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Mistério da fé! [24]


«A vida nova recebida na iniciação cristã não suprimiu a fragilidade e a fraqueza da natureza humana, nem a inclinação para o pecado, a que a tradição chama concupiscência, a qual persiste nos batizados, a fim de que prestem as suas provas no combate da vida cristã, ajudados pela graça de Cristo. Este combate é o da conversão, em vista da santidade e da vida eterna» (Catecismo da Igreja Católica [CIC], 1426). [Para ajudar a compreender melhor, ler: Mateus 4, 12-17; Catecismo da Igreja Católica, números 1422 a 1439]

«Convertei-vos, porque está próximo o Reino do Céu»

— é o primeiro apelo de Jesus Cristo ao iniciar a sua missão, a chamada «vida pública». A mensagem de Jesus Cristo pede conversão. Isto significa deixar as seguranças e as rotinas para assumir uma vida nova, ou melhor, deixar-se surpreender pela novidade que é o próprio Jesus Cristo. Por isso, é Evangelho, isto é, Boa Nova.

Reconciliação

«Reconciliar é voltar a conciliar, fazer a união do que estava separado. A mensagem fundamental de Cristo foi a reconciliação com Deus, a conversão e o perdão. E também foi este o conteúdo básico, desde o princípio, da evangelização por parte da Igreja» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia» [DEL], ed. Paulinas, Prior Velho 2007, 252). Este Sacramento de Cura toma, entre outros, o nome de Sacramento da Reconciliação «porque dá ao pecador o amor de Deus que reconcilia: ‘Deixai-vos reconciliar com Deus’ (2Coríntios 5, 20). Aquele que vive do amor misericordioso de Deus está pronto para responder ao apelo do Senhor: ‘Vai primeiro reconciliar-te com teu irmão’ (Mateus 5, 24)» (CIC 1424). Neste sacramento, desde sempre, estão presentes duas dimensões que nunca se podem separar: a reconciliação com Deus e a reconciliação com a comunidade cristã.

Conversão

«É chamado sacramento da conversão, porque realiza sacramentalmente o apelo de Jesus à conversão e o esforço de regressar à casa do Pai da qual o pecador se afastou pelo pecado» (CIC 1423). Este apelo de Jesus Cristo não se circunscreve a um abandono dos pecados anteriores ou à confissão desses pecados. O que está em causa é uma mudança de direção, a situar-se num novo conjunto de valores, a mudar de critérios, a deixar-se conduzir pelo Evangelho. Este é o núcleo da pregação de Jesus Cristo e há de ser também o núcleo da pregação dos seus discípulos e da Igreja. «Este convite à conversão constitui a conclusão vital do anúncio feito pelos Apóstolos depois do Pentecostes. [...] Já não é genericamente o ‘reino’, mas a própria obra de Jesus, inscrita no plano divino prenunciado pelos profetas. Ao anúncio de quanto ocorreu com Jesus Cristo, morto, ressuscitado e vivo na glória do Pai, segue o premente convite à ‘conversão’» (João Paulo II, Audiência Geral de 15 de setembro de 1999). Por isso, a Igreja, ao anunciar a Palavra de Deus, «visa a conversão cristã, isto é, a adesão plena e sincera a Cristo e ao seu Evangelho» (João Paulo II, Carta Encíclica sobre a validade permanente do mandato missionário — «Redemptoris Missio» [RM], 46). Historicamente, «este apelo dirige-se, em primeiro lugar, àqueles que ainda não conhecem Cristo e o seu Evangelho. Por isso, o Batismo é o momento principal da primeira e fundamental conversão. É pela fé na boa-nova e pelo Batismo que se renuncia ao mal e se adquire a salvação, isto é, a remissão de todos os pecados e o dom da vida nova. Ora, o apelo de Cristo à conversão continua a fazer-se ouvir na vida dos cristãos. Esta ‘segunda conversão’ é uma tarefa ininterrupta para toda a Igreja, que ‘contém pecadores no seu seio’ e que é, ‘ao mesmo tempo, santa e necessitada de purificação, prosseguindo constantemente no seu esforço de penitência e de renovação’. Este esforço de conversão não é somente obra humana. É o movimento do ‘coração contrito’ atraído e movido pela graça para responder ao amor misericordioso de Deus, que nos amou primeiro» (CIC 1427-1428). Neste sentido, «a consciência das grandes obras que o Senhor realizou para a nossa salvação dispõe a nossa mente e o nosso coração para uma atitude de ação de graças a Deus, pelo que Ele nos concedeu, por tudo aquilo que leva a cabo em benefício do seu Povo e da humanidade inteira. É aqui que tem início a nossa conversão: ela é a resposta reconhecida ao mistério maravilhoso do amor de Deus. Quando nos damos conta deste amor que Deus tem por nós, sentimos a vontade de nos aproximarmos dele: é nisto que consiste a conversão» (Francisco, Audiência Geral de 5 de março de 2014).

«Não podemos pregar a conversão, se nós mesmos não nos convertermos todos os dias» (RM 47).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.3.14 | Sem comentários

Mistério da fé! [23]


«Através dos Sacramentos da Iniciação Cristã, do Batismo, da Confirmação e da Eucaristia, o ser humano recebe a vida nova em Cristo. Pois bem, todos nós sabemos que trazemos esta vida ‘em vasos de barro’ (2Coríntios 4, 7), ainda estamos submetidos à tentação, ao sofrimento, à morte e, por causa do pecado, até podemos perder a nova vida. Por isso, o Senhor Jesus quis que a Igreja continuasse a sua obra de salvação também a favor dos próprios membros, em particular com os Sacramentos da Reconciliação e da Unção dos Enfermos, que podem ser unidos sob o nome de ‘Sacramentos de Cura’» (Francisco, Audiência Geral de 19 de fevereiro de 2014). [Para ajudar a compreender melhor, ler: 2Coríntios 4, 6-11); Catecismo da Igreja Católica (CIC), números 1420 e 1421]

«Trazemos, porém, este tesouro em vasos de barro»

— escreve Paulo na Segunda Carta aos Coríntios. Com esta expressão, Paulo pretende transmitir a fragilidade do ser humano, mas também a força do Evangelho. «O barro — sabemo-lo muito bem — é um material muito frágil, além de não ser limpo e valer pouco. Não tem a qualidade do ouro ou dos outros materiais preciosos. Paulo sente-se um vaso de barro: sabe que é fraco, tem defeitos e limites humanos, mas sabe também que Deus depositou nas suas mãos um grande tesouro e o enviou a levar a todos a riqueza do Evangelho» (Fernando Armellini, «O banquete da Palavra. Ano B», Paulinas, Lisboa 1996, 287). Por isso, como sugere Paulo, as dificuldades e as limitações próprias da nossa condição humana, não podem ser um motivo para o desencorajamento; antes, podem (e devem) ser uma oportunidade para revelar a força que nos vem de Deus, através de Jesus Cristo. Força, essa, que reconhecemos presente na graça sacramental.

Sacramentos

«Os sacramentos são sinais, gestos instituídos, ao menos em gérmen, por Cristo, e entregues à Igreja que os desenvolveu ao longo dos tempos. São encontros marcados por Cristo na nossa vida. Encontros para as diversas realidades ou situações que o ser humano vive durante a vida, desde o nascimento até à morte» (José Ribólla, «Os Sacramentos trocados em miúdo», Editora Santuário, Aparecida 1990, 211). [Explicamos o significado do termo «sacramento» nos temas 6 e 7].

Cura

A vida humana está marcada pela sua própria fragilidade e por um conjunto de condicionalismos que a envolvem tanto do ponto de vista pessoal como comunitário (social). Por isso, embora os Sacramentos da Iniciação Cristã nos façam mergulhar na vida divina, temos, em determinados momentos da existência, necessidade de «recuperar» a graça que recebemos pelos Sacramentos do Batismo, Confirmação e Eucaristia. Do ponto de vista sacramental, a graça é-nos devolvida através dos Sacramentos de Cura, que são a Reconciliação (ou Penitência) e a Unção dos Doentes (ou Enfermos). Estes Sacramentos de Cura «socorrem a pessoa na sua fragilidade, na condição de pecado e na doença, atingindo-a com o poder curativo da graça divina na profundidade do coração e transformando as relações em que ela se exprime. Através destes sacramentos, o Senhor Jesus, verdadeiro médico celeste, continua, por intermédio da Igreja, a Sua obra de cura e de salvação. [...] A vida divina atinge e transforma o coração dos seres humanos na variedade das situações, em que se situa e desenvolve a sua existência. Por estes sacramentos, a eternidade monta as suas tendas na transitoriedade do tempo, e a história de Deus vem visitar e habitar o êxodo incessante da condição humana. O único e definitivo evento pascal do Crucificado Ressuscitado, em que se realizou, de uma vez por todas, a nossa reconciliação, atualiza-se no gesto da Igreja. E, assim, torna-se profundamente verdade que a graça faz-se história e a história participa da eternidade do Deus vivo. Se todos os sacramentos constituem a porta de entrada da eternidade no tempo e do tempo na eternidade (a ‘carne’ por que passa o Espírito), pode-se afirmar, em especial, que nos sacramentos da cura se manifesta, de maneira mais intensa e misericordiosa, a companhia do Deus vivo junto do ser humano, que se encontra mergulhado na complexidade e vergado ao peso do devir histórico» (Bruno Forte, «Introdução aos Sacramentos», Gráfica de Coimbra, Coimbra 1997, 99-101).

