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PREPARAR O DOMINGO: décimo sétimo domingo

28 DE JULHO DE 2013

Evangelho segundo Lucas 11, 1-13

Naquele tempo, estava Jesus em oração em certo lugar. Ao terminar, disse-Lhe um dos discípulos: «Senhor, ensina-nos a orar, como João Baptista ensinou também os seus discípulos». Disse-lhes Jesus: «Quando orardes, dizei: ‘Pai, santificado seja o vosso nome; venha o vosso reino; dai-nos em cada dia o pão da nossa subsistência; perdoai-nos os nossos pecados, porque também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende; e não nos deixeis cair em tentação’». Disse-lhes ainda: «Se algum de vós tiver um amigo, poderá ter de ir a sua casa à meia-noite, para lhe dizer: ‘Amigo, empresta-me três pães, porque chegou de viagem um dos meus amigos e não tenho nada para lhe dar’. Ele poderá responder lá de dentro: ‘Não me incomodes; a porta está fechada, eu e os meus filhos estamos deitados e não posso levantar-me para te dar os pães’. Eu vos digo: Se ele não se levantar por ser amigo, ao menos, por causa da sua insistência, levantar-se-á para lhe dar tudo aquilo de que precisa. Também vos digo: Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis; batei à porta e abrir-se-vos-á. Porque quem pede recebe; quem procura encontra e a quem bate à porta, abrir-se-á. Se um de vós for pai e um filho lhe pedir peixe, em vez de peixe dar-lhe-á uma serpente? E se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião? Se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem!».



Pedi e dar-se-vos-á.

Continuamos o caminho para Jerusalém. O capítulo 11 de Lucas começa com três ensinamentos de Jesus sobre a oração, que constituem a página evangélica do décimo sétimo domingo: o Pai nosso (versículos 1-4), a parábola do amigo inoportuno (versículos 5-8) e um convite à oração (versículos 9-13). Trata-se de uma pequena catequese sobre a oração, uma das exigências fundamentais a nível individual e comunitário, dos seguidores de Jesus.
O texto começa com uma introdução narrativa, na qual Jesus é apresentado, segundo o modelo lucano, como o orante perfeito. Ao ver o Mestre a rezar, os discípulos sentem o desejo de fazer oração. Pedem-lhe uma oração distintiva e Jesus ensina-lhes uma oração ao Pai. Em vez da fórmula mais judaizante do «Pai nosso» segundo Mateus (6, 9-13), Lucas apresenta outra versão adaptada ao ambiente helenístico. A palavra essencial é «Pai», tradução do original aramaico utilizado por Jesus: «Abbá» (papá), que é a fórmula própria das crianças quando se dirigem ao próprio pai em casa. Ninguém antes dele tinha ousado dirigir-se assim a Deus.
A parábola que se segue à oração do «Pai» procura ilustrá-la indicando a atitude com que o orante se deve dirigir a Deus. Se a perseverança na oração é importante, ainda é o mais — é o que Lucas quer sublinhar — a certeza de ser escutados. Deus é um amigo autêntico a quem se pode «molestar» em horas intempestivas com a certeza de que sempre escutará a nossa súplica. Assim fez o amigo inoportuno e assim fez Abraão (na primeira leitura).
O último ensinamento de Jesus versa sobre a confiança na oração. Lucas insiste que a confiança, baseada na fé, é indispensável em toda a oração cristã. Deus não pode senão intervir em favor daqueles que se dirigem a ele com uma oração confiante, porque é Pai (versículo 13), porque é fiel às suas promessas, porque nos comunica o seu Espírito, o único dom que na realidade precisamos.

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



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Preparar o décimo sétimo domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.7.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo sétimo domingo

28 DE JULHO DE 2013

Bento XVI, «Jesus de Nazaré», A Esfera dos Livros, 2007, 177-179


O «Pai Nosso» no evangelho segundo Lucas aparece no contexto do caminho de Jesus para Jerusalém. Lucas introduz a oração do Senhor com a seguinte anotação: «Sucedeu que, estando Ele algures a orar, disse-Lhe, quando acabou, um dos Seus discípulos: 'Senhor, ensina-nos a orar'» (11, 1). Assim, o contexto é o encontro com a ato de orar de Jesus, que desperta nos discípulos o desejo de aprenderem com Ele a rezar. Trata-se de um elemento característico de Lucas, que reserva à oração de Jesus um lugar particularmente relevante no seu evangelho. O conjunto da atividade de Jesus brota da sua oração, é sustentado por ela. Assim, factos essenciais do seu caminho, nos quais progressivamente se revela o seu mistério, aparecem como acontecimentos de oração. A confissão que Pedro faz de Jesus como o Santo de Deus está ligada a um encontro com Jesus orante (Lucas 9, 19s); a transfiguração de Jesus é um acontecimento de oração (Lucas 9, 28s). Por isso, é significativo que Lucas coloque o «Pai Nosso» em relação com a oração pessoal de Jesus. Desta maneira, Ele torna-nos participantes do seu rezar, introduz-nos no diálogo interior do Amor trinitário, eleva por assim dizer as nossas necessidades humanas até ao coração de Deus. Mas isto significa também que as palavras do «Pai Nosso» indicam o caminho para a oração interior, representam orientações fundamentais para a nossa existência, querem conformar-nos à imagem do Filho. O significado do Pai Nosso ultrapassa a mera comunicação de palavras de oração; quer formar o nosso ser, quer exercitar-nos nos sentimentos de Jesus (Filipenses 2, 5). Para a interpretação do «Pai Nosso», isto encerra um duplo significado. Em primeiro lugar, é muito importante escutar com a maior fidelidade possível a palavra de Jesus, tal como a Escritura no-la transmite. Devemos procurar reconhecer, verdadeiramente e o melhor que pudermos, os pensamentos de Jesus que Ele nos queria transmitir com estas palavras. Em segundo lugar, devemos ter presente também que o «Pai Nosso» provém da sua oração pessoal, do diálogo do Filho com o Pai. Isso quer dizer que o mesmo alcança uma profundidade tal que está para além das palavras. Abrange toda a extensão da existência humana de todos os tempos e, portanto, não se pode sondar com uma interpretação meramente histórica, por mais importante que seja. Os grandes orantes de todos os séculos, através da sua íntima união com o Senhor, puderam mergulhar nas profundezas que estão para além da palavra, conseguindo assim desvendar ainda mais a riqueza escondida da oração. E cada um de nós, com a sua relação absolutamente pessoal com Deus, pode encontrar-se acolhido e guardado nesta oração. Incessantemente deve com a sua «mens» — com o próprio espírito — ir ao encontro da «vox», da palavra que nos vem do Filho, deve abrir-se a ela e deixar-se conduzir por ela. Assim abrir-se-nos-á também o coração do Senhor, dando a conhecer a vontade que Ele tem de rezar precisamente com cada um.



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Preparar o décimo sétimo domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.7.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo sexto domingo

21 DE JULHO DE 2013

Evangelho segundo Lucas 10, 38-42

Naquele tempo, Jesus entrou em certa povoação e uma mulher chamada Marta recebeu-O em sua casa. Ela tinha uma irmã chamada Maria, que, sentada aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra. Entretanto, Marta atarefava-se com muito serviço. Interveio então e disse: «Senhor, não Te importas que minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe que venha ajudar-me». O Senhor respondeu-lhe: «Marta, Marta, andas inquieta e preocupada com muitas coisas, quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada».



