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Mês de maio, Mês de Maria


O papa João Paulo II, no dia 25 de março de 1981, dedicou uma Audiência Geral ao tema da Anunciação — «A Anunciação do Senhor mistério fundamental da Encarnação». Entre outras, o Papa faz referência ao número 56 do oitavo capítulo (dedicado a Maria) da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG), do II Concílio do VaticanoNo texto que se segue, João Paulo II começa por recordar a importância que desde cedo os primeiros cristãos colocaram no acontecimento da «Anunciação»; depois, comenta com detalhe o episódio narrado pelo evangelista Lucas. E documenta a resposta de Maria como uma resposta da fé, que serve de exemplo para a nossa «resposta» ao chamamento divino: «cada um de nós, segundo o convite do Concílio, deve estar pronto a responder assim, como Ela, na fé e na obediência, para cooperar, cada um na própria esfera de responsabilidade, na edificação do Reino de Deus».

1. Eis que venho para fazer, ó Deus, a Tua vontade (cf. Salmo 39, 8 s.; Hebreus 10, 7).
Eis aqui a escrava do Senhor (Lucas 1, 38).
São as palavras do Verbo que entra no mundo, e as de Maria que disso recebe o anúncio. Com estas palavras vos saúdo, caríssimos irmãos e irmãs, neste dia soleníssimo dedicado pela Liturgia à Anunciação do Senhor. O coração do crente bate de comoção e de amor com o pensamento do instante inefável, em que o Verbo se tornou um de nós: «et Verbum caro factum est». Desde os primeiros séculos voltou-se o coração da Igreja, com toda a devoção, para o facto que hoje recordamos; recordo as mais antigas fórmulas do Credo, que remontam pelo menos ao século II, solenemente confirmadas pelos Concílios, de Niceia de 325, e de Constantinopla de 381; recordo o afresco das Catacumbas de Priscila, do século II, primeiro testemunho comovedor daquele tributo, que a arte cristã dedicou sem descanso à Anunciação do Senhor, com as páginas mais brilhantes da sua história; recordo a grande basílica, construída no século IV em Nazaré por iniciativa da imperatriz Santa Helena. Também a solenidade de hoje é muito antiga. Embora as suas origens não estejam determinadas com certeza cronológica pelos estudiosos, ela, já no fim do século VII (com inícios certamente anteriores), tinha sido definitivamente fixada em 25 de Março. Na verdade antigamente julgava-se que neste dia se tinham realizado a criação do mundo e a morte do Redentor: de maneira que a data da festa da Anunciação contribuiu para levar a ser fixada a do Natal (cf. F. Cabrol, Annonciation/Fête de l'/, em DACL, I, 2, Paris 1924, col. 2247). A solenidade hodierna tem por isso grande significado quer mariano, quer cristológico.
2. Maria dá o seu consentimento ao Anjo anunciador. A página de Lucas, mesmo na sua frugal concisão, é riquíssima de conteúdos bíblicos antico-testamentários e da inaudita novidade da revelação cristã: desta é protagonista uma mulher, a Mulher por excelência (cf. João 2, 4; 19, 26), escolhida desde toda a eternidade para ser a primeira indispensável colaboradora do plano divino de salvação. É a «almah» profetizada por Isaías (7, 14), a donzela de estirpe real a corresponder ao nome de Miriam, de Maria de Nazaré, humílimo e oculto povoado da Galileia (cf. João 1, 46); a autêntica «novitas» cristã — que elevou a mulher à altíssima e incomparável dignidade, inconcebível para a mentalidade hebraica do tempo como para a civilização greco-romana — começa com este anúncio dirigido a Maria por Gabriel, em nome do próprio Deus. É saudada com palavras tão altas que a perturbam: «Kaire, Ave, alegra-te»! A alegria messiânica ressoa pela primeira vez na terra. «Kekaritoméne, gratia plena, cheia de graça»! A Imaculada está aqui esculpida na sua plenitude misteriosa de eleição divina, de predestinação eterna, de clareza luminosa. «Dominus tecum, o Senhor está contigo»! Deus está com Maria, membro eleito da família humana para ser a mãe do Emanuel, d'Aquele que é «Deus connosco»: Deus estará doravante, sempre, sem arrependimentos e sem retratações, ao lado da humanidade, feito um com ela para a salvar e lhe dar o Seu Filho, o Redentor: e Maria é a garantia viva, concreta, desta presença salvífica de Deus.