«Queridos amigos, não há força alguma ou poder capaz de deter o amor de Deus por vós. [...] Todavia, não há doença, fraqueza ou enfermidade que possam privar-vos da vossa dignidade de filhos de Deus, de irmãos e irmãs de Jesus Cristo» (João Paulo II, Discurso proferido a 28 de maio de 1982).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.3.14 | Sem comentários

Mistério da fé! [20]


«O que vemos quando nos congregamos para celebrar a Eucaristia, a Missa, já nos faz intuir o que estamos prestes a viver. No centro do espaço destinado à celebração encontra-se o altar, que é uma mesa coberta com uma toalha, e isto faz-nos pensar num banquete» (Francisco, Audiência Geral de 5 de fevereiro de 2014), é a «mesa do Pão» (Liturgia Eucarística). [Para ajudar a compreender melhor, ler: 1Coríntios 10, 16-17; Catecismo da Igreja Católica, números (CIC) 1350 a 1372 e 1383]

«Todos participamos desse único pão»

— escreve Paulo na Primeira Carta aos Coríntios. «A Igreja é o corpo de Cristo: caminha-se ‘com Cristo’ na medida em que se está em relação ‘com o seu corpo’. [...] É precisamente o único Pão eucarístico que nos torna um só corpo» (João Paulo II, Carta Apostólica para o Ano da Eucaristia — «Mane Nobiscum Domine», 20).

Eucaristia

O Sacramento da Eucaristia também está intimamente unido à oferta de Jesus Cristo na cruz. Por isso, é designado como «Santo Sacrifício, porque atualiza o único sacrifício de Cristo Salvador e incluiu a oferenda da Igreja» (CIC 1330). A palavra «sacrifício» é de origem latina: «‘sacrum-facere’ (tornar algo sagrado, ou fazer que uma coisa se converta em sagrada, separada, oferecida). Entende-se o sacrifício como expressão da entrega à divindade, ou por humilde reconhecimento da sua dependência, para lhe dar graças, para expiar os pecados, ou para suplicar a sua ajuda. [...] No Novo Testamento, não tem grande importância o conceito clássico de sacrifício: só o de Jesus Cristo. Assim como Ele é o verdadeiro sacerdote e Mestre, é também de uma vez por todas o Sacrifício definitivo, aquele que, com o seu Sangue, estabelece e rubrica a Nova Aliança.[...] Aos cristãos encarrega-se-lhes que, em toda a sua vida, se unam a esta entrega sacrificial de Cristo, antes de mais com a atitude interior e com o oferecimento do seu corpo, da sua vida« (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia» [DEL], ed. Paulinas, Prior Velho 2007, 268-269).

Mesão do Pão

A segunda mesa presente na Eucaristia é o «lugar» onde decorre o segundo momento central da celebração: a Liturgia Eucarística [sobre as divisões desta parte ver o tema 18]. Após o alimento da Palavra, os cristãos são convidados a receber o alimento do Pão. Ambos (Palavra e Pão) constituem o mesmo e único Corpo de Cristo (cf. tema 19). «O ato de comer tem a ver com a atividade cultural do homem: implica o trabalho, a preparação do alimento, a sociabilidade (tanto na aquisição e preparação do alimento, como no seu consumo), o convívio. Com efeito, o homem come com outros homens, e o ato de comer está ligado a uma mesa, lugar primordial de criação e de amizade, de fraternidade, de aliança e de sociedade. À mesa não se partilha apenas o alimento, mas também se trocam palavras e discursos, alimentando assim as relações, ou seja, aquilo que dá sentido à vida sustentada pelo alimento» (Luciano Manicardi, «A caridade dá que fazer», ed. Paulinas, Prior Velho 2011, 79). Tudo isto está presente na Eucaristia. Acresce ainda a dimensão sacramental da presença de Jesus Cristo, que confirma e plenifica o significado do pão partido e repartido.

Altar

A mesa do Pão, no espaço litúrgico, designa-se com o termo «altar», «centro do espaço celebrativo, seu princípio de unidade e ponto de referência mais imediato. O seu primeiro sentido foi o sacrifício: a ara onde se sacrificavam as vítimas à divindade. Por isso, a etimologia do nome latino ‘altare’ parece que vem de ‘adolere’, ‘arere’ (arder: o lugar onde pelo fogo se queima a vítima do sacrifício). Também poderia provir de ‘altus’ (alto), porque os altos (sobretudo as colinas e montes) sempre se consideraram lugar de encontro dos humanos com a divindade. [...] Para os cristãos, o altar tem, antes de mais, uma conotação sacrificial [...]. Mas predomina o sentido de refeição eucarística [...]. Junto ao carácter de ‘ara’, acentua-se o de ‘mesa’ [...]. Ao princípio, esta mesa era de madeira: um trípode para os dons eucarísticos. Mas mais tarde, preferiu-se que fosse de pedra. [...] Nos primeiros séculos, o altar era independente. Na Idade Média, encostou-se à parede ou ábside do fundo, e agora de novo se pede que esteja separado da parede, para poder celebrar de frente para a comunidade e rodear processionalmente o altar.[...] Prefere-se que o altar principal seja fixo» (DEL, 24-26).

«Ir à Missa não só para rezar, mas para receber a Comunhão, o pão que é o corpo de Jesus Cristo que nos salva, nos perdoa e nos une ao Pai. É bom fazer isto!» (Francisco, Audiência Geral de 5 de fevereiro de 2014).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.2.14 | Sem comentários

Mistério da fé! [19]


«Prepare-se para os fiéis, com maior abundância, a mesa da Palavra de Deus» — recomenda o II Concílio do Vaticano (Constituição Conciliar sobre a Liturgia — «Sacrosanctum Concilium», 51). Haverá ainda quem pense que basta chegar ao «Credo» para participar na Missa?! Não pode haver eucaristia sem a mesa da Palavra (Liturgia da Palavra). [Para ajudar a compreender melhor, ler: Lucas 11, 27-28); Catecismo da Igreja Católica, números (CIC) 1349]

«Felizes, antes, os que escutam a Palavra de Deus

e a põem em prática»

— afirma Jesus Cristo, no evangelho segundo Lucas. Pela resposta, percebe-se que todos podem acolher e viver esta proposta de «felicidade», cujo fundamento é o próprio Jesus Cristo. Neste sentido, convém recordar que Bíblia é Palavra de Deus, mas não é «a» Palavra de Deus! A Palavra de Deus é Jesus Cristo! «Jesus é a Palavra de Deus Pai descida ao coração de todo o crente».

Eucaristia

«Todos se congregam. Os cristãos reúnem-se num mesmo lugar para a assembleia eucarística» (CIC 1348). Eis outra expressão usada para designar a Eucaristia: «Assembleia eucarística (‘synaxis’), porque a Eucaristia é celebrada em assembleia de fiéis, expressão visível da Igreja» (CIC 1329). Ao mesmo tempo, é também a (primeira) expressão visível da liturgia cristã (cf. temas 1 e 2). «Em grego, esta congregação de fiéis chama-se ‘synaxis’. A palavra assembleia vem do latim, ‘assimulare’, que significa juntar de ‘simul’, ao mesmo tempo. [...] Desde a primeira geração, a assembleia litúrgica é uma realidade importante, no conjunto da vida cristã» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia» [DEL], ed. Paulinas, Prior Velho, 2007, 41), porque a assembleia cristã nunca deixou de se reunir para celebrar o domingo, o primeiro dia da semana, dia da Ressurreição (Páscoa), dia da Eucaristia.

Mesa da Palavra

Na Eucaristia, temos duas mesas: «a mesa da Palavra e a mesa eucarística. A primeira prepara-nos para vivermos melhor e com mais fecundidade a segunda. Hoje temos uma riqueza imensa de textos proclamados na mesa da Palavra. É Deus que está presente e nos fala. A Palavra fortalece, alimenta, dá fé, cura. Nas Eucaristias feriais, da semana, temos uma leitura, a proclamação do Salmo e o Evangelho, tudo isto preparado por um ato penitencial e, às vezes, pelo canto do glória. Ao domingo e nas Solenidades temos duas leituras, quase sempre uma do Antigo Testamento e outra do Novo, além da proclamação do Salmo e da leitura do Evangelho. É bonito e consolador cair na conta de que, nos dias de semana, temos dois ciclos de primeira leitura, ou seja, uma para os anos pares, outra para os anos ímpares, conservando-se o Evangelho nos dois ciclos. Mas mais enriquecedora é a maravilha dos três ciclos, chamados ano A, ano B, ano C, em que, nos domingos, somos convidados a escutar e meditar nas três leituras, além do Salmo dito responsorial. Uma variedade imensa de leituras, que colocam diante de nós um precioso alimento. Precisamos de nos habituar a preparar a mesa da Palavra em casa, lendo, em família, as leituras que vão ser proclamadas na Eucaristia, procurando assimilá-las, rezar com elas, fazer partilha em ambiente familiar ou em grupo» (Dário Pedroso, «Mistério da Fé», Editorial AO, Braga 2005, 21-22).

[Para aprofundar o tema, ler a Exortação Apostólica Pós-Sinodal (Bento XVI) sobre a Palavra de deus na vida e na missão da Igreja — «Verbum Domini»]

Ambão

A mesa da Palavra, no espaço litúrgico, designa-se com o termo «ambão». «A palavra latina ‘ambo’ vem do grego, ‘anabaino’ (subir), e designava um lugar elevado, a tribuna, com varanda e atril, próxima da nave, donde se proclamava a Palavra ao povo. [...] ‘A dignidade da Palavra de Deus requer que haja na igreja um lugar adequado para a sua proclamação e para o qual, durante a liturgia da Palavra, convirja espontaneamente a atenção dos fiéis’. [...] ‘Um lugar elevado, fixo, dotado de conveniente disposição e nobreza, que corresponda à dignidade da Palavra de Deus e, ao mesmo tempo, recorde com clareza aos fiéis que, na Missa, se prepara tanto a mesa da Palavra de Deus como a mesa do Corpo de Cristo’. O Missal especifica que o ambão está ‘reservado’ à proclamação da Palavra, e desaconselha que, a partir dele, se profiram outras palavras. Para as admonições, ensaios e direção dos cânticos, para os avisos e, se possível, também, para as orações dos fiéis e até para a homilia, seria melhor que se encontrasse outro lugar» (DEL, 26-27).

