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— Apostolado da Oração — intenção geral de janeiro — 

Para que, neste Ano da Fé, 

os cristãos aprofundem o conhecimento do mistério de Cristo 

e testemunhem a própria fé com alegria.


Afirma o Papa, na Carta Apostólica «A Porta da Fé»: «Decidi convocar um Ano da Fé. Começará [a Carta foi publicada a 11 de Outubro de 2011] no dia 11 de Outubro de 2012, no 50.º aniversário da abertura do Concílio Vaticano II, e terminará na solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo, no dia 24 de Novembro de 2013. A 11 de Outubro de 2012 celebrar-se-ão também os 20 anos da publicação do Catecismo da Igreja Católica, promulgado pelo meu predecessor, o beato João Paulo II, com a intenção de mostrar a todos os fiéis a força e a beleza da fé» (número 4).
As razões para a proclamação deste Ano da Fé são muitas, ainda que aqui apontaremos somente duas. A primeira e a mais importante é aquela que o Santo Padre sublinhou, a 22 de Dezembro de 2011: «O núcleo da crise da Igreja na Europa é a crise de fé. Se não encontrarmos uma resposta para ela, se a fé não ganha uma nova vitalidade, dentro de uma convicção profunda e uma força real, graças ao encontro com Jesus Cristo, todas as mais reformas serão inúteis». Estas palavras do Sumo Pontífice são muito sérias e devem representar para nós grande motivo de profunda meditação.
Outra razão é a de verificarmos que, sobretudo a nível da Europa, a fé desapareceu da vida de muitos, ou está tão debilitada que mal se nota.
As finalidades deste Ano da Fé são também várias. Como o Papa refere na já citada Carta Apostólica, é necessário «intensificar a reflexão sobre a fé, para ajudar todos os crentes em Cristo, a fim de que a sua adesão a Cristo seja mais consciente e vigorosa» (número 8).
Este Ano da Fé deve ser também um convite a um encontro com Jesus Cristo Vivo, que nos permita sermos transformados pela sua acção. Só por meio do aprofundamento no conhecimento do mistério de Cristo é que daremos um testemunho credível da nossa fé. A Intenção deste mês exorta-nos a que demos este testemunho «com alegria». É este testemunho de alegria e esperança que é necessário dar nesta velha Europa que está a ficar cada vez mais «Europa velha».

© Apostolado da Oração — www.apostoladodaoracao.pt


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.1.13 | Sem comentários
— palavra para sexta-feira, quatro de janeiro —

— Evangelho segundo João 1, 35-42

Naquele tempo, estava João Batista com dois dos seus discípulos e, vendo Jesus que passava, disse: «Eis o Cordeiro de Deus». Os dois discípulos ouviram-no dizer aquelas palavras e seguiram Jesus. Entretanto, Jesus voltou-Se; e, ao ver que O seguiam, disse-lhes: «Que procurais?» Eles responderam: «Rabi – que quer dizer ‘Mestre’ – onde moras?» Disse-lhes Jesus: «Vinde ver». Eles foram ver onde morava e ficaram com Ele nesse dia. Era por volta das quatro horas da tarde. André, irmão de Simão Pedro, foi um dos que ouviram João e seguiram Jesus. Foi procurar primeiro seu irmão Simão e disse-lhe: «Encontrámos o Messias» – que quer dizer ‘Cristo’ – ; e levou-o a Jesus. Fitando nele os olhos, Jesus disse-lhe: «Tu és Simão, filho de João. Chamar-te-ás Cefas» – que quer dizer ‘Pedro’. 

— Era por volta das quatro horas da tarde

O quarto evangelho descreve o chamamento dos primeiros discípulos, na Judeia, no contexto da pregação de João Batista. Os outros três evangelhos referem o primeiro chamamento, na Galileia. Há contradição entre eles? Houve dois chamamentos? Bem sabemos que, na maioria dos textos evangélicos, o mais importante não é o contexto histórico, mas o ensinamento que o autor nos quer transmitir através do relato.
O evangelista João, através de um pormenor, revela-nos a importância daquele chamamento. «Era por volta das quatro horas da tarde» quando aconteceu o encontro com Jesus Cristo. Foi de tal modo marcante para a vida daqueles homens que nunca mais se esqueceram da hora! 
Neste relato destacam-se o verbo «seguir» e «ficar». Na verdade, o discipulado é um seguimento, um ficar com Jesus Cristo. A vida muda. Deixam tudo para seguir Jesus, para ficar com Jesus. O discípulo é aquele que aprende a viver com e como o Mestre. Não basta saber muitas coisas sobre Jesus! Se queres ser discípulo, se queres ser cristão, tens de deixar tudo para seguir Jesus, para ficar com Jesus, para viver com Jesus e para viver como Jesus.

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.1.13 | comentários
— reflexão semanal sobre o credo niceno-constantinopolitano —

A segunda parte do (segundo) artigo do «Credo» sobre Jesus Cristo termina com a afirmação: «e se fez homem». Em Jesus Cristo, Deus humaniza-se e vive a condição humana na sua totalidade, exceto no pecado. Jesus Cristo leva à plenitude a nossa humanidade. É modelo para todo o ser humano que deseja alcançar a plena realização pessoal. Nesta simples afirmação — «e se fez homem» — está condensada toda a vida (privada e pública) de Jesus Cristo. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Lucas 2, 39-52; Catecismo da Igreja Católica, números 512 a 570]

«Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens» — assim resume o evangelho segundo Lucas a vida de Jesus entre os doze e os trinta anos de idade. Para perceber o que é relatado pelo evangelista, é preciso ter em conta que, na mesma casa, viviam os avós, os pais, os filhos, os tios, os primos, todos os que constituíam o mesmo núcleo familiar. É este grande clã familiar que se desloca a Jerusalém. Assim, já não é tão estranho que Jesus tenha ficado no Templo, «sem que os pais o soubessem». Seria possível apenas Maria e José perderem Jesus?! Este relato é muito rico em ensinamentos teológicos. Trata-se de um episódio que nos ajuda a perceber que Jesus começa a assumir a sua própria perspetiva de vida. O início da vida adulta acontecia aos doze anos. A maioria dos rapazes e raparigas casavam por volta dessa idade, num tempo em que aos quarenta anos já se era «velho». Ao colocá-lo «no meio dos doutores», o evangelista prepara-nos para o que vai ser a vida de Jesus: a fidelidade à sua missão.
Os primeiros anos de vida relatados nos evangelhos canónicos estão reduzidos à narração dos episódios referentes ao anúncio e nascimento de Jesus acrescidos de três acontecimentos: a fuga para o Egito (evangelho segundo Mateus) e duas situações — a «apresentação» e, mais tarde, a «perda» aos doze anos (evangelho segundo Lucas) — no Templo de Jerusalém. Estas duas últimas narrações terminam com um resumo que define a autenticidade da natureza humana da criança (Lucas 2, 40.52): «Entretanto, o menino crescia e robustecia-se, enchendo-se de sabedoria, e a graça de Deus estava com Ele. [...] Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens».

