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PREPARAR O DOMINGO SEGUNDO


Uma antiga história fala de uma vendedora de maçãs. A boa mulher dirigia-se todas as manhãs ao mercado para vender a sua mercadoria. Apesar de lá estar muitas horas, era pouco o que vendia. O passar do tempo e o pouco êxito das suas vendas provocaram nele um forte desânimo. Uma manhã aproximou-se dela um jovem. Ao vê-la triste e desanimada, perguntou-lhe o que se passava. «Não vês — respondeu a mulher —, todas as manhãs venho a este mercado para vender as minhas maçãs, mas quando cai a tarde apenas vendo uma pequena parte das maçãs. As minhas maçãs não devem ser boas».
De repente, e sem que lhe pedisse, o jovem começou a gritar: «Comprem, comprem as melhores maçãs do pomar. Recém-colhidas para irem direitas para a sua mesa... comprem». Ao som dos gritos foram-se juntando muitas pessoas ao redor da vendedora e muitas foram as que pediram ansiosamente alguns quilos das maçãs. Ao fim de poucas horas a mulher tinha vendido tudo. «Como foi que fizeste? — perguntou a mulher. Durante muitas semanas vim a este mercado e nunca consegui vender a mercadoria. E tu, num par de horas, conseguiste vender mais do que eu vendi em todo este tempo». «Foi fácil — respondeu o jovem. As tuas maçãs eram muito boas, mas nem tu nem eles sabiam. Alguém tinhas de o dizer». 
Quando João Batista viu Jesus que se aproximava, disse: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. É d’Ele que eu dizia: ‘Depois de mim vem um homem, que passou à minha frente, porque era antes de mim’. Eu não O conhecia, mas foi para Ele Se manifestar a Israel que eu vim baptizar na água». João deu mais este testemunho: «Eu vi o Espírito Santo descer do Céu como uma pomba e permanecer sobre Ele. Eu não O conhecia, mas quem me enviou a batizar na água é que me disse: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e permanecer é que baptiza no Espírito Santo’. Ora, eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus».
Quando experimentamos a salvação que nos é oferecida pelo encontro com Jesus, sentimos a imperiosa necessidade de o anunciar aos outros. Temos a obrigação de contar a outros o que experimentamos na nossa própria vida. Evidentemente, temos de o fazer com o testemunho da nossa vida e também com as nossas palavras. Ficarmos calados e não partilharmos esta riqueza com as pessoas que nos rodeiam é uma contradição. Muitas pessoas esperam de nós um anúncio explícito, além de uma presença testemunhal. Como as maçãs, a notícia que temos é boa, mas alguém tem de o dizer. Em frente! Há muitas pessoas à espera!

© Hermann Rodríguez Osorio, SJ
© Encuentros com la Palabra — blogue de Hermann Rodríguez Osorio
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
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Preparar o domingo segundo (Ano A), no Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.1.14 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO TRIGÉSIMO QUARTO


O ciclo litúrgico termina com a festa de Jesus Cristo, Rei do Universo. Este (Ano C) apresenta-nos um rei crucificado, do qual troçavam as autoridades, dizendo: «'Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito'. Também os soldados troçavam d’Ele; aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam: 'Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo'. Por cima d’Ele havia um letreiro: 'Este é o Rei dos judeus'. Entretanto, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-O, dizendo: 'Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também'. Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: 'Não temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo das nossas más acções. Mas Ele nada praticou de condenável'. E acrescentou: 'Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza'. Jesus respondeu-lhe: 'Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso'».
Trata-se de um Rei que contrasta com a imagem que temos de uma pessoa que é detentora desse título. É um Rei que não utiliza o seu poder para se salvar a si mesmo, mas para salvar toda a humanidade, incluindo tu e eu. Diante deste Rei, humilde e aparentemente vencido, o Beato João XXIII, no seu «Diário da alma», escreveu ainda jovem, um oferecimento que convido a repetir, agora, com a mesma confiança com que ele o fez há tantos anos:
«Salve, Cristo Rei. Tu me convidas a lutar nas tuas batalhas, e a não perder nenhum minuto de tempo; com o entusiasmo que me dão os meus vinte anos e a tua graça, inscrevo-me, animado, nas fileiras dos teus voluntários. Consagro-me ao teu serviço, para a vida e para a morte. Tu ofereces-me, como emblema e como arma de guerra, a tua cruz. Com a direita estendida sobre essa arma invencível, dou-te solenemente a minha palavra e juro-te com todo o ímpeto do meu coração juvenil, fidelidade absoluta até à morte. Assim, tendo-me tu criado teu servo, adoto a tua divisa, faço-me soldado, cinjo a tua espada, chamo-me, com orgulho, cavaleiro de Cristo. Dá-me um coração de soldado, ânimo de cavaleiro, ó Jesus, e estarei sempre contigo nas durezas da vida, nos sacrifícios, nas provações, nas lutas, contigo alcançarei a vitória. E como, para mim, ainda não soou o sinal da luta, enquanto estou nas tendas à espera da minha hora, exercita-me com os teu exemplos luminosos para que adquira destreza, para prestar as primeiras provas face aos meus inimigos internos. São tantos, ó Jesus, e tão implacáveis! Há um, especialmente, que vale por todos: feroz, astuto, tenho-o sempre em cima de mim, finge querer a paz e ri-se de mim, chega a pactuar comigo, persegue-me até nas minhas boas ações. Senhor Jesus, bem sabes que é o amor próprio, o espírito de soberba, de presunção, de vaidade; que me possa ver livre dele de uma vez por todas, ou, se tal for impossível, que ao menos o domine, de maneira que, mais livre de movimentos, eu possa juntar-me aos valentes que, na brecha, defendem a tua santa causa, e cantar contigo o hino da salvação».
Com a mesma generosidade que reflete este escrito de João XXIII, poderíamos dizer ao Senhor crucificado que se lembre de nós quando começar a reinar.

