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Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [1]


A partir desta semana vamos apresentar o conteúdo da Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual («Gaudium et Spes» [GS]). É um documento do II Concílio do Vaticano, promulgado pelo papa Paulo VI, no dia sete de dezembro de 1965. Esta Constituição abre com as palavras latinas «Gaudium et Spes» — em português, «as alegrias e as esperanças» — que lhe dão o título, de acordo com a tradição eclesiástica. Trata-se de um longo documento (93 artigos) composto por duas partes, às quais se juntam o proémio, a introdução e a conclusão: «A Igreja e a vocação do ser humano» (primeira parte); «Alguns problemas mais urgentes» (segunda parte).

Constituição Pastoral

A GS é denominada «Constituição Pastoral» porque o seu conteúdo demonstra a clara intenção de apresentar uma nova autocompreensão da vocação da Igreja como serviço («diaconia») ao mundo e à humanidade. E, embora na primeira parte trate de questões doutrinárias, na segunda, vai tratar de vários aspetos da vida atual e da sociedade humana, enfatizando os problemas mais urgentes que atingem a humanidade, ou seja, questões pastorais.

«Aggiornamento»

De fundamental importância para o «aggiornamento» — palavra italiana que se pode traduzir por «atualização» — preconizado pelo papa João XXIII e assumido por Paulo VI, a GS trouxe uma nova visão da Igreja para o mundo e do mundo para a Igreja. Na sua abertura ao diálogo com toda a humanidade, a Igreja («Povo de Deus») faz-se presente na história humana procurando a reformulação das estruturas pecaminosas que são causadoras de injustiça e exclusão social. Esta Constituição Pastoral continua a ser um documento eclesial imprescindível para refletir sobre as transformações que caracterizam a sociedade atual.

Proémio

O II Concílio do Vaticano, colocando-se em completa solidariedade com a humanidade (GS 1), dirige a sua palavra a todos os homens e mulheres com o intuito de expor o seu modo de conceber a presença e a atividade da Igreja no mundo atual (GS 2). Demonstra a sua solidariedade, respeito e amor para com a família humana, estabelecendo com ela um diálogo iluminado à luz do Evangelho, na perspetiva da salvação da pessoa humana e da renovação da sociedade. E, embora seja a humanidade a destinatária destas palavras, a Igreja dirige-se principalmente à sua parcela mais sofredora, a exemplo de Jesus Cristo (GS 3).

Introdução

Na introdução, a GS descreve o seguinte: alguns problemas que afetam a humanidade e a própria condição do homem e da mulher no mundo atual (GS 4); as profundas mudanças ocorridas nos últimos tempos; os avanços da ciência e da técnica (GS 5); as mudanças sociais (GS 6); as mudanças psicológicas, morais e religiosas (GS 7); os desequilíbrios pessoais familiares e sociais do mundo moderno (GS 8). Elabora ainda uma síntese das aspirações mais universais da humanidade, convencida de que o género humano pode e deve dominar mais intensamente as coisas criadas para estabelecer uma ordem política, social e económica que sirva para o bem de toda humanidade. Observa, todavia, o aumento da dependência económica das nações mais pobres em relação às mais ricas, que as mulheres reivindicam a igualdade de direito e de facto com os homens, que os trabalhadores almejam não apenas o necessário para sobreviver, mas desenvolver, pelo trabalho, as próprias qualidades e participar na organização da vida económica, social, política e cultural. Sob todas estas reivindicações lateja uma aspiração mais profunda e universal: as pessoas e os grupos desejam uma vida plena e livre, digna do ser humano, colocando ao seu próprio serviço tudo quanto o mundo moderno lhes pode oferecer com tanta abundância. Além disso, as nações esforçam-se cada vez mais para edificar uma comunidade universal. Diante do mundo moderno que se apresenta simultaneamente poderoso e débil, capaz de realizar o melhor e o pior, ao ser humano abre-se o caminho da liberdade ou escravidão, do progresso ou do regresso, da fraternidade ou do ódio. Em face deste conflito entre a busca de um mundo melhor por uma parte da humanidade e ambição desenfreada de outra parte, os homens e mulheres de boa vontade interrogam-se sobre a sua vocação (GS 9). No final da introdução, a GS confirma a convicção de que, somente à luz da opção evangélica de vida, a humanidade encontrará a chave para a solução dos problemas que a afetam, pois os desequilíbrios que atormentam o mundo moderno estão vinculados ao desequilíbrio mais fundamental radicado no coração do ser humano (GS 10).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.9.15 | Sem comentários

Viver a fé! [42]


A conclusão do Compêndio da Doutrina Social da Igreja propõe uma meta: caminharmos «para uma civilização do amor». Esta última proposta desenvolve-se nas seguintes alíneas: «a ajuda da Igreja ao homem contemporâneo» (números 575 e 576); «voltar a partir da fé em Cristo» (577); «uma firme esperança» (578 e 579); «construir a ‘civilização do amor’» (580 a 583).

A ajuda da Igreja ao homem contemporâneo

A Igreja reconhece que se vive «uma nova necessidade de sentido na sociedade contemporânea. [...] Revelam-se árduas as tentativas de responder à exigência de projetar o futuro no novo contexto das relações internacionais, cada vez mais complexas e interdependentes, mas também menos ordenadas e pacíficas» (575). Por isso, «às interrogações de fundo sobre o sentido e o fim da aventura pessoal a Igreja responde com o anúncio do Evangelho de Cristo, que subtrai a dignidade da pessoa humana ao flutuar das opiniões, assegurando a liberdade do ser humano como nenhuma lei humana pode fazer. O II Concílio do Vaticano indicou que a missão da Igreja no mundo contemporâneo consiste em ajudar cada ser humano a descobrir em Deus o significado último da sua existência [...]. Somente Deus, que criou o ser humano à sua imagem e o resgatou do pecado, pode oferecer às interrogações humanas mais radicais uma resposta plenamente adequada por meio da Revelação realizada definitivamente no seu Filho feito homem» (576).

Voltar a partir da fé em Cristo

«A fé em Deus e em Jesus Cristo ilumina os princípios morais que são ‘o fundamento único e insubstituível da estabilidade e tranquilidade, da ordem interior e exterior, particular e pública, únicos valores capazes de criar e salvaguardar a prosperidade dos Estados’. A vida social deve ser ancorada no desígnio divino [...]. Também no que diz respeito à ‘questão social’, não se pode aceitar ‘a esperança ingénua de que possa haver uma fórmula mágica para os grandes desafios do nosso tempo; não será uma fórmula a salvar-nos, mas uma Pessoa, e a certeza que Ela nos infunde: Eu estarei convosco!’» (577).

Uma firme esperança

«A Igreja ensina ao ser humano que Deus lhe oferece a real possibilidade de superar o mal e de alcançar o bem. O Senhor redimiu o humano, resgatou-o por um ‘grande preço’ (1Coríntios 6, 20). O sentido e o fundamento do empenho cristão no mundo derivam de tal certeza, capaz de acender a esperança não obstante o pecado que marca profundamente a história humana: a promessa divina garante que o mundo não permanece fechado em si mesmo, mas está aberto ao Reino de Deus» (578). «A esperança cristã imprime um grande impulso ao compromisso no campo social, infundindo confiança na possibilidade de construir um mundo melhor, na consciência de que não pode existir um ‘paraíso terrestre’. Os cristãos, especialmente os fiéis leigos, são exortados a comportar-se de modo que ‘a força do Evangelho resplandeça na vida quotidiana, familiar e social’» (579).

Construir a «civilização do amor»

«Finalidade imediata da doutrina social é a de propor os princípios e os valores que possam suster uma sociedade digna do ser humano. Entre estes princípios, o da solidariedade em certa medida compreende todos os demais: ele constitui ‘um dos princípios básicos da conceção cristã da organização social e política’. Tal princípio é iluminado pelo primado da caridade, ‘sinal distintivo dos discípulos de Cristo’ [...]. O comportamento da pessoa é plenamente humano quando nasce do amor, manifesta o amor e é ordenado para o amor. Esta verdade vale também no âmbito social» (580). Assim, «o amor deve estar presente e penetrar todas as relações sociais [...]. Este amor pode ser chamado ‘caridade social’ ou ‘caridade política’ e deve ser estendido a todo o género humano» (581). Ora, «para tornar a sociedade mais humana, mais digna da pessoa, é necessário revalorizar o amor na vida social – nos planos político, económico, cultural –, fazendo dele a norma constante e suprema do agir. [...] Não se pode regular as relações humanas ‘unicamente com a medida da justiça’» (582). «Só a caridade pode transformar completamente o ser humano. Uma semelhante transformação não significa anulação da dimensão terrena numa espiritualidade desencarnada. [...] A caridade representa o maior mandamento social. Ela respeita o outro e os seus direitos, exige a prática da justiça, de que só ela nos torna capazes e inspira-nos uma vida de entrega [...]. Tão-pouco pode a caridade esgotar-se unicamente na dimensão terrena das relações humanas e das relações sociais, porque toda a sua eficácia deriva da referência a Deus» (583).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.7.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO SEXTO DE PÁSCOA


Maravilhosa atualidade da palavra de Deus! A Liturgia da Palavra do sexto domingo de Páscoa (Ano B) está marcada por uma prodigiosa simplicidade e por uma perturbadora atualidade. Simplicidade, uma vez que se trata de amar. Basta amar! Assim, somos fiéis à nossa vocação de filhos de Deus (segunda leitura), cumulados com uma alegria «completa» (evangelho). Atualidade, na medida em que recorda a importância do respeito por todos os seres humanos, pois «Deus não faz aceção de pessoas» (primeira leitura). Ele oferece a todos a salvação (salmo). Eis, para nós, cristãos, o fundamento da fraternidade universal e da caridade sem limites, uma caridade que anuncia, pelas nossas obras, a misericórdia do Pai.

