Mostrar mensagens com a etiqueta Fé celebrada. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fé celebrada. Mostrar todas as mensagens

Mistério da fé! [10]


O Batismo associa a si aspetos que devem ser tidos em conta, na preparação, na celebração e até depois da celebração. Quem, como, quando e onde — são questões que sintetizam alguns desses pontos. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Atos dos Apóstolos 2, 14-41; Catecismo da Igreja Católica, números 1229 a 1233 e 1246 a 1261]

«Peça cada um o batismo»

— responde Pedro à pergunta feita pelos que ouviram o seu discurso após a ressurreição de Jesus Cristo, de acordo com o livro dos Atos dos Apóstolos. Ninguém fica indiferente diante da revelação de Cristo ressuscitado. E os que escutam fazem a pergunta que será usada pelos catecúmenos durante o rito de admissão ao batismo: «Que devemos fazer?». Pedro apresenta-lhes um programa de conversão que encaminha para a celebração do batismo e a inserção na comunidade dos cristãos.

Quem pode ser batizado?

«Todo o ser humano ainda não batizado — e só ele — é capaz de receber o Batismo» (Catecismo da Igreja Católica [CIC], 1246). Para concretizar esta afirmação, a Igreja prevê três possibilidades, de acordo com a idade: crianças (nos primeiros anos de vida); crianças e adolescentes em idade de catequese; jovens e adultos. «A única predisposição para o Batismo é a fé» (Catecismo Jovem da Igreja Católica [YOUCAT], 196). Aos jovens e adultos é proposto um itinerário («catecumenado» – cf. tema 7) com etapas celebrativas ao longo do percurso, conforme o Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos (RICA). Este ritual também possui o capítulo próprio para as crianças em idade de catequese (Ritual da Iniciação Cristã das Crianças em idade de catequese): «Este rito destina-se às crianças que, não tendo sido batizadas na infância e tendo atingido a idade da discrição e da catequese, se apresentam para receber a iniciação cristã [...]. A iniciação deve prolongar-se, se for necessário, por vários anos» (RICA. Preliminares, 306-307). Para as crianças «que, por não terem chegado ainda à idade do uso da razão, não podem professar fé própria» existe um ritual próprio (Ritual do Batismo das Crianças. Preliminares, 1). A celebração do batismo das crianças «pressupõe que os pais cristãos introduzam o batizando na fé» (YOUCAT 197). Além disso, «o Batismo das crianças exige um catecumenado pós-batismal. [...] É o espaço próprio da catequese» (CIC 1231). Em todos os casos, é essa a missão dos padrinhos: «devem ser pessoas de fé sólida, capazes e preparados para ajudar o novo batizado, criança ou adulto, no seu caminho de vida cristã» (CIC 1255).

Quem pode batizar?

«Quem preside normalmente a uma celebração batismal é o bispo, um presbítero ou um diácono. Em caso de emergência, qualquer cristão, ou mesmo qualquer pessoa, pode batizar, derramando água sobre a cabeça do batizando e dizendo a fórmula batismal: ‘Eu te batizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo’. O Batismo é tão importante, que até uma pessoa que não é cristã pode ser o seu ministro. Ela apenas tem de ter a intenção de fazer o que a Igreja faz quando batiza» (YOUCAT 198).

Como é celebrado o batismo?

Há a fórmula breve, usada em caso de «emergência», perigo de morte. De facto, «o rito essencial do Batismo consiste em mergulhar na água o candidato ou em derramar água sobre a sua cabeça, invocando o nome da Santíssima Trindade» (CIC 1278). Mas há outros elementos simbólicos usados na celebração solene do Batismo. Vamos apresentá-los no próximo tema.

Quando se pode batizar?

Já sabemos que a Igreja prevê a possibilidade de celebrar o batismo em qualquer etapa da vida, atendendo à especificidade de cada pessoa. Agora, apresentamos dois pontos importantes retirados do Ritual da Celebração do Batismo das Crianças (Preliminares, 8-9): «deve fazer-se dentro das primeiras semanas após o nascimento da criança»; «recomenda-se que o sacramento seja celebrado na Vigília Pascal ou ao domingo».

Onde se pode batizar?

