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 —Homilia do Papa Bento XVI, na noite de Natal, 2012 —

[...] Sempre de novo me toca também a palavra do evangelista, dita quase de fugida, segundo a qual não havia lugar para eles na hospedaria. Inevitavelmente se põe a questão de saber como reagiria eu, se Maria e José batessem à minha porta. Haveria lugar para eles? E recordamos então que esta notícia, aparentemente casual, da falta de lugar na hospedaria que obriga a Sagrada Família a ir para o estábulo, foi aprofundada e referida na sua essência pelo evangelista João nestes termos: «Veio para o que era Seu, e os Seus não O acolheram» (Jo 1, 11). Deste modo, a grande questão moral sobre o modo como nos comportamos com os prófugos, os refugiados, os imigrantes ganha um sentido ainda mais fundamental: Temos verdadeiramente lugar para Deus, quando Ele tenta entrar em nós? Temos tempo e espaço para Ele? Porventura não é ao próprio Deus que rejeitamos? > > >


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.12.12 | Sem comentários
— palavra para quarta-feira, 26 de dezembro — Santo Estêvão —

— Evangelho segundo Mateus 10, 17-22

Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos: «Tende cuidado com os homens: hão de entregar-vos aos tribunais e açoitar-vos nas sinagogas. Por minha causa, sereis levados à presença de governadores e reis, para dar testemunho diante deles e das nações. Quando vos entregarem, não vos preocupeis em saber como falar nem com o que dizer, porque nessa altura vos será sugerido o que deveis dizer; porque não sereis vós a falar, mas é o Espírito do vosso Pai que falará em vós. O irmão entregará à morte o irmão e o pai entregará o filho. Os filhos hão-de erguer-se contra os pais e causar-lhes a morte. E sereis odiados por todos por causa do meu nome. Mas aquele que perseverar até ao fim, esse será salvo».

— Sereis odiados por causa do meu nome

À celebração o primeiro Natal, a Igreja acrescenta a memória da primeira morte cristã. Segundo a tradição bíblica do livro dos Atos dos Apóstolos, Estêvão foi o primeiro mártir cristão. O nascimento de Jesus, humilde e simples, é já por si uma denúncia do poder instalado e da opressão sobre os outros. O martírio cristão é consequência da fidelidade à vida e à mensagem de Jesus Cristo. 
Pode parecer estranho, mas a «mensagem» do Natal conduz a situações de martírio, como o testemunha o caso de Estêvão. O anúncio alegre do Natal transforma-se, em Estêvão, no anúncio alegre do martírio!
Jesus vem trazer a paz. Ele é o «Príncipe da Paz». Mas a sua mensagem incomoda aqueles que preferem um Deus todo-poderoso, dominador (mesmo dentro da Igreja). E, mais do que isso, preferem exercer domínio e poder sobre os outros em nome desse mesmo Deus. 
Jesus alerta os seus discípulos: «Sereis odiados por causa do meu nome». Estêvão incomoda o poder religioso instalado, tal como tinha acontecido com Jesus Cristo. Infelizmente, quando continuamos a pensar que o sagrado é mais importante do que o humano, corre-se o risco de deixar acontecer situações como a de Estêvão. A história comprava-o. Até matamos em nome de Deus! Uma Igreja (ou uma vida cristã) instalada no poder e ávida de domínio sobre as pessoas é a maior traição ao Natal!

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.12.12 | Sem comentários
Hoje, Senhor, queremos cantar-te
com a nossa voz humana,
com as nossas palavras torpes e livres,
a nossa linguagem popular,
que Tu entendes muito bem,
porque a comunicação é possível.

Porque somos peregrinos no caminho da vida,
porque deixamos de ser ilhas,
porque percorremos caminhos e charcos,
praias, desertos, montanhas e planícies,
pela tua presença viva nesta aventura,
damos-te graças com força e ternura.

Pelo nosso ser aberto que partilhamos,
pelo nosso íntimo que tanto amamos,
pelo nosso eu cego que às vezes nos mete medo
e também pelo nosso eu desconhecido que desperta,
por tudo o que somos e partilhamos,
damos-te graças com força e ternura.

Por todos os pequenos e grandes caminhos
de comunicação, diálogo e encontro:
pela palavra e pelo gesto com a mão aberta,
pelo sorriso, pela piscadela, o beijo e as lágrimas,
pelo abraço apertado e todos os sentidos,
damos-te graças com força e ternura.

Pelos olhos que sabem dizer o que trazem dentro,
pelos pés que nos aproximam dos que estão sós,
pelo corpo que expressa os nossos sentimentos,
pelos corações que batem em uníssono,
pelos que com o seu amor nos comunicam vida,
damos-te graças com força e ternura.

Porque nos pusemos a caminho a toda a pressa,
e entramos na casa do pobre;
porque há ventres cheios de espírito vivo,
e tu estás connosco ao longo do caminho
como prenda e sinal de comunicação,
damos-te graças com força e ternura.

Florentino Ulibarri
— www.feadulta.com —


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.12.12 | Sem comentários
Disseram-nos que queres nascer outra vez.
És mesmo doido, sabias?
Mas, não vês o que somos
e o que estamos a fazer?
E, contudo, Tu queres vir.
Já não sei se, ao insistires em voltar, cada Natal,
estás a querer dizer-nos alguma coisa:

Que o céu está sempre aberto,
que há estrelas para guiar os nossos passos,
que há anjos humanos a nosso lado,
que podemos ser ternos como crianças,
que o mundo pode ser novo,
que Deus é Pai e Mãe na nossa desorientação...

Que nadamos na abundância
enquanto há irmãos, teus e nossos,
que padecem fome de pão,
de cultura, de liberdade, de carinho, de dignidade...
Que temos uma mensagem chamada Evangelho
que no entanto não é boa notícia para todos,
porque nós o desvirtuamos e não o vivemos.

Que temos medo de viver
e fechamos o nosso coração aos irmãos.
Que nos preocupamos muito connosco
e nos justificamos diante ti dando esmolas.
Que não sabemos repartir
e que Tu continuas a encontrar
as nossas portas fechadas...

