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Anunciar a alegria da fé! [7]


O papa Francisco na Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual («A Alegria do Evangelho» — «Evangelii Gaudium» [EG]), em sintonia com o Documento de Aparecida (DAp), confronta todos os cristãos com uma identidade essencial: ser discípulos missionários (cf. tema 6). Neste e nos próximos temas, vamos apresentar, segundo o Documento de Aparecida, cinco aspetos fundamentais que constituem a base na formação de discípulos missionários: «cinco aspetos fundamentais que aparecem de maneira diversa em cada etapa do caminho, mas que se complementam intimamente e se alimentam entre si» (DAp 278). São eles: o encontro pessoal com Jesus Cristo; a conversão; o discipulado; a comunhão; a missão. Antes de mais, «o discípulo é alguém apaixonado por Cristo, a quem reconhece como o mestre que o conduz e acompanha» (DAp 277).

Encontro com Jesus Cristo

No início da vida cristã está o «encontro pessoal com Jesus Cristo». Por isso, o Papa convida cada cristão «em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar. Não há motivo para alguém poder pensar que este convite não lhe diz respeito, já que ‘da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído’. Quem arrisca, o Senhor não o desilude; e, quando alguém dá um pequeno passo em direção a Jesus, descobre que Ele já aguardava de braços abertos a sua chegada» (EG 3). E os bispos da América Latina e do Caribe declaram: «Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria» (DAp 29). Trata-se de uma alegria (cf. tema 3) que bebe «na fonte do amor maior, que é o de Deus, a nós manifestado em Jesus Cristo. Não me cansarei de repetir estas palavras de Bento XVI que nos levam ao centro do Evangelho: ‘Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo’» (EG 7). Graças a este encontro «com o amor de Deus, que se converte em amizade feliz, é que somos resgatados da nossa consciência isolada e de autorreferencialidade» (EG 8). O Documento de Aparecida explicita assim este aspeto essencial na formação do discípulo missionário: «Aqueles que serão seus discípulos já o buscam (cf. João 1, 38), mas é o Senhor quem os chama: “Segue-me” (Marcos 1, 14; Mateus 9, 9). É necessário descobrir o sentido mais profundo da busca, assim como é necessário propiciar o encontro com Cristo que dá origem à iniciação cristã. Esse encontro deve renovar-se constantemente pelo testemunho pessoal, pelo anúncio do ‘querigma’ e pela ação missionária da comunidade. O ‘querigma’ não é somente uma etapa, mas o fio condutor de um processo que culmina na maturidade do discípulo de Jesus Cristo. Sem o ‘querigma’, os demais aspetos desse processo estão condenados à esterilidade, sem corações verdadeiramente convertidos ao Senhor. Só a partir do ‘querigma’ acontece a possibilidade de uma iniciação cristã verdadeira. Por isso, a Igreja precisa tê-lo presente em todas as suas ações» (DAp 278). Ora, o encontro «com o amor de Deus em Cristo Jesus» (EG 120) acontece na cruz e é um encontro capaz de transformar o cristão em discípulo missionário. Assim, «a primeira motivação para evangelizar é o amor que recebemos de Jesus, aquela experiência de sermos salvos por Ele que nos impele a amá-Lo cada vez mais» (EG 264).

Encontro com o outro

Com Jesus Cristo aprendemos um método (simples) para o encontro com o outro: «Se falava com alguém, fitava os seus olhos com uma profunda solicitude cheia de amor: ‘Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele’ (Marcos 10, 21). Vemo-Lo disponível ao encontro, quando manda aproximar-se o cego do caminho (cf. Marcos 10, 46-52) e quando come e bebe com os pecadores (cf. Marcos 2, 16), sem Se importar que O chamem de glutão e beberrão (cf. Mateus 11, 19). Vemo-Lo disponível, quando deixa uma prostituta ungir-Lhe os pés (cf. Lucas 7, 36-50) ou quando recebe, de noite, Nicodemos (cf. João 3, 1-15). A entrega de Jesus na cruz é apenas o culminar deste estilo que marcou toda a sua vida» (EG 269).

Aceito o convite do Papa para renovar o encontro com Jesus Cristo ou, pelo menos, a deixar-me encontrar por Jesus Cristo? Onde está a minha fonte de amor e de alegria?

© Laboratório da fé, 2015 










Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.11.15 | Sem comentários

Viver a fé! [42]


A conclusão do Compêndio da Doutrina Social da Igreja propõe uma meta: caminharmos «para uma civilização do amor». Esta última proposta desenvolve-se nas seguintes alíneas: «a ajuda da Igreja ao homem contemporâneo» (números 575 e 576); «voltar a partir da fé em Cristo» (577); «uma firme esperança» (578 e 579); «construir a ‘civilização do amor’» (580 a 583).

A ajuda da Igreja ao homem contemporâneo

A Igreja reconhece que se vive «uma nova necessidade de sentido na sociedade contemporânea. [...] Revelam-se árduas as tentativas de responder à exigência de projetar o futuro no novo contexto das relações internacionais, cada vez mais complexas e interdependentes, mas também menos ordenadas e pacíficas» (575). Por isso, «às interrogações de fundo sobre o sentido e o fim da aventura pessoal a Igreja responde com o anúncio do Evangelho de Cristo, que subtrai a dignidade da pessoa humana ao flutuar das opiniões, assegurando a liberdade do ser humano como nenhuma lei humana pode fazer. O II Concílio do Vaticano indicou que a missão da Igreja no mundo contemporâneo consiste em ajudar cada ser humano a descobrir em Deus o significado último da sua existência [...]. Somente Deus, que criou o ser humano à sua imagem e o resgatou do pecado, pode oferecer às interrogações humanas mais radicais uma resposta plenamente adequada por meio da Revelação realizada definitivamente no seu Filho feito homem» (576).

Voltar a partir da fé em Cristo

«A fé em Deus e em Jesus Cristo ilumina os princípios morais que são ‘o fundamento único e insubstituível da estabilidade e tranquilidade, da ordem interior e exterior, particular e pública, únicos valores capazes de criar e salvaguardar a prosperidade dos Estados’. A vida social deve ser ancorada no desígnio divino [...]. Também no que diz respeito à ‘questão social’, não se pode aceitar ‘a esperança ingénua de que possa haver uma fórmula mágica para os grandes desafios do nosso tempo; não será uma fórmula a salvar-nos, mas uma Pessoa, e a certeza que Ela nos infunde: Eu estarei convosco!’» (577).

Uma firme esperança

«A Igreja ensina ao ser humano que Deus lhe oferece a real possibilidade de superar o mal e de alcançar o bem. O Senhor redimiu o humano, resgatou-o por um ‘grande preço’ (1Coríntios 6, 20). O sentido e o fundamento do empenho cristão no mundo derivam de tal certeza, capaz de acender a esperança não obstante o pecado que marca profundamente a história humana: a promessa divina garante que o mundo não permanece fechado em si mesmo, mas está aberto ao Reino de Deus» (578). «A esperança cristã imprime um grande impulso ao compromisso no campo social, infundindo confiança na possibilidade de construir um mundo melhor, na consciência de que não pode existir um ‘paraíso terrestre’. Os cristãos, especialmente os fiéis leigos, são exortados a comportar-se de modo que ‘a força do Evangelho resplandeça na vida quotidiana, familiar e social’» (579).

Construir a «civilização do amor»

«Finalidade imediata da doutrina social é a de propor os princípios e os valores que possam suster uma sociedade digna do ser humano. Entre estes princípios, o da solidariedade em certa medida compreende todos os demais: ele constitui ‘um dos princípios básicos da conceção cristã da organização social e política’. Tal princípio é iluminado pelo primado da caridade, ‘sinal distintivo dos discípulos de Cristo’ [...]. O comportamento da pessoa é plenamente humano quando nasce do amor, manifesta o amor e é ordenado para o amor. Esta verdade vale também no âmbito social» (580). Assim, «o amor deve estar presente e penetrar todas as relações sociais [...]. Este amor pode ser chamado ‘caridade social’ ou ‘caridade política’ e deve ser estendido a todo o género humano» (581). Ora, «para tornar a sociedade mais humana, mais digna da pessoa, é necessário revalorizar o amor na vida social – nos planos político, económico, cultural –, fazendo dele a norma constante e suprema do agir. [...] Não se pode regular as relações humanas ‘unicamente com a medida da justiça’» (582). «Só a caridade pode transformar completamente o ser humano. Uma semelhante transformação não significa anulação da dimensão terrena numa espiritualidade desencarnada. [...] A caridade representa o maior mandamento social. Ela respeita o outro e os seus direitos, exige a prática da justiça, de que só ela nos torna capazes e inspira-nos uma vida de entrega [...]. Tão-pouco pode a caridade esgotar-se unicamente na dimensão terrena das relações humanas e das relações sociais, porque toda a sua eficácia deriva da referência a Deus» (583).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.7.15 | Sem comentários

Viver a fé! [34]


O capítulo nono do Compêndio da Doutrina Social da Igreja é dedicado à «Comunidade Internacional». Neste tema apresentamos os dois primeiros pontos: «aspetos bíblicos» (números 429 a 432); «as regras fundamentais da Comunidade Internacional» (números 433 a 439).