Sem excluir outras possibilidades, o lugar mais apropriado para a celebração do Sacramento do Batismo é a igreja paroquial (onde residem os pais): «para se ver mais claramente que o Batismo é o sacramento da fé da Igreja e da agregação ao povo de Deus, celebrar-se-á habitualmente na igreja paroquial» (Ritual da Celebração do Batismo das Crianças. Preliminares, 10).

«O Batismo insere na comunhão com Cristo e assim dá vida. [...] O Batismo é um dom; o dom da vida. Mas um dom deve ser acolhido, deve ser vivido. Um dom de amizade exige um ‘sim’. [...] É o nosso ‘sim’ a Cristo, o ‘sim’ à vida no tempo e na eternidade» (Bento XVI, Homilia a 8 de janeiro de 2006).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.12.13 | Sem comentários

Mistério da fé! [9]


«O Batismo constitui o nascimento para a vida nova em Cristo» (Catecismo da Igreja Católica, 1277). Esta referência a um novo nascimento — já presente no diálogo entre Jesus Cristo e Nicodemos (cf. João 3, 1-21) — constitui um dos aspetos fundamentais do Sacramento do Batismo. Não se trata de voltar ao ventre materno; trata-se de assumir uma nova identidade, uma vida nova em Cristo [Para ajudar a compreender melhor, ler: Romanos 6, 1-11; Catecismo da Igreja Católica, números 1217 a 1228]

«Pelo Batismo... caminhemos numa vida nova»

— escreve Paulo na Carta aos cristãos de Roma. Este texto é uma das catequese mais esclarecidas sobre o significado do batismo cristão. Antes de Jesus Cristo, a prática do batismo estava associada apenas aos rituais de purificação. Tal é, por exemplo, o significado do batismo praticado por João Batista, no rio Jordão. Na Carta aos Romanos, Paulo coloca em evidência a novidade do batismo cristão e a sua ligação com a Páscoa de Jesus Cristo (Ressurreição). Nos primeiros séculos, um dos momentos significativos do ritual do Batismo consistia em entrar e sair da água. Os batistérios expressavam bem esta dimensão: o catecúmeno tinha de descer umas escadas para entrar e sair da água. Paulo compara esta ação com a morte e ressurreição de Jesus Cristo. Era uma imitação da entrada de Jesus Cristo ao túmulo e da saída vitoriosa do Ressuscitado. Assim, o simbolismo do sacramento torna-se radicalmente eficaz. A existência do batizado é completamente renovada. Esta ligação entre o Batismo e a Ressurreição permite a conclusão de Paulo: o Batismo faz morrer para o pecado (para tudo o que nos afasta de Deus) e renascer para uma vida nova, representada pelo sair da água, pela veste branca e pela vela acesa a partir do Círio Pascal.

Batismo

«O Batismo é o bilhete de identidade do cristão, a sua certidão de nascimento e o ato de nascimento na Igreja. Todos vós conheceis o dia em que nascestes e festejais o vosso aniversário, não é verdade? Todos nós festejamos o aniversário. [...] Quem de vós se recorda da data do seu próprio Batismo? [...] Quando voltardes para casa, perguntai em que dia fostes batizados, procurai, porque este é o vosso segundo aniversário. O primeiro é do nascimento para a vida e o segundo é do nascimento na Igreja» (Francisco, Audiência Geral de 13 de novembro de 2013).

