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Ambiente Virtual de Formação


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


O segundo capítulo da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG) é dedicado à definição da Igreja como «Povo de Deus», cuja noção básica reside no sacerdócio comum dos fiéis e já não exclusivamente na hierarquia. Nesta nova conceção eclesial destaca-se o aspeto teológico da Igreja no qual, sob a ótica da fé, todos são iguais, porém, com funções diferenciadas; e não só o aspeto jurídico que reconhece apenas o clero como Igreja.
Na eclesiologia, a nova conceção causou uma verdadeira revolução, pois o conceito dominante de Igreja, desde o Concílio de Trento como «sociedade perfeita e hierarquizada», passou para um modelo circular e aberto ao mundo, como Sacramento e instrumento de Deus que se entende na unidade com todo o género humano.
É de fundamental importância lembrar que o conceito de Povo de Deus inicia-se com Abraão que sai de Ur com destino à terra que Deus lhe indicou. E, a partir de Abraão, Deus escolhe Israel como seu povo, instruindo-o gradualmente, manifestando-Se, revelando-Se a Si mesmo e os desígnios da Sua vontade na História, e santificando aquele povo para Si; depois Deus, com Moisés e Josué, conduz o seu povo para a liberdade, para a Terra prometida, e é por causa deste Povo que Ele deixa de castigar Israel quando alguns pecaram. Tudo aconteceu como preparação e prefiguração da Nova e perfeita Aliança que seria selada em Cristo, Seu Filho Jesus, para redimir definitivamente o seu Povo, na plenitude dos tempos, entregando-Se em sacrifício perfeito para a salvação de toda a humanidade (LG 9).
Cristo, ao estabelecer esse novo pacto, formou com os judeus e com os gentios, um povo segundo o Espírito, constituindo assim, o novo Povo de Deus. Os que crêem em Cristo, renascidos no Batismo, constituem «a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo resgatado… considerado como Povo de Deus» (LG 9).
Embora diferentes, essencialmente entre si e não apenas em grau, o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial hierárquico ordenam-se um para o outro, mutuamente, pois ambos participam, cada qual a seu modo, do sacerdócio único de Cristo. Nos Sacramentos e na prática das virtudes, o povo de Deus exercita o sacerdócio comum de várias formas, de acordo com os seus dons e carismas, participando também da missão profética de Cristo, dando testemunho vivo d’Ele, especialmente pela vida de fé e caridade, oferecendo a Deus o sacrifício do louvor, fruto dos lábios que glorificam o Seu nome (LG 9).
«Cristo Senhor, Pontífice tomado de entre os homens, fez do novo povo um reino de sacerdotes para Deus, seu Pai». Pela regeneração e pela unção do Espírito Santo, os batizados consagram-se para ser edifício espiritual e sacerdócio santo, com a incumbência de ser testemunhas de Cristo e levar ao mundo a esperança que possuem na vida eterna (LG 10).
A LG indica que o senso da fé (consenso universal a respeito da fé e dos costumes) é construído pelo conjunto dos fiéis sustentado pelo Espírito Santo, pela palavra de Deus e sob a direção do Magistério. Este mesmo Espírito «distribui individualmente e a cada um, conforme entende, os seus dons» (1Coríntios 12-11) e as suas graças especiais aos fiéis de todas as classes, tornando-os aptos a assumirem os diversos encargos e ofícios úteis à renovação e maior incremento da Igreja. Assim, os ministérios leigos não decorrem da insuficiência de presbíteros, mas sim porque todos os batizados, em razão do sacerdócio comum, são ministros de Deus, responsáveis diretos também pela Igreja e pela evangelização. Não nos esqueçamos de que o termo «Igreja», na sua origem se refere à «assembleia dos escolhidos» e esta é a ideia que a LG retoma da Igreja primitiva (LG 12).
Todos os seres humanos são chamados a participar do novo Povo de Deus, dilatando-o até aos confins do mundo inteiro e em todos os tempos, para cumprir os desígnios de Deus, que decidiu congregar na unidade todos os seus filhos que andavam dispersos. Assim, Povo de Deus é estendido a todos os povos da terra, aos quais o Espírito Santo inspira o princípio da comunhão e da unidade. Por força desta universalidade, cada parte contribui com os seus dons peculiares para as demais e para toda a Igreja, de modo a crescerem pela comunicação mútua e pelo esforço comum em ordem, a fim de alcançarem a plenitude na unidade.
Este novo Povo de Deus não é específico dos fiéis católicos, mas estende-se aos irmãos cristãos não católicos, os quais veneram a Sagrada Escritura como norma de fé e de vida, e manifestam sincero zelo religioso; e estende-se também aos não cristãos que, embora não tenham recebido ainda o Evangelho, estão destinados, a fazer parte do Povo de Deus que se revela a toda humanidade de modos e formas diversas, os quais não nos é lícito questionar, mas sim aceitar e acolher, buscando a unidade na diversidade destas manifestações (LG 14, 15 e 16).
Na América Latina, especialmente na Conferência de Medellin (1968) e depois de Puebla (1979), a LG foi entusiasticamente recebida e não se pouparam esforços para a colocar em prática; empenho que se consolidou depois, nas outras Conferências. Mas é especialmente nas duas primeiras que se observa o acolhimento da conceção eclesiológica de «Igreja Povo de Deus». Ao laicado, de modo especial, dirigem-se as Conferências Latino-americanas, culminando com a Conferência de Aparecida (2007), exortando ao cumprimento da «Missão Continental». Não se pode deixar de citar, no sentido do protagonismo dos leigos, a Exortação Apostólica Pós-Sinodal sobre a vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo — «Christifidelis Laici», que nos amplia o horizonte de atuação do laicado.
A LG contribuiu para fortalecer as comunidades eclesiais de base (CEBs) que se reúnem nos mais diversos e distantes lugares, mesmo sem a presença dos presbíteros. Disso exigiu-se a formação dos chamados Ministérios Laicais no interior das comunidades e, especialmente, fora delas. Aos poucos, cresce a consciência de que a presença dos leigos no mundo é a presença da Igreja. Nesta perspectiva, a LG fornece a fundamentação teológica para a Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo — «Gaudium et Spes» (As alegrias e esperanças – sinais da Igreja no mundo), Esta constituição Pastoral não pode ser dissociada da LG.
O caráter missionário da Igreja, que surge da obediência ao mandamento de Cristo: «Ide, pois, ensinai todos os povos» (Marcos 16, 15) estende-se a todo o Povo de Deus; este assume, com Paulo, o múnus decorrente do sacerdócio real comum e do profetismo recebido no Batismo: «Ai de mim se eu não evangelizar!» (1Coríntios 9, 16). Cabe, portanto, ao Povo de Deus – clero, religiosos e leigos – assumir juntos e na Igreja, por força dos seus dons e carismas próprios, a missão de evangelizar e levar aos confins da terra a Boa Nova de Jesus, e construir, no aqui e agora do nosso tempo, o verdadeiro Reino de Paz e de Amor, o Reino dos Céus, o Reino de Deus que Jesus iniciou com a sua Vida, Paixão, Morte e Ressurreição (LG 17).

© Ambiente Virtual de Formação — www.ambientevirtual.org.br —
© Arquidiocese de Campinas, Brasil
© Adaptado por Laboratório da fé, 2013



Questões para reflexão

  • Na tua comunidade existem pessoas que conheceram a Igreja pré-conciliar? Existe alguma diferença entre a Igreja pré-conciliar e a atual Igreja como Povo de Deus?
  • No teu modo de ver e viver em Igreja, o novo conceito «Povo de Deus» provoca alguma coisa de positivo na vida comunitária?
  • O que se pode entender pelo conceito de «novo» Povo de Deus?

Partilha connosco a tua reflexão!


II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2013


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.6.13 | Sem comentários

As «chaves» do Concílio


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


A luz dos povos é Cristo: por isso, este sagrado Concílio, reunido no Espírito Santo, deseja ardentemente iluminar com a sua luz, que resplandece no rosto da Igreja, todos os homens, anunciando o Evangelho a toda a criatura (cf. Marcos 16, 15). Mas porque a Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano, pretende ela, na sequência dos anteriores Concílios, pôr de manifesto com maior insistência, aos fias e a todo o mundo, a sua natureza e missão universal (LG 1).