E se fez homem. Jesus esteve com os seus pais, Maria e José, em Nazaré, até ao início da sua pregação, chamada «vida pública». Durante esse tempo, viveu de forma humildade e discreta, de tal modo que não existe qualquer dado bíblico sobre essa etapa da sua vida (privada). Jesus permanece em Nazaré aproximadamente até aos trinta anos de idade. A partir daí, começa a sua intensa pregação e ação. Uma atividade que vai levar à condenação à morte. Após a Páscoa de Jesus Cristo, a Ressurreição, ficaremos a saber que não se trata de um fracasso, mas de uma vitória do amor, consequência da fidelidade à sua missão: dar a conhecer o amor de Deus. No entanto — ao contrário dos relatos dos evangelhos que são extensos e detalhados —, o «Credo» nada diz sobre a forma como Jesus viveu nem sobre o que disse e fez até à crucificação. No «Credo» apenas recordamos os mistérios da Páscoa e do Natal. «Relativamente à vida de Cristo, o Símbolo da Fé apenas fala dos mistérios da Encarnação (conceção e nascimento) e da Páscoa (paixão, crucifixão, morte, sepultura, descida à mansão dos mortos, ressurreição, ascensão). Nada diz explicitamente dos mistérios da vida oculta e pública de Jesus. Mas os artigos que dizem respeito à Encarnação e à Páscoa de Jesus esclarecem toda a vida terrena de Cristo. ‘Tudo o que Jesus fez e ensinou desde o princípio até ao dia em que foi elevado ao céu’ (Atos dos Apóstolos 1, 1-2) deve ser visto à luz dos mistérios do Natal e da Páscoa» (Catecismo da Igreja Católica [CIC], 512). O Catecismo da Igreja Católica resume em quatro aspetos a vida (pública) de Jesus: toda a vida de Cristo é revelação do Pai (CIC 516); toda a vida de Cristo é mistério de redenção (CIC 517); toda a vida de Cristo é mistério de recapitulação (CIC 518); toda a vida de Cristo é modelo de perfeição (CIC 519-521). Talvez uma (próxima) revisão do texto do «Credo» possa incluir uma referência à vida de Jesus!

«Toda a vida de Cristo foi um ensinar contínuo: os seus silêncios, os seus milagres, os seus gestos, a sua oração, o seu amor pelo humano, a sua predileção pelos pequeninos e pelos pobres, a aceitação do sacrifício total na cruz pela redenção do mundo e a sua ressurreição, são a atuação da sua palavra e o cumprimento da sua revelação» (João Paulo II, Exortação Apostólica sobre a catequese, 9).

   


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.1.13 | comentários
— A fotografia no laboratório da fé —

Deus oferece-nos o seu Filho.

Estás disposto a acolhê-lo na tua vida?



— 1 de janeiro de 2013, Aveleda, Braga —
© Vítor Brito

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.1.13 | Sem comentários
— palavra para quinta-feira, três de janeiro —

— Evangelho segundo João 1, 29-34

No dia seguinte ao seu primeiro testemunho, João Baptista viu Jesus, que vinha ao seu encontro, e exclamou: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. É d’Ele que eu dizia: ‘Depois de mim vem um homem que passou à minha frente, porque era antes de mim’. Eu não O conhecia, mas foi para Ele Se manifestar a Israel que eu vim baptizar na água». João deu este testemunho, dizendo: «Eu vi o Espírito Santo descer do céu como uma pomba e permanecer sobre Ele. Eu não O conhecia, mas quem me enviou a baptizar na água é que me disse: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer é que baptiza no Espírito Santo’. Ora eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus». 

—Eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus

João Batista apresenta-se como testemunha da filiação divina de Jesus Cristo. Nas suas palavras, João Batista insiste na necessidade de «tirar» o pecado da vida das pessoas, a necessidade da conversão. Por isso, aponta para Jesus como Aquele que vem para «tirar» o pecado do mundo. 
João Batista foi um homem profundamente crente, como o demonstram as passagens evangélicas. A sua principal preocupação era que cada pessoa tivesse a melhor relação possível com Deus. Por isso, refere com insistência a importância da conversão, do arrependimento para o perdão dos pecados.
O Espírito Santo é o sinal identificador de Jesus Cristo e da sua missão. Hoje, vivemos no tempo do Espírito Santo. Somos habitados pelo Espírito Santo. Ele permanece em nós para nos tornar filhos de Deus. Mas é necessário que se «veja» na nossa maneira de viver, é preciso que a nossa vida dê testemunho de que somos filhos de Deus. Jesus Cristo, o Filho de Deus, incarna, torna-se ser humano, para que os humanos se tornem filhos de Deus!


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.1.13 | Sem comentários
— texto semanal publicado no «Diário do Minho» —

A afirmação da causalidade («E por nós, homens») completa-se com o motivo: «e para nossa salvação desceu dos Céus». Jesus vem para salvar, para nos reconciliar com Deus. É preciso dizer que «não faz sentido a ideia que Cristo arranca a nossa salvação a um Deus vingador e justiceiro que, desde a origem do tempo, esperava a reparação por todos os pecados acumulados pela humanidade: o Deus que tudo criou em seu Filho é o mesmo que nos acolhe e nos perdoa no seu mesmo Filho» (Rui Alberto, «Eu creio, Nós cremos. Encontros sobre os fundamentos da fé», ed. Salesianas, Porto 2012, 95). [Para ajudar a compreender melhor, ler: Mateus 1, 18-25; Catecismo da Igreja Católica, números 422 e 423, 456 a 460]

«Darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados» — esta indicação dada pelo anjo a José (cf. tema 7) revela a identidade e a missão do menino: ser o «Salvador».

