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REDESCOBRIR O CAMINHO DA FÉ


Segundo aniversário! O «Laboratório da fé» surgiu no mês de outubro de dois mil e doze. Nasceu para concretizar os objetivos propostos naquele ano pastoral dedicado à fé professada e também associado ao Ano da Fé. Aliás, uma das fontes inspiradoras deste projeto é retirada da Carta Apostólica de Bento XVI com a qual se proclamou o Ano da Fé: «redescobrir o caminho da fé para fazer brilhar, com evidência sempre maior, a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo» (número 2).
Depois, no ano seguinte, quisemos dar-lhe continuidade através de várias propostas cuja meta era facultar uma atenção mais cuidada à fé celebrada, tema desse ano pastoral.

Laboratório da fé vivida

Agora, em outubro de dois mil e catorze, «estamos na terceira etapa do nosso plano pastoral. A fé professada e celebrada continua em fé vivida, isto é, a fé transforma-se em vida e transforma a nossa vida. Orienta-nos o desejo de alcançarmos o fruto da unidade profunda entre a fé e a caridade» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga).
O «rosto» deste projeto continua a ser uma página na internet (www.laboratoriodafe.net) onde são publicados textos que pretendem ajudar cada pessoa a entrar no «laboratório da fé», a fazer o seu caminho de (re)descoberta da fé, a despertar para a importância de cada um/ «renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar. Não há motivo para alguém poder pensar que este convite não lhe diz respeito, já que ‘da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído’» (Exortação Apostólica do Papa Francisco sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual: «A Alegria do Evangelho» — «Evangelii Gaudium», 3).
Este «Laboratório da fé» também pode ser acompanhado nas principais redes sociais: facebook, twitter, google+.

Uma unidade profunda entre a e a caridade

O «fruto esperado» para este ano pastoral — «uma unidade profunda entre a fé e a caridade» — servirá de mote para uma reflexão mensal sobre as obras de misericórdia. «Está em causa a capacidade de ‘reaprender a gramática elementar da caridade’, cujo fio condutor se encontra na prática das obras de misericórdia» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga para 2014+15).
Em outubro, o tema será a «tradição das obras de misericórdia» tendo por base a obra de Luciano Manicardi, «A caridade dá que fazer: Redescobrindo a atualidade das ‘obras de misericórdia’», publicada em português pelas edições Paulinas. Nos meses seguintes, duas obras de misericórdia (uma material e uma espiritual), a saber: novembro – sepultar os mortos e rezar a Deus por vivos e defuntos; dezembro – dar de comer a quem tem fome e ensinar os ignorantes; janeiro – vestir os nus e consolar os tristes; fevereiro – assistir os doentes e suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo; março – dar de beber a quem tem sede e corrigir os que erram; abril – visitar os presos e dar bons conselhos; maio – dar pousada aos peregrinos e perdoar as injúrias.

Viver a 

«Viver a fé» — é o título geral da iniciativa que se vai desenvolver em quarenta e duas reflexões sobre a «fé vivida», no sentido de «aprofundar os conteúdos da Doutrina Social da Igreja». As reflexões, elaboradas a partir do Compêndio da Doutrina Social da Igreja, vão ser publicadas, no «Laboratório da fé», ao ritmo de uma por semana, até finais de julho de dois mil e quinze.
Além destas reflexões, daremos início à divulgação diária do conteúdo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja: um número por dia acompanhado de uma imagem; serão 583 dias a divulgar a Doutrina Social da Igreja. Com autorização expressa, reproduziremos a versão em língua portuguesa retirada da obra publicada pela «Princípia Editora»: Compêndio de Doutrina Social da Igreja, Princípia, 2005.
Esperamos dar um contributo para alcançar o objetivo proposto no programa pastoral.

Vivamos corajosamente a alegria do Evangelho!

«A dinâmica eclesial deste tempo exige a leitura atenta da Exortação Apostólica do Papa Francisco sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual (‘A Alegria do Evangelho’ — ‘Evangelii Gaudium’ [EG]). No nosso caso, dedicaremos maior atenção a alguns pontos retirados dos segundo e quarto capítulos da referida Exortação Apostólica. Neles, buscamos inspiração e (novos) caminhos pastorais. Ao longo deste ano pastoral, vivamos corajosamente a alegria do Evangelho!» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga para 2014+15). Os números pertencentes aos dois capítulos referidos serão compilados em cinquenta e dois temas (um para cada semana do ano pastoral).

© Laboratório da fé, 2014


Laboratório da fé, 2012/2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.10.14 | Sem comentários

REDESCOBRIR O CAMINHO DA FÉ


O «Laboratório da fé» celebra o primeiro aniversário! O «rosto» deste projeto é esta página na internet (www.laboratoriodafe.net), onde são publicados textos que pretendem ajudar cada pessoa a entrar no «laboratório da fé». O desenvolvimento do projeto também pode ser acompanhado nas principais redes sociais: facebook, twitter, google+.
Esta iniciativa do Arciprestado de Braga nasceu para concretizar os objetivos propostos para o ano pastoral iniciado em outubro de 2012: celebrar o Ano da Fé de forma digna e fecunda; intensificar a reflexão sobre a fé; confessar a fé no Senhor Ressuscitado; aprofundar os conteúdos do «Credo», a partir do Catecismo da Igreja Católica. 
Agora, em outubro de 2013, dando continuidade à finalidade para o qual foi criado, o «Laboratório da fé» propõe-se dar um contributo para concretizar os objetivos do (novo) ano pastoral dedicado à «fé celebrada»: valorizar o domingo como centro de todo o ano litúrgico; estudar a Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia («Sacrosanctum Concilium»); aprofundar os conteúdos dos «Sacramentos», a partir do Catecismo da Igreja Católica; iniciar à oração.

Laboratório da fé celebrada

No sentido de ajudar a «valorizar» o domingo, o «Laboratório da fé», reformulando temáticas iniciadas no ano anterior, apresenta as seguintes secções: «Rezar o domingo» (uma oração diária a partir do evangelho do domingo seguinte, continuando a parceria com o projeto «vers dimanche»), «Preparar o domingo» (vários textos sobre a liturgia do domingo frutos de várias parcerias estabelecidas ao longo do último ano), «Celebrar o domingo» (algumas sugestões para a celebração do domingo, com destaque para a arte de celebrar, a fé celebrada com a comunidade e a fé celebrada com a catequese) «Viver o domingo» (um itinerário de reflexão para viver ao longo da semana com a ligação à liturgia diária, na linha da anterior rubrica «ao ritmo da semana», cuja inspiração é retirada do livro «El Ciclo C» de José Luis Cortés, graças à parceria com o blogue espanhol «Religión Digital»). 

Não podemos viver sem o domingo

Com o mesmo intuito de «valorizar» o domingo, para acompanhar os tempos litúrgicos, vamos propor um tema a partir da releitura da Carta Apostólica sobre a santificação do domingo — «O dia do Senhor» («Dies Domini»). Este itinerário terá como tema geral: «Não podemos viver sem o domingo!».

Mistério da fé!

Além de outras propostas que serão apresentadas em breve, estão a ser preparadas quarenta e duas reflexões sobre a Liturgia e os Sacramentos, sob o tema geral: «mistério da fé». A partir do Catecismo da Igreja Católica vão ser publicadas, nesta página na internet, ao ritmo de uma por semana, até finais de julho de dois mil e catorze.



Este projeto inspira-se nas palavras do Beato João Paulo II dirigidas aos jovens aquando do Jubileu Mundial da Juventude, no ano dois mil, em Roma. Na Vigília desse encontro, o Papa João Paulo II proferiu uma reflexão onde sugeriu com insistência esta temática: «cada um de vós pode encontrar dentro si mesmo a dialética feita de perguntas e respostas. Cada qual pode examinar as dificuldades que sente na fé e experimentar inclusive a tentação da incredulidade. Mas, ao mesmo tempo pode experimentar também uma gradual maturação na consciência e na convicção da sua própria adesão de fé. Com efeito, neste admirável laboratório do espírito humano, que é o laboratório da fé, sempre se encontram mutuamente Deus e o ser humano».

© Laboratório da fé, 2013

[Este texto foi atualizado em 11 de outubro de 2013]

Redescobrir o caminho da fé, 2012'13


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 11.10.13 | Sem comentários

A missão no Laboratório da fé


Era noite, a rua estava deserta. O frio vagueava por todo o lado. Um velho, descalço e sujo cantava na rua esta canção:

Menino de rua
Perdido na lama escura.
Olhando a lua,
o único gesto de doçura,
que o Criador Te deu.
Estás só, sem ninguém.
A guerra deixou-te órfão,
sem amor de pai nem mãe
à procura de uma mão
que te dê um pouco de céu.
A alegria que me dás,
é o sorriso que não tenho
e que tua alma leda traz
sempre que ao teu encontro venho.
Vou partir!
Levando o teu sorriso.
Um dia voltarei...
Para amar
O que não amei.
Voltarei...
Não para ser mais um
Mas para ser contigo...