Antecedentes
A Constituição Dogmática sobre a Igreja, «Lumen Gentium», é uma tentativa de expressar em traços largos a autocompreensão doutrinal da Igreja Católica. Este parágrafo inicial da Constituição, que dá início ao primeiro capítulo intitulado «O Mistério da Igreja», dá o tom a tudo o que se segue. O termo «mistério» é extraído do Novo Testamento. São Paulo usou a mesma palavra («mysterion» em grego) para se referir à autorrevelação de Deus em Jesus Cristo. Na carta aos Colossenses, Paulo escreve que a sua missão é «levar à plena realização a Palavra de Deus, o mistério escondido ao longo das gerações e que agora Deus manifestou aos seus santos», o mistério é Cristo (Colossenses 1, 25-27; 2, 2-3; 4, 3). O termo «mistério» traz consigo a conotação de qualquer coisa que não pode ser completamente explicada ou entendida. Há algo nele que permanece oculto, velado, escapando à apreensão da nossa inteligência. Contudo, insiste São Paulo, o próprio mistério de Deus e do amor divino pela humanidade foi revelado, a Palavra divina foi-nos dada de forma definitiva em Jesus Cristo. Através dele, o mistério do próprio ser de Deus foi dado a conhecer. Até mesmo este vislumbre real da vida de Deus, que vemos com os olhos da fé, desafia a nossa capacidade de entendimento. As palavras nunca podem definir ou expressar de forma adequada a realidade de Deus ou do seu amor sem limites.
O ensinamento de Paulo é desenvolvido ainda mais na sua carta aos Efésios. Diz-nos ele que na morte e ressurreição de Cristo recebemos o perdão e fomos reconciliados com Deus, como filhos e filhas adotivos de Deus. No seu mistério pascal, Cristo revelou o plano de Deus, desde toda a eternidade, de reunir toda a comunidade humana. «Com toda a sabedoria e inteligência, manifestou-nos o mistério da sua vontade, e o plano generoso que tinha estabelecido, para conduzir os tempos à sua plenitude: submeter tudo a Cristo, reunindo nele o que há no céu e na terra» (Efésios 1, 8-10). O mistério do amor reconciliador de Deus — um amor que derrubou as barreiras e a hostilidade entre Israel e as nações (Efésios 2, 14) — foi-nos revelado pelo Espírito de Deus. A esperança proclamada pelos profetas e pelos apóstolos é atendida e, agora, nós somos chamados a ser testemunhas do amor reconciliador de Deus diante de todos os povos.
Passar do uso paulino do termo «mistério», com referência ao plano salvífico de Deus revelado em Cristo, à sua aplicação pelos autores cristãos primitivos à vida sacramental da Igreja foi um curto passo. O mistério que celebramos nos atos litúrgicos da Igreja é apenas a nossa participação no mistério pascal, o mistério da nossa redenção em Cristo. Traduções latinas da Bíblia e de outros autores latinos utilizavam indiferentemente as palavras mistério ou sacramento para traduzir o termo grego «mysterion». No século IV, os autores cristãos começaram a utilizar esta linguagem para falar das celebrações rituais da Igreja. Exemplo disso encontra-se nas «Catequeses Mistagógicas» de Cirilo de Jerusalém. Esta obra é uma coletânea de ensinamentos ou catequeses dados pelo bispo de Jerusalém a cristãos recém-batizados, nos dias imediatamente a seguir à Páscoa. Cirilo explica os mistérios que esses novos cristãos celebraram na liturgia pascal, recordando a sua passagem pela morte e ressurreição para renascer com Cristo no Batismo, e a sua participação no seu Corpo e no seu Sangue na Eucaristia. Refere-se ao Batismo e à Eucaristia como «mistérios divinos». O seu significado mais profundo, insiste Cirilo, não pode ser discernido em aspetos exteriores. A fé cristã convida-nos a penetrar para além das aparências visíveis dos sacramentos, a fim de apreendermos as realidades sagradas que significam.
Durante a Idade Média, a teologia católica começou a aplicar a categoria de mistério, relacionado como o Corpo Místico de Cristo na Eucaristia, ao Corpo Místico de Cristo que é a Igreja. Os autores medievais entendiam que o fruto da participação na Eucaristia é a unidade, a comunhão com Deus e uns com os outros, que constitui o próprio fundamento da Igreja. No entanto, essa teologia era um pouco abstrata e ignorava, em grande parte, o rosto histórico e humano da Igreja. Muitas destas ideias permaneceram adormecidas durante muitos séculos, sobretudo depois da crise da Reforma protestante, no século XVI. Os reformadores protestantes, segundo os quais a Igreja se tinha desviado tanto do Evangelho que se afastara da própria intenção de Deus ao fundá-la, insistiam em termos por vezes polémicos que a Igreja visível ficara reduzida a um resto ou ruína. Para eles, a verdadeira Igreja de Cristo já não era visível, tendo ficado oculta aos seus olhos, e devia ser entendida mais como uma realidade espiritual conhecida apenas de Deus. Em reação a isto, a teologia católica, encabeçada pelo teólogo jesuíta Roberto Belarmino, deu uma forte ênfase à continuidade entre a realidade visível da Igreja institucional e a verdadeira Igreja estabelecida por Cristo. As ideias do cardeal Belarmino, em particular a forma como ele entendia a Igreja como sociedade visível e «perfeita», munida de tudo o que era necessário para a salvação dos seus membros, dominou os manuais de teologia católica até ao início do século XX. O ensinamento do Concílio Vaticano II constitui um esforço por restabelecer um equilíbrio entre a compreensão das dimensões internas e espirituais da Igreja e a sua realidade humana concreta, histórica e visível. Para consegui-lo, o Concílio regressa à teologia envolvida na compreensão bíblica e patrística de «mysterion», que serve de fundamento a uma teologia mais encarnacional da Igreja e dos sacramentos.

A renovação eclesiológica* dos séculos XIX e XX
no século XIX, Johann Adam Möhler (1796-1838) começara a tentar chegar a um entendimento mais profundo da Igreja em todas as suas dimensões. Sob a influência do idealismo romântico, na Universidade de Tubinga, retomou os escritos de Paulo e dos Padres da Igreja primitiva para redescobrir uma forma mais holística de entender a Igreja como uma realidade dinâmica e viva, como comunidade humana complexa, imbuída do dom do Espírito de Deus. Apresentou um conceito de Igreja como continuação da encarnação de Cristo na história humana. Como Edward Hahnenberg observa, com razão, o génio de Möhler «foi considerar a Igreja não como uma simples portadora do mistério da fé, mas como um aspeto desse próprio mistério». Sob a influência de Möhler, e mais tarde de Matthias Scheeben, a ideia de Igreja como «mistério» começou a ganhar terreno na segunda metade do século XIX.
Um projeto inicial de Constituição sobre a Igreja foi apresentado aos bispos, reunidos para o Concílio Vaticano I, a 21 de janeiro de 1870. O seu primeiro capítulo intitulava-se «A Igreja é o Corpo Místico de Cristo». Esse projeto nunca foi oficialmente debatido pelos bispos do Vaticano I, visto que muitos manifestaram sérias reservas em relação à tentativa de falar da Igreja como «Corpo Místico de Cristo». Consideravam essa abordagem demasiado vaga e preferiram definir a Igreja com base na sua estrutura concreta. Um projeto subsequente regressou à imagem preferida, derivada de Belarmino, da Igreja como «sociedade perfeita», centrando-se mais na sua forma visível e institucional. Só em 1943, no ensinamento contido na encíclica do papa Pio XII «Mystici Corporis», seria incluída uma eclesiologia mais encarnacional no magistério católico oficial. Pio XII tentou desposar a noção predominante da Igreja como sociedade visível com a noção da Igreja como Corpo Místico de Cristo, mais orientada para a Bíblia. No Vaticano II, vemos um esforço no sentido de desenvolver o ensinamento de Pio XII e de integrar de forma ainda mais plena as perspetivas das tradições bíblica e patrística. O uso feito pelo Concílio de uma abordagem encarnacional é sobretudo visível no primeiro capítulo da «Lumen Gentium»:
Porém, a sociedade organizada hierarquicamente e o Corpo místico de Cristo, o agrupamento visível e a comunidade espiritual, a Igreja terrestre e a Igreja ornada com os dons celestes, não devem ser consideradas como duas entidades, mas como uma única realidade complexa, formada pelo duplo elemento humano e divino. Apresenta, por essa razão, uma grande analogia com o mistério do Verbo encarnado. Pois, assim como a natureza assumida serve ao Verbo divino de instrumento vivo de salvação, a Ele indissoluvelmente unido, de modo semelhante a estrutura social da Igreja serve ao Espírito de Cristo, que a vivifica, para o crescimento do corpo (LG 8).
Note-se que a Igreja não é diretamente identificada com a encarnação em Cristo. Mantém-se uma distância crítica entre a comunidade humana reunida na Igreja, Corpo de Cristo, e o próprio Cristo, Palavra divina encarnada. A Igreja é comparada, por «analogia»**, com a encarnação da Palavra de Deus na natureza humana de Cristo.

* Eclesiologia: ramo da teologia dedicado à reflexão sobre a «ecclesia», ou seja, sobre a Igreja, com a sua missão, estruturas e ministérios.
** Analogia: meio para explicar qualquer coisa comparando-a com outra, reconhecendo algumas semelhanças ou similaridades entre ambas. No raciocínio teológico, pode-se encontrar uma analogia ou reconhecer alguma semelhança entre realidades divinas e humanas, embora tendo o cuidado de reconhecer as diferenças necessárias entre elas.

© Richard R. Gaillardetz - Catherine E. Clifford
© Paulinas Editora, 2012
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização da editora

Catherine E. Clifford e Richard R. Gaillardetz, As «chaves» do Concílio, Paulinas Editora, Prior Velho, 2012 (material protegido por leis de direitos autorais)


  • A Igreja é como um sacramento [2] 

Há atualidade na Lumen Gentium?
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.6.13 | Sem comentários

Ambiente Virtual de Formação


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


Sem sombra de dúvidas, a Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG) é um dos documentos mais importantes do II Concílio do Vaticano, pois trouxe aos leigos e leigas, e à própria Igreja enquanto instituição hierárquica – conhecida e respeitada no período pré-conciliar como uma «sociedade perfeita fora da qual não existe salvação» – uma nova imagem da Igreja como «Povo de Deus», formada por todos os batizados em Cristo, e com Ele transformados num Reino de sacerdotes para Deus. Sacerdotes, profetas e reis que, independentemente do sacerdócio comum ou do sacerdócio ministerial, participam do Sacerdócio único de Cristo (Hebreus 5, 1-10).
Pelo conteúdo e pelas profundas implicações para o futuro, a elaboração e a votação da LG foram um tanto conturbadas e muito discutidas. Ao texto inicial, elaborado em quatro capítulos, foram apresentadas cerca de quatro mil emendas, o que resultou na alteração para sete capítulos, originando a primeira Constituição Dogmática deste Concílio. O Frei e depois Bispo, Boaventura Kloppenburg, na Introdução Geral dos Documentos do Concílio afirma que, tal como a «Dei Verbum», a «Lumen Gentium» é dogmática porque «teve a intenção formal de ensinar, propor doutrinas e mesmo doutrinas novas». Com o texto consolidado, o documento foi aprovado e solenemente promulgado pelo Papa Paulo VI a 21 de dezembro de 1964; todavia, a novidade deste documento provocou, e provoca ainda hoje, uma certa dificuldade de aceitação dentro da própria Igreja.

A LG está dividida em 8 capítulos:
  • I – O Mistério da Igreja; 
  • II – O Povo de Deus; 
  • III – A Constituição Hierárquica da Igreja e em especial o Episcopado; 
  • IV – Os leigos; 
  • V – Vocação Universal à Santidade na Igreja; 
  • VI – Os Religiosos; 
  • VII – A Índole Escatológica da Igreja Peregrina e sua União com a Igreja Celeste; 
  • VIII – A Bem-Aventurada Virgem Maria Mãe de Deus no Mistério de Cristo e da Igreja. 