 
 E para nossa salvação. Anuncia-se uma «boa notícia»! Jesus Cristo vem ao mundo para nos salvar. Deus quer o nosso bem, quer que sejamos felizes. A presença de Jesus Cristo no meio de nós é um sinal do amor de Deus. O que acontece agora é uma revelação, um gesto visível da salvação que Deus oferece a todos. Aliás, toda a história é um desenrolar da salvação. Não é por acaso que a designamos como «História da Salvação». Ao afirmar que Jesus Cristo é o Salvador, tornamos presente toda a História. Recordamos «a pedagogia de Deus que, ao longo de toda a história de Israel, renova o seu oferecimento de aliança, a fim de acostumar os seres humanos a viverem da sua vida. [...] Ao tomar nos seus braços o filho de Maria, o velho Simeão tem realmente consciência de tocar, finalmente, a promessa feita a Israel e a salvação do mundo inteiro: ‘Os meus olhos viram a tua salvação’ (Lucas 2, 30)» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 79). É isto mesmo que a Igreja diz, na celebração da Eucaristia, quando se reza a Oração Eucarística IV: «Repetidas vezes fizestes aliança com os homens e pelos profetas os formastes na esperança da salvação. De tal modo amastes o mundo, Pai santo, que chegada a plenitude dos tempos, nos enviastes como Salvador o vosso Filho Unigénito». Em Jesus Cristo, a Criação atinge a plenitude. Podemos dizer que Aquele «por quem todas as coisas forma feitas» é o mesmo que leva à plenitude todas as coisas, tornando «presente» a salvação. Por isso, é um erro pensar que a salvação é um ato restaurador de algo perdido. Não é um regresso ao passado. Ela dá-nos algo que não existia: «Adão não comungava na vida de Deus como nós somos convidados a fazê-lo em Jesus Cristo. [...] A salvação é real participação na vida que Deus propõe e que não é outra coisa que a participação na vida trinitária: aderir fortemente a Jesus para se deixar amar pelo Pai na iluminação do Espírito Santo» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, 82). Então, na sequência do que referimos no início desta reflexão, podemos agora dizer que ser salvo é muito mais do que deixar de ser pecador. É ter acesso a um dom de Deus, que a fé nos diz que é suficientemente forte para acabar com as nossas fugas e as nossas recusas: «é o que chamamos a graça de Deus, isto é, o fascínio da sua gratuidade que transforma a nossa vida» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, 82). O Filho de Deus «desceu dos Céus [...] e se fez homem», para que os homens se tornem filhos de Deus (cf. Catecismo da Igreja Católica, 460). Por isso, todas as tentativas para explicar a salvação (justificação, resgate, redenção, satisfação, libertação, reconciliação) são sempre imperfeitas; são isto mesmo «tentativas» para exprimir um dom de Deus. Ele anula todas as distâncias, mesmo aquelas que são fruto da nossa recusa em amar. 

Desceu dos Céus. É Deus que toma a iniciativa de vir ao nosso encontro, por amor. Com a expressão «desceu dos Céus» queremos afirmar que Jesus tem uma origem divina. Na linguagem bíblica, os «Céus» não são a abóboda celeste. Os «Céus» designam a vida de Deus e a vida em Deus. Jesus «desceu dos Céus» porque vive em Deus, é Deus. Além disso, «descer dos Céus» ou «vir de Deus» não significa um lugar. Não se trata de uma viagem que Jesus fez de um lugar (Céus) para outro (terra). É uma afirmação possível na nossa linguagem do grande mistério que torna real a Encarnação: Deus humaniza-se, assume a natureza humana. 

Jesus Cristo, o Filho Unigénito de Deus, que vive desde sempre com o Pai, vem habitar a nossa história, assume a nossa humanidade. E assim continuaremos nos próximos temas: «E encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem».

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.1.13 | Sem comentários
— palavra para quarta-feira, dois de janeiro —

— Evangelho segundo João 1, 19-28

Foi este o testemunho de João Baptista, quando os judeus lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para lhe perguntarem: «Quem és tu?» Ele confessou e não negou: «Eu não sou o Messias». Eles perguntaram-lhe: «Então, quem és tu? És Elias?» «Não sou», respondeu ele. «És o Profeta?» Ele respondeu: «Não». Disseram-lhe então: «Quem és tu? Para podermos dar uma resposta àqueles que nos enviaram, que dizes de ti mesmo?» Ele declarou: «Eu sou a voz que clama no deserto: ‘Endireitai o caminho do Senhor’, como disse o profeta Isaías». Entre os enviados havia fariseus que lhe perguntaram: «Então porque baptizas, se não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta?». João respondeu-lhes: «Eu baptizo na água; mas no meio de vós está Alguém que não conheceis: Aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias». Tudo isto se passou em Betânia, além do Jordão, onde João estava a baptizar. 

— Aquele que vem depois de mim

A grande preocupação dos responsáveis judaicos é saber que título possui João para promover aquelas ações e proferir tais palavras. Não lhes importa saber se João diz verdades ou mentiras. Nem sequer se as suas ações ajudam as pessoas a aproximarem-se de Deus. O poder preocupa-se sempre com os títulos, com os cargos. A importância de uma pessoa consiste em «ganhar» lugar entre os famosos e não em defender a verdade e a justiça!
João não se preocupa com títulos. Ele sabe que é «dom de Deus» cuja missão consiste em ajudar a preparar a vinda do Salvador. Ele não é importante. Importante é «Aquele que vem depois de mim» — afirma-o com toda a clareza e autenticidade. 
O poder (ou o desejo de o alcançar) são o principal obstáculo para a anunciar a presença de Deus na nossa vida. Não faltam pretendentes a «Messias», «Elias», «Profetas»... mas poucos são os que aceitam ser «a voz que clama no deserto». Neste Ano Novo e Ano da Fé estás disposto a ser «dom de Deus» para ajudar os outros a descobrir a presença de Deus na vida e a confiar em Deus?
 
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.1.13 | Sem comentários
— palavra para segunda-feira, 31 de dezembro —

— Evangelho segundo João 1, 1-18

No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. No princípio, Ele estava com Deus. Tudo se fez por meio d’Ele e sem Ele nada foi feito. N’Ele estava a vida e a vida era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas e as trevas não a receberam. Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João. Veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz. O Verbo era a luz verdadeira, que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem. Estava no mundo e o mundo, que foi feito por Ele, não O conheceu. Veio para o que era seu e os seus não O receberam. Mas àqueles que O receberam e acreditaram no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. Estes não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós. Nós vimos a sua glória, glória que Lhe vem do Pai como Filho Unigénito, cheio de graça e de verdade. João dá testemunho d’Ele, exclamando: «Era deste que eu dizia: ‘O que vem depois de mim passou à minha frente, porque existia antes de mim’». Na verdade, foi da sua plenitude que todos nós recebemos graça sobre graça. Porque, se a Lei foi dada por meio de Moisés, a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo. A Deus, nunca ninguém O viu. O Filho Unigénito, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer.

— Tudo se fez por meio d'Ele

No «prólogo» do evangelho segundo João, podemos assinalar três palavras: Verbo, Luz, Carne.
O Verbo (Palavra) é a força que transforma, é o poder capaz de alterar as coisas e as pessoas. Jesus é o Verbo, isto é, a Palavra de Deus, a força que dá sentido à vida, o poder capaz de transformar aquele que a acolhe na sua vida.
A Luz é um sinal de vida, um guia para o caminho. Onde há luz há vida. Jesus é a Luz, isto é, a Vida de Deus, o guia para iluminar o nosso caminho até ao Pai, a fonte de toda a Luz. Por isso, no Credo dizemos que Jesus é «Luz da Luz».
A carne, na cultura grega, estava associada à fragilidade humana. O Verbo fez-se carne, isto é, assumiu a nossa humanidade, a nossa fragilidade. O encontro com Ele acontece nos mais frágeis e débeis da nossa sociedade.
Ao terminar o ano civil, o início do evangelho segundo João ajuda-nos a acolher Jesus Cristo como a presença de Deus no mundo, no meio de nós. Por Ele tudo foi criado. «Tudo se fez por meio d'Ele».