A unidade da família humana

«Os relatos bíblicos sobre as origens mostram a unidade do género humano e ensinam que o Deus de Israel é o Senhor da história e do cosmos: a sua ação abraça todo o mundo e a família humana inteira, à qual é destinada a obra da criação» (428). Assim, «a aliança de Deus com Noé (cf. Génesis 9, 1-17) e, nele, com toda a humanidade, após a destruição causada pelo dilúvio, manifesta que Deus quer manter para a comunidade humana a bênção de fecundidade» (429). Entretanto, após a divisão causada pelo episódio de Babel, «a aliança estabelecida por Deus com Abraão, eleito ‘pai de uma multidão de povos’ (Génesis 17, 4), abre o caminho para a reunião da família humana no seu Criador. [...] Os Profetas anunciarão, para um tempo escatológico, a peregrinação de todos os povos ao templo do Senhor e uma era de paz entre as nações» (430).

Jesus Cristo protótipo e fundamento da nova humanidade

«O Senhor Jesus é o protótipo e o fundamento da nova humanidade. N’Ele, verdadeira ‘imagem de Deus’ (2Coríntios 4, 4), o ser humano, criado por Deus à sua imagem e à sua semelhança, encontra a sua realização» (431).

A viação universal do Cristianismo

«A mensagem cristã oferece uma visão universal da vida dos seres humanos e dos povos sobre a Terra que leva a compreender a unidade da família humana [...]. A mensagem cristã foi decisiva para fazer a humanidade compreender que os povos tendem a unirem-se não apenas em razão das formas de organização, de vicissitudes políticas, de projetos económicos ou em nome de um internacionalismo abstrato e ideológico, mas porque livremente se orientam em direção à cooperação, ‘conscientes de pertencer como membros vivos a uma comunidade mundial’, que se deve propor sempre mais e sempre melhor como figura concreta da unidade querida pelo Criador» (432).

Comunidade Internacional e valores

«A centralidade da pessoa humana e da aptidão natural das pessoas e dos povos para estreitar relações entre si são elementos fundamentais para construir uma verdadeira comunidade internacional, cuja organização deve tender ao efetivo bem comum universal. [...] A convivência entre as nações funda-se nos mesmos valores que devem orientar a convivência entre os seres humanos: a verdade, a justiça, a solidariedade e a liberdade» (433). «A comunidade internacional é uma comunidade jurídica fundada sobre a soberania de cada Estado-membro, sem vínculos de subordinação que neguem ou limitem a cada qual a sua independência» (434). «O magistério reconhece a importância da soberania nacional [...]. Não é, porém, um absoluto. As nações podem renunciar livremente ao exercício de alguns dos seus direitos, em vista de um objetivo comum, com a consciência de formarem uma única ‘família’, na qual devem reinar a confiança recíproca, o apoio e o respeito mútuo» (435).

Relações fundadas na harmonia entre ordem jurídica e ordem moral

«A mesma lei moral que rege a vida dos seres humanos deve regular também as relações entre os Estados [...], uma ‘gramática’ capaz de orientar o diálogo sobre o futuro do mundo» (436). «O respeito universal dos princípios que inspiram uma ‘ordenação jurídica em harmonia com a ordem moral’ é uma condição necessária para a estabilidade da vida internacional» (437). «Para resolver os conflitos que surgem entre as diversas comunidades políticas e que comprometem a estabilidade das nações e a segurança internacional, é indispensável referir-se a regras comuns confiadas à negociação, renunciando definitivamente à ideia de buscar a justiça mediante o recurso à guerra [...]. A Carta das Nações Unidas interditou não somente o recurso à força, mas também a simples ameaça de usá-la: tal disposição nasceu da trágica experiência da Segunda Guerra Mundial» (438). «Para consolidar o primado do direito, vale acima de tudo o princípio da confiança recíproca. Nesta perspetiva, os instrumentos normativos para a solução pacífica das controvérsias devem ser repensados de tal modo que lhes sejam reforçados o alcance e a obrigatoriedade. [...] Consentirá à Comunidade Internacional propor-se já não como simples momento de agregação da vida dos Estados, mas como uma estrutura em que os conflitos possam ser resolvidos pacificamente» (439).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.6.15 | Sem comentários
Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

A noite de Natal simboliza tudo o que é mais formoso e desejável no coração humano: inocência, carinho, bondade, amabilidade, ternura, sorriso, alegria, vida e o futuro à sua frente. Tudo está simbolizado na inocência de um menino que nasce. Com a vantagem, no nosso caso, de que este menino tem Deus no mais profundo do seu ser. O seu ser é ser de Deus. Desde então, a bondade, a amabilidade, a alegria e a vida do humano estão impregnadas de eternidade. O passado, o presente e o futuro deste menino é o passado de todos os humanos (vimos de Deus), o presente de todos eles (estamos em Deus) e o seu futuro (somos feitos para Deus e Deus é a meta e o sentido da nossa vida).
A noite de Natal recapitula os desejos de paz e entendimento que habitam em cada ser humano, os desejos que as mudanças na vida corrompem com demasiada frequência. A paz fundada na inocência, no olhar o outro sem ressentimentos, com uma confiança espontânea. A paz que é fruto do amor. E o entendimento que se baseia na necessidade que todos temos do outro, como o menino que precisa dos outros para nascer, sustentar o seu ser e crescer. Porque precisa deles, acolhe-os com naturalidade e estende os braços para acolher e ser acolhido.
A noite de Natal une o humano com o divino, reconcilia o distante, une o afastado. Deus e o humano numa só pessoa. E, ao unir Deus com o humano, une os seres humanos entre si. Porque se Deus se faz humano, ser humano é o mais maravilhoso que se pode ser. Se Deus se faz humano não é só porque o humano tem capacidade para Deus, mas, sobretudo, porque os seres humanos têm capacidade de amor, estão feitos para o amor. O humano não é o ódio ou a rejeição, mas o acolhimento e o encontro.
Na noite de Natal tudo é amanhecer, tudo aponta para este sol que nasce do alto para iluminar os que vivem nas trevas e nas sombras da morte, para guiar os nossos passos pelo caminho da paz. Nesta noite, Deus revela o rosto oculto do seu ser: graça, amor, misericórdia. Por isso, nesta noite importa proclamar que não há nada mais urgente, nada mais necessário do que conhecer e dar a conhecer o verdadeiro Deus, aquele cuja última palavra se pronuncia: Jesus Cristo. Este é o único nome que pode salvar; o nome que, mesmo sem o saber, todos procuramos.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor






Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.12.13 | Sem comentários

Mistério da fé! [8]


O Batismo é o primeiro sacramento e o primeiro dos sacramentos. «O Batismo, porta da vida e do reino, é o primeiro sacramento da nova lei, que Cristo propôs a todos para terem a vida eterna, e, em seguida, confiou à sua Igreja, juntamente com o Evangelho» (Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos. Preliminares Gerais, 3). Neste tema, apresentamos o fundamento do Sacramento do Batismo associado ao mandato de Jesus Cristo ressuscitado confiado aos discípulos [Para ajudar a compreender melhor, ler: Mateus 28, 16-20; Catecismo da Igreja Católica (CIC), números 1213 a 1216]

«Ide... fazei discípulos... 

batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo»

— é, segundo a narração de Mateus, o mandato que Jesus Cristo ressuscitado confia aos (onze) discípulos. A presença terrena de Jesus Cristo continua com a presença missionária dos discípulos (até ao fim dos tempos). A fórmula batismal explicitamente trinitária — «em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo» — é única em todos os escritos do Novo Testamento. É provável que tenha origem na prática litúrgica já existente na comunidade a que pertence o evangelista Mateus.

Batismo

O Batismo é o primeiro dos sacramentos, o ponto de partida da Iniciação Cristã (cf. tema 7), «o fundamento de toda a vida cristã, o pórtico da vida no Espírito (‘porta da vida espiritual’) e a porta que dá acesso aos outros sacramentos» (Catecismo da Igreja Católica», 1213). A palavra «batismo» deriva do «grego, ‘baptisma’, que, por sua vez, vem de ‘bapto’ (banhar) e de ‘baptizdo’ (submergir, mergulhar na água). O seu sentido original é, portanto, banho, ablução externa, embora entendendo-a no seu sentido de purificação e vida nova» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia» [DEL], ed. Paulinas, Prior Velho, 2007, 47).