Se assim é, Jesus,
vem às nossas casas neste Natal,
vem à nossa família,
vem à nossa cidade,
vem à nossa paróquia,
vem ao nosso grupo,
vem ao nosso mundo...
E vem, principalmente,
ao nosso pobre coração.

Florentino Ulibarri 
— tradução de Lopes Morgado —


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.12.12 | Sem comentários
Senhor, Tu vens até nós.
Não porque todos Te esperam,
nem pelo grande acolhimento que te dispensamos;
mas pelo grande carinho que tens por nós,
apesar de aqueles que Te esperam e acolhem
serem apenas um «resto»,
um pequeno número de homens e mulheres.

Vens porque amas o mundo,
obra das tuas mãos.

Vens porque desejas cumprir a vontade de teu Pai:
abrir uma janela sobre o mistério,
construir uma ponte entre o céu e a terra.
Tu desces para nós podermos subir.

Vens para nos dizer
que é possível outra forma de vida:
mais aberta a Deus
e mais disponível aos irmãos.  

 Álvaro Ginel 
— tradução de Lopes Morgado —

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.12.12 | Sem comentários
— Pregação do Padre Raniero Cantalamessa, OFM Cap — 21 de dezembro de 2012 —

«Anuncio-vos uma grande alegria»



Evangelizar com alegria


[...] O Papa convidou a Igreja a fazer deste ano uma oportunidade de redescobrir a «alegria do encontro com Cristo», a alegria de ser cristãos. Ecoando essa exortação, eu gostaria de falar sobre como evangelizar através da alegria, procurando permanecer o mais fiel possível ao tempo litúrgico atual, em preparação para o Natal.

1. A alegria escatológica

Nos evangelhos da infância, inspirado pelo Espírito Santo, Lucas conseguiu não só apresentar factos e personagens, mas também recriar a atmosfera e o clima daqueles eventos. Um dos mais evidentes elementos desse mundo espiritual é a alegria. A piedade cristã não se enganou quando deu à infância de Jesus o nome de «mistérios gozosos», mistérios de alegria.
A Zacarias, o anjo promete «alegria e exultação» pelo nascimento do filho, e que muitos «se alegrarão» com a sua vinda (cf. Lucas 1, 14). Há uma palavra grega que, a partir deste momento, reaparecerá na boca de vários personagens de modo contínuo: é o termo (agallìasis) que indica «a alegria escatológica pela irrupção do tempo messiânico». Ao ouvir a saudação de Maria, o bebé «regozijou-se» («saltou de alegria») no ventre de Isabel (Lucas 1, 44), sinalizando, assim, a alegria do «amigo do esposo» pela presença do esposo (João 3, 29). O ápice acontece no cântico de Maria: «O meu espírito se alegra (egallìasen) em Deus» (Lucas 1, 47); espalha-se na alegria tranquila de amigos e parentes ao redor do berço do precursor (cf. Lucas 1, 58) e explode, finalmente, com pleno vigor, no nascimento de Cristo, na declaração dos anjos para os pastores: «Anuncio-vos uma grande alegria (Lucas 2, 10).
Não são apenas amostras dispersas de alegria, mas uma onda de alegria calma e profunda, que percorre os «evangelhos da infância» do início ao fim e se expressa de muitas maneiras diferentes: no entusiasmo com que Maria se levanta para ir até à casa de Isabel e os pastores para irem ver o Menino; nos gestos humildes, e típicos da alegria, que são as visitas, os bons desejos, as saudações, os parabéns, os presentes. Mas, acima de tudo, a alegria expressa-se na maravilha e na sincera gratidão desses protagonistas: «Deus visitou o seu povo! [...] Lembrou-se da sua santa aliança». O que todos tinham pedido em oração, que Deus se lembrasse das suas promessas, era agora realidade! Os personagens dos «evangelhos da infância» parecem mover-se e falar na atmosfera de sonho cantada pelo Salmo 126, o Salmo do retorno do exílio:
«Quando o Senhor libertou os prisioneiros de Sião,
parecia-nos viver um sonho.
A nossa boca encheu-se de riso
e a nossa língua soltou-se em cantos de alegria.
Disseram assim entre as nações:
O Senhor fez grandes coisas por eles.
Grandes coisas fez por nós o Senhor,
inundou-nos de alegria».
Maria incorpora a máxima expressão deste salmo quando exclama: «O Todo-poderoso fez em mim maravilhas». Estamos diante do exemplo mais puro da «sóbria ebriedade» espiritual. É uma verdadeira «ebriedade» espiritual, mas é «sóbria». Eles não se exaltam, não se preocupam em ter um lugar mais importante ou menos importante no incipiente Reino de Deus. Não se preocupam nem mesmo com o final de tudo: Simeão diz que agora o Senhor pode deixá-lo partir em paz. O que importa é que a obra de Deus vá em frente, não importa se com eles ou sem eles.

