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Anunciar a alegria da fé! [5]


«O que é que é feito, em nossos dias, daquela energia escondida da Boa Nova, suscetível de impressionar profundamente a consciência dos homens e mulheres? Até que ponto e como é que essa força evangélica está em condições de transformar verdadeiramente o ser humano deste nosso século? Quais os métodos que hão de ser seguidos para proclamar o Evangelho de modo a que a sua potência possa ser eficaz? Tais perguntas, no fundo, exprimem o problema fundamental que a Igreja hoje põe a si mesma e que nós poderíamos equacionar assim: [...] encontrar-se-á a Igreja mais apta para anunciar o Evangelho e para o inserir no coração dos seres humanos, com convicção, liberdade de espírito e eficácia? Sim ou não?» (EN 4) — escritas em 1975 pelo papa Paulo VI, no décimo aniversário da conclusão do Concílio, são palavras (ainda) atuais passados 40 anos (50 do Concílio).

Quem evangelizamos?

A alegria do Evangelho tem um alcance universal (cf. tema 3). Por isso, todos são destinatários da evangelização, a começar pelos que aceitam a missão de ser evangelizadores! O papa Francisco sintetiza a dinâmica evangelizadora em três âmbitos: «pastoral ordinária»; «pessoas batizadas que não vivem as exigências do Batismo»; os que «não conhecem Jesus Cristo». Para explicitar estes três âmbitos o Papa serve-se de palavras proferidas pelos seus antecessores (João Paulo II e Bento XVI): «Em primeiro lugar, mencionamos o âmbito da pastoral ordinária, ‘animada pelo fogo do Espírito a fim de incendiar os corações dos fiéis que frequentam regularmente a comunidade, reunindo-se no dia do Senhor, para se alimentarem da sua Palavra e do Pão de vida eterna’. Devem ser incluídos também neste âmbito os fiéis que conservam uma fé católica intensa e sincera, exprimindo-a de diversos modos, embora não participem frequentemente no culto. Esta pastoral está orientada para o crescimento dos crentes, a fim de corresponderem cada vez melhor e com toda a sua vida ao amor de Deus. Em segundo lugar, lembramos o âmbito das ‘pessoas batizadas que, porém, não vivem as exigências do Batismo’, não sentem uma pertença cordial à Igreja e já não experimentam a consolação da fé. Mãe sempre solícita, a Igreja esforça-se para que elas vivam uma conversão que lhes restitua a alegria da fé e o desejo de se comprometerem com o Evangelho. Por fim, frisamos que a evangelização está essencialmente relacionada com a proclamação do Evangelho àqueles que não conhecem Jesus Cristo ou que sempre O recusaram. Muitos deles buscam secretamente a Deus, movidos pela nostalgia do seu rosto, mesmo em países de antiga tradição cristã. Todos têm o direito de receber o Evangelho» (EG 14). Aliás, «João Paulo II convidou-nos a reconhecer que ‘não se pode perder a tensão para o anúncio’ àqueles que estão longe de Cristo, ‘porque esta é a tarefa primária da Igreja’» (EG 15).

Proselitismo ou atração?

O anúncio da alegria do Evangelho é um dever de todos os cristãos, «sem excluir ninguém, e não como quem impõe uma nova obrigação, mas como quem partilha uma alegria, indica um horizonte estupendo, oferece um banquete apetecível. A Igreja não cresce por proselitismo, mas ‘por atração’» (EG 14).

Pastoral missionária

Inspirada na Encíclica sobre a validade permanente do mandato missionário («Redemptoris Missio»), dada à Igreja pelo papa João Paulo II no dia sete de dezembro do ano de 1990, no vigésimo quinto aniversário do decreto conciliar «Ad gentes», a EG recorda que «a atividade missionária ‘ainda hoje representa o máximo desafio para a Igreja’ e ‘a causa missionária deve ser [...] a primeira de todas as causas’. Que sucederia se tomássemos realmente a sério estas palavras? Simplesmente reconheceríamos que a ação missionária é o paradigma de toda a obra da Igreja. Nesta linha, os Bispos latino-americanos afirmaram que ‘não podemos ficar tranquilos, em espera passiva, em nossos templos’, sendo necessário passar ‘de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária’. Esta tarefa continua a ser a fonte das maiores alegrias para a Igreja: ‘Haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não necessitam de conversão’ (Lucas 15, 7)» (EG 15).

Estou pronto para anunciar a alegria do Evangelho? Reconheço que, em primeiro lugar, preciso de ser evangelizado para ser um bom evangelizador? Quero ser um evangelizador que «partilha uma alegria» ou que «impõe uma nova obrigação»? A missão pode ser comparada a uma pesca: prefiro a linha (um a um) ou a rede (multidão)? Fico à espera ou vou ao encontro?

© Laboratório da fé, 2015 







Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.11.15 | Sem comentários

Mistério da fé! [8]


O Batismo é o primeiro sacramento e o primeiro dos sacramentos. «O Batismo, porta da vida e do reino, é o primeiro sacramento da nova lei, que Cristo propôs a todos para terem a vida eterna, e, em seguida, confiou à sua Igreja, juntamente com o Evangelho» (Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos. Preliminares Gerais, 3). Neste tema, apresentamos o fundamento do Sacramento do Batismo associado ao mandato de Jesus Cristo ressuscitado confiado aos discípulos [Para ajudar a compreender melhor, ler: Mateus 28, 16-20; Catecismo da Igreja Católica (CIC), números 1213 a 1216]

«Ide... fazei discípulos... 

batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo»

— é, segundo a narração de Mateus, o mandato que Jesus Cristo ressuscitado confia aos (onze) discípulos. A presença terrena de Jesus Cristo continua com a presença missionária dos discípulos (até ao fim dos tempos). A fórmula batismal explicitamente trinitária — «em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo» — é única em todos os escritos do Novo Testamento. É provável que tenha origem na prática litúrgica já existente na comunidade a que pertence o evangelista Mateus.

Batismo

O Batismo é o primeiro dos sacramentos, o ponto de partida da Iniciação Cristã (cf. tema 7), «o fundamento de toda a vida cristã, o pórtico da vida no Espírito (‘porta da vida espiritual’) e a porta que dá acesso aos outros sacramentos» (Catecismo da Igreja Católica», 1213). A palavra «batismo» deriva do «grego, ‘baptisma’, que, por sua vez, vem de ‘bapto’ (banhar) e de ‘baptizdo’ (submergir, mergulhar na água). O seu sentido original é, portanto, banho, ablução externa, embora entendendo-a no seu sentido de purificação e vida nova» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia» [DEL], ed. Paulinas, Prior Velho, 2007, 47).

Mandato de Cristo

Nos relatos evangélicos segundo Mateus e Marcos há uma referência ao mandato confiado aos discípulos: «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado» (Mateus 28, 19-20); «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for batizado será salvo» (Marcos 16, 15-16). Jesus Cristo apresenta-se como aquele que ressuscitou de entre os mortos e que tem plena autoridade para encarregar os discípulos de continuarem até ao fim dos tempos a atividade que tinha iniciado. Os discípulos são enviados («Ide») ao mundo inteiro para proclamar o Evangelho, «fazer» discípulos, batizar e ensinar «a cumprir tudo» o que aprenderam de Jesus Cristo. O (novo) discipulado concretiza-se na adesão aos ensinamentos de Jesus Cristo («acreditar») e na participação na vida da Trindade através da celebração do Sacramento do Batismo. Com esta referência bíblica confirma-se que desde o tempo dos Apóstolos o Batismo tornou-se essencial para a adesão à fé cristã, juntamente com o acolhimento do Evangelho, a Boa Nova de Jesus Cristo. Em primeiro lugar, fica claro que a experiência pascal dos discípulos não é para o próprio consolo interior, mas para assumir uma missão universal. Esta missão é confiada por Jesus Cristo para que anunciem o Evangelho a «todos os povos», ao «mundo inteiro». O anúncio do Evangelho não tem nenhum tipo de fronteiras: geográficas, económicas, políticas, sociais, culturais... É universal por natureza. Hoje, esta continua a ser a missão confiada a todos os discípulos, a todos os cristãos. O Batismo não é para um consolo próprio, mas para dar continuidade à missão. O papa Francisco tem insistido com frequência na importância do mandato de Cristo: «Não se fechem, por favor! Isto é um perigo: fecharmo-nos na paróquia, com os amigos, no movimento, com aqueles que pensam as mesmas coisas que eu... Sabeis o que sucede? Quando a Igreja se fecha, adoece, fica doente. Imaginai um quarto fechado durante um ano; quando lá entras, cheira a mofo e há muitas coisas que não estão bem. A uma Igreja fechada sucede o mesmo: é uma Igreja doente. A Igreja deve sair de si mesma. Para onde? Para as periferias existenciais, sejam quais forem…, mas sair. Jesus diz-nos: ‘Ide pelo mundo inteiro! Ide! Pregai! Dai testemunho do Evangelho!’» (Francisco, Vigília de Pentecostes, 18 de maio de 2013). Em segundo lugar, a missão não consiste em transmitir uma «ideologia» ou uma simples «doutrina». A missão está associada ao batismo: «Quem acreditar e for batizado será salvo».

O Sacramento do Batismo é muito mais do que um simples rito ou ritual. Celebrar o Batismo significa mergulhar a totalidade da vida em Jesus Cristo para assumir uma vida nova.






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 28.11.13 | Sem comentários

Outubro Missionário 2013


As obras missionárias pontifícias da Comissão Episcopal das Missões publicaram, como já é habitual, um guião para ajudar os cristãos, individualmente e em grupo, a crescer no compromisso missionário. «Que este Guião ajude a viver melhor o mês de Outubro, dedicado ao Rosário e à Missão» — pode ler-se no texto de apresentação. 