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Preparar o domingo trigésimo quarto, Ano C, no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.11.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO TRIGÉSIMO TERCEIRO


No último «Encontros com a Palavra», comentamos como a vida é o lugar privilegiado no qual se revela o rosto de Deus. O Senhor não é Deus de mortos, mas de vivos... e é na vida que nos comunica o seu projeto. Portanto, os cristãos não temos que consultar, como os gregos, o oráculo dos deuses, ou, como os assírios, as estrelas (astrologia), ou ler a mão, etc. Para saber o que Deus quer da nossa vida pessoal, comunitária ou social, só temos que abrir os olhos e ver... Não negar a realidade, não atraiçoá-la ou mentir sobre ela. Não ser como a avestruz que pensa que por deixar de ver a realidade, metendo a cabeça na areia, fará desaparecer o caçador. Não se trata, pois, de difíceis hieróglifos ou adivinhações; é simples; mas, às vezes, as coisas são tão simples, que não as vemos; são tão simples e tão quotidianas, que não lhes prestamos atenção; por isso, é fundamental ter olhos limpos para olhar a realidade sem medo. Por alguma razão Jesus, num momento de inspiração e «cheio do Espírito Santo, disse: 'Louvo-te Pai, Senhor do céu e da terra, porque mostraste aos simples as coisas que escondes aos sábios e entendidos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado» (Lucas 10, 21).
Esta foi a atitude fundamental de Jesus. Ter os olhos abertos diante da realidade, perante as coisas simples de cada dia, nas quais descobria os planos do seu Pai, Deus. Jesus aprendeu o que aprendeu sobre o Reino de Deus, olhando a sua vida e a vida do seu povo. A partir unicamente do Evangelho de São Mateus podemos chegar a uma lista como esta: Jesus fala de pão, sal, luz, lâmpadas, caixotes, traças, ladrões, aves, celeiros, flores, erva, palha, traves, troncos, cães, pérolas, porcos, pedras, cobras, peixes, portas, caminhos, ovelhas, uvas, espinhos, figos, cardos, fogo, casas, rochas, areia, chuva, rios, ventos, prostitutas, tocas, aves, ninhos, médicos, doentes, bodas, vestidos, telas, remendos, vinho, couros, odres, colheitas, trabalhadores, ouro, prata, cobre, bolsa, roupa, sandálias, bastões, pó, pés, lobos, serpentes, pombas, terraços, passarinhos, moedas, cabelos, árvores, frutos, víboras, semeador, semente, sol, raiz, grãos, ouvidos, joio, trigo, grãos, mostarda, horto, plantas, ramos, fermento, farinha, massa, tesouros, comerciantes, redes, mar, praias, cestas, fornos, boca, planta, raiz, cegos, buracos, ventre, céu, crianças, pedra de moinho, mão, pé, maneta, coxo, reis, funcionários, escravos, prisões, camelos, agulhas, vinhas, cebes, torres, lagar, terreno, lavradores, festas, convidados, criados, animais, hortelã, anis, cominhos, mosquitos, copos, pratos, sepulcros, galinhas, pintos, figueiras, virgens, azeite, dinheiro, banco, pastor, cabras... E por aí adiante.
Nestes elementos tão simples, Jesus descobriu o que Deus lhe pedia e o que Deus queria fazer com ele e com toda a humanidade. Não se trata de ver coisas distintas, novas, mas de olhar o mesmo, mas com uns olhos novos: «Mas Yahveh disse a Samuel: [...] O olhar de Deus não é como o humano, pois o ser humano vê as aparências, mas Yahveh vê o coração (1Samuel 16, 7). Esta maneira de ver é característica dos profetas; um olhar que não é propriamente o do turista. Esta é a resposta para a pergunta que fazem ao Senhor no evangelho do trigésimo terceiro domingo (Ano C): «Que sinal haverá de que está para acontecer?». Estão aí. Só temos que abrir os olhos e ver...

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Preparar o domingo trigésimo terceiro, Ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.11.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO TRIGÉSIMO SEGUNDO


