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Reflexão mensal sobre as obras de misericórdia [5]


«Não bastam as boas intenções para realizar, de modo adequado, a visita a um doente; pelo contrário, essas intenções podem ser perigosas precisamente na sua obtusa bondade. Corre-se o risco de não haver encontro com a pessoa visitada, de se sair reforçado pela debilidade desta e gratificados pelo próprio gesto de ‘bondade’ que se está a realizar» (Luciano Manicardi).

A experiência de Job

O livro de Job pode ser apresentado como a história de amigos que se tornam inimigos ao realizarem o piedoso ato de ir ao encontro do doente. E a história de pessoas que querem consolar e que acabam por ser chamados «consoladores importunos», «fazedores de mentira», «charlatães». Eles realizam os gestos rituais do luto e da dor e parecem amigos sinceros, mas, na verdade, fazem gorar o encontro com o doente. Os amigos de Job enganam-se não só por não compreenderem que a cabeceira de um doente não é o lugar adequado para uma lição de teologia, mas sobretudo porque vão ter com ele cheios de certezas, de sapiência e de poder. Eles «sabem» que a doença de um ser humano esconde alguma culpa, pela qual ele é castigado e está a sofrer: segundo eles, Job deverá arrepender-se, confessar a sua culpa e, assim, ser curado. Deste modo, transformam a vítima em culpado. Presumem que «sabem» melhor do que o próprio doente aquilo de que ele precisa, e estão convencidos de possuir os requisitos para consolá-lo com eficácia. Apresentando-se como salvadores, eles estabelecem um triângulo perverso em que fazem do doente uma vítima, tornando-se seus perseguidores e, ao mesmo tempo, alvo das suas acusações. Os dois protagonistas do drama, visitantes e doente, entram numa relação complexa em que ambos vestem, alternadamente, o traje de perseguidor e de vítima, fazendo-o a partir da pretensão inicial dos visitantes de serem salvadores. Colocando-se a si próprios como aqueles que «podem» ajudar e consolar o «pobre Job», erigem-se em seus salvadores, transformando-se, ao fazê-lo, em seus perseguidores. Em suma, quando se pratica essa delicada arte que é a visita ao doente, há que tomar consciência de que não se tem poder sobre o doente.

Visitar/ver o doente

Para indicar a visita ao doente, o hebraico usa por vezes o verbo «ra’ah», que significa «ver», mas este «ir ver o doente» significa, em sentido mais profundo, «escutar» o próprio doente, deixar que seja ele a guiar a relação, não fazer nada para além do consentido por ele, ater-se ao quadro relacional que ele apresenta. O mestre é o doente! É ele que detém um magistério diante do qual o visitante deve colocar-se à escuta. Surgem, então, duas perguntas essenciais para aquele que vai visitar um doente: porquê visitar um doente? Como visitar um doente? O ato de «visitar/ver» implica apreciação, consideração, providência e conhecimento. Ser vistos/visitados deve significar, portanto, um ser apreciados, estimados e considerados, ter valor para alguém. E o doente poderá apreender, no interesse e no cuidado que lhe demonstrou o visitante, um sinal da solicitude e do cuidado que o próprio Senhor tem por ele. Na situação de solidão e de impotência em que muitas vezes se encontra, o doente pede, a quem está a seu lado, para ser escutado; pede para ser aceite na sua situação, mesmo que aquilo que ele é, faz ou diz não seja aprovado pelos visitantes. Diz Job: «O doente precisa da lealdade dos amigos, mesmo que renegue o Omnipotente» (Job 6, 14; cf. 19, 21). «Escutai atentamente as minhas palavras! Seja ao menos este o conforto que me dais» (Job 21, 2; cf. 13, 6). Escutar é permitir a presença do outro e visitar o doente significa reconhecer e respeitar o seu espaço, evitando ao máximo ocupá-lo. E a passagem de Ben Sira afirma: «Não sejas preguiçoso em visitar um doente, porque é assim que lhe cativarás o afeto» (7, 35). Ou seja, visitando um doente, o homem cumpre o mandamento de amar o próximo (cf. Levítico 19, 18) recebendo, em troca, o seu amor..

Suportar as fraquezas do nosso próximo

Quando sentimos que uma pessoa é insuportável? Por que motivo determinado comportamento de uma pessoa nos aborrece? Quanto nos afeta a debilidade de alguém, que nos parece insuportável, também se manifesta uma revelação de nós a nós mesmos. Quando sentimos a debilidade de uma pessoa aborrecida e incómoda, isso pode ser simplesmente a expressão de sentimentos egoístas e racistas, ou de medo e de rejeição do confronto. Ora, a capacidade de suportar tem por fundamento o Evangelho e o exemplo de Jesus Cristo, e torna-se possível pela fé. A este propósito, importa perceber que isto não tem nada a ver com o suportar passivamente o sofrimento. A atitude — livre e amorosa — de suportar quem é incómodo, antipático, aborrecido, lento, carenciado, equipara-se ao amor ao inimigo. E requer que trabalhemos sobre nós mesmos para aprendermos a conhecer e a amar o inimigo que existe em nós, aquilo que em nós é incómodo, aquilo que nos é insuportável e que Deus, em Jesus Cristo, suportou pacientemente, amando-nos de modo incondicional. Deste modo, torna-se abertura de futuro; para o outro, confirmação de confiança nele, luta a seu lado e em seu favor contra a tentação do desespero. O suportar paciente do outro, que é sentido como aborrecido ou hostil, caminha a par e passo com a paciência para consigo mesmo e para com as suas incongruências, frente aos acontecimentos que se opõem aos nossos desejos e à nossa vontade, frente a Deus, cujo desígnio de salvação continua incompleto. Longe de ser sinónimo de debilidade, a paciência é força em relação a nós mesmos, capacidade de agir de forma compulsiva, espera dos tempos do outro, capacidade de suportar o outro, de apoiar e carregar o outro. Trata-se, portanto, de um momento particularmente importante na edificação das relações interpessoais e eclesiais. Não é por acaso que o Novo Testamento exorta com frequência a ter paciência e a suportar os outros no contexto de difíceis relações comunitárias: «Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente se alguém tiver razão de queixa contra outro» (Colossenses 3, 13). O suportar-se mutuamente é manifestação de caridade.

Exorto-vos a que procedais 
de um modo digno
do chamamento que recebestes;
com toda a humildade e mansidão, 
com paciência: 
suportando-vos uns aos outros 
no amor.
Carta aos Efésios 4, 1-2

Paciência

O hebreu bíblico fala de Deus como «lento para a ira», para indicar a sua paciência. Paciência que é, portanto, intenção de amor para com o ser humano, mas também sofrimento frente ao pecado do ser humano: «Até quando terei de ouvir esta assembleia má a murmurar contra mim?» — diz Deus a Moisés e a Aarão (Números 14, 27). A paciência, com efeito, não quer tornar-se cúmplice do mal cometido. A paciência divina não é ausência de cólera, mas capacidade de elaborá-la, de domá-la, de interpor uma espera entre a sua insipiência e a sua manifestação: «Muitas vezes conteve a sua ira, e não deixou que o seu furor se avivasse. Lembrou-se de que eles eram humanos, um sopro que passa e não volta mais (Salmo 78, 38-39). A paciência é o olhar generoso de Deus fixo no ser humano, olhar que não se detém nos detalhes, no acidente de percurso, que não considera o pecado definitivo, mas que o coloca no contexto de todo o caminho existencial que o ser humano é chamado a percorrer. Portanto, ela expõe Deus ao risco de não ser tomado a sério, de ser «usado» pelo ser humano. A paciência de Deus não é impassibilidade nem passividade, mas a longa respiração da sua paixão, paixão de amor que aceita sofrer esperando os tempos do ser humano e a sua conversão: «Não é que o Senhor tarde em cumprir a sua promessa, como alguns pensam, mas simplesmente usa de paciência para convosco, pois não quer que ninguém pereça, mas que todos se convertam» (2Pedro 3, 9). Por isso, o tempo concedido ao ser humano deve ser considerado como revelação da «longanimidade» de Deus, e, portanto, apreendido como «salvação» (2Pedro 3, 15). Em Jesus Cristo e, de modo particular, na sua paixão e morte, a paciência de Deus alcança o seu ápice enquanto assunção radical da incapacidade e debilidade do ser humano, do seu pecado. Em Cristo, Deus aceita «carregar o fardo», «suportar» a insuficiência e incapacidade humanas, assumindo a responsabilidade pelo homem na sua falibilidade. A «paciência de Cristo» (2Tessalonicenses 3, 5) exprime assim o amor de Deus, do qual é sacramento: «O amor é paciente»; «o amor tudo suporta» (1Coríntios 13, 4.7). Além disso, para o cristão, a paciência é fruto do Espírito (cf. Gálatas 5, 22) e declina-se como perseverança e constância nas tribulações e nas provas, como capacidade de suportar e de tolerar quem causa aborrecimentos e suscita conflitos, como olhar longânime frente às incapacidades alheias. A paciência é a arte de viver a insuficiência. E a insuficiência, encontramo-la nos outros, mas também em nós, na realidade e em Deus. Na tradição cristã, a paciência é considerada uma virtude, ou até «a maior virtude». Hoje, porém, a paciência perdeu grande parte do seu fascínio: os tempos acelerados suscitam a impaciência, o não adiamento, o «agora e já», a posse que não dá lugar à espera. Eis, então, que a paciência, que outrora constituía uma modalidade sábia e humana de habitar o mundo, é votada ao esquecimento.