«Quando estamos a escutar a Palavra de Deus e nos é derramada nos ouvidos a Palavra de Deus que é carne de Cristo e seu sangue, se nos distrairmos com outra coisa, não incorremos em grande perigo?» (S. Jerónimo).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.2.14 | Sem comentários

Ambiente Virtual de Formação


Sacrosanctum Concilium — Constituição Conciliar sobre a Liturgia


Este texto aborda os capítulos II e III da Constituição Conciliar sobre a Liturgia (SC), sendo o II totalmente dedicado à Eucaristia. A visão teológica apresentada confirma a doutrina definida no Concílio de Trento (século XVI), mas ao mesmo tempo, procura atualizá-la no que diz respeito à pastoral. Esta preocupação, comum a todos os documentos do II Concílio do Vaticano, pode ser percebida nas determinações e sugestões para que os rituais das Celebrações Litúrgicas dos Sacramentos e Sacramentais fossem revistos, a fim de contribuir para a santificação dos cristãos e para a edificação Igreja (59).
Os Sacramentos são sinais sensíveis e visíveis da fé, alimentam-na e fortificam-na, e existem para a Igreja. Não existe cristão nem sacramento fora da comunidade, porque, por mais ténue que seja o vínculo estabelecido entre o cristão e a comunidade eclesial, todo aquele que o recebe, recebe também a graça, que é a vida de Deus nos seres humanos; dispõe-se a honrar a Deus e a praticar a caridade associando-se a Cristo e à sua Igreja.
Sendo sinais da fé, a Igreja precisa de criar condições para que os fiéis celebrem os sacramentos e possam compreender o alcance da graça recebida e as exigências que dela decorrem na sua vida pessoal e comunitária. Desde os primórdios, a Igreja entendeu que uma das formas de fazer isso era através da catequese. O Concílio de Trento ordenou a sistematização daquilo que ficou conhecido como Catecismo Romano que era destinado a orientar os padres para a realização da catequese nas suas paróquias. No início do século XX, São Pio X ordena a publicação de um catecismo abreviado com perguntas e respostas destinado ao povo, e esta atitude deve ser considerada como uma grande preocupação pastoral da época, mas trouxe consigo um vício formativo. As pessoas passaram a decorar o catecismo sem refletir sobre a fé que professavam, de tal forma que os bispos, presentes no II Concílio do Vaticano, perceberam a necessidade de se procurar uma catequese que fosse menos intelectualizada e mais ligada à vida comunitária. A SC sugere que a pastoral sacramental cuide que a preparação dos fiéis para os sacramentos seja apresentada como um itinerário mistagógico para toda a vida cristã e não apenas, como um momento preparatório dos sacramentos. Não obstante esta orientação mais profunda, a saída encontrada foram os «cursos» de preparação para os vários sacramentos, que sem dúvida contribuíram para superar a prática de decorar a doutrina, mas ainda não conseguiram despertar a reflexão sobre o porquê e para quê de celebrar um sacramento. Esta ainda é a principal preocupação da pastoral sacramental.
Em 1992, depois de seis anos de árduo trabalho, surge o Catecismo da Igreja Católica que se torna o livro doutrinal por excelência. E, em 2005, foi publicado o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, uma versão concisa, em forma de perguntas e respostas, ao modo do Catecismo de São Pio X.

Eucarista

No que diz respeito à Eucaristia, a SC lembra que a Igreja celebra a Eucaristia e esta constrói a Igreja. Profundamente associadas, uma realidade não existe sem a outra. A celebração da Eucaristia é sinal da Igreja reunida como corpo do Senhor, que ritualmente presta culto a Deus e oferece pão e vinho, pedindo-Lhe que os transforme no Seu próprio Corpo e Sangue, alimento da caminhada.
Para que os fiéis pudessem descobrir esta riqueza, a SC lembra que a Igreja deve cuidar para que não sejam meros expectadores da celebração eucarística, mas ativos participantes da oferta de Cristo, pois todas as vezes que dela participam, juntamente com Ele oferecem as suas vidas na Eucaristia (48). Para que isso aconteça, afirma que é fundamental que o ritual da missa seja revisto, simplificado e reformado (50).
Na dimensão catequética, a SC destaca a importância da Liturgia da Palavra, que é também alimento para as pessoas, o que indica que as Leituras Bíblicas não estavam a receber o seu devido valor na celebração da Eucaristia (51). Ela recomenda com veemência a pregação e/ou homilia como parte da Liturgia, que ajuda na exposição dos mistérios da fé e das normas da vida cristã, na intenção de oferecer aos fiéis o contacto com a Palavra de Deus como o percurso de um itinerário espiritual cristocêntrico dentro do Ano Litúrgico (52). Insiste, também, para que os fiéis participem nas orações e especialmente dos cantos, o que antes era limitado devido à língua latina desconhecida pela maioria das pessoas que, ao invés de participarem na celebração, apenas ‘assistiam’, sem nada compreender dos Ritos Litúrgicos (53-54).
Quanto aos demais sacramentos, a contribuição mais importante da SC é a determinação de que todos os rituais sejam atualizados (67-78) e traduzidos na língua materna. Os sacramentos do Batismo, da Confirmação e da Eucaristia passaram a ser chamados de Sacramentos da Iniciação Cristã e, ainda que as preparações sejam separadas, devem ser vistas dentro de um único processo formativo. Desta visão se retoma a preocupação com a Iniciação Cristã dos Adultos, devido ao grande número de adultos não batizados existentes nos territórios de missão e também nas grandes cidades atingidas pela modernidade. A SC determinou a elaboração de um novo ritual (63-55) e, após nove anos, em 1972, surgiu o Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos (RICA), reformado por Decreto do II Concílio do Vaticano e promulgado pelo Papa Paulo VI.

Sacramentais

Os sacramentais ou bênçãos, embora não sejam sacramentos, são sinais sagrados que colaboram para a santificação dos fiéis (60), como por exemplo, uma bênção pessoal ou de uma casa, um carro etc. A SC não só incentiva o uso dos sacramentais, como também determina que alguns sejam realizados por leigos, o que permite compreender o quanto a Igreja deseja que assumam a sua vocação missionária e evangelizadora. Dentro deste contexto foi de suma importância a publicação do Ritual das Bênçãos. Trata-se de um livro de grande valor, onde as bênçãos estão divididas em cinco partes: bênção de pessoas, objetos, de coisas destinadas ao uso litúrgico, de objetos de piedade e, finalmente, bênçãos para diversos fins. A estrutura de cada bênção comporta uma proclamação da Palavra e um louvor da bondade de Deus com um pedido de auxílio, além de um breve rito de abertura e conclusão.

© Ambiente Virtual de Formação — www.ambientevirtual.org.br —
© Arquidiocese de Campinas, Brasil
© Adaptado por Laboratório da fé, 2014



Questões para reflexão

  • O que significa a expressão ‘a Igreja celebra a Eucaristia e esta constrói a Igreja’?
  • Como é que a equipa de liturgia da tua paróquia e/ou comunidade pode contribuir para que a comunidade e o povo celebrem e vivam melhor os sacramentos?
  • Como vês o processo de Iniciação Cristã? 
  • Estas informações sobre Sacramentos e Sacramentais acrescentaram alguma coisa aos teus conhecimentos e à tua vida? O quê?

Partilha connosco a tua reflexão!


II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.2.14 | Sem comentários

Mistério da fé! [18]


A Eucaristia associa a si aspetos que devem ser tidos em conta, na preparação, na celebração e até depois da celebração. Quem, como, quando e onde — são questões que sintetizam alguns desses pontos. Nesta reflexão não é possível apresentar todos os elementos importantes para responder às questões referidas; procuraremos fazê-lo também nos próximos temas (cf. temas 19 a 22) dedicados ao Sacramento da Eucaristia [Para ajudar a compreender melhor, ler: Marcos 14, 22-26); Catecismo da Igreja Católica, números (CIC) 1345 a 1355]

«Tomou um pão e, depois de pronunciar a bênção, partiu-o 

e entregou-o aos discípulos»

— relata o evangelho segundo Marcos, a propósito da «Instituição da Eucaristia».

Eucaristia

Entre as expressões (cf. temas 16 e 17) usadas para designar a Eucaristia encontra-se a de «Missa» ou «Santa Missa»: «Do latim, ‘mittere’ (enviar, despedir) [...]. O termo, provavelmente, teve a sua origem na despedida que se fazia dos catecúmenos (‘missa catecumenorum’), depois da liturgia da Palavra e, no final, na despedida dos fiéis (‘Ite, missa est’). [...] A partir do século VI, definitivamente, deu-se o nome de ‘missa’ a toda a celebração (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia» [DEL], ed. Paulinas, Prior Velho, 2007, 181).

Quem pode participar na eucaristia?

Em termos gerais, qualquer pessoa pode participar na celebração da eucaristia. No entanto, nem todos podem ter o mesmo tipo de participação.

Quem preside à eucaristia?

Todas as ações litúrgicas são presididas por Jesus Cristo; são exercício da presença de Jesus Cristo que acontece em, primeiro lugar, na assembleia (cf. tema 2). Todavia, nem todos têm a mesma função. E só os bispos ou os presbíteros podem presidir à eucaristia (cf. CIC 1348).

Como é celebrada a eucaristia?

As linhas fundamentais seguem o relato elaborado pelo mártir São Justino, por volta do ano 155 (século II), reproduzido no número 1345 do Catecismo da Igreja Católica. O ritual compõe-se de duas partes principais (Liturgia da Palavra e Liturgia Eucarística) precedidas por uma introdução (Ritos Iniciais) e seguidas de uma conclusão (Ritos Finais). O Catecismo Jovem da Igreja Católica (YOUCAT) resume numa pergunta: «Como está organizada a Santa Missa? A Santa Missa começa com a reunião dos crentes e com a entrada do sacerdote e dos ministros do altar (acólitos, leitores, etc.). Após a saudação, faz-se a confissão geral (ato penitencial), que culmina no Kyrie. Nos domingos (exceto no Advento e na Quaresma) e nas festas canta-se ou diz-se o Glória. A oração coleta introduz uma ou duas leituras do Antigo e/ou do Novo Testamento. Antes do Evangelho, tem lugar a sua aclamação (Aleluia). Depois de anunciar o Evangelho, o sacerdote ou o diácono faz uma reflexão (Homilia), especialmente nos domingos e nos dias solenes. Igualmente nestes dias, a comunidade faz a sua profissão de fé comum mediante o Credo, a que se seguem as orações de intercessão (oração universal). A segunda parte da Santa Missa começa com a preparação dos dons (oblatas), que é rematada com a oração sobre as oblatas. O zénite da celebração é a Oração Eucarística, introduzida pelo prefácio e pelo Santo. Então, os dons do pão e do vinho são convertidos no corpo e no sangue de Cristo. A Oração Eucarística desemboca na doxologia, que faz a ponte para a Oração do Senhor (Pai Nosso). Segue-se a oração pela paz, o Agnus Dei, a fração do pão e a oferta dos dons sagrados aos crentes, o que em regra acontece apenas com o corpo de Cristo. A Santa Missa termina com um tempo de silêncio orante, uma ação de graças, uma oração pós-comunhão e a bênção pelo sacerdote» (número 214).