3. Do colóquio entre a Criatura eleita e o Anjo de Deus continuam a derivar para nós outras Verdades fundamentais: «Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, o Senhor Deus dar-lhe-á o trono do Seu pai, David... O Espírito Santo virá sobre ti e a forca do Altíssimo estenderá sobre ti a Sua sombra. Por isso mesmo é que o Santo, que vai nascer, se há-de chamar Filho de Deus» (Lucas 1, 31 s., 35). Vem Aquele que, originário da linhagem de Adão, entra nas genealogias de Abraão e de David (cf. Mateus 1, 1-17; Lucas 3, 23-38): Está na linha das promessas divinas, mas vem ao mundo sem necessitar da trajectória da paternidade humana, melhor, ultrapassa-a na linha da fé imaculada. Toda a Trindade está empenhada nesta obra, como o Anjo anuncia: Jesus, o Salvador, é o «Filho do Altíssimo», o «Filho de Deus»; está presente o Pai a estender a Sua sombra sobre Maria, está presente o Espírito Santo a vir sobre Ela para lhe fecundar o seio intacto com o Seu poder. Como subtilmente comentou Santo Ambrósio, na exposição sobre esta passagem do Evangelho de Lucas, ouviu-se naquele dia pela primeira vez a revelação do Espírito Santo, e foi logo acreditada: «et auditur et creditur» (Exp. Ev. sec. Lucam, II, 15; ed. M. Adriaen, CCL, XIV, Turnholti 1957, p. 38).
O Anjo pede o consentimento de Maria para a entrada do Verbo no mundo. A expectativa dos séculos passados está concentrada neste ponto; dele depende a salvação do homem. São Bernardo, ao comentar a Anunciação, exprime de maneira estupenda este momento único, quando diz, dirigindo-se à Senhora: «Toda a gente espera, prostrada aos teus pés; não sem razão, porque da tua boca depende a consolação dos aflitos, a redenção dos prisioneiros, a libertação dos condenados, a salvação, por fim, de todos os filhos de Adão, a tua estirpe inteira. Apressa-te, Virgem, em responder» (In laudibus Virginis Matris Homilia IV, 8; emSermones, I, edd. J. Leclerq et H. Rochais, S. Bernardi Opera Omnia, IV, Romae 1966, pp. 53 s.).
E o consentimento de Maria é consentimento de fé. Encontra-se na linha da fé. Justamente, portanto, o II Concílio do Vaticano, ao reflectir sobre Maria como protótipo e modelo da Igreja, propôs um exemplo da sua fé activa precisamente no momento do «Fiat» que pronunciou: «Maria não foi utilizada por Deus como instrumento meramente passivo, mas... cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens» (Lumen Gentium, 56).
A seguirmos os mesmos passos da fé activa de Maria convida-nos, por isso, a solenidade de hoje: fé generosa, que se abre à Palavra de Deus, que acolhe a vontade de Deus, qualquer que seja e onde quer que se manifeste; fé forte, que supera todas as dificuldades, as incompreensões e as crises; fé operosa, alimentada como viva chama de amor, que deseja colaborar fortemente com os desígnios de Deus sobre nós. «Eis aqui a escrava do Senhor»: cada um de nós, segundo o convite do Concílio, deve estar pronto a responder assim, como Ela, na fé e na obediência, para cooperar, cada um na própria esfera de responsabilidade, na edificação do Reino de Deus.
4. A resposta de Maria foi o eco perfeito da resposta do Verbo ao Pai. O Eis-me aqui por Ela pronunciado é possível na medida em que o precedeu e sustentou o Eis-me aqui do Filho de Deus que, no momento do consentimento de Maria, se torna o Filho do Homem. Hoje celebramos o mistério fundamental da Encarnação do Verbo. A Carta aos Hebreus faz-nos, por assim dizer, penetrar nos abismos insondáveis deste despojamento do Verbo, deste seu humilhar-se, por amor dos homens, até à morte da cruz: «Ao entrar no mundo Cristo diz: 'Não quiseste sacrifício nem oblação, mas preparaste-Me um corpo. Os holocaustos e sacrifícios pelo pecado não Te agradaram. Então Eu disse: Eis que venho — como está escrito de Mim no livro — para fazer, ó Deus, a Tua vontade'» (Hebreus 10, 5 ss.).
