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Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [12]


Terminamos o resumo da Constituição Pastoral do II Concílio do Vaticano sobre a Igreja no mundo atual («Gaudium et Spes» [GS]). Neste último tema seguimos o texto publicado na obra de Darlei Zanon, «Para ler o Concílio Vaticano II», ed. Paulus. No início, o Concílio não tinha previsto uma comissão para o estudo dos problemas sociais e da relação da Igreja com o mundo. Esta comissão foi criada a partir do pedido do cardeal Suenes, da Bélgica. Dos estudos desta comissão surgiu um texto inicial que foi reelaborado e ampliado diversas vezes até ser promulgado a 7 de dezembro de 1965. A «Gaudium et Spes» (em português, «Alegrias e Esperanças») foi o último documento aprovado: 2309 votos a favor, 75 contra e 10 nulos. Comparado com outros documentos, o número de votos contra é alto, o que é compreensível devido ao facto de abordar temas delicados para a Igreja daquela época.

Base da Doutrina Social da Igreja

A quarta das constituições do Concílio trata fundamentalmente das relações entre a Igreja Católica e o mundo. A GS é apresentada como «Constituição Pastoral», pois apresenta na primeira parte a compreensão do ser humano e da sociedade em chave teológica (parte doutrinária) e na segunda trata de alguns problemas concretos (parte pastoral). O seu texto é profundo e completo, constituindo a base de toda a Doutrina Social da Igreja. Mais tarde (26 de março de 1967), Paulo VI escreveu a Encíclica sobre o desenvolvimento dos povos («Populorum Progressio») para reforçar a linha de pensamento assumida pela Igreja nesta área, ou seja, alertar para o descompasso crescente entre o crescimento económico e o desenvolvimento integral, para o contraste entre o progresso tecnológico e a capacidade produtiva, de um lado, e o subdesenvolvimento de tantos povos, de outro.

Estrutura e conteúdo

A maior riqueza da GS é apresentar um olhar profético, eclesiológico e pastoral sobre a sociedade, sempre em busca da promoção da justiça e da paz. Ela visa «iluminar o mistério do ser humano e cooperar na solução das principais questões do nosso tempo» (GS 10). A sua primeira frase traduz o espírito do próprio Concílio como um todo: «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e mulheres de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por seres humanos, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao género humano e à sua história» (GS 1). Aí está expressa claramente a nova conceção de Igreja assumida pelo Concílio, como Povo de Deus, Corpo de Cristo e Templo do Espírito. A «Introdução» recorda a necessidade de a Igreja conhecer o mundo e acompanhar as suas transformações técnicas e sociais. Na primeira parte, o documento trata da doutrina da Igreja acerca do ser humano e do mundo. Aborda temas como a dignidade humana (números 12 a 22), a condição humana (23 a 32), a atividade do ser humano no mundo (33 a 39) e o papel da Igreja no mundo (40 a 45). Na segunda parte, estabelece linhas pastorais, respondendo à missão da Igreja no mundo. Considera vários aspetos da vida humana e da sociedade, respondendo a problemas de maior urgência para a época: matrimónio e família (47 a 52), progresso cultural (53 a 62), vida económica e social (63 a 72), comunidade política (73 a 76), promoção da paz e da Comunidade Internacional (77 a 90). Esta parte, inicialmente foi designada como «anexos», mas devido à sua importância e aos debates gerados foi incluída no corpo do documento. Ao analisarmos com cuidado a situação da sociedade atual, em clima de crise económica e principalmente de crise de valores, constatamos que os problemas não são muito diferentes, assumindo apenas uma nova face, mais moderna. Por ser o último documento aprovado, a GS bebeu de toda a nova mentalidade conciliar. Ela põe em prática todas as novidades do Concílio, especialmente o que diz respeito a uma Igreja mais aberta, comprometida e missionária. Tem especial ligação com a Constituição «Lumen Gentium», sobre a Igreja e com o Decreto «Ad Gentes», sobre a atividade missionária da Igreja: «A Igreja é por natureza missionária». O conteúdo apresentado na GS é de uma profundidade e beleza impressionantes e merece ser conhecido e retomado com frequência por todos os cristãos.

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.11.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [11]


A segunda secção do quinto capítulo encerra as temáticas propostas pelo II Concílio do Vaticano na Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual («Gaudium et Spes» — GS). Trata-se de uma reflexão sobre a Comunidade Internacional inserida na conjuntura da promoção da paz. «Para edificar a paz, é preciso, antes de mais, eliminar as causas das discórdias [...]. Como o ser humano não pode suportar tantas desordens, delas provém que, mesmo sem haver guerra, o mundo está continuamente envenenado com as contendas e violências entre os humanos. E como se verificam os mesmos males nas relações entre as nações, é absolutamente necessário, para os vencer ou prevenir, e para reprimir as violências desenfreadas, que os organismos internacionais cooperem e se coordenem melhor e que se fomentem incansavelmente as organizações que promovem a paz» (GS 83).

A Comunidade Internacional

Tendo como meta o «bem comum universal» é urgente que «a comunidade dos povos se dê a si mesma uma estrutura à altura das tarefas atuais [...]. Para obter tais fins, as instituições da comunidade internacional devem prover, cada uma por sua parte, às diversas necessidades humanas, no domínio da vida social — a que pertencem a alimentação, saúde, educação, trabalho — como em certas circunstâncias particulares, que podem surgir aqui ou ali, tais como a necessidade geral de favorecer o progresso das nações em vias de desenvolvimento, de obviar às necessidades dos refugiados dispersos por todo o mundo, ou ainda de ajudar os emigrantes e suas famílias» (GS 84). E também «é preciso abolir o apetite de lucros excessivos, as ambições nacionais, o desejo de domínio político, os cálculos de ordem militar bem como as manobras para propagar e impor ideologias» (GS 85).

Algumas normas oportunas

A GS sugere algumas orientações para assegurar o acesso de todos aos bens necessários para viver: que «a plena perfeição humana dos cidadãos» seja a finalidade expressa das nações; que os povos desenvolvidos ajudem os que estão em vias de desenvolvimento; que se estabeleça uma Comunidade Internacional com autoridade e poder para coordenar e estimular o desenvolvimento, bem como «regular as relações económicas no mundo inteiro»; que se revejam as atuais estruturas sociais e económicas, tendo em conta as necessidades materiais, mas também as de ordem cultural e espiritual (GS 86). A Igreja aponta também para a necessidade de auxílio educacional e tecnológico aos «povos que, além de muitas outras dificuldades, sofrem especialmente da que deriva dum rápido aumento da população» e aos que não têm acesso a técnicas modernas de produção ou não possuem adequada formação educacional e profissional. Entretanto, «o Concílio exorta todos a que evitem as soluções, promovidas privada ou publicamente ou até por vezes impostas, que sejam contrárias à lei moral» (GS 87). Com estas indicações, pretende despertar os cristãos para a sua responsabilidade: «Não se dê o escândalo de haver algumas nações, geralmente de maioria cristã, na abundância, enquanto outras não têm sequer o necessário para viver e são atormentadas pela fome, pela doença e por toda a espécie de misérias» (GS 88). Por isso, é «absolutamente necessário que a Igreja esteja presente na comunidade das nações, para fomentar e estimular a cooperação entre os humanos» (GS 89). Entre as possibilidades, «uma das melhores formas de atuação internacional dos cristãos consiste certamente na cooperação que, isoladamente ou em grupo, prestam nas próprias instituições criadas ou a criar para o desenvolvimento da cooperação entre as nações» (GS 90).

Conclusão

A GS pretende fazer com que todas as pessoas tornem «o mundo mais conforme à sublime dignidade humana, aspirem a uma fraternidade universal mais profundamente fundada e, impelidos pelo amor, correspondam com um esforço generoso e comum às urgentes exigências da nossa era» (GS 91). Impõe-se, assim, que a fraternidade e a caridade impulsionem o diálogo, o entendimento e o respeito pela legítima diversidade entre as nações, as raças, as culturas e religiões, sem excluir ninguém. «Por isso, chamados pela mesma vocação humana e divina, podemos e devemos cooperar pacificamente, sem violência nem engano, na edificação do mundo na verdadeira paz» (GS 92). Os cristãos «nada podem desejar mais ardentemente do que servir sempre com maior generosidade e eficácia os homens e mulheres do mundo de hoje. [...] ‘Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros’ (João 13, 35). Essa é «a vontade do Pai» (GS 93).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.11.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [10]


A Igreja, no quinto capítulo da GS intitulado «a promoção da paz e a Comunidade Internacional», declara que «chegou a hora decisiva» no «processo de maturação» da família humana, reconhecendo que «as dores e angústias derivadas da guerra ou da sua ameaça ainda oprimem tão duramente os seres humanos». E desafia a que «todos se orientem com espírito renovado à verdadeira paz. [...] Por isso, o Concílio, explicando a verdadeira e nobilíssima natureza da paz, e uma vez condenada a desumanidade da guerra, quer apelar ardentemente para que os cristãos, com a ajuda de Cristo, autor da paz, colaborem com todos os seres humanos no estabelecimento da paz na justiça e no amor» (77). O desenvolvimento deste capítulo concretiza-se em duas secções: «evitar a guerra»; «construção da Comunidade Internacional». Neste tema damos conta dos conteúdos essenciais da primeira secção.