«Deus não faz aceção de pessoas»
A primeira leitura contém fragmentos da boa nova sobre Jesus Cristo anunciada por Pedro na casa de Cornélio, centurião romano. A catequese que Pedro dirige a Cornélio, aos seus parentes e amigos, é resultado da ação do Espírito Santo (nomeado três vezes). É o Espírito quem prepara Pedro e os gentios para tudo o que se vai seguir. É também o Espírito quem determina as consequências daquilo que é anunciado por Pedro.
As consequências são essenciais: os gentios poderão incorporar-se, de pleno direito, na comunidade dos seguidores do Ressuscitado, a Igreja. «O Espírito desceu sobre todos os que estavam a ouvir a palavra». Todos hão de conhecer o amor universal de Deus! A narração é muito parecida com o sucedido no dia de Pentecostes (cf. Atos dos Apóstolos 2): «ouviam-nos falar em diversas línguas e glorificar a Deus».
Até então os israelitas eram os destinatários (privilegiados) da misericórdia de Deus; agora, também os gentios recebem o dom do Espírito Santo. Depois disto, Pedro, que tinha sido um defensor zeloso da pureza ritual, não vê qualquer impedimento para o batismo do centurião e da sua família.
«Deus não faz aceção de pessoas». Este foi o passo mais delicado que a primeira comunidade cristã teve de dar: a abertura aos gentios incircuncisos. Até os primeiros anunciadores do Evangelho ficam perplexos (mas também maravilhados) perante as iniciativas do Espírito Santo!

«A Igreja é chamada a ser sempre a casa aberta do Pai. Um dos sinais concretos desta abertura é ter, por todo o lado, igrejas com as portas abertas. Assim, se alguém quiser seguir uma moção do Espírito e se aproximar à procura de Deus, não esbarrará com a frieza duma porta fechada. Mas há outras portas que também não se devem fechar: todos podem participar de alguma forma na vida eclesial, todos podem fazer parte da comunidade, e nem sequer as portas dos sacramentos se deveriam fechar por uma razão qualquer. Isto vale sobretudo quando se trata daquele sacramento que é a ‘porta’: o Baptismo. […] Muitas vezes agimos como controladores da graça e não como facilitadores. Mas a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fadigosa» (Francisco, Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual [EG], 47).

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo sexto de Páscoa (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.5.15 | Sem comentários

Viver a fé! [5]


O segundo capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja intitula-se «Missão da Igreja e Doutrina Social». Neste capítulo, abordam-se assuntos como a relação entre a evangelização e a doutrina social (I), a natureza da doutrina social (II) e os acenos históricos da doutrina social no nosso tempo (III). Este tema resume o conteúdo da primeira parte do capítulo — «Evangelização e Doutrina Social» (números 60 a 71) — estruturada em quatro partes: A Igreja, morada de Deus com os homens (60 e 61); Fecundar e fermentar, com o Evangelho, a sociedade (62 a 65); Doutrina social, evangelização e promoção humana (66 a 68); Direito e dever da Igreja (69 a 71).

A Igreja, morada de Deus com os homens

A Igreja é apresentada com imagens sugestivas que fundamentam a sua missão (cf. tema 4) no meio da humanidade: «sacramento do amor de Deus», «a tenda da companhia de Deus», «ministra da salvação», «perita em humanidade». Estas expressões mostram que o ser humano «não se encontra só, perdido ou transtornado no seu empenho em humanizar o mundo, mas encontra amparo no amor redentor de Cristo» (60). Este amor torna-se visível através da Igreja. Essa é a sua missão: «A Igreja, partícipe das alegrias e esperanças, das angústias e das tristezas dos homens, é solidária com todo o homem e toda a mulher, de todo o lugar e de todo o tempo, e leva-lhes a Boa Nova do Reino de Deus, que, com Jesus Cristo, se vem colocar no meio deles» (60). Com a sua doutrina social, a Igreja mostra que está atenta ao ser humano, «está apta a compreendê-lo na sua vocação e nas suas aspirações, nos seus limites e nos seus apuros, nos seus direitos e nas suas tarefas, e a ter para com ele uma palavra de vida que ressoe nas vicissitudes históricas e sociais da existência humana» (61).

Fecundar e fermentar, com o Evangelho, a sociedade

O Compêndio da Doutrina Social da Igreja explicita detalhadamente em que consiste a missão da Igreja (cf. tema 4). Agora, além de recordar que a missão da Igreja é anunciar o Evangelho, acrescenta que também é sua missão «atualizar o Evangelho na complexa rede de relações sociais» (62). Na verdade, a Igreja entende que a sua missão a implica na criação de condições favoráveis para que o Evangelho de Jesus Cristo atinja a totalidade do ser humano e da sociedade. Neste contexto, recorre aos termos «fecundar» e «fermentar» (62) para explicar a sua missão na sociedade. Assim, através da sua doutrina social, «palavra que liberta», a Igreja anuncia, mas também «atualiza no curso da história o Evangelho do Reino, a mensagem de libertação e de redenção de Cristo» (63); ou seja, «promover uma sociedade à medida do homem porque à medida de Cristo: é construir uma cidade do homem mais humana porque mais conforme com o Reino de Deus» (63). Não se trata de se afastar da sua missão, mas de ser «rigorosamente fiel» (64) à missão. «Portadora da mensagem de Encarnação e de Redenção do Evangelho, a Igreja não pode percorrer outra via: com a sua doutrina social e com a ação eficaz que ela ativa, não somente não falseia o seu rosto e a sua missão, mas também é fiel a Cristo e revela-se aos homens como ‘universal sacramento da salvação’» (65).

Doutrina social, evangelização e promoção humana

«Nada é alheio à evangelização e esta não seria completa se não levasse em conta o recíproco apelo que continuamente se fazem o Evangelho e a vida concreta, pessoal e social do homem» (66). Por isso, a doutrina social é apresentada como «‘um instrumento de evangelização’ e desenvolve-se no encontro sempre renovado entre a mensagem evangélica e a história humana» (67). Trata-se da «função profética» própria da missão da Igreja, «um ministério que procede não só do anúncio, mas também do testemunho» (67). Contudo, a Igreja «não entra em questões técnicas e não institui nem propõe sistemas ou modelos de organização social» (68).

Direito e dever da Igreja

«Com a sua doutrina social, a Igreja propõe-se ‘assistir o homem no caminho da salvação’: trata-se do seu fim precípuo e único» (69). Quer dizer que «a Igreja tem o direito de ser para o homem mestra de verdades da fé: da verdade não só do dogma, mas também da moral que dimana da mesma natureza humana e do Evangelho» (70). Este direito também se configura como um dever: «a Igreja não pode renunciar a ele sem se desmentir a si mesma e desmentir a sua fidelidade a Cristo» (71).

«Ai de mim se não evangelizar!». A admonição de Paulo na Primeira Carta aos Coríntios (9, 16) «ressoa na consciência da Igreja como um apelo a percorrer todas as vias da evangelização» (71).

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.11.14 | Sem comentários

Viver a fé! [4]


O quarto e último ponto (números 49 a 59) do primeiro capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja («O desígnio de amor de Deus para toda a Humanidade») retoma os temas anteriores para os colocar em sintonia com a «missão da Igreja». O conteúdo estrutura-se em quatro partes: A Igreja, sinal e tutela da transcendência da pessoa humana; Igreja, Reino de Deus e renovação das relações sociais; Novos céus e nova terra; Maria e o seu ‘fiat’ ao desígnio de amor de Deus. Consciente de que a meta é escatológica, a missão da Igreja visa contribuir para que o Reino de Deus se torne já presente, no aqui e agora das relações humanas. É o próprio Jesus Cristo quem o afirma: «Tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo» (Mateus 25, 31-46).

A Igreja, sinal e tutela da transcendência da pessoa humana

«A missão da Igreja é anunciar e comunicar a salvação realizada em Jesus Cristo, a que Ele chama ‘Reino de Deus’ (Marcos 1, 15), ou seja, a comunhão com Deus e entre os homens» (49). Por isso, ela é chamada a ser «sinal», «sacramento» e «instrumento» dessa comunhão que Deus quer estabelecer com todos os seres humanos. Ninguém está excluído (cf. tema 3) de participar no Reino de Deus, cuja realização plena acontecerá «além da história, em Deus» (49). A seguir, acrescenta-se que além de anunciar e comunicar o Evangelho — difundir «pelo mundo os ‘valores evangélicos’» — a missão da Igreja consiste também em constituir «novas comunidades cristãs» (50). Insiste-se que a sua meta é sempre escatológica (cf. 51). Por isso, a Igreja não se pode confundir «com a comunidade política nem está ligada a nenhum sistema político» (50).

