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Carta encíclica sobre a fé [45]


Na celebração dos sacramentos, a Igreja transmite a sua memória, particularmente com a profissão de fé. Nesta, não se trata tanto de prestar assentimento a um conjunto de verdades abstratas, como sobretudo fazer a vida toda entrar na comunhão plena com o Deus Vivo. Podemos dizer que, no Credo, o fiel é convidado a entrar no mistério que professa e a deixar-se transformar por aquilo que confessa. Para compreender o sentido desta afirmação, pensemos em primeiro lugar no conteúdo do Credo. Este tem uma estrutura trinitária: o Pai e o Filho unem-Se no Espírito de amor. Deste modo o crente afirma que o centro do ser, o segredo mais profundo de todas as coisas é a comunhão divina. Além disso, o Credo contém uma confissão cristológica: repassam-se os mistérios da vida de Jesus até à sua morte, ressurreição e ascensão ao Céu, na esperança da sua vinda final na glória. E, consequentemente, afirma-se que este Deus-comunhão, permuta de amor entre o Pai e o Filho no Espírito, é capaz de abraçar a história do ser humano, de introduzi-lo no seu dinamismo de comunhão, que tem, no Pai, a sua origem e meta final. Aquele que confessa a fé sente-se implicado na verdade que confessa; não pode pronunciar, com verdade, as palavras do Credo, sem ser por isso mesmo transformado, sem mergulhar na história de amor que o abraça, que dilata o seu ser tornando-o parte de uma grande comunhão, do sujeito último que pronuncia o Credo: a Igreja. Todas as verdades, em que cremos, afirmam o mistério da vida nova da fé como caminho de comunhão com o Deus Vivo.

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
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  • Nos sacramentos, pela profissão de fé, a Igreja transmite a sua memória
  • A profissão de fé não é uma adesão a verdades abstratas
  • A profissão de fé faz entrar na comunhão plena com Deus
  • No Credo, o fiel entra no mistério que professa
  • No Credo, o fiel é convidado a deixar-se transformar por aquilo que confessa
  • O Credo tem uma estrutura trinitária: Pai, Filho, Espírito Santo
  • O Credo contém uma confissão cristológica: vida de Jesus Cristo
  • Aquele que confessa a fé sente-se implicado na verdade que confessa
  • O Credo transforma a vida do crente
  • O Credo faz o crente mergulhar numa história de amor
  • O Credo torna o crente membro de uma grande comunhão que é a Igreja
  • O que é a profissão de fé (Credo)?
  • Qual é a estrutura do Credo?
  • O Credo é ativo ou passivo: interfere ou não na vida do crente?
  • Que relação existe entre o Credo e a Igreja?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.9.13 | comentários

Carta encíclica sobre a fé [44]


A natureza sacramental da fé encontra a sua máxima expressão na Eucaristia. Esta é alimento precioso da fé, encontro com Cristo presente de maneira real no seu ato supremo de amor: o dom de Si mesmo que gera vida. Na Eucaristia, temos o cruzamento dos dois eixos sobre os quais a fé percorre o seu caminho. Por um lado, o eixo da história: a Eucaristia é ato de memória, atualização do mistério, em que o passado, como um evento de morte e ressurreição, mostra a sua capacidade de se abrir ao futuro, de antecipar a plenitude final; no-lo recorda a liturgia com o seu «hodie», o «hoje» dos mistérios da salvação. Por outro lado, encontra-se aqui também o eixo que conduz do mundo visível ao invisível: na Eucaristia, aprendemos a ver a profundidade do real. O pão e o vinho transformam-se no Corpo e Sangue de Cristo, que Se faz presente no seu caminho pascal para o Pai: este movimento introduz-nos, corpo e alma, no movimento de toda a criação para a sua plenitude em Deus.

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
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  • A fé tem a máxima expressão na Eucaristia
  • Na Eucaristia, dá-se o dom de Jesus Cristo que gera vida
  • Na Eucaristia, há o cruzamento dos dois eixos da fé:
    — eixo da história: atualização do mistério
    — eixo do visível ao invisível: profundidade do real
  • A Eucaristia introduz-nos no movimento da Criação para a plenitude em Deus
  • Porque é que a Eucaristia é a máxima expressão da natureza sacramental da fé?
  • Quais são os dois eixos da fé presentes na Eucaristia?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [43]


A estrutura do Batismo, a sua configuração como renascimento no qual recebemos um nome novo e uma vida nova, ajuda-nos a compreender o sentido e a importância do Batismo das crianças. Uma criança não é capaz de um ato livre que acolha a fé: ainda não a pode confessar sozinha e, por isso mesmo, é confessada pelos seus pais e pelos padrinhos em nome dela. A fé é vivida no âmbito da comunidade da Igreja, insere-se num «nós» comum. Assim, a criança pode ser sustentada por outros, pelos seus pais e padrinhos, e pode ser acolhida na fé deles que é a fé da Igreja, simbolizada pela luz que o pai toma do círio na liturgia batismal. Esta estrutura do Batismo põe em evidência a importância da sinergia entre a Igreja e a família na transmissão da fé. Os pais são chamados — como diz Santo Agostinho — não só a gerar os filhos para a vida, mas a levá-los a Deus, para que sejam, através do Batismo, regenerados como filhos de Deus, recebam o dom da fé [38]. Assim, juntamente com a vida, é-lhes dada a orientação fundamental da existência e a segurança de um bom futuro; orientação esta, que será ulteriormente corroborada no sacramento da Confirmação com o selo indelével do Espírito Santo.

[38] Cf. De nuptiis et concupiscentia, I, 4, 5: PL 44, 413 (« Habent quippe intentionem generandi regenerandos, ut qui ex eis saeculi filii nascuntur in Dei filios renascantur »)

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
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  • O batismo das crianças tem sentido (e importância)
  • A criança não pode sozinha confessar a fé
  • Os pais e padrinhos confessam a fé em nome da criança
  • A fé é vivida na comunidade (Igreja)
  • A fé insere-se num «nós» comum
  • A luz que o pai toma do Círio Pascal simboliza a fé da Igreja
  • Há uma sinergia entre a Igreja e a família na transmissão da fé
  • Tem sentido batizar uma criança?
  • Que relação existe entre a fé dos pais e a fé da Igreja?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [42]


Quais são os elementos batismais que nos introduzem nesta nova «forma de ensino»? Sobre o catecúmeno é invocado, em primeiro lugar, o nome da Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. E deste modo se oferece, logo desde o princípio, uma síntese do caminho da fé: o Deus que chamou Abraão e quis chamar-Se seu Deus, o Deus que revelou o seu nome a Moisés, o Deus que, ao entregar-nos o seu Filho, nos revelou plenamente o mistério do seu Nome, dá à pessoa batizada uma nova identidade filial. Desta forma, se evidencia o sentido da imersão na água que se realiza no Batismo: a água é, simultaneamente, símbolo de morte, que nos convida a passar pela conversão do «eu» tendo em vista a sua abertura a um «Eu» maior, e símbolo de vida, do ventre onde renascemos para seguir Cristo na sua nova existência. Deste modo, através da imersão na água, o Batismo fala-nos da estrutura encarnada da fé. A ação de Cristo toca-nos na nossa realidade pessoal, transformando-nos radicalmente, tornando-nos filhos adotivos de Deus, participantes da natureza divina; e assim modifica todas as nossas relações, a nossa situação concreta na terra e no universo, abrindo-as à própria vida de comunhão d’Ele. Este dinamismo de transformação próprio do Batismo ajuda-nos a perceber a importância do catecumenato, que hoje — mesmo em sociedades de antigas raízes cristãs, onde um número crescente de adultos se aproxima do sacramento batismal — se reveste de singular relevância para a nova evangelização. É o itinerário de preparação para o Batismo, para a transformação da vida inteira em Cristo.
Para compreender a ligação entre o Batismo e a fé, pode ajudar-nos a recordação de um texto do profeta Isaías, que já aparece associado com o Batismo na literatura cristã antiga: «Terá o seu refúgio em rochas elevadas, terá (…) água em abundância» (Isaías 33, 16) [37]. Resgatado da morte pela água, o batizado pode manter-se de pé sobre «rochas elevadas», porque encontrou a solidez à qual confiar-se; e, assim, a água de morte transformou-se em água de vida. O texto grego descrevia-a como água «pistòs», água «fiel»: a água do Batismo é fiel, podendo confiar-nos a ela porque a sua corrente entra na dinâmica de amor de Jesus, fonte de segurança para o nosso caminho na vida.