Natureza da paz

«A paz não é ausência de guerra; nem se reduz ao estabelecimento do equilíbrio entre as forças adversas, nem resulta duma dominação despótica. [...] É um fruto da ordem que o divino Criador estabeleceu para a sociedade humana [...]. A paz nunca se alcança duma vez para sempre, antes deve estar constantemente a ser edificada. [...] Absolutamente necessárias para a edificação da paz são ainda a vontade firme de respeitar a dignidade dos outros e a prática assídua da fraternidade. A paz é assim também fruto do amor, o qual vai além do que a justiça consegue alcançar. A paz terrena, nascida do amor do próximo, é imagem e efeito da paz de Cristo, vinda do Pai. Pois o próprio Filho encarnado, príncipe da paz, reconciliou com Deus, pela cruz, todos os seres humanos; restabelecendo a unidade [...], extinguiu o ódio e, exaltado na ressurreição, derramou nos corações o Espírito de amor» (78).

Evitar a guerra

«Apesar de as últimas guerras terem trazido tão grandes danos materiais e morais, ainda todos os dias a guerra leva por diante as suas devastações em alguma parte da terra. Mais ainda, o emprego de armas científicas de todo o género para fazer a guerra, ameaça, dada a selvajaria daquelas, levar os combatentes a uma barbárie muito pior que a de outros tempos. Além disso, a complexidade da atual situação e o intrincado dos relações entre países tornam possível o prolongar-se de guerras mais ou menos larvadas, pelo recurso a novos métodos insidiosos e subversivos. Em muitos casos, o recurso aos métodos do terrorismo é considerado como uma nova forma de guerra. Tendo diante dos olhos este estado de prostração da humanidade, o Concílio quer, antes de mais, recordar o valor permanente do direito natural internacional e dos seus princípios universais» (79). Daí a necessidade de fazer valer os acordos e as convenções internacionais que exigem o respeito pela dignidade humana. «Saibam os homens e mulheres de hoje que darão grave conta das suas atividades bélicas. Pois das suas decisões atuais dependerá em grande parte o curso dos tempos futuros». Reafirmando a tradição de condenar sempre a guerra, declara que qualquer ação bélica genocida «é um crime contra Deus e o próprio ser humano, que se deve condenar com firmeza e sem hesitação» (80). Lembra, também, que «a corrida aos armamentos, a que se entregam muitas nações, não é caminho seguro para uma firme manutenção da paz; e de que o pretenso equilíbrio daí resultante não é uma paz segura nem verdadeira. [...] É preciso escolher outros caminhos, partindo da reforma das mentalidades, para eliminar este escândalo e poder-se restituir ao mundo, liberto da angústia que o oprime, uma paz verdadeira» (81). Neste contexto, é função das autoridades nacionais e internacionais buscar os meios mais aptos para assegurar a vida, garantir o direito e a justiça. É função de todos promover uma cultura que seja capaz de suplantar aquilo que divide a humanidade. Pouco adiantarão os esforços daqueles que buscam edificar a paz, «enquanto os sentimentos de hostilidade, desprezo e desconfiança, os ódios raciais e os preconceitos ideológicos dividirem os seres humanos e os opuserem uns aos outros. Daqui a enorme necessidade duma renovação na educação das mentalidades e na orientação da opinião pública. [...] Todos nós temos de reformar o nosso coração, com os olhos postos naquelas tarefas que podemos realizar juntos para o progresso da humanidade. [...] A Igreja de Cristo, no meio das angústias do tempo atual, não deixa de esperar firmemente. À nossa época quer ela propor, uma e outra vez, oportuna e importunamente, a mensagem do Apóstolo: ‘eis agora o tempo favorável’ para a conversão dos corações, ‘eis agora os dias da salvação’» (82).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.11.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [9]


A temática relacionada com a política, na Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual («Gaudium et Spes»), ocupa o quarto capítulo da segunda parte, que é dedicada a «alguns problemas mais urgentes». Este capítulo reconhece as hodiernas transformações profundas que também afetam a comunidade política «especialmente no que se refere aos direitos e deveres de cada um no exercício da liberdade cívica, na promoção do bem comum e na estruturação das relações dos cidadãos entre si e com o poder público» (GS 73). E destaca que a crescente consciência sobre a dignidade humana pede uma ordem política e jurídica que assegure os direitos de todos a participar ativamente na vida e na gestão da sociedade. Por isso, os padres conciliares condenam as formas políticas que impedem a liberdade civil ou religiosa em benefício dos partidos e/ou dos próprios governos.

Natureza e fim da comunidade política

A comunidade política existe em vista do bem comum. «Os indivíduos, as famílias e os diferentes grupos que constituem a sociedade civil, têm consciência da própria insuficiência para realizar uma vida plenamente humana e percebem a necessidade duma comunidade mais ampla, no seio da qual todos conjuguem diariamente as próprias forças para cada vez melhor promoverem o bem comum. E por esta razão constituem, segundo diversas formas, a comunidade política. A comunidade política existe, portanto, em vista do bem comum; nele encontra a sua completa justificação e significado e dele deriva o seu direito natural e próprio. Quanto ao bem comum, ele compreende o conjunto das condições de vida social que permitem aos indivíduos, famílias e associações alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição. [...] O exercício da autoridade política, seja na comunidade como tal, seja nos organismos representativos, deve-se sempre desenvolver e atuar dentro dos limites da ordem moral, em vista do bem comum» (GS 74). Ora, faz parte da natureza humana participar politicamente na sociedade através do voto livre, que é tanto um direito quanto um dever. «É plenamente conforme com a natureza do ser humano que se encontrem estruturas jurídico-políticas nas quais todos os cidadãos tenham a possibilidade efetiva de participar livre e ativamente, dum modo cada vez mais perfeito e sem qualquer discriminação, tanto no estabelecimento das bases jurídicas da comunidade política, como na gestão da coisa pública e na determinação do campo e fim das várias instituições e na escolha dos governantes. Todos os cidadãos se lembrem, portanto, do direito e simultaneamente do dever que têm de fazer uso do seu voto livre em vista da promoção do bem comum. A Igreja louva e aprecia o trabalho de quantos se dedicam ao bem da nação e tomam sobre si o peso de tal cargo, em serviço dos seres humanos». E pede que «todos os cristãos tenham consciência da sua vocação especial e própria na comunidade política». Além disso, valoriza a importância da educação política: «deve atender-se cuidadosamente à educação cívica e política, hoje tão necessária à população e sobretudo aos jovens, para que todos os cidadãos possam participar na vida da comunidade política» (GS 75).

A comunidade política e a Igreja

É fundamental que haja clareza sobre as relações da comunidade política e a Igreja; e «que se distingam claramente as atividades que os fiéis, isoladamente ou em grupo, desempenham em próprio nome como cidadãos guiados pela sua consciência de cristãos, e aquelas que exercitam em nome da Igreja e em união com os seus pastores». Contudo, a Igreja e comunidade política estão ao serviço da sociedade: façam-no em mútua cooperação. «Ambas servem a vocação pessoal e social [...]. E tanto mais eficazmente exercitarão este serviço para bem de todos, quanto melhor cultivarem entre si uma sã cooperação». Mas sem pôr em causa a autonomia e independência. «A Igreja que, em razão da sua missão e competência, de modo algum se confunde com a sociedade nem está ligada a qualquer sistema político determinado, é ao mesmo tempo o sinal e salvaguarda da transcendência da pessoa humana». Por isso, não devem servir-se uma da outra e tampouco usufruir de vantagens advindas desta relação. Até porque a Igreja tem por missão ensinar e denunciar o que não estiver de acordo com os direitos humanos. «Aderindo fielmente ao Evangelho e realizando a sua missão no mundo, a Igreja — a quem pertence fomentar e elevar tudo o que de verdadeiro, bom e belo se encontra na comunidade humana — consolida, para glória de Deus, a paz entre os seres humanos» (GS 76).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.10.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [8]


O terceiro capítulo da segunda parte da GS destaca que a dignidade do ser humano também deve ser respeitada e promovida nas relações económicas da sociedade. E lembra que o ser humano «é o protagonista, o centro e o fim de toda a vida económico-social» (GS 63). Neste tema, apresentamos o resumo do referido capítulo que se divide em duas secções: «o desenvolvimento económico»; «alguns princípios orientadores de toda a vida económico-social». Neste âmbito, como em todos os outros, há aspetos positivos, «mas não faltam motivos de inquietação»: obsessão desmedida pela economia; agravamento das desigualdades; desprezo pelos pobres; coexistência do luxo com a miséria; vidas e trabalhos indignos da pessoa humana. «Semelhantes desequilíbrios verificam-se tanto entre a agricultura, a indústria e os serviços como entre as diferentes regiões do mesmo país» (GS 63).

O desenvolvimento económico

«Hoje, mais do que nunca, para fazer frente ao aumento populacional e satisfazer às crescentes aspirações do género humano, com razão se faz um esforço por aumentar a produção agrícola e industrial e a prestação de serviços. [...] Mas a finalidade fundamental da produção não é o mero aumento dos produtos, nem o lucro ou o poderio, mas o serviço do ser humano; do ser humano integral, isto é, tendo em conta a ordem das suas necessidades materiais e as exigências da sua vida intelectual, moral, espiritual e religiosa» (GS 64). Por isso, «o desenvolvimento não se deve abandonar ao simples curso quase mecânico da atividade económica» (GS 65). E «é necessário esforçar-se para que [...] se eliminem o mais depressa possível as grandes e crescentes desigualdades económicas atualmente existentes, acompanhadas da discriminação individual e social» (GS 66).