Neste estudo, os capítulos da «Lumen Gentium» serão tratados em cinco fichas assim nomeadas: O Mistério da Igreja; O Povo de Deus; Uma Igreja Ministerial; Vocação à santidade e índole escatológica da Igreja; A Bem-Aventurada Virgem.

O Mistério da Igreja
O primeiro capítulo da LG aborda o Mistério da Igreja, afirmando que «Cristo é a luz dos povos» cuja claridade resplandece na face de uma Igreja que se mostra em Cristo, ao mundo, como sacramento ou sinal, e também como instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano. «E, retomando os ensinamentos dos Concílios anteriores, deseja oferecer aos seus fiéis e a todo o mundo, um ensinamento mais preciso sobre a sua natureza e a sua missão universal» (LG 1). Ao expor que «as presentes condições do mundo tornam ainda mais urgente este dever da Igreja, a fim de que todos os seres humanos… alcancem também a unidade total em Cristo», a LG assume a necessidade de dialogar com a modernidade, com as demais confissões cristãs e com as religiões não cristãs.
Aborda também o plano divino para a salvação, pela bondade, sabedoria, e vontade livre e insondável do Pai Eterno ao criar o mundo, decidindo elevar os humanos à participação da sua vida divina, não os abandonando quando pecaram em Adão, mas proporcionando-lhes sempre os auxílios necessários para se salvarem, na perspetiva de Cristo Redentor, Aquele que cumprindo a vontade do Pai Eterno em plena obediência aos seus desígnios, instaurou na Terra o Reino dos Céus cujo mistério nos revelou e consumou a redenção resgatando o género humano, oferecendo a salvação (LG 2).
A Igreja, ou seja, o Reino de Cristo, já presente em mistério, cresce visivelmente no mundo pelo poder de Deus. Ela é parte do plano de salvação de Deus. Ela não é nossa, é de Deus. A sua missão é ser o lugar, o espaço, a comunidade onde a humanidade pode encontrar Deus em Jesus Cristo e ser santificada no seu Espírito Santo. Por isso, a Igreja, preparada pelo Pai, fundada pelo Filho e continuamente santificada pelo Espírito, é semente do Reino de Deus que nela já atua misteriosamente. É nela que se experimenta, de modo mais intenso, o Reino trazido por Jesus!
O início e o crescimento da Igreja são expressos no sangue e na água que brotaram do lado aberto de Jesus crucificado (João 19, 34), e anunciados nas palavras do Senhor acerca da Sua morte na cruz: «Quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a mim» (João 12, 32). Sempre que no altar se celebra o sacrifício da cruz, no qual «Cristo, nossa Páscoa, foi imolado» (1Coríntios 5,7), realiza-se também a obra da nossa redenção. Pelo Sacramento do Pão Eucarístico, ao mesmo tempo, é representada e realizada a unidade dos fiéis, que «constituem um só corpo em Cristo» (1Coríntios 10, 17). Todos os seres humanos são chamados a esta união com Cristo, luz do mundo, do qual vimos, por quem vivemos, e para o qual caminhamos (LG 3).
Consumada a obra confiada ao Filho, Deus envia o Espírito Santo para santificar a Igreja que nascia, para assim dar acesso aos crentes até ao Pai, por Cristo, num só Espírito. Pelo Espírito da vida, fonte que jorra para a vida eterna, o Pai dá vida aos humanos mortos pelo pecado, até que um dia ressuscitem em Cristo os seus corpos mortais. Este Espírito que habita na Igreja e no coração dos fiéis, como num templo, leva a Igreja ao conhecimento da verdade total, unificando-a na comunhão e no mistério, dotando-a e dirigindo-a com os diversos dons hierárquicos e carismáticos, embelezando-a com os seus frutos e rejuvenescendo-a com a força do Evangelho (LG 4). Enriquecida pelos dons do seu Fundador, a Igreja recebe a missão de anunciar e estabelecer em todos os povos, o Reino de Cristo e de Deus, constituindo-se, ela mesma, na Terra, a semente e o início deste Reino.
O mistério da Santa Igreja manifesta-se na sua fundação. O Senhor Jesus deu início à Sua Igreja pregando a Boa Nova do advento do Reino de Deus prometido desde há séculos nas Escrituras: «cumpriu-se o tempo, o Reino de Deus está próximo» (Marcos 1,15; Mateus 4,17). Este Reino manifesta-se na palavra, nas obras e na presença de Cristo (LG 5).
A Igreja dá-nos a conhecer a sua natureza íntima, servindo-se das várias imagens vislumbradas na Sagrada Escritura: como redil, cuja única e necessária porta é Cristo (João 10, 1-10); como rebanho, do qual o próprio Deus é Pastor em Cristo (João 10, 11; 1Pedro 5, 4); como lavoura ou campo de Deus (1Coríntios 3, 9), onde cresce a oliveira antiga, cuja raiz santa são os patriarcas e da qual se obteve e se completará a reconciliação dos judeus e dos gentios (Romanos 11, 13-26); como construção de Deus (1Coríntios 3, 9), na qual Cristo se comparou à pedra que os construtores rejeitaram e que se tornou a pedra angular (Mateus 21, 42); e, ainda, como Jerusalém celeste e Nossa Mãe (Gálatas 4, 26) descrita no Livro do Apocalipse (19, 7; 21, 2.9; 22, 17) como a «Esposa Imaculada» do «Cordeiro Imaculado» (LG 6).
Refere-se, ainda, como Corpo Místico de Cristo (1Coríntios 12, 13) cuja Cabeça é o próprio Cristo e cujos membros são os seus filhos configurados com Cristo pelo Batismo, formando o corpo da Igreja. Entre os membros existe a diversidade de funções, e esta diferença provém dos dons do Espírito Santo que os distribui conforme as necessidades da Igreja para formarem um corpo único, assim como o corpo humano, cujos membros se devem conformar com a Cabeça, que é o Cristo Senhor, imagem do Deus invisível (LG 7).
Cristo como único mediador, constitui e sustenta indefectivelmente [que não pode falhar ou deixar de ser; apoio indefectível; certo, infalível] a sua Igreja Santa sobre a terra, como organismo visível, comunidade de fé, de esperança e de amor e, por meio dela, comunica a todos a verdade e a graça (presença de Deus nos seres humanos). No entanto, esta Igreja é uma sociedade dotada de órgãos hierárquicos, além de ser também o corpo místico de Cristo; é uma assembleia visível e uma comunidade espiritual. A Igreja terrestre e a Igreja ornada com os dons celestes não devem ser consideradas como duas entidades, mas como uma única realidade complexa, formada pelo duplo elemento humano e divino. É, portanto, ao mesmo tempo uma Igreja visível e espiritual, que continua seu peregrinar entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus, anunciando a cruz e a morte do Senhor, até que Ele venha e se manifeste em luz total no final dos tempos (LG 8).

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Questões para reflexão

  • Sendo Jesus Cristo a «Luz dos povos», em que perspetiva é que a Igreja também pode ser chamada «luz dos povos»?
  • Partindo do pressuposto que a «Lumen Gentium» proporcionou uma nova visão da Igreja e do seu relacionamento com o mundo, parece-te importante ou necessário que seja conhecida, difundida e estudada? Após este estudo sobre a Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium», o que destacas de importante para a vida dos fiéis e da Igreja
  • Das várias imagens da Igreja que a «Lumen Gentium» apresenta, para ti, qual delas é a que a melhor a identifica? Acrescentarias alguma outra imagem para apresentar a Igreja?

Partilha connosco a tua reflexão!


