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PROPOSTA PARA O DÉCIMO OITAVO DOMINGO


Ao longo de várias semanas, seguindo a proposta de Miquel Raventós, na revista «Misa dominical», sugerimos um texto relacionado com o II Concílio do Vaticano para ser lido na eucaristia dominical: no final da homilia ou no silêncio da comunhão ou quando parecer mais oportuno...

Vale a pena recordar às palavras de Paulo VI, na sessão pública de encerramento do Concílio, no dia sete de dezembro de 1965. «Num tempo em que o esquecimento de Deus se torna habitual», o Papa faz esta profissão de fé: «Deus existe. Sim, Deus existe; realmente existe; vive; é pessoal; é providente, dotado de infinita bondade, não só bom em si mesmo mas imensamente bom para nós; é o nosso criador, a nossa verdade, a nossa felicidade».
E insiste de novo no olhar sobre o mundo de hoje: «Nunca talvez como no tempo deste Concílio a Igreja se sentiu na necessidade de conhecer, avizinhar, julgar rectamente, penetrar, servir e transmitir a mensagem evangélica».
E também no olhar sobre os homens e mulheres de hoje: «Na verdade, a Igreja, reunida em Concílio, entendeu sobretudo fazer a consideração sobre si mesma e sobre a relação que a une a Deus; e também sobre o ser humano, o humano tal qual ele se mostra realmente no nosso tempo».
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013



  • Outros textos relacionados com esta proposta
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Ano da fé (2012-2013), Papa Francisco
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.8.13 | Sem comentários

PROPOSTA PARA O DÉCIMO SÉTIMO DOMINGO


Ao longo de várias semanas, seguindo a proposta de Miquel Raventós, na revista «Misa dominical», sugerimos um texto relacionado com o II Concílio do Vaticano para ser lido na eucaristia dominical: no final da homilia ou no silêncio da comunhão ou quando parecer mais oportuno...

O papa Paulo VI, no discurso de abertura do quarto período conciliar, no dia 10 de outubro de 1965, renova o seu olhar afetuoso para com o mundo de hoje: «O Concílio Ecuménico oferece à Igreja, a visão panorâmica do mundo. Esta contemplação será um dos factos principais desta sessão do nosso Concílio; depois, sobretudo depois, estará presente o amor; o amor pelos homens e mulheres de hoje, como são e onde estão, isto é, por todos. Na verdade, sentem e procedem doutro modo aqueles que estabelecem princípios bem diversos para promover a civilização humana, como são o poder, a riqueza, a ciência, a luta, os interesses particulares. A Igreja, porém, proclama a necessidade do amor. O Concílio é um ato público e solene de amor à humanidade. Cristo nos assista, para que assim seja a verdade».
Mais adiante, anuncia a instauração do Sínodo dos Bispos: «Alegramo-nos de vos comunicar, da instituição, desejada pelo Concílio, dum Sínodo dos Bispos, [...] que será convocado, segundo as necessidades da Igreja».
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013



  • Outros textos relacionados com esta proposta
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Ano da fé (2012-2013), Papa Francisco
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.7.13 | Sem comentários

As «chaves» do Concílio


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


A Igreja e o Corpo Místico
Infelizmente, na Idade Média, esta rica eclesiologia eucarística começou a retroceder para segundo plano, sendo substituída por uma visão mais jurídica da Igreja. Houve sempre vozes, como a de São Tomás de Aquino, que mantiveram em primeiro plano as ligações profundas entre a Eucaristia e a Igreja, mas essas seriam mais a exceção do que a regra. Só no século XIX e inícios do século XX é que se começaram a envidar esforços para recuperar elementos desta antiga visão eucarística da Igreja. A mudança histórica ocorrida na Idade Média foi magistralmente explorada, algumas décadas antes do Concílio, pelo teólogo jesuíta Henri de Lubac, numa obra intitulada «Corpus Mysticum» («Corpo Místico»).
Segundo de Lubac, antes do fim da Idade Média, o termo «Corpo Místico» referia-se sobretudo ao Corpo eucarístico de Cristo. No entanto, quando surgiram as controvérsias sobre o realismo da presença de Cristo na Eucaristia, os teólogos medievais começaram a estabelecer a distinção entre o corpo «natural» ou «verdadeiro» de Cristo, nascido da Virgem Maria, e agora presente no pão e no vinho do sacramento, e o caráter «místico» do corpo eclesial de Cristo. À medida que a atenção dos teólogos se ia centrando cada vez mais no realismo da presença de Cristo no sacramento, as antigas convicções relativas à presença e à ação de Cristo no corpo eclesial, e através dele, passaram para segundo plano. O efeito daí resultante foi uma infeliz decomposição da importante ligação entre a Eucaristia e a Igreja, e a Igreja e Cristo, sua Cabeça, a quem encontramos no sacramento.
Quando foi inicialmente aplicado à Igreja, o termo Corpo Místico referia-se à Igreja celeste, à comunhão dos santos no fim dos tempos. Na sequência da Reforma Protestante do século XVI, o contrarreformista jesuíta Roberto Belarmino aplicou sistematicamente a ideia do Corpo Místico de Cristo à comunidade peregrina da Igreja na terra. Tentou refutar a justaposição protestante feita entre a instituição visível da Igreja na terra e a realidade espiritual invisível da verdadeira Igreja.
No século XIX, alguns teólogos, como Johann Adam Möhler e, mais tarde, Matthias Scheeben, começariam a explorar a força da imagem paulina de «corpo» para entender a Igreja. Esse trabalho seria continuado no século XX pelo estudo monumental de Emile Mersch. O papa Pio XII aprofundaria ainda mais essa recuperação na sua Encíclica «Mystici Corporis», embora corroborando a ênfase dada por Belarmino à Igreja institucional visível. De Lubac, o teólogo dominicano Yves Congar e outros defenderiam a necessidade de regressar à eclesiologia eucarística de Paulo, de Agostinho e da tradição patrística.

© Richard R. Gaillardetz - Catherine E. Clifford
© Paulinas Editora, 2012
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização da editora

Catherine E. Clifford e Richard R. Gaillardetz, As «chaves» do Concílio, Paulinas Editora, Prior Velho, 2012 (material protegido por leis de direitos autorais)


  • Eclesiologia eucarística [1]  [2]  [3]  [4]  [5]  [6]


Reflexões sobre a Igreja no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.7.13 | Sem comentários

PROPOSTA PARA O DÉCIMO SEXTO DOMINGO


Ao longo de várias semanas, seguindo a proposta de Miquel Raventós, na revista «Misa dominical», sugerimos um texto relacionado com o II Concílio do Vaticano para ser lido na eucaristia dominical: no final da homilia ou no silêncio da comunhão ou quando parecer mais oportuno...