Alguns princípios orientadores de toda a vida económico-social

O que sustenta a economia é o trabalho humano. «É com o seu trabalho que o ser humano sustenta de ordinário a própria vida e a dos seus; por meio dele se une e serve aos seus irmãos, pode exercitar uma caridade autêntica e colaborar no acabamento da criação divina» (GS 67). Assim, mais que um dever, o trabalho é um direito que deve ser assegurado pela lei, pois todo o ser humano tem direito ao salário, a condições humanizantes de trabalho e ao justo descanso para viver e dar vida digna aos seus. Além disso, «entre os direitos fundamentais da pessoa humana deve contar-se o de os trabalhadores criarem livremente associações que os possam representar autenticamente e contribuir para a reta ordenação da vida económica» (GS 68). A Igreja recorda também a importância do destino universal dos bens. Por isso, «sejam quais forem as formas de propriedade, [...] deve-se sempre atender a este destino universal dos bens» (GS 69). E «tenham-se sempre também em conta as necessidades urgentes das nações ou regiões economicamente menos desenvolvidas» (GS 70). É certo que a Igreja defende a propriedade privada: «A propriedade privada ou um certo domínio sobre os bens externos asseguram a cada um a indispensável esfera de autonomia pessoal e familiar, e devem ser considerados como que uma extensão da liberdade humana» (GS 71). Mas considera-a um direito relativo em relação ao bem comum e universal: o conjunto das condições de vida de uma sociedade que favorecem o bem-estar e o desenvolvimento humano de todos. «De resto, a mesma propriedade privada é de índole social, fundada na lei do destino comum dos bens. O desprezo deste carácter social foi muitas vezes ocasião de cobiças e de graves desordens, chegando mesmo a fornecer um pretexto para os que contestam esse próprio direito» (GS 72). Assim, a Igreja considera que a propriedade privada só é licita quando produz e propicia o trabalho e, somente nesta perspetiva ela pode ser defendida, pois as propriedades privadas improdutivas não permitem que outros, nomeadamente os pobres, nelas se fixem e delas tirem o seu sustento. A terminar este capítulo recorda-se que «os cristãos que desempenham parte ativa no atual desenvolvimento económico-social e lutam pela justiça e pela caridade, estejam convencidos de que podem contribuir muito para o bem da humanidade e paz do mundo. Em todas estas atividades, quer sozinhos quer associados, sejam exemplo para todos. Adquirindo a competência e experiência absolutamente indispensáveis, respeitem a devida hierarquia entre as atividades terrenas, fiéis a Cristo e ao seu Evangelho, de maneira que toda a sua vida, tanto individual como social, seja penetrada do espírito das bem-aventuranças, e especialmente do espírito de pobreza» (GS 73).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.10.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [7]


A GS é o primeiro documento eclesial a fazer uma reflexão pastoral sobre a importância da cultura. O segundo capítulo da segunda parte da GS aborda «a conveniente promoção do progresso cultural». O conteúdo distribui-se por três secções que vamos resumir neste tema. Segundo os padres conciliares, «a palavra ‘cultura’ indica, em geral, todas as coisas por meio das quais o ser humano apura e desenvolve as múltiplas capacidades do seu espírito e do seu corpo; se esforça por dominar, pelo estudo e pelo trabalho, o próprio mundo; torna mais humana, com o progresso dos costumes e das instituições, a vida social, quer na família quer na comunidade civil; e, finalmente, no decorrer do tempo, exprime, comunica aos outros e conserva nas suas obras, para que sejam de proveito a muitos e até à inteira humanidade, as suas grandes experiências espirituais e as suas aspirações» (GS 53).

Condições da cultura no mundo atual

Os novos estilos de vida provocados pelas mais diversas transformações ocorridas nos últimos tempos permite «falar duma nova era da história humana» (GS 54), de «um novo humanismo, no qual o ser humano se define antes de mais pela sua responsabilidade com relação aos seus irmãos e à história» (GS 55). «Nestas condições, não é de admirar que o ser humano, sentindo a responsabilidade que tem na promoção da cultura, alimente mais dilatadas esperanças, e ao mesmo tempo encare com inquietação as múltiplas antinomias existentes» (GS 56).

Alguns princípios para a conveniente promoção da cultura

Apesar de reconhecer que alguns métodos podem «dar aso a certo fenomenismo e agnosticismo», a Igreja destaca aspetos positivos: «o gosto das ciências e a exata objetividade nas investigações científicas; a necessidade de colaborar com os outros nas equipas técnicas; o sentido de solidariedade internacional; a consciência cada vez mais nítida da responsabilidade que os sábios têm de ajudar e até de proteger os seres humanos; a vontade de tornar as condições de vida melhores para todos e especialmente para aqueles que sofrem da privação de responsabilidade ou de pobreza cultural. Tudo isto pode constituir uma certa preparação para a receção da mensagem evangélica» (GS 57). A Igreja lembra que entre a mensagem da salvação e a cultura humana existem muitos laços, pois Deus «falou segundo a cultura própria de cada época». E a própria Igreja «empregou os recursos das diversas culturas para fazer chegar a todas as gentes a mensagem de Cristo», além de «entrar em comunicação com as diversas formas de cultura, com o que se enriquecem tanto a própria Igreja como essas várias culturas» (58). Por conseguinte, «a Igreja lembra a todos que a cultura deve orientar-se para a perfeição integral da pessoa humana, para o bem da comunidade e de toda a sociedade» (GS 59).

Alguns deveres mais urgentes dos cristãos com relação à cultura

Afirmando que a cultura exige respeito, liberdade e autonomia para se desenvolver, a Igreja exorta as autoridades públicas a favorecerem e a colaborarem para o desenvolvimento cultural. A Igreja apregoa que todos têm o direito à cultura e ao pleno desenvolvimento conforme as qualidades e tradições próprias de cada um, independentemente de raça, sexo, nação, religião ou situação social. «É preciso, além disso, trabalhar muito para que todos tomem consciência, não só do direito à cultura, mas também do dever que têm de se cultivar e de ajudar os outros nesse campo» (GS 60). E «cada ser humano continua a ter o dever de salvaguardar a integridade da pessoa humana, na qual sobressaem os valores da inteligência, da vontade, da consciência e da fraternidade, valores que se fundam em Deus Criador e por Cristo foram admiravelmente restaurados e elevados» (GS 61). Neste contexto, «os teólogos são convidados a buscar constantemente, de acordo com os métodos e exigências próprias do conhecimento teológico, a forma mais adequada de comunicar a doutrina aos homens do seu tempo [...]. Na atividade pastoral, conheçam-se e apliquem-se suficientemente, não apenas os princípios teológicos, mas também os dados das ciências profanas [...]. A Igreja deve também reconhecer as novas formas artísticas [...]. Vivam os fiéis em estreita união com os demais do seu tempo e procurem compreender perfeitamente o seu modo de pensar e sentir, qual se exprime pela cultura. Saibam conciliar os conhecimentos das novas ciências e doutrinas e últimas descobertas com os costumes e doutrina cristã, [...] e sejam capazes de apreciar e interpretar todas as coisas com autêntico sentido cristão» (GS 62).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.10.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [6]


A segunda parte da GS aborda as reflexões pastorais e orientações que a Igreja quis manifestar sobre «alguns problemas mais urgentes» que afetam profundamente a humanidade, especificamente: «a promoção da dignidade do Matrimónio e da Família»; «a conveniente promoção do progresso cultural»; «a vida económico-social»; «a vida da comunidade política»; «a promoção da paz e a Comunidade Internacional». «O Concílio dirige agora a atenção de todos, à luz do Evangelho e da experiência humana, para algumas necessidades mais urgentes do nosso tempo, que profundamente afetam a humanidade». Sobre cada uma «devem resplandecer os princípios e as luzes que provêm de Cristo e que dirigirão os cristãos e iluminarão todos os humanos na busca da solução para tantos e tão complexos problemas» (GS 46). Neste tema apresentamos o resumo do primeiro capítulo.

O Matrimónio e a Família no mundo atual

A pessoa humana nasce no seio de uma família, querida pelo Criador a partir da união do homem e da mulher, colaboradores na obra da Criação. E cada família deve ser construída sobre a comunhão e o amor, tal qual a Santíssima Trindade, sendo considerada a primeira manifestação da comunidade humana, cuja expressão do amor maior se manifesta na geração de uma nova vida. Com Jesus Cristo, a família alcança nova dimensão no Sacramento do Matrimónio, marcado pela entrega, renúncia e doação que o próprio Jesus Cristo dedicou à humanidade. Neste sentido, Jesus Cristo é o esposo, cuja esposa é a Igreja. Jesus Cristo, aquele que ama, redime e cuida da Igreja, torna-se modelo de relação matrimonial. «Por isso, a família cristã, nascida de um matrimónio que é imagem e participação da aliança de amor entre Cristo e a Igreja, manifestará a todos a presença viva do Salvador no mundo e a autêntica natureza da Igreja, quer por meio do amor dos esposos, quer pela sua generosa fecundidade, unidade e fidelidade, quer pela amável cooperação de todos os seus membros» (GS 48). Por conseguinte, para a Igreja, o Matrimónio e a Família são instituições fundamentais para a preservação da vida e para a constituição e a manutenção da sociedade, por isso se compromete na defesa contra a poligamia, o divórcio, o egoísmo, o hedonismo, e quaisquer «práticas ilícitas contra a geração». E afirma, ainda, que as condições económicas, sociais e políticas também causam diversas perturbações na família e na sociedade. «Por tal motivo, o Concílio, esclarecendo alguns pontos da doutrina da Igreja, deseja ilustrar e robustecer os cristãos e todos os que se esforçam por proteger e fomentar a nativa dignidade do estado matrimonial e o seu alto e sagrado valor» (GS 47).

O amor e a fecundidade

«A Palavra de Deus convida repetidas vezes os noivos a alimentar e robustecer o seu noivado com um amor casto, e os esposos a sua união com um amor indiviso. [...] Este amor tem a sua expressão e realização peculiar no ato próprio do matrimónio» (GS 49). Ora, «os filhos são, sem dúvida, o maior dom do matrimónio e contribuem muito para o bem dos próprios pais. No entanto, o matrimónio não foi instituído só em ordem à procriação da prole. A própria natureza da aliança indissolúvel entre as pessoas e o bem da prole exigem que o mútuo amor dos esposos se exprima convenientemente, aumente e chegue à maturidade. E por isso, mesmo que faltem os filhos, tantas vezes ardentemente desejados, o matrimónio conserva o seu valor e indissolubilidade, como comunidade e comunhão de toda a vida» (GS 50).