2. Da liturgia à vida

Passemos agora da Bíblia e da liturgia para a vida. Este é sempre o objetivo da palavra de Deus. A intenção do evangelista Lucas não é apenas narrar, mas envolver o público e arrastá-lo, como os pastores, em procissão alegre até Belém. «Aqueles que lêem estas linhas — diz um exegeta moderno — são chamados a partilhar a alegria. Apenas a comunidade concelebrante dos crentes em Cristo pode estar à altura desses textos» (H. Schürmann, O Evangelho de Lucas, I, Paideia, Brescia 1983).
Isto explica porque os evangelhos da infância têm pouca coisa a dizer a quem busca neles apenas a história; e ao contrário muito a dizer a quem busca também o significado da história, como faz o Santo Padre em seu último volume sobre Jesus. São muitos os factos acontecidos, mas não são «históricos» no sentido alto do termo, porque não deixaram nenhum vestígio na história, não criaram nada. Os factos relativos ao nascimento de Jesus são factos históricos no sentido mais forte, não só porque aconteceram, mas incidiram, e de forma decisiva, na história do mundo.
De onde nasce a alegria? A fonte da alegria é Deus, a Trindade. Mas nós estamos no tempo e Deus está na eternidade: como é que a alegria pode passar entre esses dois planos tão distantes? Se questionarmos a Bíblia, descobriremos que a fonte imediata da alegria está no tempo: é o agir de Deus na história. Deus que age! No ponto em que «cai» uma ação divina, é produzida uma vibração e uma onda de alegria que se espalha pelas gerações; mais ainda, no caso de ações da Revelação, elas espalham-se para sempre.
A ação de Deus é, em cada vez, um milagre que maravilha o céu e a terra: «Exultai, ó céus, porque o Senhor agiu!», diz o profeta. «Rejubilai, profundezas da terra!» (Isaías 44, 23; 49, 13). A alegria que vem do coração de Maria e das outras testemunhas do início da salvação baseia-se toda nesta razão: Deus ajudou Israel! Deus agiu! Deus fez grandes coisas!
Como pode, esta alegria pela ação de Deus, chegar até a Igreja de hoje e contagiá-la? Primeiro, pela memória, no sentido de que a Igreja «relembra» as obras maravilhosas de Deus em seu favor. A Igreja é convidada a fazer suas as palavras da Virgem: «O Todo-poderoso fez em mim maravilhas». O Magnificat é a canção que Maria cantou primeiro e legou à Igreja para prolongá-la pelos séculos. Grandes coisas (maravilhas), de facto, fez o Senhor pela Igreja nestes vinte séculos!
Temos, em certo sentido, mais razões objetivas para nos alegrarmos do que Zacarias, Simeão, os pastores e toda a Igreja primitiva. Ela começou «carregando a semente para a sementeira», como diz o Salmo 126, mencionado acima; ela recebeu promessas, como «Eu estou convosco!», e mandatos, como «Ide pelo mundo inteiro». Já nós vimos o cumprimento. A semente cresceu, a árvore do Reino tornou-se imensa. A Igreja de hoje é como o semeador que «volta com alegria».
Quantas graças, quantos santos, quanta sabedoria de doutrina e riqueza de instituições, quanta salvação operada nela e através dela! Que palavra de Cristo não encontrou cumprimento perfeito? Cumpriram-se as palavras «No mundo tereis aflições» (João 16, 33), mas também as palavras «As portas do inferno não prevalecerão» (Mateus 16, 18).
Com que direito a Igreja pode tornar sua, perante o sem número dos seus filhos, a maravilha da antiga Sião e dizer: «Quem os gerou para mim? Eu não tinha filhos e era estéril; estes, quem os criou?» (Isaías 49, 21). Quem, olhando para trás com os olhos da fé, não vê cumpridas perfeitamente na Igreja as palavras proféticas sobre a nova Jerusalém, reconstruída depois do exílio? «Levanta os olhos e olha ao teu redor: todos eles se reúnem e vêm a ti. Teus filhos vêm de longe [...] Tuas portas estarão abertas por sempre [...] para deixar virem a ti as riquezas das nações» (Isaías 60, 4.11).
Quantas vezes a Igreja teve de alargar, nestes vinte séculos, ainda que nem sempre rápido e com resistências, o «espaço da sua tenda», a sua capacidade de acolher, de deixar entrar a riqueza humana e cultural dos diferentes povos! Para nós, os filhos da Igreja, que nos nutrimos «da abundância do seu seio», é que vem o chamamento do profeta a nos alegrarmos pela Igreja, «a brilhar de alegria com ela», depois de participar do seu luto (cf. Isaías 66, 10).
A alegria pelo agir de Deus chega até nós, os crentes de hoje, pela via da memória, porque vemos as grandes coisas que Deus fez por nós no passado. Mas há outro modo, não menos importante: a via da presença, porque vemos que, mesmo agora, no presente, Deus está a agir entre nós, na Igreja.
Se a Igreja de hoje, no meio de todos os problemas e atribulações que a golpeiam, quer reencontrar o caminho da coragem e da alegria, ela deve abrir os olhos para o que Deus está hoje a fazer nela. O dedo de Deus, que é o Espírito Santo, ainda continua a escrever na Igreja e nas pessoas histórias maravilhosas de santidade, que um dia, quando desaparecer todo o pecado, farão com que se olhe para o nosso tempo com espanto e santa inveja. Fechamos os olhos, ao fazer isso, aos muitos males que afligem a Igreja e às traições de muitos dos seus ministros? Não. Mas se o mundo e os meios de comunicação não destacam na Igreja nada além dessas coisas, é bom levantarmos o olhar e vermos também o seu lado bom, a sua santidade.
Em cada época, mesmo na nossa, o Espírito diz à Igreja, como no tempo do deutero-Isaías: «Agora narro-te coisas novas e secretas, que nem sequer suspeitavas. São coisas criadas agora, em vez de há muito tempo» (Isaías 48, 6-7). Não será que é «coisa nova e secreta» esse fôlego poderoso do Espírito que ressuscita o povo de Deus e desperta no seu meio carismas de todo o tipo, ordinários e extraordinários? Este amor pela palavra de Deus? Esta participação ativa dos leigos na vida da Igreja e na evangelização? O compromisso constante do magistério e de muitas organizações em favor dos pobres e dos que sofrem e o desejo de consertar a unidade rompida do Corpo de Cristo? Em que época passada a Igreja teve tal série de Papas doutos e santos como de um século e meio para cá, e tantos mártires da fé?