Quando se celebra a eucaristia?

A Igreja Católica propõe a celebração diária da eucaristia. No entanto, «a Igreja impõe aos fiéis a obrigação de ‘participar na divina liturgia nos domingos e dias de festa’ e de receber a Eucaristia ao menos uma vez em cada ano, se possível no tempo pascal preparados pelo sacramento da Reconciliação. Mas recomenda-lhes vivamente que recebam a santa Eucaristia aos domingos e dias de festa, ou ainda mais vezes, mesmo todos os dias» (CIC 1389).

Onde se pode celebrar a eucaristia?

O lugar próprio é o templo sagrado, embora se possa admitir outro lugar devidamente preparado (cf. tema 5).

«Em cada etapa da história da Igreja, a celebração eucarística, enquanto fonte e ápice da sua vida e missão, resplandece no rito litúrgico em toda a sua multiforme riqueza» (Bento XVI, Exortação Apostólica sobre a Eucaristia fonte e ápice da vida e da missão da Igreja — «Sacramentum Caritatis», 3).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.2.14 | Sem comentários

Mistério da fé! [17]


«A Eucaristia é o memorial da Páscoa de Cristo, isto é, da obra do salvação realizada pela vida, morte e ressurreição de Cristo, obra tornada presente pela ação litúrgica» (Catecismo da Igreja Católica [CIC], 1409). [Para ajudar a compreender melhor, ler: 1Coríntios 11, 23-27; Catecismo da Igreja Católica, números 1337 a 1344 e 1362 a 1372]

«Fazei isto em memória de Mim»

— disse Jesus Cristo, no contexto da ceia pascal, de acordo com o relato paulino da Primeira Carta aos Coríntios. Trata-se do testemunho literário mais antigo sobre Eucaristia (por volta do ano 52), anterior aos textos dos evangelhos. «‘Em memória de mim’ é o coração da revelação, a realização da história da salvação para cada um de nós, o mistério escondido há séculos e agora revelado» (Francesco Peyron - Paolo Angheben, «Eucaristia, coração da vida», Edições Salesianas, Porto 2004, 77).

Eucaristia

São vários os termos usados para designar a Eucaristia (cf. tema 16). Um deles é «Ceia do Senhor»: «porque se trata da ceia que o Senhor comeu com os discípulos na véspera da sua paixão e da antecipação do banquete nupcial do Cordeiro na Jerusalém celeste» (CIC 1329). Outro deles, «o primeiro adotado pelas comunidades cristãs para definir a Eucaristia» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia» [DEL], ed. Paulinas, Prior Velho, 2007, 179), é o de «memorial» (em hebraico, ‘zikkaron’; em grego, ‘anamnesis’).

Memorial

«O mandato de Jesus foi: ‘Fazei isto em memória de mim’. O memorial não é entendido pela Igreja como uma mera recordação subjetiva ou um aniversário. Ele é uma recordação eficaz, uma celebração que atualiza o que recorda: ou seja, é um ‘sacramento’ do acontecimento passado» (DEL 179). «Um exemplo pode ajudar-nos: suponhamos que um pai de família, para salvar o filho dum incêndio, se lança às chamas e sofre queimaduras para poder tirá-lo de lá. Passados anos, permanecem nos braços e no peito do pai todos os sinais das queimaduras. O filho, olhando para ele, recorda aquele gesto de amor» (Francesco Peyron - Paolo Angheben..., 79). «Para os Judeus, o memorial da sua Páscoa não é só o aniversário da sua saída do Egito, mas a renovação atualizada da aliança que Deus lhes ofereceu então e lhes continua a oferecer agora. Para os cristãos, o memorial da Morte de Cristo, agora Ressuscitado, atualiza e comunica, em cada celebração, a força salvadora do acontecimento da cruz. Além disso, o memorial visa também o futuro: em certo sentido, adianta-o e garante-o. Em cada Missa, ao comer o Pão e o Vinho, que são o Corpo de Cristo (presente), proclama-se a morte do Senhor (passado) ‘até que Ele venha’ (futuro). É assim que S. Paulo descreve a Eucaristia (cf. 1Coríntios 11, 26). É desta forma também que o Concílio define a Eucaristia: como memorial da Morte e Ressurreição de Cristo (cf. Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia — «Sacrosanctum Concilium», 47). [...] O Catecismo explica a Eucaristia a partir desta chave (cf. CIC 1362-1372). Os próprios textos do Missal são os que exprimem, sobretudo, a identidade da Eucaristia como memorial da Páscoa de Cristo: ‘ao celebrar agora o memorial da morte e ressurreição do vosso Filho…’ (Oração Eucarística II)» (DEL 179).

Páscoa

«A palavra ‘Páscoa’ vem do hebraico ‘pesah’, que parece significar ‘coxear, saltar, passar por cima’, talvez aludindo a algum ‘salto’ ritual e festivo. Mas bem rápido passou a referir-se ao facto de que Javé ‘passou ao largo’ pelas portas dos israelitas, no último castigo infligido aos egípcios, e, mais tarde, à passagem do Mar Vermelho, no trânsito da escravidão para a liberdade. [...] A Páscoa, no Novo Testamento, é uma categoria fundamental para entender a obra salvadora de Cristo e da Eucaristia. [...] Agora é o êxodo, o salto, a passagem de Cristo para o Pai na sua hora crucial de morte e ressurreição, o que dá sentido novo e pleno à Páscoa judaica. Na morte e ressurreição, em que Cristo é o verdadeiro Cordeiro pascal, Ele ofereceu o sacrifício definitivo e conseguiu a Nova Aliança, a reconciliação de Deus com a humanidade, e deu origem ao novo povo da Igreja. [...] E assim como os Judeus, em cada ano, fazem o memorial da sua Páscoa-Êxodo, sobretudo na ceia pascal, também os cristãos recebem o encargo de celebrar – com um ritmo mais frequente – o memorial da Páscoa de Cristo, a Eucaristia» (DEL 226).

«Portanto, ‘recordar’ é ‘trazer de novo ao coração’ com a memória e o afeto, mas também celebrar uma presença. A Eucaristia, verdadeiro memorial do mistério pascal de Cristo, é capaz de manter viva em nós a memória do seu amor» (João Paulo II, Audiência Geral de 4 de outubro de 2000).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.1.14 | Sem comentários

Mistério da fé! [16]


«A Eucaristia é o coração e o cume da vida da Igreja, porque nela Cristo associa a sua Igreja e todos os seus membros ao seu sacrifício de louvor e de ação de graças, oferecido ao Pai uma vez por todas na cruz; por este sacrifício, Ele derrama as graças da salvação sobre o seu corpo, que é a Igreja» (Catecismo da Igreja Católica [CIC], 1407). [Para ajudar a compreender melhor, ler: João 6, 48-58; Catecismo da Igreja Católica, números 1322 a 1332]

«Eu sou o pão vivo, o que desceu do Céu:

se alguém comer deste pão, viverá eternamente»

— diz Jesus Cristo, no «discurso» sobre o «Pão da Vida» apresentado no sexto capítulo do evangelho segundo João. As declarações de Jesus Cristo confirmam a necessidade de comer a «carne» e beber o «sangue» para ter a plenitude da vida. A Igreja interpreta esta imagem à luz do sacramento da Eucaristia. E, por isso, apresenta-o como «coração da vida».

Eucaristia

A Eucaristia é um dos termos usados para designar o Sacramento que, juntamente com o Batismo e a Confirmação, completa a Iniciação Cristã (cf. tema 7). «Aqueles que foram elevados à dignidade do sacerdócio real pelo Batismo e configurados mais profundamente com Cristo pela Confirmação, esses, por meio da Eucaristia, participam, com toda a comunidade, no próprio sacrifício do Senhor» (CIC 1322). A palavra «eucaristia» tem origem no «grego, ‘eu’ (bom) e ‘charis’ (graça) = «boa graça» (em sentido descendente); ou ‘ação de graças’ (em sentido ascendente). Quando os Evangelhos descrevem os gestos da Última Ceia, recordam que Jesus ‘tomou o pão e deu graças’ (‘eucharistesas’). Não é de estranhar, portanto, que por volta do ano 100, o nome Eucaristia se acrescentasse às outras denominações usadas pelas primeiras comunidades para designar este sacramento: ‘Fração do Pão’ e ‘Ceia do Senhor’. A seguir, chamar-se-ia ‘Synaxis’ (reunião, ação conjunta), ‘Missa’, etc.» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia» [DEL], ed. Paulinas, Prior Velho, 2007, 112).