[37] Cf. Epistula Barnabae, 11, 5: SC 172, 162

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  • A invocação da Trindade (Pai, Filho, Espírito Santo) oferece uma síntese do caminho da fé
  • No Batismo, a Trindade dá à pessoa uma nova identidade filial
  • No Batismo, a imersão na água é símbolo da morte: conversão
  • No Batismo, a imersão na água é símbolo da vida: renascer com Cristo
  • No Batismo, a água da morte torna-se em água da vida
  • O Batismo, pela imersão na água, fala-nos da estrutura encarnada da fé
  • No Batismo, a ação de Cristo, transforma-nos radicalmente
  • No Batismo, a ação de Cristo, torna-nos filhos adotivos de Deus
  • No Batismo, a ação de Cristo, torna-nos participantes da natureza divina
  • O Batismo modifica todas as nossas relações
  • O Batismo modifica a nossa situação concreta no mundo
  • O Batismo abre-nos à vida de comunhão (em Deus)
  • O catecumenato (preparação para o Batismo) é fundamental
  • Qual o sentido da invocação da Trindade, no Batismo?
  • O que simboliza a imersão na água, no Batismo?
  • Qual é a ação de Cristo, no Batismo?
  • É importante a preparação para o Batismo?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [41]


A transmissão da fé verifica-se, em primeiro lugar, através do Batismo. Poderia parecer que este sacramento fosse apenas um modo para simbolizar a confissão de fé, um ato pedagógico para quem precise de imagens e gestos, e do qual seria possível fundamentalmente prescindir. Mas não é assim, como no-lo recorda uma palavra de São Paulo: «Pelo Batismo fomos sepultados com Cristo na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova» (Romanos 6, 4); nele, tornamo-nos nova criatura e filhos adotivos de Deus. E mais adiante o Apóstolo diz que o cristão foi confiado a uma «forma de ensino» («typos didachés»), a que obedece de coração (cf. Romanos 6, 17): no Batismo, o ser humano recebe também uma doutrina que deve professar e uma forma concreta de vida que requer o envolvimento de toda a sua pessoa, encaminhando-a para o bem; é transferido para um novo âmbito, confiado a um novo ambiente, a uma nova maneira comum de agir, na Igreja. Deste modo, o Batismo recorda-nos que a fé não é obra do indivíduo isolado, não é um ato que o ser humano possa realizar contando apenas com as próprias forças, mas tem de ser recebida, entrando na comunhão eclesial que transmite o dom de Deus: ninguém se batiza a si mesmo, tal como ninguém vem sozinho à existência. Fomos batizados.

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  • O Batismo é um meio de transmissão da fé
  • O Batismo não é apenas um modo de simbolizar a confissão da fé
  • O Batismo não é apenas um ato pedagógico
  • Pelo Batismo, tornamo-nos novas criaturas
  • Pelo Batismo, tornamo-nos filhos adotivos de Deus
  • No Batismo, recebemos uma doutrina 
  • No Batismo, recebemos uma forma concreta de vida
  • No Batismo, está envolvida a totalidade da pessoa
  • Pelo Batismo, somos introduzidos num novo ambiente
  • Pelo Batismo, somos introduzidos numa nova maneira comum de agir
  • Pelo Batismo, tornamo-nos membros da Igreja
  • O Batismo recorda que a fé não é um ato isolado
  • O Batismo recorda que a fé  é recebida na comunhão eclesial
  • Ninguém se batiza a si mesmo
  • Que importância tem a celebração do Batismo?
  • O que acontece, no indivíduo, pelo Batismo?
  • O Batismo interfere na vida, na maneira de viver?
  • Que relação existe entre o Batismo e a Igreja?
  • É possível dizer que a fé como um ato isolado, apenas pessoal?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [40]


Como sucede em cada família, a Igreja transmite aos seus filhos o conteúdo da sua memória. Como se deve fazer esta transmissão de modo que nada se perca, mas antes que tudo se aprofunde cada vez mais na herança da fé? É através da Tradição Apostólica, conservada na Igreja com a assistência do Espírito Santo, que temos contacto vivo com a memória fundadora. E aquilo que foi transmitido pelos Apóstolos, como afirma o II Concílio Ecuménico do Vaticano, «abrange tudo quanto contribui para a vida santa do Povo de Deus e para o aumento da sua fé; e assim a Igreja, na sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo aquilo que ela é e tudo quanto acredita» [35].
De facto, a fé tem necessidade de um âmbito onde se possa testemunhar e comunicar, e que o mesmo seja adequado e proporcionado ao que se comunica. Para transmitir um conteúdo meramente doutrinal, uma ideia, talvez bastasse um livro ou a repetição de uma mensagem oral; mas aquilo que se comunica na Igreja, o que se transmite na sua Tradição viva é a luz nova que nasce do encontro com o Deus vivo, uma luz que toca a pessoa no seu íntimo, no coração, envolvendo a sua mente, vontade e afetividade, abrindo-a a relações vivas na comunhão com Deus e com os outros. Para se transmitir tal plenitude, existe um meio especial que põe em jogo a pessoa inteira: corpo e espírito, interioridade e relações. Este meio são os sacramentos celebrados na liturgia da Igreja: neles, comunica-se uma memória encarnada, ligada aos lugares e épocas da vida, associada com todos os sentidos; neles, a pessoa é envolvida, como membro de um sujeito vivo, num tecido de relações comunitárias. Por isso, se é verdade que os sacramentos são os sacramentos da fé [36], há que afirmar também que a fé tem uma estrutura sacramental; o despertar da fé passa pelo despertar de um novo sentido sacramental na vida do ser humano e na existência cristã, mostrando como o visível e o material se abrem para o mistério do eterno.

[35] Const. dogm. sobre a divina Revelação Dei Verbum, 8
[36] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. sobre a sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, 59

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  • A Igreja transmite aos seus filhos o conteúdo da sua memória
  • A transmissão na Igreja é feita através da Tradição Apostólica
  • A Tradição Apostólica faz-nos entrar em contacto vivo com a memória fundadora
  • A Igreja transmite tudo o que é e tudo em que acredita
  • A fé tem necessidade de um âmbito onde se possa testemunhar
  • A fé tem necessidade de um âmbito onde se possa comunicar
  • A Igreja transmite a luz nova que nasce do encontro com o Deus vivo
  • A Igreja transmite uma luz que toca a pessoa no seu íntimo, no seu coração
  • A Igreja transmite uma luz que envolve a mente
  • A Igreja transmite uma luz que envolve a vontade
  • A Igreja transmite uma luz que envolve a afetividade
  • A Igreja transmite uma luz que abre a relações vivas na comunhão com Deus e com os outros
  • Os sacramentos são o meio especial de transmissão que põe em jogo a totalidade da pessoa
  • Os sacramentos comunicam uma memória encarnada
  • Os sacramentos estão associados a todos os sentidos
  • Os sacramentos envolvem o indivíduo num tecido de relações comunitárias
  • Os sacramentos são «sacramentos da fé»
  • A fé tem uma estrutura sacramental
  • Como é que a Igreja transmite o conteúdo da sua memória?
  • O que é que a Igreja transmite aos seus filhos?
  • A fé precisa de ser testemunhada e comunicada?
  • O que são os sacramentos?
  • Há relação entre sacramentos e fé?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [39]