Preparaste-Me um corpo: a hodierna celebração leva-nos, sem mais, à data do Natal, dentro de nove meses; mas ela, com o pensamento misticamente profundo que, segundo disse, foi bem captado pelos nossos irmãos e irmãs da Igreja dos primeiros séculos, conduz-nos sobretudo à próxima Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. O facto de a Anunciação do Senhor cair dentro e a propósito do período quaresmal, faz-nos compreender o significado redentor dela: a Encarnação está intimamente ligada com a Redenção, que Jesus realizou derramando o Seu sangue por nós na Cruz.
Eis que venho para fazer, ó Deus, a Tua vontade. Para quê esta obediência, para quê este abaixamento e para quê este sofrer? Responde-nos o Credo: «Propter nos homines et propter nostram salutem: Por nós, homens, e para a nossa salvação». Jesus desceu do Céu para fazer subir depois lá para cima, com pleno direito, o homem, e, tornando-o filho do Filho, restituí-lo à dignidade perdida com o pecado. Veio para levar a efeito o plano original da Aliança. A Encarnação confere para sempre ao homem a sua extraordinária, única e inefável dignidade. E daqui se origina o caminho que a Igreja percorre. Como escrevi na minha primeira Encíclica: «Cristo Senhor indicou este caminho sobretudo quando — como ensina o Concílio — 'com a encarnação o Filho de Deus se uniu em certo modo a cada homem' (Gaudium et Spes, 22). A Igreja reconhece, pois, o seu encargo fundamental de fazer que tal união possa continuamente realizar-se e renovar-se. A Igreja deseja servir este único fim: poder cada homem reencontrar Cristo, para que possa Cristo, com cada um, percorrer o caminho da vida, com o poder daquela Verdade sobre o homem e sobre o mundo, contida no mistério da Encarnação e da Redenção» (Redemptor Hominis, 13).
5. A Igreja não esquece — como poderia fazê-lo? — que o Verbo, neste acontecimento que hoje recordamos, se oferece ao Pai para a salvação do homem, para a dignidade do homem. Naquele acto de oferta de Si mesmo está contido já todo o valor salvífico da Sua missão messiânica; tudo está já encerrado «in nuce» aqui, nesta misteriosa entrada do «Sol de justiça» (cf. Mateus 4, 2) nas trevas deste mundo, que não O admitiram (cf. João 1, 5). Mas, assegura-nos o evangelista João «a todos os que O receberam, aos que crêem n'Ele, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus; ... nasceram de Deus. E o Verbo fez-Se homem e habitou entre nós, e nós vimos a Sua glória, glória que vem do Pai, como Filho único, cheio de graça e de verdade» (João 1, 12 ss.).
Sim, Irmãos caríssimos e Irmãs, vimos a Sua glória. A Liturgia apresentou-no-la hoje diante dos olhos na sua misteriosa e inefável grandeza, que nos vence com a sua magnificência e nos sustenta com a sua humildade: «O Verbo fez-Se homem e habitou entre nós».
Acolhamo-l'O.
Digamos-Lhe também nós: Eis-me aqui, venho cumprir a Tua vontade. Estejamos disponíveis para a acção do Verbo, que deseja salvar o mundo também mediante a colaboração de todos os que acreditámos n'Ele. Acolhamo-1'O. E com Ele, acolhamos cada homem. As trevas parecem ainda querer sempre prevalecer: a riqueza iníqua, o egoísmo indiferente ao sofrimento dos outros, a desconfiança recíproca, as inimizades entre os povos, o hedonismo, que entenebrece a razão e perverte a dignidade humana, todos os pecados que ofendem a Deus e vão contra o amor do próximo. Devemos dar, até no meio de tantos contratestemunhos, o testemunho da fidelidade; devemos ser, até entre tantos não-valores, o valor do bem que vence o mal com a sua força intrínseca. A Cruz de Cristo dá-nos a força para isso, a obediência de Maria dá-nos o exemplo. Não recuemos. Não nos envergonhemos da nossa fé. Sejamos astros que brilham no mundo, luz que atrai e calor que persuade.
Com a minha Bênção Apostólica.