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 31.12.12 | Sem comentários
— palavra para sábado depois do natal —


— Evangelho segundo Lucas 2, 22-35

Ao chegarem os dias da purificação, segundo a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, para O apresentarem ao Senhor, como está escrito na Lei do Senhor: «Todo o filho primogénito varão será consagrado ao Senhor», e para oferecerem em sacrifício um par de rolas ou duas pombinhas, como se diz na Lei do Senhor. Vivia em Jerusalém um homem chamado Simeão, homem justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava nele. O Espírito Santo revelara-lhe que não morreria antes de ver o Messias do Senhor; e veio ao templo, movido pelo Espírito. Quando os pais de Jesus trouxeram o Menino para cumprirem as prescrições da Lei no que lhes dizia respeito, Simeão recebeu-O em seus braços e bendisse a Deus, exclamando: «Agora, Senhor, segundo a vossa palavra, deixareis ir em paz o vosso servo, porque os meus olhos viram a vossa salvação, que pusestes ao alcance de todos os povos: luz para se revelar às nações e glória de Israel, vosso povo». O pai e a mãe do Menino Jesus estavam admirados com o que d’Ele se dizia. Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua Mãe: «Este Menino foi estabelecido para que muitos caiam ou se levantem em Israel e para ser sinal de contradição; – e uma espada trespassará a tua alma – assim se revelarão os pensamentos de todos os corações».

— Simeão recebeu-O em seus braços e bendisse a Deus

Um dos temas abordados neste relato é o cumprimento da Lei. A família de Maria, José e Jesus insere-se no contexto cultural e religioso do povo judeu, cujas práticas rituais têm um grande peso na vida pessoal e comunitária. Jesus nasceu numa família judaica. Foi educado na religião de Israel. Recebeu e praticou os rituais e costumes daquele tempo, na sociedade judaica.
A apresentação no Templo do filho varão primogénito e a purificação da mãe indicam uma sobrevalorização do homem e um menosprezo da mulher. No entanto, essa não será a postura de Jesus, que vem desconstruir tudo aquilo que, mesmo baseado na Lei, fere a dignidade do ser humano, seja homem ou mulher.
A oração de louvor proferida pelo velho Simeão destaca a paz interior, a tranquilidade que habitava no seu coração. A esperança dá lugar à alegria. A espera dá lugar à satisfação. Acolher Jesus nos braços é um gesto de ternura. Simeão, pela sua atitude, acolhe também Jesus no coração. 
No final de cada dia (Oração Litúrgica de Completas), a Igreja convida-nos a acolher Jesus e a rezar, alegres, este hino transcrito no evangelho segundo Lucas. Grava esta oração na tua vida. Reza-a no final de cada dia, antes de adormecer. E encontrarás a paz e a tranquilidade para descobrir a alegria da fé.

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.12.12 | Sem comentários
— palavra para sexta-feira, 28 de dezembro — Santos Inocentes —

— Evangelho segundo Mateus 2, 13-18

Depois de os Magos partirem, o Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: «Levanta-te, toma contigo o Menino e sua Mãe e foge para o Egipto; fica lá até que eu te diga, pois Herodes vai procurar o Menino para O matar». José levantou-se de noite, tomou consigo o Menino e sua Mãe e partiu para o Egipto e ficou lá até à morte de Herodes, para se cumprir o que o Senhor anunciara pelo profeta: «Do Egipto chamei o meu filho». Quando Herodes percebeu que fora iludido pelos Magos, encheu-se de grande furor e mandou matar em Belém e no seu território todos os meninos de dois anos ou menos, conforme o tempo que os Magos lhe tinham indicado. Cumpriu-se então o que o profeta Jeremias anunciara, ao dizer: «Ouviu-se uma voz em Ramá, lamentos e gemidos sem fim: Raquel chora seus filhos e não quer ser consolada, porque eles já não existem». 

— Herodes vai procurar o Menino para O matar

Os estudos bíblicos dividem-se quanto à historicidade ou veracidade deste relato! Uns e outros apresentam argumentos (supostamente) válidos para serem considerados num estudo bíblico aprofundado. Bento XVI, defensor da historicidade dos relatos evangélicos da infância de Jesus, argumenta no terceiro volume da obra que escreveu sobre Jesus: «É verdade que, de fontes bíblicas, nada sabemos sobre este facto, mas, considerando toda a crueldade de que Herodes se tornou culpado, isso não prova que tal delito não tenha sucedido» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré. Prólogo: A infância de Jesus», Princípia Editora, Cascais 2012, 92).
Deixando de lado as disputas sobre a historicidade, este relato pode ajudar-nos a interpretar a realidade deste nosso tempo. Jesus, já desde o seu nascimento, foi tido como uma ameaça, nomeadamente para os poderes instalados (onde sobressaem os tiranos carregados de maldade, dispostos a tudo para manter o seu estatuto). Ora, sobre isto não há qualquer dúvida histórica! Infelizmente, é algo que aconteceu e continua a repetir-se na história humana.
O relato de Mateus introduz no contexto do Natal a violência e a maldade causadoras de sofrimento e de morte. Ao longo dos tempos, são milhões as crianças vítimas de tanta maldade. Estima-se que mais de trinta mil crianças morrem de fome todos os dias. E há que acrescentar aquelas que são vítimas do tráfico de órgãos, do comércio e do abuso sexual, da falta de atenção educativa e sanitária, do abandono e de outros sofrimentos.
Porque é que se faz muito pouco para evitar os «Herodes» do nosso tempo? É muito pouco deixarmo-nos contagiar por um espasmo de sentimentalismo que se esvanecesse rapidamente. Será que não posso fazer nada para que o Natal seja uma Boa Notícia para as crianças da minha rua, da minha localidade?

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 28.12.12 | Sem comentários
— texto semanal publicado no «Diário do Minho» —

Jesus Cristo, Filho de Deus, vem ao mundo, habita a nossa história, para nos dar a conhecer o próprio Deus. Jesus Cristo revela-nos um Deus que ama a sua Criação, que ama os seres criados, de modo particular o ser humano. Apesar das (nossas) infidelidades, Deus nunca volta as costas, mas sempre se dispõe a amar. O Pai, que ama infinitamente todos os seus filhos, envia ao mundo o Seu Filho, Jesus Cristo, «por nós homens» — como afirmamos no «Credo». [Para ajudar a compreender melhor, ler: Primeira Carta de João 4, 7-11; Catecismo da Igreja Católica, números 385 a 421]

«O amor de Deus manifestou-se desta forma no meio de nós: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que, por Ele, tenhamos a vida» — esta afirmação da Primeira Carta de João destaca (de novo) o tema do amor de Deus pelos seres humanos. É, na verdade, um tema muito presente nos escritos joaninos. O autor da Carta reforça toda a sua convicção a partir de uma afirmação central: «Deus é amor». A mais bela (e até talvez a única) definição de Deus que encontramos em toda a Escritura. Esta revelação de Deus não é uma mera afirmação especulativa. É uma experiência histórica concreta. O amor de Deus não é uma realidade para explicar. «Deus é amor» através do seu agir, que se descobre de modo evidente na vida do Seu Filho, Jesus Cristo. Ele vem ao mundo, «por nós homens», para nos dar a conhecer o amor. E para nos chamar a viver nesse mesmo amor.