© Laboratório da fé, 2015
Este texto foi elaborado a partir da obra de Luciano Manicardi intitulada «A caridade dá que fazer: Redescobrindo a atualidade das ‘obras de misericórdia’» (páginas 121 a 128 e 195 a 205) publicada em português pelas edições Paulinas





Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.2.15 | Sem comentários

Viver a fé! [18]


A segunda parte do Compêndio da Doutrina Social da Igreja começa com a referência à família como «célula vital da sociedade» (números 209 a 220). Este (quinto) capítulo desenvolve-se em dois pontos que são apresentados neste tema: «A família, primeira sociedade natural» (números 209 a 214); «O matrimónio, fundamento da família» (números 215 a 220).

A família, primeira sociedade natural

Os primeiros textos da Sagrada Escritura (os primeiros dois capítulos do livro dos Génesis) sublinham a «importância e a centralidade da família, em vista da pessoa e da sociedade. [...] A família delineia-se, no desígnio do Criador, como ‘lugar primário da “humanização” da pessoa e da sociedade’ e ‘berço da vida e do amor’» (209). O mesmo se verifica em muitos outros textos bíblicos (do Antigo Testamento). E também «Jesus nasceu e viveu numa família concreta, acolhendo todas as características próprias desta vida, e conferiu uma excelsa dignidade ao instituto matrimonial, constituindo-o como sacramento da nova aliança (cf. Mateus 19, 3-9). Nesta perspetiva, o casal encontra toda a sua dignidade e a família a sua própria solidez» (210). Assim, «iluminada pela luz da mensagem bíblica, a Igreja considera a família a primeira sociedade natural, titular de direitos próprios e originários, e põe-na no centro da vida social [...], enquanto lugar primário de relações interpessoais, célula primeira e vital da sociedade» (211).

A importância da família para a pessoa

Em primeiro lugar, «a família é importante e central em relação à pessoa»: lugar onde o ser humano «nasce e cresce». É «no clima de natural afeto que liga os membros de uma comunidade familiar, as pessoas são reconhecidas e responsabilizadas na sua integralidade» (212).

A importância da família para a sociedade

«A família, comunidade natural na qual se experimenta a sociabilidade humana, contribui de modo único e insubstituível para o bem da sociedade. [...] Uma sociedade à medida da família é a melhor garantia contra toda a deriva de tipo individualista ou coletivista, porque nela a pessoa está sempre no centro da atenção enquanto fim e nunca como meio» (213). Por isso, «há que afirmar a prioridade da família em relação à sociedade e ao Estado. [...] A família não é, portanto, para a sociedade e para o Estado; antes a sociedade e o Estado são para a família. Qualquer modelo social que pretenda servir ao bem do homem não pode prescindir da centralidade e da responsabilidade social da família. A sociedade e o Estado, nas suas relações com a família, têm o dever de se ater ao princípio da subsidiariedade» (214).

O valor do matrimónio

«A família tem o seu fundamento na livre vontade dos cônjuges de se unirem em matrimónio, no respeito pelos significados e pelos valores próprios deste instituto, que não depende do homem, mas do próprio Deus: ‘[...] O próprio Deus é o autor do matrimónio, dotado de diversos bens e fins’» (215). Por isso, «nenhum poder pode abolir o direito natural ao matrimónio nem modificar-lhe as características e a finalidade» (216). «O matrimónio tem como traços característicos: a totalidade, por força da qual os cônjuges se doam reciprocamente em todas as componentes da pessoa, físicas e espirituais; a unidade, que os torna ‘uma só carne’; a indissolubilidade e a fidelidade que a doação recíproca definitiva exige; a fecundidade à qual ela naturalmente se abre» (217). Sendo certo que «o matrimónio, na sua verdade ‘objetiva’, está ordenado à procriação e à educação dos filhos [...], porém, não foi instituído unicamente em vista da procriação: o seu caráter indissolúvel e o seu valor de comunhão permanecem mesmo quando os filhos, ainda que vivamente desejados, não chegam a completar a vida conjugal» (218).

O sacramento do matrimónio

«O matrimónio, enquanto sacramento, é uma aliança de um homem e uma mulher no amor», cuja sacramentalidade promana «do amor esponsal de Cristo pela Igreja, que mostra a sua plenitude na oferta consumada na Cruz» (219). «O sacramento do matrimónio assume a realidade humana do amor conjugal em todas as implicações e ‘habilita e empenha os esposos e os pais cristãos a viverem a sua vocação’ [...]. A dimensão natural do seu amor é constantemente purificada, consolidada e elevada pela graça sacramental. Deste modo, os cônjuges cristãos, para além de se ajudarem reciprocamente no caminho de santificação, convertem-se em sinal e instrumento da caridade de Cristo no mundo. Com a sua própria vida, eles são chamados a ser testemunhas e anunciadores do significado religioso do matrimónio» (220).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.2.15 | Sem comentários

Viver a fé! [17]


«A doutrina social da Igreja, além dos princípios que devem presidir à edificação de uma sociedade digna do ser humano, indica também valores fundamentais. [...] Todos os valores sociais são inerentes à dignidade da pessoa humana, da qual favorecem o autêntico desenvolvimento e são, essencialmente: a verdade, a liberdade, a justiça, o amor» (197). Este tema inclui os dois últimos pontos do quarto capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja: os valores fundamentais da vida social; a vida da caridade.

Relação entre princípios e valores

Entre os princípios (cf. temas 12 a 16) e os valores há uma relação de reciprocidade: «os valores sociais expressam o apreço que se deve atribuir àqueles determinados aspetos do bem moral que os princípios se propõem conseguir, oferecendo-se como pontos de referência para a oportuna estruturação e a condução ordenada da vida social. [...] A sua prática constitui a via segura e necessária para alcançar um aperfeiçoamento pessoal e uma convivência social mais humana [...]. O respeito pela legítima autonomia das realidades terrenas faz com que a Igreja não se reserve competências específicas de ordem técnica ou temporal, mas não a impede de se pronunciar para mostrar como, nas diferentes opções do ser humano, tais valores são afirmados ou, pelo contrário, negados» (197).

A verdade

«A convivência entre os seres humanos numa comunidade é efetivamente ordenada, fecunda e condizente com a sua dignidade de pessoas quando se funda na verdade. [...] O nosso tempo exige uma intensa atividade educativa e um correspondente empenho por parte de todos, para que a investigação da verdade, não redutível ao conjunto ou a alguma das diversas opiniões, seja promovida em todos os âmbitos» (198).

A liberdade

A liberdade é sina «da imagem divina» e «da sublime dignidade de toda a pessoa humana» (199). Por isso, o ser humano tem direito a: «realizar a própria vocação pessoal; buscar a verdade e professar as próprias ideias religiosas, culturais e políticas; manifestar as próprias opiniões; decidir o próprio estado de vida e, na medida do possível, o próprio trabalho; assumir iniciativas de caráter económico, social e político. [...] A liberdade deve desdobrar-se, por outro lado, também como capacidade de recusa de tudo o que é moralmente negativo, seja qual for a forma em que se apresente, como capacidade de efetivo desapego de tudo o que possa obstar ao crescimento pessoal, familiar e social. A plenitude da liberdade consiste na capacidade de dispor de si em vista do autêntico bem» (200) universal.

A justiça

«Do ponto de vista subjetivo, a justiça traduz-se na atitude determinada pela vontade de reconhecer o outro como pessoa, ao passo que, do ponto de vista objetivo, ela constitui o critério determinante da moralidade no âmbito intersubjetivo e social» (201). «A justiça, com efeito, não é uma simples convenção humana, porque o que é ‘justo’ não é originariamente determinado pela lei, mas pela identidade profunda do ser humano» (202). Neste sentido, «a plena verdade sobre o ser humano permite superar a visão contratualista da justiça, que é visão limitada, e abrir também para a justiça o horizonte da solidariedade e do amor» (203).

A vida da caridade

A caridade tem de ser o critério supremo e universal de toda a ética social» (204). Na verdade, a convivência humana, fundada na verdade e realizada segunda a justiça e a liberdade, «é vivificada pelo amor que faz sentir como próprias as carências e as exigências alheias» (205). «A caridade pressupõe e transcende a justiça. [...] A justiça deve submeter-se a uma “correção” notável, por parte daquele amor que “é paciente” e “benigno”, que encerra em si as características do amor misericordioso’, tão essenciais para o Evangelho como para o Cristianismo» (206). De facto, «nenhuma legislação, nenhum sistema de regras ou de pactos conseguirá persuadir homens e povos a viver na unidade, na fraternidade e na paz, nenhuma argumentação poderá superar o apelo da caridade. [...] É necessário que se cuide de mostrar a caridade não só como inspiradora da ação individual, mas também como força capaz de suscitar novas vias para enfrentar os problemas do mundo de hoje e para renovar profundamente desde o interior das estruturas, organizações sociais, ordenamentos jurídicos. Nesta perspetiva, a caridade torna-se caridade social e política» (207), «não se esgota nas relações entre as pessoas, mas desdobra-se na rede em que tais relações se inserem, que é precisamente a comunidade social e política, e sobre esta intervém, visando o bem possível para a comunidade no seu conjunto» (208).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.1.15 | Sem comentários

Viver a fé! [16]


O princípio da solidariedade (números 192 a 196) ocupa o sexto ponto do quarto capítulo («Os princípios da Doutrina Social da Igreja») do Compêndio da Doutrina Social da Igreja: significado e valor; a solidariedade como princípio social e como virtude moral; solidariedade e crescimento comum dos homens; a solidariedade na vida e na mensagem de Jesus Cristo.