© Copyright 1981 - Libreria Editrice Vaticana — www.vatican.va —

João Paulo II - Karol Józef Wojtyła
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.5.13 | Sem comentários

Mês de maio, Mês de Maria


O papa João Paulo II, em 31 de janeiro de 1996, dedicou uma Audiência Geral ao tema «Anúncio da maternidade messiânica», para comentar o número 55 do oitavo capítulo (dedicado a Maria) da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG), do II Concílio do VaticanoNo texto que se segue, o Papa coloca em destaque os textos do Antigo Testamento que se podem relacionar com a conceção de Jesus no seio de Maria: a profecia de Isaías (7, 14); a profecia de Natan (2Samuel 7, 13-14); a profecia de Miqueias (5, 2-3). A página do Vaticano apresenta a versão em espanhol e italiano; a tradução é da nossa responsabilidade.

1. Ao tratar da figura de Maria no Antigo Testamento, o Concílio (cf. Lumen Gentium, 55) refere-se ao conhecido texto de Isaías, que atraiu de modo particular a atenção dos primeiros cristãos: «A jovem está grávida e vai dar à luz um filho, e há de pôr-lhe o nome de Emanuel» (Isaías 7, 14).
No contexto do anúncio do anjo, que convida José a tomar Maria por sua esposa, «pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo», Mateus atribui um significado cristológico e mariano à profecia. Com efeito, acrescenta: «Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho; e hão de chamá-lo Emanuel, que quer dizer: Deus connosco» (Mateus 1, 22-23).
2. Esta profecia, no texto hebraico, não anuncia explicitamente o nascimento virginal do Emanuel. De facto, o vocábulo usado (almah) significa simplesmente uma mulher jovem, não necessariamente uma virgem. Além disso, é sabido que a tradição judaica não propunha o ideal da virgindade perpétua, nem nunca tinha expresso a hipótese de uma maternidade virginal.
Pelo contrário, na tradução grega, o vocábulo hebraico é traduzido pelo termo «párthenos», virgem. Neste facto, que poderia parecer apenas uma particularidade da tradução, podemos reconhecer uma misteriosa orientação dada pelo Espírito Santo às palavras de Isaías, para preparar a compreensão do nascimento extraordinário do Messias. A tradução do termo «virgem» explica-se pelo fundamento de que o texto de Isaías prepara com grande solenidade o anúncio da conceção e apresenta-o com um sinal divino (cf. Isaías 7, 10-14), despertando a espera de uma conceção extraordinária. Pois bem, que uma mulher jovem conceba um filho depois de se ter unido ao marido não constitui um facto extraordinário. Por outro lado, o oráculo não faz qualquer referência ao marido. Essa formulação sugere, portanto, a interpretação que foi dada pela versão grega.
3. No contexto original, a profecia de Isaías (7, 14) faz parte da resposta divina a uma falta de fé do rei Acaz, que, perante a ameaça de uma invasão dos exércitos dos reis vizinhos, procurava a sua salvação e a do seu reino através da proteção da Assíria. Ao aconselhá-lo a colocar a confiança apenas em Deus, renunciando a uma temível intervenção da Assíria, o profeta Isaías convida-o em nome do Senhor a um ato de fé no poder divino: «Pede um sinal ao Senhor teu Deus». Perante a recusa do rei, que prefere buscar a salvação na ajuda humana, o profeta pronuncia o célebre oráculo: «Escuta, pois, casa de David: Não vos basta ser molestos para os homens, senão que também ousais sê-lo para o meu Deus? Por isso, o Senhor, por sua conta e risco, vos dará um sinal. Olhai: a jovem está grávida e vai dar à luz um filho, e há de pôr-lhe o nome de Emanuel» (Isaías 7, 13-14).