Marta recebeu-O em sua casa.
Maria escolheu a melhor parte.

No caminho para Jerusalém, Jesus é acolhido em Betânia, em casa de uma família amiga composta por três irmãos: Marta, Maria e Lázaro. Lucas conta um episódio, que não se encontra nos outros evangelhos, cujas protagonistas são Marta e Maria (Lucas 10, 38-42). Recordemos que Lucas gosta de narrar factos em que as mulheres estão presentes.
Segundo a interpretação tradicional, Marta e Maria são duas personagens simbólicas, que representam o trabalho e a contemplação. O mesmo esquema parece seguir o autor do quarto evangelho, na ressurreição de Lázaro (João 11, 20.30) e na unção em Betânia (João 12, 2-3). Na realidade, o elemento fundamental do ensinamento de Jesus é muito diferente do que é proposto pela interpretação tradicional. O que interessa não é tanto o que Marta ou Maria realizam, ações certamente distintas, mas a atitude de fundo com que atuam. Não se trata de comparar ação e contemplação, para desqualificar a primeira e enaltecer a segunda, mas de dar a primazia à escuta da Palavra de Deus que deve preceder, alimentar e suportar qualquer opção religiosa e humana. Por isso, Maria converte-se no modelo do verdadeiro discípulo. Lucas apresenta-a numa posição típica do discípulo: «sentada aos pés de Jesus, a escutar a sua palavra. Escutar é aceitar, conservar e saborear na profunda intimidade do ser, tal como fazia Maria de Nazaré (cf. 2, 19.51).
No fundo, também Maria desejava escutar Jesus, mas deixou-se absorver pelo serviço. Queria fazer várias coisas ao mesmo tempo, enquanto Maria se concentrou numa só. Marta queixa-se do comportamento da irmã, mas Jesus não a apoia. Em lugar de censurar a negligência, Jesus responde a Marta com a intenção de a aconselhar e ajudar a refletir. O serviço em demasia, às vezes, pode resultar em dispersão. Podem-se fazer muitas coisas por Jesus, esquecendo o essencial, isto é, a escuta da sua palavra.

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



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    Décimo sexto domingo, Ano C
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.7.13 | Sem comentários

    PREPARAR O DOMINGO: décimo quinto domingo

    14 DE JULHO DE 2013

    Evangelho segundo Lucas 10, 25-37

    Naquele tempo, levantou-se um doutor da lei e perguntou a Jesus para O experimentar: «Mestre, que hei-de fazer para receber como herança a vida eterna?». Jesus disse-lhe: «Que está escrito na Lei? Como lês tu?». Ele respondeu: «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento; e ao próximo como a ti mesmo». Disse-lhe Jesus: «Respondeste bem. Faz isso e viverás». Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: «E quem é o meu próximo?». Jesus, tomando a palavra, disse: «Um homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores. Roubaram-lhe tudo o que levava, espancaram-no e foram-se embora, deixando-o meio-morto. Por coincidência, descia pelo mesmo caminho um sacerdote; viu-o e passou adiante. Do mesmo modo, um levita que vinha por aquele lugar, viu-o e passou também adiante. Mas um samaritano, que ia de viagem, passou junto dele e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas deitando azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirou duas moedas, deu-as ao estalajadeiro e disse: ‘Trata bem dele; e o que gastares a mais eu to pagarei quando voltar’. Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?». O doutor da lei respondeu: «O que teve compaixão dele». Disse-lhe Jesus: Então vai e faz o mesmo».



    A ética da compaixão não nos afasta do evangelho segundo Lucas. Refiro-me a um livro atual (J. C. Mélich, «Ética de la compasión», Herder, Barcelona, 2010), que inclui, no quarto capítulo, um comentário interessante à parábola do bom samaritano de Lucas 10, 30-38. Evidentemente, não se trata de um comentário bíblico, mas de uma reflexão a partir da filosofia. Para o autor, a ética é «a resposta que dou, aqui e agora, ao sofrimento do outro». Quando o doutor da lei pergunta «quem é o meu próximo?», procura uma resposta «substancial». Jesus inverte radicalmente a pergunta e não lhe responde «quem» é o seu próximo, mas que ele é o próximo, porque o que é relevante numa perspetiva ética não é «quem é o meu próximo», mas «de quem é que eu sou próximo».

    © Miquel Raventós, Misa dominical
    © tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013



    Lucas 10, 25-37

    E quem é o meu próximo?


    Concluída a missão preparatória dos «setenta e dois» discípulos, Jesus continua o caminho para Jerusalém, ensinando aqueles que o querem seguir. O evangelho do décimo quinto domingo oferece-nos uma lição magistral. Consta de duas partes: um princípio fundamental (a lei que conduz à Vida) e uma aplicação prática (a parábola do bom samaritano). As duas partes desenvolvem-se em forma de diálogo com quatro momentos: a) alguém faz uma pergunta ao Mestre; b) o Mestre devolve-lhe a pergunta, formulando-a de forma que ela própria indique a resposta; c) o que perguntou responde acertadamente; d) o Mestre aprova a resposta e transforma-a num imperativo: faz o que dizes e alcançarás a Vida que tanto desejas.
    A primeira pergunta («Que hei de fazer para receber como herança a vida eterna?») é feita por um doutor da lei que já sabe a resposta. Por isso, Jesus convida-o a dar a resposta («Que está escrito na Lei? Como lês tu?»); e, deste modo, declara implicitamente que aceita a lei. O letrado cita o texto fundamental da fé de Israel, isto é, Deuteronómio 6, 5 («Amarás o Senhor...»); e, em seguida, Levítico 19, 18 («Amarás o teu próximo...»). Jesus elogia-o amavelmente, mas indica que a única coisa que lhe falta é pôr em prática.
    A segunda pergunta («E quem é o meu próximo?») deixa entender que há pessoas que podem ser consideradas como «próximo» e outras não. Mas para Jesus não existe esta diferença. É o que procura explicar com a parábola do bom samaritano. Em pleno deserto de Judá está um ferido. Ninguém o conhece. Nada se sabe sobre ele. Mas antes de tudo é um ser humano. Essa é a sua dignidade. É visto por um sacerdote e por um levita, oficiantes do templo em Jerusalém, que passam ao lado. Um samaritano (para os judeus, os samaritanos eram estrangeiros, impuros e inimigos), ao contrário, aproxima-se do ferido e pratica uma obra de misericórdia. À pergunta de Jesus («Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?»), o doutor da lei responde sem titubear: «O que teve compaixão dele». Só lhe faltava praticar a lei que sabia de cor. O próximo de cada pessoa humana é toda a pessoa humana.

    © tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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    Décimo quinto domingo, Ano C
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 11.7.13 | Sem comentários

    PREPARAR O DOMINGO: décimo quarto domingo

    7 DE JULHO DE 2013

    Evangelho segundo Lucas 10, 1-12.17-20

    Naquele tempo, designou o Senhor setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. E dizia-lhes: «A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao dono da seara que mande trabalhadores para a sua seara. Ide: Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos. Não leveis bolsa nem alforge nem sandálias, nem vos demoreis a saudar alguém pelo caminho. Quando entrardes nalguma casa, dizei primeiro: ‘Paz a esta casa’. E se lá houver gente de paz, a vossa paz repousará sobre eles; senão, ficará convosco. Ficai nessa casa, comei e bebei do que tiverem, que o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa. Quando entrardes nalguma cidade e vos receberem, comei do que vos servirem, curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: ‘Está perto de vós o reino de Deus’. Mas quando entrardes nalguma cidade e não vos receberem, saí à praça pública e dizei: ‘Até o pó da vossa cidade que se pegou aos nossos pés sacudimos para vós. No entanto, ficai sabendo: Está perto o reino de Deus’. Eu vos digo: Haverá mais tolerância, naquele dia, para Sodoma do que para essa cidade». Os setenta e dois discípulos voltaram cheios de alegria, dizendo: «Senhor, até os demónios nos obedeciam em teu nome». Jesus respondeu-lhes: «Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago. Dei-vos o poder de pisar serpentes e escorpiões e dominar toda a força do inimigo; nada poderá causar-vos dano. Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos antes porque os vossos nomes estão escritos nos Céus».



    O evangelho segundo Lucas também é chamado evangelho do Espírito Santo. Este é, justamente, um dos aspetos mais característicos, não só do evangelho, mas de toda a obra de Lucas: evangelho e Atos dos Apóstolos. O Espírito Santo é citado cerca de sessenta vezes; e podemos afirmar, com razão, que está presente desde o início até ao fim da obra. No primeiro capítulo do evangelho, encontramos quatro referências. Cito as duas primeiras. No anúncio do nascimento do Batista diz: «será cheio do Espírito Santo desde o ventre materno» (cf. Lucas 1, 15). No anúncio do nascimento de Jesus, o anjo diz a Maria: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra» (cf. Lucas 1, 35).
    O mesmo acontece no primeiro capítulo do Atos dos Apóstolos: também é citado por quatro vezes (cf. Atos 1, 2.5.8.16). No prólogo (cf. Atos 1, 8), Jesus, o Vivente, diz: «Quando o Espírito Santo descer sobre vós, recebereis a força para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia, na Samaria, e até aos confins do mundo». É o mesmo Espírito que conduz a Igreja, hoje se sempre.

    © Miquel Raventós, Misa dominical
    © tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013



    Lucas 10, 1-12.17-20

    A vossa paz repousará sobre eles


    Situada no início do «caminho para Jerusalém» (Lucas 9, 51 — 19, 28), a página do evangelho referente ao décimo quarto domingo (Lucas 10, 1-20) oferece-nos uma síntese sobre a missão cristã. Nela, distinguem-se três partes: versículos 1-12 (várias instruções aos discípulos); versículos 13-16 — omitidos no texto litúrgico (ameaças contra os insubmissos); versículos 17-20 (o regresso dos discípulos).
    Lucas apresenta Jesus a organizar uma missão para as povoações que vai visitar. Desta vez, envia 72 discípulos, para indicar que a missão não é exclusiva dos Doze, mas de toda a comunidade eclesial. O número escolhido é emblemático e indica tanto a fonte da missão (os 70 anciãos de Israel, antecipação da Igreja), como os destinatários, isto é, o número das nações pagãs enumeradas no «mapa das nações», no livro dos Génesis (capítulo 10), que indica a totalidade dos povos da terra. Assim, o horizonte da missão da Igreja é universal. Além disso, no primeiro versículo, encontramos uma bela definição de discípulo e missionário: vai «à frente» de Jesus, precede-o como precursor. Jesus envia-os «dois a dois», para que o seu testemunho tenha valor jurídico como exigia a lei (Deuteronómio 17, 6; 19, 15).
    Os compromissos principais do missionário são três. Primeiro, a oração, «pedi», pois a fecundidade missionária nasce do contacto vivo e pessoal com Deus. Segundo, anunciar o Evangelho com paz, serenidade e valentia, mesmo perante a ameaça de perseguição («como cordeiros para o meio de lobos»). Propor, nunca impor ou forçar. Terceiro, ter uma vida sóbria e austera. Definitivamente, viver segundo o estilo de Jesus (cf. 9, 58).
    Terminado o trabalho, os discípulos voltam para junto do Senhor. O mal afasta-se («obedeciam») perante a força avassaladora do Evangelho. O entusiasmo é inevitável, mas Jesus trava-o, para entenderem que a verdadeira alegria não está no poder ou no êxito, mas em ter os nomes «escritos nos Céus» (versículo 20).

    © tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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    Décimo quarto domingo, Ano C
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.7.13 | Sem comentários

    PREPARAR O DOMINGO: décimo terceiro domingo

    30 DE JUNHO DE 2013

    Evangelho segundo Lucas 9, 51-62

    Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo, Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém e mandou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram numa povoação de samaritanos, a fim de Lhe prepararem hospedagem. Mas aquela gente não O quis receber, porque ia a caminho de Jerusalém. Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram a Jesus: «Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?». Mas Jesus voltou-Se e repreendeu-os. E seguiram para outra povoação. Pelo caminho, alguém disse a Jesus: «Seguir-Te-ei para onde quer que fores». Jesus respondeu-lhe: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça». Depois disse a outro: «Segue-Me». Ele respondeu: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai». Disse-lhe Jesus: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos; tu, vai anunciar o reino de Deus». Disse-Lhe ainda outro: «Seguir-Te-ei, Senhor; mas deixa-me ir primeiro despedir-me da minha família». Jesus respondeu-lhe: «Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás não serve para o reino de Deus».



    Se olharmos para a totalidade da obra de Lucas damo-nos conta de que tudo se encaminha e conflui para Jerusalém (evangelho); e, a partir de Jerusalém, o centro nevrálgico da obra de Lucas, a Boa Nova espalha-se até aos limites do mundo (Atos dos Apóstolos).
    Depois de dois capítulos sobre a infância de Jesus e do ministério de João Batista, inicia-se a parte do ministério de Jesus, que se realiza na Galileia (4, 14 — 9, 50). O texto do evangelho deste domingo é o ponto de viragem que abre a secção central: o caminho para Jerusalém (9, 51 — 19, 44), um longo caminho e cheio de ensinamentos e também de tensões com o centro religioso do judaísmo.

    © Miquel Raventós, Misa dominical
    © tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013



    Lucas 9, 51-62

    Tomou a decisão de se dirigir a Jerusalém. 

    Seguir-te-ei para onde quer que fores.


    O texto evangélico deste domingo contém as primeiras linhas da secção central do evangelho segundo Lucas conhecida como «caminho para Jerusalém», ao qual são dedicados dez capítulos (9, 51 — 19, 28). É um longo caminho, não só geográfico e espacial, mas também espiritual e teológico em direção ao último destino do Messias. A célebre frase de Lucas 9, 51 é crucial por dois motivos: indica o início deste longo percurso; menciona a gloriosa ascensão aos céus, com a qual se concluirá o itinerário terreno de Jesus. Deste modo, a vocação de Jesus não tem como destino definitivo a morte, mas a Páscoa e a glória.
    No texto deste domingo, podemos distinguir dois temas: a atitude a tomar com aqueles que não aceitam Jesus (versículos 52 a 56) e a disposição daqueles que o seguem (versículos 57 a 62), precedidos por um anúncio do tema (versículo 51). Os samaritanos eram vizinhos odiados. Considerados pior que estrangeiros, eram inimigos de raça e de religião. Contudo, Jesus atreve-se a pedir-lhes hospedagem. A recusa incendiou a ira de Tiago e de João, «os filhos do trovão», que queriam responder imitando o estilo profético de Elias (2Reis 1, 9-12). Firme na sua decisão, Jesus não destrói o inimigo, nem desiste: simplesmente, continua o seu caminho.
    No evangelho, Jesus aparece sempre a caminho. Para estar com ele, é preciso segui-lo, caminhar a seu lado, com o mesmo ritmo, nas suas pegadas. Por outras palavras, é preciso adotar o seu estilo de vida. Ditadas pelo próprio Jesus em linguagem proverbial, as condições para o seguir são as seguintes: estar desapegado das coisas e dos apoios humanos e materiais, não retardar a decisão de evangelizar apresentando boas desculpas, e, por fim, não ceder perante a nostalgia do passado, mas trabalhar afincadamente na missão. A expressão «lançar as mãos ao arado» faz alusão à vocação de Eliseu (primeira leitura), mas Jesus mostra-se mais exigente que o antigo profeta.

    © tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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    Décimo terceiro domingo, Ano C
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 28.6.13 | Sem comentários

    PREPARAR O DOMINGO: décimo segundo domingo

    23 DE JUNHO DE 2013

    Evangelho segundo Lucas 9, 18-24

    Um dia, Jesus orava sozinho, estando com Ele apenas os discípulos. Então perguntou-lhes: «Quem dizem as multidões que Eu sou?». Eles responderam: «Uns, dizem que és João Baptista; outros, que és Elias; e outros, que és um dos antigos profetas que ressuscitou». Disse-lhes Jesus: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Pedro tomou a palavra e respondeu: «És o Messias de Deus». Ele, porém, proibiu-lhes severamente de o dizerem fosse a quem fosse e acrescentou: «O Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas; tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia». Depois, dirigindo-Se a todos, disse: «Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, salvá-la-á».



    Os evangelhos (por certo que já ouvimos dizer isto muitas vezes) não são livros de história; são, sobretudo, o eco da primitiva comunidade cristã. No centro desta fé está Jesus, o Cristo, morto e ressuscitado para nossa salvação.
    Cada evangelista tem uma prioridade, mas todos convidam a professar a fé em Jesus, que é da nossa família humana e da família de Deus.
    Por isso, a pergunta de Jesus aos discípulos: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» aparece nos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas). E, em João, encontramos o «Eu sou» que se vai dando a conhecer ao longo de todo o evangelho.
    Não nos parece estranho que Lucas comece por dizer que Jesus estava em oração. Este é um dos pontos característicos de Lucas. No contexto de oração, onde Deus é o centro, formula aos seus discípulos as perguntas sobre a sua identidade. Estas perguntas ressoam no coração do ser humano de hoje. Teremos a decisão de Pedro? Ou teremos, também como ele, os nossos altos e baixos?

    © Miquel Raventós, Misa dominical
    © tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013



    Lucas 9, 18-24

    És o Messias de Deus.

    O Filho do homem tem de sofrer muito...


    A leitura do evangelho segundo Lucas atinge aqui um ponto crucial, que recapitula a primeira parte (manifestação da personalidade de Jesus) e, ao mesmo tempo, prepara a segunda (o longo caminho para Jerusalém). Lucas 9, 18-24 procura responder às muitas interrogações que rodeavam a pessoa de Jesus e se podem resumir na pergunta: «Quem é Jesus?»; eis a questão decisiva para a fé cristã. Lucas recorda a ocasião em que o próprio Jesus apresenta esta questão decisiva aos seus discípulos.
    Podemos dividir o texto em três partes: a definição verdadeira de Jesus (versículos 18 a 21); o primeiro anúncio da Paixão (versículo 22); as condições para o discipulado (versículos 23 e 24). A cena não é introduzida por uma indicação geográfica ou temporal, mas pela referência à oração de Jesus. Recordemos que, no evangelho segundo Lucas, a oração está presente em todos os momentos importantes da vida do Mestre. Acontece que Jesus quer fazer um balanço da opinião geral, quer saber o que o povo pensa dele. O resultado não manifesta um fracasso, mas uma insuficiência: pensam que é um profeta. Não estão totalmente errados, mas não é exato. Jesus é muito mais do que um profeta. A seguir, questiona os próprios discípulos e Pedro responde decidido: «És o Messias de Deus», isto é, o Ungido pelo Espírito Santo (cf. 4, 18), o Filho de Deus.
    Jesus impõe silêncio, porque quer explicar esta definição com uma catequese apropriada. Não quer que os discípulos associem o título de «Messias» apenas ao conceito de glória e de vitória. Por isso, anuncia-lhes a Paixão, para que entendam que Jesus é um Salvador que salva mediante a entrega pessoal pelo bem da humanidade, um Messias que liberta mediante o sangue na cruz e a recusa dos poderosos: os anciãos, os príncipes dos sacerdotes e os escribas (versículo 22).
    O evangelho une este primeiro anúncio da Paixão com umas indicações destinadas ao «seguidor» de Jesus (o discípulo, o cristão): negar-se a si mesmo, ou seja, renunciar ao egoísmo; tomar a sua cruz todos os dias; estar dispostos a perder/sacrificar a vida (temporal) para ganhar a Vida (eterna), ou seja, para se salvar. Seguir Jesus significa percorrer o mesmo caminho, aceitando os sofrimentos, sacrifícios e dificuldades de uma vida por amor.

    © tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
    A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



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    Décimo segundo domingo, Ano C
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.6.13 | Sem comentários

    PREPARAR O DOMINGO: décimo primeiro domingo

    16 DE JUNHO DE 2013

    Evangelho segundo Lucas 7, 36 — 8, 3

    Naquele tempo, um fariseu convidou Jesus para comer com ele. Jesus entrou em casa do fariseu e tomou lugar à mesa. Então, uma mulher – uma pecadora que vivia na cidade – ao saber que Ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro com perfume; pôs-se atrás de Jesus e, chorando muito, banhava-Lhe os pés com as lágrimas e enxugava-Lhos com os cabelos, beijava-os e ungia-os com o perfume. Ao ver isto, o fariseu que tinha convidado Jesus pensou consigo: «Se este homem fosse profeta, saberia que a mulher que O toca é uma pecadora». Jesus tomou a palavra e disse-lhe: «Simão, tenho uma coisa a dizer-te». Ele respondeu: «Fala, Mestre». Jesus continuou: «Certo credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários e o outro cinquenta. Como não tinham com que pagar, perdoou a ambos. Qual deles ficará mais seu amigo?». Respondeu Simão: «Aquele – suponho eu – a quem mais perdoou». Disse-lhe Jesus: «Julgaste bem». E voltando-Se para a mulher, disse a Simão: «Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não Me deste água para os pés; mas ela banhou-Me os pés com as lágrimas e enxugou-os com os cabelos. Não Me deste o ósculo; mas ela, desde que entrei, não cessou de beijar-Me os pés. Não Me derramaste óleo na cabeça; mas ela ungiu-Me os pés com perfume. Por isso te digo: São-lhe perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama». Depois disse à mulher: «Os teus pecados estão perdoados». Então os convivas começaram a dizer entre si: «Quem é este homem, que até perdoa os pecados?». Mas Jesus disse à mulher: «A tua fé te salvou. Vai em paz». Depois disso, Jesus ia caminhando por cidades e aldeias, a pregar e a anunciar a Boa Nova do reino de Deus. Acompanhavam-n’O os Doze, bem como algumas mulheres que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades. Eram Maria, chamada Madalena, de quem tinham saído sete demónios, Joana, mulher de Cusa, administrador de Herodes, Susana e muitas outras, que serviam Jesus com os seus bens.