Significado e valor

«A solidariedade confere particular relevo à intrínseca sociabilidade da pessoa humana, à igualdade de todos em dignidade e direitos, ao caminho comum dos homens e dos povos para uma unidade cada vez mais convicta. Nunca, como hoje, houve uma consciência tão generalizada do liame de interdependência entre os homens e os povos, que se manifesta em qualquer nível. A rapidíssima multiplicação das vias e dos meios de comunicação ‘em tempo real’ [...] estão a testemunhar que, pela primeira vez desde o início da história da humanidade, ao menos tecnicamente, é já possível estabelecer relações também entre pessoas muito distantes umas das outras ou desconhecidas. Em face do fenómeno da interdependência e da sua constante dilatação, subsistem, por outro lado, em todo o mundo, desigualdades muito fortes entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento, alimentadas também por diversas formas de exploração, de opressão e de corrupção que influem negativamente na vida interna e internacional de muitos Estados. O processo de aceleração da interdependência entre as pessoas e os povos deve ser acompanhado por um empenho no plano ético-social igualmente intensificado, para evitar as nefastas consequências de uma situação de injustiça de dimensões planetárias, destinada a repercutir-se muito negativamente até nos próprios países atualmente mais favorecidos» (192).

A solidariedade como princípio social e como virtude moral

A solidariedade apresenta-se sob dois aspetos complementares: princípio social e virtude moral. «A solidariedade deve ser tomada, antes de mais nada, no seu valor de princípio social ordenador das instituições, com base no qual devem ser superadas as ‘estruturas de pecado’ que dominam as relações entre as pessoas e os povos, superadas e transformadas em estruturas de solidariedade, mediante a criação ou a oportuna modificação de leis, regras do mercado, ordenamentos. A solidariedade é também uma verdadeira e própria virtude moral, não ‘um sentimento de compaixão vaga ou de enternecimento superficial pelos males sofridos por tantas pessoas, próximas ou distantes. Pelo contrário, é a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum; ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos’» (193).

Solidariedade e crescimento comum dos homens

«A mensagem da doutrina social acerca da solidariedade realça a existência de estreitos vínculos entre solidariedade e bem comum, solidariedade e destino universal dos bens, solidariedade e igualdade entre os homens e os povos, solidariedade e paz no mundo» (194). Neste sentido, «o princípio da solidariedade implica que os homens do nosso tempo cultivem uma maior consciência da dívida que têm para com a sociedade [...]. Uma tal dívida há de ser honrada nas várias manifestações do agir social, de modo que o caminho dos homens não se interrompa, mas continue aberto às gerações presentes e às futuras, chamadas juntas, umas e outras, a compartilhar na solidariedade o mesmo dom» (195).

A solidariedade na vida e na mensagem de Jesus Cristo

«O vértice insuperável da perspetiva indicada é a vida de Jesus de Nazaré, o Homem novo, solidário com a humanidade até à ‘morte de cruz’ (Filipenses 2, 8): n’Ele é sempre possível reconhecer o Sinal vivente daquele amor incomensurável e transcendente do Deus-connosco, que assume as enfermidades do seu povo, caminha com ele, o salva e constitui na unidade. N’Ele a solidariedade alcança as dimensões do mesmo agir de Deus. N’Ele, e graças a Ele, também a vida social pode ser redescoberta, mesmo com todas as suas contradições e ambiguidades, como lugar de vida e de esperança, enquanto sinal de uma graça que continuamente é oferecida a todos e que, enquanto dom, convida às formas mais altas e abrangentes de partilha. Jesus de Nazaré faz resplandecer aos olhos de todos os homens o nexo entre solidariedade e caridade» (196): a solidariedade cristã exprime-se em gratuitidade total, perdão, reconciliação, reconhecimento do outro como imagem viva de Deus, capacidade de dar a vida pelo outro (mesmo que seja inimigo).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.1.15 | Sem comentários

Viver a fé! [15]


Este tema corresponde aos pontos quarto e quinto do quarto capítulo («Os princípios da Doutrina Social da Igreja») do Compêndio da Doutrina Social da Igreja: o princípio da subsidiariedade (números 185 a 188); a participação (números 189 a 191). Apresenta-se a origem e significado do princípio da subsidariedade, seguidos de indicações concretas para a aplicação do referido princípio. Depois, surgem os conteúdos referentes ao significado e valor da participação, bem como à sua relação com a democracia.

Origem e significado

O princípio da subsidiariedade explica-se em dois sentidos (positivo e negativo): «ajuda económica, institucional, legislativa oferecida às entidades sociais menores»; «impõem ao Estado abster-se de tudo o que, de facto, restrinja o espaço vital das células menores e essenciais da sociedade» (186). De facto, o princípio da dignidade humana exige «que se cuide da família, dos grupos, das associações, das realidades territoriais locais, por outras palavras, daquelas expressões agregativas de tipo económico, social, cultural, desportivo, recreativo, profissional, político, às quais as pessoas dão vida espontaneamente e que lhes tornam possível um efetivo crescimento social» (185).

Indicações concretas

«O princípio da subsidiariedade protege as pessoas dos abusos das instâncias sociais superiores e chama estas últimas a ajudar os indivíduos e os corpos intermédios a desempenhar as próprias funções. Este princípio impõe-se porque cada pessoa, família e corpo intermédio tem algo de original para oferecer à comunidade. A experiência revela que a negação da subsidiariedade ou a sua limitação em nome de uma pretensa democratização ou igualdade de todos na sociedade limita e, às vezes, também anula o espírito de liberdade e de iniciativa. Com o princípio da subsidiariedade estão em contraste formas de centralização, de burocratização, de assistencialismo, de presença injustificada e excessiva do Estado [...]. À atuação do princípio da subsidiariedade correspondem: o respeito e a promoção efetiva do primado da pessoa e da família; a valorização das associações e das organizações intermédias, nas próprias opções fundamentais e em todas as que não podem ser delegadas ou assumidas por outros; o incentivo oferecido à iniciativa privada, de tal modo que cada organismo social, com as próprias peculiaridades, permaneça ao serviço do bem comum; a articulação pluralista da sociedade e a representação das suas forças vitais; a salvaguarda dos direitos humanos e das minorias; a descentralização burocrática e administrativa; o equilíbrio entre a esfera pública e a privada, com o consequente reconhecimento da função social do privado; uma adequada responsabilização do cidadão no seu ‘ser parte ativa’ da realidade política e social do País» (187). Contudo, «diversas circunstâncias podem aconselhar a que o Estado exerça uma função de suplência. [...] Em todo caso, o bem comum corretamente entendido, cujas exigências não deverão de modo algum estar em contraste com a tutela e a promoção do primado da pessoa e das suas principais expressões sociais, deverá continuar a ser o critério de discernimento no que diz respeito à aplicação do princípio da subsidiariedade» (188).

A participação: significado e valor

A participação, uma «consequência caraterística da subsidiariedade», exprime-se «numa série de atividades mediante as quais o cidadão, como indivíduo ou associado com outros, diretamente ou por meio de representantes, contribui para a vida cultural, económica, política e social da comunidade civil a que pertence: a participação é um dever a ser conscientemente exercitado por todos, de modo responsável e em vista do bem comum. [...] Torna-se imprescindível a exigência de favorecer a participação» (189).

Participação e democracia

«A participação na vida comunitária não é somente uma das maiores aspirações do cidadão, chamado a exercitar livre e responsavelmente o próprio papel cívico com e pelos outros, mas também um dos pilares de todos os ordenamentos democráticos, além de ser uma das maiores garantias de permanência da democracia» (190). «A participação pode ser obtida em todas as possíveis relações entre o cidadão e as instituições [...]. A superação dos obstáculos culturais, jurídicos e sociais que não raro se interpõem como verdadeiras barreiras à participação solidária dos cidadãos na sorte da própria comunidade exige uma autêntica obra informativa e educativa» (191). Reprova-se, portanto, tudo o que possa impedir a participação: os regimes totalitários, ditatoriais ou de atuação semelhante; a burocracia exagerada.