Vida nova em Cristo

«O Batismo faz-nos cristãos, quer dizer: de Cristo. Somos incorporados em Cristo e tornamo-nos ‘outros Cristos’. Aqui está a nossa vocação cristã: tornarmo-nos seguidores de Cristo. Assimilaremos os sentimentos de Cristo, os seus critérios de vida, espelharemos as suas atitudes. E isto tudo, não numa simples ‘imitação’ como numa representação teatral. Mas Cristo vai tornar-se a nossa vida, para podermos dizer como São Paulo: ‘Já não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim’ (Gálatas 2, 20)» (José Ribólla, «Os Sacramentos trocados em miúdo», Editora Santuário, Aparecida 1990, 41). Com esta afirmação, Paulo reconhece em si mesmo uma nova identidade. O mesmo acontece com todos os batizados, com cada um de nós. «No Batismo, o Senhor entra na vossa vida pela porta do vosso coração. Já não estamos um ao lado do outro ou um contra o outro. Ele atravessa todas estas portas. A realidade do Batismo consiste nisto: Ele, o Ressuscitado, vem; vem até vós e une a sua vida com a vossa conservando-vos dentro do fogo vivo do seu amor. Passais a ser uma unidade: sim, um só com Ele e, deste modo, um só entre vós. Num primeiro momento, isto pode parecer bastante teórico e pouco realista. Mas quanto mais viverdes a vida de batizados, tanto mais podereis experimentar a verdade desta palavra. [...] Esta natureza íntima do Batismo como dom de uma nova identidade é representada pela Igreja através de elementos sensíveis» (Bento XVI, Homilia de 22 de março de 2008). De facto, o Ritual do Batismo expressa, com gestos e palavras (símbolos simples e concretos), esta nova identidade do cristão. «Mergulhar na água é morrer, emergir é respirar e viver. O Batismo, ser mergulhado na água, é morrer para renascer para a vida nova do Espírito. [...] A veste branca é a imagem visível do nosso corpo tornado nova criatura porque revestido de Cristo» (Carlo Maria Martini, «O corpo», Paulinas, Prior Velho, 2003, 56-57).

«Sentes-te forte, com o vigor que Cristo te oferece com a sua morte e ressurreição? Ou sentes-te abatido, esgotado? O Batismo dá-te força e luz. Sentes-te iluminado, com aquela luz que vem de Cristo? És homem e mulher de luz?» (Francisco, Audiência Geral de 13 de novembro de 2013).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.12.13 | Sem comentários

Mistério da fé! [8]


O Batismo é o primeiro sacramento e o primeiro dos sacramentos. «O Batismo, porta da vida e do reino, é o primeiro sacramento da nova lei, que Cristo propôs a todos para terem a vida eterna, e, em seguida, confiou à sua Igreja, juntamente com o Evangelho» (Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos. Preliminares Gerais, 3). Neste tema, apresentamos o fundamento do Sacramento do Batismo associado ao mandato de Jesus Cristo ressuscitado confiado aos discípulos [Para ajudar a compreender melhor, ler: Mateus 28, 16-20; Catecismo da Igreja Católica (CIC), números 1213 a 1216]

«Ide... fazei discípulos... 

batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo»

— é, segundo a narração de Mateus, o mandato que Jesus Cristo ressuscitado confia aos (onze) discípulos. A presença terrena de Jesus Cristo continua com a presença missionária dos discípulos (até ao fim dos tempos). A fórmula batismal explicitamente trinitária — «em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo» — é única em todos os escritos do Novo Testamento. É provável que tenha origem na prática litúrgica já existente na comunidade a que pertence o evangelista Mateus.

Batismo

O Batismo é o primeiro dos sacramentos, o ponto de partida da Iniciação Cristã (cf. tema 7), «o fundamento de toda a vida cristã, o pórtico da vida no Espírito (‘porta da vida espiritual’) e a porta que dá acesso aos outros sacramentos» (Catecismo da Igreja Católica», 1213). A palavra «batismo» deriva do «grego, ‘baptisma’, que, por sua vez, vem de ‘bapto’ (banhar) e de ‘baptizdo’ (submergir, mergulhar na água). O seu sentido original é, portanto, banho, ablução externa, embora entendendo-a no seu sentido de purificação e vida nova» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia» [DEL], ed. Paulinas, Prior Velho, 2007, 47).