Sublinhamos dois fragmentos do discurso de Paulo VI, na abertura do terceiro período conciliar, no dia 14 de setembro de 1964. O primeiro assinala o que representa o Concílio para os padres conciliares: «O Concílio representa para nós um momento de profunda docilidade interior, momento de adesão perfeita e filial à palavra do Senhor, momento de tensão fervorosa, de súplica e de amor, momento de embriaguez espiritual. Que bem se aplicam ao acontecimento singular, que estamos a realizar, as expressões poéticas de S. Ambrósio: 'Bebamos com alegria a embriaguez sóbria do espírito'».
Mais adiante encontramos esta referência, ainda hoje surpreendente, sobre a centralização romana: «A centralização será sempre moderada e encontrará compensação no cuidado atento de se fornecerem aos pastores locais as faculdades convenientes e os serviços úteis. A centralização nada tem de artifício para exaltar; é apenas serviço, irmãos, é interpretação do espírito unitário e hierárquico da Igreja; é o ornamento, a força e a beleza inerentes à promessa de Cristo, que Ele vai concedendo à sua Igreja, conforme os tempos o permitem». Cinquenta anos depois ainda nos surpreendemos com estas palavras!
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013



  • Outros textos relacionados com esta proposta
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Ano da fé (2012-2013), Papa Francisco
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.7.13 | Sem comentários

As «chaves» do Concílio


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


Cristo é a cabeça do seu Corpo, que é a Igreja
A carta aos Colossenses contém um hino cristológico extraído da oração dos primeiros cristãos. Aqui, Cristo é apresentado no âmbito geral da história da salvação como Filho de Deus preexistente, que reina sobre toda a criação. A Igreja, do qual Ele é a cabeça, é colocada dentro do contexto do plano de Deus para toda a criação:
É Ele a imagem do Deus invisível, o primogénito de toda a criatura; porque foi nele que todas as coisas foram criadas, no céu e na terra, as visíveis e as invisíveis, os Tronos e as Dominações, os Poderes e as Autoridades, todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele. Ele é anterior a todas as coisas, e todas elas subsistem nele. É Ele a cabeça do Corpo, que é a Igreja. É Ele o princípio, o primogénito de entre os mortos, para ser Ele o primeiro em tudo; porque foi nele que aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude e, por Ele e para Ele, reconciliar todas as coisas, pacificando-as pelo sangue da sua cruz (Colossenses 1, 15-20).
Visto desta perspetiva cósmica, o corpo eclesial de Cristo, a Igreja, parece ter um papel decisivo a desempenhar no plano de Deus. Os membros do seu Corpo contam-se entre as primícias daqueles que foram reconciliados com Deus através da sua morte e ressurreição.
Paulo (ou um seu discípulo) escreve aos Efésios que Deus deu Cristo como cabeça da Igreja, «que é o seu Corpo, a plenitude daquele que tudo preenche em todos» (Efésios 1, 22-23). O termo grego que significa «plenitude», utilizado neste texto, está escrito numa forma passiva, para indicar que o próprio Cristo derrama as riquezas da sua graça sobre a comunidade daqueles que crêem, e sugerindo que a própria obra de Cristo é, em certo sentido, «completada» na Igreja. A obra salvífica de Cristo iniciada em nós ainda está por completar; nós continuamos a lutar por conseguir que a sua graça transforme as nossas vidas, e a aprender a viver as nossas vidas mais plenamente à sua imagem.
Ao propor que Cristo é a «cabeça» do seu Corpo, que é a Igreja, o hino aos Colossenses pinta uma imagem da dependência total da Igreja em relação ao seu fundador. Que faria um corpo sem uma cabeça? A cabeça dirige todas as funções do corpo, tanto os movimentos voluntários como involuntários. Sabemos, por exemplo, que quem sofre uma lesão cerebral terá provavelmente a sua saúde gravemente comprometida — não só em termos do seu funcionamento intelectual, mas também das muitas funções vitais associadas aos seus membros e aos órgãos que dependem dos impulsos do sistema nervoso central. O lugar de Cristo é primordial nessa imagem, e a comunidade cristã está organicamente ligada em todos os aspetos da sua vida.
Santo Agostinho descreveria mais tarde a interdependência de Cristo e da Igreja com a expressão «totus Christus»; para ele, Cristo, a cabeça, juntamente com o seu Corpo, que é a Igreja, constituem juntos o «Cristo total». A Igreja só pode ser entendida como a «plenitude» de Cristo pelo facto de que tudo o que é realizado nela e, mediante ela, no mundo constitui um efeito da sua graça atuante em nós.

© Richard R. Gaillardetz - Catherine E. Clifford
© Paulinas Editora, 2012
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização da editora

Catherine E. Clifford e Richard R. Gaillardetz, As «chaves» do Concílio, Paulinas Editora, Prior Velho, 2012 (material protegido por leis de direitos autorais)


  • Eclesiologia eucarística [1]  [2]  [3]  [4]  [5]  [6]


Reflexões sobre a Igreja no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.7.13 | Sem comentários

PROPOSTA PARA O DÉCIMO QUINTO DOMINGO


Ao longo de várias semanas, seguindo a proposta de Miquel Raventós, na revista «Misa dominical», sugerimos um texto relacionado com o II Concílio do Vaticano para ser lido na eucaristia dominical: no final da homilia ou no silêncio da comunhão ou quando parecer mais oportuno...