O amor e o respeito pela vida

«Quando se trata de conciliar o amor conjugal com a transmissão responsável da vida, a moralidade do comportamento não depende apenas da sinceridade da intenção e da apreciação dos motivos; deve também determinar-se por critérios objetivos, tomados da natureza da pessoa e dos seus atos; critérios que respeitem, num contexto de autêntico amor, o sentido da mútua doação e da procriação humana. Tudo isto só é possível se se cultivar sinceramente a virtude da castidade conjugal» (GS 51).

O progresso e a promoção do Matrimónio e da Família 

A Igreja entende a família como uma escola de humanização que orienta os filhos para serem capazes de seguir com responsabilidade a sua vocação. Por isso, exorta a sociedade, os cientistas, e especialmente todos os cristãos a promoverem a dignidade do Matrimónio e da Família, a fim de garantir que a sociedade possa se perpetuar segundo os valores da vida. «Protejam-se também e ajudem-se convenientemente, por meio duma previdente legislação e com iniciativas várias, aqueles que por infelicidade não beneficiam duma família» (GS 52).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.10.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [5]


O quarto e último capítulo da primeira parte da GS aborda a compreensão do Concílio sobre «a função da Igreja no mundo atual»: apresenta-se como serva do mundo, a exemplo de Jesus Cristo. «No presente capítulo, pressupondo tudo o que o Concílio já declarou acerca do mistério da Igreja, considerar-se-á a mesma Igreja enquanto existe neste mundo e com ele vive e atua». Embora convicta do seu fim «salvador e escatológico», a Igreja de Jesus Cristo neste mundo, organizada como sociedade, é uma comunidade visível que deseja caminhar com a humanidade e ajudar, através dos seus ensinamentos, a tornar a família humana mais fraterna e solidária (GS 40).

A Igreja ajuda o ser humano

A Igreja entende que, apesar do desenvolvimento humano e da afirmação dos seus direitos, os quais não só proclama como apoia os que os promovem, existe para ajudar o ser humano na busca pelo «significado da sua vida, da sua atividade e da sua morte». Neste auxílio prestado ao ser humano, destaca-se o Evangelho de Jesus Cristo, pois «nenhuma lei humana pode salvaguardar tão perfeitamente a dignidade pessoal e a liberdade do homem como o Evangelho de Cristo, confiado à Igreja» (GS 41).

A Igreja ajuda a sociedade

A Igreja sabe que a missão que lhe foi confiada por Jesus Cristo não é de ordem política, económica ou social, mas de ordem religiosa. «Mas desta mesma missão religiosa deriva um encargo, uma luz e uma energia que podem servir para o estabelecimento e consolidação da comunidade humana segundo a lei divina». Por isso, coloca-se ao serviço da humanidade como promotora, orientadora e colaboradora das instituições, pessoas e associações que procuram preservar a dignidade e bem estar de todos, nomeadamente no apoio aos mais necessitados (GS 42).

A Igreja ajuda a atividade humana

Sem esquecer o papel dos bispos e dos presbíteros, o principal destaque está na afirmação de que a Igreja se faz presente no mundo através da ação dos leigos que conscientemente assumem a sua vocação de serviço no mundo como um serviço religioso. Assim, para a Igreja não pode existir oposição entre a fé professada e a vida quotidiana. «Este divórcio entre a fé que professam e o comportamento quotidiano de muitos deve ser contado entre os mais graves erros do nosso tempo». Cabe, pois, aos leigos, evangelizar onde exercem as suas atividades. Porque «o cristão que descuida os seus deveres temporais, falta aos seus deveres para com o próximo e até para com o próprio Deus, e põe em risco a sua salvação eterna». Assim, são testemunhas de Jesus Cristo exercendo no mundo a sua função como membros da Igreja. Quanto aos bispos e presbíteros, além do testemunho que lhes compete nos vários âmbitos da sua missão específica, ressalta-se a importância de anunciarem a mensagem cristã «de tal maneira que todas as atividades terrenas dos fiéis sejam penetradas pela luz do Evangelho. Lembrem-se, além disso, os pastores que, com o seu comportamento e solicitude quotidianos, manifestam ao mundo o rosto da Igreja com base no qual os seres humanos julgam da força e da verdade da mensagem cristã. [...] tornem-se capazes de tomar parte no diálogo com o mundo» (GS 43).

A Igreja recebe a ajuda do mundo

A Igreja não ignora o contributo que recebe «da história e evolução do género humano [...]. Ela aprendeu, desde os começos da sua história, a formular a mensagem de Cristo por meio dos conceitos e línguas dos diversos povos [...]. Tudo isto com o fim de adaptar o Evangelho à capacidade de compreensão de todos e às exigências dos sábios. Esta maneira adaptada de pregar a palavra revelada deve permanecer a lei de toda a evangelização». Por isso, para continuar a sua missão e manter a sua mensagem sempre atual, a Igreja necessita «da ajuda daqueles que, vivendo no mundo, conhecem bem o espírito e conteúdo das várias instituições e disciplinas, sejam eles crentes ou não. É dever de todo o Povo de Deus e sobretudo dos pastores e teólogos, com a ajuda do Espírito Santo, saber ouvir, discernir e interpretar as várias linguagens do nosso tempo, e julgá-las à luz da palavra de Deus, de modo que a verdade revelada possa ser cada vez mais intimamente percebida, melhor compreendida e apresentada de um modo conveniente» (GS 44).

Jesus Cristo, Alfa e Ómega

O bem que a Igreja presta ao mundo deriva do facto de ser «sacramento universal da salvação». Pela Igreja, «o próprio Senhor o diz: ‘Eis que venho em breve, trazendo comigo a minha recompensa, para dar a cada um segundo as suas obras. Eu sou o alfa e o ómega, o primeiro e o último, o começo e o fim’» (GS 45).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

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II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.10.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [4]


Segundo a fé cristã, o ser humano é chamado por Deus a transformar o mundo através da sua ação e, especialmente, com o seu trabalho. O terceiro capítulo da primeira parte da GS refere-se à «atividade humana no mundo». Nela, a pessoa encontra o sentido da vida e a realização da sua vocação. A GS enfatiza que o trabalho existe para o ser humano e não o contrário. E também afirma que o trabalho tem uma dimensão social, uma vez que se orienta para o bem comum. Nesta perspetiva, é visto como condição para assegurar à pessoa a sua dignidade, sendo, portanto, um direito humano. Passados 50 anos, constata-se a pertinência a reflexão conciliar, já que numa grande parte dos países o trabalho humano foi (é) considerado apenas como uma mercadoria que a cada dia perde cada vez mais o seu valor o que, por consequência, atinge a compreensão do ser humano, fere a sua dignidade.

O sentido e valor da atividade humana

Graças à inteligência, à técnica e à ciência, o ser humano alcançou muitos bens que contribuíram para melhorar a qualidade da vida. Todavia, isto parece ter também contribuído para a perda do significado antropológico do trabalho e da própria vocação humana. Desta realidade brotam perguntas tais como: «Qual o sentido e valor desta atividade? Como se devem usar estes bens? Para que fim tendem os esforços dos indivíduos e das sociedades?». A Igreja, à luz da Palavra de Deus, quer dar o seu contributo para ajudar a responder a estas e outras questões relacionadas com o trabalho humano (GS 33). Para os que têm fé, a atividade humana, individual ou coletiva, corresponde à vontade de Deus, pois decorre do mandato de cultivar e guardar a terra (cf. Génesis 2, 15). Logo, é como um prolongamento da atividade divina na construção do mundo. «Isto aplica-se também às atividades de todos os dias. Assim, os homens e as mulheres que, ao ganhar o sustento para si e suas famílias, de tal modo exercem a própria atividade que prestam conveniente serviço à sociedade, com razão podem considerar que prolongam com o seu trabalho a obra do Criador, ajudam os seus irmãos e dão uma contribuição pessoal para a realização dos desígnios de Deus na história» (GS 34). Pelo trabalho, o ser humano transforma o mundo e a sociedade, mas também se constrói enquanto pessoa humana e descobre a sua vocação integral. Neste sentido, de forma profética, a GS afirma que, aquilo que o ser humano faz para promover a justiça, a fraternidade e o bem comum é muito superior a qualquer progresso técnico (GS 35).

A autonomia das realidades terrestres

A Igreja reconhece a «justa autonomia das realidades terrestres», sem contudo aceitar que «a íntima ligação entre a atividade humana e a religião constitua um obstáculo para a autonomia dos humanos, das sociedades ou das ciências». Tanto a religião como a ciência têm origem em Deus; por isso, não são incompatíveis. «A investigação metódica em todos os campos do saber, quando levada a cabo de um modo verdadeiramente científico e segundo as normas morais, nunca será realmente oposta à fé». Ora, a dita autonomia não significa afastar Deus da atividade humana, «pois, sem o Criador, a criatura não subsiste» (GS 36).