Neste contexto, a propósito do Dia Mundial das Missões, a celebrar no dia 20 de outubro, o papa Francisco escreveu uma mensagem alicerçada na temática da fé
Na Mensagem, o Papa começa por propor a fé como «um dom precioso de Deus, que abre a nossa mente para O podermos conhecer e amar». Este dom não é só para alguns, mas «oferecido a todos com generosidade»; também não é para ficar com cada um, mas para ser partilhado: «se o quisermos conversar apenas para nós mesmos, tornamo-nos cristãos isolados, estéreis e combalidos». E concluiu este ponto, dizendo: «Toda a comunidade é 'adulta', quando professa a fé, celebra-a com alegria na liturgia, vive a caridade e anuncia sem cessar a Palavra de Deus, saindo do próprio recinto para levá-la até às 'periferias', sobretudo a quem ainda não teve a oportunidade de conhecer Cristo».
A partir do contexto do aniversário dos cinquenta anos do Concílio, o Papa recorda que o dever missionário é próprio de cada um e de todos os batizados: «todos somos enviados pelas estradas do mundo para caminhar com os irmãos, professando e testemunhando a nossa fé em Cristo e fazendo-nos arautos do seu Evangelho». E também não se trata de uma questão geográfica, porque o lugar da missionariedade é o «coração de cada homem e mulher».
Os obstáculos colocados à evangelização — diz o Papa — não estão apenas no exterior, mas também dentro da própria Igreja. Destes obstáculos destaca o (nosso) relaxe no fervor, na alegria, na coração, na esperança de anunciar e na ajuda ao ser humano contemporâneo para encontrar Jesus Cristo. «Devemos sempre ter a coragem e a alegria de propor, com respeito, o encontro com Cristo e de nos fazermos portadores do seu Evangelho; Jesus veio ao nosso meio para nos indicar o caminho da salvação e confiou, também a nós, a missão de a fazer conhecer a todos, até aos confins do mundo». Sem esquecer que «evangelizar nunca é um acto isolado, individual, privado, mas sempre eclesial».
O tempo presente — marcado pela deslocação constante de pessoas e famílias inteiras, marcado pelo aumento do número «daqueles que vivem alheios à fé, indiferentes à dimensão religiosa ou animados por outras crenças», marcado pela crise que «atinge vários setores da existência» — reclama uma «nova evangelização», precisa de «uma luz segura». Neste contexto, «torna-se ainda mais urgente levar corajosamente a todas as realidades o Evangelho de Cristo, que é anúncio de esperança, de reconciliação, de comunhão, anúncio da proximidade de Deus, da sua misericórdia, da sua salvação, anúncio de que a força de amor de Deus é capaz de vencer as trevas do mal e guiar pelo caminho do bem».



Oração missionária

Espírito Santo,
que desceste sobre os Apóstolos 
e os fizeste anunciadores do Evangelho:
derrama os teus dons sobre cada um de nós
e torna-nos sensíveis aos apelos e às necessidades dos nossos irmãos;
desperta em muitos corações (crianças, jovens e adultos...) o ideal missionário;
dá força e coragem a todos quantos se entregam totalmente ao serviço da missão.
Amen.



Intenção missionária do Apostolado da Oração

Para que a Jornada Missionária Mundial 
nos anime a ser destinatários 
e anunciadores da Palavra de Deus.

Como todos os anos, celebramos no penúltimo domingo de Outubro, que este ano ocorre no dia 20, o Dia Mundial Missionário. A finalidade desta celebração é a de nos recordar aquilo que nunca deveríamos esquecer: todos, pelo batismo, somos evangelizadores, missionários. Este dia não deve ser, portanto, um momento esporádico na nossa vida cristã, mas só mais uma ocasião para refletirmos na nossa vocação missionária.
E somos todos missionários porque a Igreja é missionária na sua mesma essência, como têm declarado os Papas, em variadas ocasiões, e esta dimensão missionária da Igreja tem que estar sempre presente na mente de todos os cristãos. A Igreja existe para evangelizar. Afirmou, por exemplo, o Papa Paulo VI, na Exortação apostólica «Evangelii nuntiandi»: «[A proclamação do Evangelho] é para a Igreja um dever que lhe incumbe, por mandato do Senhor Jesus, a fim de que os homens possam acreditar e ser salvos». Este mandato missionário que Cristo confiou aos seus discípulos tem que concretizar-se no empenho de todo o povo de Deus; deve envolver todas as atividades das Igrejas particulares, todos os seus setores, todo o seu ser e agir.
Todos aqueles que se encontraram com Cristo ressuscitado sentiram a necessidade de anunciá-Lo aos outros, como aconteceu com os discípulos de Emaús, com Maria Madalena e tantos outros. O mesmo deve acontecer connosco. Se vivemos a ressurreição, se a fé que ela desperta é uma verdadeira realidade na nossa vida, havemos de sentir a necessidade imperiosa de a partilhar. Com efeito, a fé não é um dom (o maior da nossa vida), para guardar para si, mas para comunicar aos outros, para que também eles a possam experimentar.
Como diz a Intenção Missionária deste mês, somos, ao mesmo tempo, destinatários e anunciadores da Palavra que desperta a fé. Mas só quando esta Palavra Se faz carne dentro de cada um é que pode ser anunciada com verdade. Doutro modo, o anúncio soará a oco.
Sobretudo ao longo deste mês, deixemo-nos possuir pela Palavra de Deus, porque só assim é que seremos levados a uma comunicação mais ativa, persuadidos de que a fé se fortalece quando é comunicada.