Parei para ouvir aquela doce melodia, que me trouxe paz à porta da vida. Não lhe dei moedas. Em silêncio sentei-me ao seu lado.
— A canção é verdadeira, perguntei-lhe eu.
— É, respondeu ele, com um olhar mais triste, do que a noite que nos envolvia.
— Estou a ver que já foi aventureiro.
— Foi à muito tempo. Era eu jovem e sonhador. Andava na universidade e até pensei em ser um grande homem. Parti, como voluntário para a Angola e em 2 meses realizei o maior sonho da minha vida. Amar sem medida, andar com os bolsos vazios e com o coração cheio de felicidade. Dormi na rua, ao lado de crianças abandonadas. Comi com elas, os restos que deitavam no contentor da Mutamba. Senti que não era ninguém e que era tudo ao mesmo tempo. Um dia, num abrigo encontrei o menino mais maravilhoso que conheci até hoje. Chamava-se Jerry, era um nome americano que ele tinha adoptado, quando viu pela primeira vez televisão. Jerry, tinha 10 anos, era engraxador de sapatos e lavava carros em frente à Assembleia Nacional. Ganhava para comer uma baguete com atum. Aquele miúdo era deslumbrante. Tinha uma alegria invulgar e era verdadeiramente companheiro daqueles que tinham tido a mesma sorte que ele. Os pais tinham morrido na guerra. Ele tinha sido levado para o campo de refugiados de Viana, que ficava a 20 quilómetros de Luanda. Como não tinha comida, decidiu fugir para a cidade e ali estava como um dos sobreviventes das noites frias e dos balas sem compaixão... Ensinei-lhe algumas letras e até lhe dei aulas de boas-maneiras, para pedir dinheiro aos senhores ricos que dormiam nos hotéis da cidade. Ele aprendia tudo e pagava os favores que lhe faziam com um sorriso profundo que tocava bem lá dentro... Aprendi muitas coisas com ele. No dia do meu regresso a Portugal fiz-lhe uma promessa, que um dia havia de voltar para sempre. Tenho gravado no meu coração o olhar dele. No dia em que me vim embora, senti que alguém tinha morrido para ele e via o caixão partir. Abanou as mãos para dizer adeus e deixou as lágrimas como sinal de despedida. No percurso que fiz para o aeroporto não disse uma palavra, foram quilómetros de olhares perdidos em recordações que cheiravam a saudade. A noite apoderou-se de mim e levou-me, mais uma vez, a repensar o porquê de partir, quando ainda muito havia para partilhar. A única coisa que me deu ânimo foi a promessa que lhe tinha feito, mas...(as lágrimas lavavam a cara do velho).

Missão no Laboratório da fé, 2013 — Padre João Miguel Torres Campos

— Bonita história! Disse-lhe eu para não o fazer chorar mais.
— Disse bem, história! Porque eu nunca cumpri a promessa que fiz. E isso, marcou para sempre o meu destino. Eu trabalhei durante muitos anos num orfanato, até ao dia em que fui despedido. E com isso, foi pagando um pouco da dívida que tinha para com o Jerry. Amei outros como ele. Gostei da vida que tive. O meu mundo tornou-se mais eloquente quando abri os braços e fui pai e mãe de quem necessitava do meu amor, do meu sorriso e carinho
— A vida tem destas coisas. Nem sempre podemos medir o futuro como queríamos. Não podemos parar no tempo e medir as coisas pelo lado sentimental, temos que deixar falar os acontecimentos que impossibilitaram o cumprimento dessa promessa, mesmo que isso lhe custe muito.
O Jerry, foi para mim, uma forma bonita, completa, de viver a vida. Ele não era noite, mas era sempre madrugada a raiar no nascer de cada dia e que tocava em mim música de felicidade, mesmo quando a tristeza batia à porta da vida. Ninguém como ele me ensinou a viver. Agora deixo-o bailar em mim, mesmo quando já não dançamos a mesma música, embora tenha a certeza que nos tocamos mutuamente. Acredito que ele é a voz e a palavra que nunca irão acabar, por isso ele ainda continua a ser nas minhas canções. Agora canto nesta rua a história que mudou a minha vida. A história do menino de rua, para que outros como eu amem as crianças. Amem os Jerry’s que andam por aí.

Padre João Miguel Torres Campos

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.7.13 | Sem comentários

As obras de arte no Laboratório da fé


Creio em um só Senhor, Jesus Cristo...
Encarnou pelo Espírito Santo, 
no seio da Virgem Maria
e se fez homem


Ave Maria...Virgo serena 

de Josquin Desprez (c. 1440-1521)



A Virgem Maria e Pôncio Pilatos são os únicos personagens históricos, para além de Jesus Cristo, obviamente, presentes no credo Niceno-Constantinopolitano. Um marca o início da existência terrena do Verbo de Deus, o outro assina o decreto do seu fim. A Virgem Maria está no mistério da Incarnação, Pôncio Pilatos está no mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Messias, Rei dos Judeus. Por isso, não é de estranhar que a Virgem Maria esteja tão presente quer na piedade do povo de Deus quer nas obras de arte. A peça que propomos para meditação é um dos mais importantes exemplos dessa presença do louvor à Virgem Maria na Música. Ela é um compêndio de várias texturas musicais desde a polifonia imitativa até à homofonia rigorosa.

Josquin Desprez
O texto é um louvor a Maria fazendo referência a vários momentos da sua vida celebrados nas respectivas festas litúrgicas e enquadrados por um louvor inicial e uma súplica final. O texto está assim composto:
Louvor inicial: Avé Maria, cheia de graça, o Senhor está contigo, Virgem serena.
Festa da Imaculada Conceição: Avé àquela de quem a Concepção enche de uma nova alegria os céus e a terra.
Festa da Natividade da Virgem: Avé àquela de quem a Natividade nos traz a alegria, como a estrela da manhã anuncia o verdadeiro Sol.
Festa da Anunciação: Avé, piadosa humildade, fecundada sem homem, de quem a Anunciação nos trouxe a salvação.
Festa da Purificação de Maria: Avé, verdadeira virgindade, castidade imaculada, a sua purificação foi a nossa purgação.
Festa da Assunção de Maria: Avé, gloriosa entre todos anjos, a sua Assunção foi a nossa glorificação.
Prece final: Ó Mãe de Deus, lembrai-vos de mim. Amen.
Nesta obra-prima, todos os detalhes são importantes e merecem ser referidos, todavia indicaremos apenas alguns mais significativos.
O louvor inicial começa com uma extraordinária polifonia imitativa em que os sopranos convidam ao louvor e as outras vozes respondem sucessivamente a esse convite. De notar a forma magistral como Josquin Desprez trabalha musicalmente a palavra “Serena” em que o baixo chega ligeiramente mais tarde como que para solidificar o acorde final dando-lhe serenidade.
Na festa da Imaculada Conceição, a música começa numa textura homofónica imitativa por grupos de duas vozes até as quatro se juntarem numa proclamação solene na palavra “Solemni”. De notar a maravilhosa forma como Josquin Desprez chega à palavra “laetitia” por vagas musicais sucessivas até à última proclamação por parte do contralto dando a ideia de um arrebatamento.
Na festa da Natividade da Virgem, a textura polifónica imitativa evoca a estrela matutina que precede o Sol, de notar também que a exposição das vozes vai do soprano para o baixo assim como a Natividade de Maria precede a Natividade de Jesus.
Na festa da Anunciação, seguindo o texto, a música está construída em textura polifónica por grupos de duas vozes: soprano, contralto / tenores, baixos. De notar que o texto: “sine viro fecunditas” e dito pelos homens.
Na festa da Purificação de Maria, a música começa em textura homofónica mas com os tenores em décalage de um tempo. A palavra “purgatio” tem um tratamento muito semelhante ao anteriormente dado à palavra “laetitia” eventualmente para pôr em relação a nossa alegria com a remissão dos pecados.
Na festa da Assunção, a textura polifónica representa a subida de Maria à glória celeste e prepara a súplica final de nós que ainda esperamos na terra essa mesma glória.
Na prece final, todas as vozes se reúnem numa única súplica em perfeita homofonia, representando a unidade espiritual dessa súplica. O “Amen” final dá a ideia de solidez e perseverança.
A mestria com que Josquin Desprez utiliza os recursos musicais do seu tempo abrindo simultaneamente novos caminhos à linguagem musical torna esta peça um marco fundamental na história da música ocidental. A perícia e a deferência com que o texto é trabalhado dão-lhe uma luz não à maneira do figuralismo dos madrigais mas na tradição do Canto Gregoriano.

Padre Hermenegildo das Neves Faria

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.6.13 | Sem comentários

Eu digo fé. Tu dizes...


O Laboratório da fé convidou algumas pessoas, crentes ou não crentes, para escreverem um texto sobre a fé. O resultado é apresentado, mensalmente, nesta rubrica intitulada: «Eu digo fé. Tu dizes...». 
O texto que se segue é da autoria do bispo Dom António Moiteiro.