Mandato de Cristo

Nos relatos evangélicos segundo Mateus e Marcos há uma referência ao mandato confiado aos discípulos: «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado» (Mateus 28, 19-20); «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for batizado será salvo» (Marcos 16, 15-16). Jesus Cristo apresenta-se como aquele que ressuscitou de entre os mortos e que tem plena autoridade para encarregar os discípulos de continuarem até ao fim dos tempos a atividade que tinha iniciado. Os discípulos são enviados («Ide») ao mundo inteiro para proclamar o Evangelho, «fazer» discípulos, batizar e ensinar «a cumprir tudo» o que aprenderam de Jesus Cristo. O (novo) discipulado concretiza-se na adesão aos ensinamentos de Jesus Cristo («acreditar») e na participação na vida da Trindade através da celebração do Sacramento do Batismo. Com esta referência bíblica confirma-se que desde o tempo dos Apóstolos o Batismo tornou-se essencial para a adesão à fé cristã, juntamente com o acolhimento do Evangelho, a Boa Nova de Jesus Cristo. Em primeiro lugar, fica claro que a experiência pascal dos discípulos não é para o próprio consolo interior, mas para assumir uma missão universal. Esta missão é confiada por Jesus Cristo para que anunciem o Evangelho a «todos os povos», ao «mundo inteiro». O anúncio do Evangelho não tem nenhum tipo de fronteiras: geográficas, económicas, políticas, sociais, culturais... É universal por natureza. Hoje, esta continua a ser a missão confiada a todos os discípulos, a todos os cristãos. O Batismo não é para um consolo próprio, mas para dar continuidade à missão. O papa Francisco tem insistido com frequência na importância do mandato de Cristo: «Não se fechem, por favor! Isto é um perigo: fecharmo-nos na paróquia, com os amigos, no movimento, com aqueles que pensam as mesmas coisas que eu... Sabeis o que sucede? Quando a Igreja se fecha, adoece, fica doente. Imaginai um quarto fechado durante um ano; quando lá entras, cheira a mofo e há muitas coisas que não estão bem. A uma Igreja fechada sucede o mesmo: é uma Igreja doente. A Igreja deve sair de si mesma. Para onde? Para as periferias existenciais, sejam quais forem…, mas sair. Jesus diz-nos: ‘Ide pelo mundo inteiro! Ide! Pregai! Dai testemunho do Evangelho!’» (Francisco, Vigília de Pentecostes, 18 de maio de 2013). Em segundo lugar, a missão não consiste em transmitir uma «ideologia» ou uma simples «doutrina». A missão está associada ao batismo: «Quem acreditar e for batizado será salvo».

O Sacramento do Batismo é muito mais do que um simples rito ou ritual. Celebrar o Batismo significa mergulhar a totalidade da vida em Jesus Cristo para assumir uma vida nova.






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 28.11.13 | Sem comentários

Mistério da fé! [6]


A ação litúrgica da Igreja está relacionada com os sacramentos. É certo que nem toda a celebração litúrgica se reduz aos sacramentos; mas estes são o centro e o coração da liturgia. Depois de termos aprofundado a liturgia, vamos abordar a temática sacramental. E começamos por esclarecer a questão: O que é um sacramento? [Para ajudar a compreender melhor, ler: João 1, 38-39; Catecismo da Igreja Católica (CIC), números 1179 a 1113-1134]

«Vinde e vereis»

— diz Jesus Cristo aos que lhe perguntam: «Mestre, onde moras?». O narrador acrescenta: «Foram, pois, e viram onde morava e ficaram com Ele». A adesão é antecedida pelo conhecimento da morada e pela experiência de comunhão. «Vinde e vereis» é também o convite da Igreja, mostrando que Jesus Cristo continua vivo e operante, na resposta às inquietações mais profundas do ser humano. Hoje, fá-lo, sobretudo, pelos sacramentos.

Sacramento

A palavra latina «sacramentum» designava, juridicamente, o depósito de um valor como garantia da boa-fé e da promessa do cumprimento. Era o «juramento de fidelidade» que se estabelecia entre duas pessoas ou entidades. «Quando se começou a traduzir a Bíblia para latim, esta palavra [sacramento] pareceu adequada a verter o termo grego ‘mistério’ que, no Novo Testamento — sobretudo em Paulo — designa o plano divino de salvação, que se realiza no tempo. O ‘mistério’ é uma espécie de pacto pela qual Deus Se dirige ao ser humano no amor, entra na sua história e chama-o a edificar consigo o Seu projeto de salvação» (Bruno Forte, «Introdução aos Sacramentos», Gráfica de Coimbra, Coimbra 1997, 16). No entanto, hoje, continua-se a usar os dois termos: mistério e sacramento. Este (sacramento) designa o sinal visível e eficaz da realidade divina; aquele (mistério) designa a realidade invisível.

Jesus Cristo

«O verdadeiro sacramento é Jesus Cristo. Como dizia Santo Agostinho, ‘não há outro sacramento de Deus senão Cristo’ (Carta 187). Ele é o sinal vivente que nos exprime a salvação de Deus, contém-na em si mesmo, e no-la comunica eficazmente, agora, por meio da sua Igreja. Cristo não só instituiu os sacramentos, como Ele próprio é o sacramento primordial e definitivo do encontro de Deus com a humanidade» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia» [DEL], ed. Paulinas, Prior Velho, 2007, 266-267).

Igreja

«A Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano» — afirma o II Concílio do Vaticano, na Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG 1). Esta é a primeira finalidade da Igreja (cf. CIC 775). «Como sacramento, a Igreja é instrumento de Cristo. ‘É assumida por Ele como instrumento da redenção universal’ (LG 9), ‘o sacramento universal da salvação’ (LG 48), pelo qual o mesmo Cristo ‘manifesta e atualiza o mistério do amor de Deus pelos seres humanos’ (Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual — «Gaudium et Spes», 45). É o ‘projeto visível do amor de Deus para com a humanidade’» (CIC 776).

Sete sacramentos

Durante os primeiros doze séculos a palavra «sacramento» era usada para designar várias realidades: Cristo, Igreja, Escritura, Páscoa, Encarnação, Quaresma, entre outras. Só a partir do século XIII — e com mais evidência após o Concílio de Trento — se utiliza o termo «sacramento» para indicar as sete ações sacramentais da Igreja (Batismo, Confirmação ou Crisma, Eucaristia, Penitência, Unção dos Doentes, Ordem e Matrimónio). Curiosamente, o II Concílio do Vaticano retoma o seu uso original, aplicando-o a Jesus Cristo, à Igreja, e em sentido ainda mais amplo, referindo-se ao cristão, ao ser humano, às coisas criadas. Na verdade, se «sacramento» significa a manifestação visível do dom invisível da graça de Deus, não há nenhum inconveniente em aplicar o vocábulo a outras realidades além dos sete sacramentos. «Os sete sacramentos têm a ver com todas as fases e momentos importantes da vida do cristão: conferem nascimento e crescimento, cura e missão à vida de fé dos cristãos. Existe uma certa semelhança entre as fases da vida natural e as da vida espiritual» (CIC 1210). Atos eficazes «como ‘forças que saem’ do Corpo de Cristo, sempre vivo e vivificante; ações do Espírito Santo que opera no seu Corpo que é a Igreja, os sacramentos são ‘as obras-primas de Deus’, na nova e eterna Aliança» (CIC 1116).

«Há sacramentos da iniciação, que introduzem na fé: o Batismo, a Confirmação e a Eucaristia. Há sacramentos da cura: a Reconciliação e a Unção dos Enfermos. E há sacramentos da comunhão e do envio: o Matrimónio e a Ordem» (YOUCAT 193).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.11.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [21]


Podemos assim compreender a novidade, a que a fé nos conduz. O crente é transformado pelo Amor, ao qual se abriu na fé; e, na sua abertura a este Amor que lhe é oferecido, a sua existência dilata-se para além dele próprio. São Paulo pode afirmar: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim» (Gálatas 2, 20), e exortar: «Que Cristo, pela fé, habite nos vossos corações» (Efésios 3, 17). Na fé, o «eu» do crente dilata-se para ser habitado por um Outro, para viver num Outro, e assim a sua vida amplia-se no Amor. É aqui que se situa a acção própria do Espírito Santo: o cristão pode ter os olhos de Jesus, os seus sentimentos, a sua predisposição filial, porque é feito participante do seu Amor, que é o Espírito; é neste Amor que se recebe, de algum modo, a visão própria de Jesus. Fora desta conformação no Amor, fora da presença do Espírito que o infunde nos nossos corações (cf. Romanos 5, 5), é impossível confessar Jesus como Senhor (cf. 1Coríntios 12, 3).

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»] — pdf

  • A luz da fé — números publicados no Laboratório da fé > > >



Refletir... saborear

  • A fé conduz-nos a uma novidade
  • Na fé, o crente é habitado por Jesus Cristo
  • Na fé, o crente vive em Jesus Cristo
  • Na fé, a vida do crente amplia-se no Amor: o Espírito Santo
  • O Espírito Santo atua em cada pessoa para que:
    — tenha os olhos de Jesus Cristo
    — tenha os sentimentos de Jesus Cristo
    — tenha a predisposição filial de Jesus Cristo
  • Sem Espírito Santo, sem o Amor, não é possível confessar a fé em Jesus Cristo
  • A fé conduz-se a que novidade?
  • Sou habitado por Jesus Cristo?
  • Posso dizer como Paulo: «é Cristo que vive em mim»?
  • Tenho consciência da presença do Espírito Santo?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [20]


A nova lógica da fé centra-se em Cristo. A fé em Cristo salva-nos, porque é n’Ele que a vida se abre radicalmente a um Amor que nos precede e transforma a partir de dentro, que age em nós e connosco. Vê-se isto claramente na exegese que o Apóstolo dos gentios faz de um texto do Deuteronómio; uma exegese que se insere na dinâmica mais profunda do Antigo Testamento. Moisés diz ao povo que o mandamento de Deus não está demasiado alto nem demasiado longe do ser humano; não se deve dizer: «Quem subirá por nós até ao céu e no-la irá buscar?» ou «Quem atravessará o mar e no-la irá buscar?» (cf. Deuteronómio 30, 11-14). Esta proximidade da palavra de Deus é concretizada por São Paulo na presença de Jesus no cristão. «Não digas no teu coração: Quem subirá ao céu? Seria para fazer com que Cristo descesse. Nem digas: Quem descerá ao abismo? Seria para fazer com que Cristo subisse de entre os mortos» (Romanos 10, 6-7). Cristo desceu à terra e ressuscitou dos mortos: com a sua encarnação e ressurreição, o Filho de Deus abraçou o percurso inteiro do ser humano e habita nos nossos corações por meio do Espírito Santo. A fé sabe que Deus Se tornou muito próximo de nós, que Cristo nos foi oferecido como grande dom que nos transforma interiormente, que habita em nós, e assim nos dá a luz que ilumina a origem e o fim da vida, o arco inteiro do percurso humano.