Mensagem do Papa 
para o Dia Mundial das Missões

Queridos irmãos e irmãs,
Este ano, a celebração do Dia Mundial das Missões tem lugar próximo da conclusão do Ano da Fé, ocasião importante para revigorarmos a nossa amizade com o Senhor e o nosso caminho como Igreja que anuncia, com coragem, o Evangelho. Nesta perspectiva, gostaria de propor algumas reflexões.
1. A fé é um dom precioso de Deus, que abre a nossa mente para O podermos conhecer e amar. Ele quer entrar em relação connosco, para nos fazer participantes da sua própria vida e encher plenamente a nossa vida de significado, tornando-a melhor e mais bela. Deus ama-nos! Mas a fé pede para ser acolhida, ou seja, pede a nossa resposta pessoal, a coragem de nos confiarmos a Deus e vivermos o seu amor, agradecidos pela sua infinita misericórdia. Trata-se de um dom que não está reservado a poucos, mas é oferecido a todos com generosidade: todos deveriam poder experimentar a alegria de se sentirem amados por Deus, a alegria da salvação. E é um dom que não se pode conservar exclusivamente para si mesmo, mas deve ser partilhado; se o quisermos conservar apenas para nós mesmos, tornamo-nos cristãos isolados, estéreis e combalidos. O anúncio do Evangelho é um dever que brota do próprio ser discípulo de Cristo e um compromisso constante que anima toda a vida da Igreja. «O ardor missionário é um sinal claro da maturidade de uma comunidade eclesial» (Bento XVI, Exort. ap. Verbum Domini, 95). Toda a comunidade é «adulta», quando professa a fé, celebra-a com alegria na liturgia, vive a caridade e anuncia sem cessar a Palavra de Deus, saindo do próprio recinto para levá-la até às «periferias», sobretudo a quem ainda não teve a oportunidade de conhecer Cristo. A solidez da nossa fé, a nível pessoal e comunitário, mede-se também pela capacidade de a comunicarmos a outros, de a espalharmos, de a vivermos na caridade, de a testemunharmos a quantos nos encontram e partilham connosco o caminho da vida.
2. Celebrado cinquenta anos depois do início do II Concílio do Vaticano, este Ano da Fé serve de estímulo para a Igreja inteira adquirir uma renovada consciência da sua presença no mundo contemporâneo, da sua missão entre os povos e as nações. A missionariedade não é questão apenas de territórios geográficos, mas de povos, culturas e indivíduos, precisamente porque os «confins» da fé não atravessam apenas lugares e tradições humanas, mas o coração de cada homem e mulher. O II Concílio do Vaticano pôs em evidência de modo especial como seja próprio de cada batizado e de todas as comunidades cristãs o dever missionário, o dever de alargar os confins da fé: «Como o Povo de Deus vive em comunidades, sobretudo diocesanas e paroquiais, e é nelas que, de certo modo, se torna visível, pertence a estas dar também testemunho de Cristo perante as nações» (Decr. Ad gentes, 37). Por isso, cada comunidade é interpelada e convidada a assumir o mandato, confiado por Jesus aos Apóstolos, de ser suas «testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo» (Act 1, 8); e isso, não como um aspeto secundário da vida cristã, mas um aspeto essencial: todos somos enviados pelas estradas do mundo para caminhar com os irmãos, professando e testemunhando a nossa fé em Cristo e fazendo-nos arautos do seu Evangelho. Convido os bispos, os presbíteros, os conselhos presbiterais e pastorais, cada pessoa e grupo responsável na Igreja a porem em relevo a dimensão missionária nos programas pastorais e formativos, sentindo que o próprio compromisso apostólico não é completo, se não incluir o propósito de «dar também testemunho perante as nações», perante todos os povos. Mas a missionariedade não é apenas uma dimensão programática na vida cristã; é também uma dimensão paradigmática, que diz respeito a todos os aspetos da vida cristã.
3. Com frequência, os obstáculos à obra de evangelização encontram-se, não no exterior, mas dentro da própria comunidade eclesial. Às vezes, estão relaxados o fervor, a alegria, a coragem, a esperança de anunciar a todos a Mensagem de Cristo e ajudar os homens do nosso tempo a encontrá-Lo. Por vezes há ainda quem pense que levar a verdade do Evangelho seja uma violência à liberdade. A propósito, são iluminantes estas palavras de Paulo VI: «Seria certamente um erro impor qualquer coisa à consciência dos nossos irmãos. Mas propor a essa consciência a verdade evangélica e a salvação em Jesus Cristo, com absoluta clareza e com todo o respeito pelas opções livres que essa consciência fará (...), é uma homenagem a essa liberdade» (Exort. ap. Evangelii nuntiandi, 80). Devemos sempre ter a coragem e a alegria de propor, com respeito, o encontro com Cristo e de nos fazermos portadores do seu Evangelho; Jesus veio ao nosso meio para nos indicar o caminho da salvação e confiou, também a nós, a missão de a fazer conhecer a todos, até aos confins do mundo. Com frequência, vemos que a violência, a mentira, o erro é que são colocados em evidência e propostos. É urgente fazer resplandecer, no nosso tempo, a vida boa do Evangelho pelo anúncio e o testemunho, e isso dentro da Igreja. Porque, nesta perspetiva, é importante não esquecer jamais um princípio fundamental para todo o evangelizador: não se pode anunciar Cristo sem a Igreja. Evangelizar nunca é um acto isolado, individual, privado, mas sempre eclesial. Paulo VI escrevia que, «quando o mais obscuro dos pregadores, dos catequistas ou dos pastores, no rincão mais remoto, prega o Evangelho, reúne a sua pequena comunidade, ou administra um sacramento, mesmo sozinho, ele perfaz um acto de Igreja». Ele não age «por uma missão pessoal que se atribuísse a si próprio, ou por uma inspiração pessoal, mas em união com a missão da Igreja e em nome da mesma» (ibid., 60). E isto dá força à missão e faz sentir a cada missionário e evangelizador que nunca está sozinho, mas é parte de um único Corpo animado pelo Espírito Santo.
4. Na nossa época, a difusa mobilidade e a facilidade de comunicação através dos novos meios de comunicação social misturaram entre si os povos, os conhecimentos e as experiências. Por motivos de trabalho, há famílias inteiras que se deslocam de um continente para outro; os intercâmbios profissionais e culturais, assim como o turismo e fenómenos análogos impelem a um amplo movimento de pessoas. Às vezes, resulta difícil até mesmo para as comunidades paroquiais conhecer, de modo seguro e profundo, quem está de passagem ou quem vive estavelmente no território. Além disso, em áreas sempre mais amplas das regiões tradicionalmente cristãs, cresce o número daqueles que vivem alheios à fé, indiferentes à dimensão religiosa ou animados por outras crenças. Não raro, alguns batizados fazem opções de vida que os afastam da fé, tornando-os assim carecidos de uma «nova evangelização». A tudo isso se junta o facto de que larga parte da humanidade ainda não foi atingida pela Boa Nova de Jesus Cristo. Ademais vivemos num momento de crise que atinge vários setores da existência, e não apenas os da economia, das finanças, da segurança alimentar, do meio ambiente, mas também os do sentido profundo da vida e dos valores fundamentais que a animam. A própria convivência humana está marcada por tensões e conflitos, que provocam insegurança e dificultam o caminho para uma paz estável. Nesta complexa situação, onde o horizonte do presente e do futuro parecem atravessados por nuvens ameaçadoras, torna-se ainda mais urgente levar corajosamente a todas as realidades o Evangelho de Cristo, que é anúncio de esperança, de reconciliação, de comunhão, anúncio da proximidade de Deus, da sua misericórdia, da sua salvação, anúncio de que a força de amor de Deus é capaz de vencer as trevas do mal e guiar pelo caminho do bem. O homem do nosso tempo necessita de uma luz segura que ilumine a sua estrada e que só o encontro com Cristo lhe pode dar. Com o nosso testemunho de amor, levemos a este mundo a esperança que nos dá a fé! A missionariedade da Igreja não é proselitismo, mas testemunho de vida que ilumina o caminho, que traz esperança e amor. A Igreja – repito mais uma vez – não é uma organização assistencial, uma empresa, uma ONG, mas uma comunidade de pessoas, animadas pela ação do Espírito Santo, que viveram e vivem a maravilha do encontro com Jesus Cristo e desejam partilhar esta experiência de profunda alegria, partilhar a Mensagem de salvação que o Senhor nos trouxe. É justamente o Espírito Santo que guia a Igreja neste caminho.
5. Gostaria de encorajar a todos para que se façam portadores da Boa Nova de Cristo e agradeço, de modo especial, aos missionários e às missionárias, aos presbíteros «fidei donum», aos religiosos e às religiosas, aos fiéis leigos – cada vez mais numerosos – que, acolhendo a chamada do Senhor, deixaram a própria pátria para servir o Evangelho em terras e culturas diferentes. Mas queria também sublinhar como as próprias Igrejas jovens se estão empenhando generosamente no envio de missionários às Igrejas que se encontram em dificuldade – não raro Igrejas de antiga cristandade – levando assim o vigor e o entusiasmo com que elas mesmas vivem a fé que renova a vida e dá esperança. Viver com este fôlego universal, respondendo ao mandato de Jesus «ide, pois, fazei discípulos de todos os povos» (Mt 28, 19), é uma riqueza para cada Igreja particular, para cada comunidade; e dar missionários nunca é uma perda, mas um ganho. Faço apelo, a todos aqueles que sentem esta chamada, para que correspondam generosamente à voz do Espírito, segundo o próprio estado de vida, e não tenham medo de ser generosos com o Senhor. Convido também os bispos, as famílias religiosas, as comunidades e todas as agregações cristãs a apoiarem, com perspicácia e cuidadoso discernimento, a vocação missionária «ad gentes» e a ajudarem as Igrejas que precisam de sacerdotes, de religiosos e religiosas e de leigos para revigorar a comunidade cristã. E a mesma atenção deveria estar presente entre as Igrejas que fazem parte de uma Conferência Episcopal ou de uma Região: é importante que as Igrejas mais ricas de vocações ajudem, com generosidade, aquelas que padecem a sua escassez.
Ao mesmo tempo exorto os missionários e as missionárias, especialmente os presbíteros «fidei donum» e os leigos, a viverem com alegria o seu precioso serviço nas Igrejas aonde foram enviados e a levarem a sua alegria e esperança às Igrejas donde provêm, recordando como Paulo e Barnabé, no final da sua primeira viagem missionária, «contaram tudo o que Deus fizera com eles e como abrira aos pagãos a porta da fé» (Act 14, 27). Eles podem assim tornar-se caminho para uma espécie de «restituição» da fé, levando o vigor das Igrejas jovens às Igrejas de antiga cristandade a fim de que estas reencontrem o entusiasmo e a alegria de partilhar a fé, numa permuta que é enriquecimento recíproco no caminho de seguimento do Senhor.
A solicitude por todas as Igrejas, que o Bispo de Roma partilha com os irmãos Bispos, encontra uma importante aplicação no empenho das Obras Missionárias Pontifícias, cuja finalidade é animar e aprofundar a consciência missionária de cada batizado e de cada comunidade, seja apelando à necessidade de uma formação missionária mais profunda de todo o Povo de Deus, seja alimentando a sensibilidade das comunidades cristãs para darem a sua ajuda a favor da difusão do Evangelho no mundo.
Por fim, o meu pensamento vai para os cristãos que, em várias partes do mundo, encontram dificuldade em professar abertamente a própria fé e ver reconhecido o direito a vivê-la dignamente. São nossos irmãos e irmãs, testemunhas corajosas – ainda mais numerosas do que os mártires nos primeiros séculos – que suportam com perseverança apostólica as várias formas actuais de perseguição. Não poucos arriscam a própria vida para permanecer fiéis ao Evangelho de Cristo. Desejo assegurar que estou unido, pela oração, às pessoas, às famílias e às comunidades que sofrem violência e intolerância, e repito-lhes as palavras consoladoras de Jesus: «Tende confiança, Eu já venci o mundo» (Jo 16, 33).
Bento XVI exortava: «Que “a Palavra do Senhor avance e seja glorificada” (2 Ts 3, 1)! Possa este Ano da Fé tornar cada vez mais firme a relação com Cristo Senhor, dado que só n’Ele temos a certeza para olhar o futuro e a garantia dum amor autêntico e duradouro» (Carta ap. Porta fidei, 15). Tais são os meus votos para o Dia Mundial das Missões deste ano. Abençoo de todo o coração os missionários e as missionárias e todos aqueles que acompanham e apoiam este compromisso fundamental da Igreja para que o anúncio do Evangelho possa ressoar em todos os cantos da terra e nós, ministros do Evangelho e missionários, possamos experimentar «a suave e reconfortante alegria de evangelizar» (Paulo VI, Exort. ap. Evangelii nuntiandi, 80).

Vaticano, 19 de maio de 2013 — Solenidade de Pentecostes

Outubro Missionário 2013 — Dia Mundial das Missões
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.10.13 | Sem comentários

A missão no Laboratório da fé


Era noite, a rua estava deserta. O frio vagueava por todo o lado. Um velho, descalço e sujo cantava na rua esta canção:

Menino de rua
Perdido na lama escura.
Olhando a lua,
o único gesto de doçura,
que o Criador Te deu.
Estás só, sem ninguém.
A guerra deixou-te órfão,
sem amor de pai nem mãe
à procura de uma mão
que te dê um pouco de céu.
A alegria que me dás,
é o sorriso que não tenho
e que tua alma leda traz
sempre que ao teu encontro venho.
Vou partir!
Levando o teu sorriso.
Um dia voltarei...
Para amar
O que não amei.
Voltarei...
Não para ser mais um
Mas para ser contigo...

Parei para ouvir aquela doce melodia, que me trouxe paz à porta da vida. Não lhe dei moedas. Em silêncio sentei-me ao seu lado.
— A canção é verdadeira, perguntei-lhe eu.
— É, respondeu ele, com um olhar mais triste, do que a noite que nos envolvia.
— Estou a ver que já foi aventureiro.
— Foi à muito tempo. Era eu jovem e sonhador. Andava na universidade e até pensei em ser um grande homem. Parti, como voluntário para a Angola e em 2 meses realizei o maior sonho da minha vida. Amar sem medida, andar com os bolsos vazios e com o coração cheio de felicidade. Dormi na rua, ao lado de crianças abandonadas. Comi com elas, os restos que deitavam no contentor da Mutamba. Senti que não era ninguém e que era tudo ao mesmo tempo. Um dia, num abrigo encontrei o menino mais maravilhoso que conheci até hoje. Chamava-se Jerry, era um nome americano que ele tinha adoptado, quando viu pela primeira vez televisão. Jerry, tinha 10 anos, era engraxador de sapatos e lavava carros em frente à Assembleia Nacional. Ganhava para comer uma baguete com atum. Aquele miúdo era deslumbrante. Tinha uma alegria invulgar e era verdadeiramente companheiro daqueles que tinham tido a mesma sorte que ele. Os pais tinham morrido na guerra. Ele tinha sido levado para o campo de refugiados de Viana, que ficava a 20 quilómetros de Luanda. Como não tinha comida, decidiu fugir para a cidade e ali estava como um dos sobreviventes das noites frias e dos balas sem compaixão... Ensinei-lhe algumas letras e até lhe dei aulas de boas-maneiras, para pedir dinheiro aos senhores ricos que dormiam nos hotéis da cidade. Ele aprendia tudo e pagava os favores que lhe faziam com um sorriso profundo que tocava bem lá dentro... Aprendi muitas coisas com ele. No dia do meu regresso a Portugal fiz-lhe uma promessa, que um dia havia de voltar para sempre. Tenho gravado no meu coração o olhar dele. No dia em que me vim embora, senti que alguém tinha morrido para ele e via o caixão partir. Abanou as mãos para dizer adeus e deixou as lágrimas como sinal de despedida. No percurso que fiz para o aeroporto não disse uma palavra, foram quilómetros de olhares perdidos em recordações que cheiravam a saudade. A noite apoderou-se de mim e levou-me, mais uma vez, a repensar o porquê de partir, quando ainda muito havia para partilhar. A única coisa que me deu ânimo foi a promessa que lhe tinha feito, mas...(as lágrimas lavavam a cara do velho).