António Moiteiro, no Laboratório da fé, 2013

A fé dá-nos uma visão nova da vida

e leva-nos a ser discípulos de Jesus

O encontro do cego Bartimeu com Jesus é um dos textos mais vivos e significativos do Evangelho de Marcos (10, 46-52), não só por aquilo que se deduz imediatamente do texto, mas também pelo lugar onde o insere o evangelista e pela intensa rede de relações que estabelece com outras narrações do mesmo evangelho. Bartimeu representa cada um de nós e a nossa vida cristã deve inspirar-se nestas figuras bíblicas que são para nós autênticos modelos de fé.
O texto apresenta-se estruturado em etapas sucessivas, que manifestam a progressão do texto, pondo em relação a situação inicial e a final.
* Há um primeiro momento no qual Jesus está distante, separado de Bartimeu. Jesus está em movimento, saindo da cidade de Jericó; Bartimeu, pelo contrário, encontra-se numa posição estática, sentado ao lado do caminho e, portanto, aparentemente impossibilitado de entrar em contacto com Ele.
* Um segundo momento sublinha o esforço que este cego realiza para entrar em contacto com Jesus: tenta falar com Ele através do duplo grito: “Jesus, filho de David, tem misericórdia de mim”, repetido, apesar do muro de dificuldades que constitui a multidão que rodeia Jesus.
* Num terceiro momento produz-se o encontro entre o cego e Jesus. A paragem de Jesus e o facto de o chamar permitem ao cego aproximar-se d’Ele.
* Num quarto momento desenvolve-se este contacto entre Jesus e o cego num diálogo pessoal e significativo, no qual se observa uma pergunta de Jesus, a resposta do cego e a palavra final de Jesus, que ilumina toda a narração: “Vai, a tua fé te salvou!”.
S. Marcos, ao escrever a história deste encontro, tenta oferecer à sua comunidade cristã e a cada um de nós um caminho de fé.
Bartimeu é modelo de uma fé forte, que é capaz de resistir às dificuldades, que continua a acreditar mesmo quando os outros tentam que nos calemos ou nos aconselham a que deixemos de acreditar e invocar a Deus.
Bartimeu tem uma fé capaz de se traduzir numa oração insistente e confiada: “Tem misericórdia de mim”. A profissão de fé perante a adversidade converte-se em súplica confiada e permanente.
Bartimeu converte-se em modelo daquele que está disposto a responder, logo a seguir à interpelação de Jesus, com uma resposta imediata e capaz de se libertar de tudo o que impede o encontro com Ele.
Bartimeu tem a coragem de pedir unicamente a Jesus que amadureça mais profundamente a sua fé. É o maior bem que deseja: “Que eu veja”. Já via, tinha confessado a sua fé em Jesus, mas a sua fé tinha necessidade de amadurecer, de se aprofundar mais ainda, de atingir aquela maturidade que se consegue quando se aceita ser discípulo de Jesus e partilhar o seu caminho, o seu destino, que é o caminho da cruz. A fé tem que amadurecer numa maior capacidade de servir: só assim, atingimos uma fé adulta. Somente aquele que tem a coragem de viver uma fé que ama, que serve, terá a possibilidade de compreender o coração da fé cristã, que é a fé no Filho de Deus crucificado, num Deus que não se manifesta no poder, mas na pobreza.
Este é o caminho para o qual nos conduz Bartimeu e que nos serve de modelo, como serviu a tantos outros cristãos nas primitivas comunidades cristãs: a fé leva-nos a compreender como todo o sentido da vida do discípulo consiste em pôr a própria existência ao serviço do amor até dar a vida como o Filho do homem, que veio não para ser servido mas para dar a vida pela multidão. Bartimeu converte-se, assim, no protótipo de uma comunidade cristã, onde cada um dos seus membros está disposto a pôr a sua vida ao serviço dos irmãos, inclusive o martírio se for necessário.

© António Moteiro
© Laboratório da fé, 2013


Outros textos publicados no Laboratório da fé 

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 11.6.13 | Sem comentários

Eu digo fé. Tu dizes...


O Laboratório da fé convidou algumas pessoas, crentes ou não crentes, para escreverem um texto sobre a fé. O resultado é apresentado, mensalmente, nesta rubrica intitulada: «Eu digo fé. Tu dizes...». 
O texto que se segue é da autoria do jornalista José Manuel Fernandes.


José Manuel Fernandes, no Laboratório da fé, 2013
Nasci, na década de 1950, numa família católica da classe média e, como acontecia nessa época com quase todas as crianças, fui baptizado e segui a catequese até à primeira comunhão, uma cerimónia festiva que vivi intensamente. Continuei depois muito ligado à Igreja da minha paróquia, a do Sagrado Coração de Jesus em Lisboa, beneficiando do activismo de um pároco precocemente desaparecido – o padre Aparício – e da excitação da construção e inauguração de um novo templo, para mais uma igreja arquitectonicamente arrojada, filha do talento de Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas. Continuei assim ligado a grupos que funcionavam junto da paróquia, cheguei a ajudar à missa e fiz, quando chegou a altura, o Crisma. Até que a minha vida mudou.
Quando tinha 15 anos e andava no Liceu Pedro Nunes, em Outubro de 1972, a polícia política da ditadura assassinou um estudante, Ribeiro Santos. Esse evento foi o detonador para o meu envolvimento no movimento associativo dos estudantes e, depois, no activismo político. Fi-lo, como era comum na época, numa organização radical, de inspiração marxista-leninista. De facto, no Portugal de Salazar e Caetano não era difícil que a revolta juvenil desembocasse no radicalismo político. Foi assim que me tornei comunista, mas numa sua versão mais radical – o maoismo –, tal como foi assim que, durante alguns anos (poucos, felizmente) vivi para a revolução – fui, como então se dizia, um “soldado da revolução”.
Foi uma adesão total e, por isso, um mergulho num universo dominado por uma ilusão falsamente redentora e totalmente falsa – a ilusão comunista. Mas que era absoluta e impunha uma visão do mundo que se tinha por indiscutível, “científica” e, por isso, materialista. Deus ou a Fé Cristã não tinham lugar nela – não só a religião era vista como o “ópio do povo”, como o ateísmo nos surgia como uma espécie de dogma. Foi uma experiência que descrevi numa troca de cartas com D. Manuel Clemente, Bispo do Porto (Diálogo em Tempos de Escombros, Pedra da Lua, 2010): “Bebi o espírito do tempo e, quase sem transição, tornei-me materialista lendo as vulgatas por onde então se estudava o ‘materialismo dialéctico’ e o ‘materialismo histórico’. Esses textos não permitiam que se ficasse no meio da estrada, não deixavam qualquer espaço para a existência de um Ser que não fosse matéria. Não só me tornei ateu, e ateu militante, como tinha dificuldade em entender que aquela explicação do mundo que me parecia evidentíssima e completa não o fosse já para todos.”
Como é que isso sucedeu? Fazendo um percurso em que o meu interesse pela Ciência desempenhou um papel importante. Como marxista e materialista, eu achava que a ciência ou já explicava tudo, ou iria explicar, e que não havia espaço senão para a matéria e para as suas forças no nosso Universo. Hoje sei que há graus de incerteza que a Ciência nunca suprirá e que basta isso para não podermos demonstrar cientificamente que Deus não existe. Ou que existe. Foi assim que me tornei agnóstico, aquele que não sabe, o que não tem Fé mas também não se opõe aos que têm Fé. Fi-lo por dúvida genuína e não por conveniência, como hoje está na moda. Como escrevi nessa mesma conversa epistolar com D. Manuel, “por vezes, sobretudo em alguns momentos mais intensos, tenho pena de não ter Fé, mas sinto que ter ou ter Fé não é uma decisão racional”, ou seja, que “não posso decidir ‘acreditar’”.
Muitos ateus militantes não aceitam esta posição de “não saber” – e a partir daqui retomo o essencial do que escrevi num livro recente, autobiográfico, Era Uma Vez a Revolução (Aletheia, 2012).
É essa a posição de Richard Dawkins, o autor de A Desilusão de Deus, que recentemente me disse numa entrevista que só lhe interessava saber que “não é possível provar que Deus existe”, que tentar fazê-lo seria uma perda de tempo como a de procurar demonstrar a existência de fadas, pelo que não conseguia “encontrar uma situação em que sentisse que existir Deus era necessário”. Dawkins, mesmo sendo capaz de admitir que as religiões podem ter alguma utilidade – “considero-me agnóstico quanto às religiões” –, entende que “a Fé é a grande desculpa para se escapar à necessidade de pensar e de avaliar a evidência factual”.
A forma como algumas religiões foram instrumentalizadas ao longo da História para os piores fins poder-me-ia levar a aceitar esta argumentação. Afinal ela casa a mesma evidência científica que eu conheço com uma percepção da evolução da Humanidade que associa religião a obscurantismo. Mas há outro ponto de vista que merece ser considerado: aquele que olha para as diferentes religiões e as vê como formas de assegurar o conjunto de valores e regras de comportamento que permitem às sociedades manter-se coesas. Antes de existirem leis formuladas pelos Estados, havia já regras que as pessoas seguiam voluntariamente ao aderirem a uma religião, regras sem as quais é muito difícil imaginar comunidades humanas estruturadas. Como um dia disse Irving Kristol, “as pessoas precisam de religião. É um veículo para que exista uma tradição moral. Trata-se de um papel fundamental que nada pode substituir”.
É de resto muito interessante ler as passagens sobre religião do pequeno ensaio autobiográfico que Kristol escreveu para Neo-Conservatism, The Autobiography of na Idea. Nela ele faz duas distinções importantes. Uma é sobre acreditar ou não na existência de Deus, uma formulação que diz não ter sentido porque o conceito de “existência” não é um conceito divino. Por isso, ele acha que uma pessoa não “acredita” em Deus, antes tem Fé em Deus. “A relação com Deus, escreve ele, não é racionalista”, uma formulação não muito diferente da que utilizei nesses meus diálogos com D. Manuel Clemente. “É por isso que as crianças são ensinadas a rezar, em vez de serem ensinadas nas ‘provas’ da existência de Deus”, conclui.
A outra é sobre a importância que os teólogos cristãos dão, na sua interpretação da Bíblia, ao facto de “a natureza humana colocar inerentes limitações ao destino humano”. O “pecado original” é, no fundo, uma forma de nos alertar para os nossos limites, limites que decorrem da nossa natureza profunda. Kristol recorda que esta doutrina já chocava com a sua crença num socialismo utópico no curto período juvenil em que foi trostkista (movimento que deixou aos 22 anos). No meu caso, foi a descrença na visão optimista da natureza humana que tinha quando era mais novo que também contribuiu para a minha descrença nas utopias socialistas e progressistas. Essa descrença também me fez reaproximar da religião – mas não de voltar a “acreditar”.
Mas há uma outra componente, tão ou mais importante, uma componente moral e cultural. Aqui há uns anos, em conversa com um amigo espanhol muito de esquerda e que nunca perdia uma ocasião para criticar o protestantismo, ele virou-se para mim e disse-me: “Deixa-te de conversas. Nós, os ibéricos, somos todos católicos. Podemos dizer que somos ateus, mas somos católicos. Foi assim que fomos educados”. Essa frase, vinda de quem vinha, fez-me pensar. E não me custou a admitir que, pelo menos culturalmente, somos todos católicos. É essa a matriz da sociedade, são essas as referências dos valores que impregnam tanto o nosso quotidiano como o nosso sistema legal.
Esta admissão de um “catolicismo cultural” é, contudo, insuficiente e, a meu ver, pobre. Quando penso naquilo que sou, e que de alguma forma sempre fui, não me posso dissociar dos valores morais que eram e são os da família onde cresci e das comunidades que integrei. E esses valores, que sempre procurei que dessem um sentido moral à minha vida, são valores do Cristianismo. Ao contrário do que admito possa ter acontecido com outras pessoas da minha geração ou mais velhas, nunca vivi o catolicismo como uma doutrina castradora. Os deveres rigorosos que impunha e impõe nunca deixaram de ser os meus, pois nunca acreditei na ausência de referências e sempre valorizei o dever de se ser exigente, sobretudo quando se começa por se ser exigente consigo mesmo. A preocupação com o outro que encontrei no Cristianismo nunca deixou de estar presente na minha vida, uma preocupação que não é apenas com um “outro” abstracto e longínquo – o pobre, o proletário –, antes uma preocupação que começa com as dificuldades concretas dos que vivem a nosso lado. O sentido da compaixão, a preocupação com a lealdade, a noção de que somos seres limitados e imperfeitos e que isso nos exige humildade e resiliência, o princípio da tolerância sem abdicar daquilo em que se acredita e por que se batalha, todos esses valores que me foram transmitidos pela educação católica sempre me deram balizas morais de acordo com as quais procurei e procuro julgar os meus actos, mesmo quando às vezes tenho menos sucesso. É por isso que sinto que devo muito ao Cristianismo, mesmo não tendo Fé.

