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Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [6]


A segunda parte da GS aborda as reflexões pastorais e orientações que a Igreja quis manifestar sobre «alguns problemas mais urgentes» que afetam profundamente a humanidade, especificamente: «a promoção da dignidade do Matrimónio e da Família»; «a conveniente promoção do progresso cultural»; «a vida económico-social»; «a vida da comunidade política»; «a promoção da paz e a Comunidade Internacional». «O Concílio dirige agora a atenção de todos, à luz do Evangelho e da experiência humana, para algumas necessidades mais urgentes do nosso tempo, que profundamente afetam a humanidade». Sobre cada uma «devem resplandecer os princípios e as luzes que provêm de Cristo e que dirigirão os cristãos e iluminarão todos os humanos na busca da solução para tantos e tão complexos problemas» (GS 46). Neste tema apresentamos o resumo do primeiro capítulo.

O Matrimónio e a Família no mundo atual

A pessoa humana nasce no seio de uma família, querida pelo Criador a partir da união do homem e da mulher, colaboradores na obra da Criação. E cada família deve ser construída sobre a comunhão e o amor, tal qual a Santíssima Trindade, sendo considerada a primeira manifestação da comunidade humana, cuja expressão do amor maior se manifesta na geração de uma nova vida. Com Jesus Cristo, a família alcança nova dimensão no Sacramento do Matrimónio, marcado pela entrega, renúncia e doação que o próprio Jesus Cristo dedicou à humanidade. Neste sentido, Jesus Cristo é o esposo, cuja esposa é a Igreja. Jesus Cristo, aquele que ama, redime e cuida da Igreja, torna-se modelo de relação matrimonial. «Por isso, a família cristã, nascida de um matrimónio que é imagem e participação da aliança de amor entre Cristo e a Igreja, manifestará a todos a presença viva do Salvador no mundo e a autêntica natureza da Igreja, quer por meio do amor dos esposos, quer pela sua generosa fecundidade, unidade e fidelidade, quer pela amável cooperação de todos os seus membros» (GS 48). Por conseguinte, para a Igreja, o Matrimónio e a Família são instituições fundamentais para a preservação da vida e para a constituição e a manutenção da sociedade, por isso se compromete na defesa contra a poligamia, o divórcio, o egoísmo, o hedonismo, e quaisquer «práticas ilícitas contra a geração». E afirma, ainda, que as condições económicas, sociais e políticas também causam diversas perturbações na família e na sociedade. «Por tal motivo, o Concílio, esclarecendo alguns pontos da doutrina da Igreja, deseja ilustrar e robustecer os cristãos e todos os que se esforçam por proteger e fomentar a nativa dignidade do estado matrimonial e o seu alto e sagrado valor» (GS 47).

O amor e a fecundidade

«A Palavra de Deus convida repetidas vezes os noivos a alimentar e robustecer o seu noivado com um amor casto, e os esposos a sua união com um amor indiviso. [...] Este amor tem a sua expressão e realização peculiar no ato próprio do matrimónio» (GS 49). Ora, «os filhos são, sem dúvida, o maior dom do matrimónio e contribuem muito para o bem dos próprios pais. No entanto, o matrimónio não foi instituído só em ordem à procriação da prole. A própria natureza da aliança indissolúvel entre as pessoas e o bem da prole exigem que o mútuo amor dos esposos se exprima convenientemente, aumente e chegue à maturidade. E por isso, mesmo que faltem os filhos, tantas vezes ardentemente desejados, o matrimónio conserva o seu valor e indissolubilidade, como comunidade e comunhão de toda a vida» (GS 50).

O amor e o respeito pela vida

«Quando se trata de conciliar o amor conjugal com a transmissão responsável da vida, a moralidade do comportamento não depende apenas da sinceridade da intenção e da apreciação dos motivos; deve também determinar-se por critérios objetivos, tomados da natureza da pessoa e dos seus atos; critérios que respeitem, num contexto de autêntico amor, o sentido da mútua doação e da procriação humana. Tudo isto só é possível se se cultivar sinceramente a virtude da castidade conjugal» (GS 51).

O progresso e a promoção do Matrimónio e da Família 

A Igreja entende a família como uma escola de humanização que orienta os filhos para serem capazes de seguir com responsabilidade a sua vocação. Por isso, exorta a sociedade, os cientistas, e especialmente todos os cristãos a promoverem a dignidade do Matrimónio e da Família, a fim de garantir que a sociedade possa se perpetuar segundo os valores da vida. «Protejam-se também e ajudem-se convenientemente, por meio duma previdente legislação e com iniciativas várias, aqueles que por infelicidade não beneficiam duma família» (GS 52).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.10.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO VIGÉSIMO SÉTIMO


Neste «domingo das famílias», dia em que (re)começa o Sínodo dos Bispos, a Palavra de Deus recorda o fundamento familiar associado ao projeto divino: a criação do ser humano, homem e mulher (primeira leitura). E o salmista canta a felicidade oferecida por Deus, dá graças pela felicidade conjugal (salmo 127). Em continuidade, Jesus Cristo confirma a magnanimidade do amor que une o homem e a mulher: faz deles «uma só carne»; é um amor indissolúvel (evangelho). Porque nos amou com perfeição (segunda leitura), Jesus Cristo não impõe algo impossível de viver, mais convida a segui-lo pelo caminho exigente da verdadeira felicidade.

«Os dois serão uma só carne»
A primeira leitura proposta para o vigésimo sétimo domingo (Ano B) situa-se na segunda narrativa da Criação, no livro do Génesis. Depois do relato solene, no primeiro capítulo, estruturado em sete dias, nos quais Deus, através da Palavra, criou o Universo, o segundo capítulo apresenta uma perspetiva diferente. Neste, Deus atua como um oleiro que modela todos os seres criados.
Importa salientar dois aspetos. O primeiro é óbvio, mas nunca é demais repeti-lo: não se trata dum «tratado de biologia», pelo que qualquer tentativa de explicar a origem da mulher a partir do homem não tem razão de ser. O segundo é que também não se trata dum «tratado de psicologia», pelo que é errado usar o texto para justificar uma suposta primazia do homem sobre a mulher.
O que está verdadeiramente em causa, tal como no primeiro relato, é a afirmação de que Deus é o Criador e o ser humano é uma criatura: homem e mulher, diferentes, mas complementares. Trata-se duma narração simbólica, expressiva, reflexo da literatura semítica mais antiga, que propõe uma reflexão teológica e antropológica.
Neste trecho, o homem é convidado a atribuir um nome a «todos os seres vivos» criados por Deus; mas não encontra outro ser «semelhante a ele» para o «auxiliar» e lhe fazer companhia. Surge de novo a iniciativa divina: tomou uma parte do homem («costela») e dela «formou» uma companheira, a mulher. Com um grito de entusiasmo, o homem reconhece alguém verdadeiramente como ele, alguém com quem pode partilhar a vida e dar-lhe sentido. É um dom de Deus Criador!
O texto original hebraico usa um jogo de palavras — homem (ish) e mulher (ishah) — para expressar a semelhança e a diferença entre ambos. A tradução esquece este (importante) jogo de palavras que expressa uma origem comum, ao mesmo tempo que aponta para um destino também comum: «os dois serão uma só carne».

Este domingo começa o Sínodo dos Bispos sobre a família: «A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo». É mais uma bela ocasião para pedir ao Espírito Santo que ilumine a mente e o coração dos participantes para que, juntamente com o Papa, sejam capazes de encontrar caminhos adequados para propor a vocação e a missão da família, no contexto atual, segundo a criatividade evangélica: «o anúncio do Evangelho da família constitui uma urgência para a nova evangelização».

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo vigésimo sétimo (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.10.15 | Sem comentários

Viver a fé! [18]


A segunda parte do Compêndio da Doutrina Social da Igreja começa com a referência à família como «célula vital da sociedade» (números 209 a 220). Este (quinto) capítulo desenvolve-se em dois pontos que são apresentados neste tema: «A família, primeira sociedade natural» (números 209 a 214); «O matrimónio, fundamento da família» (números 215 a 220).

A família, primeira sociedade natural

Os primeiros textos da Sagrada Escritura (os primeiros dois capítulos do livro dos Génesis) sublinham a «importância e a centralidade da família, em vista da pessoa e da sociedade. [...] A família delineia-se, no desígnio do Criador, como ‘lugar primário da “humanização” da pessoa e da sociedade’ e ‘berço da vida e do amor’» (209). O mesmo se verifica em muitos outros textos bíblicos (do Antigo Testamento). E também «Jesus nasceu e viveu numa família concreta, acolhendo todas as características próprias desta vida, e conferiu uma excelsa dignidade ao instituto matrimonial, constituindo-o como sacramento da nova aliança (cf. Mateus 19, 3-9). Nesta perspetiva, o casal encontra toda a sua dignidade e a família a sua própria solidez» (210). Assim, «iluminada pela luz da mensagem bíblica, a Igreja considera a família a primeira sociedade natural, titular de direitos próprios e originários, e põe-na no centro da vida social [...], enquanto lugar primário de relações interpessoais, célula primeira e vital da sociedade» (211).

A importância da família para a pessoa

Em primeiro lugar, «a família é importante e central em relação à pessoa»: lugar onde o ser humano «nasce e cresce». É «no clima de natural afeto que liga os membros de uma comunidade familiar, as pessoas são reconhecidas e responsabilizadas na sua integralidade» (212).

A importância da família para a sociedade

«A família, comunidade natural na qual se experimenta a sociabilidade humana, contribui de modo único e insubstituível para o bem da sociedade. [...] Uma sociedade à medida da família é a melhor garantia contra toda a deriva de tipo individualista ou coletivista, porque nela a pessoa está sempre no centro da atenção enquanto fim e nunca como meio» (213). Por isso, «há que afirmar a prioridade da família em relação à sociedade e ao Estado. [...] A família não é, portanto, para a sociedade e para o Estado; antes a sociedade e o Estado são para a família. Qualquer modelo social que pretenda servir ao bem do homem não pode prescindir da centralidade e da responsabilidade social da família. A sociedade e o Estado, nas suas relações com a família, têm o dever de se ater ao princípio da subsidiariedade» (214).