Igreja, Reino de Deus e renovação das relações sociais

A salvação oferecida por Deus, em Jesus Cristo, «não redime somente a pessoa individual, mas também as relações sociais entre os homens» (52). A tarefa de transformar as relações sociais, «que responde às exigências do Reino de Deus», é uma competência da Igreja presente em cada comunidade cristã, «que a deve elaborar e realizar através da reflexão e da praxe inspiradas no Evangelho» (53). Ela é «lugar de comunhão, de testemunho e de missão» e «fermento de redenção e transformação das relações sociais» (52). Neste contexto, relembra-se (cf. tema 2) a força e a eficácia do «novo mandamento do amor» para a transformação das relações entre os seres humanos. «Esta lei é chamada a tornar-se a medida e a norma última de todas as dinâmicas nas quais se desdobram as relações humanas» (54). Na verdade, inspirado em Deus («Deus é amor»: 1João 4, 8), o amor entre os humanos é o «instrumento mais potente de mudança, no plano pessoal assim como no social. O amor recíproco, participação no amor infinito de Deus é, com efeito, o autêntico fim, histórico e transcendente, da humanidade. Portanto, ‘embora o progresso terreno se deva cuidadosamente distinguir do crescimento do Reino de Cristo, todavia, na medida em que possa conferir uma melhor ordenação à sociedade humana, interessa muito ao Reino de Deus’» (55).

Novos céus e nova terra

«A promessa de Deus e a ressurreição de Jesus Cristo suscitam nos cristãos a fundada esperança de que para todas as pessoas humanas é preparada uma nova e eterna morada, uma terra em que habita a justiça» (56). A meta é (sempre) escatológica. Contudo, não dispensa, antes pelo contrário, compromete o cristão no amadurecimento da história e das relações entre os humanos que «alcançam a sua perfeição graças ao empenho em melhorar o mundo, na justiça e na paz» (58). Até porque «a configuração com Cristo e a contemplação do seu Rosto», que são fundamentais para o cristão, infundem neste «um anelo indelével por antecipar neste mundo, no âmbito das relações humanas, o que será realidade no mundo definitivo» (58). Trata-se de levar à plenitude a prática das boas obras: as obras de misericórdia (cf. 57): «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (Mateus 25, 40).

Maria e o seu 'fiat' ao desígnio de amor de Deus

Este ponto termina com a referência a Maria. Ela, «herdeira da esperança dos justos de Israel» e a primeira entre os discípulos, acolhe Jesus Cristo («o enviado do Pai, o Salvador»), «em nome de toda a humanidade. [...] Maria, totalmente dependente de Deus e toda orientada para Ele, com o impulso da sua fé ‘é a imagem mais perfeita da liberdade e da libertação da humanidade e do cosmos’» (59).

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.10.14 | Sem comentários

Mistério da fé! [6]


A ação litúrgica da Igreja está relacionada com os sacramentos. É certo que nem toda a celebração litúrgica se reduz aos sacramentos; mas estes são o centro e o coração da liturgia. Depois de termos aprofundado a liturgia, vamos abordar a temática sacramental. E começamos por esclarecer a questão: O que é um sacramento? [Para ajudar a compreender melhor, ler: João 1, 38-39; Catecismo da Igreja Católica (CIC), números 1179 a 1113-1134]

«Vinde e vereis»

— diz Jesus Cristo aos que lhe perguntam: «Mestre, onde moras?». O narrador acrescenta: «Foram, pois, e viram onde morava e ficaram com Ele». A adesão é antecedida pelo conhecimento da morada e pela experiência de comunhão. «Vinde e vereis» é também o convite da Igreja, mostrando que Jesus Cristo continua vivo e operante, na resposta às inquietações mais profundas do ser humano. Hoje, fá-lo, sobretudo, pelos sacramentos.

Sacramento

A palavra latina «sacramentum» designava, juridicamente, o depósito de um valor como garantia da boa-fé e da promessa do cumprimento. Era o «juramento de fidelidade» que se estabelecia entre duas pessoas ou entidades. «Quando se começou a traduzir a Bíblia para latim, esta palavra [sacramento] pareceu adequada a verter o termo grego ‘mistério’ que, no Novo Testamento — sobretudo em Paulo — designa o plano divino de salvação, que se realiza no tempo. O ‘mistério’ é uma espécie de pacto pela qual Deus Se dirige ao ser humano no amor, entra na sua história e chama-o a edificar consigo o Seu projeto de salvação» (Bruno Forte, «Introdução aos Sacramentos», Gráfica de Coimbra, Coimbra 1997, 16). No entanto, hoje, continua-se a usar os dois termos: mistério e sacramento. Este (sacramento) designa o sinal visível e eficaz da realidade divina; aquele (mistério) designa a realidade invisível.

Jesus Cristo

«O verdadeiro sacramento é Jesus Cristo. Como dizia Santo Agostinho, ‘não há outro sacramento de Deus senão Cristo’ (Carta 187). Ele é o sinal vivente que nos exprime a salvação de Deus, contém-na em si mesmo, e no-la comunica eficazmente, agora, por meio da sua Igreja. Cristo não só instituiu os sacramentos, como Ele próprio é o sacramento primordial e definitivo do encontro de Deus com a humanidade» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia» [DEL], ed. Paulinas, Prior Velho, 2007, 266-267).

Igreja

«A Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano» — afirma o II Concílio do Vaticano, na Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG 1). Esta é a primeira finalidade da Igreja (cf. CIC 775). «Como sacramento, a Igreja é instrumento de Cristo. ‘É assumida por Ele como instrumento da redenção universal’ (LG 9), ‘o sacramento universal da salvação’ (LG 48), pelo qual o mesmo Cristo ‘manifesta e atualiza o mistério do amor de Deus pelos seres humanos’ (Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual — «Gaudium et Spes», 45). É o ‘projeto visível do amor de Deus para com a humanidade’» (CIC 776).

Sete sacramentos

Durante os primeiros doze séculos a palavra «sacramento» era usada para designar várias realidades: Cristo, Igreja, Escritura, Páscoa, Encarnação, Quaresma, entre outras. Só a partir do século XIII — e com mais evidência após o Concílio de Trento — se utiliza o termo «sacramento» para indicar as sete ações sacramentais da Igreja (Batismo, Confirmação ou Crisma, Eucaristia, Penitência, Unção dos Doentes, Ordem e Matrimónio). Curiosamente, o II Concílio do Vaticano retoma o seu uso original, aplicando-o a Jesus Cristo, à Igreja, e em sentido ainda mais amplo, referindo-se ao cristão, ao ser humano, às coisas criadas. Na verdade, se «sacramento» significa a manifestação visível do dom invisível da graça de Deus, não há nenhum inconveniente em aplicar o vocábulo a outras realidades além dos sete sacramentos. «Os sete sacramentos têm a ver com todas as fases e momentos importantes da vida do cristão: conferem nascimento e crescimento, cura e missão à vida de fé dos cristãos. Existe uma certa semelhança entre as fases da vida natural e as da vida espiritual» (CIC 1210). Atos eficazes «como ‘forças que saem’ do Corpo de Cristo, sempre vivo e vivificante; ações do Espírito Santo que opera no seu Corpo que é a Igreja, os sacramentos são ‘as obras-primas de Deus’, na nova e eterna Aliança» (CIC 1116).

«Há sacramentos da iniciação, que introduzem na fé: o Batismo, a Confirmação e a Eucaristia. Há sacramentos da cura: a Reconciliação e a Unção dos Enfermos. E há sacramentos da comunhão e do envio: o Matrimónio e a Ordem» (YOUCAT 193).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.11.13 | Sem comentários

Mistério da fé! [5]


Uma coordenada essencial na existência humana, além do tempo («Quando celebrar?» - tema 4) é o lugar, o espaço. Na verdade, podemos dizer que o lugar que ocupamos, o espaço em que nos movemos, faz parte de nós, pois é, ao mesmo tempo, expressão e consequência da nossa matéria carnal. Neste sentido, percorrido este itinerário, precisamos de responder à questão: «Onde celebrar?» [Para ajudar a compreender melhor, ler: 2Coríntios 6, 14-18; Catecismo da Igreja Católica, números 1179 a 1186]

«Nós somos o templo do Deus vivo»

— refere a Segunda Carta aos Coríntios, para lembrar que o ser humano é templo de Deus, é habitado por Deus. Esta é uma «novidade» realizada através de Jesus Cristo: Deus habita em cada ser humano. Tem razão Paulo ao dizer, em vários dos seus escritos, que somos templo de Deus e que o Espírito Santo habita em nós. Inaugurado por Jesus Cristo, «o culto ‘em espírito e verdade’ (João 4, 24) da Nova Aliança não está ligado a nenhum lugar exclusivo. Toda a terra é santa e está confiada aos filhos dos homens. O que tem primazia, quando os fiéis se reúnem num mesmo lugar, sãs as ‘pedras vivas’ que se juntam para ‘a edificação dum edifício espiritual’ (1Pedro 2, 4-5). O corpo de Cristo ressuscitado é o templo espiritual donde brota a fonte de água viva. Incorporados em Cristo pelo Espírito Santo, ‘nós somos o templo do Deus vivo’ (2Coríntios 6, 16)» (Catecismo da Igreja Católica [CIC], 1179). Está claro que a ressurreição de Jesus Cristo, a sua vitória sobre a morte, torna-o presente em todo os lugares do mundo. Jesus Cristo é o verdadeiro «templo», o nosso «espaço de vida». E, pela graça Batismo, ao ressurgir com Jesus Cristo para uma uma vida nova, também o cristão se torna «templo» de Deus, uma «habitação de Deus» (Efésios 2, 22).

Liturgia: onde celebrar?