É impossível acreditar sozinhos. A fé não é só uma opção individual que se realiza na interioridade do crente, não é uma relação isolada entre o «eu» do fiel e o «Tu» divino, entre o sujeito autónomo e Deus; mas, por sua natureza, abre-se ao «nós», verifica-se sempre dentro da comunhão da Igreja. Assim no-lo recorda a forma dialogada do Credo, que se usa na liturgia batismal. O crer exprime-se como resposta a um convite, a uma palavra que não provém de mim, mas deve ser escutada; por isso, insere-se no interior de um diálogo, não pode ser uma mera confissão que nasce do indivíduo: só é possível responder «creio» em primeira pessoa, porque se pertence a uma comunhão grande, dizendo também «cremos». Esta abertura ao «nós» eclesial realiza-se de acordo com a abertura própria do amor de Deus, que não é apenas relação entre o Pai e o Filho, entre «eu» e «tu», mas, no Espírito, é também um «nós», uma comunhão de pessoas. Por isso mesmo, quem crê nunca está sozinho; e, pela mesma razão, a fé tende a difundir-se, a convidar outros para a sua alegria. Quem recebe a fé, descobre que os espaços do próprio «eu» se alargam, gerando-se nele novas relações que enriquecem a vida. Assim o exprimiu vigorosamente Tertuliano ao dizer do catecúmeno que, tendo sido recebido numa nova família «depois do banho do novo nascimento», é acolhido na casa da Mãe para erguer as mãos e rezar, juntamente com os irmãos, o Pai Nosso [34].

[34] Cf. De Baptismo, 20, 5: CCL 1, 295

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  • É impossível acreditar sozinhos
  • A fé não é só uma opção individual
  • A fé não é uma relação isolada entre o «eu» e o «Tu»
  • A fé abre-se ao «nós», na comunhão da Igreja
  • O crer exprime-se como resposta a um convite
  • O crer não pode ser uma mera confissão que nasce do indivíduo
  • O crer insere-se no interior de um diálogo
  • Só é possível dizer «creio» inserido num «cremos»
  • Deus é relação pessoal, um «nós»
  • A fé tende a difundir-se
  • A fé tende a convidar outros para a sua alegria
  • A fé alarga os horizontes individuais
  • A fé gera novas relações que enriquecem a vida
  • É impossível acreditar sozinhos?
  • Que sentido tem dizer: «eu tenho a minha fé»?
  • Pode-se viver a fé apenas numa relação individual com Deus?
  • É possível dizer «creio» (individual) sem estar inserido num «cremos» (comum)?
  • A fé isola o indivíduo ou abre horizontes?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [38]


A transmissão da fé, que brilha para as pessoas de todos os lugares, passa também através do eixo do tempo, de geração em geração. Dado que a fé nasce de um encontro que acontece na história e ilumina o nosso caminho no tempo, a mesma deve ser transmitida ao longo dos séculos. É através de uma cadeia ininterrupta de testemunhos que nos chega o rosto de Jesus. Como é possível isto? Como se pode estar seguro de beber no «verdadeiro Jesus» através dos séculos? Se o ser humano fosse um indivíduo isolado, se quiséssemos partir apenas do «eu» individual, que pretende encontrar em si mesmo a firmeza do seu conhecimento, tal certeza seria impossível; não posso, por mim mesmo, ver aquilo que aconteceu numa época tão distante de mim. Mas, esta não é a única maneira de o ser humano conhecer; a pessoa vive sempre em relação: provém de outros, pertence a outros, a sua vida torna-se maior no encontro com os outros; o próprio conhecimento e consciência de nós mesmos são de tipo relacional e estão ligados a outros que nos precederam, a começar pelos nossos pais que nos deram a vida e o nome. A própria linguagem, as palavras com que interpretamos a nossa vida e a realidade inteira chegam-nos através dos outros, conservadas na memória viva de outros; o conhecimento de nós mesmos só é possível quando participamos duma memória mais ampla. O mesmo acontece com a fé, que leva à plenitude o modo humano de entender: o passado da fé, aquele ato de amor de Jesus que gerou no mundo uma vida nova, chega até nós na memória de outros, das testemunhas, guardado vivo naquele sujeito único de memória que é a Igreja; esta é uma Mãe que nos ensina a falar a linguagem da fé. São João insistiu sobre este aspecto no seu Evangelho, unindo conjuntamente fé e memória e associando as duas à ação do Espírito Santo que, como diz Jesus, «há de recordar-vos tudo» (João 14, 26). O Amor, que é o Espírito e que habita na Igreja, mantém unidos entre si todos os tempos e faz-nos contemporâneos de Jesus, tornando-Se assim o guia do nosso caminho na fé.

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  • A transmissão da fé brilha para as pessoas de todos os lugares
  • A transmissão da fé passa de geração em geração
  • O rosto de Jesus Cristo chega até nós através de uma cadeia ininterrupta de testemunhos
  • A pessoa vive sempre em relação
  • A vida torna-se maior no encontro com os outros
  • O conhecimento tem uma dimensão relacional
  • A linguagem chega-nos através dos outros
  • O conhecimento de nós mesmos só é possível numa memória mais ampla
  • O passado da fé chega até nós na memória dos outros, das testemunhas
  • O passado da fé é guardado na memória da Igreja
  • A Igreja é uma Mãe que nos ensina a falar a linguagem da fé
  • A fé e a memória estão associadas à ação do Espírito Santo
  • O Espírito Santo faz-nos contemporâneos de Jesus Cristo
  • Como se dá a transmissão da fé?
  • Qual a importância da relação na transmissão da fé?
  • Que missão tem a Igreja na transmissão da fé?
  • Que ligação existe entre fé, memória e Espírito Santo?
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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [37]


Quem se abriu ao amor de Deus, acolheu a sua voz e recebeu a sua luz, não pode guardar este dom para si mesmo. Uma vez que é escuta e visão, a fé transmite-se também como palavra e como luz; dirigindo-se aos Coríntios, o apóstolo Paulo utiliza precisamente estas duas imagens. Por um lado, diz: «Animados do mesmo espírito de fé, conforme o que está escrito: Acreditei e por isso falei, também nós acreditamos e por isso falamos» (2Coríntios 4, 13); a palavra recebida faz-se resposta, confissão, e assim ecoa para os outros, convidando-os a crer. Por outro, São Paulo refere-se também à luz: «E nós todos que, com o rosto descoberto, reflectimos a glória do Senhor, somos transfigurados na sua própria imagem» (2Coríntios 3, 18); é uma luz que se reflete de rosto em rosto, como sucedeu com Moisés cujo rosto refletia a glória de Deus depois de ter falado com Ele: «[Deus] brilhou nos nossos corações, para irradiar o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face de Cristo» (2Coríntios 4, 6). A luz de Jesus brilha no rosto dos cristãos como num espelho, e assim se difunde chegando até nós, para que também nós possamos participar desta visão e refletir para outros a sua luz, da mesma forma que a luz do círio, na liturgia de Páscoa, acende muitas outras velas. A fé transmite-se por assim dizer sob a forma de contacto, de pessoa a pessoa, como uma chama se acende noutra chama. Os cristãos, na sua pobreza, lançam uma semente tão fecunda que se torna uma grande árvore, capaz de encher o mundo de frutos.