O valor do matrimónio

«A família tem o seu fundamento na livre vontade dos cônjuges de se unirem em matrimónio, no respeito pelos significados e pelos valores próprios deste instituto, que não depende do homem, mas do próprio Deus: ‘[...] O próprio Deus é o autor do matrimónio, dotado de diversos bens e fins’» (215). Por isso, «nenhum poder pode abolir o direito natural ao matrimónio nem modificar-lhe as características e a finalidade» (216). «O matrimónio tem como traços característicos: a totalidade, por força da qual os cônjuges se doam reciprocamente em todas as componentes da pessoa, físicas e espirituais; a unidade, que os torna ‘uma só carne’; a indissolubilidade e a fidelidade que a doação recíproca definitiva exige; a fecundidade à qual ela naturalmente se abre» (217). Sendo certo que «o matrimónio, na sua verdade ‘objetiva’, está ordenado à procriação e à educação dos filhos [...], porém, não foi instituído unicamente em vista da procriação: o seu caráter indissolúvel e o seu valor de comunhão permanecem mesmo quando os filhos, ainda que vivamente desejados, não chegam a completar a vida conjugal» (218).

O sacramento do matrimónio

«O matrimónio, enquanto sacramento, é uma aliança de um homem e uma mulher no amor», cuja sacramentalidade promana «do amor esponsal de Cristo pela Igreja, que mostra a sua plenitude na oferta consumada na Cruz» (219). «O sacramento do matrimónio assume a realidade humana do amor conjugal em todas as implicações e ‘habilita e empenha os esposos e os pais cristãos a viverem a sua vocação’ [...]. A dimensão natural do seu amor é constantemente purificada, consolidada e elevada pela graça sacramental. Deste modo, os cônjuges cristãos, para além de se ajudarem reciprocamente no caminho de santificação, convertem-se em sinal e instrumento da caridade de Cristo no mundo. Com a sua própria vida, eles são chamados a ser testemunhas e anunciadores do significado religioso do matrimónio» (220).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.2.15 | Sem comentários

Mistério da fé! [40]


Os sinais e símbolos (cf. tema 3) ocupam um lugar importante no contexto da vida humana; o mesmo acontece no contexto litúrgico. Por isso, dedicamos este tema à explicação dos sinais e símbolos associados ao Sacramento do Matrimónio. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Cântico dos Cânticos 2, 8-17; Catecismo da Igreja Católica (CIC), números 1638 a 1651]

«O meu amado é para mim e eu para ele»

— declara a «amada» no livro do Cântico dos Cânticos. Trata-se de um «canto de admiração e de um grande amor entre uma mulher e um homem, onde o desejo e o corpo fazem parte do jogo de sedução e fruição» (Bíblia Sagrada, Introdução ao Livro do Cântico dos Cânticos, Difusora Bíblica, 1051). De facto, ao longo de todo o livro se dá a conhecer a grandeza do amor entre os esposos, um amor que, ao concluir o livro, se apresenta como «forte como a morte» (capítulo 8, versículo 6).

Aliança (anel)

A aliança ou anel é uma «peça circular, de ouro, prata ou outro material nobre, que se coloca à maneira de argola num dedo, chamado por isso anular ou anelar. [...] São vários os simbolismos que se podem dar à imposição do anel: sujeição, pertença, firmeza, fidelidade. Por isso, se utilizou sobretudo para expressar a atitude dos que contraem matrimónio [...]. Ao longo dos séculos, não foi uniforme a interpretação deste sinal. Por exemplo, no Ritual anterior ao atual (desde 1614) só se impunha o anel à noiva, não ao noivo. Poderia entender-se como se, só a ela, se lhe pedisse fidelidade, ou ainda pior, que ela ‘pertencia’ ao marido. No atual Ritual do Matrimónio, como no rito hispânico antigo, tanto o noivo como a noiva impõem-se mutuamente o anel. [...] O anel entre os esposos cristãos tem uma referência acrescentada ao amor nupcial e à aliança entre Cristo e a sua Igreja: não é estranho, portanto, que o anel nupcial se chame também ‘aliança’» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia», ed. Paulinas, Prior Velho, 2007, 30). Em qualquer das três orações propostas para a bênção das alianças está expresso o seu sentido: ser sinal de amor e de fidelidade (cf. Ritual do Matrimónio, 66). Por isso, a seguir, os esposos dizem um ao outro: «recebe esta aliança como sinal do meu amor e da minha fidelidade. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (Ritual do Matrimónio, 67). A entrega mútua da aliança é sinal e símbolo do Matrimónio pois no ato da entrega e no objeto entregue são evocados três aspetos essenciais: unidade; indissolubilidade; fidelidade.

Unidade e Indissolubilidade

«Pela sua própria natureza, o amor dos esposos exige a unidade e a indissolubilidade da sua comunidade de pessoas, a qual engloba toda a sua vida: ‘assim, já não são dois, mas uma só carne’ (Mateus 19, 6). ‘Eles são chamados a crescer sem cessar na sua comunhão, através da fidelidade quotidiana à promessa da mútua doação total que o Matrimónio implica’. Esta comunhão humana é confirmada, purificada e aperfeiçoada pela comunhão em Jesus Cristo, conferida pelo sacramento do Matrimónio; e aprofunda-se pela vida da fé comum e pela Eucaristia» (CIC 1644). Assim, a Igreja destaca a unidade e a indissolubilidade do Matrimónio através de três razões fundamentais: «Primeiro, porque corresponde à essência do amor entregar-se mutuamente sem reservas. Depois, porque ele é imagem da incondicional fidelidade de Deus à Sua Criação. Finalmente, porque ele representa a entrega de Cristo à Sua Igreja» (Catecismo Jovem da Igreja Católica [YOUCAT], 263).

Fidelidade

«Pela sua própria natureza, o amor conjugal exige dos esposos uma fidelidade inviolável. Esta é uma consequência da doação de si mesmos que os esposos fazem um ao outro. O amor quer ser definitivo. Não pode ser ‘até nova ordem’. ‘Esta união íntima, enquanto doação recíproca de duas pessoas, tal como o bem dos filhos, exigem a inteira fidelidade dos cônjuges e reclamam a sua união indissolúvel’» (CIC 1646).

«No sacramento do Matrimónio há um desígnio deveras maravilhoso! E realiza-se na simplicidade e até na fragilidade da condição humana. Bem sabemos quantas dificuldades e provas enfrenta a vida de dois esposos... [...] Quando o esposo reza pela esposa, e a esposa ora pelo esposo, aquela união revigora-se; um reza pelo outro. [...] Eu aconselho sempre aos cônjuges: não deixeis que termine o dia em que discutistes, sem fazer as pazes. Sempre! [...] É suficiente um pequeno gesto, uma carícia... E amanhã tudo recomeça! Esta é a vida. É preciso levá-la adiante assim, levá-la em frente com a coragem de querer vivê-la juntos. E isto é grandioso, é bonito!» (Francisco, Audiência Geral de 2 de abril de 2014).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.7.14 | Sem comentários

Mistério da fé! [39]


O Sacramento do Matrimónio associa a si aspetos que devem ser tidos em conta, na preparação, na celebração e até depois da celebração. Quem, como, quando e onde — são questões que sintetizam alguns desses pontos. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Efésios 5, 21-33; Catecismo da Igreja Católica (CIC), números 1621 a 1637]

«Como Cristo amou a Igreja»

— escreve Paulo, na Carta aos Efésios, para apresentar o amor entre os esposos. «Isto significa que o Matrimónio corresponde a uma vocação específica e deve ser considerado uma consagração: o homem e a mulher são consagrados no seu amor. Os esposos são revestidos de uma autêntica missão, para que possam tornar visível, a partir das realidades simples e ordinárias, o amor com que Cristo ama a sua Igreja, continuando a dar a vida por ela na fidelidade e no serviço» (Francisco, Audiência Geral de 2 de abril de 2014).

Quem pode celebrar o matrimónio?

De acordo com as normas universais da Igreja Católica (cf. Código de Direito Canónico, 1083 § 1), o matrimónio pode ser celebrado entre um homem (com mais de 16 anos) e uma mulher (com mais de 14 anos). Em Portugal, o sacramento do matrimónio tem implicações civis, pelo que a idade mínima, para ambos os sexos, é de 16 anos, tendo em conta que os menores (entre os 16 e os 18 anos) têm obrigatoriamente de apresentar uma autorização dos pais ou  encarregados de educação (tutores). Em todos os casos, pelo menos um dos noivos precisa de ter sido batizado e, recomenda-se (cf. Ritual da Celebração do Matrimónio. Preliminares, 18), tenha completado a Iniciação Cristã (Batismo, Confirmação, Eucaristia). Isto significa que se pode celebrar o matrimónio entre um/a católico/a e uma pessoa que não seja católica. «A diferença de confissão religiosa entre os cônjuges não constitui um obstáculo insuperável para o Matrimónio» (CIC 1634): entre um/a católico/a e um/a batizado/a não católico/a designa-se como «matrimónio misto»; entre um/a católico/a e um/a não-baptizado/a designa-se como «matrimónio com disparidade de culto». Além do que foi referido, é necessário ter em conta outras situações de exceção que permitem ou impedem de celebrar o sacramento do matrimónio. Por isso, para conhecer e/ou aprofundar todas normas relativos ao sacramento do matrimónio recomenda-se a consulta do Código de Direito Canónico [versão em língua portuguesa disponível na internet: http://bit.ly/18Dxmwl] e do Código Civil Português.

Quem são os ministros do matrimónio?

Este é o único sacramento em que os ministros são, um para o outro, o homem e a mulher: «segundo a tradição latina, são os esposos quem, como ministros da graça de Cristo, mutuamente se conferem o sacramento do Matrimónio, ao exprimirem, perante a Igreja, o seu consentimento» (CIC 1623).

Como se celebra o matrimónio?