 
 E por nós, homens. No centro do «Credo» (niceno-constantinopolitano) irrompe uma afirmação da causalidade humana. Até parece «que fazemos mexer qualquer coisa do lado de Deus e do Filho por quem e para quem tudo foi feito» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 78). Deus não fica nem está indiferente ao ser humano. Jesus Cristo, o Filho Unigénito de Deus, vem habitar a nossa história. «Por nós, homens». Por mim. Por ti. Por todos. «Doravante, escreve François Mauriac, no destino de todo o homem Deus estará à espreita» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray,78).

O pecado. A causalidade da vinda de Jesus Cristo ao mundo — «por nós homens» — assume uma dupla dimensão: do lado de Deus e do lado dos seres humanos. Da parte de Deus, como já vimos, revela-nos o seu infinito amor. Da parte dos humanos, confronta-nos com a resposta a esse amor, que pode ser uma não resposta, isto é, a infidelidade, o pecado. A plena realização do ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, só pode acontecer no amor. Infelizmente, pode não acontecer assim. O amor não se impõe. É uma escolha livre e pessoal. Pode ser recusado. Esta de recusar o amor concretiza-se no que, em linguagem religiosa, chamamos pecado. O Catecismo da Igreja Católica afirma (número 386): «O pecado está presente na história do homem. Seria vão tentar ignorá-lo ou dar outros nomes a esta obscura realidade. Para tentar compreender o que é o pecado, temos primeiro de reconhecer o laço profundo que une o homem a Deus, porque, fora desta relação, o mal do pecado não é desmascarado na sua verdadeira identidade de recusa e oposição a Deus, embora continue a pesar na vida do homem e na história». O pecado é tudo aquilo que nos impede de acolher o amor de Deus. É tudo aquilo que nega o amor: o egoísmo, o ódio, a violência, a mentira, a injustiça, a opressão, a rejeição, a intolerância, o mal... A recusa do amor desfaz a nossa harmonia interior. A relação com Deus e com os outros «fica transformada num jogo de poder, controlo e desconfiança. [...] Custa-nos acreditar num Deus que seja amor verdadeiro. E as nossas relações com os outros começam a ser dominadas pela desconfiança, pela indiferença e pela agressão» (Rui Alberto, «Eu creio, Nós cremos. Encontros sobre os fundamentos da fé», ed. Salesianas, Porto 2012, 97). Esta possibilidade de se deixar vencer pelo mal faz-nos solidários no pecado. É o que a Igreja chama de «pecado original», relatado na Bíblia de forma poética através da desobediência de Adão e Eva. O autor do livro do Génesis tem uma intenção clara: o ser humano pode deixar de confiar em Deus, pode «esconder-se» de Deus; o homem e a mulher podem usar mal a liberdade que lhe foi dada pelo Criador, recusando-se a viver no amor.

«Apesar de a humanidade ter voltado as costas a Deus, Ele não desistiu de nós. Deus nunca abandonou a humanidade. Deus comprometeu-se ao longo de toda a história em nos dar sinais, pistas, que nos permitissem reencontrar a alegria e a salvação. E esta aposta de Deus realiza-se de forma perfeita quando Jesus vem até nós e dá a sua vida para nos salvar (Rui Alberto, 97).

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.12.12 | Sem comentários
— palavra para segunda-feira da quarta semana de advento — 24 de dezembro —

— Evangelho segundo Lucas 1, 67-79

Naquele tempo, Zacarias, pai de João Baptista, ficou cheio do Espírito Santo e profetizou dizendo: «Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, que visitou e redimiu o seu povo e nos deu um salvador poderoso na casa de David, seu servo. Assim prometera desde os tempos antigos, pela boca dos seus santos Profetas, que nos libertaria dos nossos inimigos e das mãos de todos os que nos odeiam; que teria compaixão dos nossos pais, recordando a sua sagrada aliança e o juramento que fizera a Abraão, nosso pai: que nos concederia a graça de O servirmos um dia sem temor, livres das mãos dos nossos inimigos, em santidade e justiça, na sua presença, todos os dias da nossa vida. E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque irás à sua frente a preparar os seus caminhos, para dar a conhecer ao seu povo a salvação, pela remissão dos pecados; graças ao coração misericordioso do nosso Deus, que das alturas nos visita como sol nascente, para iluminar os que vivem nas trevas e na sombra da morte e dirigir os nossos passos no caminho da paz». 

— Para iluminar os que vivem nas trevas... 

Zacarias, pai de João (Batista), vê cumprida a promessa do nascimento do seu filho. Solta-se-lhe a língua. Proclama um hino de louvor a Deus. Este hino, proposto para o último dia de Advento, é rezado todos os dias pela manhã durante a Oração de Laudes na Liturgia das Horas (Oração diária proposta pela Igreja).
Zacarias profetiza a salvação que nos visita como o sol em cada manhã, «para iluminar os que vivem nas trevas [...] e dirigir os nossos passos no caminho da paz». É o anúncio da vinda de Jesus! A presença de Jesus conduz-nos sempre pelos caminhos da paz (bem diferente da primeira parte do texto em que se realça o lado negativo: salva dos inimigos e dos que nos odeiam). O Deus de Jesus Cristo é verdadeiramente um Deus de paz, um Deus que ilumina a vida de todos os seres humanos.

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.12.12 | Sem comentários
— palavra para quinta-feira da terceira semana de advento — 20 de dezembro —

— Evangelho segundo Lucas 1, 26-38

Naquele tempo, o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José, da descendência de David. O nome da Virgem era Maria. Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?» O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril; porque a Deus nada é impossível». Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra». 

— Ave (Alegra-te), cheia de graça, o Senhor está contigo 

A conceção divina de Jesus Cristo é fundamental para entender o cristianismo. De facto, se recusarmos a condição divina de Jesus Cristo não podemos afirmar a nossa identidade cristã. Mas o mesmo também serve para a condição humana de Jesus Cristo. A Encarnação é a afirmação da junção de duas naturezas numa única Pessoa (Jesus Cristo): divina e humana. A «Anunciação» é a garantia de que Deus (divino) se revela através do ser humano.
A «saudação» do mensageiro de Deus é a exaltação da alegria. «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». Esta expressão bíblica também se pode traduzir por: «Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo». «Alegra-te». É uma saudação de alegria, em ambiente de salvação. Maria é convidada a encher-se de alegria, porque Deus faz nela a sua morada. 
Hoje, o tempo de Advento é também para nós um convite à alegria. Mas parece que nos falta a alegria! Deixamo-nos contagiar pela tristeza de uma Igreja envelhecida! Jesus Cristo não continua a ser uma Boa Notícia? Não sentimos a alegria de ser seus discípulos? Quando falta a alegria, a fé perde frescura, a cordialidade desaparece, a amizade esfria-se, a vida perde sentido. Tudo se torna mais difícil. É urgente despertar em nós e nas nossas famílias a alegria de acreditar em Jesus Cristo!
«O Senhor está contigo». A alegria nasce da plena confiança em Deus. Não somos órfãos. Não estamos abandonados à nossa sorte. Deus não é nosso Pai? Não o invocamos todos os dias como Pai que nos acompanha e nos defende de todo o mal? São muitos os medos que nos paralisam. Temos medo do futuro, que parece cada vez mais incerto. Temos medo da nossa própria fraqueza e incapacidade para superar as dificuldades. Temos até medo de nos convertermos ao Evangelho. Esta falta de confiança em Deus faz-nos muito mal! Impede-nos de descobrir a esperança e a alegria da nossa fé.