O anúncio do sinal do Emanuel, Deus connosco, implica a promessa da presença divina na história, que encontrará o seu pleno significado no mistério da encarnação do Verbo.
4. No anúncio do nascimento prodigioso do Emanuel, a indicação da mulher que concebe e dá à luz mostra uma intenção de unir a mãe ao destino do filho — um príncipe destinado a estabelecer um reino ideal, o reino messiânico — e permite vislumbrar um desígnio divino particular que destaca o papel da mulher.
Com efeito, o sinal não é só o menino, mas também a conceção extraordinária, revelada depois no parto, um acontecimento cheio de esperança que sublinha o papel central da mãe.
Além disso, a profecia do Emanuel tem de se entender na perspetiva que marca o início da promessa feita a David, promessa que se lê no segundo livro de Samuel. Aqui, o profeta Natan promete ao rei a proteção divina para o seu descendente: «Ele construirá um templo ao meu nome, e Eu firmarei para sempre o seu trono régio. Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho» (2Samuel 7, 13-14).
Em relação à descendência de David, Deus quer desempenhar uma função paternal, que manifestará o seu significado pleno e autêntico no Novo Testamento, com a encarnação do Filho de Deus na família de David (cf. Romanos 1, 3).
5. O mesmo profeta Isaías, noutro texto muito conhecido, reafirma o caráter excecional do nascimento do Emanuel. Estas são as palavras: «Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado; tem a soberania sobre os seus ombros, e o seu nome é: Conselheiro-Admirável, Deus herói, Pai-Eterno, Príncipe da paz» (Isaías 9, 5). Assim, na série de nomes dados ao menino, o profeta expressa as qualidades da sua missão real: sabedoria, força, benevolência paterna e ação pacificadora.
Aqui já não se nomeia a mãe, mas a exaltação do filho, que dá ao povo tudo o que se pode esperar de um reino messiânico, também é partilhada pela mulher que o concebeu e deu à luz.
6. Do mesmo modo, uma famosa profecia de Miqueias (5, 2-3) faz alusão ao Emanuel. Diz o profeta: «Mas tu, Belém-Efrata, tão pequena entre as famílias de Judá, é de ti que me há de sair aquele que governará em Israel. As suas origens remontam aos tempos antigos, aos dias de um passado longínquo. Por isso, Deus abandonará o seu povo até ao tempo em que der à luz aquela que há de dar à luz» (Miqueias 5, 1-2). Nestas palavras ressoa a espera de um parto carregado de esperança messiânica, no qual se ressalta, uma vez mais, o papel da mãe, recordada e exaltada explicitamente pelo admirável acontecimento que traz alegria e salvação.
7. A bênção que Deus concedeu aos humildes e aos pobres (cf. Lumen Gentium, 55) preparou de um modo mais geral a maternidade virginal de Maria.
Os pobres, ao porem a sua confiança no Senhor, antecipam com a sua atitude o significado profundo da virgindade de Maria, que, renunciando à riqueza da maternidade humana, esperou de Deus toda a fecundidade da sua própria vida.
Como se vê, o Antigo Testamento não contém um anúncio formal da maternidade virginal, que só se revelou plenamente no Novo Testamento. Contudo, a profecia de Isaías (7, 14) prepara a revelação deste mistério, que neste sentido foi explicitada na tradução grega do Antigo Testamento. O evangelho de Mateus, citando a profecia traduzida desta forma, proclama o seu perfeito cumprimento mediante a conceção de Jesus no seio virginal de Maria.