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.1.15 | Sem comentários

SABOREAR A PRESENÇA DE DEUS


«A Bíblia é para comer» — escreve José Tolentino Mendonça, numa das notas que compõem a segunda parte da obra «A mística do instante» (ed. Paulinas). Saborear Deus! Saborear a Bíblia, palavra de Deus! Eis o «sentido» que propomos para os domingos do «Tempo Comum». O facto de, em português, assumir a designação de «comum» não significa que se trata de um tempo «fraco» (em contraponto com os chamados tempos «fortes»), pelo contrário é um «tempo fortíssimo» (Mario Chesi). O itinerário que propomos consiste em aprimorar o paladar, em fazer um «MasterChef» da saborosa presença de Deus na vida de cada ser humano. «Um grande mestre e pedagogo brasileiro, Rubem Alves [faleceu o ano passado], dizia que a coisa mais importante é a cozinha. Um professor, antes de levar o aluno para a sala, devia fazê-lo passar pela cozinha. A cozinha não dá o alimento, dá o desejo. O paladar não é uma máquina de satisfação, é uma máquina de criar desejo» (José Tolentino Mendonça), criar desejo de Deus!

Tempo Comum: saborear Deus

Um dos aspetos mais significativos do Ano Litúrgico é sua dinâmica contemplativa: em primeiro lugar, centra-se na vida de Jesus Cristo; em segundo lugar, envolve-nos na vida de um povo com o qual Deus preparou a realização desses acontecimentos. Vamos (continuar a) concentrar a nossa atenção neste segundo aspeto, apoiados nos textos bíblicos da primeira leitura de cada domingo. Mas sem deixar de lado o primeiro, até porque as primeiras leituras (ao domingo) procuram «um ato, uma profecia ou um ensinamento do Antigo Testamento que tenha relação com o evangelho que se lerá e nos prepare um pouco para o escutar. Às vezes, como são pedaços curtos e como não estamos, porventura, muito formados no conhecimento do Antigo Testamento, estas primeiras leituras passam um pouco despercebidas. Se temos tempo e vontade, pode ser bom procurá-las na Bíblia e ler a passagem anterior e posterior, com as notas de pé de página que possa haver, e assim ficaremos mais inteirados e passaremos a conhecer um pouco melhor os livros do Antigo Testamento» (Josep Lligadas, «Celebrar o Ano Litúrgico», ed. Paulinas).
Acompanhar a vida dum povo, através dos textos proclamados na primeira leitura de cada domingo, permite-nos saborear cada palavra e cada gesto para neles descobrir o sabor de Deus, não só nesses acontecimentos narrados, mas também na nossa própria história. «Quando é que saboreamos? Quando detemos o mero exercício de devoração do mundo; quando se introduz uma lentidão interior; quando contemplamos com as papilas gustativas; quando o nosso corpo contempla; quando, todo concentrado, ele observa, surpreende-se, avizinha, entreabre o segredo, deixa essa espécie de epifania revelar-se. O sabor é sempre uma forma de intimidade que supõe o contacto profundo» (José Tolentino Mendonça).
A meta é compreendermos que «o paladar não é indiferente ao amor de Deus como não é de todo indiferente a qualquer amor. Deus saboreia-se, Deus é sabor». Ora, «o sabor não é uma coisa que possuímos exteriormente; é, como em todas as experiências que requerem uma arte de ser, uma coisa em que nos tornamos».

Laboratório da Fé vivida

«O sabor revela, ilumina, dissemina-se por dentro de nós até tornar-se vida». A sequência dos domingos «durante o ano» (interrompida pelos tempos de Quaresma e Páscoa) é um tempo adequado para fazermos o exercício de saborear calmamente a presença de Deus na nossa vida. Calmamente, pois «sem lentidão não há paladar. Talvez precisemos, por isso, de voltar a essa arte tão humana que é a lentidão. Os nossos estilos de vida parecem irremediavelmente contaminados por uma pressão que não dominamos; não há tempo a perder; queremos alcançar as metas o mais rapidamente que formos capazes; os processos desgastam-nos, as perguntas atrasam-nos, os sentimentos são um puro desperdício: dizem-nos que temos de valorizar resultados, apenas resultados. […] Uma alternativa será porventura resgatar a nossa relação com o tempo. Por tentativas, por pequenos passos. Ora, isso não acontece sem um abrandamento interno. […] A lentidão anota os pequemos tráficos de sentido, o manuseamento diversificado da luz, as trocas de sabor».

© Laboratório da fé, 2015


Tempo Comum, Ano B, Ano Pastoral 2014'15

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.1.15 | Sem comentários

Viver a fé! [14]


O terceiro ponto do quarto capítulo («Os princípios da Doutrina Social da Igreja») do Compêndio da Doutrina Social da Igreja é dedicado ao princípio do destino universal dos bens (números 171 a 184). Este é apresentado como uma das «multíplices implicações do bem comum» (171) [cf. tema 13]. A apresentação que se segue é desenvolvida em três alíneas: origem e significado (números 171 a 175); destino universal dos bens e propriedade privada (números 176 a 181); destino universal dos bens e opção preferencial pelos pobres (números 182 a 184).

Origem e significado

O princípio do destino universal dos bens tem a sua origem em Deus «que criou a Terra e o homem e ao homem deu a Terra para que a domine com o seu trabalho e goze dos seus frutos [...], sem excluir nem privilegiar ninguém» (171). Por isso, «o princípio do destino universal dos bens da Terra está na base do direito universal ao uso dos bens» (172). Trata-se de um direito natural, fundamental e prioritário. Contudo, «a atuação concreta» deste princípio «implica uma precisa definição dos modos, dos limites, dos objetos. Destino e uso universal não significam que tudo esteja à disposição de cada um ou de todos, nem mesmo que a mesma coisa sirva ou pertença a cada um ou a todos» (173). Além disso, «o princípio do destino universal dos bens convida a cultivar uma visão da economia inspirada em valores morais que permitam nunca perder de vista nem a origem, nem a finalidade de tais bens, de modo a realizar um mundo equitativo e solidário» (174). «Comporta, portanto, um esforço comum que visa obter para qualquer pessoa e para todos os povos as condições necessárias ao desenvolvimento integral, de modo que todos possam contribuir para a promoção de um mundo mais humano» (175).

Destino universal dos bens e propriedade privada

A origem da propriedade individual ou privada radica na capacidade dada a cada ser humano de «dominar a Terra e torná-la sua digna morada. [...] É elemento essencial de uma política económica autenticamente social e democrática» (176). Note-se, porém, que «a tradição cristã nunca reconheceu o direito à propriedade privada como absoluto e intocável: ‘Pelo contrário, sempre o entendeu no contexto mais vasto do direito comum de todos a utilizarem os bens da criação» (177). Por conseguinte, a Igreja «exorta a reconhecer a função social de qualquer forma de posse privada, com a clara referência às exigências imprescindíveis do bem comum» (178). Entretanto, o tempo atual «impõe uma releitura do princípio do destino universal dos bens da Terra, tornando necessário estendê-lo de sorte a que compreenda também os frutos do recente progresso económico e tecnológico» (179). «Não se pode, todavia, esquecer as tradicionais. A propriedade individual não é a única forma legítima de posse. Reveste também particular importância a antiga forma de propriedade comunitária» (180). Uma nota final sobre as vantagens da propriedade — «melhores condições de vida, segurança para o futuro, oportunidades de escolha mais amplas» — , mas também dos perigos («promessas ilusórias e tentadoras»): ao «absolutizar o papel da propriedade acabam por experimentar a mais radical escravidão» (181).

Destino universal dos bens e opção preferencial pelos pobres

«A miséria humana é o sinal manifesto da condição de fragilidade do homem e da sua necessidade de salvação. Dela teve compaixão Cristo Salvador, que Se identificou com os seus ‘irmãos mais pequeninos’ (Mateus 25)» (183). Por isso, «o princípio do destino universal dos bens requer que se cuide com particular solicitude dos pobres, daqueles que se acham em posição de marginalidade e, em todo o caso, das pessoas cujas condições de vida impedem o seu crescimento adequado [...], não pode deixar de abranger as imensas multidões de famintos, de mendigos, sem-teto, sem assistência médica e, sobretudo, sem esperança de um futuro melhor» (182). Ora, «o amor da Igreja pelos pobres inspira-se no Evangelho das bem-aventuranças, na pobreza de Jesus e na sua atenção aos pobres. Tal amor refere-se à pobreza material e também às numerosas formas de pobreza cultural e religiosa. A Igreja, ‘desde as origens, apesar das falhas de muitos dos seus membros, nunca deixou de trabalhar por aliviá-los, defendê-los e libertá-los; fê-lo através de inúmeras obras de beneficência, que continuam indispensáveis, sempre e em toda a parte’. Inspirada no preceito evangélico [...], a Igreja ensina a socorrer o próximo nas suas várias necessidades e difunde na comunidade humana inúmeras obras de misericórdia corporais e espirituais» (184).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.1.15 | Sem comentários

Reflexão mensal sobre as obras de misericórdia [4]


«Partilhar a roupa é um gesto de intimidade que implica delicadeza, discrição e ternura, pois tem diretamente a ver com o corpo do outro, [...] o rosto descoberto, que permanece nu. [...] Só na medida em que o ‘vestir os nus’ é encontro de nudez, a nudez do rosto de quem dá e do rosto de quem recebe, e sobretudo a nudez dos olhos, que são a parte mais exposta do rosto esse gesto deixa de correr o risco de ser humilhante, e dá-se no único espaço que confere verdade a cada gesto de caridade: o encontro com o outro» (Luciano Manicardi).