O discurso de Paulo VI, no encerramento do segundo período conciliar, no dia 4 de dezembro de 1963, coincide com a promulgação da Constituição sobre a Sagrada Liturgia.
No início do discurso, o Papa faz esta referência: «Vemos que se respeitou a escala dos valores e dos deveres: Deus, em primeiro lugar; a oração, a nossa primeira obrigação; a Liturgia, fonte primeira da vida divina que nos é comunicada, primeira escola da nossa vida espiritual, primeiro dom que podemos oferecer ao povo cristão, e primeiro convite dirigido ao mundo para que solte a sua língua muda em oração feliz e autêntica e sinta a inefável força regeneradora, ao cantar connosco os divinos louvores e as esperanças humanas, por Cristo Nosso Senhor e no Espírito Santo».
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013



  • Outros textos relacionados com esta proposta
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Ano da fé (2012-2013), Papa Francisco
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.7.13 | Sem comentários

As «chaves» do Concílio


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


Membros uns dos outros
No Novo Testamento, São Paulo refere-se à Igreja como «corpo de Cristo» e baseia-se na imagem do corpo para descrever a relação dos membros do corpo eclesial uns com os outros, bem como a sua relação coletiva com Cristo. No Batismo, somos incorporados em Cristo e no seu Corpo, a Igreja. Na Eucaristia, essa comunhão é alimentada e aprofundada. Evocando a imagem do corpo, Paulo apelava a uma ideia que circulava largamente na sua época. Menénio Agripa, oficial da República romana do século V a. C., empregara a imagem do corpo numa fábula para ajudar todos os membros da sociedade a compreender a sua necessidade e dependência mútuas, fosse qual fosse o seu posto ou classe social. Paulo recorreu a essa metáfora familiar para transmitir a ideia de solidariedade profunda que devia existir entre os membros da Igreja, em toda a sua diversidade.
O mais conhecido desses textos talvez se encontre na primeira carta aos Coríntios, onde encontramos o discurso de Paulo sobre a variedade de dons espirituais ou carismas concedidos pelo Espírito aos membros da Igreja: «Pois, como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, constituem um só corpo, assim também Cristo. De facto, num só Espírito, fomos todos balizados para formar um só corpo» (1Coríntios 12,12-13). Paulo descreve como as inúmeras partes do corpo são necessárias para o funcionamento do todo. O corpo não pode passar sem um pé, sem uma orelha, ou sem o nariz. Cada membro desempenha um papel essencial ao serviço de todo o corpo. O mesmo se passa no corpo eclesial de Cristo. Todos os membros devem cuidar uns dos outros. Com efeito, estamos de tal forma unidos pelo Espírito, que «se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros; se um membro é honrado, todos os membros participam da sua alegria» (1Coríntios 12, 26).
Esta mesma ideia é expressa de forma mais direta na carta aos Romanos: «Como num só corpo, temos muitos membros, mas os membros não têm todos a mesma função, assim acontece connosco: os muitos que somos formamos um só corpo em Cristo, mas, individualmente, somos membros uns dos outros» (Romanos 12, 4-5). O ensinamento de Paulo ajuda-nos a apreciar a dignidade comum partilhada por todos os membros do Corpo eclesial, seja qual for o seu carisma. Todo o Corpo precisa dos dons uns dos outros: o dom da profecia, o dom do serviço, o dom da exortação, o dom da partilha generosa, o dom da misericórdia e da alegria (Romanos 12, 8).
Toda a eclesiologia de Paulo pressupunha uma visão funda­mentalmente orgânica da Igreja, sugerindo não só complementaridade e diversidade dentro da Igreja, mas coexistência. Para Paulo, a vida em Cristo significa vida no Corpo de Cristo, que é a Igreja. A Igreja não era um mero agregado de indivíduos. Antes, pelo Batismo, que introduz na comunidade cristã, cada pessoa participa de uma nova realidade, passa a ser uma nova criação. Os crentes individuais não constituem a Igreja; a iniciação na Igreja mediante a fé e o Batismo constitui o crente: introdu-lo numa nova forma de existência.

© Richard R. Gaillardetz - Catherine E. Clifford
© Paulinas Editora, 2012
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização da editora

Catherine E. Clifford e Richard R. Gaillardetz, As «chaves» do Concílio, Paulinas Editora, Prior Velho, 2012 (material protegido por leis de direitos autorais)


  • Eclesiologia eucarística [1]  [2]  [3]  [4]  [5]  [6]


Reflexões sobre a Igreja no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 11.7.13 | Sem comentários

As «chaves» do Concílio


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


Pois, comunicando o seu Espírito, constituiu como seu Corpo todos os seus irmãos, chamados de entre todos os povos.
É nesse Corpo que a vida de Cristo se difunde nos que crêem, unidos de modo misterioso e real, por meio dos sacra­mentos, a Cristo padecente e glorioso. Ao participar realmente do Corpo do Senhor, na fração do pão eucarístico, somos eleva­dos à comunhão com Ele e entre nós. «Porque há um só pão, nós, que somos muitos, formamos um só corpo, visto partici­parmos todos do único pão» (1Coríntios 10, 17). E deste modo nos tornamos todos membros desse corpo (cf. 1Coríntios 12, 27), sendo «individualmente membros uns dos outros» (LG 7).

Antecedentes
Os bispos reunidos no Concílio Vaticano II acharam que já não era adequado falar da Igreja apenas em termos das suas estruturas institucionais e jurídicas, aplicando a noção de «Igreja militante» ou o modelo de uma «sociedade perfeita» de Roberto Belarmino. Para melhor expressar a vocação da Igreja tanto nas suas dimensões divina/espiritual como humana/institucional, optaram por uma abordagem mais sacramental. Isso reflete-se no conceito da «Lumen Gentium» da Igreja como sacra­mento de unidade ou de comunhão desejado por Deus para toda a humanidade (LG 1). A Igreja como «koinonia-comunhão» é apre­sentada ainda como povo peregrino reunido e conduzido por Deus no seu caminho através da história para a plena realização da sua chamada. O conceito da Igreja como sacramento é moldado por uma teologia encarnacional centrada numa compreensão de como o amor de Deus nos é revelado na humanidade de Jesus de Nazaré e através dele. Ao dizer que a Igreja é como um sacramento, a «Lumen Gentium» afirma que Cristo continua a operar no mundo, nessa mesma comunidade humana e por meio dela. Vimos que o Espírito Santo suscita a nossa comunhão ou «koinonia» com Cristo e uns com os outros, permitindo que a Igreja seja esse sinal e agente de comunhão no mundo. A comunhão, tal como o Vaticano II entende a Igreja, é mais aprofundada nas reflexões conciliares sobre a ligação entre a Eucaristia e a vida da Igreja. Um regresso ao ensinamento do Novo Testamento e dos Padres da Igreja foi decisivo para a redescoberta de uma eclesiologia eucarística por parte da teologia católica.


