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Encuentros con la Palabra — blogue de Hermann Rodríguez Osorio

Um velho sábio de uma tribo estava a falar com os seus netos sobre a vida. As crianças queriam saber muitas coisas: como ser boas pessoas; porque é que há pessoas más; porque é que tinham intenções menos boas; etc. Ele disse-lhes: «Uma grande luta está a acontecer dentro de mim; é entre dois lobos. Um dos lobos é maldade, temor, ira, inveja, dor, rancor, avareza, arrogância, culpa, ressentimento, inferioridade, mentira, orgulho, rivalidade, superioridade, egoísmo. O outro é bondade, alegria, paz, amor, esperança, serenidade, humildade, doçura, generosidade, benevolência, amizade, empatia, verdade, compaixão, fé. Esta luta também está a acontecer dentro de vós, dentro da grande maioria dos seres da terra». Pensaram nisso durante um minuto e um dos netos perguntou ao avô: «Qual dos lobos ganhará?». E o velho respondeu: «simplesmente... aquele que alimentares».
Esta história revela a luta que existe no nosso interior e no mundo inteiro. Há duas forças que se confrontam entre si, que disputam as nossas decisões. Uma delas tem origem em Deus e a outra no pecado. Jesus diz-nos que não vem trazer a paz à terra entre estas duas forças; ele vem trazer o fogo. «A partir de agora, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois e dois contra três. Estarão divididos o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra».
Jesus não está a falar de castigos ou maldições contra a humanidade. Está a falar desta luta que nos atravessa interiormente e que atravessa todas as nossas relações. Jesus não quer uma paz mal entendida entre estas forças que disputam as nossas decisões e que também ele as sentia. Uma paz a qualquer preço é um erro descomunal. Seja entre grupos sociais, entre as nossas próprias tendências interiores ou na relação de um casal. A paz a qualquer preço faz com que, muitas vezes, sejamos cúmplices do mal no mundo. Não podemos ser neutrais perante um conflito. Seguir Jesus supõe tomar partido pela justiça, o amor, a comunhão...
Por isso, a pergunta dos netos ao velho sábio também a podemos fazer nós hoje ao Senhor: «Qual dos dois lobos ganhará?». E a sábia resposta do avô será a que receberemos também nós: «Ganhará o lobo que alimentares no teu interior». Qual é o lobo que ti estás a alimentar?

© Hermann Rodríguez Osorio, SJ

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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Preparar o vigésimo domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 16.8.13 | Sem comentários
Encuentros con la Palabra — blogue de Hermann Rodríguez Osorio

Ao explicar o que é a iluminação, Anthony de Mello diz o seguinte: «É como um vagabundo de Londres que se preparava para passar a noite. Com bastante dificuldade, tinha conseguido um pedaço de pão para comer. Depois, chegou a um paredão, junto ao rio Tamisa. Choviscava; e ele enrolou-se no seu velho abrigo. Estava a adormecer quando, de repetente, se aproximou um Rolls-Royce. Uma bela jovem desceu do automóvel e disse-lhe: — Meu pobre homem, vai passar a noite neste paredão? — Sim, respondeu o vagabundo. — Não o permitirei, disse-lhe a jovem. Venha comigo para minha casa e passará comodamente a noite depois de tomar uma boa refeição. A jovem convidou-o a entrar no automóvel. Logo, abandonaram a cidade de Londres e chegaram a um lugar onde havia uma grande mansão com amplos jardins. Foram recebidos pelo mordomo, a quem a jovem disse: 'Jaime, certifique-se de que este homem seja levado para a residência dos criados e que seja bem tratado'. E Jaime fez como ela lhe disse. A jovem preparava-se para dormir quando, ao deitar-se na cama, se recordou do hóspede. Preparou-se e foi até aos quartos dos criados. Viu um feixe de luz no quarto em que estava o vagabundo. Ao bater suavemente à porta, ela abriu-se, encontrando o homem ainda desperto. Disse-lhe: — Que se passa, bom homem, não lhe deram uma boa refeição? — Nunca tinha comido tão bem em toda a minha vida, senhora, respondeu o vagabundo. — Sente-se bem, quente? — Sim, a cama é bela e confortável. — Talvez precise de companhia, disse-lhe ela. Afaste-se um pouco. Aproximou-se. Ele moveu-se para um dos lados e caiu diretamente no Tamisa...
Isto é a iluminação. Estar despertos. Vivemos muitas vezes envolvidos pelos nossos sonhos e esquecemos a bela e crua realidade. Queríamos que as coisas fossem diferentes, que os problemas não existissem, que os conflitos fossem resolvidos de uma vez por todas. Mas este tipo de vida faz com que não sejamos capazes de reconhecer a passagem de Deus pelas nossas vidas. Por isso, é preciso estar despertos. Isto é o que queria dizer o Senhor quando disse aos discípulos: «Sede como homens que esperam o seu senhor ao voltar do casamento, para lhe abrirem logo a porta, quando chegar e bater. Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar, encontrar vigilantes. Em verdade vos digo: cingir-se-á e mandará que se sentem à mesa e, passando diante deles, os servirá. Se vier à meia-noite ou de madrugada, felizes serão se assim os encontrar».
Não sabemos o dia nem a hora. Com frequência, o Senhor nos surpreende. «Se o dono da casa soubesse a que hora viria o ladrão, não o deixaria arrombar a sua casa. Estai vós também preparados, porque na hora em que não pensais virá o Filho do homem». O Senhor convida-nos a estar preparados para saber descobrir os sinais da sua presença, que todos os dias nos entram pelos olhos dentro. No entanto, continuamos a perguntar: onde está o Senhor? Como o podemos encontra-lo? Como podemos sentir a sua presença? Estamos a sonhar e não vemos o evidente. Peçamos ao Senhor que nos dê a graça de permanecer despertos, que não vivamos anestesiados e adormecidos perante a vida. Não nos vá acontecer o que se passou com o mendigo: comodamente nos nossos sonhos, caiamos diretamente ao Tamisa...