© José Manuel Fernandes
© Laboratório da fé, 2013


Outros textos publicados no Laboratório da fé 

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.4.13 | 10 comentários

A missão no Laboratório da fé


Eram 5h30 da manhã quando bateu à porta da casa velha da missão o mundo despedaçado do Fernando. Vinha «mal doente» da vida. Sentou-se numa velha cadeira e soltou os gritos que moravam dentro de si. Quando alguém está sofrer e vai à casa do mais velho (presbítero) este deve cumprir um velho ritual macua de o ouvir como se ouve o leito de um rio habitado por crocodilos.
Contou-me que durante a noite, quando regressava de casa de familiares encontrou a sua esposa, na intimidade com outro homem. Tal crime teria que ser lavado com sangue dizia-me ele. Na sua tribo quando alguém dorme com a «mulher do dono» deve ser decapitado.
Fernando tinha sido catecúmeno durante mais de 10 anos. Tendo terminado os ritos de iniciação nunca era eleito para o batismo, porque o seu comportamento não era o de um cristão, diziam os anciãos da comunidade. Depois de ter feito várias conversões da sua vida foi eleito para o batismo. Nesse mesmo dia contraiu matrimónio com a sua esposa. Eram casados catolicamente à 14 anos e viviam juntos à mais de 20 anos.
Fernando tinha um enigma dentro de si quando me veio consultar. Se decapitasse aquele homem e despedisse a sua esposa de casa cumpria as regras da tribo e seria honrado por todos. Se perdoasse à sua esposa e ao seu amante revelaria que era um verdadeiro cristão, mas teria que aguentar a troça e as injúrias dos responsáveis da sua tribo. Depois de conversarmos durante algum tempo disse ao Fernando que ele deveria escolher a que família queria pertencer ou à sua tribo ou aos cristãos. A escolha era dele. Não valia ficar no talvez. Passadas três semanas o Fernando morreu de malária.
Fui visitar a sua comunidade no dia em que iam colocar a cruz onde jazia a sua memória. Nestas comunidades cristãs africanas nem todos quando morrem têm direito a cruz no cemitério. Só tem direito quem soube carregar a cruz de Cristo na sua vida e foi fiel aos compromissos do seu batismo. Essa decisão era tomada pelo conselho da comunidade. Nesse dia tive conhecimento da escolha do Fernando. Ele decidiu perdoar à sua esposa e ao seu amante. No cemitério de Marrera a maior cruz é a do Fernando.

Seguir Jesus Cristo — Páscoa — Laboratório da fé

Há um mistério para lá de todos os caminhos, do qual tentamos aproximar-nos. Aquilo que vemos só vale a nossos olhos por aquilo que nos olha. Só podemos pensar e ver a partir da experiência do tocar. Nós somos aquilo que nos aparece, o que nos acontece e que vamos sendo. Neste vamos sendo à necessidade de viver cada história mais por dentro do que por fora. Esta história do Fernando é o mais belo retrato que conheço do seguimento de Jesus Ressuscitado.
A Páscoa fala de tudo o que pulsa, tudo o que vibra, tudo o que chora e canta, tudo o que viceja e floresce, tudo o que é húmus/humano, tudo o que é Terra. Fala da solidão, do desencanto, da angústia, da alegria, do encanto e da entrega. Fala que a dor e a morte, sempre presentes, não têm a última palavra!
A história do Fernando ajuda-me a refletir que é preciso voltar a Jesus Cristo, ao que ele foi, é, quis e quer. Realmente, como escreveu o teólogo Hans Küng, os cristãos são os que acreditam em Jesus Cristo: «São aqueles que fazem parte da comunidade dos que se entregaram e entregam a Jesus e à sua causa e a testemunham com energia como esperança para o mundo».
Trata-se de imitar Cristo. Imitar Cristo não é adotar um aspeto. É repetir um processo ao mesmo tempo ungir o Cristo, como Maria Madalena e ser lacerado, crucificado. O «parecer» cristão é a procura do contacto, da indicialidade, do testemunho carnal, do martírio.
A Páscoa devia tornar-nos próximos uns dos outros. Deveria possibilitar sermos habitados pelo perdão e pelo amor. O ódio é anti-páscoa.
Recordo-me de uma história que ouvi de um velho macua, que em Motobo, no Gabão, os Ku crêem que o único modo de acabar com o sofrimento é salvar uma vida. Se alguém for assassinado, um ano de luto acaba com um ritual que se chama «Julgamento do Afogado». Há uma festa que dura toda a noite junto ao rio. Na alvorada, o assassino é colocado num barco, levado para a água e largado. Fica amarrado para não poder nadar. A família do morto tem então de fazer uma opção. Podem deixá-lo afogar-se ou podem nadar para salvá-lo. Os Ku crêem que se a família deixar o assassino afogar-se terão justiça, mas passarão o resto da vida de luto. Mas se salvarem, se admitirem que a vida nem sempre é justa esse mesmo ato pode afastar o seu sofrimento. A vingança é uma forma preguiçosa de luto.
A Páscoa devia ser um ‘talante’ de vida. Que devia fazer vibrar os afetos, gerar laços vitais, mobilizar a inteligência e interpelar a liberdade. A Páscoa devia tornar-nos próximos uns dos outros. Segundo a sua etimologia, o termo latino «proximus» é um superlativo da palavra «prope» que significa perto. Próximo significa, portanto, «mais perto», «muito perto». É esse o significado que a palavra próximo tem, mais ou menos, em todas as línguas. Contudo há uma mudança de sentido quando se passa da distância para a proximidade, como diz a carta aos Efésios (2, 13), falando do renascimento em Cristo:« Vós, que outrora estáveis longe, agora estais perto (próximos)».
Não sei se estamos mais longe ou mais perto da Páscoa do que os cristãos de Éfeso. O tempo da Páscoa é um tempo diferente. Não é o tempo segmentado de «chrónos», em que se sucedem os dias e as horas, mas um tempo novo e insuspeito, que a Bíblia chama «kairós», que se mede, não pela quantidade, mas pela qualidade, não pelo que passa, mas pela plenitude: trata-se da enchente da Palavra de Deus que, inundando a nossa vida, reclama a nossa resposta amante e transforma a nossa vida em momentos de escolhas difíceis.