Há alguns dias perguntaram-me, sem rodeios, quais podem ser as dimensões fundamentais de uma espiritualidade que corresponda ao mundo de hoje. Uma pergunta aparentemente simples, mas, ao mesmo tempo, cheia de profundidade. Respondi rapidamente e sem pensar muito: «Uma espiritualidade que queira responder à nossa realidade tem que ter os olhos bem abertos perante a vida, para contemplar Deus criador no meio da nossa história; deve recorrer sempre à luz oferecida pela Palavra de Deus para discernir os seus caminhos; e lançar-nos na construção da comunidade cristã, em todos os seus níveis».
As três dimensões que apareceram nesta resposta espontânea estão muito relacionados entre si e constituem uma unidade dinâmica que considero muito próxima da própria vida de Deus. Uma espiritualidade não é outra coisa senão uma dinâmica vital que nos põe em sintonia com Deus e nos faz agir segundo o Espírito de Deus. Portanto, não é algo gasoso, abstrato, elevado, desencarnado. Uma espiritualidade é um estilo de vida que se pode ver e comprovar em ações bem concretas.
A participação do cristão na vida de Deus, que é aquilo a que chamamos espiritualidade, faz que a pessoa entre na dinâmica vital própria de Deus uno e trino. A dinâmica que se estabelece constantemente entre o Pai criador que se revela na história, o Filho de Deus encarnado na pessoa de Jesus, e o Espírito Santo que continua a atuar no meio de nós para nos impulsionar a construir uma comunidade de amor. Santo Agostinho dizia que Deus tinha escrito dois livros: o primeiro e mais importante é o livro da vida, o livro da história que começou a escrever no princípio dos tempos e que continua a escrever hoje em cada um de nós; mas como fomos incapazes de ler neste livro os seus desígnios, Deus escreveu um segundo livro a partir do primeiro; este segundo livro é a Bíblia; mas a primeira Revelação está na História, na vida, nos acontecimentos de cada dia: tanto na vida pessoal, como grupal, comunitária, social, política, etc...
Esta é a razão pela qual a primeira dimensão de uma espiritualidade atual é olhar a vida. Aí nos encontramos com o que Deus quer de nós; aí podemos descobrir o que Deus está a construir. Trata-se de perceber a música de Deus, para cantar e bailar ao seu ritmo, para nos deixar invadir pela sua força criadora. É como entrar num rio e perceber para onde vai a corrente e deixar-nos levar por ela.
Isto é o que Jesus queria comunicar quando os saduceus, que negavam a ressurreição dos mortos, lhe propuseram essa difícil pergunta sobre qual dos sete irmãos, que estiveram casados sucessivamente com a mesma mulher, seria o seu esposo na ressurreição dos mortos... «O Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’. Não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos». O Deus em quem acreditamos, por Jesus Cristo, é o Deus da vida, que se revela nos acontecimentos quotidianos; nesses acontecimentos que, muitas vezes, desprezamos, porque não parecem revelar-nos o rosto de Deus. Cuidemos que a nossa espiritualidade não se converta numa série de complicadas elucubrações, que nos distraem do que é verdadeiramente importante.

© Hermann Rodríguez Osorio, SJ
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Preparar o domingo trigésimo segundo, Ano C, no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.11.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO TRIGÉSIMO PRIMEIRO


Num dos programas da série radiofónica «Um tal Jesus», diz-se que Jesus contou esta história aos seus discípulos: Era uma vez um pastor que tinha cem ovelhas. Uma delas era coxa e atrasava-se sempre. Um dia, o pastor chegou tarde a casa e começou a contar as ovelhas para saber se estavam todas. Contava-as à medida que entravam no curral. Foi grande a sua surpresa quando se apercebeu de que só tinha noventa e nove ovelhas; então, voltou a contá-las para ter a certeza. Quando comprovou que uma se tinha perdido, deu conta que a que se tinha perdido era, precisamente, a ovelha que tinha uma pata coxa
Já tinha caído a noite e começava a chover; o pastor pôs-se a pensar se devia ir à procura da ovelha perdida ou se devia ficar a cuidar das noventa e nove que estavam no curral. Entretanto, a ovelhita coxa ia-se perdendo cada vez mais; berrava com todas as suas forças, mas ninguém a ouvia; tinha medo, porque a noite já tinha caído e a chuva começava a dificultar o caminho, que se ia enchendo de lama. Ainda por cima, começou a escutar o uivar dos lobos que pressentiam a presença de uma presa fácil. De modo que a ovelhita começou a correr. Com tanta má sorte que, pelo caminho, caiu num precipício e quase ficou submergida na lama.
Em casa do pastor já se tinham apagado as luzes e todos estavam a descansar; o pastor, deitado na cama, antes de adormecer, pensou pela última vez na ovelhita perdida, mas disse a si mesmo: Quem a manda ficar atrasada em relação ao rebanho? Não tenho culpa que seja coxa e não consiga acompanhar o ritmo das outras. Seguramente, amanhã encontrá-la-emos e pronto. Não posso descuidar as outras noventa e nove, ainda por cima com esta chuva. E, se fosse procurá-la, não a encontraria. Por isso, o pastor acabou por adormecer. A ovelhita, lá no fundo do precipício, continuava a berrar e a tentar sair da lama; cada tentativa era pior; afundava-se ainda mais. Por fim, sentiu que o barro lhe entrava pela boca e já não podia berrar mais… nem podia respirar. Estava morta…
Quando os discípulos escutaram esta história, ficaram aterrorizados pelo descaramento do pastor; não podiam acreditar que um bom pastor deixasse morrer assim uma das suas ovelhas, por mais coxa e doente que estivesse. Nenhum pastor conhecido seria capaz de se comportar dessa maneira. Disseram, então, a Jesus: «Isso é o cúmulo; um pastor que deixa morrer as suas ovelhas e não as procura, não se pode chamar pastor»… Mas Jesus respondeu-lhes: «Estava a cuidar das outras ovelhas». Os discípulos retorquiram: «Não senhor, não estava a cuidar nada. Tinha medo de se molhar e ficou, na cama, a dormir».
A história apresentada pelo evangelho do trigésimo primeiro domingo (Ano C) fala-nos de uma pastor muito diferente. Quando Jesus viu Zaqueu em cima da árvore, disse-lhe: «’Desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa’. Ele desceu rapidamente e recebeu Jesus com alegria». Assim como Jesus foi comer a casa de Zaqueu, também quer aproximar-se de nós, para nos oferecer o seu perdão sem condições. Em nós está a possibilidade de o acolher com a mesma alegria com que aquele cobrador de impostos o recebeu em sua casa.