© Hermann Rodríguez Osorio, SJ

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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Preparar o décimo nono domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.8.13 | Sem comentários
Encuentros con la Palabra — blogue de Hermann Rodríguez Osorio

Enquanto viajava pelas montanhas, uma mulher sábia encontrou um formoso diamante, num riacho. No dia seguinte, cruzou-se no caminho com outro viajante; ao saber que estava esfomeado, ofereceu-lhe parte da comida que trazia consigo. Ao abrir a bolsa para tirar os alimentos, o homem viu a pedra preciosa no fundo do saco e ficou maravilhado. O viajante pediu o diamante à mulher; esta, sem hesitar, tirou-o da bolsa e deu-lho. O homem foi-se embora maravilhado com a sua incrível sorte, pois sabia que o valor da pedra era suficientemente alto para conseguir viver bem durante o resto da vida. Mas, dias mais tarde, depois de ter procurado a mulher, encontrou-a, devolveu-lhe a joia, e disse-lhe: — Estive a pensar... tenho consciência do valor desta pedra e vou devolve-la, mas espero que em contrapartida me dê algo ainda mais valioso. Depois de um silêncio continuou: — Dê-me essa qualidade que lhe permitiu oferecer-me este tesouro com generosidade e desprendimento
O texto do evangelho para o décimo oitavo domingo apresenta um homem que pede algo inesperado: «'Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo'. Jesus respondeu-lhe: 'Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?'». Esta situação proporciona um ensinamento de Jesus que convém recordar: «Guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens». É também uma ocasião para o Senhor contar uma parábola muito bela: «O campo dum homem rico tinha produzido excelente colheita. Ele pensou consigo: ‘Que hei-de fazer, pois não tenho onde guardar a minha colheita? Vou fazer assim: Deitarei abaixo os meus celeiros para construir outros maiores, onde guardarei todo o meu trigo e os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: Minha alma, tens muitos bens em depósito para longos anos. Descansa, come, bebe, regala-te’. Mas Deus respondeu-lhe: ‘Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma. O que preparaste, para quem será?’. Assim acontece a quem acumula para si, em vez de se tornar rico aos olhos de Deus».
É impressionante a insistência de Jesus e dos evangelhos neste tema da liberdade que devemos ter perante os bens materiais. Não se trata de um convite a não ter, mas a ter de tal maneira que não ponhamos aí o «valor» das nossas vidas. A vida não depende de possuir muitas coisas, mas da nossa capacidade em partilhá-las com os outros, generosamente. Não é rico o que tem muito, mas o que precisa de menos para viver satisfeito. Ignacio Ellacuría, um dos jesuítas assassinados em El Salvador há alguns anos, dizia que a única salvação para o nosso mundo era criar a civilização da austeridade partilhada. Viver com mais simplicidade, sonhar menos com o que nos falta e agradecer mais o que temos. Um mundo e um país em que alguns esbanjam e desbaratam, enquanto a grande maioria não tem o mínimo para sobreviver como seres humanos, não é sustentável a longo prazo.
A parábola que o Senhor nos conta é um convite a não viver dependentes da acumulação de riquezas sem fim, pensando que esse é o caminho da vida. Por esse caminho só se chega à morte. Por isso, peçamos ao Senhor que não nos ofereça diamantes formosos e belos, mas a capacidade de dar com generosidade e desprendimento.