    Depois da proclamação das bem-aventuranças e do amor aos inimigos, Lucas põe na boa de Jesus o que podemos chamar de paradigma da sua vida, da sua maneira de agir e de pensar: «Sede misericordiosos [compassivos] como o vosso Pai é misericordioso [compassivo]» (Lucas 6, 36). Se caminharmos ao lado de Jesus, daremos conta de como a misericórdia de Deus é o norte da vida de Jesus. E tem de o ser também da vida dos seus discípulos.
    Esta misericórdia torna-se visível não só quando cura os doentes, mas sobretudo quando perdoa os pecados: «Disse à mulher: 'Os teus pecados estão perdoados'». Na linguagem de hoje (já que nem todos entendemos o mesmo quando falamos de pecado), dizemos que Jesus traz a paz ao coração. Jesus não só quer uma vida digna para os marginalizados, mas sobretudo uma vida reconciliada (com Deus, consigo e com os outros). Este é o objetivo do Reino de Deus.
    No texto do evangelho, percebemos a diferença que é ver a realidade a partir de Jesus ou a partir do fariseu que «convidou Jesus para comer com ele». Jesus nunca perde de vista aquele «sede misericordiosos»; o fariseu, ao contrário, contempla tudo a partir da lei. Para Jesus, aquela mulher é alguém que deve ser acolhida e acompanhada, porque... E precisa, como o pão de cada dia, que alguém a olhe com bondade. E este não é o olhar do fariseu.

    © Miquel Raventós, Misa dominical
    © tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013



    Lucas 7, 36 — 8, 3

    São-lhe perdoados os seus muitos pecados, 

    porque muito amou


    O texto do evangelho é uma das páginas mais comoventes de Lucas (Lucas 7, 36-50), à qual se acrescentam três versículos sobre as pessoas que acompanham Jesus (homens e mulheres), na sua missão (8, 1-3). A nossa protagonista é a única mulher que recebe o perdão de Jesus; é a única mulher que, sem pedir, fica livre de uma enfermidade, não do corpo mas do espírito. A mulher do perfume tinha vivido uma vida de pecado. E Jesus aplica um remédio de eficácia instantânea. Perdoa todos os seus pecados de um só vez. Não os recorda, não os conta, não os classifica. O remédio de Jesus regenera no coração morto da mulher os sentimentos mais delicados do ser humano: amor e gratidão. E como ela não sabe falar, o seu coração impulsa-a para um gesto audaz. 
    Os personagens da cena são Jesus, a mulher pecadora, Simão, o fariseu, e os outros comensais. Todos estão implicados na mesma trama, onde a lógica da lei se confronta com a lógica do amor. Simão, o fariseu, e o seu grupo representam a lei. Jesus encarna o amor. E, no meio, está a mulher pecadora: Simão acusa-a, Jesus perdoa-a. A ação insólita da mulher provoca o julgamento de Simão; o julgamento de Simão provoca a intervenção de Jesus; Jesus desencadeia a reação dos convidados
    A partir da perspetiva de Jesus, os atos de amor da mulher contrastam vigorosamente com as negligências do anfitrião. Simão, em relação a Jesus, descuidou os gestos mais elementares de hospitalidade, como lavar os pés, dar-lhe o beijo da paz e ungir-lhe a cabeça com óleo. Por conseguinte, também Simão é um transgressor da lei, um anfitrião que não cumpriu o seu dever. A ação da mulher, ao contrário, superou em muito todas as normas de cortesia reservadas aos hóspedes. A mulher esforçou-se por tratar o seu convidado sem descuidar nenhum detalhe. Para Jesus, a verdadeira anfitriã foi aquela mulher. E o que ela fez por amor coloca em evidência o que Simão omitiu seguramente por temor.

    © tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
    A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



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    Quem é este homem, que até perdoa os pecados
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.6.13 | Sem comentários

    PREPARAR O DOMINGO: décimo primeiro domingo

    16 DE JUNHO DE 2013

    A construção de Jesus — Uma leitura narrativa de Lucas 7, 36-50

    José Tolentino Mendonça publicou em livro a dissertação doutoral que aborda uma parte do evangelho do décimo primeiro domingo (Ano C): «A construção de Jesus. Uma leitura narrativa de Lucas 7, 36-50», Assírio e Alvim, Lisboa 2004. 
    Apresentamos alguns apontamentos sobre os personagens (retirados das páginas 86 a 94): um dos fariseus de nome Simão, Jesus, a intrusa inominada, os comensais.



    Um dos fariseus de nome Simão

    A informação inicial que a narrativa nos presta sobre o personagem é que se trata de um dos fariseus.
    Os fariseus surgem na narrativa evangélica já no capítulo 5, ao lado dos doutores da Lei, e vão-se desenhando como um bloco oponente a Jesus.
    Mas alguns elementos do texto lucano sugerem também uma proximidade entre Jesus e os fariseus, pelo menos maior do que a que se pode observar em Marcos ou Mateus. Os pastos com os fariseus (Lucas 7, 36-50; 11, 37-54; 14, 1-24) estão ausentes dos outros Sinópticos, e esses, se tivermos em conta o significado concedido pelo movimento farisaico às refeições, representam, no mínimo, que eles aceitavam os contactos com Jesus e tinham para com ele curiosidade e atenções.
    Normalmente os fariseus deslocavam-se ao campo de Jesus, fosse lugar público do ensinamento (Lucas 5, 17); a casa de Levi (5, 30); as plantações (6, 2) ou a sinagoga (6, 7). Este fariseu estabelece um movimento contrário, permitindo que Jesus penetre no seu território. Segue, depois, atentamente a peripécia protagonizada pela pecadora, que se intromete na refeição que ele promove. Formula aí um juízo de distanciamento, instalando-se, porém, numa duplicidade pragmática: se no seu interior já julgou Jesus por causa da mulher, no seu registo exterior continua impávido. A imagem do personagem costura-se assim de uma ambiguidade: não expõe traços hostis (mesmo depois do acontecido trata Jesus por 'mestre'; intervém quando solicitado por Jesus), mas também já sabe que, perante os dados de que parte, não pode aderir ao seu hóspede.
    Dá-se uma reviravolta na narrativa quando Jesus toma a palavra e revela a verdade profunda do fariseu, a começar pela do seu nome, Simão (versículo 40), informação que, até aqui, não tinha sido referida. No paralelo estabelecido entre ele e a mulher pecadora, Jesus faz saber que o silêncio do fariseu, a sua abstenção de gestos não são atitudes ordinárias ou insignificantes, mas correspondem a uma estratégia de resguardo face a Jesus e que essa estratégia está equivocada, pois assenta em premissas que o próprio raconto se encarregará de relativizar.