Participando («koinonia») no Corpo de Cristo

Os escritos neotestamentários de São Paulo mantêm conti­nuamente em equilíbrio a nossa relação pessoal de comunhão com Cristo e a nossa comunhão com todos os fiéis batizados, simultaneamente significada na Eucaristia. Para São Paulo, o vín­culo de unidade que celebramos na Ceia do Senhor não pode ser reduzido a uma ligação entre o crente individual e Cristo. A comunhão em que somos incorporados mediante o dom do Espírito tem uma dimensão tanto vertical como horizontal. A nossa relação com Cristo é inseparável de uma longa e nova série de relações — na qual nos introduz — com todos aqueles que pertencem ao seu Corpo e que constituem as primícias de uma nova humanidade transformada na sua imagem. Quando surgem divisões, na comunidade de Corinto, à mesa do Senhor, Paulo não hesita em criticar a sua incapacidade de discernir a presença do seu Corpo — não só no pão e no vinho, mas também nas suas relações mútuas. Quando os irmãos não mostram reverência pelos outros ou os tratam injustamente, Paulo considera a sua participação na Eucaristia uma forma de «idolatria» ou de falso culto. Nesse contexto, recorda-lhes a «koi­nonia» de que todos participam (1Coríntios 10, 16-17). O ensinamento de Paulo é uma exortação a seguir uma ética consistente em termos de atos comunitários; os seus atos devem ser conformes com a realidade que celebram na Eucaristia.
Essa eclesiologia eucarística será mais desenvolvida nos escri­tos de Santo Agostinho, o qual explica que de cada vez que recebemos a Eucaristia, a realidade que recebemos através dos sinais sacramentais do pão e do vinho é, ao mesmo tempo, o Corpo e o Sangue de Cristo e a unidade da Igreja. Comentando a carta de Paulo aos Colossenses, afirma ele: «Tornais-vos o pão, ou seja, o corpo de Cristo». Agostinho leva por diante a linha de pensamento paulina que une o Corpo eucarístico e o Corpo eclesial. São dois aspetos indivisíveis de uma única realidade. Tornamo-nos mais profundamente incorporados em Cristo através do me­morial eucarístico. Com efeito, o significado central da Eucaristia é o amor, o amor de Cristo derramado por nós no mistério pascal, o mesmo amor do qual participamos de cada vez que pomos de parte os nossos interesses pessoais e nos voltamos para os outros. Por isso, Agostinho argumentava que a Eucaristia era uma pedagogia da vida cristã, onde aprendemos que o amor a Deus e o amor ao próximo não são realidades separadas. A experiência do amor de Deus amplia a nossa capacidade de amar os outros.

© Richard R. Gaillardetz - Catherine E. Clifford
© Paulinas Editora, 2012
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização da editora

Catherine E. Clifford e Richard R. Gaillardetz, As «chaves» do Concílio, Paulinas Editora, Prior Velho, 2012 (material protegido por leis de direitos autorais)


  • Eclesiologia eucarística [1]  [2]  [3]  [4]  [5]  [6]


Reflexões sobre a Igreja no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.7.13 | Sem comentários

PROPOSTA PARA O DÉCIMO QUARTO DOMINGO


Ao longo de várias semanas, seguindo a proposta de Miquel Raventós, na revista «Misa dominical», sugerimos um texto relacionado com o II Concílio do Vaticano para ser lido na eucaristia dominical: no final da homilia ou no silêncio da comunhão ou quando parecer mais oportuno...

No dia 29 de setembro de 1963, «sob a égide do arcanjo São Miguel, celestial protector do Povo de Deus», teve lugar o discurso de Paulo VI, na abertura do segundo período conciliar. Um longo discurso, digno de ser lido pausadamente.
Sublinhamos dois aspetos, sem pretensão de resumir o documento: a continuidade da obra começada por João XXIII; a centralidade da figura de Cristo.
Retomando as palavras de João XXIII, Paulo VI recorda um dos objetivos do Concílio: «para que o sagrado depósito da doutrina cristã seja conservado e proposto com maior eficácia»; investigar e expor a doutrina eclesiástica como «pedem os nossos tempos». «Nenhuma outra luz se veja sobre esta reunião que não seja Cristo, luz do mundo; nenhuma outra verdade interesse as nossas almas, que não sejam as palavras do Senhor, nosso único mestre; nenhuma outra aspiração nos guie, que não seja o desejo de Lhe sermos absolutamente fiéis».
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013



  • Outros textos relacionados com esta proposta
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Ano da fé (2012-2013), Papa Francisco
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.7.13 | Sem comentários