Padre João Miguel Torres Campos

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.4.13 | Sem comentários

As obras de arte no Laboratório da fé


Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso,
Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis


http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/64/Creaci%C3%B3n_de_Ad%C3%A1n_(Miguel_%C3%81ngel).jpg
Teto da capela Sistina (1512) – Michelangelo (1475-1564)

Incontestavelmente o fresco do teto da Capela Sistina realizado por Michelangelo pode ser contado entre as maravilhas do génio humano, um dos maiores tesouros artísticos da humanidade. Ao que parece, o pintor terá posto mãos à obra contrariado pois julgava que esta encomenda do Papa Júlio II era um conluio de seus rivais para desviá-lo de uma outra obra para a qual havia sido chamado a Roma: o mausoléu do Papa. De facto, Michelangelo considerava-se muito mais escultor que pintor.
A parte central da abóbada apresenta nove histórias do livro dos Génesis divididas em três grupos de três relativas à origem do universo, do homem e do mal. Os três primeiros episódios [separação da luz das trevas (Gen 1, 1-5), criação dos astros e das plantas (Gen 1, 11-19), separação da terra e das águas (Gen 1, 9-10)] dominados pela presença de Deus, criador do universo. Segue-se a criação de Adão (Gen 1, 26-27) e de Eva (Gen 2, 18-25) onde o homem e a mulher aparecem na sua nudez, símbolo da inocência (Gen 2, 25), perdida com o pecado original, (Gen 3, 1-13), representado no painel seguinte com a consequente expulsão do Paraíso Terrestre (Gen 3, 22-24). Os três últimos painéis [Sacrifício de Noé (Gen 8, 15-20), Dilúvio universal (Gen 6, 5 - 8, 20), Embriaguez de Noé (Gen 9, 20-27)] mostram a queda da humanidade e o seu renascimento com Noé.
O elemento mais famoso deste conjunto de nove painéis é sem dúvida a criação de Adão. Muitíssima literatura foi já produzida para tentar desvendar o mistério desta composição tentando interpretar cada um dos seus elementos. Podemos certamente identificar dois cenários principais: um terreno onde Adão está deitado e um celeste onde Deus se encontra. Os dois elementos tentam unir-se pelos dedos indicadores da mão esquerda de Adão e da mão direita de Deus. O elemento vermelho que envolve Deus e os outros personagens que o rodeiam tem a forma anatómica quase perfeita de um cérebro incluindo o lobo frontal, nervo ótico, glândula pituitária e o cerebelo. A própria ligação sem toque das mãos de Deus e do homem fazem lembrar as sinapses das células nervosas. A figura feminina que segura o braço esquerdo de Deus foi interpretada de várias formas, desde a Virgem Maria ou a alma de Adão ou até à Sabedoria divina que estava junto de Deus antes do ato criador numa referência ao livro dos Provérbios: “O Senhor criou-me, como primícias das suas obras, desde o princípio, antes que criasse coisa alguma. Desde a eternidade fui formada, desde as origens, antes dos primórdios da terra. Ainda não havia os abismos e eu já tinha sido concebida; ainda as fontes das águas não tinham brotado; antes que as montanhas fossem implantadas, antes de haver outeiros, eu já tinha nascido. Ainda Ele não tinha criado a terra nem os campos, nem os primeiros elementos do mundo.” (Pr 8, 22-26). O dedo indicador direito de Deus faz certamente alusão hino medieval “Veni creator spiritus” onde o Espírito Santo é chamado “ Dedo indicador da mão direita de Deus.” “Tu septiformis munere, Digitus Paternae dexterae, Tu rite promissum Patris, Sermone ditans guttura.”
Como sempre, as obras-primas da arte permitem interpretações infindas pois elas são simultaneamente momentos únicos de criatividade e eco da tradição espiritual da humanidade.

Padre Hermenegildo das Neves Faria

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.4.13 | Sem comentários

A Pastoral da Saúde no Laboratório da fé


Porque tudo o que fazemos na vida tem um fundamento pessoal, profissional ou social só poderá causar-nos uma imensa estranheza não ter resposta para dar à pergunta: “o que a levou a querer ser voluntária?”. A admiração é tanta para quem responde, e afinal não o faz, como para quem deve(ria) receber a resposta. Os segundos que a ela se seguiram mais não foram do que uma perturbadora procura em ficheiros mentais habituados a surpresas e a única ideia que surgiu foi a de citar uma certa oração; no entanto, mais seria a despropósito do que qualquer outra resposta porque se ainda hoje não posso afirmá-lo, de longe a presunção de que o meu propósito de ser voluntária no IPO tenha tido por motivação um chamamento divino, uma experiência paulina, sendo o itinerário o Porto (e não Damasco).
Passada a entrevista, passada a formação-orientação, passados alguns anos, só posso manifestar o meu profundo bem-estar que quase se nega a ser exprimido porque aquilo que deveria ser um sacrifício semanal é, afinal, um regozijo.
O tempo que é vivido de forma intensa e o espaço específico de onde se testemunha cada dor muito daria para trazer à memória episódios de vidas marcadas pelo sofrimento físico e emocional.
Se os meus amigos lessem este texto diriam que já conhecem esta história de cor e salteado… mas o que nos marca faz tudo o resto que vivemos ser tão “nada”. Tenho ainda, até hoje, no bolso da bata branca o terço singelo de plástico que me fora dado por alguém que me questionava, num qualquer corredor, sobre a minha crença em Deus. O meu silêncio e um ténue sorriso foram assumidos como um sim e foi-me entregue o terço e com ele a incumbência de rezar a Deus pela saúde de alguém que eu não sabia quem era e em vez de alguém que entendeu que as suas preces já não eram ouvidas nem atendidas. A sua relativa agileza no andar quando se afastou de mim era reveladora de que aquele desalento era emocional e não físico e as acusações a Deus de falta de atenção não eram para si próprio.
A acompanhar as fases que lhe são próprias de desânimo e de ânimo, reais ou desejadas, há uma aproximação e um afastamento com Deus que se vive numa constante alternância e intermitência quando o vocábulo cancro passa a ser o centro de uma vida ou de muitas… e não há protótipos de comportamento quando a doença é do próprio que apela a Deus ou se confronta com Ele, mas é tão raro que não seja de afastamento quando é aos seres queridos que vêm definhar.
Compreendo os rancores, compreendo a renegação e até mesmo o amaldiçoamento a Deus. E deixo sempre que sejam as minhas mãos a falar em mimos e em pensamentos com palavras de S. Francisco de Assis que tantas vezes digo a mim própria: “Onde houver desespero, que eu leve a esperança; Onde houver tristeza, que eu leve a alegria”. À segunda tarefa ainda não me atrevo, a primeira ainda estou a aprendê-la. Porém, da minha boca nunca saem palavras que, quaisquer que fossem, seriam sempre uma tentativa infrutífera de apaziguamento e sempre terrivelmente entendidas como a minimização do que é desmedido. Mas numa dor imensurável como a dor de ver partir um filho só pode estar o apoio de Deus que se faz de silêncio. Nenhuma força humana seria tão forte ao ponto de ser resistente a essa dor. E ao contrário dos seres humanos que, quando repudiados se mostram reticentes e mais ainda muitas vezes incapazes de se manterem ao lado de quem os repudia, Deus mantém-se, aconchega e acalenta.
E a cada regresso, que intimamente chamo de missão cumprida, trago comigo imagens de dor, que procurei acalentar e um silêncio, sem rádio na viagem, que não sendo ensurdecedor, faz um eco no meu espírito e a oração que não foi dita na entrevista surge com naturalidade:
“Deus, concedei-me,
a serenidade para aceitar as coisas que eu não posso modificar;
Coragem para modificar as coisas que posso,
e Sabedoria para saber a diferença…”
(Oração da Serenidade).

Sílvia Fernandes
www.laboratoriodafe.net
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.4.13 | Sem comentários

Your love never fails


Autoria e interpretação original: Chris McClarney 
Intérprete da versão do video: Jesus Culture 

Letra 


Nothing can separate 
Even if I ran away 
Your love never fails! 
I know I still make mistakes, 
But You have new mercy for me everyday 
Your love never fails! 

You stay the same through the ages 
Your love never changes 
There may be pain in the night 
But joy comes in the morning 
And when the oceans rage 
I don't have to be afraid 
Because I know that you love me... 
Your love never fails! 

'The Wind is strong and the water's deep, but. 
I'm not alone here in these open seas 
'Cause your love never fails 
The chasm was far too wide 
I never thought I'd reach the other side 
'But your love never fails 
You make all things, work together for my good! 


Vídeo 


http://letras.mus.br/jesus-culture/1404625/#traducao 


Meditação 

Uma belíssima canção de gratidão e certeza da fidelidade de Deus. 
Este tema nasceu da meditação e repetição interior da citação que encontramos na Carta aos Romanos (“E nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam, daqueles que são chamados segundo o seu desígnio” — Rm 8, 28) e que o compositor transformou na frase: “Tu fazes todas as coisas trabalharem a meu favor”. 
A repetição desta frase é uma excelente forma de rezarmos a Deus. 
No nosso dia-a-dia, perante as dificuldades facilmente perdemos a esperança em Deus que está sempre ao nosso lado a torcer pela nossa felicidade e plenitude. 

Para o Ano da Fé 

  • Escreve num papel (sem pensar muito) 5 certezas que tu tens na vida.
    Verifica se o Amor de Deus faz parte da tua lista.
    O Ano da Fé é uma oportunidade de (re)descobrirmos a fidelidade do amor de Deus.
    “O Teu amor nunca falha”. Será que vives com esta certeza?
    Esta música poderia ser uma banda sonora para enfrentares as dificuldades?

  • “A dor pode durar uma noite
    Mas a alegria vem pela manhã”

    Relê o número 6 da «Porta da Fé» («Porta Fidei») e medita na qualidade do teu testemunho.
    Tu és sinal da “revelação do amor de Deus” ?
    A tua vida é pautada pela “novidade radical da ressurreição”?

© Claudine Pinheiro

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.4.13 | Sem comentários
— A Pastoral da Saúde no laboratório da fé —

Sou testemunha de muitos milagres. Miraculum é espanto. Dizem alguns imprevisíveis “catecúmenos espirituais”[1]: “eu acredito que Deus não me vai abandonar”. Dizem também alguns cristãos de longa data: “não mereço isto. Onde está o Deus em que sempre acreditei”? Palavras inesperadas, mas autênticas, milagrosamente confiadas e dirigidas a Deus no espaço não opcional da saúde...e da doença. (Os miraculados têm nome. Muitas vezes, o meu).