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»] — pdf

  • A luz da fé — números publicados no Laboratório da fé > > >



Refletir... saborear

  • A fé em Jesus Cristo salva-nos
  • Em Jesus Cristo, a vida abre-se a um Amor que nos precede e transforma
  • Em Jesus Cristo, a vida abre-se a um Amor que age em nós e connosco
  • A palavra de Deus está perto de nós, dentro de nós
  • A proximidade da palavra de Deus concretiza-se na presença de Jesus Cristo no cristão
  • Pela incarnação e ressurreição, Jesus Cristo abraçou toda a existência humana
  • Jesus Cristo habita nos nossos corações, por meio do Espírito Santo
  • A fé sabe que Deus se tornou próximo de nós
  • A fé sabe que Jesus Cristo foi-nos oferecido como um grande dom
  • A fé sabe que Jesus Cristo habita em nós e nos transforma
  • A fé sabe que Jesus Cristo dá-nos a luz que ilumina toda a nossa vida
  • Qual é o fonte da (minha) salvação?
  • Quem é o «Amor» que nos precede e transforma?
  • Sinto que a palavra de Deus está dentro de mim?
  • Tem sentido dizer: «a fé sabe que...»? Porquê?
  • Acredito na proximidade de Deus? 
  • Como é que a presença de Jesus Cristo se manifesta na minha vida?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 31.8.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [18]


A plenitude a que Jesus leva a fé possui outro aspeto decisivo: na fé, Cristo não é apenas Aquele em quem acreditamos, a maior manifestação do amor de Deus, mas é também Aquele a quem nos unimos para poder acreditar. A fé não só olha para Jesus, mas olha também a partir da perspetiva de Jesus e com os seus olhos: é uma participação no seu modo de ver. Em muitos âmbitos da vida, fiamo-nos de outras pessoas que conhecem as coisas melhor do que nós: temos confiança no arquiteto que constrói a nossa casa, no farmacêutico que nos fornece o remédio para a cura, no advogado que nos defende no tribunal. Precisamos também de alguém que seja fiável e perito nas coisas de Deus: Jesus, seu Filho, apresenta-Se como Aquele que nos explica Deus (cf. João 1, 18). A vida de Cristo, a sua maneira de conhecer o Pai, de viver totalmente em relação com Ele abre um espaço novo à experiência humana, e nós podemos entrar nele. São João exprimiu a importância que a relação pessoal com Jesus tem para a nossa fé, através de vários usos do verbo crer. Juntamente com o «crer que» é verdade o que Jesus nos diz (cf. João 14, 10; 20, 31), João usa mais duas expressões: «crer a (sinónimo de dar crédito a)» Jesus e «crer em» Jesus. «Cremos a» Jesus, quando aceitamos a sua palavra, o seu testemunho, porque Ele é verdadeiro (cf. João 6, 30). «Cremos em» Jesus, quando O acolhemos pessoalmente na nossa vida e nos confiamos a Ele, aderindo a Ele no amor e seguindo-O ao longo do caminho (cf. João 2, 11; 6, 47; 12, 44).
Para nos permitir conhecê-Lo, acolhê-Lo e segui-Lo, o Filho de Deus assumiu a nossa carne; e, assim, a sua visão do Pai deu-se também de forma humana, através de um caminho e um percurso no tempo. A fé cristã é fé na encarnação do Verbo e na sua ressurreição na carne; é fé num Deus que Se fez tão próximo que entrou na nossa história. A fé no Filho de Deus feito homem em Jesus de Nazaré não nos separa da realidade; antes permite-nos individualizar o seu significado mais profundo, descobrir quanto Deus ama este mundo e o orienta sem cessar para Si; e isto leva o cristão a comprometer-se, a viver de modo ainda mais intenso o seu caminho sobre a terra.

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»] — pdf

  • A luz da fé — números publicados no Laboratório da fé > > >



Refletir... saborear

  • Jesus Cristo é Aquele em quem acreditamos
  • Jesus Cristo é Aquele a quem nos unimos para acreditar
  • A fé olha a partir da perspetiva de Jesus Cristo
  • Jesus Cristo é fiável, perito nas coisas de Deus
  • A fé é «crer que» é verdade o que Jesus Cristo nos diz
  • A fé é «crer a» (sinónimo de «dar crédito a») Jesus Cristo: aceitar os seus ensinamentos
  • A fé é «crer em» Jesus Cristo: acolhê-lo na nossa vida
  • A fé cristã é fé na encarnação do Verbo
  • A fé cristã é fé na ressurreição da carne
  • A fé cristã é fé num Deus que se fez tão próximo que entrou na história
  • A fé cristã é fé num Deus que ama este mundo e orienta-o para si
  • Estou unido a Jesus Cristo na maneira de viver?
  • O que significa diz que a fé é «crer que», crer a», «crer em» Jesus Cristo?
  • Qual a importância da fé na encarnação e na ressurreição?
  • De que modo Deus ama este mundo e o orienta para si?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.8.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [15]


«Abraão [...] exultou pensando em ver o meu dia; viu-o e ficou feliz» (João 8, 56). De acordo com estas palavras de Jesus, a fé de Abraão estava orientada para Ele, de certo modo era visão antecipada do seu mistério. Assim o entende Santo Agostinho, quando afirma que os Patriarcas se salvaram pela fé; não fé em Cristo já chegado, mas fé em Cristo que havia de vir, fé proclive para o evento futuro de Jesus [13]. A fé cristã está centrada em Cristo; é confissão de que Jesus é o Senhor e que Deus O ressuscitou de entre os mortos (cf. Romanos 10, 9). Todas as linhas do Antigo Testamento se concentram em Cristo: Ele torna-Se o «sim» definitivo a todas as promessas, fundamento último do nosso «Amen» a Deus (cf. 2Coríntios 1, 20). A história de Jesus é a manifestação plena da fiabilidade de Deus. Se Israel recordava os grandes actos de amor de Deus, que formavam o centro da sua confissão e abriam o horizonte da sua fé, agora a vida de Jesus aparece como o lugar da intervenção definitiva de Deus, a suprema manifestação do seu amor por nós. A palavra que Deus nos dirige em Jesus já não é uma entre muitas outras, mas a sua Palavra eterna (cf. Hebreus 1, 1-2). Não há nenhuma garantia maior que Deus possa dar para nos certificar do seu amor, como nos lembra São Paulo (cf. Romanos 8, 31-39). Portanto, a fé cristã é fé no Amor pleno, no seu poder eficaz, na sua capacidade de transformar o mundo e iluminar o tempo. «Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele» (1João 4, 16). A fé identifica, no amor de Deus manifestado em Jesus, o fundamento sobre o qual assenta a realidade e o seu destino último.

[13] Cf. In evangelium Johannis tractatus, 45, 9: PL 35, 1722- 1723

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
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Refletir... saborear

  • A fé cristã tem o seu centro em Jesus Cristo
  • Jesus Cristo é a plenitude da Revelação e da fé
  • O Antigo Testamento orienta-se para Jesus Cristo
  • A salvação antes de Jesus Cristo acontece pela «fé em Cristo que havia de vir»
  • Jesus Cristo é a garantia de que Deus é fiel às suas promessas
  • Jesus Cristo é «o lugar da intervenção definitiva de Deus» 
  • Jesus Cristo é a «Palavra eterna» de Deus
  • Jesus Cristo é a presença do Amor pleno, capaz de transformar e iluminar o mundo
  • A (minha) fé tem como centro Jesus Cristo?
  • Qual é a importância do Antigo Testamento para os cristãos?
  • O que significa a entrada de Jesus Cristo na nossa história?
  • Porque é que Jesus Cristo é a «Palavra eterna» de Deus?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.8.13 | Sem comentários

A porta da fé [2]


Estamos a catorze semanas de concluir o Ano da Fé, que se iniciou em outubro de 2012 e terminará em novembro de 2013. Semanalmente, apresentamos um número da Carta Apostólica do papa Bento XVI com a qual proclamou o Ano da Fé — «A porta da fé» («Porta Fidei»). E juntamos uma proposta de reflexão elaborada por Pedro Jaramillo. O objetivo é dar um contributo para uma avaliação mais cuidada sobre a forma como estamos a viver o Ano da Fé. Bom proveito!