As «chaves» do Concílio


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


A teoria conciliar de carisma
Mencionámos atrás o impasse de vários séculos entre protes­tantismo e catolicismo sobre o papel dos carismas na vida da Igreja. O Concílio deu vários passos importantes, embora apenas preliminares, para abordar questão tão controversa. 
É inegável a importância da noção de carisma* nos escritos de São Paulo. Paulo insistia que o Espírito Santo conferia a todos os batizados carismas, ou dons do Espírito, tendo em vista a edificação da Igreja. Esses carismas  ou dons, apresentam-se numa diversidade de formas, algumas mais estáveis do que outras. Na secular polémica entre protestantes e católicos, alguns teólogos protestantes, como Rudolph Söhm, colocavam a visão «carismática» da Igreja segundo Paulo em forte contraposição com as estruturas institucionais do catolicismo. Os polemistas católicos, por sua vez, viam esses carismas como dons importantes conferidos exclusivamente à comunidade apostólica primitiva. Tais dons foram desaparecendo gradualmente da vida da Igreja, em favor do lugar essencial das funções eclesiais estáveis. 
O Concílio Vaticano II tentou ultrapassar essa polémica. Enquanto São Paulo descrevia o corpo de cada crente como templo do Espírito Santo (1Coríntios 3, 16; 6, 19), os bispos aplicaram essa imagem a toda a Igreja. No texto-chave do presente capítulo, «dons hierárquicos» refere-se a funções estáveis da Igreja, e «dons carismáticos» refere-se aos muitos carismas que o Espírito reparte por todos os fiéis. Carisma e função não se opõem mutuamente, pois ambos têm por origem o mesmo Espírito. O Concílio reconheceu que a função eclesial não poderia existir a menos que fosse animada pelo Espírito Santo, e que os carismas não podiam sobreviver a menos que fossem submetidos a uma ordem que procurasse o bem de toda a Igreja. 
Apelando ao conceito bíblico de carisma, o Concílio conseguiu afirmar o papel indispensável de todos os fiéis na edificação da Igreja e na assistência prestada ao cumprimento da missão da Igreja no mundo. Escreveram os bispos que «o Espírito Santo não só santifica e conduz o Povo de Deus por meio dos sacra­mentos e ministérios, e o adorna com virtudes, mas 'distribuindo a cada um os seus dons como lhe apraz' (1Coríntios 12, 11), distribui também graças especiais entre os fiéis de todas as classes» (LG 12). Embora poucos — senão nenhuns — participantes no Concílio pudessem antever o florescimento de ministérios leigos que ocorreria nas décadas subsequentes, foi essa ênfase dada aos carismas de todos os batizados que proporcionou uma útil estrutura de interpretação teológica desse desenvolvimento pós-conciliar do ministério dos leigos.
Uma das formas pelas quais o Concílio conseguiu ultrapassar o binário carismas/funções foi sublinhando a relação recíproca entre esses dois termos. Em várias passagens, o Concílio sugeriu uma possível teologia de liderança pastoral ordenada dentro de uma comunidade animada por muitos carismas. A liderança pastoral dos ministros ordenados não tem de competir com o exer­cício dos muitos dons concedidos aos fiéis. A primeira requer o segundo. No magistério conciliar, os ministros ordenados para a liderança pastoral não deviam absorver no seu ministério todas as tarefas próprias da edificação da Igreja. Pelo contrário, os pastores da Igreja foram exortados a reconhecer, potenciar e afirmar os dons de todo o Povo de Deus. No Decreto sobre o Apostolado dos Leigos («Apostolicam Actuositatem» [AA]), o Concílio afirmou que a receção de carismas do Espírito, pelo Batismo, 
confere a cada um dos fiéis o direito e o dever de os aplicar na Igreja e no mundo, para bem dos homens e edificação da Igreja, na liberdade do Espírito Santo, que «sopra onde quer»... e, ao mesmo tempo, em comunhão com os outros irmãos em Cristo, sobretudo com os próprios pastores; a estes compete julgar da sua autenticidade e exercício ordenado, não de modo a apagarem o Espírito, mas para que tudo apreciem, retendo o que é bom (AA 3).
O Decreto sobre o Ministério e a Vida dos Sacerdotes («Presbyterorum Ordinis» [PO]) afirmou, de igual modo, a responsabilidade do sacerdote por confirmar e alimentar os dons dos fiéis: «Sabendo discernir se os espíritos vêm de Deus, perscrutem com o sentido da fé, reconheçam com alegria e promovam com diligência os multiformes carismas dos leigos, tanto os mais modestos como os mais elevados» (PO 9). Estas passagens situavam o ministério pastoral ordenado não acima, mas dentro da comunidade cristã. O ministro ordenado é responsável pelo discernimento e pela coordenação dos carismas e dos ministérios de todos os batizados.

* Carisma: termo derivado da palavra grega «charis», que significa «dom».

© Richard R. Gaillardetz - Catherine E. Clifford
© Paulinas Editora, 2012
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização da editora

Catherine E. Clifford e Richard R. Gaillardetz, As «chaves» do Concílio, Paulinas Editora, Prior Velho, 2012 (material protegido por leis de direitos autorais)


  • O Espírito Santo na Igreja [1] [2] 

Há atualidade na Lumen Gentium?
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.6.13 | Sem comentários

PROPOSTA PARA O DÉCIMO TERCEIRO DOMINGO


Ao longo de várias semanas, seguindo a proposta de Miquel Raventós, na revista «Misa dominical», sugerimos um texto relacionado com o II Concílio do Vaticano para ser lido na eucaristia dominical: no final da homilia ou no silêncio da comunhão ou quando parecer mais oportuno...

No discurso na conclusão da primeira sessão do II Concílio do Vaticano, no dia 8 de dezembro de 1962, o papa João XXIII não escondeu as divergências: «Num quadro tão vasto, é bem natural que tenham sido necessários alguns dias para se chegar a um entendimento sobre o que, dentro da caridade, era motivo de compreensíveis e ansiosas divergências: também isto tem a sua finalidade providencial para o realce da verdade, e mostrou perante o mundo a santa liberdade dos filhos de Deus, tal como ela se encontra na Igreja».
No final desse discurso, o papa pressente a quantidade de trabalhos que o esperam. Nós, hoje, dizemos que se trata da «receção» do Concílio por parte dos cristãos. Naquele dia, afirmou: «Tratar-se-á então de estender a todos os campos da vida da Igreja e às suas repercussões sociais tudo quanto for indicado pela assembleia conciliar [...]. Nessa fase importantíssima ver-se-ão os Pastores unidos num gigantesco esforço de pregação da verdadeira doutrina».
Cinquenta anos depois, esta fase da «receção» do Concílio ainda não está terminada!
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013



  • Outros textos relacionados com esta proposta
    [1[2[3] [4]

Ano da fé (2012-2013), Papa Francisco
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.6.13 | Sem comentários