O milagre da transfiguração


Fora avisado com autoridade: “Tenha cuidado. Olhe que os doentes agarram-se a nós e aproveitam-se disso”. Sob este estranho aviso conheci o José.
O José tinha 10 anos quando nos conhecemos. Tinha nascido com uma deficiência profunda o que o tornava muito estranho ao olhar. Não conseguia fechar a boca. Tinha os dentes muito deformados. Uma sonda naso-gástrica para se alimentar. A cabeça muito desproporcional em relação aos membros mas todo ele muito pequeno. O corpo formava uma misteriosa geometria. Não falava nem se mexia. O José tinha somente uma atividade autónoma que exercitava até à exaustão: comunicar com o sorriso e um pequeno som que lhe associava. E se, pela milionésima vez, alguém lhe partia ou deslocava um dos seus ossos tão frágeis na higiene pessoal (tão impossível não o fazer!), ele engolia um pouco de saliva, deixava fugir um som seco... e sorria. E só parava momentaneamente de sorrir quando alguém precisava de o recolocar na cama. Adorava ouvir música, conversar silenciosamente em afetos, adorava passear. Irradiava sorrisos, boa disposição. Num dia muito difícil para o José, perguntou-me uma profissional de saúde – com olhar humedecido – enquanto o cuidava: “é pecado desejar a morte a este menino? E sabe, até lhe desejo mais bem que aos meus filhos”. Não soube, não sei ainda o que lhe responder. O José morreu aos 14 anos. Sei somente duas coisas da sua vida: a) irradiou todos os dias da sua vida um sorriso puro e contagiante; b) se não tivesse usufruído do seu sorriso, este texto não seria escrito por um padre. O milagre. Espero um dia pedir ao José que me ajude a interpretar o milagre da sua vida em mim, a fé de que a vida vale sempre a pena.

Tinha razão: “tenha cuidado, os doentes agarram-se a nós”. E ainda bem que se agarram a nós. Só a força da fragilidade consegue derreter o gelo em que nos enclausuramos por defesa, por medo ou por impotência. Durante a minha infância tive um pároco que – depois de tantos anos naquela paróquia pequenina – chorava em quase todos os funerais. Embargava-se-lhe a voz. As lágrimas corriam-lhe pela face quando sepultava os seus paroquianos. E não guardo outra memória deste sacerdote. Estou convicto que aquelas lágrimas contribuíram mais para o despertar vocacional que todas as suas homilias.
Padres e médicos sofrem particularmente mal (se podemos falar de um modo bom de sofrer). Genericamente descuidados pela sua saúde, convivemos mal com o nosso próprio sofrimento, desde o físico ao espiritual, passando pelo afetivo. Talvez pelo ministério que nos está confiado de curar, de pretensamente termos de gerir uma elevada expectativa que os outros têm sobre nós. Talvez pela não admissão do erro, pela sensação de não-poder e de não controlo, ou pela admissão tardia da nossa fragilidade. É cruel o diagnóstico de João Lobo Antunes sobre os médicos: “heróis egocêntricos, afirmativos, solitários, que tão bem ocultam a sua inseguran­ça, que tão rapidamente metabolizam o erro”[2]. Bons samaritanos desiludidos... que deveriam ser somente bons samaritanos feridos. E pode alguém tratar das feridas dos outros sem que tenha consciência e integre as suas? Não cairão juntos em algum buraco? Devo eu deixar-me contagiar, contaminar pelo sofrimento do outro? Dizia alguém que todos – no fundo – somos inimigos da cruz e do presépio... os dois locais mais fecundos e mais frágeis. 

Pe. Jorge Filipe Vilaça Barbosa

[1] GALLAGHER Michael Paul, Dive deeper, the human poetry of Faith, Darton-Logman and Todd, Londres, 2007, 8
[2] LOBO ANTUNES, João, O sabor da nossa qualidade, Sobre a Mão e outros Ensaios, Gradiva, Lisboa 2005.
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.3.13 | Sem comentários

Eu digo fé. Tu dizes...


O Laboratório da fé convidou algumas pessoas, crentes ou não crentes, para escreverem um texto sobre a fé. O resultado será apresentado, mensalmente, nesta rubrica intitulada: «Eu digo fé. Tu dizes...». 
O texto que se segue é da autoria do doutor António Bagão Félix.

António Bagão Félix, no Laboratório da fé, 2013

O que está para além da dúvida abre-nos para a fé. 
Porque sem a dúvida a fé não existe. 
Ou fingirá que existe, não subsistindo. 
É que ter fé não é encontrar, mas buscar. 
Não é receber, mas dar. 
E na busca e na doação não desfalecer na escuridão. 
E na escuridão acreditar que a fé ilumina. 
E na noite encontrar o espírito na paz do corpo. 
E na luz ver a sincronia do bem, da verdade e da beleza. 

Não se tem fé por se pensar possui-la. É-se em fé se, despojados, nos deixarmos possuir. 
A fé não é a imposição mas a aceitação de não compreender. 
E não compreendendo, sermos senhores de crer ou de não crer. 
Em liberdade. 

A mais pura expressão de fé é sabermo-nos pequenos. Insignificantes. Como a semente. 
E na pequenez não termos pressa ou angústia de o deixarmos de ser. 
Porque a fé não tem medida e exige paciência. 
E na paciência está a maior prova de fé: o sacrifício da purificação. 
E na purificação encontrar o Absoluto e menosprezar o relativo. 
Porque a fé só é plena se o abandono for total. 

Mas como despojarmo-nos de um qualquer nada que se transforma em tudo? 
Como afastar o tudo relativo e buscar o Todo Absoluto? 
Como encontrar a riqueza no deserto? 
Como dizer não ao sim e sim ao não? 
Como valorizar a morte para a vida? 
Como alcançar um minuto que seja de quietude sem mácula? 

Tem-se fé porque se resiste. 
Resiste-se porque Ele ajuda. 
Pedimos-Lhe ajuda porque somos fracos. 
Somos fracos porque não renunciamos.

Buscamos a fé. 
Caímos. Levantamo-nos. Suplicamos. Queremos. Somos. 
Por vezes saciados. Por vezes acorrentados. Por vezes afastados. 
Na procura do sinal. 
Onde já não há tempo, nem razão. 
Mas apenas o que existe na não existência. 
A essência. 
A alma. 

A fé é alegre mas não ri. 
A fé é exigente mas não suplica. 
A fé é poderosa mas não se usa. 
A fé é compassiva mas não passiva. 
A fé é inquietante mas não alienante. 
A fé é o fermento mas não o condimento. 
A fé é o sal mas não o açúcar. 

A fé é a incerteza da certeza. 
A fé é o testemunho da Palavra. 
A fé é a continuação da Esperança. 
E se a Esperança é a Luz, faço fé na fé. 

A Fé não facilita. Dificulta. 
Mas não destrói. Constrói. 
Na amargura da nossa dor. 
No temor do nosso sentimento. 
Na obsessão da nossa procura. 

E assim o fim se torna o princípio. 
E no princípio está o silêncio. 
A expressão sublime da fé. 

© António Bagão Félix
© Laboratório da fé, 2013


Outros textos publicados no Laboratório da fé 

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 11.3.13 | Sem comentários
— a fotografia no laboratório da fé —

Nesta Quaresma
sou convidado a jejuar 

(telemóvel, computador, televisão, consumo, futebol, música, ...)
para ter mais tempo disponível para rezar:

a escuta da Palavra de Deus,
o louvor, o agradecimento a Deus.



— 2 de fevereiro de 2013, Sameiro, Braga —
© Vítor Brito

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.2.13 | Sem comentários

Eu digo fé. Tu dizes...


O Laboratório da fé convidou algumas pessoas, crentes ou não crentes, para escreverem um texto sobre a fé. O resultado será apresentado, mensalmente, nesta rubrica intitulada: «Eu digo fé. Tu dizes...». 
O (primeiro) texto é da autoria do Cónego Manuel Joaquim Fernandes da Costa, pároco e arcipreste em Braga.