A lei do amor para um novo céu e uma nova terra

O progresso é um grande bem, mas também pode fazer esquecer a importância de fazer do mundo «um lugar de verdadeira fraternidade». Por isso, a Igreja «ao mesmo tempo que reconhece que o progresso humano pode servir para a verdadeira felicidade», lembra «que todas as atividades humanas, constantemente ameaçadas pela soberba e amor próprio desordenado, devem ser purificadas e levadas à perfeição pela cruz e ressurreição de Cristo» (GS 37). De facto, todo o esforço em construir um mundo novo e fraterno adquire um novo sentido pela fé em Jesus Cristo. «Ele revela-nos que ‘Deus é amor’ (1João 4, 8) e ensina-nos ao mesmo tempo que a lei fundamental da perfeição humana e, portanto, da transformação do mundo, é o novo mandamento do amor». Isto reflete-se «nas coisas grandes, mas, antes de mais, nas circunstâncias ordinárias da vida». Hoje, o Ressuscitado, pelo Espírito Santo e pelos Sacramentos, alimenta «o desejo da vida futura», mas «anima, purifica e fortalece também aquelas generosas aspirações que levam a humanidade a tentar tornar a vida mais humana» (GS 38). Por conseguinte, a certeza do Reino não deve acomodar os cristãos, mas «ativar a solicitude em ordem a desenvolver esta terra, onde cresce o corpo da nova família humana, que já consegue apresentar uma certa prefiguração do mundo futuro» (GS 39).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

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II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.9.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [3]


O segundo capítulo da primeira parte da GS — «A Igreja e a vocação do ser humano» — aborda a temática da comunidade humana. No intuito de intensificar o diálogo fraterno entre os humanos, este documento conciliar recorda que a revelação cristã favorece a comunhão entre as pessoas e, ao mesmo tempo, «leva a uma compreensão mais profunda das leis da vida social que o Criador inscreveu na natureza espiritual e moral do ser humano. Dado, porém, que recentes documentos do magistério eclesiástico expuseram a doutrina cristã acerca da sociedade humana, o Concílio limita-se a recordar algumas verdades mais importantes e a expor o seu fundamento à luz da revelação» (GS 23).

Vocação humana e sociedade

A Igreja sabe que a vocação à comunidade é inerente ao ser humano, pois a vida tem origem em Deus que colocou, no coração dos homens e mulheres, a vocação a ser membro da família humana. E Jesus Cristo ensinou que o amor a Deus não pode ser separado do amor ao próximo (GS 24). Neste sentido, cada pessoa é chamada a participar nas mais variadas instituições sociais com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento das outras pessoas. E, como membro, também tem o direito a ser beneficiada pelas ações dessas instituições. «No nosso tempo, devido a várias causas, as relações e interdependências mútuas multiplicam-se cada vez mais; o que dá origem a diversas associações e instituições, quer públicas quer privadas. Este facto, denominado socialização, embora não esteja isento de perigos, traz, todavia, consigo muitas vantagens, em ordem a confirmar e desenvolver as qualidades da pessoa humana e a proteger os seus direitos» (GS 25). Contudo, devido a problemas de vária ordem nem todas as sociedades têm condições para dar aos seus membros as condições básicas para uma vida verdadeiramente humana, tais como: «alimento, vestuário, casa, direito de escolher livremente o estado de vida e de constituir família, direito à educação, ao trabalho, à boa fama, ao respeito, à conveniente informação, direito de agir segundo as normas da própria consciência, direito à proteção da sua vida e à justa liberdade mesmo em matéria religiosa» (GS 26).

Respeito pelo ser humano

Coerente com o Evangelho, o Concílio defende o respeito por todo e cada ser humano e denomina como «infame» o seguinte: «tudo quanto se opõe à vida, como seja toda a espécie de homicídio, genocídio, aborto, eutanásia e suicídio voluntário; tudo o que viola a integridade da pessoa humana, como as mutilações, os tormentos corporais e mentais e as tentativas para violentar as próprias consciências; tudo quanto ofende a dignidade da pessoa humana, como as condições de vida infra-humanas, as prisões arbitrárias, as deportações, a escravidão, a prostituição, o comércio de mulheres e jovens; e também as condições degradantes de trabalho; em que os operários são tratados como meros instrumentos de lucro e não como pessoas livres e responsáveis» (GS 27). Todavia, os Padres conciliares lembram a necessária caridade e o esforço para dialogar com todos, mesmo com aqueles que defendem ideias contrárias, pois também esses são seres humanos (GS 28).

Igualdade

A igualdade entre todos deve ser sempre reconhecida. É inaceitável que haja desigualdades económicas e sociais, pois são obstáculo à justiça social, à equidade, à dignidade e à paz social e internacional. O Concílio lembra que compete às instituições, privadas ou públicas, estar ao serviço da dignidade humana, combatendo qualquer forma de sujeição política ou social, e salvaguardando, sob qualquer regime político, os direitos humanos fundamentais (GS 29). Afirma, também, que a justiça e a caridade devem imperar em favor do bem comum e, em função disso, são superiores a uma ética puramente individualista (GS 30).

Participação social

Para que todos cumpram a sua função social é necessário que a educação seja uma prioridade. Neste sentido, dizem os Padres conciliares, «podemos legitimamente pensar que o destino futuro da humanidade está nas mãos daqueles que souberem dar às gerações vindoiras razões de viver e de esperar» (GS 31). A terminar, recorda-se que «esta índole comunitária aperfeiçoa-se e completa-se com a obra de Jesus Cristo. Pois o próprio Verbo encarnado quis participar da vida social. Tomou parte nas bodas de Caná, entrou na casa de Zaqueu, comeu com os publicanos e pecadores. Revelou o amor do Pai e a sublime vocação humana, evocando realidades sociais comuns e servindo-se de modos de falar e de imagens da vida de todos os dias» (GS 32).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.9.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [2]


Na primeira parte da GS, considerada como a mais doutrinal — «A Igreja e a vocação do ser humano» — os padres conciliares, desejosos de «corresponder aos impulsos do Espírito», expressam o entendimento que têm sobre o ser humano. O documento é uma palavra de esperança sobre o campo de missão da comunidade eclesial: o coração de cada ser humano e a sociedade atual. Reconhece a distinção e independência entre a sociedade e a comunidade eclesial, mas destaca que pode haver cooperação: ambas se dedicam à promoção humana. O Concílio coloca as seguintes questões: «Que pensa a Igreja acerca do ser humano? Que recomendações parecem dever fazer-se, em ordem à construção da sociedade atual? Qual é o significado último da atividade humana no universo?» (GS 11). Neste tema resume-se o conteúdo do primeiro capítulo: «A dignidade da pessoa humana».

O ser humano criado à imagem de Deus

Desejando construir um diálogo com o mundo, a Igreja coloca como premissa cristã que a dignidade da pessoa humana deriva da afirmação de que o homem e a mulher foram criados à imagem de Deus (GS 12) e redimidos por Jesus Cristo que a todos liberta das cadeias do pecado (GS 13). Depois, afirma que o ser humano é um ser uno, composto de corpo e alma, pelo que não pode «desprezar a vida corporal; deve, pelo contrário, considerar o seu corpo como bom e digno de respeito [...]. «É, pois, a própria dignidade humana que exige que o ser humano glorifique a Deus no seu corpo, não deixando que este se escravize às más inclinações do próprio coração» (GS 14).

A dignidade do entendimento e da consciência moral

«Participando da luz da inteligência divina», o ser humano passou a dominar o universo através das ciências, das técnicas e das artes, o que lhe permitiu grandes avanços na conquista do mundo material. «Mas buscou sempre, e encontrou, uma verdade mais profunda», que na linguagem cristã é conhecida como vocação: o chamamento que Deus dirige a cada ser humano para que se realize enquanto pessoa no serviço ao próprio Deus, através do serviço aos irmãos (GS 15). E, usando os dons que Deus lhes deu, é chamado a promover e a defender a vida. No fundo da consciência humana, o ser humano descobre e vive uma lei escrita pelo próprio Deus no seu coração, que o chama a viver o amor e a fugir do mal, que é a consciência moral. Assim, a dignidade reside na singular consciência que Deus imprimiu em cada ser humano, que nem mesmo o pecado pode diminuir (GS 16).

A liberdade humana

Uma das afirmações significativas do primeiro capítulo é sobre a liberdade humana: «é um sinal privilegiado da imagem divina no ser humano» que lhe exige que «proceda segundo a própria consciência e por livre adesão» (GS 17). Nesta afirmação, a Igreja coloca-se contra todas as tentativas de controle das consciências.

A morte

«É em face da morte que o enigma da condição humana mais se adensa. [...] Mas a intuição do próprio coração fá-lo acertar, quando o leva a aborrecer e a recusar a ruína total e o desaparecimento definitivo da sua pessoa. O germe de eternidade que nele existe, irredutível à pura matéria, insurge-se contra a morte» (GS 18).

O ateísmo

O Concílio refere-se aos múltiplos rostos do ateísmo presentes no mundo moderno que tentam de todas as formas negar a importância da religião, afirmando que a autonomia humana deve ser plena. Alerta para o facto de que «os crentes podem ter tido parte não pequena na génese do ateísmo» (GS 19). Os que o professam entendem que a liberdade consiste em que o ser humano seja o próprio fim e autor único da sua história. E pensam que isso é incompatível com o reconhecimento de Deus. Por isso, quando alcançam o poder, atacam violentamente a religião, difundindo o ateísmo, sobretudo na educação da juventude (GS 20). Apesar de rejeitar o ateísmo, a Igreja espera que todos, crentes e não crentes, contribuam para a construção do mundo, a partir de um prudente e sincero diálogo, deplorando qualquer tipo de discriminação (GS 21). Vemos, pois, a abertura da Igreja que convoca todos os «homens de boa vontade» para a transformação do mundo com um profundo desejo de diálogo com a sociedade. Para a Igreja, agir e emprestar a voz aos que não têm voz, e chamar todas as pessoas, independentemente da religião, para transformar o mundo, deriva da fé no Espírito Santo que renova todas as coisas e na certeza de que a incarnação, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo «abriu um novo caminho, em que a vida e a morte são santificados e recebem um novo sentido» (GS 22).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

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II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 10.9.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [1]


A partir desta semana vamos apresentar o conteúdo da Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual («Gaudium et Spes» [GS]). É um documento do II Concílio do Vaticano, promulgado pelo papa Paulo VI, no dia sete de dezembro de 1965. Esta Constituição abre com as palavras latinas «Gaudium et Spes» — em português, «as alegrias e as esperanças» — que lhe dão o título, de acordo com a tradição eclesiástica. Trata-se de um longo documento (93 artigos) composto por duas partes, às quais se juntam o proémio, a introdução e a conclusão: «A Igreja e a vocação do ser humano» (primeira parte); «Alguns problemas mais urgentes» (segunda parte).