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
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  • O dom de Deus (fé) precisa de ser partilhado
  • A fé transmite-se como palavra: faz-se resposta que ecoa para os outros
  • A fé transmite-se como luz: reflete-se de rosto em rosto
  • A luz de Jesus Cristo brilha no rosto dos cristãos como num espelho
  • A luz de Jesus Cristo reflete-se de geração em geração
  • A fé transmite-se sob a forma de contacto (pessoa a pessoa)
  • A fé transmite-se como a luz do Círio Pascal que acende outras velas
  • Porque é que a fé, dom de Deus, precisa de ser partilhado?
  • Quais são as imagens que ilustram a transmissão da fé?
  • Como é que chega até nós a luz de Jesus Cristo?
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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [36]


Como luz que é, a fé convida-nos a penetrar nela, a explorar sempre mais o horizonte que ilumina, para conhecer melhor o que amamos. Deste desejo nasce a teologia cristã; assim, é claro que a teologia é impossível sem a fé e pertence ao próprio movimento da fé, que procura a compreensão mais profunda da auto-revelação de Deus, culminada no Mistério de Cristo. A primeira consequência é que, na teologia, não se verifica apenas um esforço da razão para perscrutar e conhecer, como nas ciências experimentais. Deus não pode ser reduzido a objeto; Ele é Sujeito que Se dá a conhecer e manifesta na relação pessoa a pessoa. A fé reta orienta a razão para se abrir à luz que vem de Deus, a fim de que ela, guiada pelo amor à verdade, possa conhecer Deus de forma mais profunda. Os grandes doutores e teólogos medievais declararam que a teologia, enquanto ciência da fé, é uma participação no conhecimento que Deus tem de Si mesmo. Por isso, a teologia não é apenas palavra sobre Deus, mas, antes de tudo, acolhimento e busca de uma compreensão mais profunda da palavra que Deus nos dirige: palavra que Deus pronuncia sobre Si mesmo, porque é um diálogo eterno de comunhão, no âmbito do qual é admitido o ser humano [33]. Assim, é própria da teologia a humildade, que se deixa «tocar» por Deus, reconhece os seus limites face ao Mistério e se encoraja a explorar, com a disciplina própria da razão, as riquezas insondáveis deste Mistério.
Além disso, a teologia partilha a forma eclesial da fé; a sua luz é a luz do sujeito crente que é a Igreja. Isto implica, por um lado, que a teologia esteja ao serviço da fé dos cristãos, vise humildemente preservar e aprofundar o crer de todos, sobretudo dos mais simples; e por outro, dado que vive da fé, a teologia não considera o magistério do Papa e dos Bispos em comunhão com ele como algo de extrínseco, um limite à sua liberdade, mas, pelo contrário, como um dos seus momentos internos constitutivos, enquanto o magistério assegura o contacto com a fonte originária, oferecendo assim a certeza de beber na Palavra de Cristo em toda a sua integridade.

[33] Cf. Boaventura, Breviloquium, Prol.: Opera Omnia, V (Quaracchi 1891), 201; In I librum sententiarum, Proem., q. 1, resp.: Opera Omnia, I (Quaracchi 1891), 7; Tomásde Aquino, Summa theologiae, I, q. 1

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
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  • A luz da fé convida-nos a penetrar nela
  • A luz da fé convida-nos a explorar sempre mais o horizonte que ilumina
  • A luz da fé ajuda-nos a conhecer melhor o que amamos
  • A teologia cristã nasce do desejo de penetrar, explorar e conhecer melhor a luz da fé
  • A teologia é impossível sem a fé
  • Deus não pode ser reduzia a objeto
  • Deus é Sujeito que se dá a conhecer
  • A fé reta orienta a razão para se abrir à luz que vem de Deus
  • A teologia é humilde
  • A teologia deixa-se «tocar» por Deus
  • A teologia reconhece os seus limites
  • A teologia partilha a forma eclesial da fé
  • A luz da teologia é a luz da Igreja
  • A teologia está ao serviço da fé
  • A teologia visa preservar a fé 
  • A teologia visa aprofundar a fé
  • A teologia vive da fé
  • A teologia reconhece a autoridade do Magistério
  • Quais são os desafios colocados pela luz da fé?
  • O que é a teologia?
  • Que relação existe entre a teologia e a fé?
  • Qual o lugar de Deus na teologia: objeto ou sujeito?
  • Quais são as caraterísticas da teologia?
  • Quais são as finalidades da teologia?
  • Que relação existe entre teologia e Magistério da Igreja?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 16.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [35]


A luz da fé em Jesus ilumina também o caminho de todos aqueles que procuram a Deus e oferece a contribuição própria do cristianismo para o diálogo com os seguidores das diferentes religiões. A Carta aos Hebreus fala-nos do testemunho dos justos que, antes da Aliança com Abraão, já procuravam a Deus com fé; lá se diz, a propósito de Henoc, que «tinha agradado a Deus», sendo isso impossível sem a fé, porque «quem se aproxima de Deus tem de acreditar que Ele existe e recompensa aqueles que O procuram» (Hebreus 11, 5.6). Deste modo, é possível compreender que o caminho do ser humano religioso passa pela confissão de um Deus que cuida dele e que Se pode encontrar. Que outra recompensa poderia Deus oferecer àqueles que O buscam, senão deixar-Se encontrar a Si mesmo? Ainda antes de Henoc, encontramos a figura de Abel, de quem se louva igualmente a fé, em virtude da qual foram agradáveis a Deus os seus dons, a oferenda dos primogénitos dos seus rebanhos (cf. Hebreus 11, 4). O humano religioso procura reconhecer os sinais de Deus nas experiências diárias da sua vida, no ciclo das estações, na fecundidade da terra e em todo o movimento do universo. Deus é luminoso, podendo ser encontrado também por aqueles que O buscam de coração sincero.
Imagem desta busca são os Magos, guiados pela estrela até Belém (cf. Mateus 2, 1-12). A luz de Deus mostrou-se-lhes como caminho, como estrela que os guia ao longo duma estrada a descobrir. Deste modo, a estrela fala da paciência de Deus com os nossos olhos, que devem habituar-se ao seu fulgor. Encontrando-se a caminho, o ser humano religioso deve estar pronto a deixar-se guiar, a sair de si mesmo para encontrar o Deus que não cessa de nos surpreender. Este respeito de Deus pelos olhos do ser humano mostra-nos que, quando o humano se aproxima d’Ele, a luz humana não se dissolve na imensidão luminosa de Deus, como se fosse um estrela absorvida pela aurora, mas torna-se tanto mais brilhante quanto mais perto fica do fogo gerador, como um espelho que reflete o resplendor. A confissão de Jesus, único Salvador, afirma que toda a luz de Deus se concentrou n’Ele, na sua «vida luminosa», em que se revela a origem e a consumação da história [31]. Não há nenhuma experiência humana, nenhum itinerário do humano para Deus que não possa ser acolhido, iluminado e purificado por esta luz. Quanto mais o cristão penetrar no círculo aberto pela luz de Cristo, tanto mais será capaz de compreender e acompanhar o caminho de cada ser humano para Deus.
Configurando-se como caminho, a fé tem a ver também com a vida dos homens e mulheres que, apesar de não acreditar, desejam-no fazer e não cessam de procurar. Na medida em que se abrem, de coração sincero, ao amor e se põem a caminho com a luz que conseguem captar, já vivem — sem o saber — no caminho para a fé: procuram agir como se Deus existisse, seja porque reconhecem a sua importância para encontrar diretrizes firmes na vida comum, seja porque sentem o desejo de luz no meio da escuridão, seja ainda porque, notando como é grande e bela a vida, intuem que a presença de Deus ainda a tornaria maior. Santo Ireneu de Lião refere que Abraão, antes de ouvir a voz de Deus, já O procurava «com o desejo ardente do seu coração» e «percorria todo o mundo, perguntando-se onde pudesse estar Deus», até que «Deus teve piedade daquele que, sozinho, O procurava no silêncio» [32]. Quem se põe a caminho para praticar o bem, já se aproxima de Deus, já está sustentado pela sua ajuda, porque é próprio da dinâmica da luz divina iluminar os nossos olhos, quando caminhamos para a plenitude do amor.