© Hermann Rodríguez Osorio, SJ
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Preparar o domingo trigésimo primeiro, Ano C, no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.10.13 | 2 comentários

PREPARAR O DOMINGO TRIGÉSIMO


Conta-se que um homem, que ia crescendo na sua vida espiritual, chegou a um momento em que se deu conta de que era santo… Neste mesmo instante, retrocedeu todo o caminho que tinha percorrido e teve que voltar a começar desde o princípio. Quando uma pessoa trabalha intensamente no seu processo de crescimento espiritual, tem que se precaver contra duas ameaças: a primeira é perder a esperança e pensar que nunca vai alcançar a meta. A segunda, não menos perigosa, é pensar que já chegou. As duas situações são igualmente nocivas. Ambas produzem uma paragem no caminho espiritual.
A parábola que Jesus nos conta, no texto proposto para o trigésimo domingo (Ano C), foi dita «para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros». Diz Jesus que «dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu e o outro publicano [um cobrador de impostos ao serviço de Roma]. O fariseu, de pé, orava assim: ‘Meu Deus, dou-Vos graças por não ser como os outros homens, que são ladrões, injustos e adúlteros, nem como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de todos os meus rendimentos’. O publicano ficou a distância e nem sequer se atrevia a erguer os olhos ao Céu; mas batia no peito e dizia: ‘Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador’». Duas atitudes que representam formas distintas de se apresentar diante de Deus. A primeira, daquele que se sente justificado e seguro; acredita que o seu comportamento corresponde ao plano de Deus; esta pessoa pensa que não precisa de crescer mais; tal como está, merece o prémio para o qual trabalhou intensamente. A segunda, daquele que se sente a caminho, com muitas coisas para melhorar; sente-se necessitado de Deus e da sua graça; sabe-se incompleto, em construção.
A conclusão de Jesus é «este [o cobrador de impostos] desceu justificado para sua casa e o outro [o fariseu] não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado». Esta é a lógica do reino de Deus. Uma lógica que contradiz a nossa maneira de pensar. Há que reconhecer que é bom ter consciência dos nossos avanços e recuos; certamente, é saudável saber que nos comportamos bem e que a nossa maneira de agir está de acordo com o plano de Deus. Tudo isto coincide com uma sã auto-estima, tão valorizada recentemente por algumas correntes psicológicas. Mas não podemos esquecer que esta atitude pode-nos levar a perder de vista o que nos falta para avançar no próprio caminho espiritual; por outro lado, pode produzir uma atitude de desprezo por aqueles que, pelo menos aparentemente, estão um pouco mais atrás.
Além disso, se vivemos com verdade, reconhecendo os nossos próprios limites, sabendo que não estamos completos, teremos sempre a alternativa do crescimento; poderemos avançar sempre mais. Quando acolhemos a nossa frágil humanidade, com toda a sua complexidade de luzes e sombras, e temos consciência dos nossos defeitos, começa nesse preciso momento a gerar-se o processo de cura interior. Não há cura que não passe pelo próprio reconhecimento dos limites. Isto supõe manter sempre ativa a esperança para continuar a caminhar, embora sintamos que nos falta muito para chegar ao final do nosso crescimento espiritual. Tão perigoso para a nossa vida é deixar de caminhar, como pensar, antes do tempo, que já chegamos.