Constituição Pastoral

A GS é denominada «Constituição Pastoral» porque o seu conteúdo demonstra a clara intenção de apresentar uma nova autocompreensão da vocação da Igreja como serviço («diaconia») ao mundo e à humanidade. E, embora na primeira parte trate de questões doutrinárias, na segunda, vai tratar de vários aspetos da vida atual e da sociedade humana, enfatizando os problemas mais urgentes que atingem a humanidade, ou seja, questões pastorais.

«Aggiornamento»

De fundamental importância para o «aggiornamento» — palavra italiana que se pode traduzir por «atualização» — preconizado pelo papa João XXIII e assumido por Paulo VI, a GS trouxe uma nova visão da Igreja para o mundo e do mundo para a Igreja. Na sua abertura ao diálogo com toda a humanidade, a Igreja («Povo de Deus») faz-se presente na história humana procurando a reformulação das estruturas pecaminosas que são causadoras de injustiça e exclusão social. Esta Constituição Pastoral continua a ser um documento eclesial imprescindível para refletir sobre as transformações que caracterizam a sociedade atual.

Proémio

O II Concílio do Vaticano, colocando-se em completa solidariedade com a humanidade (GS 1), dirige a sua palavra a todos os homens e mulheres com o intuito de expor o seu modo de conceber a presença e a atividade da Igreja no mundo atual (GS 2). Demonstra a sua solidariedade, respeito e amor para com a família humana, estabelecendo com ela um diálogo iluminado à luz do Evangelho, na perspetiva da salvação da pessoa humana e da renovação da sociedade. E, embora seja a humanidade a destinatária destas palavras, a Igreja dirige-se principalmente à sua parcela mais sofredora, a exemplo de Jesus Cristo (GS 3).

Introdução

Na introdução, a GS descreve o seguinte: alguns problemas que afetam a humanidade e a própria condição do homem e da mulher no mundo atual (GS 4); as profundas mudanças ocorridas nos últimos tempos; os avanços da ciência e da técnica (GS 5); as mudanças sociais (GS 6); as mudanças psicológicas, morais e religiosas (GS 7); os desequilíbrios pessoais familiares e sociais do mundo moderno (GS 8). Elabora ainda uma síntese das aspirações mais universais da humanidade, convencida de que o género humano pode e deve dominar mais intensamente as coisas criadas para estabelecer uma ordem política, social e económica que sirva para o bem de toda humanidade. Observa, todavia, o aumento da dependência económica das nações mais pobres em relação às mais ricas, que as mulheres reivindicam a igualdade de direito e de facto com os homens, que os trabalhadores almejam não apenas o necessário para sobreviver, mas desenvolver, pelo trabalho, as próprias qualidades e participar na organização da vida económica, social, política e cultural. Sob todas estas reivindicações lateja uma aspiração mais profunda e universal: as pessoas e os grupos desejam uma vida plena e livre, digna do ser humano, colocando ao seu próprio serviço tudo quanto o mundo moderno lhes pode oferecer com tanta abundância. Além disso, as nações esforçam-se cada vez mais para edificar uma comunidade universal. Diante do mundo moderno que se apresenta simultaneamente poderoso e débil, capaz de realizar o melhor e o pior, ao ser humano abre-se o caminho da liberdade ou escravidão, do progresso ou do regresso, da fraternidade ou do ódio. Em face deste conflito entre a busca de um mundo melhor por uma parte da humanidade e ambição desenfreada de outra parte, os homens e mulheres de boa vontade interrogam-se sobre a sua vocação (GS 9). No final da introdução, a GS confirma a convicção de que, somente à luz da opção evangélica de vida, a humanidade encontrará a chave para a solução dos problemas que a afetam, pois os desequilíbrios que atormentam o mundo moderno estão vinculados ao desequilíbrio mais fundamental radicado no coração do ser humano (GS 10).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.9.15 | Sem comentários

NÃO PODEMOS VIVER SEM O DOMINGO!


«Valorizar o domingo como centro de todo o ano litúrgico» — é o primeiro objetivo apresentado no programa pastoral (2013+14) da Arquidiocese de Braga. Com o intuito de «valorizar» o domingo, acompanhando os tempos litúrgicos, propomos um tema a partir da releitura da Carta Apostólica sobre a santificação do domingo — «O dia do Senhor» («Dies Domini»). Este itinerário tem como tema geral: «Não podemos viver sem o domingo!».

Domingo, DIA DA PALAVRA

Texto de reflexão para o domingo da Apresentação de Jesus 

    39. Na assembleia dominical, como, aliás, em toda a Celebração Eucarística, o encontro com o Ressuscitado dá-se através da participação na dupla mesa da Palavra e do Pão da vida. A primeira continua a dar aquela compreensão da história da salvação e, especialmente, do mistério pascal que o próprio Jesus Cristo ressuscitado proporcionou aos discípulos: é Ele que fala, presente como está na sua palavra, «ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura». Na segunda mesa atualiza-se a presença real, substancial e constante do Senhor Jesus Cristo ressuscitado, através do memorial da sua paixão e ressurreição, e oferece-se aquele pão da vida que é penhor da glória futura. O II Concílio do Vaticano lembrou que «estão tão intimamente ligadas entre si as duas partes de que se compõe, de algum modo, a missa — a liturgia da Palavra e a liturgia eucarística — que formam um só ato de culto». O mesmo Concílio estabeleceu também que «se prepare para os fiéis, com maior abundância, a mesa da Palavra de Deus: abram-se mais largamente os tesouros da Bíblia». Depois, ordenou que, nas missas do domingo e das festas de preceito, a homilia não seja omitida, a não ser por motivo grave. Estas felizes disposições tiveram fiel expressão na reforma litúrgica.



    • Não podemos viver sem o domingo! — textos publicados no Laboratório da fé > > >



    Laboratório da fé celebrada, 2013
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 31.1.14 | Sem comentários

    Ambiente Virtual de Formação


    Sacrosanctum Concilium — Constituição Conciliar sobre a Liturgia


    Este texto sobre a Formação Litúrgica completa o estudo da ficha anterior, referente ao primeiro capítulo da Constituição «Sacrosanctum Concilium» («Sagrado Concílio» [SC]), sobre a Sagrada Liturgia: Princípios gerais em ordem à reforma e incremento da Liturgia. Neste texto, são abordados os pontos II e V, nos quais podemos perceber a nova mentalidade que surgia graças ao II Concílio do Vaticano. Estes textos lembram que além da Missão de Santificar, a Igreja também tem a Missão de Ensinar o Povo de Deus, daí a importância da formação litúrgica dos cristãos e a criação de um estrutura pastoral dedicada à Pastoral Litúrgica nas dioceses e paróquias.
    O ponto II — Educação e participação ativa (parágrafos 14-20) — indica que a participação ativa na celebração é um direito e um dever de todos os fiéis. Todavia, para que isso aconteça, é fundamental que haja formação litúrgica, a começar pelo clero que, por sua vez, deve multiplicar a formação aos agentes de pastoral e ao povo. Esta ação insere-se na grande preocupação do Concílio em renovar a Igreja e fazer com que a sua prática e o seu discurso sejam significativos ao ser humano dos tempos modernos.
    O ponto V — Incremento da ação pastoral litúrgica (parágrafos 43-44) — apresentada as condições para que a Pastoral Litúrgica se possa desenvolver e atingir o seu objetivo: o cuidado espiritual do Povo de Deus, a quem os Ministros Ordenados devem servir. O Concílio determinou que em todos os países fossem criados uma Comissão Litúrgica – com especialistas em Liturgia, Música Sacra e Pastoral – e um Instituto de Liturgia Pastoral; e estas duas estruturas deveriam ser reproduzidas nas dioceses e nas paróquias.
    Atualmente, é impensável que numa comunidade e/ou paróquia não exista uma «equipa» de liturgia, ou que não haja a preocupação com a formação litúrgica dos agentes de pastoral, mas esta é uma realidade do nosso tempo. Na época do Concílio não era assim! A própria noção de «equipa pastoral» só nasceu depois deste importante evento que, bem diferente dos outros,se preocupou muito com a «pastoral». Esta foi a grande mudança em relação aos outros concílios. Nesta nova forma de organizar a ação eclesial, a Pastoral Litúrgica foi uma das primeiras equipas a serem criadas nas dioceses e paróquias. Com isso, pode-se dizer que as mudanças litúrgicas, sugeridas e implantadas ao longo desses cinquenta anos, contribuíram para fortalecer a nova conceção de Igreja como «Povo de Deus». Se hoje existem equipas, nas paróquias e comunidades, é porque o Concílio as incentivou e indicou orientações para isso. Também, foi em função da organização pastoral que a Igreja determinou que os Livros Litúrgicos: Missal, Lecionários, Rituais Sacramentais, fossem traduzidos para as línguas locais. Outra importante orientação do Concílio foi que os bispos considerassem a possibilidade de fazer adaptações das culturas locais na Liturgia.
    As Celebrações Litúrgicas oferecem um profundo ensinamento espiritual numa dimensão formativa que não se dá através das práticas pedagógicas, mas da mistagogia, isto é, o cristão é inserido no mistério de Cristo e, por conseguinte, da Igreja, Povo de Deus, através da participação ativa nas celebrações. É através dos sinais litúrgicos e, especialmente, através dos sinais sensíveis e visíveis da fé, os Sacramentos, que a comunidade e cada singular cristão experimenta o divino na sua vida. Por isso, a participação nas celebrações não deve ser vista como uma obrigação, mas como fonte e ápice da vida cristã. Na Liturgia, os fiéis celebram a fé e são impelidos a viver a prática cristã no quotidiano, dando testemunho por atos e palavras daquilo que dizem crer!