[31] Cf. Congr. para a Doutrina da Fé, Decl. Dominus Iesus (6 de Agosto de 2000), 15: AAS 92 (2000), 756
[32] Demonstratio apostolicae praedicationis, 24: SC 406, 117

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»] — pdf

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  • A luz da fé em Jesus Cristo ilumina também os que procuram Deus
  • A luz da fé em Jesus Cristo contribui para o diálogo entre as religiões
  • O caminho religioso passa pela confissão de um Deus que cuida do ser humano
  • O caminho religioso passa pela confissão de um Deus que se pode encontrar
  • O humano religioso procura reconhecer os sinais de Deus nas experiências diárias 
  • O humano religioso procura reconhecer os sinais de Deus no ciclo das estações
  • O humano religioso procura reconhecer os sinais de Deus na fecundidade da terra 
  • O humano religioso procura reconhecer os sinais de Deus em todo o universo
  • Deus é luminoso
  • Deus pode ser encontrado por aqueles que O buscam de coração sincero
  • Os Magos são um exemplo da procura humana de Deus
  • Os Magos são um exemplo de que Deus se deixa encontrar
  • A estrela dos Magos fala da paciência de Deus com os nossos olhos
  • O ser humano religioso tem de estar pronto a deixar-se guiar
  • O ser humano religioso tem de estar pronto a sair de si mesmo para encontrar Deus
  • A luz humana não se dissolve na imensidão luminosa de Deus
  • A luz humana torna-se mais brilhante quanto mais se aproxima de Deus
  • Qualquer itinerário religioso pode ser acolhido pela luz de Jesus Cristo
  • Qualquer itinerário religioso pode ser iluminado pela luz de Jesus Cristo
  • Qualquer itinerário religioso pode ser purificado pela luz de Jesus Cristo
  • A fé também se relaciona com a vida dos seres humanos que andam à procura de Deus
  • O caminho para a fé está presente naqueles que procuram agir como se Deus existisse
  • O caminho para a fé está presente naqueles que procuram diretrizes firmes na vida
  • O caminho para a fé está presente naqueles que sentem o desejo de luz na escuridão
  • O caminho para a fé está presente naqueles que apreciam a grandeza e a beleza da vida
  • Quem se põe a caminho para praticar o bem já se aproxima de Deus
  • Que relação existe entre a luz da fé e aqueles que andam à procuram de Deus?
  • Qual é a atitude do ser humano religioso?
  • Que relação existe entre a luz humana e a luz de Deus?
  • Porque é que os Magos simbolizam a procura de Deus?
  • A luz de Jesus Cristo pode iluminar qualquer itinerário religioso?
  • Onde é que se torna presente o caminho da fé?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [34]


A luz do amor, própria da fé, pode iluminar as perguntas do nosso tempo acerca da verdade. Muitas vezes, hoje, a verdade é reduzida a autenticidade subjetiva do indivíduo, válida apenas para a vida individual. Uma verdade comum mete-nos medo, porque a identificamos — como dissemos atrás — com a imposição intransigente dos totalitarismos; mas, se ela é a verdade do amor, se é a verdade que se mostra no encontro pessoal com o Outro e com os outros, então fica livre da reclusão no indivíduo e pode fazer parte do bem comum. Sendo a verdade de um amor, não é verdade que se impõe pela violência, não é verdade que esmaga o indivíduo; nascendo do amor pode chegar ao coração, ao centro pessoal de cada humano; daqui resulta claramente que a fé não é intransigente, mas cresce na convivência que respeita o outro. O crente não é arrogante; pelo contrário, a verdade torna-o humilde, sabendo que, mais do que possuirmo-la nós, é ela que nos abraça e possui. Longe de nos endurecer, a segurança da fé põe-nos a caminho e torna possível o testemunho e o diálogo com todos.
Por outro lado, enquanto unida à verdade do amor, a luz da fé não é alheia ao mundo material, porque o amor vive-se sempre com corpo e alma; a luz da fé é luz encarnada, que dimana da vida luminosa de Jesus. A fé ilumina também a matéria, confia na sua ordem, sabe que nela se abre um caminho cada vez mais amplo de harmonia e compreensão. Deste modo, o olhar da ciência tira benefício da fé: esta convida o cientista a permanecer aberto à realidade, em toda a sua riqueza inesgotável. A fé desperta o sentido crítico, enquanto impede a pesquisa de se deter, satisfeita, nas suas fórmulas e ajuda-a a compreender que a natureza sempre as ultrapassa. Convidando a maravilhar-se diante do mistério da criação, a fé alarga os horizontes da razão para iluminar melhor o mundo que se abre aos estudos da ciência.

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
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  • A luz do amor, própria da fé, pode iluminar as perguntas do nosso tempo
  • Hoje, a verdade é válida apenas para a vida individual
  • Uma verdade comum mete medo (por causa dos totalitarismos)
  • A verdade do amor está da reclusão ao indivíduo
  • A verdade do amor pode fazer parte do bem comum
  • A verdade do amor não se impõe pela violência
  • A verdade do amor não esmaga o indivíduo
  • A verdade do amor pode chegar ao coração
  • A verdade do amor pode chegar ao centro pessoal do ser humano
  • A fé cresce na convivência que respeita o outro
  • O crente não é arrogante
  • A verdade torna o crente humilde
  • A segurança da fé põe-nos a caminho
  • A segurança da fé torna possível o testemunho 
  • A segurança da fé torna possível o diálogo com todos
  • A luz da fé não está alheia do mundo material
  • A luz da fé é luz encarnada
  • A luz da fé dimana da vida luminosa de Jesus Cristo
  • O olhar da ciência tira benefício da fé
  • A fé desperta o sentido crítico
  • A fé alarga os horizontes da razão para iluminar melhor o mundo
  • A luz do amor, própria da fé, ilumina as questões do nosso tempo?
  • Porque é que o ser humano atual tem medo da verdade?
  • O que é a verdade do amor?
  • A verdade torna o crente humilde?
  • Em que sentido é que a luz da fé é luz encarnada?
  • Que relação pode existir entre ciência e fé?
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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [33]


Na vida de Santo Agostinho, encontramos um exemplo significativo deste caminho: a busca da razão, com o seu desejo de verdade e clareza, aparece integrada no horizonte da fé, do qual recebeu uma nova compreensão. Por um lado, acolhe a filosofia grega da luz com a sua insistência na visão: o seu encontro com o neoplatonismo fez-lhe conhecer o paradigma da luz, que desce do alto para iluminar as coisas, tornando-se assim um símbolo de Deus. Desta maneira, Santo Agostinho compreendeu a transcendência divina e descobriu que todas as coisas possuem em si uma transparência, isto é, que podiam refletir a bondade de Deus, o Bem; assim se libertou do maniqueísmo, em que antes vivia, que o inclinava a pensar que o bem e o mal lutassem continuamente entre si, confundindo-se e misturando-se, sem contornos claros. O facto de ter compreendido que Deus é luz deu à sua existência uma nova orientação, a capacidade de reconhecer o mal de que era culpado e voltar-se para o bem.
Mas, por outro lado, na experiência concreta de Agostinho, que ele próprio narra nas suas «Confissões», o momento decisivo no seu caminho de fé não foi uma visão de Deus para além deste mundo, mas a escuta, quando no jardim ouviu uma voz que lhe dizia: «Toma e lê»; ele pegou no tomo com as Cartas de São Paulo, detendo-se no capítulo décimo terceiro da Carta aos Romanos [28]. Temos aqui o Deus pessoal da Bíblia, capaz de falar ao ser humano, descer para viver com ele e acompanhar o seu caminho na história, manifestando-Se no tempo da escuta e da resposta.
Mas, este encontro com o Deus da Palavra não levou Santo Agostinho a rejeitar a luz e a visão, mas integrou ambas as perspetivas, guiado sempre pela revelação do amor de Deus em Jesus. Deste modo, elaborou uma filosofia da luz que reúne em si a reciprocidade própria da palavra e abre um espaço à liberdade própria do olhar para a luz: tal como à palavra corresponde uma resposta livre, assim também a luz encontra como resposta uma imagem que a reflete. Deste modo, associando escuta e visão, Santo Agostinho pôde referir-se à «palavra que resplandece no interior do homem» [29]. A luz torna-se, por assim dizer, a luz de uma palavra, porque é a luz de um Rosto pessoal, uma luz que, ao iluminar-nos, nos chama e quer refletir-se no nosso rosto para resplandecer a partir do nosso íntimo. Por outro lado, o desejo da visão do todo, e não apenas dos fragmentos da história, continua presente e cumprir-se-á no fim, quando o ser humano — como diz o Santo de Hipona — poderá ver e amar [30]; e isto, não por ser capaz de possuir a luz toda, já que esta será sempre inexaurível, mas por entrar, todo inteiro, na luz.