© Hermann Rodríguez Osorio, SJ

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Preparar o décimo oitavo domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.8.13 | Sem comentários
Encuentros con la Palabra — blogue de Hermann Rodríguez Osorio

Um conhecido mestre de oração do nosso tempo, Anthony de Mello, refere-se à oração de petição com estas palavras: «A oração de petição é a única forma de oração que Jesus ensinou aos seus discípulos; de facto, é praticamente a única forma de oração que se ensina, explicitamente, ao longo de toda a Bíblia. Sei que isto parece um pouco estranho àqueles que fomos formados na ideia de que a oração pode ser de muitos tipos diferentes e que a forma de oração mais elevada é a oração de adoração, enquanto a oração de petição, por ser uma forma 'egoísta' de oração, ocuparia o último lugar. De certa maneira, todos sentimos que mais tarde ou mais cedo temos de 'superar' esta forma inferior de oração para ascender à contemplação, ao amor e à adoração, não é? Contudo, se refletirmos, veremos que não qualquer forma de oração, incluindo a de adoração e amor, que não esteja contida na oração de petição corretamente praticada. A petição faz-nos perceber a nossa absoluta dependência de Deus, ensina-nos a confiar n'Ele absolutamente» (De Mello, Contacto com Deus).
O Senhor disse-nos que não devemos insistir nos nossos pedidos, porque o Pai sabe o que precisamos antes de lho pedirmos (cf. Mateus 6, 8). Contudo, não deixa de insistir que devemos pedir, como se pode comprovar no texto apresentado na Liturgia da Palavra do décimo sétimo domingo. O mais típico da oração de Jesus, pelo que registam os evangelistas, parece ser a oração de petição. Jesus não só pede na sua oração, como nos ensina a pedir. O que chamamos de Oração do Senhor ou Pai nosso é uma cadeia de sete petições que se vão desprendendo do «Pai nosso». A petição faz-nos tomar consciência da nossa radical dependência de Deus; recorda-nos o nosso limite e a generosa misericórdia de Deus revelada em Jesus. Isto aparece ainda mais claro quando a petição mais repetida por Jesus, nos textos evangélicos, é «não se faça a minha vontade, mas a tua» ou «faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu».
Por isso, a pergunta que temos de fazer não é se podemos pedir, mas o que é que pedimos na nossa oração, pois é aqui que está o problema. Muitas vezes, não pedimos que se faça a sua vontade, ou que nos conceda o que mais nos convém numa determinada situação, mas pedimos aquilo que pensamos que mais necessitamos. Quando o Senhor diz que para pedirmos com insistência, recorda-nos que o que temos de pedir é o Espírito Santo: «Se um de vós for pai e um filho lhe pedir peixe, em vez de peixe dar-lhe-á uma serpente? E se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião? Se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem!».
Então, recordemos sempre o que nos diz o Senhor: «Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis; batei à porta e abrir-se-vos-á. Porque quem pede recebe; quem procura encontra e a quem bate à porta, abrir-se-á». A oração de petição põe-nos em contacto com os nossos limites e faz que nos relacionemos com o Senhor a partir da nossa pequenez. Não deixemos de pedir, nem pensemos que a oração de petição é de inferior qualidade em relação a outras formas de encontro com Deus. Mas não esqueçamos de pedir o Espírito Santo, para que nos ajude a entender os planos de Deus a pô-los em prática.

© Hermann Rodríguez Osorio, SJ

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Preparar o décimo sétimo domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.7.13 | Sem comentários
Encuentros con la Palabra — blogue de Hermann Rodríguez Osorio