A celebração do matrimónio deve, em regra, acontecer com a participação da comunidade. No mínimo, além do representante da Igreja, requer-se a presença de duas testemunhas. Em primeiro lugar, os noivos são interrogados sobre a sua disposição pessoal em assumir as responsabilidades do sacramento do matrimónio: presentes de livre vontade e de todo o coração; decididos a viver e a respeitar o amor mútuo ao longo de toda a vida; receber e educar os filhos como dom de Deus. Depois, prometem fidelidade mútua ‘na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias’ da sua vida. O representante da Igreja confirma o consentimento e abençoa as alianças que, em seguida, os noivos entregam um ao outro como sinal de amor e de fidelidade. Por fim, é-lhes concedida a bênção nupcial.

Quando se pode celebrar o matrimónio?

Quando se reúnem as condições exigidas pelo direito canónico e pelo direito civil e depois de obtidas as respetivas licenças (eclesiástica e civil). Recomenda-se que haja um tempo de preparação dos noivos, com os quais se pode decidir sobre as propostas previstas no Ritual. Na escolha da data, «evite-se absolutamente a celebração do Matrimónio na Sexta-feira da Paixão do Senhor e no Sábado Santo» (Preliminares, 32).

Onde se pode celebrar o matrimónio?

É conveniente que a celebração aconteça na paróquia de um dos nubentes (cf. Preliminares, 22). Não se trata de uma indicação exclusiva: a celebração pode ocorrer noutro lugar de culto público (capela, igreja, santuário, basílica) desde que se obtenha a licença do respetivo bispo diocesano.

«A partir do momento em que se celebra, o sacramento do matrimónio é um dom a descobrir e a atualizar dia a dia» (Carlo Maria Martini, «O corpo», Paulinas, Prior Velho, 2003, 66).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 10.7.14 | Sem comentários

Mistério da fé! [38]


«Pela sua própria natureza, a instituição matrimonial e o amor conjugal estão ordenados à procriação e à educação dos filhos, que constituem o ponto alto da sua missão e a sua coroa» (Catecismo da Igreja Católica [CIC], 1652). O matrimónio é o sacramento da geração da vida. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Génesis 1, 26-31; Catecismo da Igreja Católica, números 1652 a 1666]

«Crescei e multiplicai-vos»

— é o mandato confiado pelo Criador ao ser humano, segundo o relato do primeiro capítulo do livro do Génesis. Estamos no sexto dia da Criação. Deus decide criar um ser que seja sua «imagem e semelhança»: «Deus disse: ‘Façamos o ser humano à nossa imagem, à nossa semelhança’ [...]. Ele os criou homem e mulher» (versículos 26 e 27). Recordemos que «os primeiros capítulos do Génesis são uma meditação sapiencial sobre o ser humano nas suas três dimensões fundamentais: com Deus, com o mundo, com os seus semelhantes» (tema 37). Neste contexto, o homem e a mulher, iguais em dignidade, são chamados à fecundidade, à geração. «Com a criação do homem e da mulher à sua imagem e semelhança, Deus coroa e leva à perfeição a obra das suas mãos: Ele chama-os a uma participação especial do seu amor e do seu poder de Criador e de Pai, mediante uma cooperação livre e responsável deles na transmissão do dom da vida humana: ‘‘Deus abençoou-os e disse-lhes: ‘crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra’’’. Assim a tarefa fundamental da família é o serviço à vida. É realizar, através da história, a bênção originária do Criador, transmitindo a imagem divina pela geração de homem a homem (João Paulo II, Exortação Apostólica sobre a função da família cristã no mundo de hoje — «Familiares Consortio» [FC], 28).

Família

O Matrimónio é o sacramento da família. Esta tem o seu início na união entre o homem e a mulher e prolonga-se na geração e na educação dos filhos. «Os filhos são, sem dúvida, o maior dom do matrimónio e contribuem muito para o bem dos próprios pais» (Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual — «Gaudium et Spes» [GS], 50). Assim atestam os vários documentos da Igreja sobre o matrimónio e a família: «A fecundidade é o fruto e o sinal do amor conjugal, o testemunho vivo da plena doação recíproca dos esposos: ‘O autêntico culto do amor conjugal e toda a vida familiar que dele nasce, sem pôr de lado os outros fins do matrimónio, tendem a que os esposos, com fortaleza de ânimo, estejam dispostos a colaborar com o amor do Criador e Salvador, que por meio deles aumenta cada dia mais e enriquece a família’» (FC 28). Neste sentido, «a fecundidade é participação no mistério de Deus como fonte de vida em si mesmo e fora de si, no mistério do amor trinitário. Outrora, a fecundidade era uma bênção, mesmo económica. O sentido profundo é que o amor entre dois é princípio de vida nova, outra, de novo amor. O filho testemunha a fecundidade deste amor e exige, para viver e crescer bem, que continue aquele dom de si que está na sua origem. Um amor voluntariamente estéril não é verdadeiro amor; é, antes, um egoísmo a dois. E, contudo, a sociedade ocidental é cada vez mais estéril, tem cada vez mais medo de dar a vida. Neste contexto, é urgente descobrir o significado autêntico da procriação, e da paternidade e maternidade responsáveis» (Carlo Maria Martini, «O corpo», Paulinas, Prior Velho 2003, 68-69). Além disso, «a fecundidade do amor conjugal não se restringe somente à procriação dos filhos, mesmo que entendida na dimensão especificamente humana: alarga-se e enriquece-se com todos aqueles frutos da vida moral, espiritual e sobrenatural que o pai e a mãe são chamados a doar aos filhos e, através dos filhos, à Igreja e ao mundo» (João Paulo II, Exortação Apostólica sobre a função da família cristã no mundo de hoje — «Familiares Consortio», 28). Por outro lado, a Igreja não deixa de lembrar que o matrimónio não foi instituído apenas tendo em vista a geração dos filhos. «Os esposos a quem Deus não concedeu a graça de ter filhos podem, no entanto, ter uma vida conjugal cheia de sentido, humana e cristãmente falando. O seu Matrimónio pode ser foco duma fecundidade caritativa, de acolhimento e de sacrifício» (CIC 1654).

A família manifesta-se plenamente na união matrimonial do homem e da mulher: o «eu» e o «tu» abrem-se à comunhão do «nós» que, em si, já constitui um núcleo familiar. «E por isso, mesmo que faltem os filhos, tantas vezes ardentemente desejados, o matrimónio conserva o seu valor e indissolubilidade, como comunidade e comunhão de toda a vida» (GS 50).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.7.14 | Sem comentários

Mistério da fé! [37]


«O Matrimónio assenta no consentimento dos contraentes, quer dizer, na vontade de se darem mútua e definitivamente, com o fim de viverem uma aliança de amor fiel e fecundo» (Catecismo da Igreja Católica [CIC], 1662). O Matrimónio é, por excelência, o sacramento do amor. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Génesis 2, 18-24; Catecismo da Igreja Católica (CIC), números 1601 a 1620]

«Os dois serão uma só carne»

— refere o autor do livro do Génesis sobre a união matrimonial entre o homem e a mulher. Os primeiros capítulos do Génesis são uma meditação sapiencial sobre o ser humano nas suas três dimensões fundamentais: com Deus, com o mundo, com os seus semelhantes. O segundo capítulo descreve o projeto de Deus sobre a Humanidade e sobre a realidade criada: um plano a transbordar de harmonia. Neste projeto, a criação do ser humano surge como corolário de toda a obra divina. No segundo capítulo, fica claro que o ser humano foi criado para a relação: «o homem deixará o pai e a mãe, para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne». A expressão «costela do homem» (versículos 21 e 22) usada para designar a mulher expressa a profundidade da relação humana. Assim, o masculino (homem) e o feminino (mulher) descobrem-se mutuamente como seres criados por Deus com a mesma dignidade e grandeza. Neste segundo capítulo destaca-se a relação entre os dois, enquanto que, no primeiro capítulo, evidencia a dignidade de ambos: «Deus disse: ‘Façamos o ser humano à nossa imagem, à nossa semelhança’ [...]. Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher» (capítulo 1, versículos 26 e 27). A possibilidade de comunhão é tão profunda que passam a ser «uma só carne».

Matrimónio

O Matrimónio é uma «íntima comunhão (comunidade) de vida e de amor» — assim o designam vários documentos da Igreja, atribuindo a sua origem a Deus (cf., por exemplo, a Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual — «Gaudium et Spes», 48). Aliás, «todas as religiões deram um sentido sagrado à união do homem e da mulher, origem da vida e colaboração explícita com a obra criadora de Deus» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia», ed. Paulinas, Prior Velho, 2007, 177). Deus é o autor do matrimónio porque grava no coração do homem e da mulher a capacidade (e também a responsabilidade) do amor e da comunhão. «Desde a origem, a Bíblia mostra que o casamento não é um dado natural sem mais, algo que Deus teria criado como todas as outras coisas. [...] A Bíblia parece sugerir que é exatamente nesta dualidade de amor que se deve ver a ‘imagem e semelhança de Deus’. [...] Não é por sua própria iniciativa ou impelidos pela paixão que se dão um ao outro; não: é o próprio Deus quem os dá um ao outro» (Godfried Danneels, «A alegria de uma pertença», ed. Lucerna, Cascais 2014, 112).

Amor

«A imagem de Deus é o casal no matrimónio: o homem e a mulher; não só o homem, não somente a mulher, mas os dois juntos. Esta é a imagem de Deus: o amor, a aliança de Deus connosco está representada na aliança entre o homem e a mulher. [...] Somos criados para amar, como reflexo de Deus e do seu amor. Na união conjugal o homem e a mulher realizam esta vocação no sinal da reciprocidade e da comunhão de vida plena e definitiva. Quando um homem e uma mulher celebram o sacramento do Matrimónio, Deus, por assim dizer, ‘espelha-se’ neles, imprime neles os seus lineamentos e o caráter indelével do seu amor. O matrimónio é o ícone do amor de Deus por nós. Com efeito, também Deus é comunhão: as três Pessoas do Pai, Filho e Espírito Santo vivem desde sempre e para sempre em unidade perfeita. É precisamente nisto que consiste o mistério do Matrimónio: dos dois esposos Deus faz uma só existência. A Bíblia usa uma expressão forte e diz ‘uma só carne’, tão íntima é a união entre o homem e a mulher no matrimónio! Eis precisamente o mistério do matrimónio: o amor de Deus reflete-se no casal que decide viver junto. Por isso, o homem deixa a sua casa, a casa dos seus pais, e vai viver com a sua mulher, unindo-se tão fortemente a ela que os dois se tornam — reza a Bíblia — uma só carne» (Francisco, Audiência Geral de 2 de abril de 2014).