© Hermann Rodríguez Osorio, SJ
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Preparar o domingo trigésimo, Ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.10.13 | Sem comentários
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Li uma vez que, há muito tempo, viveu na China um menino chamado Ping que gostava muito de flores. Tudo o que semeava crescia como que por encanto. Um dia, o Imperador, que era muito velho, decidiu escolher o seu sucessor. Quem poderia ser? Como o escolheria? Decidiu que seriam as flores a escolher. No dia seguinte, saiu um edital: todas as crianças tinham de ir à grande praça para receber das mãos do Imperador sementes de flores. «Quem, no prazo de um ano, me mostrar o melhor resultado» — disse — «será o meu sucessor». Esta notícia causou um grande reboliço. Crianças de todos os lados compareceram para receber as respetivas sementes. Os pais queriam que o filho fosse escolhido como Imperador e as crianças sonhavam com essa possibilidade. Quando Ping recebeu as suas sementes sentiu-se a mais feliz de todas as crianças. Tinha a certeza de que seria capaz de cultivar as flores mais formosas. 
Ping tomou um vaso com terra e plantou a semente. Regava-o todos os dias. Passaram os dias mas não germinava nada no vaso. Ping estava muito triste. Então tomou um vaso ainda maior e colocou nele a melhor terra e plantou a semente. Esperou mais dois meses e nada se passou. Pouco a pouco passou-se o ano inteiro. Chegou a primavera e as crianças vestiram os mais belos trajes para agradar ao Imperador. Dirigiram-se à praça com as suas formosíssimas flores; cada criança esperava ser a escolhida. Ping sentiu-se envergonhado com o seu vaso vazio. Pensou que as outras crianças iriam fazer troça dele. Contudo, foi à praça. O Imperador observava detalhadamente todas as flores. Que flores tão belas! Mas o Imperador não dizia um palavra. Finalmente, aproximou-se de Ping, que baixou a cabeça cheio de vergonha pensando que iria ser castigado. O Imperador perguntou-lhe: «Porque trouxeste um vaso sem nada?». Ping começou a chorar e respondeu: «Plantei a semente que me deu, reguei-a todos os dias, mas não germinou. Depois, coloquei-a num vaso maior, pus-lhe a melhor terra e nem assim germinou. Esperei um ano inteiro mas não cresceu nada. Por isso, hoje vim aqui à sua presença com um recipiente vazio. Fiz o melhor que pude». 
Ao escutar estas palavras, o Imperador esboçou um sorriso e colocou a mão sobre o ombro de Ping. Depois, exclamou: «Encontrei-o! Encontrei a única pessoa digna de ser Imperador! Não sei onde foram buscar as sementes que vocês cultivaram. Porque as sementes que vos dei tinham sido queimadas. Era impossível, portanto, que pudessem germinar. Admiro Ping pela coragem em vir à minha presença com a sua vazia verdade. Assim, agora será premiado com o reino e nomeio-o meu sucessor.
Se formos sinceros reconhecemos que mais de noventa por cento das coisas que fazemos na nossa vida não tem outra finalidade senão o nosso próprio proveito. O egoísmo é tão subtil, que nos engana até nas nossas boas ações. Reclamamos, exigimos, solicitamos que nos tenham em conta de mil maneiras em cada dia... Passamos fatura pelas nossas boas obras. Queremos que reconheçam a nossa bondade. Fazemos tudo o que nos compete fazer e, isso, automaticamente, faz-nos merecedores de uma recompensa por parte de Deus. Poucas experiências são tão importantes para aprender o valor da gratuidade como a sementeira e a colheita. O agricultor que semeia a semente e recolhe a colheita sabe que foi responsável por certas condições externas que facilitam as coisas, mas também tem consciência de que o crescimento e o fruto é apenas obra e graça de Deus. Esta bela história recorda-nos que nós não somos donos do crescimento nem dos frutos e ter fé é fazer as coisas o melhor possível, para que Deus realize a sua obra de salvação através de nós.

© Hermann Rodríguez Osorio, SJ

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Preparar o vigésimo sétimo domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.10.13 | Sem comentários
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Há algum atrás, o jornal «El Tiempo» trazia uma notícia que criou um mal-estar entre os ricos da Colômbia: «Nos Estados Unidos pedem aos colombianos para pagarem mais para a guerra». Um pouco mais abaixo dizia: «Estão preocupados [os congressistas norte-americanos que debatem a ajuda para a Colômbia] perante a possibilidade de estar a 'subsidiar' a elite colombiana que, segundo os dados, paga poucos impostos em comparação com o resto do mundo». É triste que só se lembrem da necessidade de pagar mais impostos para financiar a guerra e não se lembrem de pagar mais impostos para financiar o desenvolvimento humano sustentável de toda a população, de modo a afastar a guerra em está mergulhada a Colômbia. É triste, é verdade, mas fazem-nos cair na conta de uma realidade que pode estar na base do problema social em que vivemos.  
Segundo o artigo, «a Colômbia é o terceiro país menos equilibrado da América Latina, que é a região mais desproporcionada do mundo. Dez por cento dos colombianos mais ricos ganha 80, 27 vezes mais do que a mesma percentagem (dez por cento) dos mais pobre. Nos Estados Unidos, essa percentagem (10%) ganha apenas 15, 9 vezes mais do que os dez por cento dos pobres. Se olharmos a situação na perspetiva da tendência global, a desigualdade é ainda maior: 0,4 por cento dos colombianos, de acordo com um estudo do Governo, é dono de 61, 2 por cento da terra para fins agrícolas». [...]
Alguns dias depois, um bom amigo viu como a polícia, a pedido dos vizinhos do lugar onde vive atualmente, levava uma vendedora ambulante, que só trabalha para viver e sustentar a sua família. Perante o atropelo que estavam a cometer, o meu amigo aproximou-se e disse a um dos polícias: «Tratem-na como uma pessoa humana». Um dos vizinhos, de entre os que tinham denunciado a vendedora, respondeu: «Não nos venha agora com discursos sociais». Mas o meu amigo, encarando o homem, disse: «Não estou a falar de discursos sociais, mas do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo!».
Isto mesmo temos de repetir hoje depois de ler os dados da repartição das riquezas na Colômbia e da necessidade de criar condições para uma maior igualdade entre os colombianos: Estamos a falar do Evangelho! A parábola que nos conta o evangelho do vigésimo sexto domingo (Ano C) parece tirada da nossa própria realidade: «Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e linho fino e se banqueteava esplendidamente todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, jazia junto do seu portão, coberto de chagas. Bem desejava saciar-se do que caía da mesa do rico, mas até os cães vinham lamber-lhe as chagas». A história apresenta o destino definitivo do pobre após a morte: é levado para o seio de Abraão; sobre o rico apenas se diz que «foi sepultado» e levado para um lugar de tormento.
O diálogo entre o rico e Abraão é muito interessante. O rico quer que Abraão avise os seus irmãos, através do medo, para que ao morrer não sejam levados para o mesmo lugar onde ele se encontra. Mas Abraão recorda-lhe que para isso têm Moisés e todos os profetas. Só precisam de lhes dar ouvidos. Por fim, o rico termina dizendo: «Não, pai Abraão. Se algum dos mortos for ter com eles, arrepender-se-ão». Mas Abraão respondeu-lhe: «Se não dão ouvidos a Moisés nem aos Profetas, também não se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dos mortos». O Senhor Jesus ressuscitou e ainda não lhe dêmos ouvidos. Além disso, quem prega estas coisas é muitas vezes acusado de estar a fazer «discursos sociais», quando o que está em jogo é o anúncio do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os congressistas norte-americanos encontraram a origem das nossas desgraças, mas estão equivocados na solução, quando pensam na guerra e não numa vida digna para todos.