Desde o princípio do meu ministério como Sucessor de Pedro, lembrei a necessidade de redescobrir o caminho da fé para fazer brilhar, com evidência sempre maior, a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo. Durante a homilia da Santa Missa no início do pontificado, disse: «A Igreja no seu conjunto, e os Pastores nela, como Cristo devem pôr-se a caminho para conduzir os homens fora do deserto, para lugares da vida, da amizade com o Filho de Deus, para Aquele que dá a vida, a vida em plenitude» [1]. Sucede não poucas vezes que os cristãos sintam maior preocupação com as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerando esta como um pressuposto óbvio da sua vida diária. Ora um tal pressuposto não só deixou de existir, mas frequentemente acaba até negado [2]. Enquanto, no passado, era possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente compartilhado no seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ela inspirados, hoje parece que já não é assim em grandes sectores da sociedade devido a uma profunda crise de fé que atingiu muitas pessoas.

[1] Homilia no início do ministério petrino do Bispo de Roma (24 de Abril de 2005): AAS97 (2005), 710
[2] Cf. Bento XVI, Homilia da Santa Missa no Terreiro do Paço (Lisboa – 11 de Maio de 2010): L’Osservatore Romano (ed. port. de 15/V/2010), 3


A porta da fé [Carta Apostólica para o Ano da Fé - «Porta Fidei»]

  • A porta da fé — números publicados no Laboratório da fé > > >



Aspetos que se podem sublinhar

  • Caminho da fé e encontro vivo com Cristo. A meta do ato de fé é o nosso encontro pessoal com Jesus Cristo. Sem este encontro, não passamos de batizados a discípulos.
  • Um caminho salvador: «conduzir os homens [para] fora do deserto, para lugares da vida». Bento XVI gosta muito de falar dos «desertos» pessoais. São aquelas zonas da nossa vida que ainda não foram «fecundadas pela graça». Examino os meus «desertos pessoais».
  • Não dar como suposto, sem o explicitar, que a fé é a fonte de todos os compromissos crentes. Temos de nos comprometer com a vida? SIM. E o mais maravilhoso é que a raiz desse compromisso é a nossa própria fé. Não temos que pedir emprestadas outras motivações. É a mesma fé que temos que nos leva ao compromisso.
  • A crise de fé manifesta-se, especialmente, na falta de evangelização da cultura e das culturas. Quando conseguimos evangelizar as culturas (fazer que sejam mais conformes ao Evangelho) é muito mais fácil «respirar» a fé. Quando as culturas perdem a inspiração evangélica, muitas vezes temos de «nadar contra a corrente».

Interiorizando

  • Examinamos se a fé já desceu da cabeça ao coração e é «geradora de vida». Não é suficiente «saber» os conteúdos da fé. A fé tem de descer ao coração para, a partir dele, influenciar os meus comportamentos.

  • Examinamos se a fé nos converte em «espaço de vida», para onde podemos convidar aqueles que andam pelos «desertos da morte». A fé faz-nos crescer, amadurecer e viver em plenitude. É como a semente: nasce, cresce, faz dos nossos campos «espaços de vida». Que diferença quando há seca! Tudo parece um deserto.

  • Examinamos se a fé está na fonte dos nossos compromissos de vida. Temos que nos dedicar aos compromissos familiares e sociais. Mas, para um crente, a raiz desse compromisso é a fé. Com mais fé, mais compromisso.

  • Examinamos se a nossa ação evangelizadora é individualista (interessa-nos apenas «salvar almas») ou procura chegar à evangelização das culturas. O que temos de mudar pessoal e pastoralmente, para que seja assim? Para poder «salvar pessoas» temos que «salvar» as situações em que essas pessoas vivem. Já dizia São Tomás: «não se podem evangelizar estômagos vazios».

© Pedro Jaramillo
© Tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

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Bento XVI, Carta Apostólica «A porta da fé»
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.8.13 | Sem comentários

Jornada Mundial da Juventude


O papa Francisco, no dia 25 de Julho de 2013, presidiu à cerimónia de boas-vindas, na praia de Copacabana (Rio de Janeiro, Brasil). Aí, fez uma primeira saudação e depois uma homilia. Neste artigo, apresentamos a saudação e o texto da homilia
Em primeiro lugar, na saudação, dirigiu-se aos jovens para enaltecer o entusiasmo e a alegria com que estão a viver estes dias da Jornada Mundial da Juventude, aceitando o convite de Jesus. Em pleno Ano da Fé, disse que Jesus faz três perguntas: Queres ser meu discípulo? Queres ser meu amigo? Queres ser testemunha do Evangelho? E acrescentou: «As vossas famílias e comunidades locais transmitiram-vos o grande dom da fé. Cristo cresceu em vós. Hoje, vim aqui para vos confirmar na fé, a fé em Cristo vivo que habita em vós, mas vim também para ser confirmado pelo entusiasmo da vossa fé».
Na homilia, serviu-se da linguagem popular: bote fé, bote esperança, bote amor, bote Cristo e a sua vida será fecunda. «Bote fé» e a vida terá um sabor novo; «bote esperança» e todos os seus dias serão iluminados; «bote amor» e a sua existência será como uma casa construída sobre a rocha, o seu caminho será alegre. «Bote Cristo» na sua vida, e você encontrará um amigo em quem sempre confiar.

Queridos jovens, boa tarde!
Primeiramente quero lhes agradecer pelo testemunho de fé que vós estais a dar ao mundo. Sempre ouvi dizer que as cariocas não gostam do frio e da chuva, mas vocês estão mostrando que a fé de vocês é mais forte que o frio e a chuva. Parabéns. Vocês são verdadeiros heróis! Vejo em vós a beleza do rosto jovem de Cristo e meu coração se enche de alegria! Lembro-me da primeira Jornada Mundial da Juventude a nível internacional. Foi celebrada em 1987 na Argentina, na minha cidade de Buenos Aires. Guardo vivas na memória estas palavras do Bem-aventurado João Paulo II aos jovens: «Tenho muita esperança em vós! Espero, sobretudo, que renovem a vossa fidelidade a Jesus Cristo e à sua cruz redentora» (Discurso aos jovens, 11 de abril de 1987).
[...]
Esta semana, o Rio de Janeiro converte-se no centro da Igreja, no seu coração vivo e jovem, porque vós respondeste com generosidade e entusiasmo ao convite que Jesus vos fez para estar com ele, para ser seus amigos. [...]
Hoje, Jesus continua a perguntar: Queres ser meu discípulo? Queres ser meu amigo? Queres ser testemunha do Evangelho? No coração do Ano da Fé, estas perguntas convidam-nos a renovar o nosso compromisso cristão. As vossas famílias e comunidades locais transmitiram-vos o grande dom da fé. Cristo cresceu em vós. Hoje, vim aqui para vos confirmar na fé, a fé em Cristo vivo que habita em vós, mas vim também para ser confirmado pelo entusiasmo da vossa fé. Vós sabeis que na vida de um bispo há muitos problemas para serem resolvidos. E com esses problemas e dificuldades, a fé do bispo pode entristecer-se. Que feio é um bispo triste. Que feio que é! Para que a minha fé não seja triste, eu vim aqui para me contagiar com o vosso entusiasmo.
Saúdo-vos com carinho. A vós aqui presentes, vindos dos cinco continentes e, através de vós, saúdo todos os jovens do mundo, em particular aqueles que queriam vir ao Rio de Janeiro, mas não puderam. Aos que nos seguem por meio da rádio, da televisão e internet, a todos digo: Bem-vindos a esta festa da fé! Em diversas partes do mundo, muitos jovens estão reunidos agora para viver connosco este momento: sintamo-nos unidos uns aos outros na alegria, na amizade, na fé. E tenham a certeza de que o meu coração vos abraça a todos com afeto universal. [...] A todos e a cada um, um abraço afetuoso em Jesus e com Jesus.
Irmãos e amigos, bem-vindos à vigésima oitava Jornada Mundial da Juventude, nesta cidade maravilhosa do Rio de Janeiro!



Bote fé, bote esperança, bote amor
Jovens amigos, «É bom estarmos aqui!»: exclamou Pedro, depois de ter visto o Senhor Jesus transfigurado, revestido de glória. Queremos também nós repetir estas palavras? Penso que sim, porque para todos nós, hoje, é bom estar aqui juntos unidos em torno de Jesus! É Ele que nos acolhe e se faz presente no meio de nós, aqui no Rio. Mas, no Evangelho, escutamos também as palavras de Deus Pai: «Este é o meu Filho, o Eleito. Escutai-O!» (Lucas 9, 35). Então, se por um lado é Jesus quem nos acolhe, por outro também nós devemos acolhê-lo, ficar à escuta da sua palavra, pois é justamente acolhendo a Jesus Cristo, Palavra encarnada, que o Espírito Santo nos transforma, ilumina o caminho do futuro e faz crescer em nós as asas da esperança para caminharmos com alegria (cf. «A Luz da Fé» — «Lumen fidei» [LF], 7).
Mas o que podemos fazer? «Bote fé». A cruz da Jornada Mundial da Juventude peregrinou através do Brasil inteiro com este apelo. «Bote fé»: o que significa? Quando se prepara um bom prato e vê que falta o sal, você então «bota» o sal; falta o azeite, então «bota» o azeite... «Botar», ou seja, colocar, derramar. É assim também na nossa vida, queridos jovens: se queremos que ela tenha realmente sentido e plenitude, como vocês mesmos desejam e merecem, digo a cada um e a cada uma de vocês: «bote fé» e a vida terá um sabor novo, terá uma bússola que indica a direção; «bote esperança» e todos os seus dias serão iluminados e o seu horizonte já não será escuro, mas luminoso; «bote amor» e a sua existência será como uma casa construída sobre a rocha, o seu caminho será alegre, porque encontrará muitos amigos que caminham com você. «Bote fé», «bote esperança», «bote amor»!