    Jesus

    Em 7, 36-50, o personagem Jesus é verdadeiramente o centro da narração, uma espécie de íman que faz confluir em si todos os eixos factuais. Se os outros dois personagens, o fariseu e a mulher, alternam um tempo de exposição com um tempo de sombra (nos versículos 37-38 a mulher está exposta e o fariseu está na sombra; nos versículos 40-42 está ausente a mulher e o fariseu presente), Jesus, directa ou indirectamente, atravessa todos os momentos do episódio. A sua entrada em casa do fariseu assinala o início da acção. Ele é o motivo declarado da vinda inusitada da mulher pecadora àquele lugar e é o alvo exclusivo da acção que ela desempenha. A sua passividade provoca o fariseu, que discorre não sobre a mulher, mas sobre a identidade do seu convidado. Jesus é um personagem omnisciente. Para os outros personagens as informações chegam-nos através do narrador. Jesus, porém, inaugura o discurso directo e responde em alta voz ao que os outros personagens calam.
    O fariseu, por exemplo, fica prisioneiro das premissas iniciais para o seu julgamento da realidade. Jesus não julga apenas os factos, possibilita também a sua transformação. O seu espaço de intervenção é o mais amplo: ele conhece elementos que os outros personagens ignoram, conta uma história que, aparentemente, se subtrai ao contexto, mas que afinal o encena, contorna os obstáculos que aprisionam a situação e recria, de novo, uma possibilidade para o imprevisto. Retorna ao passado da narração e desvela um significado que abala o presente. Explica. Resolve. A verdade é revelada progressivamente não pelo narrador ou por outro personagem, mas pelo próprio Jesus.
    Que Jesus fosse considerado um mestre, isso não despertava oposições. Jesus é frequentemente interpelado a partir do papel social de mestre que lhe era reconhecido tanto pelos mediadores oficiais do judaísmo do seu tempo. 
    O nó do problema é outro, contudo, como nos permite pensar o raconto. A primeira questão que se colocava sobre Jesus era a de saber se ele era um profeta (versículo 39). Mas no quadro final, ao versículo 49, os comensais já estão preocupados com outra realidade: «Quem é este que até perdoa pecados?». Entre as duas questões há uma desproporção semântica que mostra como, na sua brevidade, o texto nos conduziu a um patamar realmente novo. Porque uma coisa é ser um profeta, houve tantos na tradição de Israel, outra é reclamar o poder do perdão dos pecados.
    Esta história lucana reflecte o mistério da inter-relação de Deus e Jesus para definir, a partir daí, a identidade daquele hóspede. Ele é, de facto, o protagonista do episódio. A luz que o texto transporta é para que o possamos ver melhor.



    A intrusa inominada

    Um personagem feminino. O terceiro Evangelho é aquele que guarda mais relatos de mulheres: é, por exemplo, o único que conta a história de Isabel (1, 5-25), Maria (1, 26-56), Ana (2, 36-38), a viúva de Naim (7, 11-17), Maria Madalena, Joana, Susana e as outras mulheres que seguiam Jesus (8, 1-3), Marta e Maria (10, 38-42), a mulher encurvada (13, 10-17), a mulher que procura a moeda perdida (15, 8-10), a viúva insistente (18, 1-8) e as mulheres de Jerusalém que choram atrás da cruz (23, 27-31). Para lá daquelas mulheres cuja referência partilha com os outros Sinópticos. Para um leitor de Lucas não é, portanto, estranho que uma mulher acorra à procura de Jesus. O encontro com mulheres pontua o caminho de Jesus. E à partida sabe-se que muitas acolhiam a mensagem e a pessoa de Jesus. O aparecimento de uma mulher acaba sempre por trazer um elemento positivo à narração.
    O primeiro dado inesperado, por parte do narrador, é o modo como apresenta a mulher: «uma pecadora». Isto é tanto mais espantoso, quando sabemos que Lucas não caracteriza moralmente outros personagens. E, precisamente em relação aos pecadores, ele distingue-se por uma grande delicadeza, feita de silêncio e reserva. Embora alguns comentadores digam tratar-se de uma prostituta isso não nos é referido por Lucas. Afirma-se simplesmente que era uma pecadora da cidade (versículo 37), e tal é reiterado pelo próprio fariseu (versículo 39).
    A mulher irrompe pela narrativa. A sua presença não tem, como no caso anterior, a legitimidade de um convite formulado. Nem ela surge por si, mas porque Jesus se encontra à mesa do fariseu. É, portanto, desde o início, um personagem que se coloca na órbita de outro e assume essa dependência.
    Uma justificação que o narrador subtilmente avança para a entrada da mulher deve ler-se no destaque concedido ao alabastro, com perfume, que ela traz: por um lado, o objecto oferece à mulher um motivo, uma função; e, por outro, empresta uma espécie de ingrediente novo e específico à narrativa.
    Basta comparar 7, 36-50 com 11, 37-54 e 14, 1-24 que mostram sobretudo como Jesus reage às abluções, às disputas dos lugares ou à lógica retributiva que presidia à organização dos banquetes. O perfume como que fornece o móbil que depois a própria trama se encarregará de intrincar: a qualidade do acolhimento a Jesus.
    A mulher entra e sai em silêncio, mas o leitor sente que a sua passagem se revestiu de uma eloquência ímpar. Em vez de palavras ela utilizou uma linguagem plástica, talvez mais contundente que a verbal. Representou, como actriz solitária, no palco da casa do fariseu, o seu monólogo ferido: com o seu pranto prolongado, os cabelos a arrastar-se pelo chão do hóspede, numa coreografia humilde e lancinante, os beijos e o perfume que mais ninguém ali teve a preocupação de ofertar a Jesus. A qualidade penitencial do personagem é testemunhada pelo território simbólico em que ela opera, os pés de Jesus, sete vezes referidos, e pela convulsão da sua figura (pois «desatar o seu cabelo em presença do homem era considerado, para uma mulher, uma grande desonra»).
    A inominada não cumpre os rituais de hospitalidade ao serviço da casa do fariseu. Em relação ao fariseu ela é uma intrusa, e não uma associada. O seu nexo é com Jesus: os seus gestos, tão distantes, na sua emotividade, daquela delicada indiferença que se requer a quem habitualmente presta, aos hóspedes, esse serviço, são interpretados por Jesus como uma forma de acolhimento na fé: por isso, de pecadora a mulher passará a perdoada. E a transformação do estatuto da mulher derrama um perfume novo não só na perícope, mas pelo próprio Evangelho.
    A mulher é a personagem-adjuvante: torna-se o objecto da acção transformadora de Jesus e a sua transformação é colocada ao serviço da revelação de Jesus.



    Os comensais

    Enquanto os três primeiros personagens que referimos são, evidentemente, protagonistas da narração, construídos com uma primorosa complexidade que visa reforçá-los no seu estatuto de figuras individuais, no final do episódio irrompe este personagem colectivo. Os comensais acompanham supostamente toda a acção, mas sem intervir. Percebemos assim que o convite que o fariseu endereçou a Jesus não foi para uma refeição privada, mas para um repasto na companhia de outras pessoas, e como é provável, pessoas próximas, que mantinham com o fariseu afinidades sociais e religiosas. Isso torna-se claro, por exemplo, na pergunta retórica que lançam, «quem é este que até perdoa pecados?». Os comensais aparecem como personagens secundários que aparentemente não condicionam o desenrolar da intriga, mas cujo papel se revela chave para a representação da acção.



    Para concluir...

     com um apontamento da página 231:
    O Evangelho não aposta na apresentação de conclusões acabadas acerca de Jesus: sugere, antes, o caminho silencioso, árduo e paciente das perguntas. De forma insistente, e num propósito claro de envolver o leitor, vai repetindo que o enigma Jesus está e não está resolvido, para que precisamente este interstício se revele como possibilidade de inscrever uma nova demanda. A narrativa evangélica apresenta-se assim como o limiar de uma história aberta, infinita, onde a cristologia nos remete para a eclesiologia, O seu presente é já o inventário do nosso futuro.