Missão no Laboratório da fé, 2013 — Padre João Miguel Torres Campos

— Bonita história! Disse-lhe eu para não o fazer chorar mais.
— Disse bem, história! Porque eu nunca cumpri a promessa que fiz. E isso, marcou para sempre o meu destino. Eu trabalhei durante muitos anos num orfanato, até ao dia em que fui despedido. E com isso, foi pagando um pouco da dívida que tinha para com o Jerry. Amei outros como ele. Gostei da vida que tive. O meu mundo tornou-se mais eloquente quando abri os braços e fui pai e mãe de quem necessitava do meu amor, do meu sorriso e carinho
— A vida tem destas coisas. Nem sempre podemos medir o futuro como queríamos. Não podemos parar no tempo e medir as coisas pelo lado sentimental, temos que deixar falar os acontecimentos que impossibilitaram o cumprimento dessa promessa, mesmo que isso lhe custe muito.
O Jerry, foi para mim, uma forma bonita, completa, de viver a vida. Ele não era noite, mas era sempre madrugada a raiar no nascer de cada dia e que tocava em mim música de felicidade, mesmo quando a tristeza batia à porta da vida. Ninguém como ele me ensinou a viver. Agora deixo-o bailar em mim, mesmo quando já não dançamos a mesma música, embora tenha a certeza que nos tocamos mutuamente. Acredito que ele é a voz e a palavra que nunca irão acabar, por isso ele ainda continua a ser nas minhas canções. Agora canto nesta rua a história que mudou a minha vida. A história do menino de rua, para que outros como eu amem as crianças. Amem os Jerry’s que andam por aí.

Padre João Miguel Torres Campos

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.7.13 | Sem comentários

Virtudes de Maria


A Igreja, procurando a glória de Cristo, torna-se mais semelhante àquela que é seu tipo e sublime figura, progredindo continuamente na fé, na esperança e na caridade, e buscando e fazendo em tudo a vontade divina. Daqui vem igualmente que, na sua ação apostólica, a Igreja olha com razão para aquela que gerou a Cristo, o qual foi concebido por ação do Espírito Santo e nasceu da Virgem precisamente para nascer e crescer também no coração dos fiéis, por meio da Igreja. E, na sua vida, deu a Virgem exemplo daquele afeto maternal de que devem estar animados todos quantos cooperam na missão apostólica que a Igreja tem de regenerar os seres humanos (Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium», 65).

Mistérios a partir do texto da «Lumen Gentium»


  • PRIMEIRO MISTÉRIO: PROCURANDO A GLÓRIA DE CRISTO
Os Padres conciliares lembram que a vida da Igreja está associada à procura da glória de Cristo. Tudo deve ser realizado para glória de Cristo, para glória de Deus. Esta consciência tem de acompanhar cada palavra e cada gesto de todos os membros da Igreja, imitando aquela «que é seu tipo e sublime figura», Maria. A Igreja se não tiver como objetivo procurar a glória de Cristo, mas antes buscar outros interesses ou o seu próprio louvor, coloca-se fora da lógica evangélica, coloca-se fora da sua missão.

  • SEGUNDO MISTÉRIO: PROGREDINDO NA FÉ, NA ESPERANÇA E NA CARIDADE
Maria é para a Igreja modelo de fé, esperança e caridade. Ela precede os cristãos na adesão à palavra. Encoraja-os e guia-nos na esperança. Inspira-os a viver na caridade. Observando a situação da primeira comunidade cristã, descobrimos que a unanimidade dos corações, manifestada à espera do Pentecostes, está associada à presença da Virgem Santa. E graças precisamente à caridade irradiante de Maria é possível conservar em todos os tempos no interior da Igreja a concórdia e o amor fraterno (cf. João Paulo II, Audiência Geral de 3 de setembro de 1997).

  • TERCEIRO MISTÉRIO: NASCER E CRESCER NO CORAÇÃO DOS FIÉIS
Segundo a expressão do Beato mártir carmelita Tito Brandsma, pomo-nos em profunda sintonia com Maria, tornando-nos como Ela transmissores da vida divina: «Também a nós o Senhor envia o seu anjo... também nós devemos receber Deus nos nossos corações, levá-lo dentro dos nossos corações, nutri-lo e fazê-lo crescer em nós de tal forma que ele nasça de nós e viva connosco como Deus-connosco, o Emanuel» (João Paulo II, Mensagem à ordem do Carmelo, a 25 de março de 2001).

  • QUARTO MISTÉRIO: EXEMPLO DE AFETO MATERNAL
A Igreja, na sua missão apostólica, volta o seu olhar para Maria, animada pelo seu afeto maternal. Maria foi uma educadora admirável. Na pessoa de Maria, a Igreja adquire um rosto materno mais concreto. Para compreendermos até que ponto a Igreja nos ama como mãe, basta-nos fixar o olhar da Virgem, que se debruça amorosa e ternamente sobre nós. Graças à maternidade de Nossa Senhora, a maternidade da Igreja torna-se mais real e mais familiar (Jean Galot).

  • QUINTO MISTÉRIO: MISSÃO APOSTÓLICA
O II Concílio do Vaticano na Constituição Dogmática sobre a Igreja põe em evidência expressamente o papel de exemplaridade, desempenhado por Maria em relação à Igreja na sua missão apostólica. Depois de ter cooperado na obra de salvação com a maternidade, com a associação ao sacrifício de Cristo e com a ajuda materna à Igreja nascente, Maria continua a sustentar a comunidade cristã e todos os crentes no generoso empenho pelo anúncio do Evangelho (João Paulo II, Audiência Geral de 3 de setembro de 1997).

  • ORAÇÃO PARA TODOS OS DIAS > > >
  • TEMA GERAL DO MÊS DE MARIA 2013 > > >
© Laboratório da fé, 2013

Maio, mês de Maria, 2013 — Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.5.13 | Sem comentários

A missão no Laboratório da fé


Eram 5h30 da manhã quando bateu à porta da casa velha da missão o mundo despedaçado do Fernando. Vinha «mal doente» da vida. Sentou-se numa velha cadeira e soltou os gritos que moravam dentro de si. Quando alguém está sofrer e vai à casa do mais velho (presbítero) este deve cumprir um velho ritual macua de o ouvir como se ouve o leito de um rio habitado por crocodilos.
Contou-me que durante a noite, quando regressava de casa de familiares encontrou a sua esposa, na intimidade com outro homem. Tal crime teria que ser lavado com sangue dizia-me ele. Na sua tribo quando alguém dorme com a «mulher do dono» deve ser decapitado.
Fernando tinha sido catecúmeno durante mais de 10 anos. Tendo terminado os ritos de iniciação nunca era eleito para o batismo, porque o seu comportamento não era o de um cristão, diziam os anciãos da comunidade. Depois de ter feito várias conversões da sua vida foi eleito para o batismo. Nesse mesmo dia contraiu matrimónio com a sua esposa. Eram casados catolicamente à 14 anos e viviam juntos à mais de 20 anos.
Fernando tinha um enigma dentro de si quando me veio consultar. Se decapitasse aquele homem e despedisse a sua esposa de casa cumpria as regras da tribo e seria honrado por todos. Se perdoasse à sua esposa e ao seu amante revelaria que era um verdadeiro cristão, mas teria que aguentar a troça e as injúrias dos responsáveis da sua tribo. Depois de conversarmos durante algum tempo disse ao Fernando que ele deveria escolher a que família queria pertencer ou à sua tribo ou aos cristãos. A escolha era dele. Não valia ficar no talvez. Passadas três semanas o Fernando morreu de malária.
Fui visitar a sua comunidade no dia em que iam colocar a cruz onde jazia a sua memória. Nestas comunidades cristãs africanas nem todos quando morrem têm direito a cruz no cemitério. Só tem direito quem soube carregar a cruz de Cristo na sua vida e foi fiel aos compromissos do seu batismo. Essa decisão era tomada pelo conselho da comunidade. Nesse dia tive conhecimento da escolha do Fernando. Ele decidiu perdoar à sua esposa e ao seu amante. No cemitério de Marrera a maior cruz é a do Fernando.

Seguir Jesus Cristo — Páscoa — Laboratório da fé

Há um mistério para lá de todos os caminhos, do qual tentamos aproximar-nos. Aquilo que vemos só vale a nossos olhos por aquilo que nos olha. Só podemos pensar e ver a partir da experiência do tocar. Nós somos aquilo que nos aparece, o que nos acontece e que vamos sendo. Neste vamos sendo à necessidade de viver cada história mais por dentro do que por fora. Esta história do Fernando é o mais belo retrato que conheço do seguimento de Jesus Ressuscitado.
A Páscoa fala de tudo o que pulsa, tudo o que vibra, tudo o que chora e canta, tudo o que viceja e floresce, tudo o que é húmus/humano, tudo o que é Terra. Fala da solidão, do desencanto, da angústia, da alegria, do encanto e da entrega. Fala que a dor e a morte, sempre presentes, não têm a última palavra!
A história do Fernando ajuda-me a refletir que é preciso voltar a Jesus Cristo, ao que ele foi, é, quis e quer. Realmente, como escreveu o teólogo Hans Küng, os cristãos são os que acreditam em Jesus Cristo: «São aqueles que fazem parte da comunidade dos que se entregaram e entregam a Jesus e à sua causa e a testemunham com energia como esperança para o mundo».
Trata-se de imitar Cristo. Imitar Cristo não é adotar um aspeto. É repetir um processo ao mesmo tempo ungir o Cristo, como Maria Madalena e ser lacerado, crucificado. O «parecer» cristão é a procura do contacto, da indicialidade, do testemunho carnal, do martírio.
A Páscoa devia tornar-nos próximos uns dos outros. Deveria possibilitar sermos habitados pelo perdão e pelo amor. O ódio é anti-páscoa.
Recordo-me de uma história que ouvi de um velho macua, que em Motobo, no Gabão, os Ku crêem que o único modo de acabar com o sofrimento é salvar uma vida. Se alguém for assassinado, um ano de luto acaba com um ritual que se chama «Julgamento do Afogado». Há uma festa que dura toda a noite junto ao rio. Na alvorada, o assassino é colocado num barco, levado para a água e largado. Fica amarrado para não poder nadar. A família do morto tem então de fazer uma opção. Podem deixá-lo afogar-se ou podem nadar para salvá-lo. Os Ku crêem que se a família deixar o assassino afogar-se terão justiça, mas passarão o resto da vida de luto. Mas se salvarem, se admitirem que a vida nem sempre é justa esse mesmo ato pode afastar o seu sofrimento. A vingança é uma forma preguiçosa de luto.
A Páscoa devia ser um ‘talante’ de vida. Que devia fazer vibrar os afetos, gerar laços vitais, mobilizar a inteligência e interpelar a liberdade. A Páscoa devia tornar-nos próximos uns dos outros. Segundo a sua etimologia, o termo latino «proximus» é um superlativo da palavra «prope» que significa perto. Próximo significa, portanto, «mais perto», «muito perto». É esse o significado que a palavra próximo tem, mais ou menos, em todas as línguas. Contudo há uma mudança de sentido quando se passa da distância para a proximidade, como diz a carta aos Efésios (2, 13), falando do renascimento em Cristo:« Vós, que outrora estáveis longe, agora estais perto (próximos)».
Não sei se estamos mais longe ou mais perto da Páscoa do que os cristãos de Éfeso. O tempo da Páscoa é um tempo diferente. Não é o tempo segmentado de «chrónos», em que se sucedem os dias e as horas, mas um tempo novo e insuspeito, que a Bíblia chama «kairós», que se mede, não pela quantidade, mas pela qualidade, não pelo que passa, mas pela plenitude: trata-se da enchente da Palavra de Deus que, inundando a nossa vida, reclama a nossa resposta amante e transforma a nossa vida em momentos de escolhas difíceis.