«Assim como o Batismo permite reconhecer a chamada a tornar-se, em Cristo, filhos de Deus, assim também o sacramento do Matrimónio permite reconhecer a palavra de amor que faz com que um homem e uma mulher sejam uma só carne» (Carlo Maria Martini, «O corpo», Paulinas, Prior Velho 2003, 64).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.6.14 | Sem comentários
La Biblia compartida — blogue de Javier Velasco-Arias e Quique Fernández

Lemos em 1Coríntios 7, 3-4: «O marido cumpra o dever conjugal para com a sua esposa, e a esposa faça o mesmo para com o seu marido. A esposa não pode dispor do próprio corpo, mas sim o marido; e, do mesmo modo, o marido não pode dispor do próprio corpo, mas sim a esposa».
Paulo escreve uma das páginas mais belas da Bíblia sobre o matrimónio. Os versículos 3-4 são de uma grande beleza: proclamam a relação de igualdade entre o homem e a mulher, no matrimónio. Nos dois versículos utiliza-se o advérbio grego «omoios» (o mesmo, de igual maneira, igualmente) para comentar como hão de ser as relações entre os cônjuges: relações baseadas na igualdade. Cada corpo faz-se dom para o outro e cada um converte-se na possessão do outro através desse dom, criando uma «dívida» de um para o outro.
Nem o homem nem a mulher podem considerar seu o corpo, é do outro. Mais ainda, a expressão grega «soma» (corpo), de acordo com a tradição do Antigo Testamento, indica a pessoa inteira; é a pessoa inteira que está à disposição do outro. Que longe se encontra esta declaração sobre a mútua entrega no matrimónio da mentalidade rabínica ou essênia sobre a procriação como razão exclusiva para o matrimónio! Recorda, no texto javista do Génesis sobre o matrimónio, a exclamação de Adão ao ver Eva pela primeira vez: «'Esta é, realmente, osso dos meus ossos e carne da minha carne. Chamar-se-á mulher, visto ter sido tirada do homem!'. Por esse motivo, o homem deixará o pai e a mãe, para se unir à sua mulher, e os dois serão uma só carne» (Génesis 2, 23-24). Neste texto, há uma afirmação de igualdade entre homem e mulher. Mas Paulo, na mesma linha, vai mais além: sublinha a igualdade radical do homem e da mulher face ao matrimónio, face às relações sexuais, face ao direito ao corpo, à pessoa integra, ao outro. A sexualidade no matrimónio é plena e recíproca disponibilidade de um cônjuge para o outro.

© Javier Velasco-Arias

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



La biblia compartida — www.laboratoriodafe.net

Javier Velasco-Arias, nasceu no ano de 1956, em Medina del Campo (Espanha); atualmente, vive em Barcelona (desde os onze anos de idade). É biblista, professor de Sagrada Escritura no «Instituto Superior de Ciências Religiosas de Barcelona» e no «Centro de Estudos Pastorais» das dioceses da Catalunha. É responsável e membro de várias associações bíblicas, em Espanha. Na área bíblica, é autor de diversas publicações, além de artigos de temas bíblicos em revistas especializadas e na internet.
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.9.13 | Sem comentários

Sexta-feira da sétima semana


Evangelho segundo Marcos 10, 1-12

Naquele tempo, Jesus pôs-Se a caminho e foi para o território da Judeia, além do Jordão. Voltou a reunir-se uma grande multidão junto de Jesus e Ele, segundo o seu costume, começou de novo a ensiná-la. Aproximaram-se então de Jesus uns fariseus, que, para O porem à prova, Lhe perguntaram: «Pode um homem repudiar a sua mulher?». Jesus disse-lhes: «Que vos ordenou Moisés?». Eles responderam: «Moisés permitiu que se passasse um certificado de divórcio para se repudiar a mulher». Jesus disse-lhes: «Foi por causa da dureza do vosso coração que ele vos deixou essa lei. Mas, no princípio da criação, ‘Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne’. Deste modo, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu». Em casa, os discípulos interrogaram-n’O de novo sobre este assunto. Jesus disse-lhes então: «Quem repudiar a sua mulher e casar com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher repudiar o seu marido e casar com outro, comete adultério».

Pode um homem repudiar a sua mulher?

A pergunta feita a Jesus Cristo não é «inocente», pois o objetivo é «para O porem à prova». Na resposta, parece que Jesus Cristo defende a indissolubilidade do Matrimónio: «Não separe o homem o que Deus uniu». A «lei de Moisés» era unilateral: apenas o homem tinha direito a divorciar-se da esposa. Há exegetas que analisam a resposta de Jesus Cristo como uma defesa da igualdade de direitos do homem e da mulher. Nessa perspetiva, a «correção» que Jesus Cristo faz à lei de Moisés está mais relacionada com a igualdade de direitos do que com a indissolubilidade do Matrimónio.
Até ao século IV, os cristãos regiam-se pelo direito romano, seguiam os mesmos costumes dos pagãos em matéria de casamento: o divórcio era uma possibilidade. Nos dois séculos seguintes, aparece o divórcio quando se trata de uma «causa justa» ou por «consenso mútuo» dos esposos. No século VIII, o papa Gregório II escreveu uma carta a São Bonifácio onde admite que um homem cuja esposa esteja gravemente doente se possa casar com outra, desde que garanta o sustento da primeira mulher. Esta norma foi assumida pelo direito, no século XI. Tudo isto mostra as variações históricas de uma situação que hoje domina a nossa sociedade. 
«Pode um homem repudiar a sua mulher?». A Igreja Católica defende a indissolubilidade do Matrimónio. Na verdade, o amor para sempre tem de ser uma meta, um caminho a percorrer pelos esposos abençoados pelo sacramento do Matrimónio. Mas quando se trata de uma simples lei pode colocar em causa a felicidade e a santidade que todos os homens e mulheres são chamados a alcançar em qualquer situação de vida. Recentemente, o presidente do Conselho Pontifício para a Família, D. Vincenzo Paglia, exortou os presbíteros a darem uma «atenção mais forte aos divorciados, porque são uma parte débil» da Igreja Católica. «Nunca mais devem ser considerados como pecadores, porque todos nós o somos», disse, na sede da Universidade Católica Argentina.
Antes do diálogo entre Jesus Cristo e o fariseu, no início da narrativa evangélica, diz-se que Jesus Cristo se encontrou, no caminho, com uma grande multidão e «segundo o seu costume, começou de novo a ensiná-la». Não é preciso ser um doutorado em teologia, nem em direito canónico, para transmitir os ensinamentos de Jesus Cristo. As ações, a maneira de viver, ensina muito mais do que as palavras. Uma vida diária «com Espírito» implica falar de Jesus Cristo em todos os lugares e ambientes. Ontem, numa mensagem via twitter, o papa Francisco perguntava: «Tenho levado o Evangelho da reconciliação e do amor aos ambientes onde vivo e trabalho?». Precisamos de aprender a viver e a levar o Evangelho às situações da vida!

© Laboratório da fé, 2013

Pentecostes e Sétima semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Unknown | 24.5.13 | Sem comentários

«Um livro que explora o essencial daquilo que faz a vida de família»


A vida conjugal


Christine Ponsard, mãe de família e jornalista, escreveu uma obra intitulada «A fé em família» (ed. Paulinas, Prior Velho 2007) onde apresenta referências e conselhos sobre um grande número de questões que preocupam as famílias cristãs.

No segundo capítulo, aborda o tema da vida conjugal, tendo como base o casamento, «fundamento da família». A autora refere-se ao casamento como um acontecimento para toda a vida, «como um tesouro imenso, em que os esposos podem vir beber». E acrescenta: «Tomemos o hábito de falar do matrimónio e de dar testemunho do nosso casamento como de uma força para todos os dias, como de um Amor que alimenta o nosso amor» (34).
Na mesma linha, aborda as palavras pronunciadas no dia do casamento, para esclarecer que «os esposos são um presente um para o outro, um pelo outro. [...] Todas as manhãs, Deus oferece-me o meu cônjuge como um dom de amor, todas as manhãs, Ele convida-me a recebê-lo como esposo» (35).
O terceiro ponto do capítulo é dedicado ao «CPR» do casamento: Conversar, Perdoar, Rezar.
«Poder-se-á dizer tudo entre os esposos?» — pergunta Christine Ponsard a finalizar este segundo capítulo. O tema da comunicação entre o casal, como fator de comunhão, domina a reflexão: «É sensato marcar encontros, mesmo quando os dois cônjuges se veem todos os dias! Esses encontros podem ser simplesmente uma noite por semana, na qual, custe o que custar, se recusa qualquer reunião e qualquer convite; um fim de semana por trimestre, em que se pede a alguém que fique com os filhos, para se poder estar a sós; alguns dias de férias, como uma pequena viagem de núpcias, renovada cada ano» (40).

© Laboratório da fé, 2013


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Postado por Unknown | 16.5.13 | Sem comentários

Encontro Mundial das Famílias

No Rio de Janeiro, Brasil: outubro de 1997


No II Encontro Mundial das Famílias (1997, no Rio de Janeiro, Brasil), o papa João Paulo II apresentou a família como «comunidade de amor e de vida, sobre a qual se apoiam todas as demais comunidades e sociedades». Na homilia da eucaristia de encerramento, a partir das leituras bíblicas proclamadas, o Papa falou do ato criador do ser humano — homem e mulher — e da instituição divina do matrimónio. Este é o «fundamento de uma família sadia e responsável». Depois, desafiou todas as famílias a viver a santidade, exortando-as: «Sede portadores de paz e de alegria no seio do lar; a graça eleva e aperfeiçoa o amor, e com ele vos concede as virtudes familiares indispensáveis da humildade, do espírito de serviço e de sacrifício, do afeto paterno e filial, do respeito e da mútua compreensão».