3. Uma relação diferente entre a alegria e a dor

Do eclesial, passamos para o existencial e pessoal. Alguns anos atrás, houve uma campanha do ateísmo militante cujo slogan publicitário, afixado nos transportes públicos de Londres, dizia: «Deus provavelmente não existe. Então pare de se atormentar e desfrute da vida!».
O mais insidioso desse slogan não é a premissa «Deus não existe» (que precisa de ser provada), mas a conclusão: «Desfrute da vida!». A mensagem subjacente é que a fé em Deus impede as pessoas de aproveitarem a vida, que a fé é inimiga da alegria. Sem ela haveria mais felicidade no mundo! Precisamos de dar uma resposta a essa insinuação que mantém distantes da fé especialmente os jovens.
Jesus provocou, a propósito da alegria, uma revolução tamanha que é difícil exagerar sobre o seu alcance e que pode ser de grande ajuda na evangelização. É um pensamento que eu acho que já manifestei neste mesmo lugar, mas o assunto exige-o novamente. Existe uma experiência humana universal: nesta vida, prazer e dor sucedem-se com a mesma regularidade com que, após uma onda no mar, sucede-se um mergulho e um vácuo que aspira o náufrago de volta. «Um não-sei-quê de amargo — escreveu o poeta pagão Lucrécio — surge do íntimo de cada prazer e nos angustia no meio das delícias» (Lucrécio, De rerum natura, IV, 1129 s). O uso das drogas, o abuso do sexo, a violência homicida, no seu momento proporcionam a ebriedade momentânea do prazer, mas conduzem à dissolução moral e, muitas vezes, até física da pessoa.
Cristo inverteu a relação entre prazer e dor. «Em vez da alegria, Ele suportou a cruz» (Hebreus 12, 2). Não era mais um prazer que terminava em sofrimento, mas um sofrimento que conduz à vida e à alegria. Não é apenas uma ordem diferente das coisas; é a alegria, desta forma, que tem a última palavra, e não o sofrimento; e é uma alegria que vai durar para sempre. «Cristo ressuscitado dos mortos não morre mais; a morte não tem mais domínio sobre ele» (Romanos 6, 9). A cruz termina na Sexta-Feira Santa, mas a felicidade e a glória do domingo da Ressurreição estendem-se para sempre.
Esta nova relação entre sofrimento e prazer reflete-se até na forma de medir o tempo na Bíblia. No lógica humana, o dia começa com a manhã e termina com a noite; na Bíblia, começa com a noite e termina com o dia: «E foi a noite e a manhã: o primeiro dia», diz o relato da Criação (Génesis 1, 5). Na liturgia também a festa começa com as vésperas da vigília. O que isto significa? Que, sem Deus, a vida é um dia que termina na noite; com Deus, é uma noite, e às vezes uma «noite escura», que termina no dia, e num dia sem ocaso.
Mas devemos evitar uma objeção fácil: a alegria, então, é apenas para depois da morte? Esta vida, para os cristãos, não é nada mais do que um «vale de lágrimas»? Pelo contrário: ninguém experimenta nesta vida a verdadeira alegria como os verdadeiros crentes. Conta-se que um dia um santo clamou a Deus: «Chega de alegria! Meu coração não pode conter mais tanta alegria!». Os crentes, exorta o apóstolo, são «spe gaudentes», alegres na esperança (Rm 12, 12), o que não significa apenas que eles «esperam ser felizes» (na vida após a morte), mas também que eles «são felizes por esperar», felizes já, agora, graças à esperança.
A alegria cristã é interior, não vem de fora, mas de dentro, como alguns lagos alpinos que se alimentam não de um rio, mas de uma nascente que jorra em seu próprio fundo. Nasce do agir misterioso e presente de Deus no coração do homem em graça. Pode causar abundância de alegria até nos sofrimentos (cf. 2Coríntios 7, 4). É «fruto do Espírito» (Gálatas 5, 22; Romanos 14, 17) e expressa-se na paz do coração, na plenitude do significado, na capacidade de amar e ser amado e, acima de tudo, na esperança, sem a qual não pode haver alegria.
Em 1972, por sugestão de Herbert von Karajan, o Conselho da Europa adotou como hino oficial da Europa unida o «Hino da Alegria» que encerra a Nona Sinfonia de Beethoven. Trata-se, certamente, de um dos ápices da música mundial, mas a alegria que ele canta é vaga, não realizada; é um grito que sobe do coração humano, mais do que uma resposta que desce até ele.
Na Ode de Schiller, que inspirou a letra do hino, lemos palavras inquietantes: «Aqueles que sentiram a alegria de ter um amigo ou uma boa esposa, aqueles que conheceram, ainda que apenas por uma hora, o que é o amor, aproximem-se! Mas quem não souber de nada disso, que se afaste, chorando, do nosso círculo». A alegria que os homens «bebem do seio da natureza» não é para todos, mas apenas para alguns poucos privilegiados pela vida.
Isto é muito distante da linguagem de Jesus, que diz: «Vinde a mim, todos vós que estais cansados ​​e oprimidos, e eu vos aliviarei» (Mateus 11, 28). O verdadeiro hino cristão à alegria é o Magnificat de Maria. Ele fala de uma exultação (agallìasis) do espírito pelo que Deus fez por ela e faz por todos os humildes e famintos da terra.