    © Ambiente Virtual de Formação — www.ambientevirtual.org.br —
    © Arquidiocese de Campinas, Brasil
    © Adaptado por Laboratório da fé, 2014



    Questões para reflexão

    • Por que se considera que a Celebração da Liturgia é uma escola de Santidade?
    • As equipas de liturgia que conheces preocupam-se em ajudar o povo a rezar?
    • Quais os pontos que julgas fundamentais na formação dos agentes da Pastoral Litúrgica?

    Partilha connosco a tua reflexão!


    II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2014

    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 16.1.14 | Sem comentários

    Ambiente Virtual de Formação


    Sacrosanctum Concilium — Constituição Conciliar sobre a Liturgia


    A Constituição «Sacrosanctum Concilium» («Sagrado Concílio» [SC]), sobre a Sagrada Liturgia, foi o primeiro documento aprovado pela maioria dos bispos conciliares em 4 de dezembro de 1963.
    Esta Constituição insere-se no espírito de renovação suscitado pelo Espírito Santo e, especialmente, na compreensão da Igreja como Povo de Deus, definida na Constituição Dogmática sobre a Igreja («Lumen Gentium»). O objetivo central da SC é reformar e incrementar a Liturgia para promover a participação e a santificação do povo tendo em vista a edificação do Corpo de Cristo (1-4).
    Desde o início do século XX que uma reforma litúrgica estava a ser gerada na Igreja, especialmente na Bélgica e na França. Ficou conhecida como Movimento Litúrgico. Este Movimento cresceu a partir dos estudos bíblicos e patrísticos que possibilitaram aos teólogos refletirem sobre o caráter cristológico da Liturgia e sobre a necessidade da participação dos fiéis nas celebrações. O papa Pio XII, através da Encíclica «Mediator Dei» (20 de novembro de 1947), confirmou os passos dados pelo Movimento Litúrgico e, nesse mesmo ano, criou uma comissão para a reforma da Liturgia. Em 1951, foram introduzidas uma série de reformas que antecederam o Concílio, sendo que a principal delas, foi a Reforma da Vigília Pascal. O Concílio, então, propagou estas reformas e sugeriu que elas fossem implantadas em todas as dioceses.
    A SC está dividida em sete capítulos: 
    I – Os princípios Gerais da Reforma e do Incremento da Liturgia; 
    II – O Sacrossanto Mistério da Eucaristia; 
    III – Os outros Sacramentos e sacramentais; 
    IV – O Ofício Divino; 
    V – O Ano Litúrgico; 
    VI – A Música Sacra; 
    VII – A Arte Sacra e as Alfaias Litúrgicas. 

    A Sagrada Liturgia

    Este texto sobre «A Sagrada Liturgia» é fruto do estudo sobre os pontos I, III e IV do primeiro capítulo da SC: Princípios gerais em ordem à reforma e incremento da Liturgia.
    O ponto I — Natureza da Sagrada Liturgia e sua importância na vida da Igreja (parágrafos 5-13) — indica que é através da celebração quotidiana dos Sagrados Mistérios da Vida, Morte e Ressurreição do Senhor que a Igreja atualiza a presença salvífica de Jesus Cristo e se revela, apesar das suas falhas, como um canal da Graça Santificadora aos que a procuram, ou seja, o favor de Deus que santifica o ser humano, a Sua presença na vida humana (5-6). Através da Liturgia, é o próprio Cristo que age e comunica os sinais sensíveis de Sua Graça. E é, mediante a proclamação da Palavra de Deus e do diálogo com a assembleia, através da participação na salmodia, nas orações, nos cânticos e por meio dos sacramentos, que os fiéis se unem a Cristo e antecipam a festa, que no céu nunca acaba (7-8). Além disso, através da Liturgia enfatiza-se a noção eclesiológica, ou seja, o vínculo com a Igreja, pois o Povo de Deus reunido em assembleia litúrgica é a própria Igreja, Corpo de Cristo! Eis porque se afirma que a Liturgia é o cume e a fonte de toda a ação pastoral.
    O ponto III — Reforma da Sagrada Liturgia (parágrafos 21-40) — indica a necessidade de promover mudanças nas celebrações litúrgicas em função de uma preocupação pastoral e espiritual, pois deseja-se que os fiéis obtenham maiores benefícios das celebrações em que participam. O documento lembra que em todas as Celebrações Litúrgicas há partes fixas e partes que podem ser mudadas ou adaptadas, a fim de que os fiéis sejam beneficiados e aproveitem melhor o que se celebra. Além disso, algumas orientações foram elencadas para serem seguidas por todas as dioceses, a fim de garantir a unidade e a fidelidade ao Magistério Eclesial. Duas delas são consideradas mais importantes porque contribuíram de forma decisiva para a catequese biblico-litúrgica do povo:
    1) Que a Bíblia tenha um lugar de destaque na Liturgia, e que a pregação (homilia) seja catequética e centrada no mistério de Cristo. Para isso o documento permitiu o uso da língua materna com o objetivo de facilitar a compreensão e participação nas Liturgias Dominical e Ferial, e incentivou à realização da Celebração da Palavra, sobretudo nas comunidades onde há carência de padres (35, 4).
    2) Que o povo seja estimulado a participar ativamente da Liturgia através de sua voz e expressão corporal, bem como a guardar silêncio nos momentos em que seja necessário.
    O ponto IV — Promoção da vida litúrgica na diocese e na paróquia (parágrafos 41-42) — indica que as dioceses devem promover a Pastoral Litúrgica nas paróquias e comunidades para que os Sagrados Mistérios sejam celebrados numa participação perfeita e ativa de todo o Povo santo de Deus, representando a Igreja visível, estabelecida em todo o mundo, especialmente aos domingos, no Dia do Senhor. O documento aprovou também a introdução de alguns elementos culturais nas Liturgias, a fim de torná-las mais expressivas para os diversos grupos que a celebram.
    As reformas propostas pela SC vieram em boa hora, pois contribuíram para resgatar o senso de uma liturgia centrada na fé em Jesus Cristo, o Senhor da História. A centralidade bíblica e a liturgia catequética configuraram-se como o grande desafio à formação dos fiéis. Na perspetiva da Pastoral Litúrgica, houve um grande esforço para que a reforma proposta fosse levada por diante.
    É certo que a Reforma Litúrgica fez um grande bem à Igreja, pois reconduziu à centralidade cristólogica e contribuiu para uma maior participação dos fiéis, inclusive na questão da inculturação. Esta inculturação tornou a Liturgia mais popular, especialmente na música, com a diversidade dos instrumentos e dos cânticos.

    © Ambiente Virtual de Formação — www.ambientevirtual.org.br —
    © Arquidiocese de Campinas, Brasil
    © Adaptado por Laboratório da fé, 2014



    Questões para reflexão

    • O que aprendeste sobre a natureza da Liturgia?
    • Por que a Liturgia é importante na vida da Igreja?
    • Das reformas sugeridas pela SC, na tua opinião, qual foi a mais importante?
    • Existe alguma alteração na vida da Igreja, conhecida através desta ficha, que a tua paróquia ainda não aplicou na totalidade? Se sim, como é que podes colaborar para que isso aconteça?

    Partilha connosco a tua reflexão!


    II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2014


    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.1.14 | Sem comentários

    Sacrosanctum Concilium — Constituição sobre a Liturgia


    No dia 4 de dezembro de 1963, faz agora cinquenta anos, foi aprovado o primeiro documento do II Concílio do Vaticano, a Constituição sobre a Sagrada Liturgia, «Sacrosanctum Concilium».
    A reforma litúrgica teve o seu fundamento e guia neste documento conciliar. É um dos frutos mais claros do Vaticano II: a revisão e atualização da liturgia da Igreja, graças à «Sacrosanctum Concilium». Juntamente com o uso das línguas vernáculas na liturgia latina, o ponto mais importante consistiu na tradução das leituras bíblicas que se fazem na Eucaristia, assim como no resto dos sacramentos e atos litúrgicos.
    Não só significou que o Povo de Deus podia escutar a Palavra de Deus na sua língua materna (que é uma conquista importantíssima e irrenunciável), mas, ao mesmo tempo, que nas eucaristias se fizesse uma leitura semicontínua dos evangelhos e de outros textos bíblicos.
    «Seja mais abundante, variada e bem adaptada a leitura da Sagrada Escritura nas celebrações litúrgicas» (número 35, 1) — exorta o documento conciliar. Isto traduziu-se num maior conhecimento da Bíblia por parte dos fiéis, que podem desfrutar dos textos evangélicos, das cartas apostólicas e de muitos textos do Antigo Testamento, na Liturgia.
    «Prepare-se para os fiéis, com maior abundância, a mesa da Palavra de Deus: abram-se mais largamente os tesouros da Bíblia, de modo que, dentro de um período de tempo estabelecido, sejam lidas ao povo as partes mais importantes da Sagrada Escritura» (número 51). Há uma exortação a que, na reforma litúrgica, se tenha em conta a necessidade de conhecer e meditar, por parte de todos, o grande tesouro da Palavra de Deus, contido na Bíblia, no Antigo e no Novo Testamento.
    Na mesma linha, pede-se aos pregadores que usem os textos sagrados da Escritura para ilustrar a homilia, nos diversos atos litúrgicos, incluída a Eucaristia: «A homilia, que é a exposição dos mistérios da fé e das normas da vida cristã no decurso do ano litúrgico e a partir do texto sagrado, é muito para recomendar, como parte da própria Liturgia» (número 52).
    Assim, a Palavra de Deus há de ser familiar a todo o Povo de Deus: «Ordenem-se as leituras da Sagrada Escritura de modo que se permita mais fácil e amplo acesso aos tesouros da palavra de Deus» (número 92a). A liturgia há de se converter no «trampolim» através do qual os fiéis hão de «mergulhar» plenamente na Palavra de Deus.
    Foi a «Sacrosanctum Concilium» a primeira que declarou a «sacramentalidade» da Palavra de Deus: Cristo «está presente na sua palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura» (número 7). A Palavra de Deus proclamada diante da assembleia crente converte-se na presença do próprio Jesus Cristo. Por esta razão, na celebração eucarística não se pode separar ou dar prioridade a uma das partes principais: «Estão tão intimamente ligadas entre si as duas partes de que se compõe, de algum modo, a missa — a liturgia da Palavra e a liturgia eucarística — que formam um só ato de culto. Por isso, o sagrado Concilio exorta com veemência os pastores de almas a instruirem bem os fiéis, na catequese, sobre o dever de ouvir a missa inteira, especialmente nos domingos e festas de preceito» (número 56).
    O caminho a percorrer ainda é muito longo, para que o povo fiel conheça, se enamore, medite, ore, estude... a Palavra de Deus; o passo dado pelo documento conciliar «Sacrosanctum Concilium», do qual agora celebramos o quinquagésimo aniversário, foi gigante. Nada mais nos resta senão caminhar na mesma direção.