II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2013

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.6.13 | Sem comentários

Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


Ao convocar o Concílio Vaticano II, o Papa João XXIII tinha um objetivo bastante claro: «aggiornamento», atualização da Igreja diante das questões postas pela sociedade da época. Os trabalhos e documentos deveriam seguir esta linha, mas no final da primeira sessão, nenhum dos 72 documentos propostos tinha sido aprovado. João XXIII morreu meses depois, a 3 de junho de 1963. Paulo VI sucedeu-lhe e retomou os trabalhos conciliares sob uma nova perspetiva. Meses antes, Paulo VI, na época cardeal Montini, tinha-se pronunciado, afirmando que o Concílio se deveria ocupar de um único problema: «a Igreja», isto é, refletir sobre a essência da Igreja. Este seria o novo caminho a seguir. 
Do projeto inicial de 72 documentos passou-se para 16, deixando aspetos secundários para intervenções futuras do Papa e das congregações pontifícias. A constituição sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (Luz dos Povos) (LG) — torna-se como que o tronco do Concílio e representa, no campo da eclesiologia, uma autêntica revolução. Surge um novo modo de ser e de compreender a Igreja. De um modelo de Igreja como sociedade perfeita passa-se agora a uma pluralidade de imagens, complementares entre si e orientadas pela perspetiva do mistério e da Trindade. 
Ao contrário da Constituição «Sacrosanctum Concilium», hou­ve longa discussão sobre o texto original, sendo feitas cerca de quatro mil emendas. O documento final, votado apenas após cada um dos capítulos ser aprovado individualmente, foi promulgado a 21 de novembro de 1964, após receber 2151 votos a favor e apenas 5 contra. É composto por oito capítulos, onde se descrevem diferentes aspetos da Igreja
No capítulo I somos introduzidos no «mistério da Igreja»: a Igreja é o reino já presente em mistério e cresce pelo poder de Deus; «é o povo congregado na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (LG, número 4). Resgatam-se uma série de imagens que desde as origens do Cristianismo representaram a Igreja: rebanho, lavoura de Deus, edifício, Jerusalém do alto, templo do Espírito e corpo de Cristo com diferentes membros, guiados pela única cabeça: Cristo, que é a Luz dos Povos
Enquanto o capítulo I considera o corpo eclesial a partir do mistério trinitário, o II apresenta o seu desenvolvimento histórico. O novo povo de Deus, uno e universal, é formado por todos os que creem. Na nova aliança, todos são chamados a ir e batizar, segundo a ordem de Cristo em Mateus 28, 18-20, constituindo assim uma Igreja missionária
Os capítulos III e IV descrevem a estrutura orgânica da Igreja. Todos os batizados, fiéis ou pastores, têm a mesma vocação fundamental e são associados à mesma missão. Primeiramente fala-se da constituição hierárquica da Igreja, especificando a função dos bispos (pregar o Evangelho, governar e santificar o rebanho), presbíteros e diáconos, que estão ao serviço do povo de Deus. A seguir trata dos leigos, aos quais «compete por vocação procurar o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus» (LG 31). Os leigos, cada vez mais valorizados, são chamados à santidade a partir da sua vida de inserção no mundo. Para tal é sempre atual a necessidade de se investir na formação e participação dos leigos na vida eclesial. 
O Concílio pede que entre pastores e fiéis haja uma «comunidade de relações» e um mútuo apoio, pois todos são «chamados à santidade». Este é o tema dos capítulos V e VI. A mis­são essencial da Igreja é a santificação: a Igreja é santa e todos na Igreja são chamados à santidade. No coração desta vocação comum a todos situa-se a vida consagrada. O Concílio assinala os conselhos evangélicos como dom divino, consagração ao serviço de Deus. [...]
Nos dois últimos capítulos da «Lumen Gentium» há a des­crição do desenvolvimento escatológico da Igreja e do papel de Maria nesta caminhada, no mistério de Cristo e da Igreja. A Igreja peregrina está em união com a Igreja celeste e só será consumada na glória celeste (LG 48). 
Segundo destacou o professor M. Costa Santos, 
a ordem dos três primeiros capítulos mostra a «mudança copernicana» gerada pelo Concílio. O conceito de povo de Deus, após o mistério da Igreja, indica que o povo de Deus não surge por iniciativa dos homens, mas do plano de Deus Pai. O povo de Deus, antes constituição hierárquica da Igreja e dos leigos, mostra que a comunidade eclesial e a vocação comum são prioritárias face à di­versidade de ministérios e vocações; a realidade primeira é o «nós ecleisal» em que a unidade precede a diferença. A constituição hierárquica, após o povo de Deus, mostra que os ministérios estão ao serviço do corpo eclesial como mistério, a partir de Cristo.
Este é provavelmente o documento mais importante do Concílio Vaticano II, pois fez a Igreja refletir sobre a sua essência, sobre a sua origem e constituição interna. A sua redescoberta como mistério marca este retorno às origens ao mesmo tempo que se abre a todas as novidades trazidas pelos novos tempos. A consciencialização da Igreja como mistério ligado ao mistério de Cristo e não como sociedade deu um novo rumo e apontou caminhos interessantes que infelizmente não foram bem explorados ao longo destes cinquenta anos. Há muito a ser feito. Como recorda a professora Manuela Carvalho: 
A «Lumen Gentium» ainda não é vivida nem aplicada. [...] Alguns pontos desta constituição foram vistos, como a questão da colegialidade e do episcopado, mas o fundamento, a raiz da própria Igreja é mais difícil. Exige muito da vida cristã.
Isso significa que a Igreja ainda tem muito trabalho pela frente, pois, como afirma o professor Costa Santos:
a Igreja, num processo iniciado pelo Concílio e jamais conclusivo, deverá ser, sempre mais, sinal da «união com Deus e da unidade do género humano». Desta unidade, a Igreja é testemunha, que toma presente (visível) o Ausente (invisível).


Para refletir
  • A partir da minha condição de leigo, religioso ou pastor, como vejo a Igreja atualmente? Qual a sua essência? Em que deveria mudar?
  • Diante das questões colocadas à Igreja pela sociedade contemporânea, como pode o Vaticano II iluminar-nos?
  • Como vivo a minha vocação à santidade? Em que posso melhorar?
Partilha connosco a tua reflexão!



Para aprofundar
  • Documentos do Concílio Vaticano II.
  • Cardeal José Saraiva Martins, «Ide e anunciai», Paulus Editora, 2007.
  • Henrique Manuel Rodrigues dos Santos, «A recepção do Concílio Vaticano II na diocese da Guarda», Paulus Editora, 2010.
  • João Paulo II, Exortação Apostólica «Christifideies Laici», 1988.
  • Pio XII, Carta Encíclica «Mystici Corporis Christi», 1943.



Para agir
  • O Vaticano II destacou a importância do leigo na ação eclesial. A proposta de ação concreta é que cada leitor pense numa atividade da sua paróquia na qual se poderia envolver mais diretamente.



© Darlei Zanon, ssp 
— «Para ler o Concílio Vaticano II», páginas 15 a 19 —
© Paulus Editora, 2012
© Laboratório da fé, 2013
A publicação ou utilização deste texto precisa da autorização expressa do editor


Há atualidade na Lumen Gentium?



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.6.13 | Sem comentários

Maria, Mãe da Igreja


É a primeira vez que um Concílio Ecuménico apresenta síntese tão vasta da doutrina católica acerca do lugar que Maria Santíssima ocupa no mistério de Cristo e da Igreja. A reflexão sobre as estreitas relações de Maria com a Igreja, tão claramente estabelecidas pela Constituição conciliar, faz-nos pensar ser este o momento mais solene e mais apropriado para uma declaração explícita da função maternal que a Virgem exerce sobre o povo cristão. Para glória da Virgem e para nosso conforto, proclamamos Maria Santíssima «Mãe da Igreja», isto é, de todo o Povo de Deus, tanto dos fiéis como dos pastores, que lhe chamam Mãe amorosíssima; e queremos que com este título suavíssimo seja a Virgem doravante honrada e invocada por todo o povo cristão (cf. Paulo VI, Discurso a 21 de novembro de 1964).

Mistérios a partir do discurso do Papa Paulo VI


  • PRIMEIRO MISTÉRIO: MARIA, MÃE DA IGREJA
Assim como a maternidade divina é o fundamento da especial relação de Maria com Cristo e da sua presença na economia da salvação operada por Jesus Cristo, assim também constitui essa maternidade o fundamento principal das relações de Maria com a Igreja, sendo Ela Mãe d'Aquele que, desde o primeiro instante da Sua Encarnação no seu seio virginal, uniu a si, como Cabeça, o seu Corpo místico, que é a Igreja. Maria, pois como Mãe de Cristo, também é Mãe dos fiéis e dos pastores todos, isto é, da Igreja (Paulo VI, Discurso a 21 de novembro de 1964).

  • SEGUNDO MISTÉRIO: MARIA ESTÁ PERTO DE NÓS
É com ânimo cheio de confiança e de amor filial que elevamos o olhar para Maria. Ela, que em Jesus nos deu a fonte da graça, não deixará de socorrer a Igreja. E ainda mais reavivada e corroborada é a nossa confiança se consideramos os laços estreitíssimos que ao género humano prendem esta nossa Mãe celeste. Embora na riqueza das admiráveis prerrogativas com que Deus a exornou para a fazer digna Mãe do Verbo Encarnado, está Ela, todavia, pertíssimo de nós (Paulo VI, Discurso a 21 de novembro de 1964).

  • TERCEIRO MISTÉRIO: MARIA É PERFEITA DISCÍPULA DE JESUS CRISTO
Maria realizou a perfeita figura do discípulo de Cristo, espelho de todas as virtudes, e encarnou as bem-aventuranças evangélicas. Pelo que, nela, toda a Igreja, na sua incomparável variedade de vida e de obras, acha a forma autêntica de perfeita imitação de Cristo. Auguramos, pois, que, com a promulgação da Constituição sobre a Igreja, selada pela proclamação de Maria Mãe da Igreja, o povo cristão se dirija à Virgem santa com maior confiança e ardor, e a Ela tribute o culto e a honra que lhe competem (Paulo VI, Discurso a 21 de novembro de 1964).

  • QUARTO MISTÉRIO: MARIA É MODELO DE FÉ
Cada um de vós empenhe-se em manter alto entre o povo cristão o nome e a honra de Maria, aponte nela o modelo da fé e da plena correspondência a todo o convite de Deus, o modelo da plena assimilação ao ensino de Cristo e da sua caridade, a fim de que, unidos em nome da Mãe comum, sintam-se sempre todos os fiéis mais firmes na fé e na adesão a Jesus Cristo, e ao mesmo tempo mais fervorosos na caridade para com seus irmãos, promovendo o amor aos pobres, o apego à justiça, a defesa da paz (Paulo VI, Discurso a 21 de novembro de 1964).

  • QUINTO MISTÉRIO: MARIA CONDUZ PARA DEUS
Maria, humilde serva do Senhor, é toda relativa a Deus e a Cristo, único mediador e Redentor nosso. E igualmente sejam ilustradas a verdadeira natureza e as intenções do culto mariano na Igreja, de modo que os que não fazem parte da comunidade católica compreendam que, longe de ser fim em si mesma, a devoção a Maria é, ao contrário, meio essencialmente ordenado a orientar as almas para Cristo, e assim uni-Ias ao Pai, no amor do Espírito Santo (Paulo VI, Discurso a 21 de novembro de 1964).

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  • TEMA GERAL DO MÊS DE MARIA 2013 > > >
© Laboratório da fé, 2013

Maio, mês de Maria, 2013 — Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.5.13 | Sem comentários

Mês de maio, Mês de Maria


O papa João Paulo II, no dia 12 de novembro de 1997, dedicou uma Audiência Geral ao tema «A Mãe da unidade e da esperança» para comentar o número 69 do oitavo capítulo da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG) do II Concílio do Vaticano. 
O referido número, o último do capítulo, destaca o culto mariano entre os cristãos «que não pertencem à comunidade católica», a quem os Padres conciliares chamam de «irmãos separados». Nesta exposição, João Paulo II enuncia os vários temas que continuam a causar discordância entre os católicos e as demais confissões religiosas cristãs, nomeadamente os protestantes e os ortodoxos. Entre estes últimos e os católicos, o Papa destaca a unidade da «fé na maternidade divina de Maria, na sua Virgindade perene, na sua perfeita santidade, na sua intercessão materna junto do Filho». A terminar, o papa João Paulo II recorda o pedido expresso no texto conciliar: «confiar a unidade dos cristãos a Maria».