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
1. «O Senhor nos bendiga em toda a nossa vida» (Salmo Responsorial)
Dou graças a Deus por ter permitido encontrar-me novamente convosco, famílias de todo o mundo, para reafirmar solenemente que sois a «esperança da humanidade»!
O primeiro Encontro Mundial com as Famílias teve lugar em Roma, em (mil novecentos e noventa e quatro) 1994. O seguinte se conclui hoje no Rio de Janeiro. [...]
A família é esta particular e, ao mesmo tempo, fundamental comunidade de amor e de vida, sobre a qual se apoiam todas as demais comunidades e sociedades. Por isso, invocando as bênçãos do Altíssimo pelas famílias, rezamos juntos por todas aquelas grandes sociedades, que aqui representamos. Rezamos pelo futuro das nações e dos Estados, como também pelo futuro da Igreja e do mundo.
De facto, através da família, toda a existência humana é orientada para o futuro. Nela, o homem vem ao mundo, cresce e amadurece. Nela, ele se torna um cidadão sempre mais maduro do seu país, e um membro da Igreja sempre mais consciente. A família é também o primeiro e fundamental ambiente, onde cada homem distingue e realiza a própria vocação humana e cristã. A família, enfim, é uma comunidade insubstituível por qualquer outra. É o que se entrevê nas leituras da liturgia de hoje.
2. Diante do Messias se apresentam os representantes da ortodoxia judaica, os fariseus, a perguntar se é lícito o marido repudiar a mulher. Cristo, por sua vez, pergunta o que é que Moisés ordenou-lhes; eles respondem que Moisés lhes tinha permitido escrever uma certidão de divórcio, e despedi-la. Mas Cristo lhes diz: «Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos escreveu este mandamento. No entanto, desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!» (Marcos 10, 5-9).
Cristo refere-se ao início. Este início está contido no Livro do Génesis, onde encontramos a descrição da criação do homem. Conforme lemos no primeiro capítulo deste Livro, Deus fez o homem à própria imagem e semelhança, criou o homem e a mulher (cf. Génesis 1, 27), e disse: "Frutificai e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a» (Génesis 1, 28). Conforme a segunda descrição da criação, que a primeira leitura da liturgia de hoje propõe, a mulher foi criada do homem. Assim refere a Escritura: «Então o Senhor Deus mandou ao homem um profundo sono; e enquanto ele dormia, tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu lugar. E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor fez uma mulher, e levou-a para junto do homem. «Eis agora aqui - disse o homem - o osso de meus ossos e a carne de minha carne; ela se chamará mulher, porque foi tomada do homem». Por isso o homem deixa seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher; e já não são mais que uma só carne» (Génesis 2, 21-24).
3. A linguagem utiliza as categorias antropológicas do ambiente antigo, mas é de uma extraordinária profundidade: exprime, de modo realmente espetacular, as verdades essenciais. Tudo o que foi descoberto posteriormente pela reflexão humana e pelo conhecimento científico, nada mais fez do que explicitar aquilo que, ali na raiz, já se achava.
O Livro do Génesis mostra, antes de mais nada, a dimensão cósmica da criação. O aparecimento do homem dá-se no imenso horizonte da criação de todo o cosmo: não é por acaso que isso tem lugar no último dia da criação do mundo. O homem entra na obra do Criador, no momento em que se acharam predispostas todas as condições para ele poder existir. O homem é uma das criaturas visíveis; ao mesmo tempo, porém, somente dele se afirma na Sagrada Escritura que foi feito «à imagem e semelhança de Deus». Esta união admirável do corpo e do espírito constitui uma inovação decisiva, no processo da criação. Com o ser humano, toda a magnificência da criação visível abre-se à dimensão do espiritual. A inteligência e a vontade, o conhecimento e o amor – tudo isto entra no cosmo visível, no momento mesmo da criação do homem. Entra precisamente manifestando, desde o início, a compenetração da vida corporal com a espiritual. Assim o homem deixa seu pai e sua mãe, e une-se à sua mulher, tornando-se uma só carne; mas esta união conjugal enraiza-se contemporaneamente no conhecimento e no amor, ou seja, na dimensão espiritual.
O Livro do Génesis fala disto tudo com uma linguagem que lhe é própria, que é, ao mesmo tempo, maravilhosamente simples e completa. O homem e a mulher, chamados a viver no processo da criação cósmica, se apresentam no limiar da própria vocação, trazendo em si próprios a capacidade de procriar em colaboração com Deus, que diretamente cria a alma de cada novo ser humano. Através do conhecimento recíproco e do amor, e ao mesmo tempo pela união corporal, chamarão à existência seres semelhantes a eles – e, tal como eles, feitos «à imagem e semelhança de Deus». Darão a vida aos próprios filhos, como eles próprios a receberam de seus pais. Esta é a verdade, ao mesmo tempo, simples e grande sobre a família, como ela surge das páginas do Livro do Génesis e do Evangelho: no plano de Deus, o matrimónio — o matrimónio indissolúvel — é o fundamento de uma família sadia e responsável.
4. Com traços breves mas incisivos, Cristo descreve no Evangelho o desígnio original de Deus criador. Mas este relato fá-lo-á também a Carta aos Hebreus, proclamada na Segunda Leitura: «Deus, origem e fim de todas as coisas, queria conduzir muitos filhos para a sua glória. Convinha, pois, que tornasse perfeito pelo sofrimento Aquele que os devia levar à salvação. Na verdade, Jesus que santifica e os homens que são santificados são todos da mesma descendência» (Hebreus 2,10-11). A criação do homem tem o seu fundamento no eterno Verbo de Deus. Tudo o que Deus chamou a existência, fê-lo pela ação deste Verbo, o eterno Filho, por meio do qual tudo foi criado. Também o homem foi criado através do Verbo, e foi criado como homem e mulher. A aliança conjugal tem sua origem no Verbo eterno de Deus. N'Ele, foi criada a família. N'Ele, a família é eternamente pensada por Deus, imaginada e realizada. Por Cristo, ela adquire seu caráter sacramental, a sua santificação.
O texto da Carta aos Hebreus lembra que a santificação do matrimónio, como a de qualquer outra realidade humana, foi realizada por Cristo com o preço da sua paixão e cruz. Ele se manifesta aqui como o novo Adão. Se é certo que, na ordem da natureza, todos somos originários de Adão, na ordem da graça e da santificação todos procedemos de Cristo. A santificação da família tem a sua fonte no caráter sacramental do matrimónio.
Aquele que santifica – isto é, Cristo – e todos aqueles que devem ser santificados – vós, pais e mães; vós, famílias – vos apresentais juntos diante de Deus-Pai com esta súplica ardente, que Ele abençoe o que realizou em vós mediante o sacramento do matrimónio. E nesta prece estão todos os casais e todas as famílias que vivem sobre a face da terra. Deus, o único Criador do universo é, com efeito, a fonte da vida e da santidade.
5. Pais e famílias do mundo inteiro, deixai que vo-lo diga: Deus chama-vos à santidade! Ele mesmo escolheu-nos «por Jesus Cristo, antes da criação do mundo — diz-nos S. Paulo — para que sejamos santos na sua presença» (Efésios 1, 4). Ele ama-vos loucamente, Ele deseja a vossa felicidade, mas quer que saibais conjugar sempre a fidelidade com a felicidade, pois não pode haver uma sem a outra. Não deixeis que a mentalidade hedonista, a ambição e o egoísmo entrem nos vossos lares. Sede generosos com Deus. Não poderia deixar de recordar, mais uma vez, que a família está ao «serviço da Igreja e da sociedade no seu ser e agir, enquanto comunidade íntima de vida e de amor» (A família no mundo de hoje, 50). A mútua doação abençoada por Deus, perpassada de fé, esperança e caridade, permitirá alcançar a perfeição e a mútua santificação de cada um dos esposos. Servirá, em outras palavras, como núcleo santificador da própria família, e de expansão da obra de evangelização de todo o lar cristão.
Queridos irmãos e irmãs, que grande tarefa tendes por diante! Sede portadores de paz e de alegria no seio do lar; a graça eleva e aperfeiçoa o amor, e com ele vos concede as virtudes familiares indispensáveis da humildade, do espírito de serviço e de sacrifício, do afeto paterno e filial, do respeito e da mútua compreensão. E, como o bem é por si mesmo difusivo, faço votos também de que a vossa adesão à pastoral familiar seja, na medida das vossas possibilidades, um incentivo a irradiar generosamente o dom que está em vós, primeiramente entre os filhos, depois àqueles casais — talvez parentes e amigos — que estão afastados de Deus ou passam por momentos de incompreensão ou de desconfiança. Neste caminho em direção ao Jubileu do ano dois mil, convido todos os que me ouvem a este revigoramento da fé e do testemunho de cristãos, a fim de que, com a graça de Deus, haja uma verdadeira conversão e renovamento pessoal no seio das famílias de todo o mundo (cf.Tertio Millennio adveniente, 42). Que o espírito da Sagrada Família de Nazaré reine em todos os lares cristãos!
Famílias do Brasil, da América Latina e do mundo inteiro, o Papa, a Igreja apoiam-se em vós. Tende confiança: Deus está conosco!