4. Testemunhar a alegria

Esta é a alegria que temos de testemunhar. O mundo busca a alegria. «Só ao escutar o seu nome — escreve Santo Agostinho — todos se levantam e olham para as tuas mãos, para ver se és capaz de dar algo às suas necessidades». Todos queremos ser felizes. É algo comum a todos, bons e maus.
Quem é bom, é bom porque é feliz; quem é mau, só é mau porque espera, com isso, ser feliz. Se todos nós amamos a alegria é porque, de alguma maneira misteriosa, a conhecemos; porque se não a conhecêssemos — se não tivéssemos sido feitos para ela —, não a amaríamos. Este desejo da alegria é a parte do coração humano naturalmente aberta para receber a «alegre mensagem».
Quando o mundo bate à porta da Igreja — mesmo quando faz isso com violência e raiva — é porque busca a alegria. Os jovens, especialmente, procuram a alegria. O mundo ao seu redor é triste. A tristeza, por assim dizer, nos encurrala, mais no Natal que no resto do ano. Não é uma tristeza que depende da falta de bens materiais porque é muito mais evidente nos países ricos do que nos países pobres.
Em Isaías lemos estas palavras, dirigidas ao povo de Deus: «eis o que dizem os vossos irmãos que vos odeiam, que vos renegam por causa de meu nome: Que o Senhor manifeste a sua glória para que vejamos a vossa alegria!». O mesmo desafio é dirigido, silenciosamente, ao povo de Deus, também hoje. Uma Igreja melancólica e medrosa não estaria, por isso, à altura da sua tarefa; não poderia responder às expectativas da humanidade e sobretudo dos jovens.
A alegria é o único sinal que até mesmo os não crentes são capazes de receber e que pode colocá-los seriamente em crise. Não argumentos e censuras. O testemunho mais bonito que uma esposa pode dar ao seu esposo é um rosto alegre. Porque isso fala por si mesmo; fala que ele foi capaz de preencher plenamente a sua vida, de fazê-la feliz. Este é também o testemunho mais bonito que a Igreja pode dar ao seu Esposo divino.
São Paulo, dirigindo aos cristãos de Filipos aquele convite à alegria, que marca toda a terceira semana do Advento: «Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos!», explica também como é possível testemunhar, na prática, esta alegria: «Seja conhecida de todos os homens a vossa bondade» (Filipenses 5, 4-5). A palavra «afabilidade» traduz aqui um termo grego (epieikès) que indica todo um conjunto de atitudes feito de clemência, indulgência, capacidade de saber ceder, de não ser exigentes. (É o mesmo vocábulo do qual deriva a palavra epicheia, usada no direito!).
Os cristãos testemunham, por isso, a alegria quando colocam em prática estas disposições; quando, evitando toda a amargura e ressentimento inútil no diálogo com o mundo e entre si, sabem irradiar confiança, imitando, desta maneira, Deus, que faz chover sobre os injustos. Quem é feliz, no geral, não é amargo, não sente a necessidade de apontar tudo e sempre; sabe relativizar as coisas, porque conhece algo que é maior. Paulo VI, na sua «Exortação apostólica sobre a Alegria», escrita nos últimos anos do seu pontificado, fala de um «olhar positivo sobre as pessoas e sobre as coisas, fruto de um espírito humano iluminado pelo Espírito Santo». Até mesmo dentro da Igreja, não apenas para aqueles que estão fora, há uma necessidade vital do testemunho da alegria. São Paulo falava de si e dos outros apóstolos: «Não porque pretendamos dominar sobre a vossa fé. Queremos apenas contribuir para a vossa alegria» (2 Coríntios 1, 24). Que definição maravilhosa da tarefa dos pastores na Igreja! Colaboradores da alegria: aqueles que infundem segurança às ovelhas do rebanho de Cristo, os capitães valorosos que, com o seu olhar tranquilo, animam os soldados envolvidos na luta.
No meio das provas e calamidades que afligem a Igreja, especialmente em algumas partes do mundo, os pastores podem repetir, também hoje, aquelas palavras que Neemias, um dia, depois do exílio, dirigiu ao povo de Israel abatido e em lágrimas: «não haja nem aflição, nem lágrimas [...], porque a alegria do Senhor é a vossa força» (Neemias 8, 9-10).
Que a alegria do Senhor, Santo Padre, veneráveis padres, irmãos e irmãs, seja realmente, a nossa força, a força da Igreja. Feliz Natal!

Tradução: ZENIT — www.zenit.org

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.12.12 | Sem comentários
— palavra para terça-feira, 25 de dezembro — solenidade do natal —

— Evangelho segundo Lucas 2, 1-14

Naqueles dias, saiu um decreto de César Augusto, para ser recenseada toda a terra. Este primeiro recenseamento efectuou-se quando Quirino era governador da Síria. Todos se foram recensear, cada um à sua cidade. José subiu também da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e da descendência de David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que estava para ser mãe. Enquanto ali se encontravam, chegou o dia de ela dar à luz e teve o seu Filho primogénito. Envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria. Havia naquela região uns pastores que viviam nos campos e guardavam de noite os rebanhos. O Anjo do Senhor aproximou-se deles e a glória do Senhor cercou-os de luz; e eles tiveram grande medo. Disse-lhes o Anjo: «Não temais, porque vos anuncio uma grande alegria para todo o povo: nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino recém-nascido, envolto em panos e deitado numa manjedoura». Imediatamente juntou-se ao Anjo uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus, dizendo: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados».

— Anuncio-vos uma grande alegria

A melhor palavra diante deste acontecimento é o silêncio! Hoje, é um dos dias em que podemos aplicar com mais propriedade o provérbio oriental que diz: «Se a tua palavra não é melhor do que o silêncio, cala-te». Só na dinâmica do silêncio, um silêncio contemplativo, poderemos entender alguma coisa deste mistério que é a Encarnação concretizada no Nascimento de Jesus. 
«Anuncio-vos uma grande alegria» — proclama o anjo aos pastores. O caminho que percorremos ao longo do Advento ganha (ainda) mais sentido neste dia. Mas cuidado, porque é muito fácil cairmos no sentimentalismo: um espasmo passageiro de alegria e ternura ao olharmos para o presépio ou para as imagens do nascimento de Jesus. Isso não ajuda a perceber nem a viver este mistério. Sem uma profunda contemplação, o Natal torna-se vazio, sem qualquer sentido religioso.
O que se passou em Jesus está a passar-se agora em cada um de nós, está a acontecer em mim. Este é o sentido religioso do Natal. A encarnação não é um facto pontual, mas uma atitude eterna de Deus que encarna sempre em todas as criaturas. Ele é Emanuel, é Deus connosco, sempre. Se em Jesus se tornou visível a presença de Deus, temos de aproveitar essa realidade para o descobrirmos dentro de nós. 
É preciso que brilhe no nosso coração e em toda a nossa vida esta «grande alegria» que nos é anunciada. Deus ilumina sempre de forma nova cada momento da nossa vida. Este é o sentido da festa de Natal, por isso os primeiros cristãos a fizeram coincidir com o solstício de inverno. Deixa-te iluminar pela presença de Deus dentro de ti. E aparecerá a luz e a alegria. E iluminará o teu ser e tudo o que te rodeia ficará também iluminado!