É verdade que se pode celebrar em qualquer lugar, num ambiente aberto ou fechado. No entanto, não podemos ignorar que o espaço celebrativo tem um valor simbólico (cf. tema 3), é um verdadeiro sinal litúrgico. Por isso, «enquanto a oração como simples ato religioso pode ser feita em todos os lugares, a liturgia, no entanto, como um ato de culto público e ordenado, requer um lugar, geralmente um edifício, onde possa ser realizada como rito sagrado» (Departamento das celebrações litúrgicas do Sumo Pontífice). Neste sentido, a Igreja aprova a construção de edifícios destinados a atos de culto, à realização de celebrações litúrgicas. «Na sua condição terrena, a Igreja tem necessidade de lugares onde a comunidade possa reunir-se: as nossas igrejas visíveis, lugares sagrados, imagens da Cidade santa, da Jerusalém celeste para a qual caminhamos como peregrinos» (CIC 1198). Jean Corbon diz que «a igreja de pedra ou de madeira onde entramos para participar na liturgia eterna é, sem dúvida, um espaço do nosso mundo, mas a sua novidade está em ser um espaço aberto pela Ressurreição [...], um espaço realmente habitado por um mundo libertado da morte. É aí que celebramos a liturgia» (Jean Corbon, «A fonte da liturgia», ed. Paulinas, Lisboa 1999, 145). O Catecismo da Igreja Católica destaca, como pontos de referência dos edifícios destinados ao culto, o altar, o sacrário, o óleo do Santo Crisma, a cadeira, o ambão, a fonte batismal e o lugar da reconciliação. Os edifícios destinados à prática das celebrações litúrgicas «não são simples lugares de reunião, mas significam e manifestam a Igreja que vive nesse lugar, morada de Deus com os homens reconciliados e unidos em Cristo» (CIC 1180). A Igreja, enquanto comunidade de crentes reunidos, congregados à volta de Jesus Cristo, é que é «templo» de Deus. No início do cristianismo, o edifício não se designava «igreja», mas «casa da igreja», isto é, morada da comunidade. «Para o cristão, é claro que o templo propriamente não é o lugar da presença de Deus (João 4, 23), mas o lugar da presença da assembleia na qual precisamente Deus se torna presente» (Dionisio Borobio, «La celebración en la Iglesia I. Liturgia e Sacramentologia fundamental», ed. Sígueme, Salamanca 1995, 223). Temos de ter bem claro que «o edifício de culto cristão não é o equivalente do templo pagão, onde a câmara com a imagem da divindade também era considerada, de alguma forma, a casa dela. Como diz São Paulo aos atenienses: ‘Deus não habita em templos construídos pelo homem’ (Atos dos Apóstolos 17, 24)» (Departamento das celebrações litúrgicas do Sumo Pontífice).

«Finalmente a igreja tem uma significação escatológica. [...] A igreja visível simboliza a casa paterna. [...] É a casa de todos os filhos de Deus, amplamente aberta e acolhedora» (CIC 1186).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.11.13 | Sem comentários

A porta da fé [10]


Estamos a seis semanas de concluir o Ano da Fé, que se iniciou em outubro de 2012 e terminará em novembro de 2013. Semanalmente, apresentamos um número da Carta Apostólica do papa Bento XVI com a qual proclamou o Ano da Fé — «A porta da fé» («Porta Fidei»). E juntamos uma proposta de reflexão elaborada por Pedro Jaramillo. O objetivo é dar um contributo para uma avaliação mais cuidada sobre a forma como estamos a viver o Ano da Fé. Bom proveito!

Queria agora delinear um percurso que ajude a compreender de maneira mais profunda os conteúdos da fé e, juntamente com eles, também o ato pelo qual decidimos, com plena liberdade, entregar-nos totalmente a Deus. De facto, existe uma unidade profunda entre o ato com que se crê e os conteúdos a que damos o nosso assentimento. O apóstolo Paulo permite entrar dentro desta realidade quando escreve: «Acredita-se com o coração e, com a boca, faz-se a profissão de fé» (Romanos 10, 10). O coração indica que o primeiro ato, pelo qual se chega à fé, é dom de Deus e ação da graça que age e transforma a pessoa até ao mais íntimo dela mesma.
A este respeito é muito eloquente o exemplo de Lídia. Narra São Lucas que o apóstolo Paulo, encontrando-se em Filipos, num sábado foi anunciar o Evangelho a algumas mulheres; entre elas, estava Lídia. «O Senhor abriu-lhe o coração para aderir ao que Paulo dizia» (Atos 16, 14). O sentido contido na expressão é importante. São Lucas ensina que o conhecimento dos conteúdos que se deve acreditar não é suficiente, se depois o coração – autêntico sacrário da pessoa – não for aberto pela graça, que consente ter olhos para ver em profundidade e compreender que o que foi anunciado é a Palavra de Deus.
Por sua vez, o professar com a boca indica que a fé implica um testemunho e um compromisso públicos. O cristão não pode jamais pensar que o crer seja um facto privado. A fé é decidir estar com o Senhor, para viver com Ele. E este «estar com Ele» introduz na compreensão das razões pelas quais se acredita. A fé, precisamente porque é um ato da liberdade, exige também assumir a responsabilidade social daquilo que se acredita. No dia de Pentecostes, a Igreja manifesta, com toda a clareza, esta dimensão pública do crer e do anunciar sem temor a própria fé a toda a gente. É o dom do Espírito Santo que prepara para a missão e fortalece o nosso testemunho, tornando-o franco e corajoso.
A própria profissão da fé é um ato simultaneamente pessoal e comunitário. De facto, o primeiro sujeito da fé é a Igreja. É na fé da comunidade cristã que cada um recebe o Batismo, sinal eficaz da entrada no povo dos crentes para obter a salvação. Como atesta o Catecismo da Igreja Católica, «“Eu creio”: é a fé da Igreja, professada pessoalmente por cada crente, principalmente por ocasião do Baptismo. “Nós cremos”: é a fé da Igreja, confessada pelos bispos reunidos em Concílio ou, de modo mais geral, pela assembleia litúrgica dos crentes. “Eu creio”: é também a Igreja, nossa Mãe, que responde a Deus pela sua fé e nos ensina a dizer: “Eu creio”, “Nós cremos”» [17].
Como se pode notar, o conhecimento dos conteúdos de fé é essencial para se dar o próprio assentimento, isto é, para aderir plenamente com a inteligência e a vontade a quanto é proposto pela Igreja. O conhecimento da fé introduz na totalidade do mistério salvífico revelado por Deus. Por isso, o assentimento prestado implica que, quando se acredita, se aceita livremente todo o mistério da fé, porque o garante da sua verdade é o próprio Deus, que Se revela e permite conhecer o seu mistério de amor [18].
Por outro lado, não podemos esquecer que, no nosso contexto cultural, há muitas pessoas que, embora não reconhecendo em si mesmas o dom da fé, todavia vivem uma busca sincera do sentido último e da verdade definitiva acerca da sua existência e do mundo. Esta busca é um verdadeiro «preâmbulo» da fé, porque move as pessoas pela estrada que conduz ao mistério de Deus. De facto, a própria razão do ser humano traz inscrita em si mesma a exigência «daquilo que vale e permanece sempre» [19]. Esta exigência constitui um convite permanente, inscrito indelevelmente no coração humano, para caminhar ao encontro d’Aquele que não teríamos procurado se Ele mesmo não tivesse já vindo ao nosso encontro [20]. É precisamente a este encontro que nos convida e abre plenamente a fé.

[17] Catecismo da Igreja Católica, 167
[18] Cf. Conc. Ecum. Vat. I, Const. dogm. sobre a fé católica Dei Filius, cap. III: DS 3008-3009; Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 5
[19] Bento XVI, Discurso no «Collège des Bernardins» (Paris, 12 de Setembro de 2008):AAS 100 (2008), 722
[20] Cf. Santo Agostinho, Confissões, 13, 1

A porta da fé [Carta Apostólica para o Ano da Fé - «Porta Fidei»]

  • A porta da fé — números publicados no Laboratório da fé > > >



Aspetos que se podem sublinhar

  • A distinção entre o «ato de fé» e os conteúdos de fé. O ato de fé é a entrega total e livre de tudo o que somos a Deus. Mas ato de fé e conteúdos de fé não se podem separar.
  • O Papa vê refletida esta união no texto de Paulo: «Acredita-se com o coração e, com a boca, faz-se a profissão de fé» (Romanos 10, 10). E vê-o confirmado no exemplo de Lídia: «O Senhor abriu-lhe o coração para aderir ao que Paulo dizia» (Atos 16, 14). Os conteúdos das verdades não é suficiente, se o coração não está aberto à graça. A fé não se resume a palavras «crentes»; precisa também de um «coração crente».
  • A «profissão com a boca» indica também que a fé implica um testemunho e um compromisso públicos. Contra a tendência da «privatização» da fé: o cristão não pode pensar que acreditar é um ato privado. A fé tem necessariamente repercussões na vida pública.
  • Por ser um ato da liberdade, a fé exige também uma responsabilidade social daquilo em que se acredita.
  • É o dom do Espírito Santo que capacita para a missão e fortalece o nosso testemunho tornando-o franco e corajoso.
  • A própria profissão de fé é, ao mesmo tempo, um ato pessoal e comunitário. O primeiro sujeito da fé é a Igreja. Na fé da comunidade, recebemos o batismo, entrando assim na comunidade dos que acreditam. Por isso, dizemos «creio» e «cremos».
  • Em que é que acreditamos? Na fé da Igreja. Daí a importância de conhecer os conteúdos da fé. Porque não acreditamos por conta própria, mas com e na fé da Igreja. O conhecimento da fé não é parcial (escolho o que me interessa), mas por ele somos introduzidos na totalidade do mistério salvador de Deus. Ao crer, aceitamos livremente a totalidade do mistério da fé.
  • É preciso olhar com simpatia e proximidade para as muitas pessoas que não reconhecem dentro de si e para si o dom da fé, mas procuram com sinceridade o sentido último e a verdade definitiva da sua existência e do mundo. Esta procura é um verdadeiro «preâmbulo da fé», como uma «sala de espera», porque leva as pessoas ao caminho que conduz ao mistério de Deus.