Padre João Miguel Torres Campos

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.4.13 | Sem comentários
— Laboratório da fé na missão —

A vida em África é movida pela corrente da aventura, do desprendimento e do carinho que depositamos e recebemos das pessoas. Todos os dias são importantes, mas o domingo reveste-se de um carácter especial.
No mês de Fevereiro, equipa missionária da Missão do Chiúre planeou algumas visitas ao domingo a diversas comunidades. Todas as visitas foram deslumbrantes. Todavia, uma delas marcou-me muito pela sua singularidade. 
No primeiro domingo de Fevereiro, estava destinada a visita à comunidade de Ntonhane. Levantei-me bastante cedo, porque a distância era bastante longa. O Pe. José Marques, um dos missionários que está comigo, continuava doente. A sua doença prolongada, impossibilitou-o de ir visitar a comunidade de Mujipala e mandou avisar que não iria. 
Informaram-me do percurso para chegar até Ntonhane. Avisaram-me, que quando chegasse à aldeia do Chiúre Velho, devia mudar de direcção, junto a umas mangueiras, onde várias mulheres habitualmente vendem mangas. Quando cheguei à aldeia do Chiúre Velho, o meu guia informou-me que a aldeia era enorme e que as casas estavam escondias no meio da mata, o que nos impossibilitava de perguntar a alguém a direcção para Ntonhane. Andei cerca de 40 km à procura das mangueiras e das vendedoras de mangas. Descobri mais tarde, que naquele domingo não foram vender mangas e como todo o percurso tinha mangueiras foi difícil descobrir o verdadeiro caminho. O meu guia de viagem só conhecia o caminho até ao Chiúre Velho. 
Voltamos para trás e quando estávamos a chegar ao início do caminho, que nos induziu em erro, vimos alguém que nos mandou parar. Era o animador de uma comunidade próxima dali, que logo se prontificou a guiar-nos até Ntonhane. 
O caminho era de terra batida. Estava muito degradado e não se viam sinais de outros carros, que tivessem passado por ali nos últimos dias. Andei cerca de 1 hora até chegar à comunidade, que esperava por mim em festa.






Quando cheguei saudei toda a gente. A saudação é para este povo um sinal de alegria e de agradecimento pela visita do padre, por isso, toda a gente quer cumprimentar o padre. Tocar no padre é receber uma benção, segundo os seus costumes. Além dos cristãos, estavam presentes muitos catecúmenos, simpatizantes da Igreja católica, alguns curiosos e bastantes membros da comunidade muçulmana. Os muçulmanos gostam de estar presentes, porque para eles, a visita do padre é importante para toda a aldeia e não só para os cristãos. 
Combinei com os animadores da comunidade o programa da visita. Começamos com uma celebração penitencial, na qual se convidaram os cristãos a reconciliarem-se com Deus. Este grande encontro de reconciliação durou cerca de duas horas. Entretanto, o animador do canto pediu autorização para ensaiar os cânticos com toda a assembleia para a Eucaristia. A animador da comunidade pediu para falar comigo, antes da celebração. Vinha consigo o animador zonal. Notei que ele estava cansado e muito preocupado.

— Sr. Padre a comunidade de Ntonhane está à sua espera, disse-me o animador zonal. 
— Eu estou em Ntonhanne, respondi eu ingenuamente. 
— Não Sr. Padre, está em Mujipala, respondeu ele com um sorriso. 
— Houve confusão!! O animador que veio consigo sabia que um padre vinha para Mujipala, mas não sabia que outro padre iria para Ntonhane. Ora como Mujipala faz parte da zona de Ntonhane, ele pensou que era esta a aldeia que vinha visitar. Alertou o animador da comunidade de Mujaja.
— Mujipala ia ser visitada pelo Pe. José Marques, mas ele continua doente e mandou ontem um recado, por um catequista, disse eu. 
— Como sabe Sr. Padre, ontem houve uma tempestade e o catequista não conseguiu chegar aqui com o recado, disse o animador zonal. 
— Agora não me posso ir embora. Avisem a comunidade de Ntonhane que depois de terminar aqui a visita, vou lá. Entretanto façam a celebração da Palavra, como é costume, que eu depois farei uma celebração penitencial, confissões e distribuição da comunhão.

O animador zonal partiu logo. Alertei os principais responsáveis da comunidade de Mujipala para celebrarmos sem atropelos, mas para não demorarmos muito tempo, porque a comunidade de Ntonhane estava á minha espera. Iniciamos a celebração eucarística com a alegria habitual, que este povo coloca nas coisas de Deus. A celebração durou 2h30m. Não durou muito tempo, para aquilo que é habitual neste tipo de visitas. No fim da Eucaristia, os responsáveis da comunidade apresentaram alguns problemas relacionados com a vida da comunidade. Eu ouvi e aconselhei segundo os princípios do Evangelho. Pediram-me para almoçar, mas tive que recusar, pois os nossos irmãos de Ntonhane estavam á minha espera. Todos compreenderam, pois como alguém disse “os de Ntonhane são também filhos de Deus”. 
Parti com o coração cheio de olhares e sorrisos. Pelo caminho em direcção a Ntonhane ia a pensar no meu atraso de 6 horas e nos 15 Km que ainda tinha que percorrer pelo mato. Como me iriam receber? Iria encontrar a capela com alguém? 
Quando cheguei a Ntonhane os meus olhos deixaram cair algumas lágrimas. Era uma multidão de gente que se tinha colocado de um lado e do outro do caminho. Todos batiam palmas e diziam: “bem-vindo padiri”. Ninguém tinha ido embora, porque todos queriam ver o padre e receber o perdão de Deus. Muitas destas comunidades não viam o padre há mais de 3 anos. 
Saudei individualmente toda a gente. Eram mãos magras e rostos ressequidos pela fome, mas com um sorriso de quem sabe o profundo sentido da vida. Depois de pedir desculpas, pelo meu atraso, iniciei a celebração penitencial. Foram muitos os que receberam o perdão de Deus. 
No fim da celebração, os animadores da comunidade apresentaram um relatório das suas actividades, assim como, os responsáveis dos vários sectores da pastoral. Alguns cristãos apresentaram-me alguns problemas que eram necessários serem resolvidos na presença do padre. 
A noite começava a cair quando o animador zonal me disse que o “almoço” estava pronto. Mataram um leitão para festejar a visita comigo. Comi rodeado de vários representantes da comunidade, que me encheram de alegria pela sua simplicidade e humildade. Muitos esperaram por mim, para me darem os últimos agradecimentos. 
Parti, para a sede da missão, com um gozo interior, que as palavras não conseguem explicar...

Padre João Miguel Torres Campos

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.3.13 | Sem comentários
— comentário ao evangelho do quinto domingo — 

— Evangelho segundo Lucas 5, 1-11

Naquele tempo, estava a multidão aglomerada em volta de Jesus, para ouvir a palavra de Deus. Ele encontrava-Se na margem do lago de Genesaré e viu dois barcos estacionados no lago. Os pescadores tinham deixado os barcos e estavam a lavar as redes. Jesus subiu para um barco, que era de Simão, e pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra. Depois sentou-Se e do barco pôs-Se a ensinar a multidão. Quando acabou de falar, disse a Simão: «Faz-te ao largo e lançai as redes para a pesca». Respondeu-Lhe Simão: «Mestre, andámos na faina toda a noite e não apanhámos nada. Mas, já que o dizes, lançarei as redes». Eles assim fizeram e apanharam tão grande quantidade de peixes que as redes começavam a romper-se. Fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco, para os virem ajudar; eles vieram e encheram ambos os barcos, de tal modo que quase se afundavam. Ao ver o sucedido, Simão Pedro lançou-se aos pés de Jesus e disse-Lhe: «Senhor, afasta-Te de mim, que sou um homem pecador». Na verdade, o temor tinha-se apoderado dele e de todos os seus companheiros, por causa da pesca realizada. Isto mesmo sucedeu a Tiago e a João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. Jesus disse a Simão: «Não temas. Daqui em diante serás pescador de homens». Tendo conduzido os barcos para terra, eles deixaram tudo e seguiram Jesus.