As «chaves» do Concílio


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


O Espírito Santo e a «koinonia»
Um dos grandes contributos do século XX, à eclesiologia, é a recuperação da noção bíblica de «koinonia». O termo aparece pela primeira vez na teologia de São Paulo, sendo muitas vezes tradu­zido de formas diferentes, por «comunhão», «fraternidade», «participação em» ou «partilha». Se incluirmos todas as formas aparentadas com o substantivo «koinonia», este aparece trinta e seis vezes no Novo Testamento, com maior frequência nos escritos paulinos. Etimologicamente, o seu significado tem por base a raiz grega «koinon», que significa «comum». «Koinonia» refere-se a uma participação espiritual em determinada realidade comum.
Em 1Coríntios 1, 9, Paulo manifesta gratidão pelo facto de os Coríntios terem sido chamados por Deus à «comunhão» («koinonia») com Cristo. Podemos encontrar um uso paralelo na bênção diri­gida por Paulo aos Coríntios, na conclusão da segunda epístola: «A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão [«koi­nonia»] do Espírito Santo estejam com todos vós!» (2Coríntios 13, 13). Esta última passagem afirma que essa «koinonia» é um dom do Espí­rito, sugerindo que é o Espírito que produz uma relação de com­participação entre os crentes. Aquilo que Paulo entendia por «koi­nonia» incorporava tanto um elemento vertical (p. ex., comunhão com Cristo ou com o Espírito) e outro horizontal (p. ex., comu­nhão entre crentes), como é evidente em 1Coríntios 10, 16-17: 
«O cálice de bênção, que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo? Uma vez que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, porque todos participamos desse único pão».
Poderíamos falar de dupla dimensão do uso que Paulo faz de «koinonia» — a primeira é uma dimensão vertical, por assim dizer, que sublinha a comunhão com Deus, em Cristo e no Espírito. A segunda, uma dimensão mais horizontal, orienta-se para a comunhão com outros crentes. Essa dupla dimensão também é evi­dente na literatura joanina
«A Vida manifestou-se; nós vimo-la, dela damos testemunho e anunciamo-vos a Vida eterna que estava junto do Pai e que se manifestou a nós — o que nós vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também vós estejais em comunhão connosco. E nós estamos em comunhão com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo» (1João 1, 2-3).
Esta passagem põe em destaque a simultaneidade da vida partilhada entre os crentes (dimensão horizontal) e a sua vida partilhada com Deus, ou seja, «com o Pai e com o seu Filho» (dimensão vertical). Ao que parece, a intenção do autor bíblico terá sido prevenir qualquer ideia de que a comunhão com Deus desse às pessoas a liberdade de fazerem tudo o que quisessem na esfera das relações humanas. O autor da Primeira Carta de João insiste que a verdadeira comunhão com Deus encerra em si um imperativo ético e até ontológico; não se pode separar a comunhão com Deus da comunhão com os outros crentes. Por fim, vemos provas do aspeto comunitário da «koinonia» em Atos 2, 42, onde a «koinonia» entre os discípulos é evidente na partilha de todos os seus bens.
Nas décadas anteriores ao Concílio, vários teólogos católicos esboçam estudos bíblicos e ecuménicos sobre a «koinonia», geral­mente traduzida em latim por «communio» — «comunhão». Exami­naram as formas pelas quais tais estudos colocavam, subjacente às reflexões sobre a Igreja, o sentido de ser-em-relação. O Espírito Santo impele os crentes para uma comunhão espiritual, para uma «participação» de duas vertentes na comunhão com Deus, em Cristo, e na comunhão com outros crentes, na vida da Igreja. O termo «koinonia» exprimia a ligação fundamental entre participação na vida de Deus e participação na comunidade cristã.
O Concílio Vaticano II incorporou esta linha teológica de pensamento, uma abordagem que eventualmente viria a ser referida como eclesiologia de comunhão. O papa João Paulo II, na sua Exor­tação apostólica sobre os Leigos («Christifideles Laici»), reafirmou a conclusão do Sínodo Extraordinário de 1985, de que a noção de comunhão constituía a ideia central e fundamental do Vaticano II. Com efeito, o conceito de «koinonia»-«communio» encontra-se no centro, do texto-chave do presente capítulo. No início dessa passagem, é-nos dito que o Espírito Santo afirma a nossa comunhão espiritual com Deus, como filhos adotivos. Aí encontramos um reconhecimento da dimensão vertical da «koinonia», que torna pos­sível a nossa intimidade espiritual com Deus. A Igreja existe a fim de nos impelir para uma relação vivificante com Deus em Cristo, pelo poder do Espírito Santo.
A segunda frase foca o aspeto horizontal de comunhão, que é a obra do Espírito Santo para unir a Igreja, estabelecendo-a como Corpo de Cristo. É-nos recordado que ser batizados é ser batizados em Cristo. O Batismo estabelece a nossa identidade cristã, iniciando-nos na vida da Igreja. O Concílio voltará uma e outra vez a descrever a Igreja como comunhão espiritual, à semelhança de «Lumen Gentium» 9, que se refere à Igreja como «comunhão de vida, amor e verdade». Esta eclesiologia de comunhão é mais aprofundada pelo Concílio em relação à Eucaristia.
Poucas perspetivas eclesiológicas foram mais frutíferas para a reflexão teológica nas décadas subsequentes ao Concílio. Os teólogos viram nessa ênfase dada à Igreja como comunhão um antídoto contra a preocupação excessiva pelos cargos, pelo poder, pela jurisdição e pelos privilégios clericais na Igreja. Se a Igreja é uma comunhão, mantida como tal pelo poder do Espírito Santo, então termos como «poder» e «posto» devem ser exaustivamente repensados como realidades que só têm legitimidade na medida em que sirvam as diversas relações entre os crentes que compõem a vida da Igreja. Poder e posto não podem deter valor autó­nomo numa comunhão de crentes.

© Richard R. Gaillardetz - Catherine E. Clifford
© Paulinas Editora, 2012
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Catherine E. Clifford e Richard R. Gaillardetz, As «chaves» do Concílio, Paulinas Editora, Prior Velho, 2012 (material protegido por leis de direitos autorais)


  • O Espírito Santo na Igreja [1] 

Há atualidade na Lumen Gentium?
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 28.6.13 | Sem comentários

As «chaves» do Concílio


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


O Espírito habita na Igreja e nos corações dos fiéis como num templo (cf. 1Coríntios 3, 16; 6, 19), e dentro deles ora e dá testemunho da adoção de filhos (cf. Gálatas 4, 6; Romanos 8, 15-16.26). A Igreja, que o Espírito conduz à verdade total (cf. João 16, 13) e que unifica na comunhão e no ministério, é enriquecida e guiada por Ele com diversos dons hierárquicos e carismáticos, e adornada com os seus frutos (cf. Efésios 4, 11-12; 1Coríntios 12, 4; Gálatas 5, 22). Pela força do Evangelho, o Espírito rejuvenesce a Igreja, renova-a continuamente e leva-a à união perfeita com o seu Esposo (LG4).