Caríssimos Irmãos e Irmãs:
1. Depois de ter ilustrado as relações entre Maria e a Igreja, o Concílio Vaticano II alegra-se em constatar que a Virgem é honrada também pelos cristãos que não pertencem à comunidade católica. «Muito alegra e consola este Sagrado Concílio saber que não falta, mesmo entre os irmãos separados, quem preste a honra devida à Mãe do Senhor e Salvador...» (LG, 69; cf. Redemptoris Mater, 29-34). Justamente podemos dizer que a maternidade universal de Maria, mesmo que faça aparecer ainda mais dolorosas as divisões entre os cristãos, constitui um grande sinal de esperança para o caminho ecuménico.
Muitas Comunidades protestantes, por causa de uma particular concepção da graça e da eclesiologia, opuseram-se à doutrina e ao culto mariano, considerando a cooperação de Maria na obra da salvação prejudicial à única mediação de Cristo. Nesta perspectiva, o culto da Mãe faria concorrência, por assim dizer, à honra devida ao Filho.
2. Todavia, em tempos recentes, o aprofundamento do pensamento dos primeiros reformadores pôs em relevo posições mais abertas em relação à doutrina católica. Os escritos de Lutero manifestam, por exemplo, amor e veneração a Maria, exaltada como modelo de todas as virtudes: ele defende a excelsa santidade da Mãe de Deus e, às vezes, afirma o privilégio da Imaculada Conceição, compartilhando com outros Reformadores a fé na Virgindade perpétua de Maria.
O estudo do pensamento de Lutero e de Calvino, e também a análise de alguns textos de cristãos evangélicos, contribuíram para suscitar uma renovada atenção de alguns protestantes e anglicanos a diversos temas da doutrina mariológica. Alguns chegaram mesmo a posições muito próximas às dos católicos, no que se refere aos pontos fundamentais da doutrina sobre Maria, como por exemplo a maternidade divina, a virgindade, a santidade e a maternidade espiritual.
A preocupação de ressaltar o valor da presença da mulher na Igreja favorece o esforço por reconhecer o papel de Maria na história da salvação.
Todos estes dados constituem outros tantos motivos de esperança para o caminho ecuménico. O profundo desejo dos católicos seria de poder compartilhar, com todos os seus irmãos em Cristo, a alegria que deriva da presença de Maria na vida, segundo o Espírito.
3. O Concílio recorda, entre os irmãos que «prestam a honra devida à Mãe do Senhor e Salvador», especialmente os Orientais, «que acorrem com fervor e devoção para venerar a Mãe de Deus sempre Virgem» (LG, 69).
Como resulta das numerosas manifestações de culto, a veneração por Maria representa um significativo elemento de comunhão entre católicos e ortodoxos.
Contudo, restam algumas divergências acerca dos dogmas da Imaculada Conceição e da Assunção, ainda que inicialmente essas verdades tenham sido ilustradas por alguns teólogos orientais — basta pensar em grandes escritores como Gregório Palamas ( †1359), Nicolau Cabasilas († depois de 1396), Jorge Scholarios († depois de 1472).
Todavia essas divergências, talvez mais de formulação que de conteúdo, não devem fazer esquecer a comum fé na maternidade divina de Maria, na sua Virgindade perene, na sua perfeita santidade, na sua intercessão materna junto do Filho. Como recordou o Concílio Vaticano II, o «ardente fervor» e a «alma devota» irmanam ortodoxos e católicos no culto à Mãe de Deus.
4. No final da Lumen Gentium, o Concílio convida a confiar a unidade dos cristãos a Maria: «Todos os fiéis dirijam súplicas insistentes à Mãe de Deus e Mãe dos homens para que Ela, que assistiu com suas orações aos alvores da Igreja, também agora, exaltada no céu acima de todos os Anjos e Bem-aventurados, interceda junto de Seu Filho, na comunhão de todos os Santos» (Ibid.).
Assim como na comunidade primordial a presença de Maria promovia a unanimidade dos corações, que a oração consolidava e tornava visível (cf. Act 1, 14), assim também a mais intensa comunhão com Aquela a quem Agostinho chama «mãe da unidade» (Sermo 192, 2;PL 38, 1013), poderá impelir os cristãos a gozarem o dom tão almejado da unidade ecuménica.
À Virgem Santa dirigem-se as nossas incessantes orações para que, assim como no início sustentou o caminho da comunidade cristã unida na oração e no anúncio do Evangelho, assim hoje com a sua intercessão obtenha a reconciliação e a plena comunhão entre os crentes em Cristo.
Mãe dos homens, Maria conhece bem as necessidades e as aspirações da humanidade. O Concílio pede-Lhe de modo particular que interceda a fim de que «as famílias dos povos, quer se honrem do nome de cristão, quer desconheçam ainda o Salvador, se reúnam em paz e concórdia no único Povo de Deus, para glória da Santíssima e indivisa Trindade» (LG, 69).
A paz, a concórdia e a unidade, objecto da esperança da Igreja e da humanidade, ainda parecem distantes. Contudo, constituem uma dádiva do Espírito a ser pedida incessantemente, pondo-se na escola de Maria e confiando na sua intercessão.
5. Com esse pedido os cristãos compartilham a expectativa d’Aquela que, repleta das virtudes da esperança, sustém a Igreja em caminho rumo ao porvir de Deus.
Tendo alcançado pessoalmente a bem-aventurança por ter «acreditado que teriam cumprimento as coisas que foram ditas da parte do Senhor» (Lc 1, 45), a Virgem acompanha os fiéis — e a Igreja inteira — a fim de que, entre as alegrias e as tribulações da vida presente, sejam no mundo os verdadeiros profetas da esperança que não desilude.

© Copyright 1997 - Libreria Editrice Vaticana — www.vatican.va —

João Paulo II - Karol Józef Wojtyła
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.5.13 | Sem comentários

Nada do que é humano é alheio à Igreja


Um dos pontos em que mais insiste o papa Francisco desde que chegou ao ministério petrino é, sem dúvida, o convite a ir às periferias da existência para pregar o amor de Deus. Voltou a repeti-lo aos movimentos apostólicos no encontro que decorreu na Vigília de Pentecostes: «Uma Igreja fechada [...] é uma Igreja doente. A Igreja tem de sair de si mesma. Aonde? Até às periferias existenciais, quaisquer que sejam, mas sair».
São muitos os que perguntam quais sãos essas «periferias» a que se refere o Papa. Refere-se aos bairros de lata das cidades, aos sítios mais pobres? Sim, refere-se a isso, mas não de modo exclusivo. De facto, o Santo Padre costuma acompanhar a palavra «periferia» com um adjetivo interessante: existencial. De que é que está a falar, então?

Um espaço para evangelizar

Pessoalmente, penso que o papa Francisco está a convidar-nos a ir aos lugares que normalmente não são evangelizados; seja porque são difíceis, seja porque pareciam afastados da missão da Igreja. Hoje, que sítios requerem uma audácia particular da parte da Igreja para a evangelização? Muitos podem ser catalogados com esta etiqueta. Um deles é... Internet.
Sim, Internet. Porque a rede já não é só um meio para passar tempo, mas é, como lhe chamou Bento XVI, um «continente digital» habitado por todos. Vamos à internet para nos informarmos, mas também para comprar coisas, para procurar trabalho, um companheiro ou para o discernimento vocacional. A internet é hoje um eixo sobre o qual gira a nossa sociedade. E a Igreja, nós, somos indiferentes?
Em janeiro deste ano, Bento XVI disse uma frase que me parece certeira: «um aspeto importante da Encarnação é o extraordinário realismo do amor de Deus, que quer entrar na nossa história». Ao tornar-se homem, Deus partilha a nossa vida e quer estar presente em todos os aspetos da existência humana, onde a internet e e as redes sociais são uma parte importante. A Igreja não pode ficar indiferente perante isto e, por isso, procura chegar aí para transmitir também o amor de Deus. Certamente, é importante que do virtual alguém possa encaminhar as pessoas para os sacramentos e para o contacto direto com Deus, mas o primeiro passo do encontro com Ele, de formação na fé ou de reavivar a esperança pode-se dar na internet

Coerência, acolhimento, bondade

Descendo ao concreto, diria que a melhor evangelização na internet é a coerência. Pensemos, por exemplo, no twitter. Um tweet meu — ou de qualquer católico que transmite com entusiasmo e alegria a sua fé —, pode aproximar as pessoas de Deus. Se percebem que sou coerente, convicto da minha fé, simples e alegre nas minhas publicações, Deus encarrega-se de lhes fazer notar que «ali há algo mais». Normalmente começa-se pelo lado humano e depois Deus encarrega-se do resto.
Isto serve para os sacerdotes, religiosos e religiosas, mas, principalmente, para os jovens. Porque ser uma testemunha jovem nas redes sociais é, muitas vezes, muito mais eficaz e potente do que aquilo que aí possa fazer um sacerdote. E não é preciso pregar misticismo ou imagens religiosas a todo o momento. Com o que já tens, com o que vives, mas sob o prisma de Deus.
Permitam-me uma aplicação concreta que nos acontece todos os dias. A internet é como um grande recipiente, um vaso gigante onde cabem muitas pessoas, cada um com as suas características específicas: um é frio como o gelo, o outro é temperamental como um café e outro deseja ser simplesmente um pouco de água. Todos estão lá. É evidente que o frio chocará com o calor e que a água natural se sinta ferida pelo corante de uma bebida cola. 
Assim acontece connosco. Com alguns, entendemo-nos de modo natural, porque partilhamos os mesmos ideais e crenças. Mas há outros que são totalmente diferentes e até fervem com o nosso modo de ser. Como posso conviver com alguém assim no mesmo vaso do mundo que é a internet? A resposta é dada por um ponto do Decálogo para a Evangelização do projeto iMisión: a abertura. É importante acolher a todos, demonstrar-lhes que ser crente não é «fazer parte de um gueto», mas que, como o nome católico indica, somos universais.
Em conclusão, um bom católico, quando vive a sua fé com entusiasmo, atrai os outros e contagia esse amor por Deus e pelas suas coisas. Fá-lo de forma natural e serena. Neste sentido, a bondade e a alegria são a melhor linguagem que podemos usar na internet. Atenção: não «bondadezinha», mas bondade. A «bondadezinha» é uma atitude pouco cristã, pois não quer aceitar a cruz quando ela aparece e pensa que, como Deus é bom, o cristão não deve sofrer. Não. O cristão sabe que sofrerá, mas nem por isso deixa de viver com entusiasmo e alegria a sua vida. É uma bondade acompanhada pela verdade. Ou melhor: da Verdade com maiúscula: de Deus. 