© Copyright 1997 - Libreria Editrice Vaticana — www.vatican.va —

Papa João Paulo II
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.5.13 | Sem comentários

Encontro Mundial das Famílias: Jubileu das Famílias

Em Roma, Itália: outubro de 2000


No Ano 2000, para celebrar o Jubileu da Encarnação, o papa João Paulo II, promoveu vários encontros setoriais a que deu também o nome de «Jubileu». Assim decorreu o III Encontro Mundial das Famílias (outubro de 2000, em Roma, Itália) como «Jubileu das Famílias». No discurso de acolhimento, o Papa recordou o tema do encontro — «Os filhos: primavera da família e da sociedade» — explicitando que «os filhos são 'primavera' [...], representam o florescimento do amor conjugal». As dificuldades vividas pelas crianças motivadas pelas mais diversas causas foram também abordadas: «às vezes os filhos são sentidos mais como uma ameaça do que como uma dádiva». Também em relação às famílias em crise, «desfeitas», João Paulo II recordou que «a Igreja não se sente chamada a expressar um juízo severo e desinteressado, mas antes a fazer penetrar a luz da palavra de Deus em tantos dramas humanos, acompanhada do testemunho da sua misericórdia». Por fim, convidou os pais e as mães a proclamarem sempre o «valor da família e o respeito da vida humana».

1. É com grande alegria que vos dou as boas-vindas, caríssimas famílias aqui reunidas das mais diversificadas regiões do mundo! Saúdo também as famílias que, debaixo de todos os céus, se encontram agora unidas a nós mediante a rádio e a televisão, associando-se a este Jubileu das Famílias. [...]
Recentemente, tive a alegria de ir como peregrino a Nazaré, o lugar onde o Verbo se fez carne. Nessa visita levei todos vós no meu coração, rezando com ardor por vós à Sagrada Família, sublime modelo de todas as famílias.
E é precisamente o clima espiritual da Casa de Nazaré que desejamos reviver nesta noite. O grande espaço que nos congrega, entre a Basílica e a colunata de Bernini, serve-nos de casa, uma grande casa ao ar livre. Aqui reunidos como uma verdadeira família, «um só coração e uma só alma» (cf. Atos 4, 32), podemos intuir e fazer nosso o sabor doce e íntimo daquela casa humilde, onde Maria e José viviam entre oração e trabalho, e Jesus «lhes era submisso» (Lucas 2, 51), tomando gradualmente parte na vida comum.
2. Olhando para a Sagrada Família, casais cristãos, sois estimulados a interrogar-vos acerca das tarefas que Cristo vos confia, na vossa maravilhosa e comprometedora vocação.
Por isso, o tema do vosso Jubileu — «Os filhos: primavera da família e da sociedade» — pode oferecer-vos sugestões significativas. Não são precisamente as crianças que fazem uma espécie de «exame» contínuo aos pais? Não o fazem apenas com os seus frequentes «por quê?», mas com o seu próprio rosto, ora risonho, ora velado pela tristeza. Como que inscrito em todo o seu modo de ser há um interrogativo, que se exprime das maneiras mais diversas, por vezes mesmo através dos caprichos, e que poderíamos traduzir em perguntas como estas: mãe, pai, amais-me? Sou verdadeiramente um dom para vós? Aceitais-me como sou? Esforçais-vos por fazer sempre o meu bem genuíno?
Talvez estas perguntas se façam mais com os olhos que com as palavras, mas elas obrigam os pais à sua grande responsabilidade e, de certa forma, são-lhes o eco da voz de Deus.
3. Os filhos são «primavera»: qual é o significado desta metáfora escolhida para o vosso Jubileu? Ela leva-nos para aquele horizonte de vida, de cores, de luz e de cântico que é próprio da estação primaveril. Os filhos são tudo isto por natureza. Eles são a esperança que continua a florescer, um projecto que recomeça permanentemente, o porvir que se abre de forma incessante.
Representam o florescimento do amor conjugal, que neles se encontra e se consolida. Ao nascerem, trazem uma mensagem de vida que, em última análise, remete para o próprio Autor da vida. Necessitados de tudo como eles são, de maneira especial nas primeiras fases da existência, constituem naturalmente um apelo à solidariedade.
Não foi por acaso que Jesus convidou os discípulos a terem um coração de crianças (cf. Marcos 10, 13-16). Dilectas famílias, hoje quereis dar graças pelo dom dos filhos e, ao mesmo tempo, receber a mensagem que Deus vos transmite através da sua existência.
4. Infelizmente, como bem sabemos, a situação das crianças no mundo nem sempre é aquela que deveria ser. Em muitas regiões, e paradoxalmente nos países de maior bem-estar, ter filhos tornou-se uma opção decidida com grande perplexidade, muito além da prudência que é justamente necessária para uma procriação responsável. Dir-se-ia que às vezes os filhos são sentidos mais como ameaça que como dádiva.
Depois, o que dizer do outro triste cenário da infância ultrajada e explorada, para o qual chamei a atenção inclusivamente na Carta às Crianças?
Porém, nesta noite encontrais-vos aqui para dar testemunho da vossa convicção, fundamentada na confiança em Deus, de que é possível inverter esta tendência. Estais aqui reunidos para uma «festa da esperança», fazendo vosso o «realismo» concreto desta virtude cristã fundamental.
5. Com efeito, a situação das crianças constitui um desafio para a sociedade inteira, um desafio que interpela diretamente as famílias. Ninguém mais que vós, estimados pais, pode constatar quanto é essencial para os filhos poderem contar convosco, com ambas as vossas figuras paterna e materna na complementaridade dos vossos dons. Não, não é um passo em frente na civilização secundar tendências que obscurecem esta verdade elementar e pretendem afirmar-se também a nível legal.
Não são porventura as crianças já demasiado penalizadas pelo flagelo do divórcio? Como é triste para uma criança ter de se resignar a dividir o seu amor entre pais em conflito! Muitos filhos ficarão psicologicamente marcados para sempre devido à provação a que a divisão dos pais os submeteram.
6. Diante de inúmeras famílias desfeitas, a Igreja não se sente chamada a expressar um juízo severo e desinteressado, mas antes a fazer penetrar a luz da palavra de Deus em tantos dramas humanos, acompanhada do testemunho da sua misericórdia. Este é o espírito com que a pastoral familiar procura enfrentar também as situações dos fiéis que divorciaram e voltaram a casar-se. Eles não são excluídos da comunidade; pelo contrário, são convidados a participar na sua vida, percorrendo um caminho de crescimento no espírito das exigências evangélicas. Sem deixar de lhes revelar a verdade acerca da desordem moral objectiva em que se encontram e das consequências que daí derivam para a prática sacramental, a Igreja pretende demonstrar-lhes toda a sua proximidade maternal.
Cônjuges cristãos, estai certos disto: o Sacramento do matrimónio garante-vos a graça necessária para perseverardes no amor recíproco, do qual os vossos filhos têm tanta necessidade quanto do pão.
Hoje sois chamados a interrogar-vos sobre esta profunda comunhão entre vós, enquanto pedis a abundância da misericórdia divina.
7. Ao mesmo tempo, não podeis evitar o interrogativo essencial sobre a vossa missão de educadores. Tendo dado a vida aos vossos filhos, estais comprometidos também em acompanhá-los nas orientações e opções de vida, da maneira apropriada à sua idade, garantindo-lhes todos os seus direitos.
No nosso tempo, o reconhecimento dos direitos da criança conheceu um progresso indubitável, mas ainda é motivo de aflição a negação prática destes direitos, como se manifesta em numerosos e terríveis atentados contra a sua dignidade. É preciso vigiar, a fim de que o bem da criança seja colocado sempre em primeiro lugar. Desde o momento em que se deseja ter um filho. A tendência a recorrer a práticas moralmente inaceitáveis na geração trai a absurda mentalidade de um «direito ao filho», que tomou o lugar do justo reconhecimento de um «direito do filho» a nascer e depois a crescer de maneira plenamente humana. Como é diversa e meritória, ao contrário, a prática da adopção! Um verdadeiro exercício de caridade, que visa o bem dos filhos antes das exigências dos pais.
8. Caríssimos, comprometamo-nos com todas as nossas forças, em defender o valor da família e o respeito da vida humana, desde o momento da conceção. Trata-se de valores que pertencem à «gramática» fundamental do diálogo e da convivência humana entre os povos. Formulo votos veementes por que tanto os governos e os parlamentos nacionais como as Organizações internacionais e, de modo particular, a Organização das Nações Unidas, não deixem que esta verdade se extravie. A todos os homens de boa vontade, que acreditam nestes valores, peço que unam eficazmente os próprios esforços, para que eles prevaleçam na prática da vida, nas orientações culturais e nos mass media, nas opções políticas e nas legislações dos povos.
9. A vós, queridas mães, que tendes dentro de vós um instinto incoercível pela defesa da vida, dirijo um sentido apelo: sede sempre fonte de vida, nunca de morte!
A vós, pais e mães, digo: fostes chamados para a excelsa missão de colaborar com o Criador na transmissão da vida (cf. Carta às Famílias, 8); não tenhais medo da vida! Proclamai juntos o valor da família e da vida, pois sem estes valores, não há um futuro digno do homem!
O maravilhoso espectáculo das vossas tochas acesas nesta Praça vos acompanhe por muito tempo, como um sinal d'Aquele que é a Luz e vos chama a iluminar com o vosso testemunho o caminho da humanidade pelas vias do novo milénio!

© Copyright 2000 - Libreria Editrice Vaticana — www.vatican.va —

Papa João Paulo II
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.5.13 | Sem comentários

Encontro Mundial das Famílias

No México: janeiro de 2009


No VI Encontro Mundial das Famílias (2009, no México), o Papa Bento XVI proferiu um discurso por video-conferência, tendo começado por destacar a importância da santidade na família, alicerçada na confiança em Deus e no vigor da fé, que se alimenta da Palavra. Referiu-se também à família como «fundamento indispensável para a sociedade», destacando-a como «escola de humanidade e de valores». E acrescentou: «É no lar que se aprende a viver verdadeiramente, a valorizar a vida e a saúde, a liberdade e a paz, a justiça e a verdade, o trabalho, a concórdia e o respeito». A terminar, dedicou uma palavra às famílias numerosas e a todas as que vivem dificuldades, inclusive por causa da fé.