A nudez

«Saí nu do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá» (Job 1, 21). A vida humana desenrola-se entre duas nudezas: a nudez do início da vida, e a nudez do fim da vida. Duas nudezas diferentes porque, no meio ocorre o processo de subjetivação: se nascemos nus, no fim da vida despojamo-nos [das vestes]. Como é óbvio, trata-se de um processo físico que tem a ver com a nudez do recém-nascido e com a nudez do morto, mas também tem um valor psicológico e simbólico: no fim da vida abandonamos aquilo a que nos tínhamos ligado, deixamos aquilo a que nos tínhamos habituado, vivemos um luto. Neste processo, a carne que o recém-nascido é torna-se corpo, e o corpo, com a morte, torna-se cadáver. Além disso, a nudez do recém-nascido e do cadáver é sempre revestida por outros, enquanto, na fase da subjetividade, o ser humano se veste a si próprio, exceto nos casos de impossibilidade por doença ou deficiência. O ato de vestir a nudez do início e do fim da vida coloca toda a existência humana sob o signo dos cuidados necessários ao nosso ser-corpo. O vestir-se é uma arte que a criança aprende, graças à mãe que o veste; mais tarde, o ancião tem muitas vezes de pedir ajuda para se vestir e para se despir. Além disso, ao longo da sua vida, há situações de pobreza e de miséria que podem despojar dos bens e reduzir à nudez, uma nudez que significa não só exposição às inclemências do tempo, mas também humilhação, indignidade, inermidade, ausência de defesas, perigo. A nudez é abandono ao estado natural, ao passo que o vestir é obra de cultura e distingue o humano dos animais. A roupa traduz o sentido de pudor que talvez seja o mais antigo gesto que nos distingue dos animais e que não se limita ao âmbito sexual, mas que abarca a totalidade do ser humano.

Vestir os nus

Não ter roupa ou estar quase nus ou cobertos de farrapos é uma condição que tem importantes conotações psicológicas e espirituais. Na Bíblia, uma boa parte do valor simbólico da nudez é negativa: trata-se da nudez que retira identidade, da nudez do anónimo, do sem dignidade: o escravo que é vendido, o preso privado da liberdade, a prostituta exposta aos olhares de todos, o doente mental que vive numa condição de alienação. A Bíblia mostra particular interesse pela nudez inocente e humilhada do pobre, da vítima, do marginal. A simples referência à mesma significa já dar voz a quem não tem voz e pretende suscitar a compaixão ativa de quem depara com tais situações. Na tradição cristã ocidental, o gesto de vestir os nus é expresso, de um modo conhecido de todos, pelo episódio em que Martinho de Tours corta o próprio manto para reparti-lo com um pobre indefeso dos rigores de um inverno gélido. O revestimento da nudez não se encontra apenas no início da vida humana e da passagem da natureza à cultura, mas também tem uma importância significativa na iniciação cristã, como o denota a antiga práxis batismal (do século III ao século VI). No fim do século IV, na região siríaca, o desenrolar do rito batismal compreendia o ato com o qual o/a neófito/a se despojava das próprias vestes e as espezinhava; a unção do seu corpo nu; a imersão (ainda completamente nu) nas águas batismais; e, por fim, o ato pelo qual, tendo saído da piscina, o neobatizado era revestido com uma túnica branca. A nudez gloriosa de Cristo morto (na cruz, o condenado estava completamente nu, para significar a sua indignidade) e ressuscitado reveste e protege o recém-batizado, que agora sabe que já se encontra mergulhado numa vida nova, tendo-se «revestido de Cristo»: «Batizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo» (Gálatas 3, 27).

A consolação

A consolação é uma prática que o ser humano enquanto tal conhece, deseja, pede, concretiza, frente às situações de morte, de sofrimento físico e moral, de velhice, de solidão e abandono; ou melhor, frente a pessoas enlutadas, em sofrimento, entregues à sua velhice, isolamento e abandono. A Antiguidade desenvolveu uma verdadeira arte da consolação que se foi diversificando em relação às diversas situações de aflição (um luto também é diferente se se refere a uma morte inesperada, a uma morte trágica, à morte de uma criança recém-nascida, à morte de um filho já crescido, a uma morte prematura ou à morte de um idoso). A arte de consolar consistia numa presença compassiva, na capacidade de proferir palavras sentidas como expressão de encorajamento e de proximidade, através de visitas de condolências e de bilhetes ou cartas em tom consolador. O verbo grego que indica o ato de consolar («parakalein»), significa, a um primeiro nível, «chamar para junto de si», «mandar chamar», significa em seguida «exortar», «suplicar» e também «consolar». Mediante a consolação tenta-se criar uma proximidade, fazer «presença junto de» quem está na desolação e no isolamento. É certo que, por vezes, a consolação pode ser transmitida por palavras. Na primeira carta aos cristãos de Tessalónica, Paulo anuncia a esperança cristã frente à morte para consolar uma comunidade aflita com a morte de alguns dos seus membros, e conclui: «Consolai-vos mutuamente com estas palavras» (4, 18). Todavia, muitas vezes, sobretudo quando quem está na aflição é uma única pessoa, as palavras revelam-se inadequadas, ou antes, inimigas de uma verdadeira consolação. Os amigos que foram ter com Job «para consolá-lo», depois de se terem colocado ao lado do desventurado com lamentos, prantos, gestos de luto e, por fim e acima de tudo, com um longo silêncio, «pois viram que a sua dor era demasiado grande» (Job 2, 11-13), quando começaram a falar arruinaram a sua presença ali, revelando-se «consoladores importunos» (Job 16, 2). E Job sabe desmascarar a consolação falsa e vazia. Uma verdadeira consolação consiste numa presença capaz de escuta. Uma presença que não avilta a desgraça do aflito com palavras falsamente tranquilizantes e ilusoriamente espirituais, com discursos teológicos, que, inevitavelmente, não alcançam a tragédia que a pessoa está a viver, antes, dela se distanciam. Muitas vezes, apressar discursos é sinal de angústia e de medo frente à aflição do aflito. Mais difícil, mas mais capaz de alcançar o outro na sua dor, é escutar o seu sofrimento, deixar que seja o seu silêncio, o seu estado de espírito, a sugerir gestos, tempos, movimentos, silêncios, palavras, olhares, abraços, carícias, distâncias, para lhes poderem servir realmente de consolação.

Consolar os tristes

A consolação tem os seus tempos, tal como a tristeza. Temos de nos despojar das formas de «poder» que nos podem habitar, de renunciar às respostas salvíficas, à ilusão de possuir «técnicas» de consolação. Além disso, aquele que se faz próximo de quem está «triste» nunca poderá substituí-lo, caso contrário, a sua ação será de violência, e não de encontro nem de consolação. Vital, na ação de consolação, é evitar a presunção de que se sabe e pode consolar, do delírio de omnipotência de pensar que o bem-estar do outro dependa de nós. A consolação não é uma intervenção anestésica. Trata-se de entrar, de certo modo, na situação do outro, ou melhor, de estar ao lado do outro e de mostrar empatia comunicando-lhe o nosso sentimento, que ocorre mediante uma sábia e equilibrada relação de tensão do corpo, atenção da mente e sensibilidade das emoções. Realidade desanimadora, pelo contrário, é que, muitas vezes, não há quem console. Na Bíblia repete-se com frequência esta lamentação: «Esperava alguém que me consolasse, mas não encontrei» (Salmo 69, 21), ou esta amarga constatação: «Vede as lágrimas dos oprimidos: eles não têm consolador. Os seus opressores fazem-lhes violência: eles não têm consolador» (Eclesiastes 4, 1). Entre as expressões usadas há o «falar ao coração» (Génesis 50, 21; Isaías 40, 1-2), que designa o gesto amoroso e afetuoso de quem apoia a cabeça sobre o peito da pessoa amada e lhe dirige palavras que pretendem atingi-la profundamente, no coração. Trata-se de uma comunicação íntima e pessoalíssima. Se o próprio Deus é o verdadeiro sujeito da consolação, a sua ação de consolador é descrita recorrendo às imagens de uma mãe (cf. Isaías 66, 13) e de um pastor (cf. Isaías 40, 11). Assim, a consolação revela-se como elemento essencial do cuidado que Deus tem pelo seu povo e pelas suas criaturas, cuidado esse que tende para a plenitude de vida do seu povo. É significativo que a imagem talvez mais comovente, que exprime a salvação escatológica, seja a de Deus que enxuga as lágrimas dos olhos das criaturas (cf. Apocalipse 7, 17; 21, 4). É verdade que a consolação definitiva, no Cristianismo, é escatológica, é obra de Deus, porque pretende ser consolação radical frente ao mal e ao pecado. Esta consolação só pode vir de Deus.