Bote Cristo
Mas quem pode nos dar tudo isso? No Evangelho, escutamos a resposta: Cristo. «Este é o meu Filho, o Eleito. Escutai-O!». Jesus é Aquele que nos traz Deus e que nos leva a Deus; com Ele toda a nossa vida se transforma, se renova e nós podemos olhar a realidade com novos olhos, «a partir da perspectiva de Jesus e com os seus olhos» (LLF 18). Por isso, hoje, lhes digo com força: «Bote Cristo» na sua vida, e você encontrará um amigo em quem sempre confiar; «bote Cristo», e você verá crescer as asas da esperança para percorrer com alegria o caminho do futuro; «bote Cristo» e a sua vida ficará cheia do seu amor, será uma vida fecunda.
Hoje, queria que nos perguntássemos com sinceridade: em quem depositamos a nossa confiança? Em nós mesmos, nas coisas, ou em Jesus? Sentimo-nos tentados a colocar a nós mesmos no centro, a crer que somos somente nós que construímos a nossa vida, ou que ela se encha de felicidade com o possuir, com o dinheiro, com o poder. Mas não é assim! É verdade, o ter, o dinheiro, o poder podem gerar um momento de embriaguez, a ilusão de ser feliz, mas, no fim de contas, são eles que nos possuem e nos levam a querer ter sempre mais, a nunca estar saciados. «Bote Cristo» na sua vida, deposite n'Ele a sua confiança e você nunca se decepcionará! Vejam, queridos amigos, a fé realiza na nossa vida uma revolução que podíamos chamar copernicana, porque nos tira do centro e o restitui a Deus; a fé imerge-nos no seu amor que nos dá segurança, força, esperança. Aparentemente não muda nada, mas, no mais íntimo de nós mesmos, tudo muda. No nosso coração, habita a paz, a mansidão, a ternura, a coragem, a serenidade e a alegria, que são os frutos do Espírito Santo (cf. Gálatas 5, 22) e a nossa existência se transforma, o nosso modo de pensar e agir se renova, torna-se o modo de pensar e de agir de Jesus, de Deus. No Ano da Fé, esta Jornada Mundial da Juventude é justamente um dom que nos é oferecido para ficarmos ainda mais perto de Jesus, para ser seus discípulos e seus missionários, para deixar que Ele renove a nossa vida.
Querido jovem: «bote Cristo» na sua vida. Nestes dias, Ele lhe espera na Palavra; escute-O com atenção e o seu coração será inflamado pela sua presença; «Bote Cristo»: Ele lhe acolhe no Sacramento do perdão, para curar, com a sua misericórdia, as feridas do pecado. Não tenham medo de pedir perdão a Deus. Ele nunca se cansa de nos perdoar, como um pai que nos ama. Deus é pura misericórdia! «Bote Cristo»: Ele lhe espera no encontro com a sua Carne na Eucaristia, Sacramento da sua presença, do seu sacrifício de amor, e na humanidade de tantos jovens que vão lhe enriquecer com a sua amizade, lhe encorajar com o seu testemunho de fé, lhe ensinar a linguagem da caridade, da bondade, do serviço. Você também, querido jovem, pode ser uma testemunha jubilosa do seu amor, uma testemunha corajosa do seu Evangelho para levar a este nosso mundo um pouco de luz.
«É bom estarmos aqui», botando Cristo na nossa vida, botando a fé, a esperança, o amor que Ele nos dá. Queridos amigos, nesta celebração acolhemos a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Com Maria, queremos ser discípulos e missionários. Como Ela, queremos dizer «sim» a Deus. Peçamos ao seu coração de mãe que interceda por nós, para que os nossos corações estejam disponíveis para amar a Jesus e fazê-lo amar. Ele está esperando por nós e conta connosco! Amém.

Praia de Copacabana (Rio de Janeiro), 25 de julho de 2013
© Copyright - Libreria Editrice Vaticana

Papa Francisco, na cerimónia de boas-vindas, na praia de Copacabana, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.7.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo segundo domingo

23 DE JUNHO DE 2013

Nos três Evangelhos sinópticos aparece, como momento significativo no caminho de Jesus, a hora em que Ele pergunta aos discípulos o que as pessoas pensam d'Ele e como O vêem eles mesmos (Marcos 8, 27-30; Mateus 16, 13-20; Lucas 9, 18-21). Nos três Evangelhos, Pedro responde em nome dos Doze com uma confissão que se distingue claramente da opinião da «multidão». Nos três Evangelhos, Jesus anuncia logo a seguir a sua paixão e ressurreição e, depois deste anúncio do seu destino pessoal, pronuncia um ensinamento sobre o caminho dos discípulos, que consiste em segui-l’O, ao Crucificado. Nos três Evangelhos, porém, este segui-Lo sob o signo da cruz é por Ele explicado de forma essencialmente antropológica, ou seja, como o caminho de «perder-se a si mesmo», que é necessário ao homem, pois sem isso não lhe é possível encontrar-se a si mesmo (Marcos 8, 31 - 9, 1; Mateus 16, 21-28; Lucas 9, 22-27). [...]
A confissão de Pedro só se pode compreender corretamente relacionada com o anúncio da paixão e com as palavras acerca do seguimento: estes três elementos — a palavra de Pedro e a dupla resposta de Jesus — estão inseparavelmente ligados. [...]
De acordo com a sua visão da figura de Jesus, Lucas liga a confissão de Pedro a um momento de oração, começando a narração da história com um paradoxo propositado: «Um dia, quando [Jesus] orava sozinho, estando com Ele os seus discípulos...» (9, 18). Os discípulos são introduzidos no seu estar sozinho, no seu reservadíssimo estar com o Pai. É-lhes permitido vê-Lo como Aquele que fala face a face com o Pai. Podem vê-Lo no íntimo do seu ser, no seu ser Filho, no ponto donde provêm todas as suas palavras, as suas ações, a sua potestade. A eles é concedido ver o que a «multidão» não vê, e desta visão deriva um conhecimento que ultrapassa as «opiniões» da «multidão». Desta vista, dimana a sua fé, a sua confissão; sobre isto, poder-se-á depois edificar a Igreja.
Aqui encontra o seu lugar interior a dupla pergunta de Jesus sobre a opinião da multidão e sobre a convicção dos discípulos. O facto pressupõe que haja, de uma parte, um conhecimento exterior de Jesus, não necessariamente falso mas insuficiente, ao que se contrapõe um conhecimento profundo, ligado ao discipulado, à companhia no caminho, capaz de crescer apenas em tal âmbito. 

Quem dizem as multidões que Eu sou?

Os três sinópticos estão de acordo na afirmação de que, segundo a multidão, Jesus seria João Baptista ou Elias ou um dos outros Profetas que teria ressuscitado [...].
Elemento comum a estas concepções é o facto de inserirem Jesus na categoria dos profetas, uma categoria que estava à disposição como chave interpretativa a partir da tradição de Israel. Em todos os nomes referidos para a interpretação da figura de Jesus ressoa de certo modo o momento escatológico, a expetativa de uma viragem que pode ser acompanhada simultaneamente da esperança e do temor. Enquanto Elias personifica mais a esperança da restauração de Israel, Jeremias é uma figura da paixão, o anunciador da falência da forma de Aliança então em vigor e do santuário que representava, por assim dizer, a garantia concreta da mesma; mas ele é também portador da promessa de uma Nova Aliança que nascerá da queda. No seu sofrimento, no seu desaparecimento por entre a obscuridade da contradição, Jeremias é o portador vivo deste duplo destino de queda e renovação.
Todas estas opiniões não são totalmente erradas; traduzem aproximações menores ou maiores ao mistério de Jesus, a partir das quais é possível, sem dúvida, abrir caminho para o núcleo essencial. Mas não atingem a verdadeira natureza de Jesus, a sua novidade. Interpretam-No a partir do passado e de quanto geralmente acontece e é possível, mas não a partir d’Ele mesmo, não na sua unicidade, que não é possível inserir em mais nenhuma categoria. Neste sentido, também hoje se encontra muito claramente a opinião da «multidão» que de algum modo conheceu Cristo, talvez até O tenha estudado cientificamente, mas não O encontrou pessoalmente na sua especificidade e na sua total alteridade [...]


E vós, quem dizeis que Eu sou?