— Pesca abundante

A fama de Jesus tinha-se espalhado por todas as redondezas de Nazaré e, naquele momento, Ele estava a falar para uma multidão sedenta de ensinamentos, no lago de Genesaré, conhecido também como Mar da Galileia. Pela primeira vez, a sua pregação é chamada Palavra de Deus, fonte de vida e ministério da Igreja, anunciada em um ambiente simples e humano como convém ao próprio Deus feito Homem.
A multidão comprimia-se à Sua volta de tal forma que lhe faltava espaço para pregar. Então, Jesus subiu para uma barca que era de Pedro e mandou que a afastassem um pouco da margem para poder falar à multidão que queria ouvi-Lo. A água reflete e espalha a Sua voz fazendo-a chegar até à multidão. É importante notar que, para o povo de Israel, o mar era um símbolo das nações pagãs, porém, o facto de Jesus estar sobre aquelas águas significava que os seus ensinamentos eram para todos, judeus e pagãos!
Terminada a pregação, Jesus pede a Simão (Pedro) para preparar os remos e navegar mar adentro. Aquela não tinha sido uma boa noite para os pescadores, mas Pedro que já conhecia Jesus e O tinha acompanhado em algumas das suas viagens, diante da ordem, resolve fazer o que Ele pediu, apesar do cansaço. Ele conhece o poder de Jesus que tinha curado a sua sogra e tem fé; e juntamente com outros pescadores, tomou as redes nas mãos, confiou e obedeceu. Ao entrar no mar, para lançar mais uma vez as redes, Simão não sabia o que aconteceria. A confiança em Jesus nas coisas do dia a dia prepara o cristão para assumir a vocação em acreditar naquilo que é desconhecido. Numa hora inadequada para a pescaria eles conseguiram pescar tantos peixes que precisaram de chamar outra barca que era de João e Tiago, filhos de Zebedeu, amigos de Pedro, para ajudá-los; e as duas barcas ficaram cheias de peixes. A docilidade e a confiança de Pedro em Jesus foram recompensadas.
Há nesta pesca uma simbologia que é o resultado do ensinamento de Jesus. Pedro diz que entraria no mar em obediência à Palavra de Jesus, ou seja, é a Palavra do Evangelho, luz do dia, que faz com que haja sucesso naquilo que se propõem a fazer. Diante da grande quantidade de peixes recolhidos, Jesus vê uma pesca diferente. Pedro, neste momento reconhece Jesus como ‘Senhor’, e humildemente cai aos seus pés; e é com esta humildade que ele O segue. O seu susto é resultado de uma experiência de Deus que une alegria com medo, o mesmo acontecendo com os outros dois, que se sentiram atraídos a seguir Jesus, como um compromisso, depois de aceitar o chamamento.
Cada um daqueles discípulos será um “novo pescador” para trazer pessoas para o Reino de Deus. Eles já eram pescadores e Jesus não queria que fizessem algo diferente do que já faziam, mas sim, de modo diferente. Então deixaram tudo para fazer algo maior, dar nova direção à vida, colocando-se ao serviço do Senhor.

© Pequeninos do Senhor
© Adaptação de Laboratório da Fé, 2013
— a reprodução deste texto precisa da prévia autorização do autor —



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 10.2.13 | Sem comentários
— Quinto domingo —  10 de fevereiro —

Vocação e Missão... — Este domingo oferece-nos uma passagem evangélica que nos permite concretizar melhor o que temos assinalado nos domingos anteriores. Neste, contemplamos o chamamento de Jesus a Pedro (e aos seus companheiros) e a missão que lhe confia. Nos dois domingos anteriores, contemplávamos a vocação e a missão do próprio Jesus. Agora, é ele quem nos chama e nos envia. Um aspeto particular desta cena é o modo como Jesus chama e envia para a missão. Uma contemplação tranquila do texto leva-nos a descobrir elementos que nos podem ajudar. Por exemplo: o processo de Simão na descoberta da vocação-missão inicia-se através do encontro com Jesus e da escuta da sua palavra, embora não tenha reconhecido ainda como Senhor. Simão, sem dúvida, está já em processo porque reconhece Jesus como Mestre e confia nele. Simão e os seus companheiros entram em ação, confiando na palavra de Jesus; uma ação em equipa que se desenvolve no contexto da vida comum — na vida laboral neste caso —, não numa situação especial (o que é realmente especial é o próprio facto de se colocar em ação). Na experiência da ação há a descoberta de Jesus como Senhor. É neste encontro mais profundo entre Simão e Jesus que o Senhor chama o discípulo e lhe confia a missão.

© Josep Maria Romaguera (Misa dominical)
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 10.2.13 | Sem comentários
— palavra para o quinto domingo —



— Evangelho segundo Lucas 5, 1-11

Naquele tempo, estava a multidão aglomerada em volta de Jesus, para ouvir a palavra de Deus. Ele encontrava-Se na margem do lago de Genesaré e viu dois barcos estacionados no lago. Os pescadores tinham deixado os barcos e estavam a lavar as redes. Jesus subiu para um barco, que era de Simão, e pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra. Depois sentou-Se e do barco pôs-Se a ensinar a multidão. Quando acabou de falar, disse a Simão: «Faz-te ao largo e lançai as redes para a pesca». Respondeu-Lhe Simão: «Mestre, andámos na faina toda a noite e não apanhámos nada. Mas, já que o dizes, lançarei as redes». Eles assim fizeram e apanharam tão grande quantidade de peixes que as redes começavam a romper-se. Fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco, para os virem ajudar; eles vieram e encheram ambos os barcos, de tal modo que quase se afundavam. Ao ver o sucedido, Simão Pedro lançou-se aos pés de Jesus e disse-Lhe: «Senhor, afasta-Te de mim, que sou um homem pecador». Na verdade, o temor tinha-se apoderado dele e de todos os seus companheiros, por causa da pesca realizada. Isto mesmo sucedeu a Tiago e a João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. Jesus disse a Simão: «Não temas. Daqui em diante serás pescador de homens». Tendo conduzido os barcos para terra, eles deixaram tudo e seguiram Jesus.

— Já que o dizes, lançarei as redes

A pesca abundante é precedida de um fracasso total! «Já que o dizes, lançarei as redes» — diz Pedro, depois de denunciar o fracasso. A passagem do fracasso ao sucesso da pesca tem um profundo significado teológico. A atuação, por conta própria, conduz ao fracasso. Aqueles homens alcançam o objetivo, quando atuam em nome de Jesus. «Já que o dizes», isto é, contigo não temos nada a perder mas a ganhar! 
É claro que agir «em nome de Jesus Cristo» significa que temos de viver de acordo com a sua maneira de pensar, de atuar e de falar. Isto é muito diferente e muito mais do que acrescentar o nome de Jesus no final das nossas orações. Porque, quando terminamos as nossas orações dizendo «por Jesus Cristo, nosso Senhor» estamos a envolver a nossa vida pela maneira de ser e de viver do próprio Jesus Cristo. É por ele que rezamos; mas é também por ele e com ele que temos de viver em cada dia. 
«Já que o dizes, lançarei as redes» — tem de ser também a nossa atitude ao começar cada novo dia, cada novo trabalho ou projeto de vida. A atitude de Pedro, que confia na palavra de Jesus, quando, contra toda a lógica, manda lançar as redes a uma hora imprópria, tem muito que se lhe diga! 
As tarefas importantes têm de ser feitas sempre com a confiança num Outro. Temos que nos deixar conduzir pela Vida. Se pensamos que sozinhos somos capazes de tudo, com o pretexto de que sabemos mais do que ninguém o que temos de fazer, estamos a assegurar o nosso fracasso. O que nos transcende, o que está para além do nosso consciente, é muito mais importante do que o pequeníssimo espaço que conseguimos abarcar com o nosso pensamento. Deixar-nos conduzir pelo que é maior do que nós é sinal de verdadeira sabedoria. 
«Já que o dizes, lançarei as redes». Curiosamente Nietzsche, o filósofo que promoveu o ateísmo total, dá-nos razão quando diz: «O ser humano nunca chegou tão longe do que quando ignorava onde lhe levavam os seus passos». Essa foi a atitude de Pedro. E também a atitude de Isaías. E ainda a atitude de Paulo. Ou seja: esta é a atitude certa para quem procura a verdadeira Vida. Só a confiança faz com que o ser humano cresça e amadureça. 
Confio e espero em Jesus Cristo, mesmo quando não vejo frutos imediatos? A confiança não nos isenta de correr riscos e enfrentar dificuldades. Por isso, precisamos de deixar ecoar as palavras de Jesus, que voltam a colocar a confiança no seu lugar. «Não temas». O temor e a vida são incompatíveis. Enquanto continuarmos instalados no medo, nunca teremos a a liberdade mínima indispensável para crescer e amadurecer como ser humanos. Libertar-nos de todos os medos é o primeiro passo para entrarmos no nosso interior e descobrir o que somos realmente. O medo paralisa-nos. Impede qualquer decisão autêntica na direção da verdadeira Vida. 
Se a aproximação a Deus nos dá medo, podemos estar seguros de que esse deus é falso. Quando a religião continua a apostar no medo para fazer cumprir os seus preceitos, está a manipular o Evangelho e a abusar de Deus. O medo paralisa. Converte-nos em pessoas cobardes e temerosas. Mas a confiança, a fé, torna-nos fortes. Dá-nos capacidade para proclamar a presença de Deus na nossa vida. A nossa fé é sempre um convite a ir mais além, a lançar as redes, para alcançar a meta: a máxima proximidade de Deus, viver em Deus.

© Laboratório da fé, 2013

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 10.2.13 | Sem comentários
Terceiro domingo —  27 de janeiro —
 
Começa a missão... — A primeira coisa que temos de ter em conta neste domingo é que Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado, começa a sua missão. Fá-lo no seu próprio ambiente, entre a sua gente, vinculando a Escritura de sempre com o «hoje» que se está a viver. Diante desta cena, somos animados a acompanhar Jesus, a levar a cabo a missão com ele. Este domingo pode ser uma boa ocasião para tomarmos consciência de que estamos em missão! Que estamos sempre em missão; e que estamos em missão sempre com Jesus. E tudo isso acontece no quotidiano, na vida normal de todos os dias. É o «hoje» em que se cumprem as Escrituras, na família, no trabalho, na convivência com os vizinhos, nas associações, eta. É neste «hoje» que Deus se manifesta. É neste «hoje» que começa a nossa missão!

© Josep Maria Romaguera (Misa dominical)
© tradução e adaptação de Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.1.13 | Sem comentários
 — comentário de Marie Noëlle Thabut —

— Evangelho segundo Lucas 1, 1-4; 4, 14-21

Já que muitos empreenderam narrar os factos que se realizaram entre nós, como no-los transmitiram os que, desde o início, foram testemunhas oculares e ministros da palavra, também eu resolvi, depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens, escrevê-las para ti, ilustre Teófilo, para que tenhas conhecimento seguro do que te foi ensinado. Naquele tempo, Jesus voltou à Galileia, com a força do Espírito, e a sua fama propagou-se por toda a região. Ensinava nas sinagogas e era elogiado por todos. Foi então a Nazaré, onde Se tinha criado. Segundo o seu costume, entrou na sinagoga a um sábado e levantou-Se para fazer a leitura. Entregaram-Lhe o livro do profeta Isaías e, ao abrir o livro, encontrou a passagem em que estava escrito: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos e a proclamar o ano da graça do Senhor». Depois enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-Se. Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga. Começou então a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir».