© Copyright 1996 - Libreria Editrice Vaticana — www.vatican.va (versão em espanhol) —
© Tradução de Laboratório da fé, 2013

João Paulo II - Karol Józef Wojtyła
Postado por Unknown | 10.5.13 | Sem comentários

Mês de maio, Mês de Maria


O papa João Paulo II, em 30 de julho de 1997, dedicou uma Audiência Geral ao tema «Maria, membro eminente da Igreja», para comentar alguns pontos da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG), do II Concílio do Vaticano. No texto que se segue, o Papa coloca em destaque a relação entre Maria e a Igreja: figura, modelo e mãe.

Queridos Irmãos e Irmãs,
1. O papel excepcional que Maria reveste na obra da salvação convida-nos a aprofundar a relação existente entre Ela e a Igreja. Segundo alguns, Maria não pode ser considerada membro da Igreja, pois os privilégios que lhe foram conferidos, a imaculada conceição, a maternidade divina e a singular cooperação na obra da salvação colocam-na numa condição de superioridade em relação à comunidade dos crentes.
O II Concílio do Vaticano, porém, não hesita em apresentar Maria como membro da Igreja, embora precisando que Ela o é de modo «eminente e inteiramente singular» (LG 53): da Igreja Maria é figura, modelo e mãe. De modo diferente de todos os outros fiéis, devido aos dons excepcionais recebidos do Senhor, entretanto a Virgem pertence à Igreja e dela é membro a pleno título.
2. A doutrina conciliar encontra significativo fundamento na Sagrada Escritura. Os Atos dos Apóstolos mostram Maria presente, desde o início, na comunidade primitiva (cf. Atos 1, 14), enquanto compartilha, com os discípulos e algumas mulheres crentes, a expectativa orante do Espírito Santo, que descerá sobre eles.
Depois do Pentecostes a Virgem continua a viver em comunhão fraterna no meio da comunidade e participa nas orações, na escuta do ensinamento dos Apóstolos e na «fracção do pão», isto é, na celebração eucarística (cf. Atos 2, 42).
Aquela que tinha vivido em estreita união com Jesus na casa de Nazaré, vive agora na Igreja em íntima comunhão com seu Filho, presente na Eucaristia.
3. Mãe do Filho unigénito de Deus, Maria é Mãe da Comunidade que constitui o Corpo místico de Cristo e acompanha os seus primeiros passos.
Ao aceitar essa missão, Ela empenha-se em animar a vida eclesial com a sua presença materna e exemplar. Essa solidariedade deriva da sua pertença à comunidade dos remidos. Com efeito, ao contrário de seu Filho, Ela teve necessidade de ser remida, pois «está associada, na descendência de Adão, a todos os homens necessitados de salvação» (LG 53). O privilégio da imaculada conceição preservou-a da mancha do pecado, por causa de uma especial influência salvífica do Redentor.
«Membro eminente e inteiramente singular» da Igreja, Maria utiliza os dons a ela concedidos por Deus para realizar uma solidariedade mais completa com os irmãos de seu Filho, que já se tornaram, também eles, seus filhos.
4. Como membro da Igreja, Maria põe ao serviço dos irmãos a sua santidade pessoal, fruto da graça de Deus e da sua fiel colaboração. A Imaculada constitui para todos os cristãos um válido apoio na luta contra o pecado e um perene encorajamento a viverem como remidos por Cristo, santificados pelo Espírito e filhos do Pai.
Inserida na primeira comunidade, «Maria, a mãe de Jesus» (Atos 1, 14), é por todos respeitada e venerada. Cada um compreende a preeminência d’Aquela que gerou o Filho de Deus, o único e universal Salvador. O caráter virginal da sua maternidade, além disso, permite-lhe testemunhar a extraordinária contribuição para o bem da Igreja, oferecida por quem, renunciando à fecundidade humana por docilidade ao Espírito Santo, se põe completamente ao serviço do Reino de Deus.
Chamada a colaborar de modo íntimo no Sacrifício do Filho e no dom da vida divina à humanidade, Maria continua a sua obra materna depois do Pentecostes. O mistério de amor contido na Cruz inspira o seu ardor apostólico e empenha- a, como membro da Igreja, na difusão da boa nova.
As palavras do Crucificado no Gólgota: «Mulher, eis aí o teu filho» (João 19, 26), com as quais lhe é reconhecida a função de mãe universal dos crentes, abriram horizontes novos e ilimitados à sua maternidade. O dom do Espírito Santo, recebido no Pentecostes para o exercício dessa missão, leva-a a oferecer a ajuda do seu coração materno a todos os que estão a caminho, rumo à plena realização do Reino de Deus.
5. Membro eminente da Igreja, Maria vive uma relação singular com as pessoas divinas da Santíssima Trindade: com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo. O Concílio, chamando-a «Mãe do Filho de Deus, e por isso [...] filha predileta do Pai e templo do Espírito Santo» (LG 53), recorda o efeito primeiro da predilecção do Pai que é a maternidade divina.
Consciente do dom recebido, Maria compartilha com os crentes as atitudes de obediência filial e de sentida gratidão, encorajando cada um a reconhecer na própria vida os sinais da benevolência divina.
O Concílio usa a expressão «templo» («sacrarium») do Espírito Santo, querendo pôr em evidência o ligame de presença, de amor e de colaboração que existe entre a Virgem e o Espírito Santo. A Virgem, que já São Francisco de Assis invoca como «esposa do Espírito Santo» (cf. Antífona de «Santa Maria Virgem» em: Fontes Franciscanas, 281), encoraja com o seu exemplo os outros membros da Igreja a entregarem-se, com generosidade, à acção misteriosa do Paráclito e a viverem com Ele em perene comunhão de amor.

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João Paulo II - Karol Józef Wojtyła
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.5.13 | Sem comentários
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