Manuel Joaquim Fernandes da Costa, no Laboratório da fé, 2013

Pode parecer estranho este título mas é realmente o que sinto quando olho para o meu percurso pessoal e me detenho nos meus primeiros anos de vida. À memória vêm-me palavras, gestos, cuidados dos meus pais que me fazem dizer que a minha fé foi despertando à medida que me era servido o prato essencial do amor no leite materno, no amor respirado na família.
Recordo os pais no quarto, sentados na cama com quatro e depois cinco filhos, a repetir aquelas orações mais comuns: Pai-nosso, Avé-Maria, Anjo da Guarda. Recordo que, decorrido algum tempo, quando já íamos tomando parte nos trabalhos domésticos e agrícolas e a jornada se prolongava, quando íamos para o descanso, já sem ambiente para a reunião familiar em oração, ouvia-se a voz do pai que, do seu quarto, dizia: “meninos … ao menos três Avé-Marias!”
Recordo o percurso de 45 minutos a pé para a celebração da Eucaristia das 7H00 da manhã na igreja paroquial de S. Vitor, a atitude e a missão daqueles que aí cantavam ou proclamavam a Palavra.
Recordo as minhas primeiras idas à catequese, nos Franciscanos de Montariol e a beleza, motivação e alegria solene do mês de maio com flores e com pagelas para colorir.
Recordo a simplicidade da festa da primeira comunhão com tanta alegria à mistura com pobreza e simplicidade.
Recordo o momento matinal em que o pai fazia o sinal da cruz antes de colocar o capacete e pegar na motorizada para ir para o trabalho.
Recordo aqueles dias de trabalho no campo, no diálogo com a mãe e os irmãos e de como era natural e frequente a mãe introduzir espontaneamente a Palavra de Deus que tinha ouvido no domingo, na eucaristia, naquilo que eram as temáticas mais naturais e espontâneas das conversas, dos diálogos.
Recordo a participação na Eucaristia e o momento solene da elevação da hóstia consagrada e do cálice e o sussurro da mãe ao meu ouvido e que me dizia: “ diz comigo – meu Senhor e meu Deus, creio firmemente que estais aqui verdadeiramente presente, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade, tão real e perfeitamente como estais presente nos altos Céus!”.
Recordo a minha entrada no Seminário e uma pequena oração que aí comecei a fazer e que sempre me acompanha: “Meu Deus, eu creio em Vós, mas aumentai a minha fé!”. Todo o percurso do Seminário, durante onze anos, foi uma descoberta da beleza libertadora a fé. Foi um caminho iniciado que me motivou e me fez sentir chamado para partilhar, celebrar e anunciar essa mesma fé!
Recordo… tenho tudo isso e muito mais gravado no coração e que me deixou um lastro de alegria e de amor! 
A fé, para mim, é o grande dom que me abre sem cessar ao infinito Amor de Deus e que me torna atento e disponível para os outros. Ela traz-me a serena convicção de que posso olhar cada pessoa e senti-la como dom e reflexo de Deus bom!
Com a fé, perante as dificuldades e as dúvidas, sempre sobressai o brilho e a brisa suave da presença amorosa de Deus. Perante o pecado, a falha, sinto o alento de quem se sente esperado para que a vida nova e a alegria do perdão relancem no caminho do progresso, do aperfeiçoamento, da vida abundante, da santidade!
A fé é comunicação permanente na abertura a uma Presença de vida sempre abundante. Aquela vida abundante vem da Palavra, dos sacramentos, da contemplação, do diálogo, da certeza de saber que sou sempre esperado, amado!

© P. Manuel Joaquim
© Laboratório da fé, 2013




Outros textos publicados no Laboratório da fé 

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.2.13 | 2 comentários
— A Pastoral da Saúde no laboratório da fé —

Depois da minha experiência com doentes mentais com stress pós-traumático de Guerra percebi que, por muitas estratégias utilizadas, medicamentosas entre outras, a única réstia de esperança que em alguns permanecia designava-se por fé. Era esse o único sentimento que muitos traziam inabalável de uma vida de tormentos depois de uma Guerra sem nome, sem rosto, sem intenção, onde não perderam a vida mas perderam grande parte da sua vida porque deixaram no “mato” das ex-colónias a sua identidade. “Valha-nos Deus”: esta era a expressão que alguns dos Veteranos da Guerra Colonial utilizavam quando se lamentavam da vida que tiveram, das tormentas por que passaram e por que fizeram passar muitos dos seus familiares. Na maior parte das vezes terminam os seus dias sozinhos, abandonados por quem já os amou mas que não os consegue ter por perto. O fantasma do stress pós-traumático não os deixa viver em paz. O sofrimento destes homens e de suas famílias pode tornar-se de tal forma que, enquanto procurava perceber as suas impressionantes histórias de vida no sentido de lhes auxiliar o auto-conhecimento muitas vezes perdido, questionava-os sobre a sua fé. Uma grande maioria afirmava a fé acima de qualquer “complicação” terrena e dizia mesmo que Deus nada tem a ver com isto (isto da Guerra que tanto mal lhes trouxe). A culpa afinal é dos Homens, concluíam por si mesmos, porque a inabalável fé destes seres humanos que tanto sofrem permanece intacta. Exemplo disto mesmo é a peregrinação anual à Nossa Senhora do Sameiro. A maioria dos Veteranos de Guerra partilham da fé cristã. Esta revelação é evidente quando, e depois do que é sabido por mim dos atendimentos, verifico a enorme devoção com que oram a Nossa Senhora do Sameiro que consideram sua padroeira, que dizem tê-los protegido na Guerra do maior dos males, a morte. A homeostasia do indivíduo ou o equilíbrio natural para o qual caminha todo o ser biológico é uma meta incrivelmente difícil de atingir para estes homens e suas famílias, mas conseguem ultrapassar uma boa parte da adversidade porque, acima de tudo, estão cheios de fé.

Ana Gomes


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.2.13 | Sem comentários

— colaboração do Padre João Miguel Torres Campos —


— Vaheja

Quando viu que era eu que estava ali, pediu-me para que eu encostasse o meu ouvido à sua boca, para me comunicar alguma coisa. Falando muito baixinho e pausadamente disse-me: “Padiri, quero me baptizar e comer o Cristo que tu ofereces aos cristãos”. Perante, aquele pedido, que para mim parecia ser o último da sua vida, disse-lhe que ia à missão buscar o pão e o vinho e que não me demoraria muito. > > >

 

— O Natal em Moçambique

No meio da savana africana, não há lojas com luzes, não há música nas ruas, não há frio nem hipermercados para se comprar presentes. Não há mesas cheias de bolos, de rabanadas e de champanhe. Não há bacalhau nem bom azeite e vinho. Alguns poderiam dizer que aqui não há Natal. Mas, mesmo longe de casa, dos meus familiares e amigos, nunca vivi o Natal de forma tão profunda. Porque me despedi do supérfluo, daquilo que poderia ajudar a viver melhor o Natal, mas que não é Natal. > > >

— Na descoberta do Deus verdadeiro

Nunca pensei que um sacerdote muçulmano e um sacerdote católico conversassem como velhos amigos sobre assuntos que noutros tempos eram blasfémias para ambas as partes. Como é belo entrever no outro crente um irmão a conhecer, respeitar e a amar, para darem – em primeiro lugar naquela terra – um bom testemunho de serena convivência entre filhos de Abraão. > > >

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.1.13 | Sem comentários
— A fotografia no laboratório da fé —

Deus oferece-nos o seu Filho.

Estás disposto a acolhê-lo na tua vida?



— 1 de janeiro de 2013, Aveleda, Braga —
© Vítor Brito

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.1.13 | Sem comentários

Colaboração de Luísa Alvim


O nanoCredo

  1. O nanoCredo é o credo dos pequenos, um credo em gestação, um credo que não incorpora o definitivo e que se constrói no amadurecimento da relação com Deus e com o viver do evangelho. Um credo cuja grandeza do seu dizer está na evidência da minha pequenez, que tal como as crianças se colocam na condição de aprendiz, eu me estabeleço em igualdade de principiante de Deus. > > >

  2. Deus está à espreita, está mesmo à espera para nos revelar o seu grande amor por nós, homens e mulheres, e que perante as perguntas inesperadas saibamos comunicar, na nanolinguagem dos pequenos, a verdadeira mensagem e fazer das nossas crenças vacilantes as nanodúvidas, para deixar o menino Jesus habitar a história da salvação das nossas vidas. > > >

  3. A maioria dos teólogos esqueceu as palavras de Jesus sobre as crianças. Pensam que a espiritualidade autêntica exige a capacidade de consciência e a compreensão de um sistema perfeito de crença entre todos os Credos dos concílios. [...] Desejava que os catequistas, os educadores da fé fossem abertos à vida divina como um presente imprevisível. > > >

  4. Acredito que é preferível utilizar na catequese uma linguagem sensível, por exemplo, a das metáforas das parábolas, para evitar que orientações doutrinais e muito sábias desabem e sejam mais tarde, na idade adulta, esquecidas ou postas em questão. Muitas crianças não têm o sentido espiritual porque não o suscitamos nelas, deixamos que a dimensão teológica e eclesial se sobreponha à grandeza espiritual. > > >

  5. A nanoLinguagem dos pequeninos, dos poetas e dos místicos é que nos pode conduzir ao espiritual. A linguagem da metáfora que permite a deslocação dos conteúdos doutrinários e crispados da liturgia que os catecismos institucionalizaram. A criança possui em si a qualidade de se tornar espiritual, está em gérmen e em nano. Cabe aos educadores da fé, aos pais e aos catequistas tornar possível o acesso ao espiritual. > > >

© Luísa Alvim, catequista de coisas invisíveis na terra visível
© Laboratório da fé, 2013



NanoCredo


Creio
em ti,
pai maternal
amor poderoso,
criador do inútil e do imperfeito,
de todas as coisas nano e mínimas.

Creio no sorriso de Jesus nas crianças
Filho do mistério do amor
Pré-Natal desde sempre:
Deus em mim, Luz da Luz
Deus do imprestável de Deus dos cansaços;
Sem-abrigo, não acabado
Confiante ao Pai.
Por Ele tudo está inacabado.
E por nós, frágeis corpos,
E para o nosso cérebro mais amplo que os céus.
E chegou ao íntimo pelo Espírito Santo,
no misterioso cérebro humano,
E se fez menino.

Também por nós foi desnudado sob o nosso desprezo
destruído
E foi lixo.
Ressuscitou como um jardineiro,
conforme a nanoPalavra;
E desceu aos infernos,
onde está sentado à direita do nada
de novo há-vir tocar-nos,
para amar os impotentes;
E a fome do pai não terá fim.