[28] Cf. Confessiones, VIII, 12, 29: PL 32, 762
[29] De Trinitate, XV, 11, 20: PL 42, 1071
[30] Cf. De civitate Dei, XXII, 30, 5: PL 41, 804

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
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  • A vida de Santo Agostinho é exemplo de relação entre razão e fé
  • Acolhe a filosofia grega da luz (visão): neoplatonismo
  • Aprendeu que todas as coisas podem refletir a bondade de Deus: o Bem
  • A compreensão de que Deus é luz deu uma nova orientação à sua vida
  • O momento decisivo da sua vida foi um momento de «escuta»
  • Aprendeu a conhecer o Deus pessoal da Bíblia, que fala ao ser humano
  • Aprendeu a conhecer o Deus pessoal da Bíblia, que «desce» para estar com o ser humano
  • Aprendeu a conhecer o Deus pessoal da Bíblia, que acompanha o ser humano
  • Elaborou uma filosofia da luz que integra a escuta e a visão
  • A luz (de um Rosto pessoal) ilumina-nos e reflete-se no nosso rosto
  • No fim dos tempos, o ser humano entrará, todo inteiro, na luz
  • Como é que Santo Agostinho relaciona a razão e a fé?
  • Quais são as etapas principais da vida de Santo Agostinho?
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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [32]


A fé cristã, enquanto anuncia a verdade do amor total de Deus e abre para a força deste amor, chega ao centro mais profundo da experiência de cada ser humano, que vem à luz graças ao amor e é chamado ao amor para permanecer na luz. Movidos pelo desejo de iluminar a realidade inteira a partir do amor de Deus manifestado em Jesus e procurando amar com este mesmo amor, os primeiros cristãos encontraram no mundo grego, na sua fome de verdade, um parceiro idóneo para o diálogo. O encontro da mensagem evangélica com o pensamento filosófico do mundo antigo constituiu uma passagem decisiva para o Evangelho chegar a todos os povos e favoreceu uma fecunda sinergia entre fé e razão, que se foi desenvolvendo no decurso dos séculos até aos nossos dias. O Beato João Paulo II, na sua carta encíclica Fides et ratio, mostrou como fé e razão se reforçam mutuamente [27]. Depois de ter encontrado a luz plena do amor de Jesus, descobrimos que havia, em todo o nosso amor, um lampejo daquela luz e compreendemos qual era a sua meta derradeira; e, simultaneamente, o facto de o nosso amor trazer em si uma luz ajuda-nos a ver o caminho do amor rumo à plenitude da doação total do Filho de Deus por nós. Neste movimento circular, a luz da fé ilumina todas as nossas relações humanas, que podem ser vividas em união com o amor e a ternura de Cristo.

[27] Cf. n.º 73: AAS (1999), 61-62

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
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  • A fé cristã anuncia a verdade do amor total de Deus
  • A fé cristã abre para a força do amor de Deus
  • A fé cristã chega ao centro mais profundo de cada ser humano
  • Cada ser humano vem à luz graças ao amor
  • Cada ser humano é chamado ao amor para permanecer na luz
  • Os primeiros cristãos encontraram na filosofia grega um parceiro idóneo para o diálogo
  • O diálogo entre fé e razão favoreceu a difusão do Evangelho a todos os povos
  • João Paulo II fundamentou a ideia de que a fé e a razão reforçam-se mutuamente
  • A luz da fé ilumina todas as nossas relações humanas
  • Como é que a fé cristã chega ao centro mais profundo do ser humano?
  • Qual a importância do amor para o ser humano?
  • Qual é a importância do diálogo entre fé e razão?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [31]


Só assim, através da encarnação, através da partilha da nossa humanidade, podia chegar à plenitude o conhecimento próprio do amor. De facto, a luz do amor nasce quando somos tocados no coração, recebendo assim, em nós, a presença interior do amado, que nos permite reconhecer o seu mistério. Compreendemos agora por que motivo, para João, a fé seja, juntamente com o escutar e o ver, um tocar, como nos diz na sua Primeira Carta: «O que ouvimos, o que vimos (…) e as nossas mãos tocaram relativamente ao Verbo da Vida…» (1João 1, 1). Por meio da sua encarnação, com a sua vinda entre nós, Jesus tocou-nos e, através dos sacramentos, ainda hoje nos toca; desta forma, transformando o nosso coração, permitiu-nos — e permite-nos — reconhecê-Lo e confessá-Lo como Filho de Deus. Pela fé, podemos tocá-Lo e receber a força da sua graça. Santo Agostinho, comentando a passagem da hemorroíssa que toca Jesus para ser curada (cf. Lucas 8, 45-46), afirma: «Tocar com o coração, isto é crer» [26]. A multidão comprime-se ao redor de Jesus, mas não O alcança com aquele toque pessoal da fé que reconhece o seu mistério, o seu ser Filho que manifesta o Pai. Só quando somos configurados com Jesus é que recebemos o olhar adequado para O ver.

[26] Sermo 229/L, 2: PLS 2, 576 («Tangere autem corde, hoc est credere»)

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  • A luz do amor nasce quando somos tocados no coração
  • O toque no coração faz-nos receber a presença interior do amado
  • A presença interior do amado faz-nos reconhecer o seu mistério
  • A fé, como o ouvir e o ver, é um tocar (o coração)
  • Pela encarnação, Jesus Cristo tocou-nos
  • Através dos sacramentos, Jesus Cristo continua a tocar-nos
  • Ser tocado por Jesus Cristo permite reconhecê-lo como Filho de Deus
  • Ser tocado por Jesus Cristo permite confessá-lo como Filho de Deus
  • Pela fé, podemos tocar Jesus Cristo
  • Pela fé, podemos receber a força da graça de Jesus Cristo
  • Configurados com Jesus Cristo, recebemos o olhar adequado para o ver
  • Quando é que nasce a luz do amor?
  • O que é ser tocado no coração?
  • O que acontece quando somos tocados no coração?
  • O que significa dizer que a fé é um tocar o coração?
  • Hoje, como é que Jesus Cristo nos continua a tocar?
  • O que recebemos de Jesus Cristo pela fé?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 11.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [30]