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.12.12 | Sem comentários
— texto semanal publicada no «Diário do Minho» —

No «Credo» proclamamos que o ser humano Jesus, que nasceu e viveu num momento histórico documentado, é o próprio Filho de Deus. Estamos a refletir (às vezes repetindo) sobre a identidade divina de Jesus Cristo. Esta repetição patente no texto do «Credo» é consequência das discussões que marcaram — e porventura ainda marcam — a história da nossa fé cristã. [Para ajudar a compreender melhor, ler: João 3, 16-21; Catecismo da Igreja Católica, números 441 a 445]

«Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna» — esta afirmação de Jesus no diálogo com Nicodemos destaca um tema muito presente no evangelho segundo João: o carácter universal da obra salvadora realizada através de Jesus Cristo. O ponto de partida é o amor de Deus pelos seres humanos. Perante esta lógica divina, o ser humano pode acolher ou recusar o amor de Deus Pai, que se revela na Pessoa do Filho, Jesus Cristo. Aqueles que acolhem pela fé este amor divino encontram o que ninguém pode alcançar pelas suas próprias forças: a vida eterna, isto é, a vida em Deus. E recebem o «poder de se tornarem filhos de Deus» (João 1, 12). Diz o Papa Bento XVI: «A nossa verdadeira ‘genealogia’ é a fé em Jesus, que nos dá uma nova proveniência, nos faz ‘nascer de Deus’» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré. Prólogo — A infância de Jesus», Princípia Editora, Cascais 2012, 18) 

Filho Unigénito de Deus. Esta proclamação reforça a identidade divina de Jesus de Nazaré. Dissemo-lo no encontro anterior na explicitação dos títulos de «Senhor» e «Cristo». Voltamos a referir esta identidade divina no título de «Filho Unigénito de Deus». E vamos repeti-lo nas próximas expressões. Eis a fórmula completa: «Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigénito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai». O Símbolo dos Apóstolos é mais sintético: «[Creio] em Jesus Cristo, seu único Filho, Nosso Senhor». Para explicitar o tema que ocupa esta reflexão — «Filho Unigénito de Deus» — é importante começar por perceber que, historicamente, «filho de Deus» não se trata de uma afirmação atribuída pela primeira vez ou apenas a Jesus. Vários povos e culturas utilizavam este título («filho de Deus») para designar alguém que gozava de uma especial relação com a divindade. Em primeiro lugar, é uma expressão que tem origem na teologia política do antigo Oriente. No Egito, por exemplo, o rei era chamado «filho de Deus»; e «o ritual da entronização era considerado como a sua ‘geração’ como filho de Deus» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré», Esfera dos Livros, Lisboa 2007, 414). O povo de Israel vai assumir e transformar esta terminologia. São várias as narrações contidas no Antigo Testamento que testemunham esta apropriação do termo por parte do povo bíblico. Mas, ao contrário dos outros povos, em Israel, o rei é fruto de uma eleição divina (e não de uma geração). Em rigor, não é o rei que é designado como «filho de Deus», mas todo o povo hebreu. Mais tarde, os primeiros cristãos apoiam-se nesta cultura judaica para a dizer plenamente realizada em Jesus Cristo. Mas, agora, na cultura cristã, «a expressão ‘filho de Deus’ separa-se da esfera do poder político e torna-se expressão de uma união particular com Deus, que se manifesta na cruz e na ressurreição» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré», 416). E há ainda outra clarificação a fazer. Entre os romanos, é o próprio Imperador que se autoproclama «filho de Deus». Numa mesma época histórica e geográfica (convém lembrar que os primeiros cristãos vivem sob o domínio do Império Romano), gera-se o conflito e a colisão entre os súbditos romanos e os cristãos, quanto ao destinatário do título de «filho de Deus». Entre outros motivos, torna-se assim necessário para os primeiros cristãos exprimir e reforçar a divindade de Jesus através do recurso a vários títulos e expressões, que mais tarde hão de ficar gravadas no «Credo». O que para nós, cristãos do século XXI, pode parecer uma mera repetição de palavras e expressões não o foi nos primeiros tempos cristãos e aquando da elaboração do «Credo». 

«O título Filho de Deus revela e indica a relação única e eterna de Jesus com Deus Pai. Reconhecendo o carácter transcendente da filiação divina de Jesus, mostra-se também o carácter inclusivo: também os homens se tornam ‘filhos de Deus’ e rezam a Deus (‘meu Pai e vosso Pai’, diz Jesus) com as palavras do Mestre: ‘Pai nosso’» (Rui Alberto, «Eu creio, Nós cremos. Encontros sobre os fundamentos da fé», ed. Salesianas, Porto 2012, 106).

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.12.12 | Sem comentários
— palavra para terça-feira da terceira semana de advento — 18 de dezembro —

— Evangelho segundo Mateus 1, 18-25

O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio do Profeta, que diz: «A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus connosco’». Quando despertou do sono, José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa. 

— Pôr-lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados

Os «evangelhos da infância» (nome dado aos primeiros capítulos de Mateus e de Lucas) são construções narrativas interessadas em destacar mais os aspetos divinos de Jesus do que a sua humanidade. Há entre os exegetas a discussão sobre o carácter «histórico» destes textos. Recentemente, o Papa Bento XVI publicou o terceiro volume sobre Jesus onde defende a consistência histórica destes acontecimentos...
O tempo de Advento (e Natal) coloca-nos perante uma realidade fundamental da fé cristã: em Jesus Cristo, Deus humanizou-se, Deus assume a nossa condição humana. O mistério da Encarnação revela-nos que o Filho de Deus é verdadeiramente homem (sem anular a sua condição divina). No entanto, continua a ser difícil para muitos cristãos assumir esta realidade. Parece mais fácil aceitar a divindade de Jesus Cristo, remetendo-o para a esfera do transcendente, do que afirmar a sua natureza humana, mostrando que é no humano que podemos encontrar Deus.
Deus revela-se em Jesus Cristo, que é a plenitude do ser humano. O ensinamento religioso que o texto transmite é que Jesus não foi um homem qualquer; foi um ser humano singular, único, que veio ao mundo por ação direta de Deus: «Maria [...] encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo».
O texto também dá a conhecer a identidade e missão de Jesus: ser sinal da salvação oferecida por Deus a toda a Criação. Como é costume na tradição bíblica, o nome remete para a identidade e missão do personagem: «Pôr-lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». Falar de «pecado» é falar de tudo o que é causado pela «maldadeo. A missão de Jesus é libertar-nos da mal, da dor, da ofensa, da desgraça, que diariamente causamos uns aos outros. Mas, para que isso aconteça, é preciso que eu o acolha como «Emanuel», como «Deus connosco». Esta é a verdadeira fonte da nossa alegria!