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.12.12 | Sem comentários

Naqueles dias, saiu um decreto de César Augusto, para ser recenseada toda a terra. Este primeiro recenseamento efectuou-se quando Quirino era governador da Síria. Todos se foram recensear, cada um à sua cidade. José subiu também da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e da descendência de David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que estava para ser mãe. Enquanto ali se encontravam, chegou o dia de ela dar à luz e teve o seu Filho primogénito. Envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria. Havia naquela região uns pastores que viviam nos campos e guardavam de noite os rebanhos. O Anjo do Senhor aproximou-se deles e a glória do Senhor cercou-os de luz; e eles tiveram grande medo. Disse-lhes o Anjo: «Não temais, porque vos anuncio uma grande alegria para todo o povo: nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino recém-nascido, envolto em panos e deitado numa manjedoura». Imediatamente juntou-se ao Anjo uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus, dizendo: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados». — Lucas 2, 1-14 —

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.12.12 | Sem comentários
— exegese de Herculano Alves —

O ambiente de alegria com que hoje celebramos o Natal tem a sua inspiração no Evangelho de Lucas. De facto, este Evangelista foi o que maior importância deu ao nascimento de Jesus para a humanidade, como acontecimento salvador.
Por isso, quando anunciam o nascimento de Jesus aos pastores, os anjos apresentam a notícia como um acontecimento salvador para a humanidade: «Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor» (Lc 2,10-11).
Ora, perante a salvação que vem de Deus, o ser humano não pode senão sentir uma grande alegria. Esta alegria também está presente no Evangelho da Infância segundo S. Mateus, mas de um modo mais discreto que em Lucas. Convém referir que só Mateus e Lucas têm Evangelhos da Infância de Jesus; mas, sobre o seu Natal, cada um teve as suas fontes e teologia, havendo pouco de comum entre eles.

Cenário do nascimento de Jesus (Lucas 1-2) 

Este acontecimento de salvação é cuidadosamente preparado por Lucas, num cenário majestoso e em cenas sucessivas, em que o divino está continuamente presente.
Para melhor compor o cenário, Lucas também apresenta o nascimento do Apresentador de Jesus, isto é, de João Baptista. Sendo assim, a partir de Lc 1,4, temos a preparação do nascimento deste.

Dois nascimentos paralelos 

Neste sentido, Lucas apresenta duas vidas paralelas, segundo um esquema clássico, pelo menos a propósito do nascimento destes dois personagens. O paralelismo aparece ao nível de:
● Dois casais: pais de João e de Jesus.
● Dois anúncios, pelo anjo Gabriel: Lc 1,5-20. 1,26-38.
● O anúncio é semelhante e ouve do receptor uma objecção, para terem uma prova de como será possível terem um filho em circunstâncias impossíveis.
● Os dois filhos são fruto do milagre (um casal estéril e uma virgem), e o anjo explica como vai ser possível.
● Há cânticos e motivos de alegria, antes e depois dos dois nascimentos: os cântico de Maria (Lc 1,46-55) e de Zacarias (1,63-79).

O nascimento de João Baptista 

O nascimento de João é preparado num cenário religioso: seu pai Zacarias é sacerdote e está no exercício das suas funções no templo de Jerusalém. E o divino revela-se, pela primeira vez, no anúncio do nascimento de um filho a Zacarias e a Isabel, um casal estéril. Pelo facto de serem estéreis, é-lhes garantido que vão ter um filho por intervenção especial de Deus.
Perante isso, o leitor pergunta-se: «Quem virá a ser este menino? (Lc 1,66). Quando a Bíblia fala de um nascimento impossível, é sinal de que o personagem vai ter uma missão especial na His-tória da Salvação. Foi o caso de João Baptista e de Jesus.
Em Lucas, o nascimento de João é o anúncio e preparação do de Jesus. E nos capítulos a seguir à infância, o Baptista surge a anunciar o Messias que está para vir. Por isso deve nascer primeiro o Anunciador e só depois o Anunciado. E o cântico de Zacarias define a missão de seu filho como anunciador daquele «que, das alturas nos visita como sol nascente» (Lc 1,78).

Cenas menores do grande acontecimento 

O grande acontecimento do nascimento de Jesus Salvador é preparado por várias cenas menores, dentro do grande cenário dos capítulos 1 e 2:
● o anúncio do nascimento de João a seu pai, Zacarias (Lc 1,5-20;
● o anúncio do nascimento de Jesus a Maria (Lc 1,26-38);
● a visita de Maria a Isabel, ao saber que também ela fora agraciada com um filho (Lc 1,39-45);
● o cântico de Maria, como hino de louvor ao Deus (Lc 1,52);
● o nascimento e circuncisão do Baptista (Lc 1,57-67);
● o cântico de Zacarias, prolongando o temor e o louvor dos que tinham visto o acontecimento (Lc 1,66-79).

O nascimento de Jesus (Lc 2,1-40) 

Depois desta encenação prévia, o leitor está preparado para contemplar a cena fundamental da História do mundo e da humanidade: o nascimento do Salvador. Lucas começa por situá-lo na história do Império Romano, citando o imperador Augusto e o governador Quirino, por ocasião de um recenseamento. Depois, acrescenta uma circunstância de lugar: em Belém, nas palhas de uma manjedoura, um lugar próprio de animais, em oposição à hospedaria, onde habitam as pessoas. Normalmente, os currais eram contíguos às casas. Maria deu à luz no curral dos animais, por não haver lugar na hospedaria, ou por uma questão de pureza ritual depois do parto (que exigia à mulher o afastamento das pessoas)?
O que interessa a Lucas não são tanto as circunstâncias histórias e geográficas, mas as questões teológicas e catequéticas. Por isso introduz o elemento divino: um anjo anuncia a pobres pastores – considerados pecadores – o facto mais transcendente da História (2,9-11).
E a festa começa, com música, no Céu e na Terra: «Juntou-se uma multidão do exército celeste, louvando a Deus e dizendo: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado”.» (Lc 1, 13-14).