Sair para fora, sair!

não se pode ver a internet como «o lugar das coisas más» ou «onde só se perde tempo». Não podemos viver numa redoma ou fechados no nosso mundo, como os apóstolos depois da ressurreição, com medo do mal que nos possa acontecer.
Não podemos ser uma Igreja fechada, mas lançada à evangelização digital. Somos desafiados a isto pelo papa Francisco na Vigília de Pentecostes, na citação já mencionada: «Não vos fecheis, por favor. [...] Quando a Igreja se fecha, adoece [...]. Jesus diz-nos: 'Ide por todo o mundo. Ide. Pregai. Dai testemunho do Evangelho' (cf. Marcos 16, 15). Mas o que é que acontece quando alguém sai de si mesmo? Pode acontecer o mesmo que se pode passar com qualquer pessoa que saia de casa e vá pela rua: um acidente. Eu digo-vos: prefiro mil vezes uma Igreja acidentada, que tenha sofrido um acidente, do que uma Igreja doente por se fechar. Saí para fora, saí!».
Isto é o que somos chamados a pregar na internet, essa periferia existencial do século XXI.

© Juan A. Ruiz, membro do projeto imision.org
© Innovatie Media Inc. 
© Tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

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Evangelizar na internet
Postado por Unknown | 26.5.13 | Sem comentários

Mês de maio, Mês de Maria


O papa João Paulo II, no dia 15 de outubro de 1997, dedicou uma Audiência Geral ao tema «O culto da Bem-aventurada Virgem» para comentar a quarta parte do oitavo capítulo da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG) do II Concílio do Vaticano. 
O Papa inicia a sua reflexão dizendo que o culto a Maria está relacionado com o mistério da Encarnação: «a admirável decisão divina de ligar para sempre a identidade humana do Filho de Deus a uma mulher». Interligada com o culto da maternidade divina está o culto da maternidade universal de Maria. 
Em seguida, recorda o testemunho dos textos evangélicos sobre a «presença do culto mariano desde os primórdios da Igreja», nomeadamente nos dois primeiros capítulos do evangelho segundo Lucas. 
O testemunho dos evangelhos prolonga-se na iconografia e nos textos dos Padres da Igreja do segundo e terceiro séculos cristãos. Desde sempre, os cristãos manifestam uma «inseparabilidade entre o culto mariano e o culto atribuído a Jesus», que perdura até aos nossos dias. 
O Papa recorre ao número 66 da «Lumen Gentium» para mostrar que o culto mariano teve um forte incremento com a declaração do Concílio de Éfeso, em 431: Maria é Mãe de Deus («Theotokos»). 
Por tudo isto, «podemos bem dizer que o culto mariano se desenvolveu até aos nossos dias em admirável continuidade, alternando-se períodos florescentes e períodos críticos que, contudo, tiveram muitas vezes o mérito de promover ainda mais a sua renovação».

Caríssimos Irmãos e Irmãs:
1. «Ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher...» (Gálatas 4, 4). O culto mariano funda-se sobre a admirável decisão divina de ligar para sempre, como recorda o apóstolo Paulo, a identidade humana do Filho de Deus a uma mulher, Maria de Nazaré.
O mistério da maternidade divina e da cooperação de Maria na obra redentora suscita nos crentes de todos os tempos uma atitude de louvor, quer para com o Salvador quer Àquela que O gerou no tempo, cooperando assim na redenção.
Um ulterior motivo de reconhecido amor pela Bem-aventurada Virgem é oferecido pela sua maternidade universal. Ao escolhê-la como Mãe da humanidade inteira, o Pai celeste quis revelar a dimensão, por assim dizer materna, da Sua ternura divina e da Sua solicitude pelos homens de todas as épocas.
No Calvário, Jesus com as palavras: «Eis aí o teu filho», «Eis aí a tua mãe» (João 19, 26-27), dava Maria já antecipadamente a todos aqueles que haveriam de receber a boa nova da salvação e estabelecia assim as premissas do Seu afecto filial por Ela. Seguindo João, os cristãos prolongariam, com o culto, o amor de Cristo pela Sua mãe, acolhendo-a na própria vida.
2. Os textos evangélicos dão testemunho da presença do culto mariano desde os primórdios da Igreja. Os dois primeiros capítulos do Evangelho de São Lucas parecem recolher a atenção particular dos judeus cristãos para com a Mãe de Jesus, os quais manifestavam o seu apreço por Ela e conservavam ciosamente as suas memórias.
Nas narrações da infância, além disso, podemos captar as expressões iniciais e as motivações do culto mariano, sintetizadas nas exclamações de Isabel: «Bendita és tu entre as mulheres... Feliz daquela que acreditou que teriam cumprimento as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor!» (Lucas 1, 42.45).
Traços de uma veneração já difundida na primeira comunidade cristã estão presentes no cântico do Magnificat: «Todas as gerações me hão-de chamar ditosa » (Lucas 1, 48). Ao colocar nos lábios de Maria essa expressão, os cristãos reconheciam- lhe uma grandeza singular, que haveria de ser proclamada até ao fim do mundo.
Além disso, os testemunhos evangélicos (cf. Lucas 1, 34-35; Mateus 1, 23 e João 1, 13), as primeiras fórmulas de fé e uma passagem de Santo Inácio de Antioquia (cf. Smirn. 1, 2: SC 10, 155), confirmam a particular admiração das primeiras comunidades pela virgindade de Maria, intimamente ligada ao mistério da Encarnação.
O Evangelho de João, indicando a presença de Maria no início e no fim da vida pública do Filho, deixa supor entre os primeiros cristãos uma consciência viva do papel exercido por Maria na obra da Redenção, em plena dependência de amor por Cristo.
3. O Concílio Vaticano II, ao ressaltar o carácter particular do culto mariano, afirma: «Exaltada por graça do Senhor e colocada, logo a seguir a seu Filho, acima de todos os anjos e homens, Maria que, como mãe santíssima de Deus, tomou parte nos mistérios de Cristo, é com razão venerada pela Igreja com culto especial» (LG, 66).
Ao aludir, depois, à oração mariana do terceiro século «Sub tuum praesidium » — «Sob a tua protecção» —, acrescenta que essa peculiaridade emerge desde o início: «Na verdade, a Santíssima Virgem é, desde os tempos mais antigos, honrada com o título de Mãe de Deus, e sob a sua protecção se acolhem os fiéis, em todos os perigos e necessidades » (ibid.).
4. Esta afirmação encontra confirmação na iconografia e na doutrina dos Padres da Igreja, desde o segundo século. Em Roma, nas catacumbas de Priscila, é possível admirar a primeira representação de Nossa Senhora com o Menino, enquanto no mesmo tempo São Justino e Santo Ireneu falam de Maria como da nova Eva que, com a fé e a obediência, repara a incredulidade e a desobediência da primeira mulher. Segundo o Bispo de Lião, não era suficiente que Adão fosse resgatado em Cristo, mas «era justo e necessário que Eva fosse restaurada em Maria» (Dem., 33). Ele sublinha desse modo a importância da mulher na obra de salvação e põe como fundamento aquela inseparabilidade entre o culto mariano e o culto atribuído a Jesus, que percorrerá os séculos cristãos.
5. O culto mariano expressou-se inicialmente na invocação de Maria como «Theotokos», título que teve confirmação autorizada, depois da crise nestoriana, pelo Concílio de Éfeso que se realizou no ano 431.
A mesma reacção popular à posição ambígua e oscilante de Nestório, que chegou a negar a maternidade divina de Maria, e o sucessivo acolhimento jubiloso das decisões do Sínodo Efésio confirmam a radicação do culto da Virgem entre os cristãos. Todavia, «foi sobretudo a partir do Concílio de Éfeso que o culto do Povo de Deus para com Maria cresceu admiravelmente, na veneração e no amor, na invocação e na imitação...» (LG, 66). Ele expressou-se de modo especial nas festas litúrgicas, entre as quais, desde o início do século V, assumiu particular relevo «o dia de Maria Theotokos», celebrado a 15 de Agosto em Jerusalém e que se tornou sucessivamente a festa da «Dormitio» ou da Assunção.
Sob a influência do «Protoevangelho de Tiago» foram, além disso, instituídas as festas da Natividade, da Conceição e da Apresentação, que contribuíram de maneira notável para evidenciar alguns importantes aspectos do mistério de Maria.
6. Podemos bem dizer que o culto mariano se desenvolveu até aos nossos dias em admirável continuidade, alternando-se períodos florescentes e períodos críticos que, contudo, tiveram muitas vezes o mérito de promover ainda mais a sua renovação. Após o Concílio Vaticano II, o culto mariano parece destinado a desenvolver-se em harmonia com o aprofundamento do mistério da Igreja e em diálogo com as culturas contemporâneas, para se arraigar sempre mais na fé e na vida do povo de Deus peregrino sobre a terra.
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João Paulo II - Karol Józef Wojtyła
Postado por Unknown | 24.5.13 | Sem comentários

Natureza e fundamento do culto


Exaltada por graça do Senhor e colocada, logo a seguir a seu Filho, acima de todos os anjos e humanos, Maria que, como mãe santíssima de Deus, tomou parte nos mistérios de Cristo, é com razão venerada pela Igreja com culto especial. E, na verdade, a Santíssima Virgem é, desde os tempos mais antigos, honrada com o título de «Mãe de Deus», e sob a sua proteção se acolhem os fiéis, em todos os perigos e necessidades. Foi sobretudo a partir do Concílio do Éfeso que o culto do Povo de Deus para com Maria cresceu admiravelmente, na veneração e no amor, na invocação e na imitação, segundo as suas proféticas palavras: «Todas as gerações me proclamarão bem-aventurada, porque realizou em mim grandes coisas Aquele que é poderoso» (Lucas 1, 48) (Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium», 66).