Coração da vida

O primeiro documento do II Concílio do Vaticano apresenta a Liturgia (cf. tema 1) como «a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força. Na verdade, o trabalho apostólico ordena-se a conseguir que todos os que se tornaram filhos de Deus pela fé e pelo Batismo se reúnam em assembleia para louvar a Deus no meio da Igreja, participem no Sacrifício e comam a Ceia do Senhor» (Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia — «Sacrosanctum Concilium», 10). A partir desta afirmação, os vários documentos da Igreja continuam a proclamar este duplo sentido: meta e fonte. A Constituição Dogmática sobre a Igreja («Lumen Gentium»), no número 11, diz: «Pela participação no sacrifício eucarístico de Cristo, fonte e centro de toda a vida cristã, oferecem a Deus a vítima divina e a si mesmos juntamente com ela». O Catecismo da Igreja Católica (número 1327) afirma que «a Eucaristia é o resumo e a súmula da nossa fé». Estas afirmações conduzem-nos para perceber a Eucaristia como o «coração da vida» da Igreja, dos cristãos. Neste sentido, a Eucaristia há de ser também o «coração do domingo» (João Paulo II, Carta Apostólica no termo do Grande Jubileu do Ano 2000 — «Novo Millennium Ineunte», 26): «A participação na Eucaristia seja verdadeiramente, para cada batizado, o coração do domingo: um compromisso irrenunciável, abraçado não só para obedecer a um preceito mas como necessidade para uma vida cristã verdadeiramente consciente e coerente». Entre outras afirmações, o papa João Paulo II disse que «a Igreja vive da Eucaristia» (Carta Encíclica sobre a Eucaristia na sua relação com a Igreja — «Ecclesia de Eucharistia» [EE], 1). E definiu a Eucaristia como «o que de mais precioso pode ter a Igreja no seu caminho ao longo da história» (EE 9). Também o papa Bento XVI se referiu à Eucaristia como «o tesouro mais precioso da Igreja. A Eucaristia é como o coração pulsante que dá vida a todo o corpo místico da Igreja» (Bento XVI, «Angelus» de 26 de junho de 2011). Por fim, o papa Francisco apresentou-a como «alimento precioso da fé, encontro com Cristo presente de maneira real no seu ato supremo de amor: o dom de Si mesmo que gera vida» (Francisco, Carta Encíclica sobre a fé — «Lumen Fidei», 44).

«A Eucaristia cria a vida da Igreja e a Igreja somos nós; portanto, dá a vida a cada um de nós. Aquilo que cada um vive na escola, no trabalho, com a esposa, com a namorada, pensando nas próprias opções, no íntimo da mente e do coração, ganha sentido, é iluminado pela Eucaristia, Vida em que entra na vida» (Franceso Peyron - Paolo Angheben, «Eucaristia, coração da vida», Edições Salesianas, Porto 2004, 14).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.1.14 | Sem comentários

Ambiente Virtual de Formação


Sacrosanctum Concilium — Constituição Conciliar sobre a Liturgia


Este texto sobre a Formação Litúrgica completa o estudo da ficha anterior, referente ao primeiro capítulo da Constituição «Sacrosanctum Concilium» («Sagrado Concílio» [SC]), sobre a Sagrada Liturgia: Princípios gerais em ordem à reforma e incremento da Liturgia. Neste texto, são abordados os pontos II e V, nos quais podemos perceber a nova mentalidade que surgia graças ao II Concílio do Vaticano. Estes textos lembram que além da Missão de Santificar, a Igreja também tem a Missão de Ensinar o Povo de Deus, daí a importância da formação litúrgica dos cristãos e a criação de um estrutura pastoral dedicada à Pastoral Litúrgica nas dioceses e paróquias.
O ponto II — Educação e participação ativa (parágrafos 14-20) — indica que a participação ativa na celebração é um direito e um dever de todos os fiéis. Todavia, para que isso aconteça, é fundamental que haja formação litúrgica, a começar pelo clero que, por sua vez, deve multiplicar a formação aos agentes de pastoral e ao povo. Esta ação insere-se na grande preocupação do Concílio em renovar a Igreja e fazer com que a sua prática e o seu discurso sejam significativos ao ser humano dos tempos modernos.
O ponto V — Incremento da ação pastoral litúrgica (parágrafos 43-44) — apresentada as condições para que a Pastoral Litúrgica se possa desenvolver e atingir o seu objetivo: o cuidado espiritual do Povo de Deus, a quem os Ministros Ordenados devem servir. O Concílio determinou que em todos os países fossem criados uma Comissão Litúrgica – com especialistas em Liturgia, Música Sacra e Pastoral – e um Instituto de Liturgia Pastoral; e estas duas estruturas deveriam ser reproduzidas nas dioceses e nas paróquias.
Atualmente, é impensável que numa comunidade e/ou paróquia não exista uma «equipa» de liturgia, ou que não haja a preocupação com a formação litúrgica dos agentes de pastoral, mas esta é uma realidade do nosso tempo. Na época do Concílio não era assim! A própria noção de «equipa pastoral» só nasceu depois deste importante evento que, bem diferente dos outros,se preocupou muito com a «pastoral». Esta foi a grande mudança em relação aos outros concílios. Nesta nova forma de organizar a ação eclesial, a Pastoral Litúrgica foi uma das primeiras equipas a serem criadas nas dioceses e paróquias. Com isso, pode-se dizer que as mudanças litúrgicas, sugeridas e implantadas ao longo desses cinquenta anos, contribuíram para fortalecer a nova conceção de Igreja como «Povo de Deus». Se hoje existem equipas, nas paróquias e comunidades, é porque o Concílio as incentivou e indicou orientações para isso. Também, foi em função da organização pastoral que a Igreja determinou que os Livros Litúrgicos: Missal, Lecionários, Rituais Sacramentais, fossem traduzidos para as línguas locais. Outra importante orientação do Concílio foi que os bispos considerassem a possibilidade de fazer adaptações das culturas locais na Liturgia.
As Celebrações Litúrgicas oferecem um profundo ensinamento espiritual numa dimensão formativa que não se dá através das práticas pedagógicas, mas da mistagogia, isto é, o cristão é inserido no mistério de Cristo e, por conseguinte, da Igreja, Povo de Deus, através da participação ativa nas celebrações. É através dos sinais litúrgicos e, especialmente, através dos sinais sensíveis e visíveis da fé, os Sacramentos, que a comunidade e cada singular cristão experimenta o divino na sua vida. Por isso, a participação nas celebrações não deve ser vista como uma obrigação, mas como fonte e ápice da vida cristã. Na Liturgia, os fiéis celebram a fé e são impelidos a viver a prática cristã no quotidiano, dando testemunho por atos e palavras daquilo que dizem crer!

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© Arquidiocese de Campinas, Brasil
© Adaptado por Laboratório da fé, 2014



Questões para reflexão

  • Por que se considera que a Celebração da Liturgia é uma escola de Santidade?
  • As equipas de liturgia que conheces preocupam-se em ajudar o povo a rezar?
  • Quais os pontos que julgas fundamentais na formação dos agentes da Pastoral Litúrgica?

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II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 16.1.14 | Sem comentários

Mistério da fé! [15]


Os sinais e símbolos (cf. tema 3) ocupam um lugar importante no contexto da vida humana; o mesmo acontece no contexto litúrgico. Por isso, dedicamos este tema à explicação dos sinais e símbolos associados ao Sacramento da Confirmação. [Para ajudar a compreender melhor, ler: 2Coríntios 1, 18-22; Catecismo da Igreja Católica (CIC), números 1293 a 1301]

«Aquele que nos confirma juntamente convosco em Cristo

e nos dá a unção é Deus, Ele que nos marcou com um selo

e colocou em nossos corações o penhor do Espírito»

— escreve Paulo na Segunda Carta aos Coríntios. Numa situação de crise na comunidade, Paulo invoca o testemunho do próprio Deus; e apresenta a garantia do caminho a seguir: Deus que «dá a unção», marca «com um selo» e oferece o «penhor do Espírito». São três expressões que se podem associar aos Sacramentos, em especial ao Batismo e à Confirmação.

Profissão de fé

«Os confirmandos exprimem a sua adesão a Deus Pai, que se revela e nos salva em Jesus seu Filho e nos faz viver pelo sopro do seu Espírito Santo. Ao mesmo tempo, proclama-se a fé dos confirmandos e a fé da Igreja. Não podem estar separadas uma da outra; a palavra pessoal ecoa na palavra da Igreja» (AA. VV., «Preparar, celebrar e viver a Confirmação», Difusora Bíblica, Fátima 1997, 52). [cf. tema 13]

Imposição das mãos

«A imposição das mãos não é um gesto mágico, um abracadabra. É um gesto simbólico, mediante o qual se quer comunicar o Espírito Santo ao confirmando. A Igreja usa este gesto porque tem um significado muito belo ao longo da história do povo de Israel, nas ações de Jesus e na vida da Igreja» (José Bortolini, «Os Sacramentos na tua vida», São Paulo, Lisboa 1995, 47). É, na verdade, um gesto bíblico associado a uma bênção ou consagração. «A Bíblia regista, abundantemente, o uso do gesto simbólico de impor as mãos – sobretudo a direita – sobre a cabeça de alguém ou sobre um objeto e com sentidos variados: para significar a transmissão de poderes, a bênção, o perdão, ou a identificação. Jacob impõe as mãos sobre os seus netos para lhes desejar a bênção de Deus (cf. Génesis 48,9-20), Aarão, sobre o povo (cf. Levítico 9, 22), e Moisés, sobre o seu sucessor Josué, para lhe transmitir a autoridade e a sabedoria divinas (cf. Deuteronómio 34, 9), ou o sumo-sacerdote sobre o bode, na festa da expiação, para carregar sobre ele os pecados do povo e expulsá-lo para o deserto. Também Jesus abençoa, cura e perdoa com o gesto expressivo da imposição das mãos. E a comunidade cristã utiliza este mesmo gesto para transmitir o Espírito Santo aos batizados (cf. Atos 8, 17 e 19, 6), ou para confiar oficialmente uma missão, como aos diáconos ou a Paulo e Barnabé (cf. Atos 6, 6; 13, 3). [...] Na liturgia, portanto, é muito frequente o gesto, que exprime visualmente os dons de Deus e a mediação eclesial» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia», ed. Paulinas, Prior Velho, 2007, 140-141).