© Hermann Rodríguez Osorio, SJ

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Preparar o vigésimo sexto domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.9.13 | Sem comentários
Encuentros con la Palabra — blogue de Hermann Rodríguez Osorio

Quando o João, no primeiro dia de cada mês, recebeu o seu salário, em dinheiro, como sempre fez, contou cuidadosamente as notas, uma a uma, arregalando os olhos e molhando o dedo com saliva para separar as notas. Ficou surpreendido ao perceber que lhe tinham dado mais 50 euros do que o habitual. Olhou à sua volta para ver se alguém tinha reparado, assinou rapidamente o recibo, guardou o dinheiro no bolso e saiu dali com a maior rapidez e discrição possíveis, controlando, com esforço, o seu desejo de saltar de alegria. Tudo ficou assim. No primeiro dia do mês seguinte, foi para a fila e estendeu a mão para receber o pagamento. Repetiu-se a rotina; e, ao contar as notas, notou que faltavam 50 euros. Levantou a cabeça e cravou o olhar no administrador; muito sério, disse-lhe: — «Senhor, desculpe, mas faltam 50 euros». O administrador respondeu-lhe: — «Não se lembra que, no mês passado, lhe demos 50 euros a mais e você não disse nada?». — «Sim, claro — contestou João com segurança —, é que um erro pode-se perdoar, mas dois é demais».
Esta cena, pouco comum, veio-me à memória ao ler o texto evangélico do vigésimo quinto domingo (Ano C): «Os filhos deste mundo são mais espertos do que os filhos da luz, no trato com os seus semelhantes». Esta é a conclusão tirada por Jesus Cristo, depois de ter contado a história do administrador que estava a desbaratar os bens do seu senhor. E mais adiante dirá: «Quem é fiel nas coisas pequenas também é fiel nas grandes; e quem é injusto nas coisas pequenas também é injusto nas grandes». A honestidade é uma virtude que apreciamos muito nos outros, mas nem sempre sabemos praticar nas nossas próprias vidas. Apercebemo-nos facilmente quando os outros não se comportam como deviam, mas não somos capazes de reconhecer as nossas próprias incoerências. Já dizia o Senhor que temos uma capacidade infinita de reconhecer o argueiro que está no olho do nosso vizinho, mas não somos capazes de ver a trave que temos no nosso (cf. Mateus 7, 3-5; Lucas 6, 41-42). Somos assim, embora nos custe reconhecê-lo.
Mas a coisa não fica por aqui. O que o Senhor quer ensinar-nos com esta história é que temos que utilizar adequadamente os bens deste mundo, para alcançar uma vida plena: «Se não fostes fiéis no que se refere ao vil dinheiro, quem vos confiará o verdadeiro bem? E se não fostes fiéis no bem alheio, quem vos entregará o que é vosso?». Neste sentido, não podemos esquecer que os bens deste mundo são apenas um meio para alcançar a vida verdadeira que nos aponta o sumo e verdadeiro capitão, de que fala Santo Inácio numa das meditações mais conhecidas dos «Exercícios Espirituais» (cf. EE 139).
«Nenhum servo pode servir a dois senhores, porque, ou não gosta de um deles e estima o outro, ou se dedica a um e despreza o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» — dirá o Senhor mais adiante. Valeria a pena perguntar-nos se temos o nosso coração dividido entre o serviço a Deus e o serviço que prestamos aos bens. Se nos servimos das riquezas para construir essa vida verdadeira à qual somos chamados por Deus ou se somos como o homem da história, que cala ou reclama, conforme o que mais lhe convém...

© Hermann Rodríguez Osorio, SJ

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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Preparar o vigésimo quinto domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.9.13 | Sem comentários
Encuentros con la Palabra — blogue de Hermann Rodríguez Osorio