— Do início da narrativa de Lucas ao início da missão de Jesus

Sabemos muito pouco sobre a maneira como os evangelhos foram escritos, e em particular a sua data. Mas podemos deduzir alguns dados precisos a partir do que acabámos de ler.
Houve certamente uma pregação oral antes de os evangelhos terem sido escritos, dado que Lucas diz a Teófilo que pretende proporcionar-lhe o «conhecimento seguro» do que lhe foi transmitido.
Lucas reconhece que não foi testemunha ocular dos acontecimentos; ele apenas pôde informar-se com testemunhas oculares, o que supõe que estariam vivas quando escreve. Podemos por isso supor que a pregação da ressurreição de Cristo começou desde o Pentecostes e que o evangelho lucano foi escrito mais tarde, mas antes da morte das últimas testemunhas presenciais, o que situa a data limite entre os anos 80 e 90 da nossa era.
O excerto que ouvimos este domingo situa-se após o batismo de Jesus e a narração das suas tentações no deserto. Aparentemente tudo corre bem para o novo pregador. Relembro a narrativa de Lucas: «Naquele tempo, Jesus voltou à Galileia, com a força do Espírito, e a sua fama propagou-se por toda a região. Ensinava nas sinagogas e era elogiado por todos».
Naquele dia tudo se anunciava pelo melhor: regressa de viagem e, como todo o bom judeu, chegada a manhã de sábado, vai à sinagoga.
Também não há nada de extraordinário no facto de lhe terem confiado uma leitura, dado que todo o fiel tem o direito de ler as Escrituras. A celebração prossegue, por isso, normalmente... até ao momento em que Jesus lê a leitura do dia que era o texto bem conhecido do profeta Isaías e, no grande silêncio ardente após a leitura, afirma tranquilamente uma enormidade: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir».
Houve certamente um momento de silêncio, o tempo necessário para compreender o que ele queria dizer. Todos na sinagoga esperavam que Jesus fizesse um comentário, como era costume na liturgia judaica, mas não foi o que aconteceu.
É com dificuldade que imaginamos a audácia que representa esta afirmação realmente tranquila de Jesus; de facto, para todos os seus contemporâneos, este texto venerável do profeta Isaías dizia respeito ao Messias. Só o Rei-Messias, quando viesse, poderia permitir-se dizer «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu...».
Desde o início da monarquia o ritual sagrado dos reis compreendia um rito de unção com óleo. Esta unção era o sinal de que o próprio Deus inspirava o rei permanentemente para que ele fosse capaz de cumprir a sua missão de salvar o povo. Dizia-se então que o rei era «mashiah», palavra hebraica que significa «ungido de óleo». É esta palavra que se traduz por "Messias" em português e "Christos" em grego. Ao tempo de Jesus já não havia rei sobre o trono de Jerusalém mas esperava-se que Deus enviasse finalmente o rei ideal que levaria ao seu povo a liberdade, a justiça e a paz. Em particular na Palestina, então ocupada pelos Romanos, esperava-se aquele que livrasse a população da ocupação romana.
Jesus de Nazaré, o filho do carpinteiro, não podia, claramente, pretender ser este Rei-Messias aguardado. Sejamos francos, Jesus nunca deixou de surpreender os seus contemporâneos: ele é verdadeiramente o Messias que esperavam, mas totalmente diferente daquele que era esperado!
Lucas, para ajudar os seus leitores, teve o cuidado desde o início do seu livro de lhes dizer que se tinha informado diligentemente de tudo desde as origens. E, por outro lado, sublinhou na introdução a esta passagem que Jesus estava acompanhado do poder do Espírito, o que era precisamente a característica do Messias. Mas é Lucas, o cristão, quem o afirma, os habitantes de Nazaré não sabem que, realmente, o Espírito de Deus repousa sobre Jesus.
Última nota sobre este evangelho: a citação de Isaías que Jesus assume soa como um autêntico discurso programático: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos e a proclamar o ano da graça do Senhor».
Eis a obra do Espírito através daqueles que ele consagrou. Nós que por vezes procuramos critérios de discernimento, encontramo-los aqui: o que é dito de Cristo vale para todos os confirmados que somos, à nossa humilde medida, bem entendido.

Marie Noëlle Thabut, In Conferência Episcopal Francesa
© SNPC (trad.)



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.1.13 | Sem comentários
Hoje cumpre-se a Escritura. A leitura evangélica deste domingo é formada por uma união de dois fragmentos independentes: o prólogo do evangelho (Lucas 1, 1-4) e o discurso de Jesus na sinagoga de Nazaré (Lucas 4, 14-21). Ambos os textos são programáticos, porque funcionam como um guia de leitura para todo o evangelho.
Imitando o estilo dos historiadores do seu tempo, Lucas coloca um prólogo no início da sua obra, no qual declara o que se propõe escrever, de quem aprendeu, como escreve e que finalidade pretende. O tema do livro é «tudo o que Jesus fez e ensinou» (Atos 1, 1). A fonte onde se inspira são os apóstolos, isto é, as testemunhas oculares. O método utilizado caracteriza-se por três qualidades: investigação completa, exatidão e ordem pedagógica. A finalidade é que o amigo Teófilo e os demais cristãos reconheçam que a sua fé se apoia numa firme realidade histórica. Para Lucas, Jesus não é uma ideia, um mito ou um símbolo revestido de história, mas um personagem enraizado na nossa história, centro e razão da nossa existência.
Lucas inaugura o ministério de Jesus com um episódio localizado na sinagoga de Nazaré. É evidente que ele reelaborou e adaptou a perícope de Marcos (6, 1-6), onde o mesmo episódio conclui a missão de Jesus na Galileia. A Lucas interessa-lhe que a atividade pública de Jesus comece em Nazaré, onde também teve a sua origem (cf. Lucas 1, 26). Deste modo, Lucas 4, 16-21(30) converte-se num texto programático, o «manifesto de Nazaré», que apresenta o programa do que será o ministério de Jesus e também a prefiguração do seu destino.
Lucas descreve cuidadosamente todas as ações de Jesus: chega a Nazaré, entra na sinagoga, levanta-se para ler, abre o livro, enrola-o, entrega-o, senta-se e explica o que tinha lido. É de notar que na explicação Jesus não faz referência à sua pessoa. A passagem de Isaías alude diretamente a Jesus (ele é o Ungido do Senhor), mas o próprio mostra-se receoso em manifestá-lo abertamente. Jesus não comenta o texto de Isaías como nós o faríamos hoje, mas confirma a palavra do profeta tornando atual a sua mensagem: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura» (v. 21). A afirmação fixa-se no hoje, não na sua pessoa, pois a finalidade é que os ouvintes deem conta de que estão a viver um tempo de graça. O hoje inaugura o tempo da salvação.

© Nuria Calduch Benages
© Tradução e adaptação de Laboratório da fé



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    — Evangelho segundo Lucas 1, 1-4; 4, 14-21 > > >

     


    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.1.13 | Sem comentários

    — colaboração do Padre João Miguel Torres Campos —


    — Vaheja

    Quando viu que era eu que estava ali, pediu-me para que eu encostasse o meu ouvido à sua boca, para me comunicar alguma coisa. Falando muito baixinho e pausadamente disse-me: “Padiri, quero me baptizar e comer o Cristo que tu ofereces aos cristãos”. Perante, aquele pedido, que para mim parecia ser o último da sua vida, disse-lhe que ia à missão buscar o pão e o vinho e que não me demoraria muito. > > >

     

    — O Natal em Moçambique

    No meio da savana africana, não há lojas com luzes, não há música nas ruas, não há frio nem hipermercados para se comprar presentes. Não há mesas cheias de bolos, de rabanadas e de champanhe. Não há bacalhau nem bom azeite e vinho. Alguns poderiam dizer que aqui não há Natal. Mas, mesmo longe de casa, dos meus familiares e amigos, nunca vivi o Natal de forma tão profunda. Porque me despedi do supérfluo, daquilo que poderia ajudar a viver melhor o Natal, mas que não é Natal. > > >

    — Na descoberta do Deus verdadeiro

    Nunca pensei que um sacerdote muçulmano e um sacerdote católico conversassem como velhos amigos sobre assuntos que noutros tempos eram blasfémias para ambas as partes. Como é belo entrever no outro crente um irmão a conhecer, respeitar e a amar, para darem – em primeiro lugar naquela terra – um bom testemunho de serena convivência entre filhos de Abraão. > > >

    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.1.13 | Sem comentários
    — A missão no laboratório da fé —

    Vaheja morreu há oito anos. Recordo o dia em que me veio pedir ajuda. Eram 6 horas da manhã, quando abri a porta da minha velha casa paroquial e a vi ali sentada a chorar como uma criança. Era magra e parecia que já não comia à vários dias. Mal ouviu o barulho da porta a abrir-se, disse a choramingar: “Padiri estou só. Não tenho nada, nem mãe, nem irmãos. Não cheguei a conhecer o meu pai. Estou sozinha neste mundo. A única pessoa que tinha, que era a minha tia, morreu ontem à noite”. Olhei para ela e tentei acalmá-la, mas ela estava com demasiada escuridão na sua vida, para entender o pequeno raio de sol, das minhas palavras.
    Continuava ali a chorar e de repente como que a gritar a sua própria perdição, disse: “Quero morrer. Quero morrer depressa. Quero tomar veneno, dá-me dinheiro para comprar a minha morte. Sabes, se tivesse tido um pai e uma mãe como tu tiveste, hoje não teria a minha vida arruinada aos 22 anos. Diz-me, porque é que não tive a graça de ter um pai e uma mãe, como tu tiveste?”. Não tinha palavras para dar uma resposta. Perante a dor de alguém sentimo-nos, muitas vezes, vazios por dentro. Naquele momento, o rosto do meu pai e da minha mãe estavam espelhados nas suas lágrimas. Descobri, mais tarde que ela não queria uma resposta de palavras, mas que o cumprimento da minha missão de pastor fosse a resposta ao seu sofrimento.
    Vaheja, era o seu nome, que em makhua quer dizer “não tem sorte”. Era órfã de pai e de mãe. Ambos tinham morrido de SIDA, quando ela ainda era criança. Foi entregue aos cuidados de uma velha tia. Era uma rapariga inteligente, mas como não tinha dinheiro foi vítima da prostituição. Alguns professores, mesmo que os alunos sejam inteligentes, exigem dinheiro para ficarem aprovados na sua disciplina. As raparigas que não têm dinheiro, oferecem o seu corpo como moeda de troca. Um desses professores, que violou a inocência de Vaheja, estava infectado com HIV/SIDA. Muitas histórias como esta, estão espalhadas por este Moçambique fora. Parece que não há regras e as meninas ficam entregues à sua própria sorte. Depois de conversar um pouco com ela. Levei-a ao hospital para verem qual era verdadeiramente o seu problema. Estaria com malária ou tuberculose, pensei eu naquele momento. Nem sequer, imaginei que poderia estar infectada com o vírus da SIDA. Ficou internada num hospital a 30 Km da sede da missão.
    Passados alguns dias, escreveram-me um bilhete do hospital, que dizia friamente. “Padre, venha buscar a doente que aqui deixou. Ela tem SIDA. Não a queremos aqui.” Fui buscá-la com o animador da caridade, da comunidade cristã, onde ela e a tia tinham vivido. Quando alguém fica muito doente e não tem família é a comunidade cristã, que tem de cuidar dela. Deixei-a na sua antiga casa e pedi a toda a comunidade cristã, que enquanto ela estivesse ali, o sacrário da comunidade era ela. Por isso, deviam visitá-la, alimentá-la, como se fosse o próprio Corpo de Cristo, que estivesse ali exposto para adoração de todos.