À opinião da multidão contrapõe-se o conhecimento dos discípulos, que se manifesta na confissão de fé. Esta, como aparece expressa? É formulada de modo diferente em cada um dos três sinópticos, e de forma ainda mais diversa em João. Segundo Marcos, Pedro diz a Jesus simplesmente: «Tu és o Cristo [o Messias]» (8, 29). Segundo Lucas, Pedro designa-O como «o Messias [o Ungido] de Deus» (9, 20); e, segundo Mateus, diz: «Tu és o Cristo [o Messias], o Filho do Deus vivo» (16, 16). Em João, por sua vez, a confissão de Pedro é do seguinte teor: «Tu és o Santo de Deus» (6, 29). [...]
Em primeiro lugar, é importante ver que a forma específica do título deve ser compreendida sempre na totalidade de cada um dos Evangelhos e na sua forma particular de tradição. Importante é sempre a ligação com o processo de Jesus, ao longo do qual a confissão dos discípulos aparece de novo como pergunta e acusação. [...] Em Lucas, Pedro reconhece Jesus como «o Messias (Cristo, o Ungido) de Deus». Aqui encontramos de novo o que o velho Simeão já sabia do Menino Jesus: fora-lhe preanunciado como o Messias do Senhor (Lucas 2, 26). Como imagem oposta a esta, temos os «chefes do povo» que zombam de Jesus ao pé da cruz, dizendo: «Salvou os outros; salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito» (Lucas 23, 35). [...]
Mas, do Evangelho de Lucas, convém citar outro acontecimento importante para a fé dos discípulos em Jesus: a história da pesca milagrosa, que termina com o chamamento de Simão Pedro e dos seus companheiros para se tornarem discípulos. Aqueles experimentados pescadores não tinham pescado nada durante toda a noite, e agora Jesus exorta-os a fazerem-se de novo ao largo em pleno dia e a lançarem as redes. Segundo os conhecimentos práticos destes homens, trata-se de uma sugestão pouco sensata, mas Simão responde: «Mestre, (...) porque Tu o dizes, lançarei as redes» (Lucas 5, 5). E segue-se a pesca abundantíssima, que deixa Pedro profundamente impressionado. Em atitude de adoração, lança-se aos pés de Jesus e diz: «Afasta-Te de mim, Senhor, que sou um homem pecador» (5, 8), No sucedido, reconheceu a própria força de Deus, que atua através de Jesus, e este encontro direto com o Deus vivo em Jesus abala-o no mais íntimo de si mesmo. À luz e sob o poder desta presença, o homem reconhece a sua miséria. Não consegue suportar a força formidável de Deus — é espaventosa para ele. Visto ao nível da história das religiões, trata-se de um dos textos mais impressionantes para ilustrar aquilo que acontece quando o homem se encontra inesperada e diretamente exposto à proximidade de Deus; então nada mais consegue fazer senão espaventar-se daquilo que ele é, e pedir para ser libertado da imensidão desta presença. Esta perceção imediata da proximidade do próprio Deus em Jesus exprime-se no título que Pedro usa agora para Jesus: «Kyrios» — Senhor. Trata-se da designação de Deus usada no Antigo Testamento para substituir o nome inefável por Ele revelado junto da sarça ardente. Se antes da saída para o mar Jesus era para Pedro o «epistáta» (significa mestre, professor, rabino), agora reconhece n’Ele o «Kyrios». [...]


Quem é Jesus Cristo?

Qual é a imagem que vemos, quando compomos o mosaico inteiro dos textos? Pois bem, os discípulos reconheceram que Jesus não Se enquadrava em nenhuma das categorias correntes, que Ele era algo mais e diverso quando comparado com «qualquer um dos profetas». Desde o Sermão da Montanha até à vista das suas ações poderosas e da sua faculdade de perdoar os pecados, desde a autoridade da sua pregação até à sua maneira de considerar as tradições da Lei, de tudo isto eles reconheceram que Ele era mais do que «qualquer um dos profetas». Era aquele «profeta» que, como Moisés, falava com Deus face a face como um amigo; era o Messias, mas de um modo diferente de alguém a quem Deus tivesse simplesmente dado um encargo.
N’Ele, as grandes palavras messiânicas revelavam-se, de modo impressionante e inesperado, verdadeiras: «Tu és meu filho, hoje mesmo te gerei» (Salmo 2, 7). Em momentos mais significativos os discípulos, perturbados, davam-se conta: «Este é o próprio Deus».
Não conseguiram articular tudo isto numa resposta perfeita. Utilizaram, com razão, as palavras de promessa da Antiga Aliança: Cristo-Ungido, Filho de Deus, Senhor. São estas as palavras fundamentais em que se concentrou a sua confissão, a qual no entanto continuava ainda à procura caminhando quase às apalpadelas. Tal confissão só pôde encontrar a sua forma completa no momento em que Tomé, depois de tocar as chagas do Ressuscitado, comovido exclamou: «Meu Senhor e meu Deus!» (João 20, 28). Em última instância, porém, mesmo com esta palavra, continuamos sempre a caminho. A mesma é tão sublime que nunca conseguiremos entendê-la totalmente, sempre nos ultrapassa. Ao longo de toda a sua história, a Igreja vive em perene peregrinação para penetrar esta palavra, que só se pode tornar compreensível para nós no contacto com as chagas de Jesus e no encontro com a sua ressurreição, transformando-se depois para nós numa missão.

© Bento XVI
— «Jesus de Nazaré», excerto das páginas 359 a 379 —
© A Esfera dos Livros, 2012
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Décimo segundo domingo, Ano C
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.6.13 | Sem comentários

Domingo da Santíssima Trindade


Evangelho segundo João 16, 12-15

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis compreender agora. Quando vier o Espírito da verdade, Ele vos guiará para a verdade plena; porque não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que está para vir. Ele Me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. Tudo o que o Pai tem é meu. Por isso vos disse que Ele receberá do que é meu e vo-lo anunciará».

Tenho ainda muitas coisas para vos dizer

Entrar no mistério da Santíssima Trindade faz-nos escutar as palavras de Jesus Cristo nesta passagem do evangelho: «Tenho ainda muitas coisas para vos dizer». Haverá sempre muito para dizer sobre Deus, pois todas as nossas tentativas, todos as palavras e expressões que possamos usar são sempre imperfeitas para explicar a realidade de Deus. «Não as podeis compreender agora», acrescenta Jesus Cristo, ao mesmo tempo que convida a deixarmo-nos guiar pelo Espírito Santo: «Ele vos guiará para a verdade plena». 

Refletir sobre o «Credo» no Ano da Fé

Ao longo deste Ano da Fé estamos a refletir semanalmente sobre o conteúdo do «Credo» para nos ajudar a compreender e a viver melhor a nossa fé. Mas não se trata de explicar tudo sobre Deus. Antes, de nos ajudar a entender as palavras e as expressões que, ao longo dos séculos, têm sido usadas pelos teólogos e pelos papas para falar de Deus. Uma grande parte dos cristãos não sabe explicar minimamente as afirmações que proclama quando reza o «Credo».

Deus é Pai, Filho e Espírito Santo

A única maneira de falar da Trindade de Deus é através de imagens. Mas nunca podemos esquecer que são apenas imagens. E embora seja a melhor maneira de falar de Deus, qualquer imagem que usemos será sempre imperfeita. Na verdade, a distinção entre as três «pessoas» de Deus só se refere à relação interna, isto é, à relação que existe dentro do próprio Deus. Há distinção entre elas quando se relacionam entre si. Porque no que diz respeito à relação externa não há distinção: Deus age sempre como Um. A nossa relação com Deus é sempre através da Trindade (em simultâneo) e nunca com cada uma das «pessoas» em separado. Por isso, não podemos dizer que se trata de três em um, mas de uma única realidade que é relação. Vamos tentar perceber através de um exemplo. Quem é o Criador? Deus, isto é, a Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A obra de Deus é sempre comunhão. Em Deus, nada é solitário: tudo é comunhão. Mas nós não dizemos no «Credo» que Deus é Pai Criador de todas as coisas? Sim, dizemos. Mas também dizemos que «todas as coisas foram feitas» pelo Filho. E ainda que o Espírito Santo é o «Senhor que dá a vida». Neste exemplo, vemos que no ato criador está envolvida a totalidade de Deus: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Uma vez mais, temos de entender que a distinção em três «pessoas» apenas diz respeito à essência, ao ser de Deus, e não à sua relação connosco. Os primeiros cristãos experimentaram que Deus podia ser ao mesmo tempo e sem contradição: Deus que está acima de nós (Pai); Deus que se faz um de nós (Filho); Deus que se identifica com cada um de nós (Espírito).

Então, como é que acontece a nossa relação com Deus? As leituras de hoje mostram-nos que tudo o que nos faz entrar em relação com Deus está relacionado com a fé, a esperança e a caridade ou amor. Na verdade, estas três virtudes são as portas que nos fazem entrar na comunhão de Deus, que nos fazem sentir que Deus está connosco. E desta comunhão com Deus nasce depois o nosso compromisso de viver também em comunhão com os outros. Por isso, ao longo desta semana, deixemo-nos interpelar por esta pergunta: Testemunho o amor de Deus na relação com os outros?

© Laboratório da fé, 2013
Tenho ainda muitas coisas para vos dizer — Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.5.13 | Sem comentários

O influxo salutar de Maria e a mediação de Cristo


O nosso mediador é só um, segundo a palavra do Apóstolo: «não há senão um Deus e um mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, que Se entregou a Si mesmo para redenção de todos» (1Timóteo 2, 5-6). Mas a função maternal de Maria em relação aos homens de modo algum ofusca ou diminui esta única mediação de Cristo; manifesta antes a sua eficácia. Com efeito, todo o influxo salvador da Virgem Santíssima sobre os homens se deve ao beneplácito divino e não a qualquer necessidade; deriva da abundância dos méritos de Cristo, funda-se na Sua mediação e dela depende inteiramente, haurindo aí toda a sua eficácia; de modo nenhum impede a união imediata dos fiéis com Cristo, antes a favorece (Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium», 60).