Mandato de Cristo

Nos relatos evangélicos segundo Mateus e Marcos há uma referência ao mandato confiado aos discípulos: «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado» (Mateus 28, 19-20); «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for batizado será salvo» (Marcos 16, 15-16). Jesus Cristo apresenta-se como aquele que ressuscitou de entre os mortos e que tem plena autoridade para encarregar os discípulos de continuarem até ao fim dos tempos a atividade que tinha iniciado. Os discípulos são enviados («Ide») ao mundo inteiro para proclamar o Evangelho, «fazer» discípulos, batizar e ensinar «a cumprir tudo» o que aprenderam de Jesus Cristo. O (novo) discipulado concretiza-se na adesão aos ensinamentos de Jesus Cristo («acreditar») e na participação na vida da Trindade através da celebração do Sacramento do Batismo. Com esta referência bíblica confirma-se que desde o tempo dos Apóstolos o Batismo tornou-se essencial para a adesão à fé cristã, juntamente com o acolhimento do Evangelho, a Boa Nova de Jesus Cristo. Em primeiro lugar, fica claro que a experiência pascal dos discípulos não é para o próprio consolo interior, mas para assumir uma missão universal. Esta missão é confiada por Jesus Cristo para que anunciem o Evangelho a «todos os povos», ao «mundo inteiro». O anúncio do Evangelho não tem nenhum tipo de fronteiras: geográficas, económicas, políticas, sociais, culturais... É universal por natureza. Hoje, esta continua a ser a missão confiada a todos os discípulos, a todos os cristãos. O Batismo não é para um consolo próprio, mas para dar continuidade à missão. O papa Francisco tem insistido com frequência na importância do mandato de Cristo: «Não se fechem, por favor! Isto é um perigo: fecharmo-nos na paróquia, com os amigos, no movimento, com aqueles que pensam as mesmas coisas que eu... Sabeis o que sucede? Quando a Igreja se fecha, adoece, fica doente. Imaginai um quarto fechado durante um ano; quando lá entras, cheira a mofo e há muitas coisas que não estão bem. A uma Igreja fechada sucede o mesmo: é uma Igreja doente. A Igreja deve sair de si mesma. Para onde? Para as periferias existenciais, sejam quais forem…, mas sair. Jesus diz-nos: ‘Ide pelo mundo inteiro! Ide! Pregai! Dai testemunho do Evangelho!’» (Francisco, Vigília de Pentecostes, 18 de maio de 2013). Em segundo lugar, a missão não consiste em transmitir uma «ideologia» ou uma simples «doutrina». A missão está associada ao batismo: «Quem acreditar e for batizado será salvo».

O Sacramento do Batismo é muito mais do que um simples rito ou ritual. Celebrar o Batismo significa mergulhar a totalidade da vida em Jesus Cristo para assumir uma vida nova.






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 28.11.13 | Sem comentários

Mistério da fé! [6]


A ação litúrgica da Igreja está relacionada com os sacramentos. É certo que nem toda a celebração litúrgica se reduz aos sacramentos; mas estes são o centro e o coração da liturgia. Depois de termos aprofundado a liturgia, vamos abordar a temática sacramental. E começamos por esclarecer a questão: O que é um sacramento? [Para ajudar a compreender melhor, ler: João 1, 38-39; Catecismo da Igreja Católica (CIC), números 1179 a 1113-1134]

«Vinde e vereis»

— diz Jesus Cristo aos que lhe perguntam: «Mestre, onde moras?». O narrador acrescenta: «Foram, pois, e viram onde morava e ficaram com Ele». A adesão é antecedida pelo conhecimento da morada e pela experiência de comunhão. «Vinde e vereis» é também o convite da Igreja, mostrando que Jesus Cristo continua vivo e operante, na resposta às inquietações mais profundas do ser humano. Hoje, fá-lo, sobretudo, pelos sacramentos.

Sacramento

A palavra latina «sacramentum» designava, juridicamente, o depósito de um valor como garantia da boa-fé e da promessa do cumprimento. Era o «juramento de fidelidade» que se estabelecia entre duas pessoas ou entidades. «Quando se começou a traduzir a Bíblia para latim, esta palavra [sacramento] pareceu adequada a verter o termo grego ‘mistério’ que, no Novo Testamento — sobretudo em Paulo — designa o plano divino de salvação, que se realiza no tempo. O ‘mistério’ é uma espécie de pacto pela qual Deus Se dirige ao ser humano no amor, entra na sua história e chama-o a edificar consigo o Seu projeto de salvação» (Bruno Forte, «Introdução aos Sacramentos», Gráfica de Coimbra, Coimbra 1997, 16). No entanto, hoje, continua-se a usar os dois termos: mistério e sacramento. Este (sacramento) designa o sinal visível e eficaz da realidade divina; aquele (mistério) designa a realidade invisível.

Jesus Cristo

«O verdadeiro sacramento é Jesus Cristo. Como dizia Santo Agostinho, ‘não há outro sacramento de Deus senão Cristo’ (Carta 187). Ele é o sinal vivente que nos exprime a salvação de Deus, contém-na em si mesmo, e no-la comunica eficazmente, agora, por meio da sua Igreja. Cristo não só instituiu os sacramentos, como Ele próprio é o sacramento primordial e definitivo do encontro de Deus com a humanidade» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia» [DEL], ed. Paulinas, Prior Velho, 2007, 266-267).