    © José Tolentino Mendonça
    © Assírio e Alvim



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    Quem é este homem, que até perdoa os pecados
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.6.13 | Sem comentários

    PREPARAR O DOMINGO: décimo domingo

    9 DE JUNHO DE 2013

    Evangelho segundo Lucas 7, 11-17

    Naquele tempo, dirigia-Se Jesus para uma cidade chamada Naim; iam com Ele os seus discípulos e uma grande multidão. Quando chegou à porta da cidade, levavam um defunto a sepultar, filho único de sua mãe, que era viúva. Vinha com ela muita gente da cidade. Ao vê-la, o Senhor compadeceu-Se dela e disse-lhe: «Não chores». Jesus aproximou-Se e tocou no caixão; e os que o transportavam pararam. Disse Jesus: «Jovem, Eu te ordeno: levanta-te». O morto sentou-se e começou a falar; e Jesus entregou-o à sua mãe. Todos se encheram de temor e davam glória a Deus, dizendo: «Apareceu no meio de nós um grande profeta; Deus visitou o seu povo». E a fama deste acontecimento espalhou-se por toda a Judeia e pelas regiões vizinhas.



    Neste ano litúrgico, acompanha-nos o evangelho segundo Lucas. Qualquer domingo em que é proclamado é um bom momento para sublinhar os seus rasgos mais característicos. Um biblista contemporâneo diz-nos que é o mais acessível para captar a mensagem de Jesus como Boa Nova de um Deus compassivo, defensor dos pobres, curador dos doentes e amigo dos pecadores.
    Se, por um lado, a filosofia moderna sublinha que o ser humano é «homo patiens», «ser que sofre», por outro, a partir do evangelho segundo Lucas, falamos, sobretudo, de um Deus que é com-passivo, isto é, que sofre connosco. Lucas destaca com firmeza um Jesus que está próximo e que está ao lado dos que sofrem.

    © Miquel Raventós, Misa dominical
    © tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013



    Lucas 7, 11-17

    Jovem, Eu te ordeno: levanta-te


    Retomamos a leitura semi-contínua do evangelho segundo Lucas, que foi interrompida no tempo da Quaresma. Este domingo, lemos uma das páginas mais emotivas: a ressurreição do filho de uma viúva, em Naim.
    Depois de curar o servo de um centurião romano, em Cafarnaúm, Jesus foi para Naim, uma povoação não muito distante de Chuném, a localidade onde o profeta Eliseu ressuscitou o filho de uma chunamita (2Reis 4, 18-37). Ao ver uma viúva acompanhando o féretro do seu único filho, o Senhor (é a primeira vez no evangelho que Jesus é designado com o título «Kyrios»: «Senhor») compadeceu-se, isto é, comoveu-se no coração, nas suas entranhas. O verbo grego é sumamente expressivo: indica uma compaixão «entranhada», igual à sentida pelo pai do filho pródigo (15, 20) ou pelo bom samaritano (10, 33). Recordemos que a misericórdia é característica de Deus, «rico em misericórdia».
    Jesus procura tranquilizar a mãe desconsolada: «Não chores» (versículo 13); e ao filho morto diz: «Jovem, Eu te ordeno: levanta-te!» (versículo 14). A chave de interpretação do episódio encontra-se na aclamação, em coro, da assembleia: «Apareceu no meio de nós um grande profeta; Deus visitou o seu povo» (versículo 16). Jesus não ocupa o centro desta história de dor apenas porque é o homem da compaixão e do amor, que vai ao encontro do sofrimento e da angústia das pessoas. Ainda que este seja um tema importante e característico de Lucas, nesta ocasião não constitui o elemento decisivo. Jesus não ocupa o centro da história por ser um «profeta», como exclama a multidão. Sim, ele é o depositário da Palavra da Deus, é o mensageiro da salvação, mas essa não é a razão principal do seu protagonismo. Jesus ocupa o centro da história porque é a «visita» salvífica de Deus no meio do povo. Este é o significado bíblico do verbo «visitar» («paqad», em hebraico; «episkiazein», em grego). A presença, as palavras e os gestos de Jesus são sinais da vontade salvífica de Deus.

    © tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
    A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



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    Preparar o décimo domingo, ano c, no Laboratório da fé, 2013
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.6.13 | Sem comentários
    — ANO C — QUARESMA — QUARTO DOMINGO — 

    — Evangelho segundo Lucas 15, 1-3.11-32

    Naquele tempo, os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem. Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles». Jesus disse-lhes então a seguinte parábola: «Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’. O pai repartiu os bens pelos filhos. Alguns dias depois, o filho mais novo, juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante e por lá esbanjou quanto possuía, numa vida dissoluta. Tendo gasto tudo, houve uma grande fome naquela região e ele começou a passar privações. Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra, que o mandou para os seus campos guardar porcos. Bem desejava ele matar a fome com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. Então, caindo em si, disse: ‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho, mas trata-me como um dos teus trabalhadores’. Pôs-se a caminho e foi ter com o pai. Ainda ele estava longe, quando o pai o viu: encheu-se de compaixão e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. Disse-lhe o filho: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’. Mas o pai disse aos servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejemos, porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’. E começou a festa. Ora o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. O servo respondeu-lhe: ‘O teu irmão voltou e teu pai mandou matar o vitelo gordo, porque ele chegou são e salvo’. Ele ficou ressentido e não queria entrar. Então o pai veio cá fora instar com ele. Mas ele respondeu ao pai: ‘Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos. E agora, quando chegou esse teu filho, que consumiu os teus bens com mulheres de má vida, mataste-lhe o vitelo gordo’. Disse-lhe o pai: ‘Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’».

    — Notas exegéticas

    A parábola do filho pródigo é a última das três parábolas que fazem parte do capítulo 15 do evangelho de Lucas. Em todas há um perda de algo importante (uma ovelha entre cem, uma dracma entre dez, um filho entre dois) que se volta a encontrar, enchendo de alegria o coração da pessoa que tinha sofrido a perda. Na lógica do evangelho «estar perdido» equivale a «ser pecador» e «ser encontrado» a «converter-se». A parábola do filho pródigo ou, talvez melhor, a parábola do Pai pródigo de amor sintetiza todo o evangelho: a partir de uma história profundamente humana, Jesus revela-nos o coração do Pai.
    Os três primeiros versículos (1-3( indicam a circunstância na qual Jesus pronunciou esta parábola. Atraídos pelas suas palavras, aproximavam-se dele muitos pecadores e isto escandalizava os fariseus e os mestres da lei (escribas). Estes eram os que cumpridores e puros por excelência e, por conseguinte, procuravam afastar-se dos pecadores para defender a sua pureza. Assim, Jesus encontra-se perante dois tipos de auditório: os que se reconhecem pecadores e os que se consideram perfeitamente justos. Estes censuram Jesus porque anda e come com os pecadores; Jesus responde com as parábolas da ovelha perdida (versículos 4 a 7), da dracma perdida (versículos 8 a 10) e a que lemos hoje.
    Três personagens estão em jogo (o pai, o filho mais novo, o filho mais velho) em três cenários, nesta história universal e inolvidável na qual todos se reconhecem. A primeira cena (versículos 11 a 19) é simplesmente uma introdução ao drama que se desencadeará no coração do filho mais novo. Cansado de estar em casa e aborrecido com a vida quotidiana, sonha com outro mundo, com novas experiências e emoções. Por fim, decide-se. Reclama a herança do pai em vida e abandona o lar. Em terras estranhas esbanja a fortuna que outros amealharam com sacrifício; e, ele, que era filho de uma casa rica, converte-se em guardador de porcos. Movido mais fome do que pelo amor, decide-se a pedir perdão e a aceitar o castigo desde que tenha de comer. Isto é a conversão: voltar a deus depois de ter pecado.
    A segunda cena (versículos 20 a 24) está dominada pela figura do pai que espera contra toda a esperança. Mal se vislumbra no horizonte a figura do filho, sai a correr para o abraçar. Surpreende a sua bondade. Nenhuma recriminação, só perdão total e gratuito. Alegria, festa e banquete. O seu filho que estava morto voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado.
    A terceira cena (versículos 25 a 32) descreve a figura do filho mais velho (do fariseu). Perfeito cumpridor, considera que a conversão é só para os outros. Satisfeito pela sua conduta irreprovável, exige por isso uma recompensa. Incapaz de amar, não sabe ser irmão porque ainda não aprendeu a ser filho. Lição magistral sobre a reconciliação.