Antecedentes
O Espírito Santo é muitas vezes referido como a Pessoa esquecida da Trindade. Ao longo dos últimos mil anos, a eclesiologia católica centrou-se na relação da Igreja com Cristo. A consideração do Espírito Santo estava geralmente limitada à garantia da eficácia dos sacramentos e ao caráter fidedigno do magistério da Igreja. A pneumatologia* era muito pouco considerada na reflexão teológica sobre a Igreja.
Nas décadas anteriores ao Concílio Vaticano II, o eminente teólogo dominicano Yves Congar criticou esta eclesiologia, limitada por aquilo que descreveu como o seu «Cristomonismo». Congar, entre outros teólogos, apelou a uma recuperação do papel do Espírito Santo na vida da Igreja. Os seus estudos revelaram uma época da Igreja primitiva em que o Espírito Santo tinha muito maior proeminência. Autores cristãos primitivos, como Santo Agostinho, viam o Espírito Santo como a alma do Corpo de Cristo. A relutância tardo-medieval em incorporar o Espírito Santo numa teologia da Igreja pode dever-se, em parte, à frequente referência ao Espírito Santo da parte das seitas heréticas, que tendiam a contrapor a obra carismática do Espírito às instituições da Igreja. Além disso, a partir da Reforma protestante, a cristandade tinha sofrido, por uma polémica continuada entre estudiosos protestantes e católicos, sobre se a Igreja primitiva se fundava sobretudo sobre funções eclesiais estáveis (a estrutura hierárquica da Igreja) ou sobre carismas concedidos a todos os crentes. Da parte da Igreja católica, qualquer referência a um papel decisivo do Espírito Santo corria o risco de parecer demasiado «protestante». Os importantes estudos do século XIX de Johann Adam Möhler e Matthias Scheeben sobre o Espírito Santo foram as exceções que confirmaram a regra.
No início do século XX, a eclesiologia católica recuperou a antiga imagem da Igreja como Corpo Místico de Cristo. Este tema foi aproveitado pelo papa Pio XII na sua Encíclica «Mystici Corporis». Embora o Papa reconhecesse o papel do Espírito Santo na Igreja, a encíclica não se centrou sobre a obra do Espírito Santo, mas sobre os elementos institucionais da Igreja.
Um dos contributos mais importantes — e muitas vezes ignorados — do Concílio Vaticano II residiu nos seus passos decisivos para recuperar o papel do Espírito Santo na vida da Igreja. Até o projeto de documento sobre a Igreja que os bispos receberam durante a primeira sessão do Concílio, apesar das suas muitas falhas, incluía numerosas referências ao Espírito Santo, recuperando a visão agostiniana do Espírito Santo como alma da Igreja. Enquanto São Paulo descrevera o corpo de cada crente como templo do Espírito Santo (1Coríntios 3, 16; 6, 19), os bispos aplicaram essa imagem a toda a Igreja.

O Espírito Santo no magistério conciliar
A recuperação, pelo Concílio, do lugar do Espírito Santo na Igreja, é evidente logo no primeiro capítulo da «Lumen Gentium», onde encontramos uma rica abordagem dos fundamentos trinitários da Igreja. No Pentecostes, o Espírito foi enviado para «santificar continuamente a Igreja e, desse modo, os fiéis tivessem acesso ao Pai, por Cristo, num só Espírito» (LG 4). O Concílio unia a Igreja Corpo de Cristo àqueloutra imagem da Igreja como Templo do Espírito Santo (LG 17). Esta ênfase renovada sobre o Espírito Santo é ainda mais desenvolvida e amplificada no Decreto sobre a Atividade Missionária da Igreja, segundo o qual a Igreja é constituída pelas missões trinitárias da Palavra e do Espírito (AG 2). Neste capítulo con-centrar-nos-emos em três aplicações da pneumatologia a uma teologia da Igreja: o papel do Espírito na manutenção da comunhão da Igreja; a teologia conciliar do carisma; a recuperação do caráter carismático da vida religiosa consagrada.

Pneumatologia: termo derivado da palavra grega «pneuma», que significa «espírito» ou «sopro». Assim, pneumatologia refere-se ao campo da teologia dedicado ao estudo do Espírito Santo.

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Catherine E. Clifford e Richard R. Gaillardetz, As «chaves» do Concílio, Paulinas Editora, Prior Velho, 2012 (material protegido por leis de direitos autorais)


  • O Espírito Santo na Igreja [2] 

Há atualidade na Lumen Gentium?
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.6.13 | Sem comentários

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Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