Mistérios a partir do texto da «Lumen Gentium»


  • PRIMEIRO MISTÉRIO: MÃE DE DEUS
O culto mariano expressou-se inicialmente na invocação de Maria como «Mãe de Deus», título que teve confirmação autorizada, depois da crise nestoriana, pelo Concílio de Éfeso que se realizou no ano 431. Expressou-se de modo especial nas festas litúrgicas, entre as quais, desde o início do século V, assumiu particular relevo «o dia de Maria», celebrado a 15 de Agosto em Jerusalém e que se tornou sucessivamente a festa da Assunção (João Paulo II, Audiência Geral de 15 de outubro de 1997).

  • SEGUNDO MISTÉRIO: CULTO PARA COM MARIA
O culto mariano desenvolveu-se até aos nossos dias em admirável continuidade, alternando-se períodos florescentes e períodos críticos que, contudo, tiveram muitas vezes o mérito de promover ainda mais a sua renovação. Após o II Concílio do Vaticano, o culto mariano parece destinado a desenvolver-se em harmonia com o aprofundamento do mistério da Igreja e em diálogo com as culturas contemporâneas, para se arraigar sempre mais na fé e na vida do povo de Deus peregrino sobre a terra (João Paulo II, Audiência Geral de 15 de outubro de 1997).

  • TERCEIRO MISTÉRIO: VENERAÇÃO E AMOR
A Igreja procura traduzir as multíplices relações que a unem a Maria, em outras tantas atitudes culturais, diversas e eficazes: em veneração profunda, quando reflete na dignidade singular da Virgem Santíssima, que, por obra do Espírito Santo, se tornou Mãe do Verbo Encarnado; em amor ardente, quando considera a maternidade espiritual de Maria para com todos os membros do Corpo Místico (Paulo VI, Exortação Apostólica para a reta ordenação e desenvolvimento do culto à Bem-aventurada Virgem Maria — «Marialis Cultus», 22).

  • QUARTO MISTÉRIO: INVOCAÇÃO E IMITAÇÃO
A Igreja também se relaciona com Maria em invocação confiante e em imitação operosa. Maria foi sempre proposta pela Igreja à imitação dos fiéis, porque, nas condições concretas da sua vida, ela aderiu total e responsavelmente à vontade de Deus; porque soube acolher a sua palavra e pô-la em prática; porque a sua ação foi animada pela caridade e pelo espírito de serviço; e porque, em suma, foi a primeira e a mais perfeita discípula de Cristo (Paulo VI, Exortação Apostólica para a reta ordenação e desenvolvimento do culto à Bem-aventurada Virgem Maria — «Marialis Cultus», 35).

  • QUINTO MISTÉRIO: BEM-AVENTURADA
Maria é o mais belo exemplo de fidelidade à Palavra divina. Esta fidelidade foi tão grande que se fez Encarnação: «faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lucas 1, 38) — disse ela com confiança absoluta. A nossa oração recorda o Magnificat daquela que todas as gerações chamarão bem-aventurada, porque acreditou no cumprimento das palavras que lhe tinham sido ditas da parte do Senhor. Podemos dizer-lhe com serenidade: «Santa Maria, Mãe de Deus, Mãe nossa, ensinai-nos a crer, esperar e amar convosco» (Bento XVI, Homilia nas Vésperas de 12 de setembro de 2008).

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© Laboratório da fé, 2013

Maio, mês de Maria, 2013 — Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.5.13 | Sem comentários

Mês de maio, Mês de Maria


Oração a partir do texto da Lumen Gentium 64

Virgem Santíssima:
em Ti, a Igreja alcançou a perfeição,
que lhe permite apresentar-se sem mancha nem ruga.
Mas os fiéis ainda continuam a esforçar-se
por crescer na santidade, vencendo o pecado.
Por isso levantam os olhos para Ti,
que és modelo de virtudes para a comunidade dos eleitos:
À tua proteção nos acolhemos, 
Santa Mãe de Deus.

Refletindo piedosamente sobre Ti
e contemplando-te à luz do Verbo feito homem,
a Igreja penetra, cheia de respeito,
mais e mais no íntimo do mistério da Encarnação
e toma cada vez mais a semelhança do seu Esposo.
À tua proteção nos acolhemos,
Santa Mãe de Deus.

Quando a Igreja te exalta e honra,
porque reúnes e refletes as maiores exigências da fé
pela tua cooperação íntima na História da Salvação,
Tu atrais os crentes para teu Filho,
para o seu sacrifício e para o amor do Pai.
E a Igreja, empenhada na glória de Cristo, 
torna-se mais semelhante a ti, que a representas, 
progredindo continuamente 
na fé, na esperança e na caridade, 
buscando e cumprindo em tudo a vontade de Deus.

Na sua atividade apostólica,
a Igreja olha para ti, que geraste e deste à luz a Cristo,
concebido do Espírito Santo, para que, por meio de Ti,
Cristo nasça e cresça também no coração dos fiéis.
À tua proteção nos acolhemos,
Santa Mãe de Deus.

Virgem Santíssima:
Tu, que durante a tua vida,
foste modelo do amor materno, anima com esse amor
todos os que trabalham na missão apostólica da Igreja
para a Redenção dos homens.
Ámen.

© Lopes Morgado

Maio, mês de Maria, 2013 — Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.5.13 | Sem comentários

Virtudes de Maria


A Igreja, procurando a glória de Cristo, torna-se mais semelhante àquela que é seu tipo e sublime figura, progredindo continuamente na fé, na esperança e na caridade, e buscando e fazendo em tudo a vontade divina. Daqui vem igualmente que, na sua ação apostólica, a Igreja olha com razão para aquela que gerou a Cristo, o qual foi concebido por ação do Espírito Santo e nasceu da Virgem precisamente para nascer e crescer também no coração dos fiéis, por meio da Igreja. E, na sua vida, deu a Virgem exemplo daquele afeto maternal de que devem estar animados todos quantos cooperam na missão apostólica que a Igreja tem de regenerar os seres humanos (Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium», 65).

Mistérios a partir do texto da «Lumen Gentium»


  • PRIMEIRO MISTÉRIO: PROCURANDO A GLÓRIA DE CRISTO
Os Padres conciliares lembram que a vida da Igreja está associada à procura da glória de Cristo. Tudo deve ser realizado para glória de Cristo, para glória de Deus. Esta consciência tem de acompanhar cada palavra e cada gesto de todos os membros da Igreja, imitando aquela «que é seu tipo e sublime figura», Maria. A Igreja se não tiver como objetivo procurar a glória de Cristo, mas antes buscar outros interesses ou o seu próprio louvor, coloca-se fora da lógica evangélica, coloca-se fora da sua missão.

  • SEGUNDO MISTÉRIO: PROGREDINDO NA FÉ, NA ESPERANÇA E NA CARIDADE
Maria é para a Igreja modelo de fé, esperança e caridade. Ela precede os cristãos na adesão à palavra. Encoraja-os e guia-nos na esperança. Inspira-os a viver na caridade. Observando a situação da primeira comunidade cristã, descobrimos que a unanimidade dos corações, manifestada à espera do Pentecostes, está associada à presença da Virgem Santa. E graças precisamente à caridade irradiante de Maria é possível conservar em todos os tempos no interior da Igreja a concórdia e o amor fraterno (cf. João Paulo II, Audiência Geral de 3 de setembro de 1997).

  • TERCEIRO MISTÉRIO: NASCER E CRESCER NO CORAÇÃO DOS FIÉIS
Segundo a expressão do Beato mártir carmelita Tito Brandsma, pomo-nos em profunda sintonia com Maria, tornando-nos como Ela transmissores da vida divina: «Também a nós o Senhor envia o seu anjo... também nós devemos receber Deus nos nossos corações, levá-lo dentro dos nossos corações, nutri-lo e fazê-lo crescer em nós de tal forma que ele nasça de nós e viva connosco como Deus-connosco, o Emanuel» (João Paulo II, Mensagem à ordem do Carmelo, a 25 de março de 2001).

  • QUARTO MISTÉRIO: EXEMPLO DE AFETO MATERNAL
A Igreja, na sua missão apostólica, volta o seu olhar para Maria, animada pelo seu afeto maternal. Maria foi uma educadora admirável. Na pessoa de Maria, a Igreja adquire um rosto materno mais concreto. Para compreendermos até que ponto a Igreja nos ama como mãe, basta-nos fixar o olhar da Virgem, que se debruça amorosa e ternamente sobre nós. Graças à maternidade de Nossa Senhora, a maternidade da Igreja torna-se mais real e mais familiar (Jean Galot).

  • QUINTO MISTÉRIO: MISSÃO APOSTÓLICA
O II Concílio do Vaticano na Constituição Dogmática sobre a Igreja põe em evidência expressamente o papel de exemplaridade, desempenhado por Maria em relação à Igreja na sua missão apostólica. Depois de ter cooperado na obra de salvação com a maternidade, com a associação ao sacrifício de Cristo e com a ajuda materna à Igreja nascente, Maria continua a sustentar a comunidade cristã e todos os crentes no generoso empenho pelo anúncio do Evangelho (João Paulo II, Audiência Geral de 3 de setembro de 1997).

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© Laboratório da fé, 2013

Maio, mês de Maria, 2013 — Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.5.13 | Sem comentários

Mês de maio, Mês de Maria


O papa João Paulo II, no dia três de setembro de 1997, dedicou uma Audiência Geral ao tema «Maria, modelo da santidade da Igreja» para comentar o número 65, que pertence ao oitavo capítulo da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG) do II Concílio do Vaticano. Nas audiências anteriores, o Papa abordou a virgindade e a maternidade de Maria como modelo da Igreja. Agora, reflete sobre a santidade, tendo como ponto de partida a relação esponsal entre Cristo e a Igreja e a diferença que existe entre os membros da Igreja e Maria. Esta é para todos um «modelo de virtudes». Neste sentido, Maria «representa para a comunidade dos crentes o paradigma da autêntica santidade que se realiza na união com Cristo». Em terceiro lugar, parte das virtudes teologais — fé, esperança, caridade — para insistir na relação de precedência e de modelo que Maria tem para com a Igreja, da qual também ela faz parte. A reflexão termina com uma referência ao exemplo de Maria na missão apostólica da Igreja: «Maria continua a sustentar a comunidade cristã e todos os crentes no generoso empenho pelo anúncio do Evangelho».