Circuncisão e apresentação de Jesus no Templo 

A cena da circuncisão prolonga a do nascimento de Jesus. É então que é dado ao Menino o seu nome: Jesus, que indica (no hebraico yasha’ = salvar) a sua função de Salvador, como tinha o anjo dito aos pastores (Lc 2, 11).
Este nome e função exprimem a acção de Jesus daí em diante, até à sua ascensão ao Céu (Lc 24,51).
Quando Maria apresenta Jesus no Templo, para O consagrar ao Senhor como filho primogénito, Lucas fala de algo essencial do seu Evangelho: a missão profética. Simeão e Ana acolhem Jesus no Templo como Messias, com hinos inspirados pelo Espírito Santo (2, 28-32 e 2, 38).
Mas, antes deles, outros profetas e profetizas o esperavam e profetizam acerca do Messias-profeta. Lucas, sem complexos anti-feministas, refere tantas profetisas como profetas: Zacarias, João Baptista e Simeão; Maria, Isabel e Ana.

Do Natal ao Pentecostes: a Igreja, comunidade de profetas 

De facto, quem haveria de receber o Profeta por excelência, senão os profetas, com capacidade para essa missão? Só eles podem compreender o Profeta.
Mas isso indica também que, se Jesus é o profeta anunciado por Moisés (Dt 18,18-19), também os seus discípulos devem ser uma comunidade de profetas.
Foi o que aconteceu no dia do Pentecostes, segundo o relato de Lucas nos Actos: o Espírito dos profetas desceu, em forma de fogo divino, sobre a primeira comunidade cristã, para dizer esta coisa simples: não se pode ser discípulo do Profeta sem ser profeta. Um cristianismo sem profetismo, sem a palavra dos profetas, perde a sua essência, degenera.
Por isso, o melhor modo de celebrar o Natal do Profeta Jesus é comprometer-se como Ele na evangelização do mundo actual.

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Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.12.12 | Sem comentários
Entre o rumor da minha vida que vai por aí,
entre as horas de tom cinzento do meu dia,
oiço o alento e a esperança na tua voz.
Procuro a riqueza desse olhar fixo em mim
na aventura do caminho que vou trilhando,
na batalha que travo entre o meu e o teu querer.
E descubro que vives muito para além de mim
e, no entanto, sem eu querer tudo esperas
para que não seja só eu, mas agora tu comigo
na felicidade que me conforta por muito crer.

Por isso Te peço:
contemplar-Te só a Ti,
viver a vida como reflexo de Ti em mim.
E em tudo ser capaz de tocar tua alegria
que preenche todas as minhas sedes
e em tudo ser capaz da tua paz sem fim,
para que vivas, para que vivas tu em mim.


E alegrar-me sempre em Ti
para poder dizer a alegria de Ti em mim.
E alegrar-me sempre em Ti.
Viver a vida como dom por fim
para viver pra Ti sempre viver...

E alegrar-me sempre em Ti.
Viver a vida como dom por fim
para viver para Ti sempre viver...

Letra e Música de Tarcízio Morais
© Um Só Senhor
© Edições Salesianas

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.12.12 | Sem comentários
— Laboratório da fé na missão —

A missão do chiúre, onde estive, ficava em plena savana africana, a 160 Km da cidade de Pemba, no norte de Moçambique. A comunidade mais longínqua ficava a 120 km da sede da missão. Ali tudo era simples e profundo. Era também um mundo pobre, atormentado por muitas carências...
Ficar nas aldeias e sentir o calor humano do povo ajudou-me a entender, que a minha presença no meio deles foi um sinal de esperança. Por isso, no meio de tanta miséria, a minha vida teve sentido. Ali, as razões de viver prendem-se ao essencial e àquilo que é prioritário para se ser feliz.
A vida no mato é amarga e dura... mas os dias são felizes, amassados com lágrimas e suor e regados com alegrias e encantos. São dias de paraíso nas mãos de Deus. Quero-vos contar um pouco como foi o meu primeiro dia de Natal em Moçambique. 

Saí, de manhã bem cedo, para Ocua, comunidade que ficava a 30 Km da missão. Receberam-me com cânticos, palmas e com um sorriso de quem estava muito feliz. Para estes cristãos, é uma graça de Deus, terem Eucaristia e a presença do padre no dia de Natal. Depois, de cumprimentar os responsáveis pela comunidade e grande parte das pessoas ali presentes, começamos a distribuir tarefas para que a festa fosse um momento de alegria para todos. 
Iniciamos com a oração da manhã, seguida de uma celebração penitencial. Reconciliaram-se cerca de umas 70 pessoas. A grande maioria, não sabe falar português, fala o dialecto local, que é makhua. Desde que cheguei a Moçambique aprendi bastantes palavras em makhua, o que me permitiu perceber algumas palavras. Tinha um pequeno bloco de notas, com a listagem dos pecados em makhua e alguns conselhos para os poder ajudar a serem mais humanos e melhores cristãos. Enquanto, algumas pessoas celebravam o sacramento da reconciliação, os animadores do canto ensaiavam os cânticos para todos poderem cantar. 
A Eucaristia, é uma grande festa para este povo. São pobres e miseráveis nos caminhos da vida, mas alegres e felizes na relação com Deus. Estava uma multidão de gente. A capela era demasiado pequena. Celebramos ao ar-livre, debaixo de um cajueiro, por causa do sol. Para que todos se sentissem bem e participassem activamente, fiz todos os diálogos da Eucaristia em makhua. É certo, que antes, pedi-lhes desculpas, por não saber ler, tão bem como eles e para me perdoarem algumas falhas. Todos foram compreensivos e ficaram contentes, pelo meu esforço em pronunciar alguns dos seus sons. A homilia foi feita em português e traduzida para o dialecto local. A grande festa, começou às 9h40 e terminou por volta das 11h30. As danças, os cânticos, os símbolos, os silêncios... foi algo de tão eterno, que mais uma vez, compreendi que ainda sou muito pobre... 