Crismação

É o «rito essencial da Confirmação» (CIC 1320). O bispo faz o sinal da cruz na fronte do crismando com o óleo do Crisma. Trata-se de um óleo perfumado benzido pela bispo, na manhã de Quinta-feira Santa, tal como o óleo dos Catecúmenos e da Unção dos Enfermos (cf. tema 11). É «o mais nobre dos óleos eclesiais: o crisma, uma mistura de azeite de oliveira e com perfumes vegetais. É o óleo da unção sacerdotal e da unção real, unções estas que estão ligadas com as grandes tradições de unção da Antiga Aliança. Na Igreja, este óleo serve sobretudo para a unção na Confirmação e nas Ordens sacras» (Bento XVI, Homilia a 21 de abril de 2011). O óleo e o perfume evocam o duplo sentido da Confirmação: «ao ser marcado pela mão do bispo com óleo perfumado, o batizado recebe um carácter indelével, marca do Senhor, juntamente com o dom do Espírito que o configura mais perfeitamente com Cristo e lhe confere a graça de difundir entre os homens o ‘bom odor’» (Ritual da Confirmação. Preliminares, 9). De facto, «tal como o perfume penetra o corpo e em seguida expande a sua fragrância, assim também o Espírito enche o coração do confirmando e em seguida se expande através dos seus dons [...], sempre com uma condição: que o confirmando viva do seu sopro!» («Preparar, celebrar e viver a Confirmação»..., 58).

Ósculo da paz

«Significa e manifesta a comunhão eclesial com o bispo e com todos os fiéis» (CIC 1301).

«Abramos a porta ao Espírito, façamo-nos guiar por Ele, deixemos que a ação contínua de Deus nos torne homens e mulheres novos, animados pelo amor de Deus, que o Espírito Santo nos dá» (Francisco, Homilia de 28 de abril de 2013).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 16.1.14 | Sem comentários

Ambiente Virtual de Formação


Sacrosanctum Concilium — Constituição Conciliar sobre a Liturgia


A Constituição «Sacrosanctum Concilium» («Sagrado Concílio» [SC]), sobre a Sagrada Liturgia, foi o primeiro documento aprovado pela maioria dos bispos conciliares em 4 de dezembro de 1963.
Esta Constituição insere-se no espírito de renovação suscitado pelo Espírito Santo e, especialmente, na compreensão da Igreja como Povo de Deus, definida na Constituição Dogmática sobre a Igreja («Lumen Gentium»). O objetivo central da SC é reformar e incrementar a Liturgia para promover a participação e a santificação do povo tendo em vista a edificação do Corpo de Cristo (1-4).
Desde o início do século XX que uma reforma litúrgica estava a ser gerada na Igreja, especialmente na Bélgica e na França. Ficou conhecida como Movimento Litúrgico. Este Movimento cresceu a partir dos estudos bíblicos e patrísticos que possibilitaram aos teólogos refletirem sobre o caráter cristológico da Liturgia e sobre a necessidade da participação dos fiéis nas celebrações. O papa Pio XII, através da Encíclica «Mediator Dei» (20 de novembro de 1947), confirmou os passos dados pelo Movimento Litúrgico e, nesse mesmo ano, criou uma comissão para a reforma da Liturgia. Em 1951, foram introduzidas uma série de reformas que antecederam o Concílio, sendo que a principal delas, foi a Reforma da Vigília Pascal. O Concílio, então, propagou estas reformas e sugeriu que elas fossem implantadas em todas as dioceses.
A SC está dividida em sete capítulos: 
I – Os princípios Gerais da Reforma e do Incremento da Liturgia; 
II – O Sacrossanto Mistério da Eucaristia; 
III – Os outros Sacramentos e sacramentais; 
IV – O Ofício Divino; 
V – O Ano Litúrgico; 
VI – A Música Sacra; 
VII – A Arte Sacra e as Alfaias Litúrgicas. 

A Sagrada Liturgia

Este texto sobre «A Sagrada Liturgia» é fruto do estudo sobre os pontos I, III e IV do primeiro capítulo da SC: Princípios gerais em ordem à reforma e incremento da Liturgia.
O ponto I — Natureza da Sagrada Liturgia e sua importância na vida da Igreja (parágrafos 5-13) — indica que é através da celebração quotidiana dos Sagrados Mistérios da Vida, Morte e Ressurreição do Senhor que a Igreja atualiza a presença salvífica de Jesus Cristo e se revela, apesar das suas falhas, como um canal da Graça Santificadora aos que a procuram, ou seja, o favor de Deus que santifica o ser humano, a Sua presença na vida humana (5-6). Através da Liturgia, é o próprio Cristo que age e comunica os sinais sensíveis de Sua Graça. E é, mediante a proclamação da Palavra de Deus e do diálogo com a assembleia, através da participação na salmodia, nas orações, nos cânticos e por meio dos sacramentos, que os fiéis se unem a Cristo e antecipam a festa, que no céu nunca acaba (7-8). Além disso, através da Liturgia enfatiza-se a noção eclesiológica, ou seja, o vínculo com a Igreja, pois o Povo de Deus reunido em assembleia litúrgica é a própria Igreja, Corpo de Cristo! Eis porque se afirma que a Liturgia é o cume e a fonte de toda a ação pastoral.
O ponto III — Reforma da Sagrada Liturgia (parágrafos 21-40) — indica a necessidade de promover mudanças nas celebrações litúrgicas em função de uma preocupação pastoral e espiritual, pois deseja-se que os fiéis obtenham maiores benefícios das celebrações em que participam. O documento lembra que em todas as Celebrações Litúrgicas há partes fixas e partes que podem ser mudadas ou adaptadas, a fim de que os fiéis sejam beneficiados e aproveitem melhor o que se celebra. Além disso, algumas orientações foram elencadas para serem seguidas por todas as dioceses, a fim de garantir a unidade e a fidelidade ao Magistério Eclesial. Duas delas são consideradas mais importantes porque contribuíram de forma decisiva para a catequese biblico-litúrgica do povo:
1) Que a Bíblia tenha um lugar de destaque na Liturgia, e que a pregação (homilia) seja catequética e centrada no mistério de Cristo. Para isso o documento permitiu o uso da língua materna com o objetivo de facilitar a compreensão e participação nas Liturgias Dominical e Ferial, e incentivou à realização da Celebração da Palavra, sobretudo nas comunidades onde há carência de padres (35, 4).
2) Que o povo seja estimulado a participar ativamente da Liturgia através de sua voz e expressão corporal, bem como a guardar silêncio nos momentos em que seja necessário.
O ponto IV — Promoção da vida litúrgica na diocese e na paróquia (parágrafos 41-42) — indica que as dioceses devem promover a Pastoral Litúrgica nas paróquias e comunidades para que os Sagrados Mistérios sejam celebrados numa participação perfeita e ativa de todo o Povo santo de Deus, representando a Igreja visível, estabelecida em todo o mundo, especialmente aos domingos, no Dia do Senhor. O documento aprovou também a introdução de alguns elementos culturais nas Liturgias, a fim de torná-las mais expressivas para os diversos grupos que a celebram.
As reformas propostas pela SC vieram em boa hora, pois contribuíram para resgatar o senso de uma liturgia centrada na fé em Jesus Cristo, o Senhor da História. A centralidade bíblica e a liturgia catequética configuraram-se como o grande desafio à formação dos fiéis. Na perspetiva da Pastoral Litúrgica, houve um grande esforço para que a reforma proposta fosse levada por diante.
É certo que a Reforma Litúrgica fez um grande bem à Igreja, pois reconduziu à centralidade cristólogica e contribuiu para uma maior participação dos fiéis, inclusive na questão da inculturação. Esta inculturação tornou a Liturgia mais popular, especialmente na música, com a diversidade dos instrumentos e dos cânticos.

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© Adaptado por Laboratório da fé, 2014



Questões para reflexão

  • O que aprendeste sobre a natureza da Liturgia?
  • Por que a Liturgia é importante na vida da Igreja?
  • Das reformas sugeridas pela SC, na tua opinião, qual foi a mais importante?
  • Existe alguma alteração na vida da Igreja, conhecida através desta ficha, que a tua paróquia ainda não aplicou na totalidade? Se sim, como é que podes colaborar para que isso aconteça?

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II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.1.14 | Sem comentários

Mistério da fé! [14]


A Confirmação associa a si aspetos que devem ser tidos em conta, na preparação, na celebração e até depois da celebração. Quem, como, quando e onde — são questões que sintetizam alguns desses pontos. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Atos dos Apóstolos 19, 1-7; Catecismo da Igreja Católica (CIC), números 1297 a 1301 e 1306 a 1314]

«Recebeste o Espírito Santo quando abraçaste a fé?»

— pergunta Paulo ao chegar a Éfeso, segundo o relato dos Atos dos Apóstolos. E, depois de celebrar o Batismo «em nome do Senhor Jesus», Paulo impôs-lhes as mãos e «o Espírito Santo desceu sobre eles». Embora não se fale especificamente da Confirmação, a Igreja lê nestes relatos, o fundamento bíblico do Sacramento. «Aqueles que então acreditaram na pregação apostólica, e se fizeram batizar, receberam, por seu turno, o dom do Espírito Santo» (CIC 1287).

Quem pode ser confirmado?

«Todo o batizado ainda não confirmado pode e deve receber o sacramento da Confirmação [...], porque, sem a Confirmação e a Eucaristia, o sacramento do Batismo é, sem dúvida, válido e eficaz, mas a iniciação cristã fica incompleta» (CIC 1306). Este Sacramento só pode ser celebrado «uma vez na vida», porque imprime, no cristão, «um sinal espiritual ou carácter indelével» (CIC 1317).

Quem pode confirmar?

«O Sacramento da Confirmação é normalmente presidido pelo bispo. Por razões pastorais, o bispo pode incumbir determinado sacerdote de o celebrar. Em caso de morte, qualquer sacerdote o pode fazer» (Catecismo Jovem da Igreja Católica [YOUCAT], 207).

Como é celebrada a confirmação?

A Igreja prevê duas possibilidades relacionadas com a idade da celebração do Batismo. Quando se celebra o Batismo em criança (nos primeiros anos de vida ou nas crianças e adolescentes em idade de catequese — cf. tema 10), o Sacramento da Confirmação inclui a renovação das promessas do Batismo e a profissão de fé. «Assim se evidencia claramente que a Confirmação se situa na continuação do Batismo» (CIC 1298). No caso de se tratar de jovens ou adultos ainda não batizados, faz-se de acordo com o Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos (RICA), que inclui os três Sacramentos da Iniciação Cristã numa única celebração, normalmente na Vigília Pascal: Batismo, Confirmação, Eucaristia (cf. tema 7). Em qualquer dos casos, existe uma parte comum à celebração da Confirmação: a imposição das mãos com a invocação do Espírito Santo sobre os confirmandos; a unção com o óleo do santo crisma na fronte acompanhada das palavras: «[Nome de batismo] recebe por este sinal o Espírito Santo, o Dom de Deus»; o ósculo da paz. A explicação destes sinais e símbolos será apresentada no próximo tema.