Se me estou a lembrar bem, há alguns meses, circulou pela internet uma história de um mestre que entrou numa sala de aulas com um vasilha de cristal muito grande e encheu-a de pedras diante dos alunos. Depois de a encher, perguntou as estudantes: Acham que esta vasilha está cheia? Sim, responderam todos ao mesmo tempo. Então, o mestre tirou da mala uma saca com alguns pedras mais pequenas e deixou-as cair dentro da vasilha, nos espaços que existiam entre as pedras maiores. O mestre voltou a perguntar: Agora sim, acham que esta vasilha está cheia? Houve um momento de dúvida e hesitação nas respostas. O mestre pegou numa saca com areia e largou-a lentamente sobre a vasilha. Pouco a pouco, a areia foi enchendo os espaços deixados entre as pedras grandes e as pequenas. Por fim, o mestre perguntou: Será que desta vez a vasilha está cheia? Alguém se atreveu a dizer que não. De modo que o mestre tirou uma garrafa de água e regou todo o conteúdo até praticamente encher a vasilha. Não recordo se mesmo assim a vasilha ficou cheia, porque ocorre-me que se poderia junto alguma coisa para pintar a água ou deitar sal que acaba por se dissolver na água.
No final da história, o mestre pergunta aos estudantes: quais são as pedras maiores das vossas vidas? Se não as colocarmos no início, depois não haverá espaço para elas. É fundamental definir prioridades e saber o que é que não se pode deixar fora dos nossos horários, calendários, agendas e programações. Quando nos ocupamos do «urgente», é muito provável deixarmos o mais «importante» fora das nossas vidas. Algo parecido acontece com Marta, no evangelho do décimo sexto domingo.
«Naquele tempo, Jesus entrou em certa povoação e uma mulher chamada Marta recebeu-O em sua casa. Ela tinha uma irmã chamada Maria, que, sentada aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra. Entretanto, Marta atarefava-se com muito serviço. Interveio então e disse: 'Senhor, não Te importas que minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe que venha ajudar-me'. O Senhor respondeu-lhe: 'Marta, Marta, andas inquieta e preocupada com muitas coisas, quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada'».
Isto não quer dizer que Jesus estava a patrocinar a preguiça de Maria. Nem muito menos a desprezar o esforço de Marta no cumprimento das atividades domésticas. Mas Jesus quer assinalar as prioridades e distinguir entre o «importante» e o «urgente». O que Maria estava a fazer era a ouvir as palavras de Jesus. Muitas vezes, o nosso ativismo não nos dá tempo para nos sentarmos a escutar o mestre, num pequeno momento de oração, ou então para escutar os outros. Quanto tempo dedicamos a escutar os que vivem connosco? Muitas vezes, temos coisas para dizer, mas não as dizemos porque não vemos nos outros a disposição para se sentarem, tranquilamente; nem queremos «perder» um bocado de tempo a escutar os outros ou a escutar Deus
Zenão de Elias, vários séculos antes de Cristo, dizia: «Deram-nos duas orelhas e uma única boca, para escutarmos mais e falarmos menos». Recordar esta experiência de Jesus com Marta e Maria deve interrogar-nos sobre as nossas prioridades; e a rever se temos colocado no seu devido lugar as pedras mais «importantes», antes das «urgentes»...

© Hermann Rodríguez Osorio, SJ

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Décimo sexto domingo, Ano C
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.7.13 | Sem comentários
Encuentros con la Palabra — blogue de Hermann Rodríguez Osorio

Há vários anos, num assembleia familiar, no bairro «El Consuelo», lemos a parábola do bom samaritano que nos é apresentada no evangelho do décimo quinto domingo (Ano C). Depois de escutar o texto bíblico, perguntei aos presentes o que é que tinham entendido. Uma senhora bastante idosa tomou a palavra e recapitulou o conteúdo da parábola dizendo: «Acontece que um homem ia por um caminho e foi assaltado por uns ladrões, que o deixaram meio morto. Pouco tempo depois, passou por ali um sacerdote que, ao vê-lo ferido, passou ao lado e continuou o caminho. Em seguida, passou um jesuíta, que fez o mesmo. Entretanto, passou um samaritano, que teve compaixão do ferido, curou-o e ajudou-o». Todos os presentes ficaram impressionados com o excelente resumo feito pela senhora. A única coisa que tive de corrigir foi que o segundo personagem que passou ao lado para evitar o ferido não tinha sido um jesuíta, mas um levita. Uma pequena diferença, mas significativa, tendo em conta que eu estava ali presente.
Quando lemos esta parábola, temos a tentação de pensar nos «maus» que passaram ao lado para não ajudar aquele homem. O comportamento parece-nos exagerado. Ficamos escandalizados interiormente pela falta de sensibilidade e solidariedade. Através daquela senhora, o Espírito Santo provocou em mim a pergunta pelo meu próximo de uma forma crua e direta. A pergunta ficou-me cravada entre o coração e a barriga. O mesmo sentiram todos os presentes nessa noite. Deus estava a convidar-nos a reviver a cena, não desde fora, mas tornando-nos personagens, implicando-nos vitalmente na parábola. Tivemos de reconhecer que mais do que uma vez passamos ao lado dos feridos que Deus tinha posto no nosso caminho. Um pequeno lapso que nos questionou profundamente.
Além disto, há outro elemento que, no meu entender, se perde de vista com certa facilidade ao ler esta parábola. Normalmente, pensamos que o bom samaritano salvou o ferido. Contudo, é apenas parte da verdade. A verdade completa é que o ferido também salvou o samaritano, pois foi ele quem tornou possível que o samaritano, desprezado pelos judeus, tivesse deixado brotar do seu interior o melhor de si mesmo, fazendo-se próximo do seu irmão maltratado e despojado pelos bandidos. Podemos dizer que o sacerdote e o levita não se deixaram salvar pelo ferido. Desperdiçaram uma oportunidade maravilhosa dada por Deus para serem melhores seres humanos, à medida de Deus.
Não esqueçamos que esta história foi contada por Jesus a um manhoso doutor da lei, que veio pô-lo à prova, para perceber se sabia o que se tinha de fazer para alcançar a vida eterna. O doutor da lei sabia bem o que tinha de fazer: «Ama o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento; e ama o próximo como a ti mesmo». Mas, para enredar o Senhor, perguntou: «E quem é o meu próximo?». Assim veio a história. Peçamos por nós, para não nos deixarmos enredar com elucubrações sobre quem é o nosso próximo; e reconheçamos que muitas vezes temos passado ao lado para não nos depararmos com os próximos feridos que não só podíamos salvar, como também se podiam converter na nossa maior fonte de salvação.