    © Javier Velasco-Arias

    © Biblia y Pastoral 
    © tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
    A publicação ou utilização deste texto precisa da autorização expressa do editor


    Há atualidade na Sacrosanctum Concilium?

    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.12.13 | Sem comentários

    Sacrosanctum Concilium — Constituição sobre a Liturgia


    A 11 de outubro de 1962, há exatamente cinquenta anos, o Papa João XXIII dava início ao Concílio Ecuménico Vaticano II, o 21.° da História da Igreja — o anterior, Vaticano I, tinha ocorrido em 1870, mas sem grande repercussão. Na convocatória do Concílio Vatica­no II, publicada a 25 de dezembro de 1961, o Papa especificou as razões do encontro: «A Igreja assiste a uma crise que aflige a sociedade humana.» João XXIII fazia assim um convite à Igreja para distinguir «os sinais dos tempos» (Mateus 16, 3) e manter-se vigilante e responsável, confiante em Cristo. O Concílio seria a resposta da Igreja ao desejo de colaborar mais eficazmente na solução dos problemas da época. Assim foi verdadeiramente.
    O primeiro documento aprovado pelos bispos conciliares, cerca de dois mil e duzentos, foi a Constituição «Sacrosanctum Concilium» (O Sagrado Concílio) (SC), sobre a Liturgia. A renovação da Liturgia era uma exigência unânime, fruto das transformações trazidas pelo movimento litúrgico iniciado no final do século XX. O movimento resgatou elementos da Escritura, da origem do Cristianismo e da Tradição da Igreja, dando à Liturgia um estatuto teológico e revelando toda a sua riqueza. Os documentos de Pio X, «Tra le sollecitudini» (1903), e de Pio XII, «Mediator Dei» (1947), já apontavam a necessidade de renovação da Liturgia, justificada teológica, histórica e pastoralmente. Durante a apresentação do texto da «Sacrosanctum Concilium» houve 328 intervenções orais e 625 escritas, mas o documento foi aprovado sem controvérsias a 4 de dezembro de 1963: 2147 votos a favor e apenas 4 contra.
    A promulgação deste documento foi um marco na vida da Igreja, fundamental para a promoção e o desenvolvimento da Liturgia. Devolveu-se-lhe a verdadeira importância e cen­tralidade na vida cristã, pois é a mais perfeita expressão do mistério de Cristo e da nossa união com Deus: «A liturgia contribui em sumo grau para que os fiéis exprimam na vida e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a autêntica natureza da verdadeira Igreja, que é simultaneamente humana e divina, visível e dotada de elementos invisíveis, empenhada na ação e dada à contemplação» (SC 2).
    A «Sacrosanctum Concilium» é dividida em sete capítulos. Logo no primeiro encontramos a sua fundamentação teológi­ca, a parte mais importante e profunda do documento. A Liturgia é apresentada no horizonte da História da Salvação, cujo fim é a redenção humana e a perfeita glorificação de Deus. Ela é sacrifício, memorial do mistério pascal, renovação da alian­ça. Ela é «simultaneamente a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força» (SC 10). Sobre a presença de Cristo, o número 7 esclarece-nos: «Para realizar tão grande obra, Cristo está sempre presente na Sua Igreja, especialmente nas ações litúrgicas. Está presente no sacrifício da Missa, quer na pessoa do ministro, quer e sobretudo sob as espécies eucarísticas. Está presente com o seu dinamismo nos sacramentos, de modo que, quando alguém batiza, é o próprio Cristo que batiza. Está presente na sua palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura. Está presente, enfim, quando a Igreja reza e canta (Mateus 18, 20)» (SC 7).
    O capítulo II retoma este tema, mas trata especificamente do mistério eucarístico como memorial da morte e ressurreição de Cristo. Uma das maiores preocupações do Concílio, em sintoma com o movimento litúrgico, foi rever os ritos, tornando-os mais simples e significativos. O ritual da Missa foi simplificado e a liturgia da palavra ampliada. A homilia passou a ser muito valorizada, pois é «a exposição dos mistérios da fé e das normas da vida cristã» (SC 52). As renovações apontadas para os outros sacramentos são enfatizadas no capítulo III e referem-se principalmente à revisão dos rituais, realizada com primor nos anos seguintes.
    O capítulo IV ocupa-se do Ofício Divino, cuja recitação é incentivada e a maior mudança é o uso da língua vernácula. O uso da língua própria de cada país foi uma das principais transformações trazidas pelo Concílio e aplicada a toda a Liturgia. Este tema é tratado nos números 36 e 54 do documento, ainda no primeiro capítulo. Ali também se diz que a celebração comunitária é preferida à individual (SC 27), incentivando-se a presença e participação ativa dos fiéis.
    A participação sempre maior e mais ativa dos fiéis na liturgia foi o pano de fundo que incentivou as principais renovações do Concílio. Hoje, analisando o número sempre decrescente de fiéis que vão à igreja regularmente, a preocupação volta à tona. Segundo o último recenseamento realizado pela Igreja de Portugal, apenas 18,7% da população é praticante, apesar de 84,5% se declarar católica. Isso representa uma queda na participação dos fiéis em torno de 1,5% ao ano desde a pesquisa anterior, ou seja, cerca de 31 mil fiéis por ano deixam de ir à Missa.
    Esta situação deve fazer a Igreja, que no fundo somos todos nós cristãos, repensar a sua constituição e renovar-se, resgatando e atualizando as indicações do Concílio. Ao longo destes cinquenta anos muitas coisas foram feitas, mas a necessidade de renovação é sempre atual. Uma vez aprovada, a «Sacrosanctum Concilium» influenciou decisivamente toda a Igreja, no modo de pensar, de ensinar, de olhar para as suas instituições e para o mundo. Imprimiu-lhe uma nova dinâmica que continua viva e a convocar a Igreja a estar atenta à linguagem do seu tempo e lugar. Mantém-se sempre atual a necessidade de formar o clero e o povo, conforme indicam os números 14 a 20. Para isto foram criados os diversos centros de liturgia, as comissões regionais, nacionais e internacionais, os cursos de liturgia, as semanas de formação e diversas outras iniciativas.
    Temos ainda os capítulos V, VI e VII, que tratam respetivamente do Ano Litúrgico (caminho através do qual a Igreja recorda e revive o mistério pascal de Cristo), a Música e a Arte Sacra, que devem contribuir para a beleza e dignidade do culto.
    O Concílio mostrou-nos que a liturgia é o momento privilegiado de encontro com Deus, ensinou a valorizar e redescobrir o valor da Palavra e da Eucaristia e a importância da oração e do silêncio, da reflexão bíblica, da força que vem da Eucaristia.



    Para refletir
    • Qual é o espaço que a Liturgia ocupa hoje na Igreja e na minha vida pessoal? Ela é vivida como fonte e cume da vida eclesial?
    • Como é a formação litúrgica na minha comunidade? Há necessidade de uma formação mais direcionada?
    • A decoração, a arte, as alfaias e o coro na minha paróquia favorecem o encontro com Deus? Revelam a beleza e dignidade de Deus?
    • Os leitores, cantores e acólitos da minha paróquia têm consciência do ministério que exercem?
    Partilha connosco a tua reflexão!



    Para aprofundar
    • Documentos do Concílio Vaticano II.
    • Bento XVI, Exortação Apostólica «Sacramentum Caritatis», 2007. 
    • Guido Marini, «Liturgia: Mysterium salutis», Paulus Editora, 2011. 
    • João Paulo II, Carta Apostólica «Spirítus et sponsa», 2003. 
    • João Paulo II, Carta Encíclia «Ecclesia de Eucharistia», 2003. 
    • David Cranmer, «Cantate Domino», Paulus Editora, 2007.



    Para agir
    • Converse com as pessoas da sua comunidade e com o seu pároco e organizem uma jornada de Liturgia. Escolham o tema e conferencista, organizem o trabalho de grupo e finalizem com uma celebração preparada com esmero.



    © Darlei Zanon, ssp 
    — «Para ler o Concílio Vaticano II», páginas 9 a 13 —
    © Paulus Editora, 2012
    © Laboratório da fé, 2013
    A publicação ou utilização deste texto precisa da autorização expressa do editor


    Há atualidade na Sacrosanctum Concilium?


    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.12.13 | Sem comentários
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