Já passava das 9 da noite, quando cheguei a casa cansado, no final de um dia de trabalho e de estudo. Chamou-me a atenção o ruído próximo do apartamento. Perguntei ao porteiro o que se passava. Contou-me que o meu irmão mais novo tinha chegado e os meus pais tinham organizado uma festa para o receber. Convidaram alguns vizinhos e familiares. Fiquei surpreendido, pois já se tinham passado três anos desde o dia em que o meu irmão tinha saído de casa sem deixar rasto. Antes de desaparecer, tinha provocado muito sofrimento aos meus pais, porque a ânsia de conseguir comprar a droga tinha-o escravizado, tinha desmantelado a casa de todo o tipo de eletrodomésticos e objetos de grande valor. A última coisa que fez, antes de desaparecer, foi roubar as poucas poupanças que os meus pais tinham conseguido reunir ao longo de uma vida inteira de sacrifícios e esforços.
Senti muita raiva, ao saber que se tinha organizado uma festa para receber esse traste que a única coisa que fez foi gastar o que os outros conseguiram com o trabalho. Recusei-me a entrar. Os meus pais saíram para me tentar convencer a participar na festa. Confesso que a minha reação foi dura para com eles: «Não tenho qualquer intenção de aprovar com a minha presença a vossa tolice com este preguiçoso que não fez outra coisa senão fazer-vos sofrer, primeiro com os seus vícios e roubos, e depois com uma ausência de três anos sem dar o menor sinal de vida. Não percebem o que estão a fazer? Estão a dizer-lhe que fez tudo bem e que pode continuar na mesma vida de sempre. Em lugar de o educar e fazer-lhe ver o erro, o que estais a fazer é premiá-lo pelo que fez. Quando é que organizastes uma festa para celebrar o meu aniversário com os meus amigos? Passei a vida aqui ao vosso lado sem desacatar a mais pequena ordem, estudando e trabalhando para ajudar a sustentar os gastos da casa e nunca me agradecestes. E, agora, chega esse rapazito e converteis a sua chegada numa festa».
Os argumentos que me deram não me convenceram. Diziam de todas as formas que estavam contentes porque o filho que tinham perdido tinha aparecido; e que se alegravam por saber que estava vivo aquele que tinham dado por morto. Não podia acreditar. Era algo que ultrapassava a minha capacidade de compreensão. Não entendia como podia ser possível que tivessem esquecido os muitos momentos amargos que tinham tido por sua culpa, antes e depois do seu desaparecimento há três anos. Estou seguro de que vós também partilhais os meus sentimentos e não teríeis coragem para celebrar a chegada de um filho ou um irmão que se tinha portado assim com a família. Não me cabe na cabeça que haja alguém que não sinta o mesmo que eu. Apesar de tudo, Deus não nos pede coisas que estejam acima das nossas capacidades.
As parábolas apresentadas pelo evangelho do vigésimo quarto domingo são a forma usada por Jesus para revolucionar radicalmente a imagem de Deus que tinham os seus contemporâneos. Em lugar de um Deus justiceiro e castigador, Jesus apresenta-nos um Deus que se alegra mais pela conversão de um só pecador, do que por noventa e nove justos que não precisam de mudar nada na sua vida. A nossa imagem de Deus é mais parecida com a do filho mais velho, que não é capaz de perdoar, ou com o pai, que se alegra por encontrar aquele que estava perdido?

© Hermann Rodríguez Osorio, SJ

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Preparar o vigésimo quarto domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 11.9.13 | Sem comentários
Encuentros con la Palabra — blogue de Hermann Rodríguez Osorio

Uma amiga religiosa escreve, de vez em quando, as suas experiências espirituais em forma de poema. Há alguns meses enviou-me estes versos, que, pelo que me parece, podem-nos ajudar a entender o que se apresenta no evangelho do vigésimo terceiro domingo (Ano C):

Quero descer de novo à tua adega,
para te dar o meu amor, ser toda entrega
e embriagar-me de tu, pois são melhores
e mais suaves que o vinho os teus amores.

Não aproximarei os lábios de outra fonte
para saciar a minha sede, minha sede ardente
nem voltarei a beber outros licores
senão o vinho embriagante dos teus amores.

Vê que venho como corsa ferida
vê que me entrego a Ti, que estou rendida
e sacia a minha sede, pois são melhores
que o mais saboroso vinho os teus amores.

«Seguia Jesus uma grande multidão. Jesus voltou-Se e disse-lhes: 'Se alguém vem ter comigo, e não Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo'». Jesus dirige estas palavras à gente que o seguia. Não se trata de uma alternativa incompatível. Não nos pede que deixemos de amar as pessoas que estão mais próximas do nosso coração. Essas pessoas podem e devem permanecer no centro das nossas vidas. O que nos pede o Senhor é que o nosso amor para com elas não esteja acima do amor que sentimos por Ele e pelo seu reino. Não pode haver nada nem ninguém que distraia o caminho do seguimento.
As duas comparações apresentadas a seguir mostram situações humanas muito concretas. Não podemos começar a construir uma torre se não temos clara a possibilidade de a terminar. Por outro lado, nenhum líder militar se envolve numa guerra se não pensa que pode chegar a vencer o seu inimigo com as forças que tem. Se não lhe pode fazer frente, tratará de estabelecer as condições de paz quando o outro grupo está ainda longe e nem se deu início à batalha. «Assim, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo» — é o que conclui o Senhor, depois de apresentar estes dois exemplos.
Poderíamos acrescentar que a pessoa que provou o bom vinho já não se poderá contentar com outra bebida. Assim é o seguimento do Senhor. Quando nos encontramos autenticamente com ele, reconhecemos que já não podemos saciar a nossa sede noutras fontes, nem haverá outros licores que substituam o vinho embriagante dos seus amores.