Entre as mais praticáveis... 
obras de misericórdia espirituais, 
há uma sempre necessária [...]: 
consolar os aflitos. 
A civilização contemporânea 
teme os aflitos e foge deles, 
e não sabe transmitir 
o contágio da consolação.
Paolo de Benedetti

© Laboratório da fé, 2015
Este texto foi elaborado a partir da obra de Luciano Manicardi intitulada «A caridade dá que fazer: Redescobrindo a atualidade das ‘obras de misericórdia’» (páginas 103 a 110 e 179 a 186) publicada em português pelas edições Paulinas





Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.1.15 | Sem comentários

Viver a fé! [13]


«Da dignidade, unidade e igualdade de todas as pessoas deriva, antes de tudo, o princípio do bem comum, com o qual se deve relacionar cada aspeto da vida social para encontrar pleno sentido» (número 164) — assim começa o segundo ponto do quarto capítulo («Os princípios da Doutrina Social da Igreja») do Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Este ponto é dedicado ao princípio do bem comum que vamos resumir neste tema de acordo com as seguintes alíneas: «significado e principais implicações» (números 164 e 165); «a responsabilidade de todos pelo bem comum» (números 166 e 167); «as tarefas da comunidade política» (números 168 a 170).

Significado e principais implicações

Para chegarmos ao significado do «bem comum» podemos partir da seguinte definição: o bem comum, que «pode ser entendido como a dimensão social e comunitária do bem moral», compreende «‘o conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição’. O bem comum não consiste na simples soma dos bens particulares de cada sujeito do corpo social. Sendo de todos e de cada um, é e permanece comum, porque indivisível e porque somente juntos é possível alcançá-lo, aumentá-lo e conservá-lo, também em vista do futuro. Assim como o agir moral do indivíduo se realiza fazendo o bem, assim o agir social alcança a plenitude realizando o bem comum» (164). Ora, «uma sociedade que, em todos os níveis, quer intencionalmente estar ao serviço do ser humano é a que se propõe como meta prioritária o bem comum, enquanto bem de todos os homens e do homem todo. A pessoa não pode encontrar plena realização somente em si mesma, prescindindo do seu ser ‘com’ e ‘pelos’ outros» (165).

A responsabilidade de todos pelo bem comum

«O bem comum empenha todos os membros da sociedade: ninguém está escusado de colaborar, de acordo com as próprias possibilidades, na sua busca e no seu desenvolvimento» (167). E «todos têm também o direito de fruir das condições de vida social criadas pelos resultados da consecução do bem comum» (167). Neste sentido, «as exigências do bem comum derivam das condições sociais de cada época e estão estreitamente conexas com o respeito e com a promoção integral da pessoa e dos seus direitos fundamentais» (166), tais como: o empenho pela paz, a organização dos poderes do Estado, uma sólida ordem jurídica, a proteção do ambiente, a prestação dos serviços essenciais à pessoa (alimentação, habitação, trabalho, educação, cultura, saúde, transportes, livre circulação das informações e liberdade religiosa). Por conseguinte, «o bem comum corresponde às mais elevadas inclinações do ser humano, mas é um bem difícil de alcançar, porque exige a capacidade e a busca constante do bem de outrem como se fosse próprio» (167). Além disso, «o bem comum exige ser servido plenamente, não segundo visões redutoras subordinadas às vantagens parciais que dele se podem retirar, mas com base numa lógica que tende à mais ampla responsabilização. [...] Soa ainda atual o ensinamento de Pio XI segundo o qual se deve procurar que a repartição dos bens criados, a qual não há quem não reconheça ser hoje causa de gravíssimos inconvenientes pelo contraste estridente que há entre os poucos ultrarricos e a multidão inumerável dos indigentes, seja reconduzida à conformidade com as normas do bem comum e da justiça social» (167).

As tarefas da comunidade política

«A responsabilidade de perseguir o bem comum compete não só às pessoas consideradas individualmente, mas também ao Estado, pois que o bem comum é a razão de ser da autoridade política. Na verdade, o Estado deve garantir coesão, unidade e organização à sociedade civil da qual é expressão, de modo que o bem comum possa ser conseguido com o contributo de todos os cidadãos» (168). O Estado «tem a tarefa específica de harmonizar com justiça os diversos interesses setoriais», tendo em conta, não só «as orientações da maioria, mas também na perspetiva do bem efetivo de todos os membros da comunidade civil, inclusive dos que estão em minoria» (169). A terminar recorda-se que «o bem comum da sociedade não é um fim isolado em si mesmo; ele tem valor somente em referência à obtenção dos fins últimos da pessoa e ao bem comum universal de toda a criação. [...] Uma visão puramente histórica e materialista acabaria por transformar o bem comum em simples bem-estar económico, destituído de qualquer finalização transcendente ou da sua mais profunda razão de ser» (170).

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.1.15 | Sem comentários

Viver a fé! [12]


«Os princípios da doutrina social da Igreja» é o tema do quarto capítulo que encerra a primeira parte do Compêndio da Doutrina Social da Igreja (números 160 a 208). Neste e nos próximos temas, vamos aprofundar o conteúdo de cada um dos pontos do quarto capítulo: I. Significado e unidade dos princípios (conteúdo deste tema: números 160 a 163); II. O princípio do bem comum (números 164 a 170); III. O destino universal dos bens (números 171 a 184); IV. O princípio da subsidiariedade (números 185 a 188); V. A participação (números 189 a 191); VI. O princípio da solidariedade (números 192 a 196); VII. Os valores fundamentais da vida social (números 197 a 203); VIII. A vida da caridade (números 204 a 208). O princípio da dignidade da pessoa humana não aparece no quarto capítulo, uma vez que já foi objeto de estudo pormenorizado no capítulo anterior (cf. temas 8 a 11).

Princípios permanentes

A dignidade da pessoa humana é o princípio fundamental de todos «os demais princípios ou conteúdos da doutrina social da Igreja». Entre eles, destacam-se os princípios do bem comum, da subsidiariedade e da solidariedade, considerados os «princípios permanentes da doutrina social da Igreja. [...] A Igreja, no curso da história e à luz do Espírito, refletindo sapientemente no seio da própria tradição de fé, pôde dar-lhes fundamentação e configuração cada vez mais acuradas, individualizando-os progressivamente no esforço de responder com coerência às exigências dos tempos e aos contínuos progressos da vida social» (160).

Significado dos princípios

«Estes princípios têm um caráter geral e fundamental, pois que se referem à realidade social no seu conjunto: das relações interpessoais, caracterizadas pela proximidade e por serem imediatas, às mediadas pela política, pela economia e pelo direito; das relações entre indivíduos ou grupos às relações entre os povos e as nações. Pelas suas permanência no tempo e universalidade de significado, a Igreja indica-os como primeiro e fundamental parâmetro de referência para a interpretação e o exame dos fenómenos sociais necessários, porque a partir deles se pode apreender os critérios de discernimento e de orientação do agir social, em todos os âmbitos» (161).

Unidade dos princípios

«Os princípios da doutrina social devem ser apreciados nas suas unidade, conexão e articulação. Uma tal exigência tem as suas raízes no significado que a Igreja mesma atribui à própria doutrina social: ‘corpus’ doutrinal unitário que interpreta de modo orgânico as realidades sociais. A atenção a cada princípio na sua especificidade não deve levar ao seu emprego parcial e errado [...]. Estes eixos fundamentais da doutrina da Igreja representam, além disso, bem mais do que um património permanente de reflexão que, diga-se a propósito, é parte essencial da mensagem cristã, pois indicam todos os caminhos possíveis para edificar uma vida social verdadeira, boa, autenticamente renovada» (162). Importa ainda referir que «os princípios da vida social, no seu conjunto, constituem aquela primeira articulação da verdade da sociedade pela qual cada consciência é interpelada e convidada a interagir com todas as demais, na liberdade, em plena corresponsabilidade com todos e em relação a todos. À questão da verdade e do sentido do viver social, com efeito, o homem não se pode furtar, pois a sociedade não é uma realidade estranha ao seu próprio existir. Estes princípios têm um significado profundamente moral porque remetem para os fundamentos últimos e ordenadores da vida social. Para os compreender plenamente, é preciso agir na sua direção, na via do desenvolvimento por eles indicado para uma vida digna do homem. A exigência moral ínsita nos grandes princípios sociais concerne quer ao agir pessoal dos indivíduos, enquanto primeiros e insubstituíveis sujeitos da vida social em todos os níveis, quer, ao mesmo tempo, às instituições, representadas por leis, normas consuetudinárias e estruturas civis, dada a sua capacidade para influenciar e condicionar as opções de muitos e por muito tempo. Os princípios recordam, com efeito, que a sociedade historicamente existente promana do entrelace das liberdades de todas as pessoas que nela interagem, contribuindo, mediante as suas opções, para edificá-la ou para empobrecê-la» (163).

«A Doutrina Social contém um património de reflexão e de esperança que é capaz também hoje de orientar as pessoas e de as manter livres. [...] A Doutrina Social, quando é vivida, gera esperança» (Francisco, Mensagem para o terceiro festival da Doutrina Social da Igreja, 21 a 24 de novembro de 2013).