Terminada a grande festa com Deus e depois de termos saudado o menino Jesus, deu-se início a uma reunião para toda a comunidade. Estas reuniões, eram momentos muito importantes para toda a comunidade. Nelas apresentavam os problemas que os atormentavam. Os discursos foram lidos pelo animador da comunidade e pelo responsável dos jovens. O resto da comunidade permaneceu em silêncio profundo. Olhavam para mim, para o animador paroquial e para o animador zonal, observando a nossa postura, perante as palavras dos seus representantes. Eu escutei com muita atenção, para mais tarde comunicar ao conselho da missão tudo quanto ali foi dito. Aqui, a pastoral comunitária é uma realidade viva. A comunidade interfere seriamente nos diversos problemas que afectam todos. Não existem manifestações nem actos de terrorismo paroquial.

Os tambores, as danças, as peças teatrais e os cânticos abrilhantaram o resto da manhã, até às 13h15. Estava eu a tirar algumas fotografias, quando me avisaram que o almoço estava pronto, chimá (farinha cozida) com galinha. Não foi nenhum almoço farto, mas o amor que aquela gente colocou naquela refeição alegraram-me tanto que foi como se tivesse comido caviar ou cabrito. Muitos esperaram que eu terminasse a refeição, para se despedirem. Para me apertarem a mão e darem-me um sorriso sincero e profundo. Era esse único presente que me podiam dar e podem ter a certeza que nunca recebi presentes tão grandes. Senti, mais uma vez, o carinho de um povo pobre, mas com um coração muito rico. 

No meio da savana africana, não há lojas com luzes, não há música nas ruas, não há frio nem hipermercados para se comprar presentes. Não há mesas cheias de bolos, de rabanadas e de champanhe. Não há bacalhau nem bom azeite e vinho. Alguns poderiam dizer que aqui não há Natal. Mas, mesmo longe de casa, dos meus familiares e amigos, nunca vivi o Natal de forma tão profunda. Porque me despedi do supérfluo, daquilo que poderia ajudar a viver melhor o Natal, mas que não é Natal. 
Aqui as luzes de Natal dão lugar aos milhares de pirilampos que invadem todas as noites a missão; a música das ruas dá lugar ao batuque, que soa durante todas as noites para avisar que o grande Deus vai nascer. A comida farta das mesas dá lugar à farinha cozida (chimá) amassada com amor e lágrimas de alegria, por se festejar o nascimento do grande Deus. As minhas palavras são demasiado pobres para vos dizer todo o encanto de um Natal passado em África, com quem nada tem e tem tudo.

Padre João Miguel Torres Campos

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.12.12 | Sem comentários
— A leitura no laboratório da fé —

— O Natal


M. I. Rupnik, «O Natal – com os mosaicos de M. I. Rupnik e do atelier do Centro Alleti». 
Ed. Apostolado da Oração, Braga 2011, 49 págs. PVP: 5, 00 euros

São diversas as possibilidades de uma boa leitura para este Natal: desde o livro de Bento XVI «A Infância de Jesus», até ao recentemente publicado livro de D. António Couto «Estação de Natal». No entanto, referiremos uma outra sugestão, para uma boa leitura e também para um bom presente. Publicado em 2011 pela editora do Apostolado da Oração (e com um preço extremamente interessante, dada a qualidade do álbum), encontramos em «O Natal» diversos mosaicos do jesuita esloveno Mark Rupnik, que esteve presente no passado mês de Maio no encontro «Fé e Arte» organizado pela Companhia de Jesus. Cada mosaico é acompanhado de uma breve e significativa reflexão sobre o Mistério do Natal, como Mistério no qual podemos encontrar a revelação quer do próprio Deus, quer do Ser Humano, em Jesus de Nazaré, o Filho. Aqui fica um dos mosaicos (no total são 12 mosaicos) com a respectiva reflexão. O livro termina com um artigo mais extenso sobre as origens da celebração do Natal na história da Igreja.

«Desde sempre o homem reconheceu na montanha o lugar da revelação de Deus. Além disso, para nós cristãos, o monte – o Calvário – é também o lugar da morte do Filho de Deus. A máxima revelação do amor de Deus, acontecida no Calvário, foi possível graças à sua Encarnação no seio de uma mulher, Maria de Nazaré. Com este cenário, o mosaico faz ver a mãe de Deus como o cume do monte graças ao qual Deus se revelou ao mundo.

Mas esta montanha encontra-se dentro de uma gruta, que é o símbolo do abismo, do vazio, das trevas, do pecado, da morte… A gruta é a «terra aberta» que acolhe a kenosis divina e anuncia a sua descida aos infernos depois da morte na cruz. Jesus nasce dentro de uma gruta escavada na montanha ou, vice-versa, sobre uma montanha que se eleva na gruta. Temos assim uma antinomia muito rica: nos abismos da Humanidade, onde o homem encontrou o nada e a morte como resultado do pecado, ali está a montanha suprema da revelação de Deus, que Se manifesta precisamente onde está o pecado do homem e a morte.

De facto, Deus desceu até ali e é aí mesmo que O podemos encontrar. Subir à montanha para encontrar Deus significa, paradoxalmente, descer ao abismo do próprio coração, onde reconhecemos a nossa miséria e encontramos a sua misericórdia. Apesar das nossas faltas, do pecado, do vazio, apesar da nossa inconsistência, encontramo-Lo, porque Ele desceu para carregar sobre Si o nosso mal e a nossa morte.Nós conhecemos Deus no facto de nos redimir e o perdão dos nossos pecados é a revelação mais segura de Deus, porque só Deus perdoa os pecados. O conhecimento de Deus funda-se na experiência da nossa redenção e o seu gosto permanece impresso em nós de modo inconfundível.» (na imagem: Natividade segundo Santo Inácio de Loiola, Capela da Residência dos Jesuitas São Pedro Canísio, Roma 2007)

Rui Pedro Vasconcelos
Livraria Fundamentos — www.fundamentos.pt

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.12.12 | Sem comentários
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