Esta ficha, nomeada «Uma Igreja ministerial», aborda os capítulos III, IV e VI da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG), respetivamente, a «Constituição Hierárquica da Igreja», «Os Leigos», e «Os Religiosos». A partir da intenção do capítulo II – O Povo de Deus – estudado na ficha anterior, entende-se que a distribuição dos referidos capítulos foi metodológica, e que a Constituição não deseja distinguir uma Igreja clerical de outra laical, mas, sim, mostrar que é toda ministerial, distinguindo apenas as diferentes funções na forma de servir aos irmãos como ao próprio Senhor, pois, segundo o Evangelho, é maior aquele que mais serve (Lucas 22, 26), justificando o titulo da ficha.
No capítulo III, dedicado à «Constituição Hierárquica da Igreja», a LG busca a fundamentação bíblica e teológica para explicar o Sacramento da Ordem, realçando a função do episcopado (Bispos), pois, sobre a vida e o ministérios dos presbíteros (Sacerdotes), o Concílio dedica um documento próprio: o Decreto «Presbyterorum Ordinis».
Cristo instituiu a Igreja e os vários ministérios destinados ao bem do seu Corpo Místico como um todo. Instituiu em Pedro o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade de fé e comunhão, constituindo o Apóstolo como seu líder, enviando-o com os demais para cumprir a missão de evangelizar todos os povos até os confins da terra (LG 18). Missão que pode ser cumprida após o Pentecostes, ocasião em que o Espírito Santo distribuiu vários dons e carismas aos Apóstolos e discípulos e, ao longo do tempo, aos seus seguidores, os novos evangelizados (LG 19); e que continua até o fim dos séculos, pois a mensagem do Evangelho foi, é e será o princípio de toda a vida da Igreja, através dos tempos.
A distribuição de ministérios de serviços é narrada nos Atos dos Apóstolos (6, 2-6; 11, 30; 13, 1; 14, 23; 20, 17) mostrando a instituição dos graus da ordem: episcopado, presbiterato e diaconado. Assim, entende-se que, da mesma forma como Pedro presidia na Igreja nascente ao grupo dos Apóstolos, também a Igreja tem no Sumo Pontífice Romano, aquele que a preside como sucessor de Pedro e que está intimamente unido aos demais Bispos do mundo inteiro, formando o Colégio Episcopal. Na pessoa do Bispo, assistido pelos presbíteros e diáconos, é o próprio Senhor Jesus Cristo, o Pontífice Supremo, que está no meio dos fiéis e continua a caminhar com o seu povo (LG 20).
A missão do Bispo consiste em ensinar todas as pessoas e em pregar o Evangelho a toda criatura; em santificar através da administração dos sacramentos, principalmente da Sagrada Eucaristia; e também em governar através da ação pastoral e administrativa (LG 21-27), para as quais conta com a colaboração dos presbíteros e dos diáconos, a quem confia legitimamente o cargo do seu ministério pelo Sacramento da Ordem (LG 28/29).
Com o II Concílio do Vaticano, os Bispos aproximaram-se muito do povo e assumiram, explicitamente, a vida pastoral nas suas dioceses. Especialmente na América Latina, as Conferências Episcopais depois do Concílio deram um novo impulso pastoral, e no Brasil, igualmente, a CNBB empenhou-se em fortalecer a unidade episcopal e traçar linhas orientadoras da pastoral na Igreja. Significativo também foi a ação individual de alguns Bispos que se empenharam em implantar as orientações do Concilio e tornar a Igreja mais serva.
No capítulo IV, a LG dedica-se ao estado dos fiéis que são denominados leigos, homens e mulheres que se dispõem a assumir o ser Igreja em funções eclesiais e no mundo. O Documento deixa claro que, dos diversos ministérios da Igreja, boa parcela está destinada ao laicado, e explicita: «certas coisas dizem respeito de modo particular aos leigos, homens e mulheres, em razão da sua condição e da sua missão, em virtude das especiais circunstâncias do tempo atual». Os Bispos reconhecem que não foram instituídos para assumirem sozinhos toda a missão quanto à salvação do mundo, e o quanto os leigos, com suas atribuições e carismas, contribuem para o bem de toda a Igreja, de tal maneira que cada um, a seu modo, coopera unanimemente na tarefa comum (LG 30).
A LG cuidou de definir quem são os leigos para a Igreja: «os fiéis que, por haverem sido incorporados em Cristo pelo Batismo e constituídos em Povo de Deus, e por participarem a seu modo do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo, realizam na Igreja e no mundo, na parte que lhes compete, a missão de todo o povo cristão». De forma que, na diversidade dos ministérios, formam um só e único corpo (LG 31-34).
O apostolado do leigo dá-se no mundo secular, naqueles lugares em que a Igreja, só por meio deles, se pode fazer sal da terra. Consagrados a Cristo no Espírito Santo, possuem uma vocação admirável e são dotados de capacidade para que o Espírito produza neles frutos sempre mais abundantes, através do seu modo de vida e do seu testemunho nas estruturas humanas (LG 35-37). Pode-se ler nas entrelinhas da LG que a Igreja reconhece que, somente através dos leigos e leigas, será capaz de se renovar internamente e se efetivar como presença no mundo. E isso foi comprovado, pois, a aplicação do Concilio, no interior da Igreja, apesar de conduzida pelo clero, só foi possível graças à presença de leigos e leigas na maioria dos organismos pastorais.
O documento considerado mais significativo sobre a atuação dos leigos, publicado vinte anos após o II Concílio do Vaticano, em 30 de dezembro de 1988, é a Exortação Apostólica de João Paulo II, «Christifideles Laici» (CL) – «Os fiéis leigos» – sobre a vocação e missão na Igreja e no mundo, que realça a importância dos leigos na Igreja não como «agricultores que trabalham na vinha, mas como parte dessa mesma vinha: 'Eu sou a videira, vós os ramos', diz Jesus (João 15, 5)» (CL 8). Esta afirmação realça que a índole secular da vocação laical é teológica e não apenas sociológica, pois na presença do leigo ou leiga no mundo pode-se contemplar a presença da Igreja (LG 31). Refere, também, que a função do leigo no mundo é promover a dignidade da pessoa, venerar o inviolável direito à vida e lutar por uma sociedade livre para invocar o nome do Senhor (CL 37-40), e que o empenho para a existência de uma sociedade justa deve começar na família, na promoção da caridade através da solidariedade e na participação política; e coloca o ser humano no centro de todas as relações, como um desafio, principalmente as político-económicas e a evangelização das culturas (CL 40-44).
Na América Latina, as Conferências do CELAM deram grande destaque aos ministérios laicais e, especialmente, a Conferência de Puebla dedicou setenta e dois parágrafos para refletir sobre a presença do leigo e leiga na Igreja e no mundo. Destes, dezessete dissertaram sobre as mulheres, reconhecendo que são maioria nas comunidades, cuja presença tende a crescer. Uma realidade prática se comprova na maioria das CEB’s onde os leigos e, especialmente as mulheres, animam e assumem os mais diversos ministérios, ainda que não oficialmente.
No Brasil, por ocasião dos 10 anos da publicação da «Christifideles Laici», a CNBB lançou, em 1999, o Documento 62 – «Missão e Ministérios dos cristãos leigos e leigas», que pode ser visto como uma explicitação da Exortação Apostólica que, por sua vez, despertou a criação de Conselhos de Leigos em muitas dioceses e o desenvolvimento de belos trabalhos. Da mesma forma, o Documento de Aparecida, de 2007, ao insistir na grande missão latino-americana, abre um grande espaço para a participação dos leigos na Igreja e no mundo, sem os quais a missão dificilmente conseguirá avançar.
Um trecho da oração que encerra a CL, resume bem a importância do ministério dos leigos e leigas para a Igreja: «Ó Virgem santíssima, Mãe de Cristo e Mãe da Igreja, [...] Contigo damos graças a Deus, [...] pela maravilhosa vocação e pela multiforme missão dos fiéis leigos, que Deus chamou pelo seu nome para viverem em comunhão de amor e de santidade com Ele e para estarem fraternalmente unidos na grande família dos filhos de Deus, enviados a irradiar a luz de Cristo e a comunicar o fogo do Espírito, em todo o mundo, por meio da sua vida evangélica. Virgem do 'Magnificat', enche os seus corações de gratidão e de entusiasmo por essa vocação e para essa missão».
Quanto à participação ministerial dos religiosos na Igreja, o capítulo VI dedica-se a estes que vivem a consagração das suas vidas como um sinal do Reino de Deus através dos carismas das várias famílias religiosas. Esta consagração dá-se na renúncia das coisas do mundo, na prática constante da oração, na abnegação de si mesmo e na dedicação aos irmãos, entregando-se ao exercício constante das virtudes e dos conselhos evangélicos de castidade, obediência e pobreza (LG 43-47).

© Ambiente Virtual de Formação — www.ambientevirtual.org.br —
© Arquidiocese de Campinas, Brasil
© Adaptado por Laboratório da fé, 2013



Questões para reflexão

  • No teu entendimento, existe um real fundamento para a constituição da hierarquia da Igreja? 
  • Concordas com o sentido da expressão «leigo», com a sua definição, com a sua missão no mundo, estabelecidos na Constituição Dogmática sobre a Igreja?
  • Como entendes o apostolado dos leigos no mundo, nomeadamente quanto ao modo de ser, viver e agir?
  • Como achas que deve ser a presença do leigo no mundo e na Igreja?

Partilha connosco a tua reflexão!


II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2013

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.6.13 | Sem comentários
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