[...] Hoje, através dos meios de comunicação, peregrinei espiritualmente até esse Santuário mariano, coração do México e de toda a América, para confiar a Nossa Senhora de Guadalupe todas as famílias do mundo.
2. Este Encontro Mundial das Famílias quis animar os lares cristãos, a fim de que os seus membros sejam pessoas livres e ricas de valores humanos e evangélicos, a caminho da santidade, que é o melhor serviço que nós cristãos podemos oferecer à sociedade actual. A resposta cristã diante dos desafios, que a família e a vida humana em geral devem enfrentar, consiste em refortalecer a confiança no Senhor e o vigor que brota da própria fé, que se alimenta da escuta atenta da Palavra de Deus. Como é bonito reunir-se em família, para permitir que Deus fale ao coração dos seus membros através da sua Palavra viva e eficaz! Na oração, de forma especial mediante a recitação do Rosário como se fez ontem, a família contempla os mistérios da vida de Jesus, interioriza os valores que medita e sente-se chamada a encarná-los na sua vida.
3. A família é um fundamento indispensável para a sociedade e os povos, assim como um bem insubstituível para os filhos, dignos de vir à vida como fruto do amor, da entrega total e generosa dos pais. Como pôs em evidência Jesus, honrando a Virgem Maria e São José, a família ocupa um lugar primário na educação da pessoa. É uma verdadeira escola de humanidade e de valores perenes. Ninguém se deu a vida a si mesmo. Recebemos de outros a vida, que se desenvolve e amadurece com as verdades e os valores que aprendemos no relacionamento e na comunhão com os demais. Neste sentido, a família fundada no matrimónio indissolúvel entre um homem a uma mulher expressa esta dimensão de relacionamento, filial e comunitária, e é o âmbito onde o homem pode nascer com dignidade, crescer e desenvolver-se de maneira integral (cf. Homilia na Santa Missa por ocasião do V Encontro Mundial das Famílias, Valença, 9 de Julho de 2006).
No entanto, esta obra educativa é dificultada por um conceito errado de liberdade, em que o capricho e os impulsos subjectivos do indivíduo são exaltados a ponto de deixar cada um encerrado na prisão do próprio ego. A verdadeira liberdade do ser humano provém do facto de ter sido criado à imagem e semelhança de Deus, e por isso deve ser exercida com responsabilidade, optando sempre pelo bem verdadeiro, a fim de que se transforme em amor, em dom de si mesmo. Para isto, mais do que teorias são precisos a proximidade e o amor característicos da comunidade familiar. É no lar que se aprende a viver verdadeiramente, a valorizar a vida e a saúde, a liberdade e a paz, a justiça e a verdade, o trabalho, a concórdia e o respeito.
4. Hoje mais do que nunca são necessários o testemunho e o compromisso público de todos os baptizados, para reafirmar a dignidade e o valor único e insubstituível da família fundada no matrimónio de um homem com uma mulher e aberto à vida, assim como da vida humana em todas as suas etapas. Devem-se promover também medidas legislativas e administrativas que ajudem as famílias nos seus direitos inalienáveis, necessários para dar continuidade à sua missão extraordinária. Os testemunhos apresentados na celebração de ontem mostram que também hoje a família pode manter-se firme no amor de Deus e renovar a humanidade no novo milénio.
5. Desejo manifestar a minha proximidade e assegurar a minha oração por todas as famílias que dão testemunho de fidelidade em circunstâncias particularmente árduas. Encorajo as famílias numerosas que, vivendo às vezes no meio de contrariedades e incompreensões, dão um exemplo de generosidade e confiança em Deus, desejando que não lhes faltem as ajudas necessárias. Penso inclusive nas famílias que sofrem por causa da pobreza, da enfermidade, da marginalização ou da emigração. E de maneira muito especial nas famílias cristãs que são perseguidas por causa da sua fé. O Papa está muito próximo de todos vós e acompanha-vos no vosso esforço de cada dia. [...]

7. Confio todas as famílias do mundo à protecção da Santíssima Virgem, tão venerada na nobre terra mexicana, sob a denominação de Guadalupe. A Ela, que nos recorda sempre que a nossa felicidade consiste em cumprir a vontade de Cristo (cf. João 2, 5), digo-lhe agora:

Santíssima Mãe de Guadalupe,
que manifestaste o teu amor e a tua ternura
aos povos do continente americano,
enche de alegria e de esperança todos os povos
e todas as famílias do mundo.

A ti, que precedes e orientas o nosso caminho de fé
para a pátria eterna,
confiamos as alegrias, os projectos,
as preocupações e os anseios de todas as famílias.

Ó Maria,
a ti recorremos, confiando na tua ternura de Mãe.
Não desatendas as súplicas que te dirigimos
por todas as famílias do mundo,
neste período crucial da história,
aliás, acolhe todos nós no teu Coração de Mãe
e acompanha-nos no nosso caminho para a pátria celestial.
Amém!

© Copyright 2009 - Libreria Editrice Vaticana — www.vatican.va

Papa Bento XVI, 2013



Postado por Unknown | 15.5.13 | Sem comentários
Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

Entende-se por casamento misto aquele que é contraído por pessoas de diferentes confissões religiosas (uma católica e outra protestante, por exemplo) ou de religião diferente (um católico e uma muçulmana, por exemplo). Este tipo de casamentos, sobretudo os contraídos entre pessoas de confissão cristã diferente, não deveriam colocar grande problema. Dá-se o caso, em muitos deles, sobretudo quando são bons cristãos, que um cônjuge acompanhe o outro aos ofícios da sua Igreja. Mas hoje é cada vez mais frequente um tipo de casamento «misto» entre um cônjuge religioso e praticante ou, pelo menos, um cônjuge que antes do casamento vivia a sua fé sem qualquer conflito pessoal e outro cônjuge ateu e, inclusive, anticatólico ou anticlerical. Em alguns casos acontece que a parte católica, sobretudo quando está muito convicta da sua fé e a vive com firmeza, arrasta a outra parte para a fé ou, pelo menos, a respeitá-la. Mas o mais frequente é que seja a parte não católica a obrigar ou a forçar a outra parte a deixar de praticar.
Conto dois casos. O de um casal, que vive em união civil, porque um deles não é religioso. Tiveram um filho. A parte católica quer batizá-lo. Depois de algumas tensões, a outra parte consente. Segundo caso: outro casal, que vive em união civil (já que um não só não acredita no sacramento, mas recusa-o) tiveram um filho. E embora a parte católica o queira batizar, a outra parte opõe-se. Para o bem da paz e do amor, não há batismo. Nestes casos não servem as receitas gerais e apriorísticas, porque casa caso é diferente. O casamento está fundado no amor, não na fé, embora a fé seja um componente que marca totalmente um pessoa. Por isso, uma pessoa crente, convicta, que coloca Deus acima de tudo, pode dizer tranquilamente a outra pessoa por quem se enamorou: Deus está primeiro e se Deus não entra na nossa relação, eu continuar a gostar muito de ti, mas a minha relação contigo tem um limite.
O que acontece é que a maioria dos crentes não vive a sua fé com esta convicção e intensidade. E, por isso, o enamoramento faz com que seja a sua fé a sofrer as consequências. Não ainda responder que não há autêntico amor. Pode-se amar de verdade aquele que não partilha a fé. Deus ama-os. Porque é que eu não o posso amar? Antes, estas situações colocavam-se de outra maneira, mantendo as aparências. Hoje, a fé perdeu apoio e força social. Daqui derivam alguns problemas. Como cristãos, como Igreja, temos de nos perguntar como acompanhar estas pessoas sinceramente enamoradas por outra pessoa não religiosa. Haverá que praticar uma pedagogia feita de paciência e proximidade, tanto para a parte crente como para a não crente.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Unknown | 15.5.13 | Sem comentários

Mês de maio, Mês de Maria


O papa João Paulo II, nos dias 26 de fevereiro e 5 de março de 1997, dedicou uma Audiência Geral ao tema da presença de «Maria nas bodas de Caná». Na sequência do comentário ao capítulo mariano da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG) do II Concílio do Vaticano, o Papa destaca a disponibilidade de Maria para cooperar com Deus na missão do seu Filho, Jesus Cristo. 
Na primeira Audiência, apresenta o pedido de Maria como cheio de atualidade para todos os tempos: «O pedido de Maria: 'Fazei o que Ele vos disser', conserva um seu valor sempre actual para os cristãos de todas as épocas, e é destinado a renovar o seu efeito maravilhoso na vida de cada um. Ela exorta a uma confiança sem hesitação, sobretudo quando não se compreendem o sentido e a utilidade de quanto Cristo pede». A terminar, João Paulo II refere que este episódio das bodas de Caná nos anima a ser «corajosos na fé».
Na segunda Audiência, João Paulo II, segue ainda mais de perto o texto do número 58 da «Lumen Gentium» — Constituição Dogmática sobre a Igreja do II Concílio do Vaticano. Além de refletir sobre a importância da presença de Maria para a ação de Jesus Cristo, também dedica uma parte ao tema do matrimónio, motivado pela circunstância que estava a acontecer em Caná. Antes de terminar dizendo que «em Caná, Maria inicia o caminho da fé da Igreja, precedendo os discípulos e orientando para Cristo a atenção dos servos», refere ainda a ligação de Caná com o Sacramento da Eucaristia.