Interiorizando

  • Examino se confundo a minha fé com o facto de «saber muitas coisas», mas sem me preocupar que essas coisas desçam ao meu coração. Pode-se saber muita teologia (ter muitos conhecimentos sobre Deus), mas não viver uma vida teologal (de acordo com a fé que se professa, na entrega generosa a Deus).

  • Examino se penso que a fé é um assunto puramente privado, que não deve ter nenhum tipo de reflexo nos aspetos sociais da minha vida (família, trabalho, política, economia...). Esta maneira de pensar, que se chama «privatização da fé», entra tão facilmente em nós que acabamos por pensar que a fé nos serve apenas para «arrumar» os nossos assuntos com Deus. E nada mais!

  • Examino se me apercebo de que uma verdadeira «confissão de fé» é profundamente missionária. Não acredito «sozinho», mas acredito, pessoalmente, «na comunidade». «Esta é a nossa fé. Está é a fé da Igreja»... acredito nisto? Ou ando por aí inventando verdades que não correspondem à fé da Igreja de quem sou membro? Parece mentira, mas é muito fácil «inventar verdades» (sobretudo, aqueles que se dedicam à pregação), porque «as pessoas gostam».

  • Examino se dou importância aos conteúdos da fé, que não são os meus conteúdos, mas os conteúdos da fé da Igreja. Às vezes, não apresentamos os conteúdos da fé eclesial, mas fazemos as pessoas acreditar em coisas que não pertencem à fé da Igreja (muita gente confunde isso com «ser mais crente»).

  • Examino se, a partir da minha fé, estou próximo daqueles que, embora não sendo crentes, procuram com sinceridade o sentido da vida... Às vezes, ficamos fechados e não abrimos o coração a quem sinceramente procura Deus, embora não o saiba... Não serve dizer: só os católicos é que me interessam. Uma atitude pouco missionária!

© Pedro Jaramillo
© Tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

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Bento XVI, Carta Apostólica «A porta da fé»
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.10.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [45]


Na celebração dos sacramentos, a Igreja transmite a sua memória, particularmente com a profissão de fé. Nesta, não se trata tanto de prestar assentimento a um conjunto de verdades abstratas, como sobretudo fazer a vida toda entrar na comunhão plena com o Deus Vivo. Podemos dizer que, no Credo, o fiel é convidado a entrar no mistério que professa e a deixar-se transformar por aquilo que confessa. Para compreender o sentido desta afirmação, pensemos em primeiro lugar no conteúdo do Credo. Este tem uma estrutura trinitária: o Pai e o Filho unem-Se no Espírito de amor. Deste modo o crente afirma que o centro do ser, o segredo mais profundo de todas as coisas é a comunhão divina. Além disso, o Credo contém uma confissão cristológica: repassam-se os mistérios da vida de Jesus até à sua morte, ressurreição e ascensão ao Céu, na esperança da sua vinda final na glória. E, consequentemente, afirma-se que este Deus-comunhão, permuta de amor entre o Pai e o Filho no Espírito, é capaz de abraçar a história do ser humano, de introduzi-lo no seu dinamismo de comunhão, que tem, no Pai, a sua origem e meta final. Aquele que confessa a fé sente-se implicado na verdade que confessa; não pode pronunciar, com verdade, as palavras do Credo, sem ser por isso mesmo transformado, sem mergulhar na história de amor que o abraça, que dilata o seu ser tornando-o parte de uma grande comunhão, do sujeito último que pronuncia o Credo: a Igreja. Todas as verdades, em que cremos, afirmam o mistério da vida nova da fé como caminho de comunhão com o Deus Vivo.

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»] — pdf

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Refletir... saborear

  • Nos sacramentos, pela profissão de fé, a Igreja transmite a sua memória
  • A profissão de fé não é uma adesão a verdades abstratas
  • A profissão de fé faz entrar na comunhão plena com Deus
  • No Credo, o fiel entra no mistério que professa
  • No Credo, o fiel é convidado a deixar-se transformar por aquilo que confessa
  • O Credo tem uma estrutura trinitária: Pai, Filho, Espírito Santo
  • O Credo contém uma confissão cristológica: vida de Jesus Cristo
  • Aquele que confessa a fé sente-se implicado na verdade que confessa
  • O Credo transforma a vida do crente
  • O Credo faz o crente mergulhar numa história de amor
  • O Credo torna o crente membro de uma grande comunhão que é a Igreja
  • O que é a profissão de fé (Credo)?
  • Qual é a estrutura do Credo?
  • O Credo é ativo ou passivo: interfere ou não na vida do crente?
  • Que relação existe entre o Credo e a Igreja?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.9.13 | comentários

Carta encíclica sobre a fé [40]


Como sucede em cada família, a Igreja transmite aos seus filhos o conteúdo da sua memória. Como se deve fazer esta transmissão de modo que nada se perca, mas antes que tudo se aprofunde cada vez mais na herança da fé? É através da Tradição Apostólica, conservada na Igreja com a assistência do Espírito Santo, que temos contacto vivo com a memória fundadora. E aquilo que foi transmitido pelos Apóstolos, como afirma o II Concílio Ecuménico do Vaticano, «abrange tudo quanto contribui para a vida santa do Povo de Deus e para o aumento da sua fé; e assim a Igreja, na sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo aquilo que ela é e tudo quanto acredita» [35].
De facto, a fé tem necessidade de um âmbito onde se possa testemunhar e comunicar, e que o mesmo seja adequado e proporcionado ao que se comunica. Para transmitir um conteúdo meramente doutrinal, uma ideia, talvez bastasse um livro ou a repetição de uma mensagem oral; mas aquilo que se comunica na Igreja, o que se transmite na sua Tradição viva é a luz nova que nasce do encontro com o Deus vivo, uma luz que toca a pessoa no seu íntimo, no coração, envolvendo a sua mente, vontade e afetividade, abrindo-a a relações vivas na comunhão com Deus e com os outros. Para se transmitir tal plenitude, existe um meio especial que põe em jogo a pessoa inteira: corpo e espírito, interioridade e relações. Este meio são os sacramentos celebrados na liturgia da Igreja: neles, comunica-se uma memória encarnada, ligada aos lugares e épocas da vida, associada com todos os sentidos; neles, a pessoa é envolvida, como membro de um sujeito vivo, num tecido de relações comunitárias. Por isso, se é verdade que os sacramentos são os sacramentos da fé [36], há que afirmar também que a fé tem uma estrutura sacramental; o despertar da fé passa pelo despertar de um novo sentido sacramental na vida do ser humano e na existência cristã, mostrando como o visível e o material se abrem para o mistério do eterno.

[35] Const. dogm. sobre a divina Revelação Dei Verbum, 8
[36] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. sobre a sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, 59

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
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Refletir... saborear

  • A Igreja transmite aos seus filhos o conteúdo da sua memória
  • A transmissão na Igreja é feita através da Tradição Apostólica
  • A Tradição Apostólica faz-nos entrar em contacto vivo com a memória fundadora
  • A Igreja transmite tudo o que é e tudo em que acredita
  • A fé tem necessidade de um âmbito onde se possa testemunhar
  • A fé tem necessidade de um âmbito onde se possa comunicar
  • A Igreja transmite a luz nova que nasce do encontro com o Deus vivo
  • A Igreja transmite uma luz que toca a pessoa no seu íntimo, no seu coração
  • A Igreja transmite uma luz que envolve a mente
  • A Igreja transmite uma luz que envolve a vontade
  • A Igreja transmite uma luz que envolve a afetividade
  • A Igreja transmite uma luz que abre a relações vivas na comunhão com Deus e com os outros
  • Os sacramentos são o meio especial de transmissão que põe em jogo a totalidade da pessoa
  • Os sacramentos comunicam uma memória encarnada
  • Os sacramentos estão associados a todos os sentidos
  • Os sacramentos envolvem o indivíduo num tecido de relações comunitárias
  • Os sacramentos são «sacramentos da fé»
  • A fé tem uma estrutura sacramental
  • Como é que a Igreja transmite o conteúdo da sua memória?
  • O que é que a Igreja transmite aos seus filhos?
  • A fé precisa de ser testemunhada e comunicada?
  • O que são os sacramentos?
  • Há relação entre sacramentos e fé?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [39]


É impossível acreditar sozinhos. A fé não é só uma opção individual que se realiza na interioridade do crente, não é uma relação isolada entre o «eu» do fiel e o «Tu» divino, entre o sujeito autónomo e Deus; mas, por sua natureza, abre-se ao «nós», verifica-se sempre dentro da comunhão da Igreja. Assim no-lo recorda a forma dialogada do Credo, que se usa na liturgia batismal. O crer exprime-se como resposta a um convite, a uma palavra que não provém de mim, mas deve ser escutada; por isso, insere-se no interior de um diálogo, não pode ser uma mera confissão que nasce do indivíduo: só é possível responder «creio» em primeira pessoa, porque se pertence a uma comunhão grande, dizendo também «cremos». Esta abertura ao «nós» eclesial realiza-se de acordo com a abertura própria do amor de Deus, que não é apenas relação entre o Pai e o Filho, entre «eu» e «tu», mas, no Espírito, é também um «nós», uma comunhão de pessoas. Por isso mesmo, quem crê nunca está sozinho; e, pela mesma razão, a fé tende a difundir-se, a convidar outros para a sua alegria. Quem recebe a fé, descobre que os espaços do próprio «eu» se alargam, gerando-se nele novas relações que enriquecem a vida. Assim o exprimiu vigorosamente Tertuliano ao dizer do catecúmeno que, tendo sido recebido numa nova família «depois do banho do novo nascimento», é acolhido na casa da Mãe para erguer as mãos e rezar, juntamente com os irmãos, o Pai Nosso [34].