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.12.14 | Sem comentários

VOLTA A OLHAR O HOMEM PELA PRIMEIRA VEZ


A História da Salvação desvela-se numa aproximação progressiva de Deus ao ser humano, de modo mais explícito a partir de Abr(a)ão, o pai dos crentes, convidado a levantar os olhos. E à medida que Deus se aproxima, o ser humano tem a possibilidade de se «deixar ver» e também de «ver» a Deus. Há um verdadeiro intercâmbio de olhares! Da parte de Deus, a aproximação ao humano culmina numa jovem, filha de Israel, natural de Nazaré: Maria. Nela, o Verbo de Deus faz-se carne, humanidade frágil. E, nela, a carne é envolvida pela glória divina: a «imagem e semelhança» do princípio encontram a sua profundidade mais plena em Jesus Cristo, Deus nascido de uma mulher. Neste Filho, é-nos oferecido um irmão e é-nos concedida uma paternidade insólita: a divina. Somos filhos de Deus Pai; não somos escravos nem marionetas de um deus falsificado. É necessário que o nosso coração se dilate a fim de que nele haja lugar para este Menino que nos fala da ternura de Deus.

Natal: volta a olhar o homem pela primeira vez

Natal é a festa do humano. Do humano, mas a partir de Deus. Todavia, Deus valoriza o humano de uma forma diferente da nossa. Nós preferimos valorizar os bonitos, os fortes, os poderosos, os inteligentes… os ricos. Deus mostra o valor divino do humano a partir daqueles que nos parecem menos humanos, aqueles e aquelas a quem tantas vezes excluímos da festa da humanidade. É, por isso, que Deus inaugura a festa do humano entre nós com a revelação, em primeiro lugar, aos que vivem na «periferia»: aos excluídos (pastores) e aos que «não são dos nossos» (magos). Por isso, o Natal, festa do humano, apresenta-se como um desafio a converter o nosso olhar ao verdadeiramente e mais profundamente humano.
Em continuidade com o Advento, propomos um tempo de Natal sob o signo do «olhar», mergulhados na «mística do instante» ou «de olhos abertos». «A mística de olhos abertos não se dirige a um Deus distante: ela vive na consciência de estar continuamente diante dele. [...] De facto, se acontece não o vermos, não é por estar demasiado distante, mas por ser demasiado próximo» (José Tolentino Mendonça). Assim também proclama o poeta: «Queres saber o lugar da morada de Deus? Volta a olhar o homem pela primeira vez. Pois o Verbo de Deus acampou entre nós».
Isaías continua também a ser o nosso «guia», o profeta que nos desafia a ter os olhos sempre bem abertos. Agora, a sua profecia joga com a figura do mensageiro e das sentinelas, ambos imprescindíveis, na antiguidade, para anunciar o perigo ou o êxito. Desta vez, o mensageiro traz notícias de paz e de vitória. Uma imagem reforçada pelos verbos: «anuncia a paz, traz a boa notícia, proclama a salvação». E são as sentinelas que «veem com os próprios olhos o Senhor». Este anúncio libertador e salvador, primeiro circunscrito a Jerusalém, estende-se a toda a humanidade: «todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus». Hoje, para nós, cristãos, a boa notícia (evangelho) não é que as «ruínas de Jerusalém» recuperam a esperança e a alegria; elas são um símbolo de como Deus nunca abandona o seu povo e de como é preciso abrir os olhos, quais sentinelas dos tempos hodiernos, cheias de alegria, «porque veem com os próprios olhos o Senhor».

Laboratório da Fé vivida

«O modo como vemos decide a qualidade do nosso viver». José Saramago, na epígrafe do «Ensaio sobre a cegueira», recorda: «Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara». Natal é tempo de reparar, «de ‘tomar conta da Palavra para que Ela tome conta de nós’. A Palavra com letra maiúscula ou, se preferirmos, o Verbo que se fez homem e veio habitar connosco. O nascimento de Cristo significa, por isso, o apelo a uma palavra diferente da nossa parte. Uma palavra vinculada a Cristo, inspirada nos gestos e nas ações que Ele realizou, uma palavra que seja testemunho para a sociedade» (Mensagem de Natal do Arcebispo). Entre os gestos realizados por Jesus Cristo destaca-se a forma como olha cada pessoa. «No olhar de Jesus, encontramos o olhar amoroso de Deus que anda à procura do Homem nos sítios mais improváveis, para transformar o seu coração. […] Jesus é o protagonista, é sua a iniciativa, mesmo que o motivo seja a nossa cegueira, a nossa maneira de viver ou de interpretar este instante». Jesus «Cristo é o terapeuta do olhar. Estende-nos a ponte para passarmos do ver ao contemplar e do simples olhar à visão da fé».

© Laboratório da fé, 2014



Volta a olhar o homem pela primeira vez

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.12.14 | Sem comentários

Viver a fé! [11]


O terceiro capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja («a pessoa e os seus direitos») conclui com uma referência específica aos direitos humanos (números 152 a 159). A Organização das Nações Unidas define-os como «os direitos que todas as pessoas têm, em virtude da sua condição humana comum, de viver em liberdade e dignidade. Dão a todas pessoas direitos morais sobre o comportamento dos indivíduos e sobre o desenho da organização social — e são universais, inalienáveis e indivisíveis». É este o objeto de estudo e reflexão no tema que aqui apresentamos, de acordo com as alíneas propostas no Compêndio da Doutrina Social da Igreja: «o valor dos direitos humanos» (números 152 a 154); «a especificação dos direitos» (155); «direitos e deveres» (156); «direitos dos povos e das nações» (157); «colmatar a distância entre letra e espírito» (158 e 159).

O valor dos direitos humanos

A Igreja afirma que a promoção e a defesa dos direitos humanos são «um dos mais relevantes esforços para responder, de modo eficaz, às exigências imprescindíveis da dignidade humana» (152). Por isso, a Igreja congratulou-se com a Declaração Universal dos Direitos do Homem, proclamada pelas Nações Unidas a 10 de dezembro de 1948. Os direitos humanos têm de ser sempre tutelados no seu conjunto e nunca parcialmente: «universalidade e indivisibilidade são os traços distintivos dos direitos humanos». Eles «correspondem às exigências da dignidade humana e comportam, em primeiro lugar, a satisfação das necessidades essenciais da pessoa, em campo espiritual e material» (154). «A fonte última dos direitos humanos não se situa na mera vontade dos seres humanos, na realidade do Estado, nos poderes públicos, mas no mesmo homem e em Deus, seu Criador. Tais direitos são ‘universais e invioláveis […] absolutamente inalienáveis’. Universais, porque estão presentes em todos os seres humanos, sem exceção alguma de tempo, lugar e sujeitos. Invioláveis, enquanto ‘inerentes à pessoa humana e à sua dignidade’ e porque ‘seria vão proclamar os direitos, se simultaneamente não se envidassem todos os esforços a fim de que seja devidamente assegurado o seu respeito por parte de todos, em toda a parte e em relação a quem quer que seja’. Inalienáveis, enquanto ‘ninguém pode legitimamente privar destes direitos um seu semelhante, seja ele quem for, porque isso significaria violentar a sua natureza’». (153).

A especificação dos direitos

O Magistério da Igreja, nos seus diversos documentos, apresenta o direito à vida, «desde o momento da sua conceção até ao seu fim natural», como o principal direito que «condiciona o exercício de qualquer outro direito» (155). Outros direitos fundamentais são: o direito a viver numa família; o direito a maturar a sua inteligência e liberdade na procura e no conhecimento da verdade; o direito ao trabalho; o direito a fundar uma família; o direito à liberdade religiosa.

Direitos e deveres

«Intimamente conexo com o tema dos direitos é o tema dos deveres [...]. Os que reivindicam os próprios direitos, mas se esquecem por completo dos seus deveres ou lhes dão menor atenção assemelham-se a quem constrói um edifício com uma das mãos e o destrói com a outra» (156).

Direitos dos povos e das nações

«O campo dos direitos humanos alargou-se aos direitos dos povos e das nações: com efeito, ‘o que é verdade para os homens é também verdade para os povos’. [...] A paz funda-se não só no respeito pelos direitos do homem, mas também no respeito pelo direito dos povos, sobretudo o direito à independência. [...] A nação tem um ‘fundamental direito à existência’; à ‘própria língua e cultura’; a ‘modelar a própria vida segundo as suas tradições, excluindo, naturalmente, todas as violações dos direitos humanos’; a ‘edificar o próprio futuro, oferecendo às gerações mais jovens uma educação apropriada’» (157).

Colmatar a distância entre letra e espírito

Infelizmente, constatamos que a violência, as guerras, os genocídios, as deportações, a escravatura, o tráfico e a exploração dos seres humanos, as crianças-soldado, o tráfico de droga, dão a conhecer «uma distância entre a ‘letra’ e o ‘espírito’ dos direitos» (158) humanos. A Igreja inclui na sua missão «a defesa e a promoção dos direitos fundamentais [...]. O empenho pastoral desenvolve-se numa dúplice direção: de anúncio do fundamento cristão dos direitos do homem e de denúncia das violações de tais direitos: em todo caso, ‘o anúncio é sempre mais importante do que a denúncia; e esta não pode prescindir daquele, que lhe dá a verdadeira solidez e a força da motivação mais alta’» (159).