Caríssimos Irmãos e Irmãs:
1. Na Carta aos Efésios, São Paulo ilustra a relação esponsal entre Cristo e a Igreja, com as seguintes palavras: «Cristo amou a Igreja, e por ela Se entregou, para a santificar, purificando-a no baptismo da água pela palavra da vida, para a apresentar a Si mesmo como Igreja gloriosa sem mancha nem ruga, nem qualquer coisa semelhante, mas santa e imaculada» (Efésios 5, 25-27).
O II Concílio do Vaticano retoma as afirmações do Apóstolo e recorda que, «na Santíssima Virgem, a Igreja alcançou já a perfeição», enquanto «os fiéis ainda têm de trabalhar por vencer o pecado e crescer na santidade» (LG, 65).
É assim ressaltada a diferença que existe entre os fiéis e Maria, pertencendo embora ambos à santa Igreja, que se tornou por Cristo «sem mancha nem ruga». Com efeito, enquanto os fiéis recebem a santidade por meio do batismo, Maria foi preservada de toda a mancha de pecado original e antecipadamente remida por Cristo. Os fiéis, além disso, embora libertados «da lei do pecado» (cf. Romanos 8, 2), ainda podem ceder à tentação e a fragilidade humana continua a manifestar-se na vida deles. «Todos nós pecamos em muitas coisas», afirma a Carta de Tiago (3, 2). Por este motivo o Concílio de Trento ensina: «Ninguém pode evitar, na sua vida inteira, todo o pecado mesmo venial» (DS 1573). A esta regra, contudo, faz excepção por privilégio divino a Virgem Imaculada, como o mesmo Concílio de Trento recorda (ibid.).
2. Não obstante os pecados dos seus membros, a Igreja é antes de tudo a comunidade daqueles que são chamados à santidade e se empenham cada dia por alcançá-la.
Neste árduo caminho rumo à perfeição, eles sentem-se encorajados por Aquela que é «modelo de virtudes». O Concílio observa que «a Igreja, meditando piedosamente na Virgem, e contemplando- a à luz do Verbo feito homem, penetra mais profundamente, cheia de respeito, no insondável mistério da Encarnação, e mais e mais se conforma com o seu Esposo» (LG, 65).
A Igreja, portanto, olha para Maria. Não só contempla o dom maravilhoso da sua plenitude de graça, mas esforça-se por imitar a perfeição que n’Ela é fruto da plena adesão ao preceito de Cristo: «Sede, pois, perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste» (Mateus 5, 48). Maria é a inteiramente santa. Ela representa para a comunidade dos crentes o paradigma da autêntica santidade que se realiza na união com Cristo. A vida terrena da Mãe de Deus é, com efeito, caracterizada pela perfeita sintonia com a pessoa do Filho e pela dedicação total à obra redentora por Ele realizada.
Dirigindo o olhar para a intimidade materna que se desenvolveu no silêncio da vida de Nazaré e se aperfeiçoou na hora do sacrifício, a Igreja empenha-se em imitá-la no seu caminho quotidiano. Desse modo, conforma-se cada vez mais com o seu Esposo. Unida como Maria à cruz do Redentor, a Igreja, através das dificuldades, contradições e perseguições que renovam na sua vida o mistério da Paixão do seu Senhor, põe-se na constante busca da plena configuração com Ele.
3. A Igreja vive de fé, reconhecendo «naquela que acreditou que teriam cumprimento as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor» (Lucas 1, 45), a primeira e perfeita expressão da sua fé. Neste itinerário de abandono confiante rumo ao Senhor, a Virgem precede os discípulos, aderindo à Palavra divina num contínuo crescendo, que investe todas as etapas da sua vida e se propaga na própria missão da Igreja.
O seu exemplo encoraja o Povo de Deus a praticar a sua fé e a aprofundar e desenvolver o seu conteúdo, conservando e meditando no coração os acontecimentos da salvação.
Maria torna-se para a Igreja também modelo de esperança. Ao escutar a mensagem do anjo, a Virgem é a primeira a orientar a sua esperança para o Reino sem fim, que Jesus tinha sido enviado para estabelecer.
Ela permanece firme junto da cruz do Filho, à espera da realização da promessa divina. Depois do Pentecostes a Mãe de Jesus sustém a esperança da Igreja, ameaçada pelas perseguições. Ela é, pois, para a Comunidade dos crentes e para cada um dos cristãos a Mãe da esperança, que encoraja e guia os seus filhos na expectativa do Reino, sustentando-os nas provas quotidianas e no meio das vicissitudes, mesmo trágicas, da história.
Em Maria, por fim, a Igreja reconhece o modelo da sua caridade. Observando a situação da primeira comunidade cristã, descobrimos que a unanimidade dos corações, manifestada à espera do Pentecostes, está associada à presença da Virgem Santa (cf. Atos dos Apóstolos 1, 14). E graças precisamente à caridade irradiante de Maria é possível conservar em todos os tempos no interior da Igreja a concórdia e o amor fraterno.
4. O Concílio põe em evidência expressamente o papel de exemplaridade, desempenhado por Maria em relação à Igreja na sua missão apostólica, com as seguintes anotações: «Na sua acção apostólica, a Igreja olha com razão para aquela que gerou a Cristo, o qual foi concebido por acção do Espírito Santo e nasceu da Virgem precisamente para nascer e crescer também no coração dos fiéis, por meio da Igreja. E, na sua vida, deu a Virgem exemplo daquele afecto maternal de que devem estar animados todos quantos cooperam na missão apostólica que a Igreja tem de regenerar os homens» (LG, 65).
Depois de ter cooperado na obra de salvação com a maternidade, com a associação ao sacrifício de Cristo e com a ajuda materna à Igreja nascente, Maria continua a sustentar a comunidade cristã e todos os crentes no generoso empenho pelo anúncio do Evangelho.

© Copyright 1997 - Libreria Editrice Vaticana — www.vatican.va —

João Paulo II - Karol Józef Wojtyła
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.5.13 | Sem comentários

Virtudes de Maria


Ao passo que, na Santíssima Virgem, a Igreja alcançou já aquela perfeição sem mancha nem ruga que lhe é própria (cf. Efésios 5, 27), os fiéis ainda têm de trabalhar por vencer o pecado e crescer na santidade; e por isso levantam os olhos para Maria, que brilha como modelo de virtudes sobre toda a família dos eleitos. A Igreja, meditando piedosamente na Virgem, e contemplando-a à luz do Verbo feito homem, penetra mais profundamente, cheia de respeito, no insondável mistério da Encarnação, e mais e mais se conforma com o seu Esposo. Pois Maria, que entrou intimamente na história da salvação, e, por assim dizer, reúne em si e reflete os imperativos mais altos da nossa fé, ao ser exaltada e venerada, atrai os fiéis ao Filho, ao Seu sacrifício e ao amor do Pai (Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium», 65).

Mistérios a partir do texto da «Lumen Gentium»


  • PRIMEIRO MISTÉRIO: CRESCER NA SANTIDADE
É assim ressaltada a diferença que existe entre os fiéis e Maria, pertencendo embora ambos à santa Igreja, que se tornou por Cristo «sem mancha nem ruga ». Com efeito, enquanto os fiéis recebem a santidade por meio do batismo, Maria foi preservada de toda a mancha de pecado original. Não obstante os pecados dos seus membros, a Igreja é antes de tudo a comunidade daqueles que são chamados à santidade e se empenham cada dia por alcançá-la (João Paulo II, Audiência Geral de 3 de setembro de 1997).

  • SEGUNDO MISTÉRIO: MARIA BRILHA COMO MODELO
A Igreja olha para Maria. Não só contempla o dom maravilhoso da sua plenitude de graça, mas esforça-se por imitar a sua perfeição. Maria é a inteiramente santa. Ela representa para a comunidade dos crentes o paradigma da autêntica santidade que se realiza na união com Cristo. A vida terrena da Mãe de Deus é, com efeito, caracterizada pela perfeita sintonia com a pessoa do Filho e pela dedicação total à obra redentora por Ele realizada (João Paulo II, Audiência Geral de 3 de setembro de 1997).

  • TERCEIRO MISTÉRIO: MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO
O acontecimento da Encarnação, de Deus que se faz homem como nós, que nos mostra o realismo inaudito do amor divino. Com efeito, o agir de Deus não se limita às palavras, aliás, poderíamos dizer que Ele não se contenta com falar, mas insere-se na nossa história e assume sobre si a dificuldade e o peso da vida humana. O Filho de Deus fez-se verdadeiramente homem, nasceu da Virgem Maria, numa época e num lugar determinados (Bento XVI, Audiência Geral de 9 de janeiro de 2013).

  • QUARTO MISTÉRIO: MARIA REÚNE E REFLETE OS IMPERATIVOS DA FÉ
A Igreja vive de fé, reconhecendo «naquela que acreditou que teriam cumprimento as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor» (Lucas 1, 45), a primeira e perfeita expressão da sua fé. Neste itinerário, a Virgem precede os discípulos, aderindo à Palavra divina num contínuo crescendo, que investe todas as etapas da sua vida e se propaga na própria missão da Igreja. O seu exemplo encoraja o Povo de Deus a praticar a sua fé e a aprofundar e desenvolver o seu conteúdo (João Paulo II, Audiência Geral de 3 de setembro de 1997).

  • QUINTO MISTÉRIO: MARIA ATRAI OS FIÉIS AO FILHO
Cristo é o Mestre por excelência, o revelador e a revelação. Não se trata somente de aprender as coisas que Ele ensinou, mas de «aprender a Ele». Porém, nisto, qual mestra mais experimentada do que Maria? Se do lado de Deus é o Espírito, o Mestre interior, que nos conduz à verdade plena de Cristo , de entre os seres humanos, ninguém melhor do que Ela conhece Cristo, ninguém como a Mãe pode introduzir-nos no profundo conhecimento do seu mistério (João Paulo II, Carta Apostólica sobre o Rosário — «Rosarium Virginis Mariae», 14).

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Maio, mês de Maria, 2013 — Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.5.13 | Sem comentários
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