Quando se pode confirmar?

O Código de Direito Canónico (891) refere a «idade da discrição» como momento adequado para a celebração da Confirmação. O Ritual aponta uma idade próxima dos «sete anos». Mas acrescenta: «Todavia, por motivos pastorais, sobretudo para inculcar na vida dos fiéis um sentido mais profundo da plena adesão a Cristo Senhor e de firme testemunho dos cristãos, as Conferências Episcopais podem determinar outra idade que pareça mais adequada, de maneira que este sacramento seja conferido em idade mais adulta, depois de conveniente preparação» (Ritual da Confirmação. Preliminares, 11). Em Portugal, seguindo o plano de catequese da infância e adolescência, a idade para a Confirmação situa-se nos 15 ou 16 anos (décimo ano de catequese). Convém esclarecer que «não existe uma idade fixa para se receber a Confirmação. O que se exige do candidato é a maturidade espiritual, isto é, a capacidade de deixar o Espírito Santo agir dentro e fora dele. É um tanto difícil que haja maturidade espiritual, por exemplo, aos doze anos. Não nos devemos preocupar com a idade que o candidato tem. O que se exige dele é que esteja habilitado a viver para Deus, no Espírito» (José Bortolini, «Os Sacramentos na tua vida», São Paulo, Lisboa 1995, 44).

Onde se pode confirmar?

No caso dos jovens ou adultos (não batizados), que celebram os três Sacramentos da Iniciação Cristã, o lugar aconselhado é a Sé Catedral, durante a Vigília Pascal. Em relação aos adolescentes que já celebraram o Batismo e a Eucaristia, a celebração acontece na igreja paroquial ou numa igreja da zona pastoral.

«A força do Espírito não cessa jamais de encher de vida a Igreja. [...] Esta força flui também no nosso íntimo como um rio subterrâneo que alimenta o espírito e nos atrai e aproxima cada vez mais da fonte da nossa verdadeira vida, que é Cristo». (Bento XVI, Homilia a 20 de julho de 2008).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 9.1.14 | Sem comentários

Mistério da fé! [10]


O Batismo associa a si aspetos que devem ser tidos em conta, na preparação, na celebração e até depois da celebração. Quem, como, quando e onde — são questões que sintetizam alguns desses pontos. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Atos dos Apóstolos 2, 14-41; Catecismo da Igreja Católica, números 1229 a 1233 e 1246 a 1261]

«Peça cada um o batismo»

— responde Pedro à pergunta feita pelos que ouviram o seu discurso após a ressurreição de Jesus Cristo, de acordo com o livro dos Atos dos Apóstolos. Ninguém fica indiferente diante da revelação de Cristo ressuscitado. E os que escutam fazem a pergunta que será usada pelos catecúmenos durante o rito de admissão ao batismo: «Que devemos fazer?». Pedro apresenta-lhes um programa de conversão que encaminha para a celebração do batismo e a inserção na comunidade dos cristãos.

Quem pode ser batizado?

«Todo o ser humano ainda não batizado — e só ele — é capaz de receber o Batismo» (Catecismo da Igreja Católica [CIC], 1246). Para concretizar esta afirmação, a Igreja prevê três possibilidades, de acordo com a idade: crianças (nos primeiros anos de vida); crianças e adolescentes em idade de catequese; jovens e adultos. «A única predisposição para o Batismo é a fé» (Catecismo Jovem da Igreja Católica [YOUCAT], 196). Aos jovens e adultos é proposto um itinerário («catecumenado» – cf. tema 7) com etapas celebrativas ao longo do percurso, conforme o Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos (RICA). Este ritual também possui o capítulo próprio para as crianças em idade de catequese (Ritual da Iniciação Cristã das Crianças em idade de catequese): «Este rito destina-se às crianças que, não tendo sido batizadas na infância e tendo atingido a idade da discrição e da catequese, se apresentam para receber a iniciação cristã [...]. A iniciação deve prolongar-se, se for necessário, por vários anos» (RICA. Preliminares, 306-307). Para as crianças «que, por não terem chegado ainda à idade do uso da razão, não podem professar fé própria» existe um ritual próprio (Ritual do Batismo das Crianças. Preliminares, 1). A celebração do batismo das crianças «pressupõe que os pais cristãos introduzam o batizando na fé» (YOUCAT 197). Além disso, «o Batismo das crianças exige um catecumenado pós-batismal. [...] É o espaço próprio da catequese» (CIC 1231). Em todos os casos, é essa a missão dos padrinhos: «devem ser pessoas de fé sólida, capazes e preparados para ajudar o novo batizado, criança ou adulto, no seu caminho de vida cristã» (CIC 1255).

Quem pode batizar?

«Quem preside normalmente a uma celebração batismal é o bispo, um presbítero ou um diácono. Em caso de emergência, qualquer cristão, ou mesmo qualquer pessoa, pode batizar, derramando água sobre a cabeça do batizando e dizendo a fórmula batismal: ‘Eu te batizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo’. O Batismo é tão importante, que até uma pessoa que não é cristã pode ser o seu ministro. Ela apenas tem de ter a intenção de fazer o que a Igreja faz quando batiza» (YOUCAT 198).

Como é celebrado o batismo?

Há a fórmula breve, usada em caso de «emergência», perigo de morte. De facto, «o rito essencial do Batismo consiste em mergulhar na água o candidato ou em derramar água sobre a sua cabeça, invocando o nome da Santíssima Trindade» (CIC 1278). Mas há outros elementos simbólicos usados na celebração solene do Batismo. Vamos apresentá-los no próximo tema.

Quando se pode batizar?

Já sabemos que a Igreja prevê a possibilidade de celebrar o batismo em qualquer etapa da vida, atendendo à especificidade de cada pessoa. Agora, apresentamos dois pontos importantes retirados do Ritual da Celebração do Batismo das Crianças (Preliminares, 8-9): «deve fazer-se dentro das primeiras semanas após o nascimento da criança»; «recomenda-se que o sacramento seja celebrado na Vigília Pascal ou ao domingo».

Onde se pode batizar?

Sem excluir outras possibilidades, o lugar mais apropriado para a celebração do Sacramento do Batismo é a igreja paroquial (onde residem os pais): «para se ver mais claramente que o Batismo é o sacramento da fé da Igreja e da agregação ao povo de Deus, celebrar-se-á habitualmente na igreja paroquial» (Ritual da Celebração do Batismo das Crianças. Preliminares, 10).

«O Batismo insere na comunhão com Cristo e assim dá vida. [...] O Batismo é um dom; o dom da vida. Mas um dom deve ser acolhido, deve ser vivido. Um dom de amizade exige um ‘sim’. [...] É o nosso ‘sim’ a Cristo, o ‘sim’ à vida no tempo e na eternidade» (Bento XVI, Homilia a 8 de janeiro de 2006).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.12.13 | Sem comentários

Mistério da fé! [9]


«O Batismo constitui o nascimento para a vida nova em Cristo» (Catecismo da Igreja Católica, 1277). Esta referência a um novo nascimento — já presente no diálogo entre Jesus Cristo e Nicodemos (cf. João 3, 1-21) — constitui um dos aspetos fundamentais do Sacramento do Batismo. Não se trata de voltar ao ventre materno; trata-se de assumir uma nova identidade, uma vida nova em Cristo [Para ajudar a compreender melhor, ler: Romanos 6, 1-11; Catecismo da Igreja Católica, números 1217 a 1228]

«Pelo Batismo... caminhemos numa vida nova»

— escreve Paulo na Carta aos cristãos de Roma. Este texto é uma das catequese mais esclarecidas sobre o significado do batismo cristão. Antes de Jesus Cristo, a prática do batismo estava associada apenas aos rituais de purificação. Tal é, por exemplo, o significado do batismo praticado por João Batista, no rio Jordão. Na Carta aos Romanos, Paulo coloca em evidência a novidade do batismo cristão e a sua ligação com a Páscoa de Jesus Cristo (Ressurreição). Nos primeiros séculos, um dos momentos significativos do ritual do Batismo consistia em entrar e sair da água. Os batistérios expressavam bem esta dimensão: o catecúmeno tinha de descer umas escadas para entrar e sair da água. Paulo compara esta ação com a morte e ressurreição de Jesus Cristo. Era uma imitação da entrada de Jesus Cristo ao túmulo e da saída vitoriosa do Ressuscitado. Assim, o simbolismo do sacramento torna-se radicalmente eficaz. A existência do batizado é completamente renovada. Esta ligação entre o Batismo e a Ressurreição permite a conclusão de Paulo: o Batismo faz morrer para o pecado (para tudo o que nos afasta de Deus) e renascer para uma vida nova, representada pelo sair da água, pela veste branca e pela vela acesa a partir do Círio Pascal.

Batismo

«O Batismo é o bilhete de identidade do cristão, a sua certidão de nascimento e o ato de nascimento na Igreja. Todos vós conheceis o dia em que nascestes e festejais o vosso aniversário, não é verdade? Todos nós festejamos o aniversário. [...] Quem de vós se recorda da data do seu próprio Batismo? [...] Quando voltardes para casa, perguntai em que dia fostes batizados, procurai, porque este é o vosso segundo aniversário. O primeiro é do nascimento para a vida e o segundo é do nascimento na Igreja» (Francisco, Audiência Geral de 13 de novembro de 2013).