© Hermann Rodríguez Osorio, SJ

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Preparar o vigésimo terceiro domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.9.13 | Sem comentários
Encuentros con la Palabra — blogue de Hermann Rodríguez Osorio

Ouvir contar esta história que nos pode servir de contexto para o evangelho do vigésimo segundo domingo (Ano C): «Caminhava com o meu pai, quando ele parou numa curva; depois de um momento de silêncio, perguntou-me: Além do cantar dos pássaros, ouves mais alguma coisa? Afinei os ouvidos e alguns segundos depois respondi-lhe: Ouço o ruído de uma carroça. É isso — disse o meu pai. É uma carroça vazia. Perguntei-lhe: como é que sabes que é uma carroça vazia se nem sequer a vemos? Então, o meu pai respondeu: É muito fácil saber quando uma carroça está vazia, por causa do ruído. Quanto mais vazia a carroça, maior é o ruído que faz. Tornei-me adulto e ainda hoje quando vejo um pessoa a falar demasiado, interrompendo a conversação de todos, sendo inoportuna ou violenta, presunçosa sobre os seus conhecimentos, sentindo-se prepotente e desvalorizando os outros, tenho a impressão de ouvir a voz do meu pai a dizer: 'Quanto mais vazia a carroça, maior é o ruído que faz'. A humildade consiste em calar as nossas próprias virtudes, para permitir que os outros as descubram por si mesmos».
Jesus foi comer muitas vezes com gente importante; Ele não passava a vida metido entre quatro paredes com medo de se contaminar com o mundo que o rodeava. Veio anunciar a este mundo uma Boa Notícia e não podia fazê-lo fechado em quatro paredes. Quando estava em casa de um dos principais fariseus, outros fariseus estavam a espiá-lo para ter com que o acusar. Jesus ao ver «como os convidados escolhiam os primeiros lugares», deu-lhes este conselho: «Quando fores convidado para um banquete nupcial, não tomes o primeiro lugar. Pode acontecer que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu; então, aquele que vos convidou a ambos, terá que te dizer: ‘Dá o lugar a este’; e ficarás depois envergonhado, se tiveres de ocupar o último lugar. Por isso, quando fores convidado, vai sentar-te no último lugar; e quando vier aquele que te convidou, dirá: ‘Amigo, sobe mais para cima’; ficarás então honrado aos olhos dos outros convidados. Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado».
Além deste ensinamento tão útil e concreto para a nossa vida, o Senhor acrescentou outro para o quem o tinha convidado nesse dia: «Quando ofereceres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos nem os teus irmãos, nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos, não seja que eles por sua vez te convidem e assim serás retribuído. Mas quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos».
Num retiro em que participei com Jean Vanier, no Porto, no norte de Portugal, ouvi-o dizer que uma vez tinha lido este texto com um grupo de empresários do Primeiro Mundo. A reação que produziu foi de protesto e descontentamento. Mas também contou que tinha lido este texto com um grupo de pedintes de um país pobre. A reação foi de alegria e de júbilo. Os mendigos saltavam e gritavam de alegria pelo que estavam a escutar. Para eles, esta era uma Boa Notícia, enquanto que, para os primeiros, era má. Como acolhemos estas palavras de Jesus? Alegram o nosso coração ou enchem-no de incertezas e mal-estar? Cada um pode avaliar a sintonia que sente com as palavras do Senhor, para reconhecer o desafio deste evangelho. Recordemos que existem pessoas tão pobres que a única coisa que têm é dinheiro. Ninguém está mais vazio do que aquele que está cheio de si mesmo. Questionemo-nos se a nossa «carroça» faz muito ruído ou se está carregada de valores e boas obras para nos enriquecer com uma riqueza que só se poderá apreciar no dia da «ressurreição dos justos».

© Hermann Rodríguez Osorio, SJ

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Preparar o vigésimo segundo domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.8.13 | Sem comentários
Encuentros con la Palabra — blogue de Hermann Rodríguez Osorio

«Larga é a porta
  • dos centros comerciais para dependentes refinados;
  • dos hotéis de luxo para a «elite» do negócio e do poder;
  • dos que correm para lavar os dólares do narcotráfico;
  • dos sepulcros vazios que cultivam fachadas e aparências.

Estreita é a porta
  • dos que servem nas residências milionárias;
  • dos calabouços que reprimem os justos;
  • das refeições confecionadas com as sobras;
  • das decisões solidárias com os oprimidos.

Largo é o caminho
  • dos latifúndios que se perdem no horizonte baldio;
  • das autoestradas para as praias exclusivas;
  • da corrupção que se passeiam em carros de luxo;
  • das multidões domesticadas pelo hábito.

Estreito é o caminho
  • dos que enterram a pá no cimento dos grandes edifícios;
  • dos becos nos bairros marginalizados;
  • da nova justiça aberta no meio da selva legal;
  • do futuro do Reino que não é notícia em nenhum jornal.

Largo é o caminho
  • que leva os sumo sacerdotes ao templo de Jerusalém;
  • da casa de Herodes construída com impostos populares;
  • do palácio imperial de Pilatos;
  • das aclamações das multidões fartas de pão.

Estreito é o caminho
  • que vai de Belém à gruta dos pastores;
  • que Jesus percorre até às aldeias perdidas da Galileia;
  • que sobe até ao monte da Transfiguração;
  • da viela que atravessa Jerusalém e vai até ao Calvário;
  • da decisão que conduz até ao Getsemani no meio da noite.

Ampla é a rua que leva à perdição.
Estreita é a viela que conduz à vida».

É bem propositada a recordação desta poesia de Benjamín González Buelta, sj, quando a liturgia propõe o texto evangélico de Lucas, no qual Jesus recomenda aos discípulos: «Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir». É muito fácil que nos sintamos atraídos pelas portas e pelos caminhos largos que nos são oferecidos pela sociedade do consumo. É muito fácil esquecermo-nos que a viela que conduz à vida é estreita e supõe sacrifícios. Cada um tem que rever a sua vida e perceber por onde passam estes caminhos estreitos do seguimento do Senhor, na nossa própria história.

© Hermann Rodríguez Osorio, SJ

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Preparar o vigésimo primeiro domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.8.13 | Sem comentários
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