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.12.12 | Sem comentários
— palavra para segunda-feira da terceira semana de advento — 17 de dezembro —

— Evangelho segundo Mateus 1, 1-17

Genealogia de Jesus Cristo, Filho de David, Filho de Abraão: Abraão gerou Isaac; Isaac gerou Jacob; Jacob gerou Judá e seus irmãos. Judá gerou, de Tamar, Farés e Zara; Farés gerou Esrom; Esrom gerou Arão; Arão gerou Aminadab; Aminadab gerou Naasson; Naasson gerou Salmon; Salmon gerou, de Raab, Booz; Booz gerou, de Rute, Obed; Obed gerou Jessé; Jessé gerou o rei David. David, da mulher de Urias, gerou Salomão; Salomão gerou Roboão; Roboão gerou Abias; Abias gerou Asa; Asa gerou Josafat; Josafat gerou Jorão; Jorão gerou Ozias; Ozias gerou Joatão; Joatão gerou Acaz; Acaz gerou Ezequias; Ezequias gerou Manassés; Manassés gerou Amon; Amon gerou Josias; Josias gerou Jeconias e seus irmãos, ao tempo do desterro de Babilónia. Depois do desterro de Babilónia, Jeconias gerou Salatiel; Salatiel gerou Zorobabel; Zorobabel gerou Abiud; Abiud gerou Eliacim; Eliacim gerou Azor; Azor gerou Sadoc; Sadoc gerou Aquim; Aquim gerou Eliud; Eliud gerou Eleazar; Eleazar gerou Matã; Matã gerou Jacob; Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo. Assim, todas estas gerações são: de Abraão a David, catorze gerações; de David ao desterro de Babilónia, catorze gerações; do desterro de Babilónia até Cristo, catorze gerações. 

— Genealogia de Jesus Cristo

A partir do dia de hoje, 17 de dezembro, a liturgia assume uma dinâmica própria. É a oitava (oito dias) que antecede o Natal. Suspendem-se os dias feriais do Advento e cada dia apresenta referências bíblicas próprias, para destacar a importância da preparação próxima para o Natal. Este itinerário inicia-se com o texto do evangelho segundo Mateus em que se descreve a «Genealogia de Jesus Cristo». 
A lista dos antepassados de Jesus Cristo, de acordo com a perspectiva do evangelista, não é muito edificante. Ao contrário dos grandes «heróis» em que se procura esconder os aspetos menos positivos da sua vida e dos seus antepassados, neste caso parece exatamente o contrário. Esta genealogia assume muito claramente a identidade humana de Jesus Cristo ao destacar antepassados que demonstram a fragilidade do ser humano.
Outra característica própria desta genealogia é a referência a quatro mulheres: Tamar, Raab, Rute e a mulher de Urias (Betsabé). Estas quatro mulheres não pertencem ao povo judeu: Tamar é arameia, Raab é cananeia, Rute é moabita, e a Betsabé é hitita. Desta forma, o evangelista mostra-nos que a «família» de Jesus ultrapassa barreiras culturais e religiosas. 
Em Jesus Cristo, Deus humaniza-se, assume a nossa humanidade. Os evangelhos interessam-se mais pela humanidade concreta («histórica») de Jesus Cristo do que pela humanidade ontológica. Só levando a sério o humano seremos capazes de chegar ao divino!


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.12.12 | Sem comentários
— palavra para domingo da terceira semana de advento —

— Evangelho segundo Lucas 3, 10-18

Naquele tempo, as multidões perguntavam a João Batista: «Que devemos fazer?». Ele respondia-lhes: «Quem tiver duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma; e quem tiver mantimentos faça o mesmo». Vieram também alguns publicanos para serem baptizados e disseram: «Mestre, que devemos fazer?». João respondeu-lhes: «Não exijais nada além do que vos foi prescrito». Perguntavam-lhe também os soldados: «E nós, que devemos fazer?». Ele respondeu-lhes: «Não pratiqueis violência com ninguém nem denuncieis injustamente; e contentai-vos com o vosso soldo». Como o povo estava na expectativa e todos pensavam em seus corações se João não seria o Messias, ele tomou a palavra e disse a todos: «Eu batizo-vos com água, mas está a chegar quem é mais forte do que eu, e eu não sou digno de desatar as correias das suas sandálias. Ele batizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo. Tem na mão a pá para limpar a sua eira e recolherá o trigo no seu celeiro; a palha, porém, queimá-la-á num fogo que não se apaga». Assim, com estas e muitas outras exortações, João anunciava ao povo a Boa Nova».

— Que devemos fazer?

João Batista prega a generosidade e o desprendimento. Em certo sentido, as suas propostas não passam de um moralismo ocasional. Uma prática muito repetida ao longo da história da Igreja: dar o que sobra, não exigir mais do que o devido, não se aproveitar dos mais frágeis... 
«Que devemos fazer?» — perguntam a João Batista. Ele responde com a necessidade de mudar a maneira de pensar e de agir. Pede aos que o escutam uma determinada conduta moral para escapar ao castigo iminente. Jesus propõe-nos uma motivação mais profunda. O objetivo não é escapar à ira de Deus, mas imitá-lo na atitude de entrega aos outros.
Jesus vai mais longe! A «Boa Nova» de Jesus Cristo é muito mais do que evitar o pecado e praticar as virtudes em determinados momentos. O Evangelho de Jesus Cristo propõe uma atitude de vida, uma maneira de viver que marca toda a existência. Não se trata de fazer o bem agora ou depois. Trata-se de viver mergulhado no bem, proporcionar um ambiente onde se respira sempre o estilo de vida proposto por Jesus Cristo.

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 16.12.12 | Sem comentários
— palavra para sábado da segunda semana de advento —

— Evangelho segundo Mateus 17, 10-13

Ao descerem do monte, os discípulos perguntaram a Jesus: «Porque dizem os escribas que Elias tem de vir primeiro?» Jesus respondeu-lhes: «Certamente Elias há de vir para restaurar todas as coisas. Eu vos digo, porém, que Elias já veio; mas, em vez de o reconhecerem, fizeram-lhe tudo o que quiseram. Assim também o Filho do homem será maltratado por eles». Então os discípulos compreenderam que Jesus lhes falava de João Baptista.

— Mas Eu digo-vos que Elias já veio e não o reconheceram

Existia, entre os judeus, uma crença popular que sugeria a segunda vinda do profeta Elias (cf. Malaquias 3, 23). Seria uma espécie de precursor. Como Elias ainda não veio, Jesus não pode ser o Messias! Ora, foi essa a missão de João Batista. Por isso, Jesus afirma que «Elias já veio». Como sabemos, este «Elias» (João Batista) foi preso e degolado, teve um fim trágico.
O desenlace final de João Batista aponta para o desenlace final de Jesus Cristo. Ambos vão percorrer o mesmo caminho (prisão e morte), tal como diz o texto: «Assim também o Filho do homem será maltratado». João e Jesus enfrentam os mesmos adversários (poder).
O poder convive mal com a liberdade, com os homens livres que promovem a uma vida autêntica, sem opressão nem qualquer tipo de domínio. A bondade e a misericórdia são o único caminho proposto por Jesus Cristo, mesmo quando se vislumbra a perseguição e a morte!


