo domingo (Ano B), no relato segundo Marcos, anuncia o itinerário percorrido entre Jericó e Jerusalém: a caminhada serve para apresentar as condições para seguir Jesus Cristo. Eis que surge o cego Bartimeu: depois de curado por Jesus Cristo, decide seguir as suas pegadas (evangelho). Em Jesus Cristo, constituído sumo sacerdote em nosso favor (segunda leitura), cumpre-se a salvação anunciada pelo profeta Jeremias: os exilados voltam cheios de alegria (primeira leitura) e cantam as maravilhas de Deus (salmo). Em Jesus Cristo, hoje, tornamo-nos esse povo de salvos quando decidimos seguir as suas pegadas, quando lhe confiamos toda a nossa fé.

«Soltai brados de alegria»
O exílio do povo de Israel, na Babilónia, foi uma derrota e um tempo propício para fazer crescer o sentimento de abandono e de desânimo. Neste sentido, hoje, o exílio serve como uma metáfora para nos ajudar a compreender as atuais situações de desespero e desumanização.
No fragmento do livro de Jeremias proposto para primeira leitura, Deus dirige-se à comunidade exilada e anuncia-lhe uma nova realidade apenas fundada na fidelidade divina. Através do profeta, Deus faz chegar ao povo uma mensagem cheia de imperativos. «Soltai brados de alegria». O povo de Deus é convidado a soltar brados de alegria, a enaltecer, a fazer ouvir, a proclamar. São atos de alegria impensáveis para um povo reduzido ao silêncio do exílio. A razão desse júbilo é que Deus, o Deus da Aliança, quer salvar o povo que escolheu, apesar desse povo lhe ter sido infiel em vários momentos da história. Deus intervém para libertar e dar início a uma nova vida, uma vida completamente inesperada: vai terminar o jugo opressor da Babilónia; todos vão regressar a casa.
Jeremias é um profeta originário da tribo de Benjamim, herdeiro da teologia própria das tribos do Norte. Por isso, não é de estranhar a insistência em destacar Israel em detrimento de Judá, reino do Sul (o reino de Israel tinha desaparecido em 722 antes de Cristo).
No texto, importa destaca a força da primeira pessoa: «Vou trazê-los… reuni-los… vou trazê-los… levá-los-ei». Deus é o autor destas ações que hão de transformar a vida de Israel. Em seguida, o profeta Jeremias explica a grande peregrinação duma multidão que vai regressar a casa. Nesta multidão, incluem-se o cego, o coxo, a mulher grávida e «a que já deu à luz». Estas personagens representam as pessoas frágeis e indefesas que são objeto de um carinho especial da parte de Deus. Por fim, diz-se que terminou o medo e o caminho de regresso será absolutamente seguro, porque Deus é «um Pai para Israel».

Deus é Pai. Esta é também a teologia de Jesus Cristo: Deus é um Pai que ama todas as pessoas. Ninguém fica de fora, «já que ‘da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído’ […]. Ninguém nos pode tirar a dignidade que este amor infinito e inabalável nos confere. Ele permite-nos levantar a cabeça e recomeçar, com uma ternura que nunca nos defrauda e sempre nos pode restituir a alegria» (EG 3).

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo trigésimo (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.10.15 | Sem comentários

Anunciar a alegria da fé! [3]


A exemplo do II Concílio do Vaticano, na Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual («Gaudium et Spes» — GS), e de Paulo VI, na Exortação Apostólica sobre a alegria cristã («Gaudete in Domino» — GD), a EG coloca de novo o tema da alegria no caminho da Igreja. «A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus» (EG 1). Esta alegria, que possui um alcance universal, começa por ser proposta em dois momentos: acolher a alegria do Evangelho, renovar a alegria do encontro com Jesus Cristo; levar aos outros, comunicar-lhes essa mesma alegria.

Alegria universal

A EG retoma as palavras do papa Paulo VI para recordar que «da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído» (EG 2; GD 297). Este alcance universal é uma das consequências da transformação missionária que resulta do encontro com o Ressuscitado.

Alegria que se renova

A EG convida a uma alegria simples e desprendida, pois ela nasce do encontro com Alguém que muda tudo: «Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria» (EG 1). Por isso, o Papa convida «todo o cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar» (EG 3). Esta alegria não é uma alegria ingénua. O cristão sabe, por experiência própria, que há «etapas e circunstâncias da vida, por vezes muito duras», nas quais «a alegria não se vive da mesma maneira». Contudo, existe sempre a segurança de «um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados» e de que «a misericórdia do Senhor não acaba, não se esgota a sua compaixão. Cada manhã ela se renova» (EG 6).