© Hermann Rodríguez Osorio, SJ

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Décimo quinto domingo, Ano C
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.7.13 | Sem comentários
Encuentros con la Palabra — blogue de Hermann Rodríguez Osorio

Certo dia, um turista que foi visitar um sábio que vivia numa cabana, no meio de uma montanha. Ao entrar, deu conta que o velho tinha apenas um colchão no chão e alguns livros amontoados desordenadamente. O visitante, estranhando, perguntou: «Desculpe, mas onde estão os seus móveis?». O ancião olhou com calma para o visitante e respondeu: «Onde estão os seus?». «Mas eu estou aqui apenas de passagem», replicou o turista. O sábio sorriu ligeiramente e continuou: «Eu também estou de passagem nesta vida; e mal seria de mim se tivesse que carregar toda a vida os armários do meu passado».
Quando Jesus enviou os setenta e dois discípulos à sua frente a todos os lugares aonde havia de ir, deu-lhes estas instruções: «A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao dono da seara que mande trabalhadores para a sua seara. Ide: Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos. Não leveis bolsa nem alforge nem sandálias, [...] comei e bebei do que tiverem, que o trabalhador merece o seu salário». Jesus queria que os seus discípulos fossem sem muitos seguranças, para aprenderem a colocar a confiança apenas nele e não nos meios que tinham para realizar a missão.
Parece que há uma relação proporcional entre a quantidade de meios que temos para realizar a nossa missão e a confiança que depositamos em Deus. Quanto mais meios, menos confiança em Deus. Quanto menos meios, mais confiança. Os meios não são maus. Por certo que são necessários para realizar muitas coisas que consideramos necessárias e boas para nós e para os que nos rodeiam. Mas não podemos esquecer o perigo de andar tão preocupados com o dinheiro, a comida, as sandálias. A missão é do Senhor. Ele é o Dono da colheita. Por isso, não só temos de lhe pedir que mande trabalhadores para recolher a colheita, mas também que mande os meios necessários para construir o reino neste mundo.
Isto não quer dizer que não temos de trabalhar, muito menos que não temos de pedir a Deus pelo que nos pre-ocupa e ocupa. «A Deus rogando, e com o maço dando», afirma o provérbio popular. Neste sentido, temos de viver aquilo que Santo Inácio de Loyola tinha sempre presente em todas as tarefas, segundo nos conta o Padre Pedro de Ribadeneira, um dos seus biógrafos: «Nas coisas que realizava de serviço a Nosso Senhor, usava todos os meios humanos para as executar com cuidado e eficácia, como se delas dependesse o êxito; e de tal maneira confiava em Deus e estava dependente da Divina Providência, como se não fizessem faltam todos os meios humanos de que dispunha». Como quem diz: «Há que fazer as coisas como se tudo dependesse de nós e nada de Deus. Mas há que confiar em Deus como se tudo dependesse dele e nada de nós».
A mensagem central que os setenta e dois tinham para anunciar era a iminência do reino: «Está perto de vós o reino de Deus». Hoje, temos que anunciar o mesmo aos nossos contemporâneos. Por isso, como o sábio, deveríamos estar livres de bagagem, sem carregar a nossa vida com todos os armários do nosso passado.

© Hermann Rodríguez Osorio, SJ

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Décimo quarto domingo, Ano C
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.7.13 | Sem comentários
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