Vida nova em Cristo

«O Batismo faz-nos cristãos, quer dizer: de Cristo. Somos incorporados em Cristo e tornamo-nos ‘outros Cristos’. Aqui está a nossa vocação cristã: tornarmo-nos seguidores de Cristo. Assimilaremos os sentimentos de Cristo, os seus critérios de vida, espelharemos as suas atitudes. E isto tudo, não numa simples ‘imitação’ como numa representação teatral. Mas Cristo vai tornar-se a nossa vida, para podermos dizer como São Paulo: ‘Já não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim’ (Gálatas 2, 20)» (José Ribólla, «Os Sacramentos trocados em miúdo», Editora Santuário, Aparecida 1990, 41). Com esta afirmação, Paulo reconhece em si mesmo uma nova identidade. O mesmo acontece com todos os batizados, com cada um de nós. «No Batismo, o Senhor entra na vossa vida pela porta do vosso coração. Já não estamos um ao lado do outro ou um contra o outro. Ele atravessa todas estas portas. A realidade do Batismo consiste nisto: Ele, o Ressuscitado, vem; vem até vós e une a sua vida com a vossa conservando-vos dentro do fogo vivo do seu amor. Passais a ser uma unidade: sim, um só com Ele e, deste modo, um só entre vós. Num primeiro momento, isto pode parecer bastante teórico e pouco realista. Mas quanto mais viverdes a vida de batizados, tanto mais podereis experimentar a verdade desta palavra. [...] Esta natureza íntima do Batismo como dom de uma nova identidade é representada pela Igreja através de elementos sensíveis» (Bento XVI, Homilia de 22 de março de 2008). De facto, o Ritual do Batismo expressa, com gestos e palavras (símbolos simples e concretos), esta nova identidade do cristão. «Mergulhar na água é morrer, emergir é respirar e viver. O Batismo, ser mergulhado na água, é morrer para renascer para a vida nova do Espírito. [...] A veste branca é a imagem visível do nosso corpo tornado nova criatura porque revestido de Cristo» (Carlo Maria Martini, «O corpo», Paulinas, Prior Velho, 2003, 56-57).

«Sentes-te forte, com o vigor que Cristo te oferece com a sua morte e ressurreição? Ou sentes-te abatido, esgotado? O Batismo dá-te força e luz. Sentes-te iluminado, com aquela luz que vem de Cristo? És homem e mulher de luz?» (Francisco, Audiência Geral de 13 de novembro de 2013).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.12.13 | Sem comentários

Sacrosanctum Concilium — Constituição sobre a Liturgia


A 11 de outubro de 1962, há exatamente cinquenta anos, o Papa João XXIII dava início ao Concílio Ecuménico Vaticano II, o 21.° da História da Igreja — o anterior, Vaticano I, tinha ocorrido em 1870, mas sem grande repercussão. Na convocatória do Concílio Vatica­no II, publicada a 25 de dezembro de 1961, o Papa especificou as razões do encontro: «A Igreja assiste a uma crise que aflige a sociedade humana.» João XXIII fazia assim um convite à Igreja para distinguir «os sinais dos tempos» (Mateus 16, 3) e manter-se vigilante e responsável, confiante em Cristo. O Concílio seria a resposta da Igreja ao desejo de colaborar mais eficazmente na solução dos problemas da época. Assim foi verdadeiramente.
O primeiro documento aprovado pelos bispos conciliares, cerca de dois mil e duzentos, foi a Constituição «Sacrosanctum Concilium» (O Sagrado Concílio) (SC), sobre a Liturgia. A renovação da Liturgia era uma exigência unânime, fruto das transformações trazidas pelo movimento litúrgico iniciado no final do século XX. O movimento resgatou elementos da Escritura, da origem do Cristianismo e da Tradição da Igreja, dando à Liturgia um estatuto teológico e revelando toda a sua riqueza. Os documentos de Pio X, «Tra le sollecitudini» (1903), e de Pio XII, «Mediator Dei» (1947), já apontavam a necessidade de renovação da Liturgia, justificada teológica, histórica e pastoralmente. Durante a apresentação do texto da «Sacrosanctum Concilium» houve 328 intervenções orais e 625 escritas, mas o documento foi aprovado sem controvérsias a 4 de dezembro de 1963: 2147 votos a favor e apenas 4 contra.
A promulgação deste documento foi um marco na vida da Igreja, fundamental para a promoção e o desenvolvimento da Liturgia. Devolveu-se-lhe a verdadeira importância e cen­tralidade na vida cristã, pois é a mais perfeita expressão do mistério de Cristo e da nossa união com Deus: «A liturgia contribui em sumo grau para que os fiéis exprimam na vida e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a autêntica natureza da verdadeira Igreja, que é simultaneamente humana e divina, visível e dotada de elementos invisíveis, empenhada na ação e dada à contemplação» (SC 2).
A «Sacrosanctum Concilium» é dividida em sete capítulos. Logo no primeiro encontramos a sua fundamentação teológi­ca, a parte mais importante e profunda do documento. A Liturgia é apresentada no horizonte da História da Salvação, cujo fim é a redenção humana e a perfeita glorificação de Deus. Ela é sacrifício, memorial do mistério pascal, renovação da alian­ça. Ela é «simultaneamente a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força» (SC 10). Sobre a presença de Cristo, o número 7 esclarece-nos: «Para realizar tão grande obra, Cristo está sempre presente na Sua Igreja, especialmente nas ações litúrgicas. Está presente no sacrifício da Missa, quer na pessoa do ministro, quer e sobretudo sob as espécies eucarísticas. Está presente com o seu dinamismo nos sacramentos, de modo que, quando alguém batiza, é o próprio Cristo que batiza. Está presente na sua palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura. Está presente, enfim, quando a Igreja reza e canta (Mateus 18, 20)» (SC 7).
O capítulo II retoma este tema, mas trata especificamente do mistério eucarístico como memorial da morte e ressurreição de Cristo. Uma das maiores preocupações do Concílio, em sintoma com o movimento litúrgico, foi rever os ritos, tornando-os mais simples e significativos. O ritual da Missa foi simplificado e a liturgia da palavra ampliada. A homilia passou a ser muito valorizada, pois é «a exposição dos mistérios da fé e das normas da vida cristã» (SC 52). As renovações apontadas para os outros sacramentos são enfatizadas no capítulo III e referem-se principalmente à revisão dos rituais, realizada com primor nos anos seguintes.
O capítulo IV ocupa-se do Ofício Divino, cuja recitação é incentivada e a maior mudança é o uso da língua vernácula. O uso da língua própria de cada país foi uma das principais transformações trazidas pelo Concílio e aplicada a toda a Liturgia. Este tema é tratado nos números 36 e 54 do documento, ainda no primeiro capítulo. Ali também se diz que a celebração comunitária é preferida à individual (SC 27), incentivando-se a presença e participação ativa dos fiéis.
A participação sempre maior e mais ativa dos fiéis na liturgia foi o pano de fundo que incentivou as principais renovações do Concílio. Hoje, analisando o número sempre decrescente de fiéis que vão à igreja regularmente, a preocupação volta à tona. Segundo o último recenseamento realizado pela Igreja de Portugal, apenas 18,7% da população é praticante, apesar de 84,5% se declarar católica. Isso representa uma queda na participação dos fiéis em torno de 1,5% ao ano desde a pesquisa anterior, ou seja, cerca de 31 mil fiéis por ano deixam de ir à Missa.
Esta situação deve fazer a Igreja, que no fundo somos todos nós cristãos, repensar a sua constituição e renovar-se, resgatando e atualizando as indicações do Concílio. Ao longo destes cinquenta anos muitas coisas foram feitas, mas a necessidade de renovação é sempre atual. Uma vez aprovada, a «Sacrosanctum Concilium» influenciou decisivamente toda a Igreja, no modo de pensar, de ensinar, de olhar para as suas instituições e para o mundo. Imprimiu-lhe uma nova dinâmica que continua viva e a convocar a Igreja a estar atenta à linguagem do seu tempo e lugar. Mantém-se sempre atual a necessidade de formar o clero e o povo, conforme indicam os números 14 a 20. Para isto foram criados os diversos centros de liturgia, as comissões regionais, nacionais e internacionais, os cursos de liturgia, as semanas de formação e diversas outras iniciativas.
Temos ainda os capítulos V, VI e VII, que tratam respetivamente do Ano Litúrgico (caminho através do qual a Igreja recorda e revive o mistério pascal de Cristo), a Música e a Arte Sacra, que devem contribuir para a beleza e dignidade do culto.
O Concílio mostrou-nos que a liturgia é o momento privilegiado de encontro com Deus, ensinou a valorizar e redescobrir o valor da Palavra e da Eucaristia e a importância da oração e do silêncio, da reflexão bíblica, da força que vem da Eucaristia.



Para refletir
  • Qual é o espaço que a Liturgia ocupa hoje na Igreja e na minha vida pessoal? Ela é vivida como fonte e cume da vida eclesial?
  • Como é a formação litúrgica na minha comunidade? Há necessidade de uma formação mais direcionada?
  • A decoração, a arte, as alfaias e o coro na minha paróquia favorecem o encontro com Deus? Revelam a beleza e dignidade de Deus?
  • Os leitores, cantores e acólitos da minha paróquia têm consciência do ministério que exercem?
Partilha connosco a tua reflexão!



Para aprofundar
  • Documentos do Concílio Vaticano II.
  • Bento XVI, Exortação Apostólica «Sacramentum Caritatis», 2007. 
  • Guido Marini, «Liturgia: Mysterium salutis», Paulus Editora, 2011. 
  • João Paulo II, Carta Apostólica «Spirítus et sponsa», 2003. 
  • João Paulo II, Carta Encíclia «Ecclesia de Eucharistia», 2003. 
  • David Cranmer, «Cantate Domino», Paulus Editora, 2007.



Para agir
  • Converse com as pessoas da sua comunidade e com o seu pároco e organizem uma jornada de Liturgia. Escolham o tema e conferencista, organizem o trabalho de grupo e finalizem com uma celebração preparada com esmero.



© Darlei Zanon, ssp 
— «Para ler o Concílio Vaticano II», páginas 9 a 13 —
© Paulus Editora, 2012
© Laboratório da fé, 2013
A publicação ou utilização deste texto precisa da autorização expressa do editor


Há atualidade na Sacrosanctum Concilium?


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.12.13 | Sem comentários
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