    Todas as semanas a comunidade mandava um mensageiro, para me informar como estava Vaheja. Fui visitá-la algumas vezes. Das últimas vezes que a visitei, sabia que ela não duraria muito mais tempo e ela tinha consciência disso. No seu rosto viam-se todos os ossos faceais, como se fosse uma caveira revestida de pele. Mesmo assim, conseguia sorrir. Eu não falava muito, para que ela não se cansasse. Sentava-me na esteira a contemplar aquele Cristo em grande sofrimento.
    Quando viu que era eu que estava ali, pediu-me para que eu encostasse o meu ouvido à sua boca, para me comunicar alguma coisa. Falando muito baixinho e pausadamente disse-me: “Padiri, quero me baptizar e comer o Cristo que tu ofereces aos cristãos”. Perante, aquele pedido, que para mim parecia ser o último da sua vida, disse-lhe que ia à missão buscar o pão e o vinho e que não me demoraria muito.
    Corri a grande velocidade para a sede da missão. Sabia, que não podia perder tempo, pois podia chegar tarde. Quando cheguei à comunidade, já tinham arranjado uma madrinha para a Vaheja e um pequeno altar, que colocaram dentro da sua palhota. Baptizei Vaheja e celebrei a Eucaristia, partilhamos o pão como os discípulos de Emaús. Quando lhe dei o Corpo de Cristo, senti uma lágrima sua a cair nas minhas mãos. No fim, da celebração adormeceu com uma expressão de felicidade gravada no seu rosto. No dia seguinte, morreu nos braços da sua madrinha de baptismo.
    O mundo é muito mais terrível do que imaginamos e as pessoas são muito mais bondosas do que pensamos. Neste Moçambique há tanta gente que dá do melhor de si, para que as Vahejas que aqui existem, tenham um futuro melhor, tenham mais sorte. Este povo tem uma solidariedade que ultrapassa a noção real da palavra.
    Somos capazes de arranjar muitas e muitas coisas para os pobres, de levantar muitas obras para os pobres. No entanto vivemos distantes deles, nunca comemos com eles o pão da amargura, o pão da angústia, o pão da dor, o pão da miséria, o pão da solidão, pão das dificuldades de cada dia, o pão da fome. Senti, que o que Vaheja queria era que eu também comesse o pão do sofrimento com ela. Que fosse no exercício do ministério sacerdotal, que me está confiado, o pai daqueles que não têm ou que precisam dele. Por isso, é que ela me chamava “padiri”, papá, paizinho. Hoje agradeço-te Vaheja por essa grande lição que me ensinaste. Ser pai dos que não têm sorte...

    Padre João Miguel Torres Campos

    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.1.13 | Sem comentários
    No Natal, contemplámos o mistério do Filho de Deus que nasce «abandonado», recusado. E assim se anuncia o seu futuro e a sua missão. Neste tempo após o Natal, celebramos o batismo de Jesus, onde se manifesta esta realidade: Jesus aparece como um entre o povo; mistura-se com a multidão que segue o Batista, aquele asceta do deserto que traz uma voz que ressoa com força e proclama uma esperança para uma religião elitista e caduca, que põe a letra da Lei acima do ser humano. É uma voz que entusiasma, porque é a voz de um verdadeiro profeta. Um profeta que convida à esperança: vem o Messias e começa um tempo novo. Mas também convida à conversão: é preciso mudar, abandonar o legalismo, desinstalar-se, deitar fora o supérfluo, para viver a Boa Nova do Reino que se aproxima.
    Jesus escutava João entre o povo simples: pecadores, pobres e doentes, homens e mulheres cansados, com esperança, mas carregados com o peso da vida, que saíam renovados pelas palavras do Batista. Jesus como todos eles também se quis batizar; não precisava, mas faz o mesmo que todos para carregar os pecados, os problemas, os cansaços daquela gente; quer partilhar os seus medos e esperanças, dores, alegrias e sonhos. Quer libertar as pessoas de tantos jugos com que tinham sido carregadas pelos responsáveis políticos e religiosos do seu tempo. Jesus entra então no Jordão para ser batizado por João; mas em Jesus entra a humanidade inteira, uma humanidade ferida e pecadora; e também uma humanidade crente e cheia de esperança pelo Reino que é inaugurado por Jesus de Nazaré. Ao sair da água, a voz do Pai manifesta que Jesus é o Filho amado, o Filho sobre o qual desce o Espírito para levar por diante a missão de Servo humilde, a missão que já tinha assumido aquando da Encarnação.

    © Equipo «Eucaristía», Verbo Divino
    © Tradução e adaptação de Laboratório da fé

    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.1.13 | Sem comentários
    — Laboratório da fé na missão —

    A missão do chiúre, onde estive, ficava em plena savana africana, a 160 Km da cidade de Pemba, no norte de Moçambique. A comunidade mais longínqua ficava a 120 km da sede da missão. Ali tudo era simples e profundo. Era também um mundo pobre, atormentado por muitas carências...
    Ficar nas aldeias e sentir o calor humano do povo ajudou-me a entender, que a minha presença no meio deles foi um sinal de esperança. Por isso, no meio de tanta miséria, a minha vida teve sentido. Ali, as razões de viver prendem-se ao essencial e àquilo que é prioritário para se ser feliz.
    A vida no mato é amarga e dura... mas os dias são felizes, amassados com lágrimas e suor e regados com alegrias e encantos. São dias de paraíso nas mãos de Deus. Quero-vos contar um pouco como foi o meu primeiro dia de Natal em Moçambique. 

    Saí, de manhã bem cedo, para Ocua, comunidade que ficava a 30 Km da missão. Receberam-me com cânticos, palmas e com um sorriso de quem estava muito feliz. Para estes cristãos, é uma graça de Deus, terem Eucaristia e a presença do padre no dia de Natal. Depois, de cumprimentar os responsáveis pela comunidade e grande parte das pessoas ali presentes, começamos a distribuir tarefas para que a festa fosse um momento de alegria para todos. 
    Iniciamos com a oração da manhã, seguida de uma celebração penitencial. Reconciliaram-se cerca de umas 70 pessoas. A grande maioria, não sabe falar português, fala o dialecto local, que é makhua. Desde que cheguei a Moçambique aprendi bastantes palavras em makhua, o que me permitiu perceber algumas palavras. Tinha um pequeno bloco de notas, com a listagem dos pecados em makhua e alguns conselhos para os poder ajudar a serem mais humanos e melhores cristãos. Enquanto, algumas pessoas celebravam o sacramento da reconciliação, os animadores do canto ensaiavam os cânticos para todos poderem cantar. 
    A Eucaristia, é uma grande festa para este povo. São pobres e miseráveis nos caminhos da vida, mas alegres e felizes na relação com Deus. Estava uma multidão de gente. A capela era demasiado pequena. Celebramos ao ar-livre, debaixo de um cajueiro, por causa do sol. Para que todos se sentissem bem e participassem activamente, fiz todos os diálogos da Eucaristia em makhua. É certo, que antes, pedi-lhes desculpas, por não saber ler, tão bem como eles e para me perdoarem algumas falhas. Todos foram compreensivos e ficaram contentes, pelo meu esforço em pronunciar alguns dos seus sons. A homilia foi feita em português e traduzida para o dialecto local. A grande festa, começou às 9h40 e terminou por volta das 11h30. As danças, os cânticos, os símbolos, os silêncios... foi algo de tão eterno, que mais uma vez, compreendi que ainda sou muito pobre... 

    Terminada a grande festa com Deus e depois de termos saudado o menino Jesus, deu-se início a uma reunião para toda a comunidade. Estas reuniões, eram momentos muito importantes para toda a comunidade. Nelas apresentavam os problemas que os atormentavam. Os discursos foram lidos pelo animador da comunidade e pelo responsável dos jovens. O resto da comunidade permaneceu em silêncio profundo. Olhavam para mim, para o animador paroquial e para o animador zonal, observando a nossa postura, perante as palavras dos seus representantes. Eu escutei com muita atenção, para mais tarde comunicar ao conselho da missão tudo quanto ali foi dito. Aqui, a pastoral comunitária é uma realidade viva. A comunidade interfere seriamente nos diversos problemas que afectam todos. Não existem manifestações nem actos de terrorismo paroquial.

    Os tambores, as danças, as peças teatrais e os cânticos abrilhantaram o resto da manhã, até às 13h15. Estava eu a tirar algumas fotografias, quando me avisaram que o almoço estava pronto, chimá (farinha cozida) com galinha. Não foi nenhum almoço farto, mas o amor que aquela gente colocou naquela refeição alegraram-me tanto que foi como se tivesse comido caviar ou cabrito. Muitos esperaram que eu terminasse a refeição, para se despedirem. Para me apertarem a mão e darem-me um sorriso sincero e profundo. Era esse único presente que me podiam dar e podem ter a certeza que nunca recebi presentes tão grandes. Senti, mais uma vez, o carinho de um povo pobre, mas com um coração muito rico. 

    No meio da savana africana, não há lojas com luzes, não há música nas ruas, não há frio nem hipermercados para se comprar presentes. Não há mesas cheias de bolos, de rabanadas e de champanhe. Não há bacalhau nem bom azeite e vinho. Alguns poderiam dizer que aqui não há Natal. Mas, mesmo longe de casa, dos meus familiares e amigos, nunca vivi o Natal de forma tão profunda. Porque me despedi do supérfluo, daquilo que poderia ajudar a viver melhor o Natal, mas que não é Natal. 
    Aqui as luzes de Natal dão lugar aos milhares de pirilampos que invadem todas as noites a missão; a música das ruas dá lugar ao batuque, que soa durante todas as noites para avisar que o grande Deus vai nascer. A comida farta das mesas dá lugar à farinha cozida (chimá) amassada com amor e lágrimas de alegria, por se festejar o nascimento do grande Deus. As minhas palavras são demasiado pobres para vos dizer todo o encanto de um Natal passado em África, com quem nada tem e tem tudo.

    Padre João Miguel Torres Campos

    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.12.12 | Sem comentários
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