Alegria na Sagrada Escritura

«O Evangelho, onde resplandece gloriosa a Cruz de Cristo, convida insistentemente à alegria» (EG 5). O texto recorda alguns dos momentos evangélicos mais significativos onde se reflete esta dimensão jubilosa: saudação do anjo a Maria; visita de Maria a Isabel; início do ministério de Jesus Cristo. «A sua mensagem é fonte de alegria [...]. A nossa alegria cristã brota da fonte do seu coração transbordante». A mesma alegria repercute-se na vida dos primeiros discípulos, conforme destaca o livro dos Atos dos Apóstolos. «Porque não havemos de entrar, também nós, nesta torrente de alegria?» (EG 5). É a alegria do discipulado, é a alegria da salvação que tinha sido preanunciada no Antigo Testamento e «que havia de tornar-se superabundante nos tempos messiânicos». Entre outras, destacam-se as palavras dos profetas Isaías, Zacarias, Sofonias. Deste, para o papa Francisco, surge o «convite mais tocante [...] que nos mostra o próprio Deus como um centro irradiante de festa e de alegria, que quer comunicar ao seu povo este júbilo salvífico. Enche-me de vida reler este texto: ‘O Senhor, teu Deus, está no meio de ti como poderoso salvador! Ele exulta de alegria por tua causa, pelo seu amor te renovará. Ele dança e grita de alegria por tua causa’ (3, 17)». Hoje, esta «é a alegria que se vive no meio das pequenas coisas da vida quotidiana, como resposta ao amoroso convite de Deus nosso Pai» (EG 4).

Alegria que se comunica

A EG fala mais da alegria do que da cruz. A nossa meta é a Páscoa. Infelizmente, «há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa» (EG 6). São os que se deixam seduzir pela tentação de inventar «desculpas e queixas, como se tivesse de haver inúmeras condições para ser possível a alegria» (EG 7). São aqueles que se tornam permeáveis às propostas consumistas que produzem «uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada». E tornam-se «pessoas ressentidas, queixosas, sem vida» (EG 2). Mas há outro caminho! O Papa recorda que «as alegrias mais belas e espontâneas, que vi ao longo da minha vida, são as alegrias de pessoas muito pobres que têm pouco a que se agarrar. Recordo também a alegria genuína daqueles que, mesmo no meio de grandes compromissos profissionais, souberam conservar um coração crente, generoso e simples. De várias maneiras, estas alegrias bebem na fonte do amor maior, que é o de Deus, a nós manifestado em Jesus Cristo» (EG 7). Por isso, «se alguém acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de o comunicar aos outros?» (EG 8).

O tom geral da minha vida é alegre e otimista? Renovo dia a dia o encontro com Jesus Cristo como fonte da minha alegria? Comunico-a aos outros?

© Laboratório da fé, 2015 





Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.10.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [8]


O terceiro capítulo da segunda parte da GS destaca que a dignidade do ser humano também deve ser respeitada e promovida nas relações económicas da sociedade. E lembra que o ser humano «é o protagonista, o centro e o fim de toda a vida económico-social» (GS 63). Neste tema, apresentamos o resumo do referido capítulo que se divide em duas secções: «o desenvolvimento económico»; «alguns princípios orientadores de toda a vida económico-social». Neste âmbito, como em todos os outros, há aspetos positivos, «mas não faltam motivos de inquietação»: obsessão desmedida pela economia; agravamento das desigualdades; desprezo pelos pobres; coexistência do luxo com a miséria; vidas e trabalhos indignos da pessoa humana. «Semelhantes desequilíbrios verificam-se tanto entre a agricultura, a indústria e os serviços como entre as diferentes regiões do mesmo país» (GS 63).

O desenvolvimento económico

«Hoje, mais do que nunca, para fazer frente ao aumento populacional e satisfazer às crescentes aspirações do género humano, com razão se faz um esforço por aumentar a produção agrícola e industrial e a prestação de serviços. [...] Mas a finalidade fundamental da produção não é o mero aumento dos produtos, nem o lucro ou o poderio, mas o serviço do ser humano; do ser humano integral, isto é, tendo em conta a ordem das suas necessidades materiais e as exigências da sua vida intelectual, moral, espiritual e religiosa» (GS 64). Por isso, «o desenvolvimento não se deve abandonar ao simples curso quase mecânico da atividade económica» (GS 65). E «é necessário esforçar-se para que [...] se eliminem o mais depressa possível as grandes e crescentes desigualdades económicas atualmente existentes, acompanhadas da discriminação individual e social» (GS 66).