Mistérios a partir do texto da «Lumen Gentium»


  • PRIMEIRO MISTÉRIO: O NOSSO MEDIADOR É SÓ UM: JESUS CRISTO
Cristo é o único mediador entre Deus e os seres humanos. Só poderão entrar em comunhão com Deus através de Cristo, e sob a ação do Espírito. Esta Sua mediação única e universal, longe de ser obstáculo no caminho para Deus, é a via estabelecida pelo próprio Deus, e disso, Cristo tem plena consciência. Se não se excluem mediações participadas de diverso tipo e ordem, todavia elas recebem significado e valor unicamente da de Cristo, e não podem ser entendidas como paralelas ou complementares (João Paulo II, Carta Encíclica sobre a validade permanente do mandato missionário — «Redemptoris Missio», 5).

  • SEGUNDO MISTÉRIO: A FUNÇÃO MATERNAL DE MARIA
Maria exerce atualmente a missão maternal no desenvolvimento da Igreja e na multiplicação dos cristãos. A função maternal de Maria consiste numa solicitude constante, traduzida pela intercessão junto de Cristo, a favor do desenvolvimento da Igreja e da evolução perfeita de cada vida cristã. Maria não possui por si mesma os tesouros da graça; deve pedir continuamente as graças úteis à humanidade, mas está encarregada por Deus desta contínua súplica, e não pode deixar de ser atendida (Jean Galot).

  • TERCEIRO MISTÉRIO: MARIA NÃO OFUSCA A MEDIAÇÃO DE CRISTO
Maria está inserida na única mediação de Cristo, totalmente ao Seu serviço. «A função maternal de Maria em relação aos seres humanos de modo algum ofusca ou diminui essa única mediação de Cristo, manifesta antes a sua eficácia». Estamos longe de afirmar um papel de Maria na vida da Igreja fora da mediação de Cristo ou ao lado dela, como se se tratasse de uma mediação paralela ou concorrente. A mediação maternal de Maria «é mediação em Cristo» (João Paulo II, Audiência Geral de 12 de janeiro de 2000).

  • QUARTO MISTÉRIO: A ABUNDÂNCIA DOS MÉRITOS DE CRISTO
É em Cristo, nosso Redentor, que se encontram em abundância as satisfações e os méritos da sua redenção (Catecismo da Igreja Católica, 1476). «Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que no alto do Céu nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo. [...] É em Cristo que temos a redenção, o perdão dos pecados, em virtude da riqueza da sua graça, que Ele abundantemente derramou sobre nós» — afirma a Carta aos Efésios (1, 3.7).

  • QUINTO MISTÉRIO: MARIA FAVORECE A UNIÃO COM CRISTO
A mediação de Maria apresenta-se como o fruto mais excelso da mediação de Cristo e está orientada a tornar mais íntimo e profundo o nosso encontro com Ele. Maria não quer atrair a atenção para a sua pessoa. Viveu sobre a terra com o olhar fixo em Jesus e no Pai celeste. O seu desejo mais intenso é fazer convergir os olhares de todos na mesma direcção. Quer promover um olhar de fé e de esperança no Salvador, que nos foi enviado pelo Pai (João Paulo II, Audiência Geral de 12 de janeiro de 2000).

  • TRÊS AVE MARIAS FINAIS
Nesta semana da vida, peçamos a Maria que nos ajude a dar mais vida à nossa vida. Maria é a Mãe de todos os que renascem para a vida. Ela é verdadeiramente a Mãe da Vida que faz viver todos os homens; ao gerar a Vida, gerou de certo modo todos aqueles que haviam de viver dessa Vida (João Paulo II, Carta Encíclica «O Evangelho da Vida», 138).

  • ORAÇÃO PARA TODOS OS DIAS > > >
  • TEMA GERAL DO MÊS DE MARIA 2013 > > >
© Laboratório da fé, 2013

Maio, mês de Maria, 2013 — Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 16.5.13 | Sem comentários
— reflexão semanal sobre o credo niceno-constantinopolitano — 

No início do Credo, proclamamos que Deus é Pai Criador (cf. temas 5 e 6). Agora, no centro do Credo, voltamos a referir o ato criador para o associar a Jesus Cristo: «Por Ele todas as coisas foram feitas». E, mais adiante, voltaremos a associá-lo com o Espírito Santo. Na verdade, «embora a obra da criação seja particularmente atribuída ao Pai, é igualmente verdade de fé que o Pai, o Filho e Espírito Santo são o único e indivisível princípio da criação» (Catecismo da Igreja Católica, 316). Agora, vamos aprofundar a relação de Jesus Cristo com o ato criador. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Colossenses 1, 12-20; Catecismo da Igreja Católica, números 290-294

«Todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele» — é uma aclamação que faz parte do hino recolhido ou adaptado por Paulo na Carta aos Colossenses. As afirmações deste hino fazem parte de um contexto cultural e filosófico em que se pensava que o céu e a terra estavam povoados por potências misteriosas. Por isso, sem qualquer dúvida, afirma que Jesus Cristo tem a primazia sobre todas as coisas. Na linguagem litúrgica, em especial na solene Vigília, diante do Círio Pascal cantamos que o Senhor Jesus Cristo ressuscitado é Alfa (A) e o Omega (Ω). O Alfa é a primeira letra do alfabeto grego. O Omega é a última. Jesus Cristo é o princípio e o fim de todas as coisas. «Em virtude da sua altíssima dignidade, Cristo precede ‘todas as coisas’, não só por causa da sua eternidade, mas também e sobretudo pela sua obra criadora e providente: ‘porque n’Ele foram criadas todas as coisas’. [...] Paulo indica-nos uma verdade muita importante: a história tem uma meta, uma direção. A história orienta-se rumo à humanidade unida em Cristo, ao homem perfeito, ao humanismo perfeito. Por outras palavras, São Paulo diz-nos: sim, há progresso na história. Há por assim dizer uma evolução da história. Progresso é tudo o que nos aproxima de Cristo e assim nos aproxima da humanidade unida, do verdadeiro humanismo. Desta forma, no interior destas indicações esconde-se também um imperativo para nós: trabalhar pelo progresso é o que todos nós queremos. Podemos fazê-lo, trabalhando pela aproximação dos homens a Cristo; podemos fazê-lo, conformando-nos pessoalmente a Cristo, caminhando deste modo na linha do progresso autêntico» (Bento XVI, Audiência Geral de 4 de janeiro de 2006).

Por Ele todas as coisas foram feitas. Esta afirmação faz a passagem entre a natureza divina e humana de Jesus Cristo, no «Credo niceno-constantinopolitano». É o coração do Credo! É o coração da História! «No princípio existia o Verbo. [...] Por Ele é que tudo começou a existir; e sem Ele nada veio à existência», refere o prólogo do evangelho segundo João (1, 1.3). Esta centralidade de Jesus Cristo já está anunciada no Antigo Testamento através dos conceitos de «Palavra» e de «Sabedoria». Jesus Cristo é a Palavra de Deus que chama todas as coisas à existência: «Deus disse...» (cf. Génesis 1). Jesus Cristo é a Sabedoria de Deus, que acompanha o ato criador como sublinha o livro dos Provérbios (8, 22-31). «Na Sagrada Escritura a criação também está muitas vezes ligada à Palavra divina que irrompe e age: ‘O céu foi feito com a palavra de Javé, e o Seu exército com o sopro da Sua boca... Porque Ele diz e a coisa acontece... Ele envia as Suas ordens à terra, e a Sua palavra corre velozmente’ (Salmo 33, 6.9; 147, 15). Na literatura sapiencial veterotestamentária é a Sabedoria divina personificada que dá origem ao cosmos, atuando o projeto da mente de Deus (cf. Provérbios 8, 22-31). Já foi dito que João e Paulo na Palavra e na Sabedoria de Deus verão o anúncio da ação de Cristo ‘por Quem tudo existe e por meio do Qual também nós existimos’ (1Coríntios 8, 6), porque é ‘por meio d’Ele que (Deus) também criou o mundo’ (Hebreus 1, 2)» (João Paulo II, Audiência Geral de 26 de janeiro de 2000). Esta centralidade de Jesus Cristo é também evidenciada nos documentos da Igreja. Por exemplo, na Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual («Gaudium et Spes»): « A chave, o centro e o fim de toda a história humana encontram-se no seu Senhor e mestre» (número 10). «O Senhor [Jesus Cristo] é o fim da história humana, o ponto para onde tendem os desejos da história e da civilização, o centro do género humano, a alegria de todos os corações e a plenitude das suas aspirações» (número 45). 

Na Liturgia, todas as Orações Eucarística concluem com a solene proclamação da centralidade de Jesus Cristo em sintonia com a Trindade: «Por Cristo, com Cristo, em Cristo, a Vós Deus Pai, todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre. Amén».
 

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.2.13 | Sem comentários
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