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.12.12 | Sem comentários
— palavra para sexta-feira da segunda semana de advento —

— Evangelho segundo Mateus 11, 16-19

Naquele tempo, disse Jesus à multidão: «A quem poderei comparar esta geração? É como os meninos sentados nas praças, que se interpelam uns aos outros, dizendo: ‘Tocámos flauta e não dançastes; entoámos lamentações e não chorastes’. Veio João Baptista, que não comia nem bebia, e dizem que tinha o demónio com ele. Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizem: ‘É um glutão e um ébrio, amigo de publicanos e pecadores’. Mas a sabedoria foi justificada pelas suas obras». 

— É um glutão e um ébrio, amigo de publicanos e pecadores

Dois estilos de vida. Duas pessoas. João Batista e Jesus Cristo. João viveu, no deserto, como um asceta, privado de quase tudo. Jesus viveu, no meio do povo, igual a todos os outros, a ponto de ser chamado de «glutão» e «ébrio». Mas, pelos vistos, nem um nem outro agradou à maioria do povo. 
Jesus Cristo é a «sabedoria» de Deus, «justificada pelas suas obras». A proposta de vida cristã não se fundamenta numa simples teoria, mas na prática, na vivência diária. As obras de Jesus, «amigo de publicanos e pecadores», dão a conhecer um estilo de vida. Eis a importância de assumir um estilo de vida igual ao de Jesus Cristo.
A relação com os outros marca a atitude de vida cristã. Jesus Cristo preocupa-se em aliviar o sofrimento, em curar, em contagiar os outros com alegria, em dar razões para a esperança, em ser amigo de todos (incluindo publicanos e pecadores, que eram os mais «marginalizados» pela sociedade judaica do seu tempo). E é assim, assumindo este estilo de vida, que se pode manifestar também hoje, em nós, a «sabedoria» de Deus.

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.12.12 | Sem comentários
— reflexão semanal sobre o credo niceno-constantinopolitano — 

A afirmação da causalidade («E por nós, homens») completa-se com o motivo: «e para nossa salvação desceu dos Céus». Jesus vem para salvar, para nos reconciliar com Deus. É preciso dizer que «não faz sentido a ideia que Cristo arranca a nossa salvação a um Deus vingador e justiceiro que, desde a origem do tempo, esperava a reparação por todos os pecados acumulados pela humanidade: o Deus que tudo criou em seu Filho é o mesmo que nos acolhe e nos perdoa no seu mesmo Filho» (Rui Alberto, «Eu creio, Nós cremos. Encontros sobre os fundamentos da fé», ed. Salesianas, Porto 2012, 95). [Para ajudar a compreender melhor, ler: Mateus 1, 18-25; Catecismo da Igreja Católica, números 422 e 423, 456 a 460]

«Darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados» — esta indicação dada pelo anjo a José (cf. tema 7) revela a identidade e a missão do menino: ser o «Salvador».

E para nossa salvação. Anuncia-se uma «boa notícia»! Jesus Cristo vem ao mundo para nos salvar. Deus quer o nosso bem, quer que sejamos felizes. A presença de Jesus Cristo no meio de nós é um sinal do amor de Deus. O que acontece agora é uma revelação, um gesto visível da salvação que Deus oferece a todos. Aliás, toda a história é um desenrolar da salvação. Não é por acaso que a designamos como «História da Salvação». Ao afirmar que Jesus Cristo é o Salvador, tornamos presente toda a História. Recordamos «a pedagogia de Deus que, ao longo de toda a história de Israel, renova o seu oferecimento de aliança, a fim de acostumar os seres humanos a viverem da sua vida. [...] Ao tomar nos seus braços o filho de Maria, o velho Simeão tem realmente consciência de tocar, finalmente, a promessa feita a Israel e a salvação do mundo inteiro: ‘Os meus olhos virão a tua salvação’ (Lucas 2, 30)» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 79). É isto mesmo que a Igreja diz, na celebração da Eucaristia, quando se reza a Oração Eucarística IV: «Repetidas vezes fizestes aliança com os homens e pelos profetas os formastes na esperança da salvação. De tal modo amastes o mundo, Pai santo, que chegada a plenitude dos tempos, nos enviastes como Salvador o vosso Filho Unigénito». Em Jesus Cristo, a Criação atinge a plenitude. Podemos dizer que Aquele «por quem todas as coisas forma feitas» é o mesmo que leva à plenitude todas as coisas, tornando «presente» a salvação. Por isso, é um erro pensar que a salvação é um ato restaurador de algo perdido. Não é um regresso ao passado. Ela dá-nos algo que não existia: «Adão não comungava na vida de Deus como nós somos convidados a fazê-lo em Jesus Cristo. [...] A salvação é real participação na vida que Deus propõe e que não é outra coisa que a participação na vida trinitária: aderir fortemente a Jesus para se deixar amar pelo Pai na iluminação do Espírito Santo» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, 82). Então, na sequência do que referimos no início desta reflexão, podemos agora dizer que ser salvo é muito mais do que deixar de ser pecador. É ter acesso a um dom de Deus, que a fé nos diz que é suficientemente forte para acabar com as nossas fugas e as nossas recusas: «é o que chamamos a graça de Deus, isto é, o fascínio da sua gratuidade que transforma a nossa vida» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, 82). O Filho de Deus «desceu dos Céus [...] e se fez homem», para que os homens se tornem filhos de Deus (cf. Catecismo da Igreja Católica, 460). Por isso, todas as tentativas para explicar a salvação (justificação, resgate, redenção, satisfação, libertação, reconciliação) são sempre imperfeitas; são isto mesmo «tentativas» para exprimir um dom de Deus. Ele anula todas as distâncias, mesmo aquelas que são fruto da nossa recusa em amar.

Desceu dos Céus. É Deus que toma a iniciativa de vir ao nosso encontro, por amor. Com a expressão «desceu dos Céus» queremos afirmar que Jesus tem uma origem divina. Na linguagem bíblica, os «Céus» não são a abóboda celeste. Os «Céus» designam a vida de Deus e a vida em Deus. Jesus «desceu dos Céus» porque vive em Deus, é Deus. Além disso, «descer dos Céus» ou «vir de Deus» não significa um lugar. Não se trata de uma viagem que Jesus fez de um lugar (Céus) para outro (terra). É uma afirmação possível na nossa linguagem do grande mistério que torna real a Encarnação: Deus humaniza-se, assume a natureza humana.

Jesus Cristo, o Filho Unigénito de Deus, que vive desde sempre com o Pai, vem habitar a nossa história, assume a nossa humanidade. E assim continuaremos nos próximos temas: «E encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem».


 

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.12.12 | Sem comentários
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