[34] Cf. De Baptismo, 20, 5: CCL 1, 295

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
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Refletir... saborear

  • É impossível acreditar sozinhos
  • A fé não é só uma opção individual
  • A fé não é uma relação isolada entre o «eu» e o «Tu»
  • A fé abre-se ao «nós», na comunhão da Igreja
  • O crer exprime-se como resposta a um convite
  • O crer não pode ser uma mera confissão que nasce do indivíduo
  • O crer insere-se no interior de um diálogo
  • Só é possível dizer «creio» inserido num «cremos»
  • Deus é relação pessoal, um «nós»
  • A fé tende a difundir-se
  • A fé tende a convidar outros para a sua alegria
  • A fé alarga os horizontes individuais
  • A fé gera novas relações que enriquecem a vida
  • É impossível acreditar sozinhos?
  • Que sentido tem dizer: «eu tenho a minha fé»?
  • Pode-se viver a fé apenas numa relação individual com Deus?
  • É possível dizer «creio» (individual) sem estar inserido num «cremos» (comum)?
  • A fé isola o indivíduo ou abre horizontes?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [38]


A transmissão da fé, que brilha para as pessoas de todos os lugares, passa também através do eixo do tempo, de geração em geração. Dado que a fé nasce de um encontro que acontece na história e ilumina o nosso caminho no tempo, a mesma deve ser transmitida ao longo dos séculos. É através de uma cadeia ininterrupta de testemunhos que nos chega o rosto de Jesus. Como é possível isto? Como se pode estar seguro de beber no «verdadeiro Jesus» através dos séculos? Se o ser humano fosse um indivíduo isolado, se quiséssemos partir apenas do «eu» individual, que pretende encontrar em si mesmo a firmeza do seu conhecimento, tal certeza seria impossível; não posso, por mim mesmo, ver aquilo que aconteceu numa época tão distante de mim. Mas, esta não é a única maneira de o ser humano conhecer; a pessoa vive sempre em relação: provém de outros, pertence a outros, a sua vida torna-se maior no encontro com os outros; o próprio conhecimento e consciência de nós mesmos são de tipo relacional e estão ligados a outros que nos precederam, a começar pelos nossos pais que nos deram a vida e o nome. A própria linguagem, as palavras com que interpretamos a nossa vida e a realidade inteira chegam-nos através dos outros, conservadas na memória viva de outros; o conhecimento de nós mesmos só é possível quando participamos duma memória mais ampla. O mesmo acontece com a fé, que leva à plenitude o modo humano de entender: o passado da fé, aquele ato de amor de Jesus que gerou no mundo uma vida nova, chega até nós na memória de outros, das testemunhas, guardado vivo naquele sujeito único de memória que é a Igreja; esta é uma Mãe que nos ensina a falar a linguagem da fé. São João insistiu sobre este aspecto no seu Evangelho, unindo conjuntamente fé e memória e associando as duas à ação do Espírito Santo que, como diz Jesus, «há de recordar-vos tudo» (João 14, 26). O Amor, que é o Espírito e que habita na Igreja, mantém unidos entre si todos os tempos e faz-nos contemporâneos de Jesus, tornando-Se assim o guia do nosso caminho na fé.

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
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  • A transmissão da fé brilha para as pessoas de todos os lugares
  • A transmissão da fé passa de geração em geração
  • O rosto de Jesus Cristo chega até nós através de uma cadeia ininterrupta de testemunhos
  • A pessoa vive sempre em relação
  • A vida torna-se maior no encontro com os outros
  • O conhecimento tem uma dimensão relacional
  • A linguagem chega-nos através dos outros
  • O conhecimento de nós mesmos só é possível numa memória mais ampla
  • O passado da fé chega até nós na memória dos outros, das testemunhas
  • O passado da fé é guardado na memória da Igreja
  • A Igreja é uma Mãe que nos ensina a falar a linguagem da fé
  • A fé e a memória estão associadas à ação do Espírito Santo
  • O Espírito Santo faz-nos contemporâneos de Jesus Cristo
  • Como se dá a transmissão da fé?
  • Qual a importância da relação na transmissão da fé?
  • Que missão tem a Igreja na transmissão da fé?
  • Que ligação existe entre fé, memória e Espírito Santo?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [37]


Quem se abriu ao amor de Deus, acolheu a sua voz e recebeu a sua luz, não pode guardar este dom para si mesmo. Uma vez que é escuta e visão, a fé transmite-se também como palavra e como luz; dirigindo-se aos Coríntios, o apóstolo Paulo utiliza precisamente estas duas imagens. Por um lado, diz: «Animados do mesmo espírito de fé, conforme o que está escrito: Acreditei e por isso falei, também nós acreditamos e por isso falamos» (2Coríntios 4, 13); a palavra recebida faz-se resposta, confissão, e assim ecoa para os outros, convidando-os a crer. Por outro, São Paulo refere-se também à luz: «E nós todos que, com o rosto descoberto, reflectimos a glória do Senhor, somos transfigurados na sua própria imagem» (2Coríntios 3, 18); é uma luz que se reflete de rosto em rosto, como sucedeu com Moisés cujo rosto refletia a glória de Deus depois de ter falado com Ele: «[Deus] brilhou nos nossos corações, para irradiar o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face de Cristo» (2Coríntios 4, 6). A luz de Jesus brilha no rosto dos cristãos como num espelho, e assim se difunde chegando até nós, para que também nós possamos participar desta visão e refletir para outros a sua luz, da mesma forma que a luz do círio, na liturgia de Páscoa, acende muitas outras velas. A fé transmite-se por assim dizer sob a forma de contacto, de pessoa a pessoa, como uma chama se acende noutra chama. Os cristãos, na sua pobreza, lançam uma semente tão fecunda que se torna uma grande árvore, capaz de encher o mundo de frutos.

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
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Refletir... saborear

  • O dom de Deus (fé) precisa de ser partilhado
  • A fé transmite-se como palavra: faz-se resposta que ecoa para os outros
  • A fé transmite-se como luz: reflete-se de rosto em rosto
  • A luz de Jesus Cristo brilha no rosto dos cristãos como num espelho
  • A luz de Jesus Cristo reflete-se de geração em geração
  • A fé transmite-se sob a forma de contacto (pessoa a pessoa)
  • A fé transmite-se como a luz do Círio Pascal que acende outras velas
  • Porque é que a fé, dom de Deus, precisa de ser partilhado?
  • Quais são as imagens que ilustram a transmissão da fé?
  • Como é que chega até nós a luz de Jesus Cristo?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [22]


Deste modo, a vida do fiel torna-se existência eclesial. Quando São Paulo fala aos cristãos de Roma do único corpo que todos os crentes formam em Cristo, exorta-os a não se vangloriarem, mas a avaliarem-se «de acordo com a medida de fé que Deus distribuiu a cada um» (Romanos 12, 3). O crente aprende a ver-se a si mesmo a partir da fé que professa. A figura de Cristo é o espelho em que descobre realizada a sua própria imagem. E dado que Cristo abraça em Si mesmo todos os crentes que formam o seu corpo, o cristão compreende-se a si mesmo neste corpo, em relação primordial com Cristo e os irmãos na fé. A imagem do corpo não pretende reduzir o crente a simples parte de um todo anónimo, a mero elemento de uma grande engrenagem; antes, sublinha a união vital de Cristo com os crentes e de todos os crentes entre si (cf. Romanos 12, 4-5). Os cristãos sejam «todos um só» (cf. Gálatas 3, 28), sem perder a sua individualidade, e, no serviço aos outros, cada um ganha profundamente o próprio ser. Compreende-se assim por que motivo, fora deste corpo, desta unidade da Igreja em Cristo — desta Igreja que, segundo as palavras de Romano Guardini, «é a portadora histórica do olhar global de Cristo sobre o mundo»,[16] —, a fé perca a sua «medida», já não encontre o seu equilíbrio, nem o espaço necessário para se manter de pé. A fé tem uma forma necessariamente eclesial, é professada partindo do corpo de Cristo, como comunhão concreta dos crentes. A partir deste lugar eclesial, ela abre o indivíduo cristão a todos os humanos. Uma vez escutada, a palavra de Cristo, pelo seu próprio dinamismo, transforma-se em resposta no cristão, tornando-se ela mesma palavra pronunciada, confissão de fé. São Paulo afirma: «Realmente com o coração se crê (…) e com a boca se faz a profissão de fé» (Romanos 10, 10). A fé não é um facto privado, uma conceção individualista, uma opinião subjetiva, mas nasce de uma escuta e destina-se a ser pronunciada e a tornar-se anúncio. Com efeito, «como hão-de acreditar n’Aquele de quem não ouviram falar? E como hão-de ouvir falar, sem alguém que O anuncie?» (Romanos 10, 14). Concluindo, a fé torna-se operativa no cristão a partir do dom recebido, a partir do Amor que o atrai para Cristo (cf. Gálatas 5, 6) e torna participante do caminho da Igreja, peregrina na história rumo à perfeição. Para quem foi assim transformado, abre-se um novo modo de ver, a fé torna-se luz para os seus olhos.