A conexão entre o ver e o ouvir, como órgãos do conhecimento da fé, aparece com a máxima clareza no Evangelho de João, onde acreditar é simultaneamente ouvir e ver. A escuta da fé verifica-se segundo a forma de conhecimento própria do amor: é uma escuta pessoal, que distingue e reconhece a voz do Bom Pastor (cf. João 10, 3-5); uma escuta que requer o seguimento, como acontece com os primeiros discípulos que, «ouvindo [João Batista] falar desta maneira, seguiram Jesus» (João 1, 37). Por outro lado, a fé está ligada também com a visão: umas vezes, a visão dos sinais de Jesus precede a fé, como sucede com os judeus que, depois da ressurreição de Lázaro, «ao verem o que Jesus fez, creram n’Ele» (João 11, 45); outras vezes, é a fé que leva a uma visão mais profunda: «Se acreditares, verás a glória de Deus» (João 11, 40). Por fim, acreditar e ver cruzam-se: «Quem crê em Mim (...) crê n’Aquele que Me enviou; e quem Me vê a Mim, vê Aquele que me enviou» (João 12, 44-45). O ver, graças à sua união com o ouvir, torna-se seguimento de Cristo; e a fé aparece como um caminho do olhar em que os olhos se habituam a ver em profundidade. E assim, na manhã de Páscoa, de João — que, ainda na escuridão perante o túmulo vazio, «viu e começou a crer» (João 20, 8) — passa-se a Maria Madalena — que já vê Jesus (cf. João 20, 14) e quer retê-Lo, mas é convidada a contemplá-Lo no seu caminho para o Pai — até à plena confissão da própria Madalena diante dos discípulos: «Vi o Senhor!» (João 20, 18).
Como se chega a esta síntese entre o ouvir e o ver? A partir da pessoa concreta de Jesus, que Se vê e escuta. Ele é a Palavra que Se fez carne e cuja glória contemplámos (cf. João 1, 14). A luz da fé é a luz de um Rosto, no qual se vê o Pai. De facto, no quarto Evangelho, a verdade que a fé apreende é a manifestação do Pai no Filho, na sua carne e nas suas obras terrenas; verdade essa, que se pode definir como a «vida luminosa» de Jesus [24]. Isto significa que o conhecimento da fé não nos convida a olhar uma verdade puramente interior; a verdade que a fé nos descerra é uma verdade centrada no encontro com Cristo, na contemplação da sua vida, na perceção da sua presença. Neste sentido e a propósito da visão corpórea do Ressuscitado, São Tomás de Aquino fala de «oculata fides» (uma fé que vê) dos Apóstolos: [25] viram Jesus ressuscitado com os seus olhos e acreditaram, isto é, puderam penetrar na profundidade daquilo que viam para confessar o Filho de Deus, sentado à direita do Pai.

[24] Cf. Heinrich Schlier, «Meditationen über den Johanneischen Begriff der Wahrheit», in: Besinnung auf das Neue Testament. Exegetische Aufsätze und Vorträge 2 (Friburgo, Basel, Viena 1959), 272
[25] Cf. Summa theologiae, III, q. 55, a. 2, ad 1

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
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  • O evangelho segundo João une ouvir e ver como fonte da fé
  • Acreditar é ouvir e ver
  • A escuta da fé é própria do amor
  • A visão conduz à fé
  • A fé conduz a uma visão mais profunda
  • A união do ver com o ouvir torna-se no seguimento de Jesus Cristo
  • Jesus Cristo é a síntese da união entre ver e ouvir
  • A verdade da fé está centrada no encontro com Jesus Cristo
  • A verdade da fé está centrada na contemplação de Jesus Cristo
  • A verdade da fé está centrada na perceção da presença de Jesus Cristo
  • Como é que o evangelho segundo João une ouvir e ver?
  • Porque é que acreditar significa ouvir e ver?
  • O que é o seguimento de Jesus Cristo?
  • De que forma é que Jesus Cristo é a síntese entre ver e ouvir?
  • Onde está centrada a verdade da fé, no evangelho segundo João?
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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 10.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [29]


Justamente porque o conhecimento da fé está ligado à aliança de um Deus fiel, que estabelece uma relação de amor com o ser humano e lhe dirige a Palavra, é apresentado pela Bíblia como escuta, aparece associado com o ouvido. São Paulo usará uma fórmula que se tornou clássica: «fides ex auditu — a fé vem da escuta» (Romanos 10, 17). O conhecimento associado à palavra é sempre conhecimento pessoal, que reconhece a voz, se lhe abre livremente e a segue obedientemente. Por isso, São Paulo falou da «obediência da fé» (cf. Romanos 1, 5; 16, 26) [23]. Além disso, a fé é conhecimento ligado ao transcorrer do tempo que a palavra necessita para ser explicitada: é conhecimento que só se aprende num percurso de seguimento. A escuta ajuda a identificar bem o nexo entre conhecimento e amor.
A propósito do conhecimento da verdade, pretendeu-se por vezes contrapor a escuta à visão, a qual seria peculiar da cultura grega. Se a luz, por um lado, oferece a contemplação da totalidade a que o ser humano sempre aspirou, por outro, parece não deixar espaço à liberdade, pois desce do céu e chega diretamente à vista, sem lhe pedir que responda. Além disso, parece convidar a uma contemplação estática, separada do tempo concreto em que o ser humano goza e sofre. Segundo esta conceção, haveria oposição entre a abordagem bíblica do conhecimento e a grega, a qual, na sua busca duma compreensão completa da realidade, teria associado o conhecimento com a visão.
Mas tal suposta oposição não é corroborada de forma alguma pelos dados bíblicos: o Antigo Testamento combinou os dois tipos de conhecimento, unindo a escuta da Palavra de Deus com o desejo de ver o seu rosto. Isto tornou possível entabular diálogo com a cultura helenista, um diálogo que pertence ao coração da Escritura. O ouvido atesta não só a chamada pessoal e a obediência, mas também que a verdade se revela no tempo; a vista, por sua vez, oferece a visão plena de todo o percurso, permitindo situar-nos no grande projecto de Deus; sem tal visão, disporíamos apenas de fragmentos isolados de um todo desconhecido.

[23] «A Deus que revela é devida a "obediência da fé" (Romanos 16, 26; cf. Romanos 1, 5; 2 Cor 10, 5-6); pela fé, o ser humano entrega-se total e livremente a Deus, oferecendo a Deus revelador o obséquio pleno da inteligência e da vontade e prestando voluntário assentimento à sua revelação. Para prestar esta adesão da fé, são necessários a prévia e concomitante ajuda da graça divina e os interiores auxílios do Espírito Santo, o qual move e converte a Deus o coração, abre os olhos do entendimento, e dá a todos a suavidade em aceitar e crer a verdade. Para que a compreensão da revelação seja sempre mais profunda, o mesmo Espírito Santo aperfeiçoa sem cessar a fé mediante os seus dons» (Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a divina Revelação Dei Verbum, 5).

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
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  • O conhecimento da fé, na Bíblia, aparece associado à escuta, ao ouvido
  • A fé vem da escuta — diz Paulo
  • A escuta é sempre pessoal
  • A escuta reconhece a voz
  • A escuta abre-se livremente à palavra
  • A escuta segue obedientemente a palavra
  • O conhecimento da fé aprende-se num percurso de seguimento
  • Não há oposição entre escuta e visão, entre o conhecimento bíblico e a cultura grega
  • O Antigo Testamento combinou os dois tipos de conhecimento: escuta e visão
  • Escuta e visão não se opõem, mas completam-se
  • O que significa a expressão paulina: «A fé vem da escuta»?
  • O que significa a expressão paulina: «A obediência da fé»?
  • Como se aprende o conhecimento da fé?
  • Que relação existe entre a escuta e a visão como fontes de conhecimento?
  • Como é que o Antigo Testamento une a escuta e a visão?
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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 9.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [28]


Esta descoberta do amor como fonte de conhecimento, que pertence à experiência primordial de cada ser humano, encontra uma expressão categorizada na concepção bíblica da fé. Israel, saboreando o amor com que Deus o escolheu e gerou como povo, chega a compreender a unidade do desígnio divino, desde a origem à sua realização. O conhecimento da fé, pelo facto de nascer do amor de Deus que estabelece a Aliança, é conhecimento que ilumina um caminho na história. É por isso também que, na Bíblia, verdade e fidelidade caminham juntas: o Deus verdadeiro é o Deus fiel, Aquele que mantém as suas promessas e permite, com o decorrer do tempo, compreender o seu desígnio. Através da experiência dos profetas, no sofrimento do exílio e na esperança de um regresso definitivo à Cidade Santa, Israel intuiu que esta verdade de Deus se estendia mais além da própria história, abraçando a história inteira do mundo a começar da criação. O conhecimento da fé ilumina não só o caminho particular de um povo, mas também o percurso inteiro do mundo criado, desde a origem até à sua consumação.