    © Nuria Calduch Benages (Misa dominical — www.cpl.es —)
    © Tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
    — a utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor —



    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 10.3.13 | Sem comentários
    — ANO C — QUARESMA — TERCEIRO DOMINGO — 

    — Evangelho segundo Lucas 13, 1-9

    Naquele tempo, vieram contar a Jesus que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus, juntamente com o das vítimas que imolavam. Jesus respondeu-lhes: «Julgais que, por terem sofrido tal castigo, esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo. E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante. Jesus disse então a seguinte parábola: «Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi procurar os frutos que nela houvesse, mas não os encontrou. Disse então ao vinhateiro: ‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontro. Deves cortá-la. Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’. Mas o vinhateiro respondeu-lhe: ‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. Talvez venha a dar frutos. Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano».

    — Notas exegéticas

    Na secção central do seu evangelho (9, 51 — 19, 29), Lucas recolhe uma ampla e variada antologia de ensinamentos de Jesus, que os exegetas costumam chamar «o caminho para Jerusalém». Em todos estes capítulos destaca a figura de Jesus em viagem para Jerusalém, o seu destino final. Centrado na necessidade de conversão, o evangelho de hoje (13, 1-9) contém duas unidades literárias: uma reflexão a propósito de uns acontecimentos recentes (versículos 1 a 5) e a parábola da figueira que não dá fruto (versículos 6 a 9).
    Chega a notícia de que Pilatos mandou matar uns galileus enquanto estavam a oferecer sacrifícios no templo, seguramente aquando da festa da Páscoa. Um dos muitos atos de repressão contra o povo subjugado, talvez porque as autoridades romanas tinham suspeitas de desacatos. Pouco antes tinha acontecido outro infortúnio: uma torre no bairro de Siloé tinha-se desmoronado causando dezoito mortos. A reflexão de Jesus vai em duas direções. Por um lado, desautoriza uma ideia muito comum no seu tempo: a de que as desgraças pessoais são um castigo de Deus por um pecado pessoal concreto (cf. João 9, 2.34). Por outro, aproveita o impacto que a notícia causou entre os presentes para inculcar a ideia de que todos estamos em situação de pecado e, por conseguinte, necessitados de conversão.
    O núcleo da parábola da figueira estéril (a figueira, como a vinha, era símbolo de Israel) é o diálogo entre o dono da vinha e o vinhateiro paciente. Entre o Pai (o dono) e o vinhateiro (Jesus) estabelece-se uma relação de intercessão pelo povo indiferente e árido (a figueira). O mediador não quer que o seu trabalho de «três anos» seja inútil e, por isso, roga ao Pai que espere mais um ano, para que a árvore finalmente frutifique. Certamente que a última frase («se não der, mandá-la-ás cortar») nos deixa intranquilos. Conclusão final: converter-se significa dar fruto.

    © Nuria Calduch Benages (Misa dominical — www.cpl.es —)
    © Tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
    — a utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor —




    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.3.13 | Sem comentários
    — ANO C — QUARESMA — SEGUNDO DOMINGO — 

    — Evangelho segundo Lucas 9, 28b-36

    Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago e subiu ao monte, para orar. Enquanto orava, alterou-se o aspecto do seu rosto e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente. Dois homens falavam com Ele: eram Moisés e Elias, que, tendo aparecido em glória, falavam da morte de Jesus, que ia consumar-se em Jerusalém. Pedro e os companheiros estavam a cair de sono; mas, despertando, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com Ele. Quando estes se iam afastando, Pedro disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Não sabia o que estava a dizer. Enquanto assim falava, veio uma nuvem que os cobriu com a sua sombra; e eles ficaram cheios de medo, ao entrarem na nuvem. Da nuvem saiu uma voz, que dizia: «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O». Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou sozinho. Os discípulos guardaram silêncio e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham visto.


    — Notas exegéticas

    Depois do primeiro anúncio da Paixão (8, 22-27), Lucas narra a Transfiguração de Jesus, isto é, a «epifania» ou revelação da sua filiação divina (9, 28b-36). Acontece na montanha, lugar clássico da revelação. A Transfiguração confirma a teofania do Jordão e antecipa a mensagem da ressurreição. Todo o evangelho converge para este ato de fé: «Jesus é o Filho de Deus» (versículo 36).
    A narração lucana tem muitos elementos em comum com a de Mateus e Marcos, mas, por outro lado, tem elementos característicos que orientam a leitura do episódio completo. Referimo-nos à menção da oração como começa o relato (versículo 28b). Lucas costuma apresentar Jesus em oração; nesta ocasião a sua oração transfigura: «enquanto orava, alterou-se o aspeto do seu rosto» (versículo 29). A segunda característica própria de Lucas encontra-se na conversação entre Moisés, o legislador, e o profeta Elias: «falavam da morte de Jesus, que ia consumar-se em Jerusalém» (versículo 31). O texto grego na realidade utiliza a palavra «êxodo» para se referir à «passagem» definitiva, ao mistério pascal na sua totalidade indivisível de paixão-ressurreição-ascensão.
    Pedro e os companheiros vêem a glória de Jesus (versículo 32). Na linguagem bíblica «glória» designa o esplendor da transcendência ou santidade de Deus ou, dito por outras palavras, a irradiação percetível da divindade nas coisas criadas. Jesus é a glória de Deus. A menção das tendas (versículo 33) poderia aludir à festa hebraica das tendas ou tabernáculos. Pedro encontra-se tão bem ali que deseja ficar com Moisés e Elias. Mas as instituições que eles representam (a Lei e os Profetas) pertencem ao passado. Agora, Jesus fica sozinho (versículo 36).
    Aparece uma nuvem (tema característico do Êxodo), sinal da presença de Deus; e ouve-se uma voz. É a voz do Pai que esclarece os discípulos sobre Jesus Cristo: é o seu Filho Eleito e também seu porta-voz: «Escutai-O» (versículo 36).

    © Nuria Calduch Benages (Misa dominical — www.cpl.es —)
    © Tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
    — a utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor —



    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.2.13 | Sem comentários
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