[16] «Vom Wesen katholischer Weltanschauung (1923)», in: Unterscheidung des Christlichen. Gesammelte Studien 1923-1963 (Mainz 1963), 24

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»] — pdf

  • A luz da fé — números publicados no Laboratório da fé > > >



Refletir... saborear

  • A fé possui uma dimensão eclesial
  • O crente vê-se a partir da fé que professa
  • O cristão compreende-se como membro do Corpo de Cristo
  • A Igreja é o Corpo de Cristo
  • A imagem do corpo estabelece ligação com Jesus Cristo e com os outros
  • Há uma união vital de Jesus Cristo com os cristãos e destes entre si
  • Fora do Corpo de Cristo (Igreja), a fé perde o seu equilíbrio
  • A fé não é um facto privado
  • A fé não é uma conceção individualista
  • A fé não é uma opinião subjetiva
  • A fé nasce da escuta da Palavra de Deus
  • A fé destina-se a ser pronunciada
  • A fé destina-se a tornar-se anúncio
  • Acolhida como dom, a fé torna-se luz para os olhos do cristão
  • Porque é que a fé possui uma dimensão eclesial?
  • Sinto-me membro do Corpo de Cristo?
  • Que relação existe entre mim e Jesus Cristo?
  • Que relação existe entre mim e os outros cristãos?
  • Não é possível uma fé «privada», «individualista», «subjetiva»?
  • A fé, em mim, torna-se anúncio? Como?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.9.13 | Sem comentários

Ambiente Virtual de Formação


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


Esta ficha sobre a «Lumen Gentium» (LG), aborda os capítulos V e VII sobre a «vocação à santidade» e a «índole escatológica da Igreja», respetivamente.

A vocação à Santidade

O capítulo V recorda que todos os cristãos, estejam onde estiverem, são chamados à santidade, isto é, a uma vida de profunda comunhão com o Senhor, e adesão ao projeto anunciado por Jesus Cristo. Este é o maior testemunho e a maior obra da Igreja!
Falar da vocação à santidade universal da Igreja significa refletir no chamamento à santidade do Povo de Deus. Cremos que a Igreja é indefectivelmente santa, pois Cristo a amou como esposa, entregou-Se por ela, para santificá-la (cf. Efésios 5, 25-26), e uniu-a a Si como Seu corpo, cumulando-a com o dom do Espírito Santo. Esta santidade manifesta-se nos frutos da graça que o Espírito Santo produz nos fiéis; exprime-se de muitas maneiras em cada um daqueles que, no seu estado de vida, tendem à perfeição da caridade, com edificação do próximo; e aparece de modo especial na prática dos conselhos chamados evangélicos. A prática destes conselhos revela ao mundo um admirável testemunho e exemplo desta santidade (LG 39).
Cristo, Mestre e modelo de perfeição, pregou sempre a santidade de vida que Ele é autor e consumador: «Sede perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste» (Mateus 5, 48). Todos aqueles que no batismo da fé foram feitos verdadeiros filhos de Deus e participantes da natureza divina, são destinados à santidade que receberam na graça, devendo conservá-la e aperfeiçoá-la. Sejam os clérigos, os religiosos ou os leigos, todos são igualmente chamados à santidade, cada qual, de acordo com seu estado de vida. A LG exorta toda a Igreja a viver conforme a santidade pregada por Cristo, que consiste no amor incondicional a Deus e ao próximo, na caridade e fraternidade, na prática constante da oração e no exercício das virtudes cristãs (LG 40).
Sobre a santidade, Dom Orani João Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, lembra: «Desde a Antiga Aliança, com os Patriarcas, Deus chama o povo à santidade: ‘Eu sou o Senhor que vos tirou do Egito para ser o vosso Deus. Sereis santos porque Eu sou Santo’» (Levítico 1, 44-45). O desígnio de Deus é claro: uma vez que fomos criados à sua «imagem e semelhança» (Génesis 1, 26), e Ele é Santo, nós devemos ser santos também. O Senhor não deixa por menos. A medida e a essência dessa santidade é o próprio Deus. São Pedro repete esta ordem dada ao povo no deserto, em sua primeira carta, convocando os cristãos a imitarem a santidade de Deus: «A exemplo da santidade daquele que vos chamou, sede também vós santos, em todas as vossas ações, pois está escrito: Sede santos, porque eu sou santo» (1Pedro 1, 15-16)».
Os caminhos e os meios para a santidade passam, em primeiro lugar, pela caridade que Deus difundiu nos nossos corações, pelo Espírito Santo que nos foi dado; em seguida, para que a caridade frutifique, é necessária a escuta atenta da Palavra de Deus e, com seu auxílio, cumprir nas obras a Sua vontade; participar ativa e frequentemente dos Sacramentos, sobretudo da Eucaristia, e nas demais celebrações litúrgicas, aplicando-se constantemente à oração, à abnegação de si mesmo, ao serviço fraterno atuante e no exercício de todas as virtudes (LG 42).
Especialmente os cristãos, leigos e leigas, são chamados a viverem a santidade nos espaços onde estão inseridos. A começar pela família, a Igreja doméstica, os esposos devem viver a santidade no amor mútuo e no serviço um ao outro e aos filhos, proporcionando-lhes educação cristã que os insira no mundo como sal e luz. No trabalho, na política e na sociedade, homem e mulher são chamados a darem testemunhos das virtudes cristãs e de uma fé inabalável na presença salvífica do Senhor na História. Assim testemunharão a santidade da Igreja presente no mundo como luz para iluminar aqueles que jazem nas trevas.
Viver a vocação cristã é estar aberto ao chamamento de Deus para realizar o que Ele pede, tal como na oração do Pai nosso que rezamos: «seja feita a Vossa vontade».

Índole escatológica da Igreja

O capítulo VII aborda a índole escatológica da Igreja. Etimologicamente, escatologia diz respeito à teologia do final dos tempos, mas isso não significa que a Igreja pregue o fim do mundo. Para a doutrina católica, a escatologia diz respeito à promessa da vinda de Cristo quando, então, Ele resgatará todos, definitivamente, para o seu Reino. Enquanto isso, a Igreja espera dando testemunho de que o Reino já está entre nós. Disso nasceu a imagem da Igreja peregrina ou militante!
O texto da carta aos Filipenses (1, 20-24) expõe de maneira clara que, se o Reino é o lugar definitivo para o cristão, «o morrer é lucro», mas todos tem a missão de viver e testemunhar Cristo na Terra, enquanto viventes. Paulo reflete: «Fico na indecisão: meu desejo é partir desta vida e estar com Cristo, e isso é muito melhor. 'No entanto, por causa de vocês, é mais necessário que eu continue a viver'» (Filipenses 1, 23-24).
D. Henrique Soares da Costa, bispo auxiliar de Aracaju, diz o seguinte sobre a índole escatológica da Igreja: «Sendo Povo de Deus peregrino, a Igreja nunca pode esquecer que sua pátria é o céu e é para lá que ela deve conduzir a humanidade toda. Por isso mesmo, ela tem um papel importantíssimo neste mundo, que ninguém, a não ser ela, pode realizar: ser sinal do Reino que está para acontecer plenamente na glória. A Igreja deve despertar nos homens a saudade do céu e a fidelidade ao Cristo na terra! Por isso, tudo quanto de bom os homens construírem, tem a aprovação e solidariedade da Igreja… mas ela sabe, que a plenitude do Reino somente se dará na Glória».
Esta «saudade do céu» que o bispo descreve, não é de forma alguma negação deste mundo, mas certeza e esperança de que ele deve ser transformado segundo os critérios do Reino. Disso nasce a missão da Igreja de se empenhar com outros organismos sociais na construção de uma nova sociedade. Nesta perspetiva, os cristãos são chamados a se envolverem em movimentos alternativos que assegurem maior dignidade aos filhos de Deus. É a certeza de que a maior Glória que pode ser dada a Deus é que a vida de seu povo seja defendida!
Ao falar na índole escatológica da Igreja peregrina e sua união com a Igreja Celeste, a LG começa pela índole escatológica da vocação de todos os cristãos, na Igreja, explicitando que, «a Igreja, para a qual somos todos chamados em Cristo Jesus e na qual pela graça de Deus adquirimos a santidade, só se consumará na glória celeste, quando chegar o tempo da restauração de todas as coisas (Atos 3, 21), e quando com o género humano, também o mundo todo, que está ligado intimamente com o homem e que por ele chega ao seu fim, será perfeitamente restaurado em Cristo». Esta restauração começou já em Cristo, foi impulsionada com a vinda do Espírito Santo e continua por meio d’Ele na Igreja – que nos faz descobrir na fé o sentido da própria vida temporal – à medida que vamos realizando, com esperança nos bens futuros, a obra que o Pai nos confiou no mundo, e vamos operando a nossa salvação (LG 48).
Enquanto estamos neste mundo como Igreja peregrina, mantemo-nos profundamente unidos aos que já morreram e que contemplam «Deus face a face», na Igreja Celeste, através das celebrações litúrgicas e orações pessoais; e à multidão de santos e santas que nos precedeu e intercede por nós. Todos os que são de Cristo formam uma só Igreja, corpo místico, e n’Ele estão unidos entre si, por isso, a união dos que estão na terra com os irmãos que adormeceram na paz de Cristo, de maneira nenhuma se interrompe. A certeza desta união e os santos exemplos deixados por aqueles que seguiram fielmente a Cristo e muitos que o fazem ainda hoje, ajudam na santificação da Igreja, pois, todos aqueles que são constituídos em Cristo formam uma só família unida em caridade e louvor à Trindade Santa (LG 49-51).