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
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Refletir... saborear

  • O amor é fonte de conhecimento
  • O povo de Israel, pela experiência do amor, chega à fé
  • O conhecimento da fé nasce do amor de Deus
  • O conhecimento da fé ilumina o caminho
  • Na Bíblia, verdade e fidelidade caminham juntas
  • O povo de Israel, pela sua experiência, intuiu que a presença de Deus em toda a história
  • O conhecimento da fé ilumina a Criação inteira
  • Em que medida o amor é fonte de conhecimento?
  • Como é que o povo de Israel chega à fé?
  • Porque é que, na Bíblia, verdade e fidelidade caminham juntas?
  • Como é que o conhecimento da fé é capaz de ilumina a Criação inteira?
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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [27]


É conhecido o modo como o filósofo Ludwig Wittgenstein explicou a ligação entre a fé e a certeza. Segundo ele, acreditar seria comparável à experiência do enamoramento, concebida como algo de subjetivo, impossível de propor como verdade válida para todos [19]. De facto, aos olhos do ser humano moderno, parece que a questão do amor não teria nada a ver com a verdade; o amor surge, hoje, como uma experiência ligada, não à verdade, mas ao mundo inconstante dos sentimentos.
Mas, será esta verdadeiramente uma descrição adequada do amor? Na realidade, o amor não se pode reduzir a um sentimento que vai e vem. É verdade que o amor tem a ver com a nossa afetividade, mas para a abrir à pessoa amada, e assim iniciar um caminho que faz sair da reclusão no próprio eu e dirigir-se para a outra pessoa, a fim de construir uma relação duradoura; o amor visa a união com a pessoa amada. E aqui se manifesta em que sentido o amor tem necessidade da verdade: apenas na medida em que o amor estiver fundado na verdade é que pode perdurar no tempo, superar o instante efémero e permanecer firme para sustentar um caminho comum. Se o amor não tivesse relação com a verdade, estaria sujeito à alteração dos sentimentos e não superaria a prova do tempo. Diversamente, o amor verdadeiro unifica todos os elementos da nossa personalidade e torna-se uma luz nova que aponta para uma vida grande e plena. Sem a verdade, o amor não pode oferecer um vínculo sólido, não consegue arrancar o «eu» para fora do seu isolamento, nem libertá-lo do instante fugidio para edificar a vida e produzir fruto.
Se o amor tem necessidade da verdade, também a verdade precisa do amor; amor e verdade não se podem separar. Sem o amor, a verdade torna-se fria, impessoal, gravosa para a vida concreta da pessoa. A verdade que buscamos, a verdade que dá significado aos nossos passos, ilumina-nos quando somos tocados pelo amor. Quem ama, compreende que o amor é experiência da verdade, compreende que é precisamente ele que abre os nossos olhos para verem a realidade inteira, de maneira nova, em união com a pessoa amada. Neste sentido, escreveu São Gregório Magno que o próprio amor é um conhecimento [20], traz consigo uma lógica nova. Trata-se de um modo relacional de olhar o mundo, que se torna conhecimento partilhado, visão na visão do outro e visão comum sobre todas as coisas. Na Idade Média, Guilherme de Saint Thierry adopta esta tradição, ao comentar um versículo do Cântico dos Cânticos no qual o amado diz à amada: «Como são lindos os teus olhos de pomba!» (Cântico dos Cânticos 1, 15) [21]. Estes dois olhos — explica Saint Thierry — são a razão crente e o amor, que se tornam um único olhar para chegar à contemplação de Deus, quando a inteligência se faz «entendimento de um amor iluminado» [22].

[19] Cf. G. H. von Wright (coord.), Vermischte Bemerkungen / Culture and Value (Oxford 1991), 32-33 e 61-64
[20] Cf. Homiliae in Evangelia, II, 27, 4: PL 76, 1207 (« amor ipse notitia est »)
[21] Cf. Expositio super Cantica Canticorum, XVIII, 88: CCL, Continuatio Mediaevalis, 87, 67
[22] Ibid., XIX, 90: o. c., 87, 69


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Refletir... saborear

  • A modernidade pretende separar o amor da verdade
  • A modernidade quer reduzir o amor ao campo dos sentimentos
  • O amor não se pode reduzir a um sentimento passageiro
  • O amor tem como finalidade a união com a pessoa amada
  • O amor tem necessidade da verdade
  • O amor fundado na verdade permanece no tempo
  • O amor fundado na verdade supera o instante efémero
  • O amor fundado na verdade permanece firme para sustentar o caminho comum
  • Sem a verdade, o amor não permanece no tempo
  • Sem a verdade, o amor não pode oferecer um vínculo sólido
  • A verdade precisa do amor, como o amor precisa da verdade
  • Amor e verdade não se podem separar
  • Sem o amor, a verdade torna-se fria
  • Sem o amor, a verdade torna-se impessoal
  • Quem ama, compreende que o amor é experiência da verdade
  • Quem ama, compreende que o amor abre os nossos olhos para ver de maneira nova
  • O amor é um modo relacional de olhar o mundo
  • O amor proporciona uma visão comum sobre as coisas
  • A razão crente e o amor formam um único olhar para chegar à contemplação de Deus
  • O que é o amor?
  • Porque é que alguns querem separar o amor da verdade?
  • Pode-se reduzir o (verdadeiro) amor a um mero sentimento?
  • Que relação existe entre amor e verdade?
  • Amor e verdade não se podem separar? Porquê?
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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [26]


Nesta situação, poderá a fé cristã prestar um serviço ao bem comum relativamente à maneira correta de entender a verdade? Para termos uma resposta, é necessário refletir sobre o tipo de conhecimento próprio da fé. Pode ajudar-nos esta frase de Paulo: «Acredita-se com o coração» (Romanos 10, 10). Este, na Bíblia, é o centro do ser humano, onde se entrecruzam todas as suas dimensões: o corpo e o espírito, a interioridade da pessoa e a sua abertura ao mundo e aos outros, a inteligência, a vontade, a afetividade. O coração pode manter unidas estas dimensões, porque é o lugar onde nos abrimos à verdade e ao amor, deixando que nos toquem e transformem profundamente. A fé transforma a pessoa inteira, precisamente na medida em que ela se abre ao amor; é neste entrelaçamento da fé com o amor que se compreende a forma de conhecimento própria da fé, a sua força de convicção, a sua capacidade de iluminar os nossos passos. A fé conhece na medida em que está ligada ao amor, já que o próprio amor traz uma luz. A compreensão da fé é aquela que nasce quando recebemos o grande amor de Deus, que nos transforma interiormente e nos dá olhos novos para ver a realidade.

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Refletir... saborear

  • Na Bíblia, o coração é o centro do ser humano
  • No coração, entrecruzam-se a interioridade e a abertura aos outros
  • No coração, entrecruzam-se a inteligência, a vontade, a afetividade
  • O coração é o lugar onde nos abrimos à verdade e ao amor
  • A fé transforma quando se abre ao amor
  • A fé conhece na medida em que está ligada ao amor
  • A compreensão da fé nasce do grande dom do amor de Deus
  • Porque é que, na Bíblia, o coração é o centro do ser humano?
  • Que relação existe entre a fé e o amor?
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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.9.13 | Sem comentários
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