Caríssimos Irmãos e Irmãs:
1. No episódio das bodas de Caná, São João apresenta a primeira intervenção de Maria na vida pública de Jesus e põe em relevo a sua cooperação na missão do Filho.
Desde o início da narração, o evangelista avisa que «a mãe de Jesus estava presente» (2, 1) e, como que a querer sugerir que essa presença está na origem do convite dirigido pelos esposos ao próprio Jesus e aos Seus discípulos (cf. Redemptoris Mater, 21), acrescenta: «Jesus e os Seus discípulos foram convidados para as bodas» (2, 2). Com tais observações, João parece indicar que em Caná, como no evento fundamental da Encarnação, Maria é aquela que introduz o Salvador.
O significado e o papel que assume a presença da Virgem, manifestam-se quando vem a faltar o vinho. Ela, experiente e prudente dona de casa, percebe isso imediatamente e intervém para que não termine a alegria de todos e, principalmente, para socorrer os esposos em dificuldade.
Dirigindo-se a Jesus com as palavras: «Não têm vinho» (Jo. 2, 3), Maria exprime- Lhe a sua preocupação por essa situação, aguardando uma Sua intervenção resolutiva. Mais precisamente, segundo alguns exegetas, a Mãe espera um sinal extraordinário, dado que Jesus não tinha vinho à disposição.
2. A escolha de Maria, que teria podido, talvez, providenciar noutro lugar o vinho necessário, manifesta a coragem da sua fé porque, até àquele momento, Jesus não tinha realizado algum milagre, nem em Nazaré, nem na vida pública.
Em Caná a Virgem mostra mais uma vez a sua total disponibilidade a Deus. Ela que, na Anunciação, crendo em Jesus antes de O ver, contribuíra para o prodígio da concepção virginal, aqui, confiando no poder não ainda revelado de Jesus, suscita o Seu «primeiro sinal», a prodigiosa transformação da água em vinho. Desse modo, ela precede na fé os discípulos que, como refere João, hão-de crer depois do milagre: Jesus «manifestou a Sua glória e os Seus discípulos acreditaram n’Ele» (Jo. 2, 11). Antes, obtendo o sinal prodigioso, Maria oferece- lhes um apoio à fé.
3. A resposta de Jesus às palavras de Maria: «Que temos nós com isso, mulher A minha hora ainda não chegou » (Jo. 2, 4) exprime uma aparente rejeição, quase pondo à prova a fé de Maria.
Segundo uma interpretação, Jesus a partir do momento que inicia a Sua missão, parece colocar em discussão a natural relação de filho, chamado em causa pela mãe. A frase, na língua falada do ambiente, quer, de facto, evidenciar uma distância entre as pessoas, com a exclusão da comunhão de vida. Esta distância não elimina respeito e estima; o termo «mulher», com o qual Ele Se dirige à mãe, é usado numa aceção que retornará nos diálogos com a Cananeia (cf. Mateus 15, 28), com a Samaritana (cf. João 4, 21), com a adúltera (cf. João 8, 10) e com Maria Madalena (cf. João 20, 13), em contextos que manifestam uma relação positiva de Jesus com as Suas interlocutoras.
Com a expressão: «Que temos nós com isso, mulher?», Jesus pretende colocar a cooperação de Maria no plano da salvação que, empenhando a sua fé e a sua esperança, pede a superação do seu papel natural de mãe.
4. De maior relevo aparece a motivação formulada por Jesus: «A Minha hora ainda não chegou» (João 2, 4).
Alguns estudiosos do texto sagrado, seguindo a interpretação de Santo Agostinho, identificam essa «hora» com o evento da Paixão. Para outros, porém, ela refere-se ao primeiro milagre em que haveria de ser revelado o poder messiânico do profeta de Nazaré. Outros, ainda, pensam que a frase é interrogativa e prolonga a pergunta anterior: «Que temos nós com isso, mulher? A Minha hora ainda não chegou». Jesus faz com que Maria entenda que afinal Ele já não depende dela, mas deve tomar a iniciativa para realizar a obra do Pai. Maria, então, abstém-se docilmente de insistir junto d’Ele e dirige-se, ao contrário, aos servidores para os convidar a ser-Lhe obedientes.
Em todo o caso a sua confiança no Filho é recompensada. Jesus, a Quem ela deixou totalmente a iniciativa, realiza o milagre, reconhecendo a coragem e a docilidade da Mãe: «Disse-lhes Jesus: “Enchei de água essas talhas”; e encheram- nas até à borda» (João 2, 7). Também a obediência deles, portanto, contribui para a obtenção do vinho em abundância.
O pedido de Maria: «Fazei o que Ele vos disser», conserva um seu valor sempre actual para os cristãos de todas as épocas, e é destinado a renovar o seu efeito maravilhoso na vida de cada um. Ela exorta a uma confiança sem hesitação, sobretudo quando não se compreendem o sentido e a utilidade de quanto Cristo pede.
Assim como na narração da Cananeia (Mateus 15, 24-26), a aparente rejeição de Jesus exalta a fé da mulher, assim as palavras do Filho: «A Minha hora ainda não chegou», juntamente com o cumprimento do primeiro milagre, manifestam a grandeza da fé que a Mãe tem e a força da sua oração.
O episódio das bodas de Caná anima-nos a ser corajosos na fé e a experimentar na nossa existência a verdade da palavra evangélica: «Pedi e vos será dado» (Mateus 7, 7; Lucas 11, 9).



Em Caná, Maria levou Jesus a realizar o primeiro milagre


Queridos Irmãos e Irmãs
1. Ao narrar a presença de Maria na vida pública de Jesus, o II Concílio do Vaticano recorda a sua participação em Caná por ocasião do primeiro milagre: «Nas bodas de Caná, movida de compaixão, levou Jesus Messias a dar início aos Seus milagres (cf. João 2, 1-11)» (LG 58).
Seguindo a esteira do evangelista João, o Concílio faz notar o papel discreto e, ao mesmo tempo, eficaz da Mãe que, com a sua palavra, leva o Filho ao «primeiro sinal». Ela, embora exerça uma influência discreta e materna, com a sua presença resulta, no final, determinante. A iniciativa da Virgem aparece ainda mais surpreendente, se se considera a condição de inferioridade da mulher na sociedade judaica. Em Caná, com efeito, Jesus não só reconhece a dignidade e o papel do génio feminino, mas, acolhendo a intervenção de Sua Mãe, oferece-lhe a possibilidade de ser participante na obra messiânica. Não contrasta com esta intenção de Jesus o apelativo «Mulher», com o qual Ele se dirige a Maria (cf. João 2, 4). Ele, de facto, não contém em si nenhuma conotação negativa e será de novo usado por Jesus em relação à Mãe, aos pés da Cruz (cf. João 19, 26). Segundo alguns intérpretes, este título «Mulher» apresenta Maria como a nova Eva, mãe de todos os crentes na fé.
O Concílio, no texto citado, usa a expressão «movida de compaixão», deixando entender que Maria era inspirada pelo seu coração misericordioso. Tendo divisado a eventualidade do desapontamento dos esposos e dos convidados pela falta de vinho, a Virgem compadecida sugere a Jesus que intervenha com o seu poder messiânico.
A alguns o pedido de Maria parece desproporcionado, porque subordina a um acto de piedade o início dos milagres do Messias. À dificuldade respondeu Jesus mesmo que, com o seu assentimento à solicitação materna, demonstra a superabundância com que o Senhor responde às expectativas humanas, manifestando também quanto pode o amor de uma mãe.
2. A expressão «dar início aos milagres», que o Concílio retomou do texto de João, chama a nossa atenção. O termo grego «archè», traduzido por início, princípio, foi usado por João no Prólogo do seu Evangelho: «No princípio já existia o Verbo» (1, 1). Esta significativa coincidência induz a estabelecer um paralelo entre a primeira origem da glória de Cristo na eternidade e a primeira manifestação da mesma glória na sua missão terrena.
Ressaltando a iniciativa de Maria no primeiro milagre e recordando depois a sua presença no Calvário, aos pés da Cruz, o evangelista ajuda a compreender como a cooperação de Maria se estende à inteira obra de Cristo. O pedido da Virgem coloca-se no interior do desígnio divino de salvação.
No primeiro sinal operado por Jesus os Padres da Igreja divisaram uma forte dimensão simbólica, acolhendo, na transformação da água em vinho, o anúncio da passagem da antiga à nova Aliança. Em Caná, precisamente a água das jarras, destinada à purificação dos Judeus e ao cumprimento das prescrições legais (cf. Marcos 7, 1-15), torna-se o vinho novo do banquete nupcial, símbolo da união definitiva entre Deus e a humanidade.
3. O contexto de um banquete de núpcias, escolhido por Jesus para o Seu primeiro milagre, remete ao simbolismo matrimonial, frequente no Antigo Testamento para indicar a Aliança entre Deus e o Seu povo (cf. Oseias 2, 21; Jeremias 2, 1-8; Salmo 44; etc.) e no Novo Testamento para significar a união de Cristo com a Igreja (cf. João 3, 28-30; Efésios 5, 25-32; Apocalipse 21, 1-2; etc.).
A presença de Jesus em Caná manifesta, além disso, o projecto salvífico de Deus a respeito do matrimónio. Nessa perspectiva, a falta de vinho pode ser interpretada como alusiva à falta de amor, que infelizmente, não raro, ameaça a união esponsal. Maria pede a Jesus que intervenha em favor de todos os esposos, que só um amor fundado em Deus pode libertar dos perigos da infidelidade, da incompreensão e das divisões. A graça do Sacramento oferece aos esposos esta força superior de amor, que pode corroborar o empenho da fidelidade também nas circunstâncias difíceis.
Segundo a interpretação dos autores cristãos, o milagre de Caná contém, além disso, um profundo significado eucarístico. Realizando-o na proximidade da solenidade da Páscoa judaica (cf. João 2, 13), Jesus manifesta, como na multiplicação dos pães (cf. João 6, 4), a intenção de preparar o verdadeiro banquete pascal, a Eucaristia. Esse desejo, nas bodas de Caná, parece sublinhado ainda mais pela presença do vinho, que alude ao sangue da Nova Aliança, e pelo contexto de um banquete.
Desse modo Maria, depois de ter estado na origem da presença de Jesus na festa, obtém o milagre do vinho novo, que prefigura a Eucaristia, sinal supremo da presença do seu Filho ressuscitado entre os discípulos.
4. No final da narração do primeiro milagre de Jesus, que se tornou possível pela fé sólida da Mãe do Senhor no seu divino Filho, o evangelista João conclui: «Os Seus discípulos acreditaram n’Ele» (2, 11). Em Caná, Maria inicia o caminho da fé da Igreja, precedendo os discípulos e orientando para Cristo a atenção dos servos.
A sua perseverante intercessão encoraja, além disso, aqueles que às vezes se encontram diante da experiência do «silêncio de Deus». Eles são convidados a esperar para além de toda a esperança, confiando sempre na bondade do Senhor.

© Copyright 1997 - Libreria Editrice Vaticana — www.vatican.va —

João Paulo II - Karol Józef Wojtyła
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.5.13 | Sem comentários
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