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.12.14 | Sem comentários

Viver a fé! [10]


Neste tema concluímos os «perfis» (números 124 a 151) da pessoa humana (terceiro ponto do terceiro capítulo — «A pessoa e os seus direitos» — do Compêndio da Doutrina Social da Igreja: «A pessoa humana e os seus vários perfis»), de acordo com o referido na temática anterior: a liberdade da pessoa; a igualdade em dignidade de todas as pessoas; sociabilidade humana.

A liberdade da pessoa

«O homem pode orientar-se para o bem somente na liberdade, que Deus lhe deu como sinal altíssimo da sua imagem: ‘Deus quis deixar o homem entregue à sua própria decisão, para que procure por si mesmo o seu Criador e, aderindo a Ele, atinja uma plena e bem-aventurada perfeição’» (135). Por isso, «a liberdade não se opõe à dependência criacional do homem em relação a Deus» (136). Ora, «o reto exercício do livre arbítrio exige precisas condições de ordem económica, social, política e cultural que ‘são por demais desprezadas e violadas’» (137). «No exercício da liberdade, o homem opera atos moralmente bons, construtivos da pessoa e da sociedade, quando obedece à verdade, ou seja, quando não pretende ser criador e senhor absoluto desta última e das normas éticas» (138). «A verdade sobre o bem e o mal é reconhecida, prática e concretamente, pelo juízo da consciência, o qual leva a assumir a responsabilidade do bem realizado e do mal cometido» (139). Ora, «o exercício da liberdade implica a referência a uma lei moral natural, de caráter universal, que precede e unifica todos os direitos e deveres. [...] Esta lei é chamada natural porque a razão que a promulga é própria da natureza humana. Ela é universal, estende-se a todos os homens» (140). E sendo «imutável», «na diversidade das culturas, a lei natural liga os homens entre si, impondo princípios comuns. Porquanto a sua aplicação requeira adaptações à multiplicidade de condições de vida, segundo os lugares, as épocas e as circunstâncias» (141). Infelizmente, «a liberdade é misteriosamente inclinada a trair a abertura à verdade e ao bem humano e, muito frequentemente, prefere o mal e o fechamento egoísta» (143). Face ao exposto, tudo o que diz respeito à «lei natural, que é lei de Deus, não pode ser cancelada pela iniquidade humana. Ela constitui o fundamento moral indispensável para edificar a comunidade dos homens e para elaborar a lei civil» (142).

A igualdade em dignidade de todas as pessoas

Todos os seres humanos, sem exceção, «têm a mesma dignidade», pois todos são «imagem e semelhança de Deus». Ora, «a dignidade de cada homem diante de Deus é o fundamento da dignidade do homem perante os outros homens» (144). E é este reconhecimento mútuo da dignidade de cada um que torna «possível o crescimento comum e pessoal de todos». Por isso, «as condições de equidade e de paridade são o pressuposto para um autêntico progresso da comunidade internacional» (145). Neste contexto, é fundamental lembrar que as diferenças entre «masculino» e «feminino» não beliscam em nada a «igual dignidade» do homem e da mulher. «Porém não refletem uma igualdade estática, porque o específico feminino é diferente do específico masculino e esta diversidade na igualdade é enriquecedora e indispensável para uma harmoniosa convivência humana» (146). «Mulher e homem completam-se mutuamente, não somente do ponto de vista físico e psíquico, mas também do ponto de vista ontológico» (147). Na defesa da igual dignidade de todos, é também importante reter que «as pessoas deficientes são sujeitos plenamente humanos, titulares de direitos e deveres» (148).

Sociabilidade humana

«A pessoa é constitutivamente um ser social [...]: um ser livre e responsável, que reconhece a necessidade de se integrar e de colaborar com os próprios semelhantes e é capaz de comunhão com eles na ordem do conhecimento e do amor [...]. A vida social, portanto, não é algo de exterior ao homem, o qual não pode crescer e realizar a sua vocação senão em relação com os outros» (149). Esta vocação para viver em sociedade não se realiza de forma «uniforme, mas assume multíplices expressões. O bem comum depende, efetivamente, de um são pluralismo social. [...] Algumas sociedades, como a família, a comunidade civil e a comunidade religiosa, são mais imediatamente conexas com a íntima natureza do homem, enquanto outras procedem da vontade livre» (151). Contudo, por causa da soberba e do egoísmo, «a sociabilidade humana não desemboca automaticamente na comunhão das pessoas, no dom de si» (150). Só a força do amor e da procura do bem comum conseguem devolver a vocação social própria do ser humano.

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 11.12.14 | Sem comentários

Viver a fé! [9]


O terceiro ponto do terceiro capítulo («A pessoa e os seus direitos») do Compêndio da Doutrina Social da Igreja intitula-se «A pessoa humana e os seus vários perfis» (números 124 a 151). Neste tema, resumimos as duas primeiras alíneas: a unidade da pessoa (127 a 129); a abertura à transcendência e unicidade da pessoa (130 a 134). As outras serão objeto de estudo no próximo tema: a liberdade da pessoa; a igualdade em dignidade de todas as pessoas; sociabilidade humana. Esta temática insere-se na afirmação de que a pessoa humana não é um mero somatório de partes, mas uma unidade estruturada pela inteligência, sabedoria, consciência e liberdade.

A pessoa humana e os seus vários perfis

Alertando para as visões redutoras da pessoa humana motivadas por ideologias ou «devidas simplesmente a formas difusas do costume e do pensamento», a partir da «admirável mensagem bíblica, a doutrina social da Igreja detém-se antes de tudo nas principais e incindíveis dimensões da pessoa humana, de modo a poder captar os matizes mais relevantes do seu mistério e da sua dignidade» (124). «A doutrina social ocupa-se de diferentes dimensões do mistério do homem, que exige ser abordado ‘na plena verdade da sua existência, ser pessoal e ser comunitário e social’, com uma atenção específica, de sorte a consentir a sua valoração mais pontual» (126). Neste sentido, convém deixar claro que «a pessoa não pode jamais ser pensada unicamente como absoluta individualidade, edificada por si mesma ou sobre si mesma, como se as suas características próprias não dependessem mais de outros que de si mesma. Nem pode ser pensada como pura célula de um organismo disposto a reconhecer-lhe, quando muito, um papel funcional no interior de um sistema» (125).

A unidade da pessoa

A fé cristã reconhece que o ser humano «foi criado por Deus como unidade de alma e corpo» (127). A pessoa humana «tem duas diferentes caraterísticas: é um ser material, ligado a este mundo mediante o seu corpo, e um ser espiritual, aberto à transcendência» (129). «A pessoa, incluindo o corpo, está totalmente confiada a si própria, e é na unidade da alma e do corpo que ela é o sujeito dos próprios atos morais» (127). «Mediante a sua corporeidade, o homem unifica em si os elementos do mundo material, ‘os quais, por meio dele, atingem a sua máxima elevação e louvam livremente o Criador’». Portanto, ao contrário do que outros defendem, a Igreja proclama que «não é lícito desprezar a vida corporal; o homem, ao contrário, ‘deve […] considerar o seu corpo como bom e digno de respeito, pois foi criado por Deus e há de ressuscitar no último dia’». E deve vigiar para «não se tornar vítima de uma visão puramente terrena da vida. Com a espiritualidade o homem supera a totalidade das coisas e penetra na estrutura espiritual mais profunda da realidade. Quando se volta para o seu coração, isto é, quando reflete sobre o próprio destino, o homem [...] transcende o universo sensível e material» (128). Por isso, «nem o espiritualismo, que despreza a realidade do corpo, nem o materialismo, que considera o espírito mera manifestação da matéria, dão conta da natureza complexa, da totalidade e da unidade do ser humano» (129).

Abertura à Transcendência e unicidade da pessoa

«O homem é aberto ao infinito e a todos os seres criados. É aberto antes de tudo ao infinito, isto é, a Deus [...]. É aberto também ao outro, aos outros homens e ao mundo, porque somente enquanto se compreende em referência a um tu pode dizer eu. Sai de si, da conservação egoísta da própria vida, para entrar numa relação de diálogo e de comunhão com o outro» (130). «O homem existe como ser único e irrepetível, existe como ‘eu’, capaz de autocompreender-se, de autopossuir-se, de autodeterminar-se. A pessoa humana é um ser inteligente e consciente, capaz de refletir sobre si mesma e, portanto, de ter consciência dos próprios atos» (131). Face ao exposto, a sociedade que se queira «justa» tem de promover o «respeito pela dignidade transcendente da pessoa humana» (132). Por isso, «em nenhum caso a pessoa humana pode ser instrumentalizada para fins alheios ao seu próprio progresso, que pode encontrar cumprimento pleno e definitivo somente em Deus e no seu projeto salvífico» (133). Entretanto, compete a cada pessoa a responsabilidade de promover «o desenvolvimento daquelas atitudes morais fundamentais em toda a convivência que se queira dizer verdadeiramente humana (justiça, honestidade, veracidade, etc.), que de modo algum poderá ser simplesmente esperada dos outros ou delegada nas instituições» (134).

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.12.14 | Sem comentários
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