Alguns princípios orientadores de toda a vida económico-social

O que sustenta a economia é o trabalho humano. «É com o seu trabalho que o ser humano sustenta de ordinário a própria vida e a dos seus; por meio dele se une e serve aos seus irmãos, pode exercitar uma caridade autêntica e colaborar no acabamento da criação divina» (GS 67). Assim, mais que um dever, o trabalho é um direito que deve ser assegurado pela lei, pois todo o ser humano tem direito ao salário, a condições humanizantes de trabalho e ao justo descanso para viver e dar vida digna aos seus. Além disso, «entre os direitos fundamentais da pessoa humana deve contar-se o de os trabalhadores criarem livremente associações que os possam representar autenticamente e contribuir para a reta ordenação da vida económica» (GS 68). A Igreja recorda também a importância do destino universal dos bens. Por isso, «sejam quais forem as formas de propriedade, [...] deve-se sempre atender a este destino universal dos bens» (GS 69). E «tenham-se sempre também em conta as necessidades urgentes das nações ou regiões economicamente menos desenvolvidas» (GS 70). É certo que a Igreja defende a propriedade privada: «A propriedade privada ou um certo domínio sobre os bens externos asseguram a cada um a indispensável esfera de autonomia pessoal e familiar, e devem ser considerados como que uma extensão da liberdade humana» (GS 71). Mas considera-a um direito relativo em relação ao bem comum e universal: o conjunto das condições de vida de uma sociedade que favorecem o bem-estar e o desenvolvimento humano de todos. «De resto, a mesma propriedade privada é de índole social, fundada na lei do destino comum dos bens. O desprezo deste carácter social foi muitas vezes ocasião de cobiças e de graves desordens, chegando mesmo a fornecer um pretexto para os que contestam esse próprio direito» (GS 72). Assim, a Igreja considera que a propriedade privada só é licita quando produz e propicia o trabalho e, somente nesta perspetiva ela pode ser defendida, pois as propriedades privadas improdutivas não permitem que outros, nomeadamente os pobres, nelas se fixem e delas tirem o seu sustento. A terminar este capítulo recorda-se que «os cristãos que desempenham parte ativa no atual desenvolvimento económico-social e lutam pela justiça e pela caridade, estejam convencidos de que podem contribuir muito para o bem da humanidade e paz do mundo. Em todas estas atividades, quer sozinhos quer associados, sejam exemplo para todos. Adquirindo a competência e experiência absolutamente indispensáveis, respeitem a devida hierarquia entre as atividades terrenas, fiéis a Cristo e ao seu Evangelho, de maneira que toda a sua vida, tanto individual como social, seja penetrada do espírito das bem-aventuranças, e especialmente do espírito de pobreza» (GS 73).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.10.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO VIGÉSIMO NONO


Exigência, radicalidade: o que nos parece difícil, Jesus Cristo fê-lo de forma absoluta, para nos salvar. Percebemo-lo neste vigésimo nono domingo (Ano B), no evangelho segundo Marcos, depois de ter feito aos apóstolos o terceiro anúncio da Paixão, Jesus Cristo revela-lhes o segredo do seu caminho. Ele é o Servo de Deus anunciado pelo profeta (primeira leitura). E mesmo que Tiago e João não o compreendam, Jesus Cristo repete a necessidade de passar pela Cruz, a importância de amar e servir (evangelho). Carregando sobre si as nossas fraquezas, Jesus Cristo introduz-nos na vida de Deus (segunda leitura), faz-nos mergulhar na misericórdia (salmo).

«O justo, meu servo, justificará a muitos»
A segunda parte do livro de Isaías (Segundo Isaías) recolheu um conjunto de poemas e cânticos referentes ao Servo de Yahveh (Deus) de uma forma que ainda hoje continua enigmática. Os poemas não têm relação com o conjunto do livro: centram-se numa pessoa, enquanto o resto do livro (Segundo Isaías) tem como protagonista o povo desterrado. Os poemas do Servo referem-se a um personagem débil, frágil, ao passo que os convites a regressar a Judá expressam fortaleza, segurança. Os cânticos do Servo parecem a narração poética de um fracasso, mas as exortações ao regresso anunciam um futuro esplendoroso.
Então, o que é que une estes poemas ao resto do livro? A salvação oferecida por Deus: no resto do livro, apresenta-se sob a imagem de um novo êxodo; nos poemas do Servo, é através do seu sofrimento pessoal que acontece a justificação de «muitos».
A primeira leitura coloca-nos perante um fragmento do quarto Cântico do Servo de Deus (52, 13 — 53, 12). Este Servo experimentou uma vida de sofrimento: «Aprouve ao Senhor esmagar o seu servo pelo sofrimento». Com isto, parece que já nada mais podia acontecer. Mas Isaías faz-nos saber que não se trata do último momento, esse não será o fim.
Deus tem outro desígnio: «Terá uma descendência duradoira, viverá longos dias, e a obra do Senhor prosperará em suas mãos. […] Verá a luz e ficará saciado na sua sabedoria». Deus quer que o Servo, que antes tinha dado tudo, agora receba tudo. Deus não o abandona. Nem ao Servo, nem aos outros. No Servo, Deus revela-se como Redentor: na debilidade do Servo esmagado pelo sofrimento torna-se presente a salvação. E não o fará de forma violenta, impetuosa, mas segundo os desígnios surpreendentes de Deus: toma sobre si as iniquidades dos outros.

«O justo, meu servo, justificará a muitos»: faz com que outros recebam os benefícios da sua fidelidade e do seu sofrimento, pois assumiu as «iniquidades» desses «muitos». Aqui há um mistério da justiça divina que justifica uma multidão através do sofrimento dum que é fiel até ao fim. O sofrimento não é um castigo divino, mas consequência da fidelidade ao amor que se recusa a entrar no jogo dos opressores. O caminho que se inicia no Servo há de culminar em Jesus Cristo: «o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos».

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo vigésimo nono (Ano B), no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.10.15 | Sem comentários
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