Creio no frágil,
Senhor que dá a diversidade,
nascido do vacilar e da certeza;
E com o silêncio é interrogado e duvidado:
ele que falou pelo vazio.





catequista de coisas invisíveis na terra visível


Luísa Alvim, mãe de 3 filhos, sonhadora do impossível, é catequista de coisas invisíveis na terra visível, na paróquia de S. Victor, em Braga. Técnica superior na área de Biblioteca e Documentação na Câmara Municipal de V. N. de Famalicão, desde 1995. Atualmente trabalha na Casa de Camilo - Museu e Centro e Estudos. Licenciada em Filosofia, pós-graduada em Ciências Documentais, Mestre em Ciência da Informação, e Doutoranda em Ciência da Informação e membro integrado do Centro e Investigação CIDEHUS na Universidade de Évora.
Outros artigos publicados no Laboratório da fé



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 28.12.12 | Sem comentários
— A Pastoral da Saúde no laboratório da fé —

Há uns anos atrás, uma grande amiga minha tinha o pai internado, com uma trombose cardíaca súbita. Ela é uma católica romana séria e esforçada (penso que todos os cristãos mais não podem ser que esforçados). Ela não mora em Braga. Então telefonava-me e eu rezava o terço com ela. Eu não sei as estações, mas ela sabe, e depois eu respondia nas orações, exceto na Salve Rainha, que é uma oração que acho muito bonita, mas que não consigo decorar (verdade seja dita, que acho que nunca a ouvi ser dita na minha infância). Rezamos muitos terços assim, à noite. O pai acabou por falecer, e pouco depois a mãe.
Quando foi da mãe, eu estava presente, a senhora a esvair-se num cancro após a Páscoa. Quando as pessoas perceberam que ela estava a partir (estava sedada), começaram a desatinar; eu tinha um terço de plástico na mão, que tinha levado por causa da filha, pois tinha medo que no meio da confusão ela se tivesse esquecido do terço, eu sabia que era importante para ela estar junto à mãe com o terço.
Vai daí toda a gente a chorar, a perder a calma e eu a saber que a moribunda estaria a ouvir. Encostei o seu rosto ao meu, e comecei, alto mas calmamente, a perguntar às pessoas onde estava a fé delas. Perguntei se Jesus, o nosso Senhor, estava morto, ou vivo. E as pessoas começaram a perceber. Eu lembrei-lhes que era época de dar glória a Deus pela vinda de Jesus ressuscitado. As pessoas começaram a acalmar e ela começou a partir, sem energia, mas serena. E de repente, a filha, de joelhos, com o meu terço na mão começou serenamente a rezar em voz alta o terço, e os presentes respondiam. E a sua mãe morreu na mais perfeita paz, conosco a rezar o terço de plástico branco, que nunca me foi devolvido (nem eu o pedi, evidentemente).

Considero (como já o afirmei, em outros contextos) que ser cristão exige uma atitude interior mista de estoicismo e fé firme na construção do reino de Deus. Jesus nunca nos disse que ia ser fácil; não foi fácil para Ele, para os apóstolos, por que seria para nós? E porque não é fácil? perguntam muitos pseudo-cristãos...porque estamos no mundo mas não somos dele; se o fossemos, seria facílimo.
Sempre considerei, porém, que ser cristão é uma dádiva enorme no momento de enfrentar a morte, pelo menos a dos outros (dado que a minha ainda não a vivi), a partir da minha própria experiência pessoal. O sofrimento está lá todo, mas está também a certeza da Páscoa, da ressurreição de quem parte. Rezar o terço com a minha amiga foi uma forma de ela reforçar essa certeza, e de sentir que alguém que ela ama, tem também essa certeza. Pedimos que se fizesse a vontade de Deus e estamos ambas certas que assim foi, pois rezamos e sabemos que muitos mais (vivos e mortos) estavam em comunhão conosco...a comunidade de cristãos que comungam do Amor do Pai.

Aquando a morte da mãe, o que me surpreendeu foi a incapacidade das pessoas (todas auto-consideradas cristãs) acreditarem que aquela pessoa que tanto amá(va)mos ia para o Pai, e que não nos tínhamos que preocupar, e que era hora de darmos graças ao Pai por ela ter estado na nossa vida (era uma pessoa extraordinária em dádiva, em sabedoria, em prudência). Claro que o nosso sofrimento tinha uma razão de ser, porque íamos ficar sem ela, mas a nossa fé diz-nos que é temporário.
O exemplo da sua filha, de joelhos, lágrimas escorrendo pela face, mas rezando pausadamente para que a sua mãe partisse em paz, foi um enorme sinal de fé, confiança no Pai, mas também de amor pela sua mãe. O seu sofrimento era coisa pouca face à necessidade de a entregar em paz nos braços de Deus.

Clara Costa Oliveira
 
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.12.12 | Sem comentários
— Laboratório da fé na missão —

A missão do chiúre, onde estive, ficava em plena savana africana, a 160 Km da cidade de Pemba, no norte de Moçambique. A comunidade mais longínqua ficava a 120 km da sede da missão. Ali tudo era simples e profundo. Era também um mundo pobre, atormentado por muitas carências...
Ficar nas aldeias e sentir o calor humano do povo ajudou-me a entender, que a minha presença no meio deles foi um sinal de esperança. Por isso, no meio de tanta miséria, a minha vida teve sentido. Ali, as razões de viver prendem-se ao essencial e àquilo que é prioritário para se ser feliz.
A vida no mato é amarga e dura... mas os dias são felizes, amassados com lágrimas e suor e regados com alegrias e encantos. São dias de paraíso nas mãos de Deus. Quero-vos contar um pouco como foi o meu primeiro dia de Natal em Moçambique. 

Saí, de manhã bem cedo, para Ocua, comunidade que ficava a 30 Km da missão. Receberam-me com cânticos, palmas e com um sorriso de quem estava muito feliz. Para estes cristãos, é uma graça de Deus, terem Eucaristia e a presença do padre no dia de Natal. Depois, de cumprimentar os responsáveis pela comunidade e grande parte das pessoas ali presentes, começamos a distribuir tarefas para que a festa fosse um momento de alegria para todos. 
Iniciamos com a oração da manhã, seguida de uma celebração penitencial. Reconciliaram-se cerca de umas 70 pessoas. A grande maioria, não sabe falar português, fala o dialecto local, que é makhua. Desde que cheguei a Moçambique aprendi bastantes palavras em makhua, o que me permitiu perceber algumas palavras. Tinha um pequeno bloco de notas, com a listagem dos pecados em makhua e alguns conselhos para os poder ajudar a serem mais humanos e melhores cristãos. Enquanto, algumas pessoas celebravam o sacramento da reconciliação, os animadores do canto ensaiavam os cânticos para todos poderem cantar. 
A Eucaristia, é uma grande festa para este povo. São pobres e miseráveis nos caminhos da vida, mas alegres e felizes na relação com Deus. Estava uma multidão de gente. A capela era demasiado pequena. Celebramos ao ar-livre, debaixo de um cajueiro, por causa do sol. Para que todos se sentissem bem e participassem activamente, fiz todos os diálogos da Eucaristia em makhua. É certo, que antes, pedi-lhes desculpas, por não saber ler, tão bem como eles e para me perdoarem algumas falhas. Todos foram compreensivos e ficaram contentes, pelo meu esforço em pronunciar alguns dos seus sons. A homilia foi feita em português e traduzida para o dialecto local. A grande festa, começou às 9h40 e terminou por volta das 11h30. As danças, os cânticos, os símbolos, os silêncios... foi algo de tão eterno, que mais uma vez, compreendi que ainda sou muito pobre... 

Terminada a grande festa com Deus e depois de termos saudado o menino Jesus, deu-se início a uma reunião para toda a comunidade. Estas reuniões, eram momentos muito importantes para toda a comunidade. Nelas apresentavam os problemas que os atormentavam. Os discursos foram lidos pelo animador da comunidade e pelo responsável dos jovens. O resto da comunidade permaneceu em silêncio profundo. Olhavam para mim, para o animador paroquial e para o animador zonal, observando a nossa postura, perante as palavras dos seus representantes. Eu escutei com muita atenção, para mais tarde comunicar ao conselho da missão tudo quanto ali foi dito. Aqui, a pastoral comunitária é uma realidade viva. A comunidade interfere seriamente nos diversos problemas que afectam todos. Não existem manifestações nem actos de terrorismo paroquial.

Os tambores, as danças, as peças teatrais e os cânticos abrilhantaram o resto da manhã, até às 13h15. Estava eu a tirar algumas fotografias, quando me avisaram que o almoço estava pronto, chimá (farinha cozida) com galinha. Não foi nenhum almoço farto, mas o amor que aquela gente colocou naquela refeição alegraram-me tanto que foi como se tivesse comido caviar ou cabrito. Muitos esperaram que eu terminasse a refeição, para se despedirem. Para me apertarem a mão e darem-me um sorriso sincero e profundo. Era esse único presente que me podiam dar e podem ter a certeza que nunca recebi presentes tão grandes. Senti, mais uma vez, o carinho de um povo pobre, mas com um coração muito rico. 

No meio da savana africana, não há lojas com luzes, não há música nas ruas, não há frio nem hipermercados para se comprar presentes. Não há mesas cheias de bolos, de rabanadas e de champanhe. Não há bacalhau nem bom azeite e vinho. Alguns poderiam dizer que aqui não há Natal. Mas, mesmo longe de casa, dos meus familiares e amigos, nunca vivi o Natal de forma tão profunda. Porque me despedi do supérfluo, daquilo que poderia ajudar a viver melhor o Natal, mas que não é Natal. 
Aqui as luzes de Natal dão lugar aos milhares de pirilampos que invadem todas as noites a missão; a música das ruas dá lugar ao batuque, que soa durante todas as noites para avisar que o grande Deus vai nascer. A comida farta das mesas dá lugar à farinha cozida (chimá) amassada com amor e lágrimas de alegria, por se festejar o nascimento do grande Deus. As minhas palavras são demasiado pobres para vos dizer todo o encanto de um Natal passado em África, com quem nada tem e tem tudo.

Padre João Miguel Torres Campos

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.12.12 | Sem comentários
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