© Ambiente Virtual de Formação — www.ambientevirtual.org.br —
© Arquidiocese de Campinas, Brasil
© Adaptado por Laboratório da fé, 2013



Questões para reflexão

  • Somos chamados à santidade em Jesus Cristo. Como posso responder a este chamamento?
  • Ao falar da índole escatológica, a Igreja prevê que no futuro, no final dos tempos, haverá uma restauração de todas as coisas. Como entendo esta afirmação?
  • O que aprendi nesta ficha vai interferir na minha maneira de viver?

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II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2013

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.8.13 | Sem comentários

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Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


Esta ficha refere-se ao último capítulo da «Lumen Gentium» (LG), que contempla a bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, «como modelo de cristã e membro mais belo da Igreja». O Concílio quis dedicar-lhe este texto para expressar que o significado que Maria tem no mistério de Cristo está relacionado com o amor do Pai, a missão do Filho, o dom do Espírito Santo; ela é a mulher da qual nasceu o Redentor e a nossa filiação divina.
Para realizar a redenção do mundo, «Deus enviou o seu Filho» (Gálatas 4, 4) e, para «formar-lhe um corpo» (cf. Hebreus 10, 5) quis a livre cooperação de uma mulher, «para lembrar a toda humanidade que Deus assim nos fez, homem e mulher, semelhantes a Deus, iguais em dignidade e co-autores… (Génesis 1, 27), e através do ventre materno de uma virgem»… para que recebêssemos a adoção de filhos» (Gálatas 4, 5); Ele que, por amor de nós e para nossa salvação, desceu dos céus e encarnou por obra do Espírito Santo no seio da Virgem Maria. Este mistério da salvação é revelado e continuado (continua a ser revelado a toda sua Igreja) na Igreja. Unidos a Cristo como cabeça, e em comunhão com todos os santos, os fiéis devem também venerar a memória da Virgem Maria, Mãe de Deus e de Nosso Senhor Jesus Cristo (LG 52).
Reconhecida e honrada como Mãe de Deus e do Redentor que se fez irmão de todos, Maria torna-se também, por adoção, Nossa Mãe. A sua santidade, enriquecida desde o primeiro instante de sua conceção, e a sua dignidade de Mãe do Filho de Deus, vem inteiramente dos méritos de Cristo. Mais do que qualquer outra pessoa, o Pai abençoou-a e «escolheu-a nele (Cristo), para ser santa e imaculada em sua presença, no amor» (Efésios 1, 3-4).
Ela é, portanto, a filha predileta de Deus Pai e sacrário vivo do Espírito Santo, e ultrapassa, com este dom de graça sem igual, todas as criaturas celestes e terrestres. Segundo Santo Agostinho, «com seu imenso amor ela colaborou para que na Igreja nascessem os fiéis, que são membros do Corpo do qual a cabeça é Cristo». Ela é também saudada como membro que está acima de todos e de modo único na Igreja, além de ser considerada como o modelo da fé e da caridade. Por isso, a Igreja Católica honra-a como mãe, dedicando-lhe, um afeto de piedade filial (LG53).
A honra que a Igreja sugere não deve ser confundido com «latria» que é reservado somente a Deus. A veneração aos santos é chamado de «dulia», e à Virgem Maria de «hiperdulia». Os cristãos não cultuam imagens, e segundo São Basílio, «a honra prestada a uma imagem dirige-se ao modelo original» e quem venera uma imagem venera a pessoa que nela está pintada. A honra prestada às imagens é uma «veneração respeitosa», e não adoração, que só compete a Deus (Catecismo da Igreja Católica [CIC] 2132).
O Concílio não teve a intenção de propor uma doutrina completa sobre Maria, mas quis esclarecer, cuidadosamente, tanto a função da Santíssima Virgem no mistério do Verbo Encarnado e do Corpo Místico, quanto os deveres dos próprios homens para com a Mãe de Deus, que é Mãe de Cristo e, especialmente dos fiéis (LG 54).
A Mãe do Messias aparece profeticamente nos escritos do Antigo Testamento, esboçada primeiramente na promessa da vitória sobre a serpente (Génesis 3, 15) e depois como a Virgem que há de conceber e dar à luz um filho cujo nome será Emanuel (Isaías 7, 14; Miqueias 5, 2-3). Na Anunciação, quis o Pai de misericórdia que a Encarnação fosse precedida da aceitação por parte da mãe, a fim de que, assim como a mulher tinha contribuído para a morte, também a mulher contribuísse para a vida. Ela que «em certo sentido, tornou-se a primeira discípula do seu Filho, a primeira a quem Ele parecia dizer: 'Segue-me'» (Carta Encíclica sobre a bem-aventurada Virgem Maria na vida da Igreja que está a caminho — A Mãe do Redentor [«Redemptoris Mater» — RM] 20).
«O papel de Maria para com a Igreja é inseparável da sua união com Cristo» (CIC 964). A união da Mãe com o Filho, na obra da redenção, manifesta-se desde o momento da conceção virginal até sua morte e, podemos afirmar isso seguindo os passos de Maria da anunciação à sua visita a Isabel quando entoou seu canto de louvor (Lucas 1, 46-55), passando pelo nascimento, pela infância e pela participação na vida pública de Jesus até aos pés da cruz, (LG 57), ela que na peregrinação da fé foi até à «noite da fé, comungando com o sofrimento de seu Filho e com a noite de seu túmulo» (RM 17-18).
No ministério público de Jesus, a manifestação de Maria aparece claramente desde o início, quando nas bodas de Caná obteve, por sua intercessão, que Ele realizasse o seu primeiro milagre. «Ela põe-se entre o seu Filho e os seres humanos na realidade das suas privações, das suas diligências e dos seus sofrimentos. Torna-se mediadora, intercessora, não como uma estranha, mas como mãe, além de ser porta-voz da vontade do seu Filho, como quem indica as exigências que devem ser satisfeitas» (RM 21).
Manteve-se sempre ao Seu lado, até a Sua morte, sofrendo com Ele e associando-se ao Seu sacrifício. E depois manteve-se junto dos Apóstolos, implorando com eles, em preces, os dons do Espírito Santo que nela já habitava desde a conceção. Preservada de toda a mancha original, terminando o curso de sua vida terrestre, foi levada à glória celeste em corpo e alma e exaltada pelo Senhor como Rainha do Universo (LG 58).
A função maternal de Maria para com a humanidade torna-a dotada de uma mediação especial que de modo nenhum obscurece ou diminui a intercessão única de Cristo, mas que antes mostra qual é a sua eficácia, pois ela continuamente intercede por todos nós junto do seu Filho, mediador por excelência junto de Deus Pai (LG 60-61).
Maria ainda é apresentada como figura da Igreja pelo dom e carga da maternidade divina, cujas virtudes a Igreja deve imitar. Exaltada pela graça de Deus acima de todos os Anjos e de todos os humanos, logo abaixo de seu Filho, por ser a Mãe Santíssima de Deus, Maria recebe da Igreja a honra com culto especial nas festas litúrgicas dedicadas à Mãe de Deus e na oração mariana, tal como o Santo Rosário, resumo de todo evangelho (CIC 971). As várias formas de devoção, lembram os fiéis que ao honrar-se a Mãe, seja bem conhecido, amado e glorificado o Filho e bem observados os mandamentos daquele «pelo qual existem todas as coisas» (LG 66).
O Concílio não só ensina, como exorta os fiéis a promoverem dignamente o culto à Virgem Santíssima cujo tema deve ser tratado com abertura religiosa, evitando induzir em erro os irmãos separados ou quaisquer outras pessoas, quanto à doutrina da Igreja Católica.
Ao finalizar, a LG aponta Maria como sinal de esperança certa e de consolação para o Povo de Deus peregrino, exortando a todos para dirigirem súplicas incessantes à Mãe de Deus e Mãe dos homens. Ela, que assistiu com orações desde o início, o alvorecer da Igreja, também agora, possa interceder junto a seu Filho para que todas as famílias dos povos se reunam em concórdia no único Povo de Deus, para a Glória da Santíssima e Indivisível Trindade (LG 68-69).
Na exortação Apostólica para a reta ordenação e desenvolvimento do culto à bem-aventurada Virgem Maria — «Marialis Cultus» (1974), o papa Paulo VI desejou, em consonância com o II Concílio do Vaticano e especialmente com a LG, definir a forma do culto à Virgem Maria na Liturgia. Em 1987, o papa João Paulo II publicou uma Encíclica dedicada a Maria ((Carta Encíclica sobre a bem-aventurada Virgem Maria na vida da Igreja que está a caminho — A Mãe do Redentor — «Redemptoris Mater»), na qual destacava o lugar de Maria na obra da Salvação e confirmou o título, Mãe da Igreja, proclamada pelo Papa Paulo VI, no II Concílio do Vaticano, em 21 de novembro de 1964 e, em 2002, no 25.º ano de seu pontificado, publicou a Carta Apostólica sobre o Rosário — «Rosarium Virginis Mariae», dedicada especialmente ao Santo Rosário, convocando a Igreja para que o ano entre outubro de 2002 e outubro de 2003, fosse consagrado ao Rosário. Nesta carta, o Papa, também, propôs alterações no Rosário, acrescentando os Mistérios Luminosos, que refletem sobre a revelação do Reino de Deus já personificado em Jesus.

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Questões para reflexão

  • Vimos, ainda que de forma bastante sintética, o tratamento da LG dispensado a Maria. Como é que entendes o lugar de Maria na obra da Salvação? Porquê?
  • A crítica e, às vezes, o ataque direto contra o catolicismo fundamenta-se na alegação de que tratamos Maria como se fosse o próprio Deus? O que é que achas desta acusação?

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II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2013


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.8.13 | Sem comentários
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