Igreja

«A Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano» — afirma o II Concílio do Vaticano, na Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG 1). Esta é a primeira finalidade da Igreja (cf. CIC 775). «Como sacramento, a Igreja é instrumento de Cristo. ‘É assumida por Ele como instrumento da redenção universal’ (LG 9), ‘o sacramento universal da salvação’ (LG 48), pelo qual o mesmo Cristo ‘manifesta e atualiza o mistério do amor de Deus pelos seres humanos’ (Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual — «Gaudium et Spes», 45). É o ‘projeto visível do amor de Deus para com a humanidade’» (CIC 776).

Sete sacramentos

Durante os primeiros doze séculos a palavra «sacramento» era usada para designar várias realidades: Cristo, Igreja, Escritura, Páscoa, Encarnação, Quaresma, entre outras. Só a partir do século XIII — e com mais evidência após o Concílio de Trento — se utiliza o termo «sacramento» para indicar as sete ações sacramentais da Igreja (Batismo, Confirmação ou Crisma, Eucaristia, Penitência, Unção dos Doentes, Ordem e Matrimónio). Curiosamente, o II Concílio do Vaticano retoma o seu uso original, aplicando-o a Jesus Cristo, à Igreja, e em sentido ainda mais amplo, referindo-se ao cristão, ao ser humano, às coisas criadas. Na verdade, se «sacramento» significa a manifestação visível do dom invisível da graça de Deus, não há nenhum inconveniente em aplicar o vocábulo a outras realidades além dos sete sacramentos. «Os sete sacramentos têm a ver com todas as fases e momentos importantes da vida do cristão: conferem nascimento e crescimento, cura e missão à vida de fé dos cristãos. Existe uma certa semelhança entre as fases da vida natural e as da vida espiritual» (CIC 1210). Atos eficazes «como ‘forças que saem’ do Corpo de Cristo, sempre vivo e vivificante; ações do Espírito Santo que opera no seu Corpo que é a Igreja, os sacramentos são ‘as obras-primas de Deus’, na nova e eterna Aliança» (CIC 1116).

«Há sacramentos da iniciação, que introduzem na fé: o Batismo, a Confirmação e a Eucaristia. Há sacramentos da cura: a Reconciliação e a Unção dos Enfermos. E há sacramentos da comunhão e do envio: o Matrimónio e a Ordem» (YOUCAT 193).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.11.13 | Sem comentários

Mistério da fé! [5]


Uma coordenada essencial na existência humana, além do tempo («Quando celebrar?» - tema 4) é o lugar, o espaço. Na verdade, podemos dizer que o lugar que ocupamos, o espaço em que nos movemos, faz parte de nós, pois é, ao mesmo tempo, expressão e consequência da nossa matéria carnal. Neste sentido, percorrido este itinerário, precisamos de responder à questão: «Onde celebrar?» [Para ajudar a compreender melhor, ler: 2Coríntios 6, 14-18; Catecismo da Igreja Católica, números 1179 a 1186]

«Nós somos o templo do Deus vivo»

— refere a Segunda Carta aos Coríntios, para lembrar que o ser humano é templo de Deus, é habitado por Deus. Esta é uma «novidade» realizada através de Jesus Cristo: Deus habita em cada ser humano. Tem razão Paulo ao dizer, em vários dos seus escritos, que somos templo de Deus e que o Espírito Santo habita em nós. Inaugurado por Jesus Cristo, «o culto ‘em espírito e verdade’ (João 4, 24) da Nova Aliança não está ligado a nenhum lugar exclusivo. Toda a terra é santa e está confiada aos filhos dos homens. O que tem primazia, quando os fiéis se reúnem num mesmo lugar, sãs as ‘pedras vivas’ que se juntam para ‘a edificação dum edifício espiritual’ (1Pedro 2, 4-5). O corpo de Cristo ressuscitado é o templo espiritual donde brota a fonte de água viva. Incorporados em Cristo pelo Espírito Santo, ‘nós somos o templo do Deus vivo’ (2Coríntios 6, 16)» (Catecismo da Igreja Católica [CIC], 1179). Está claro que a ressurreição de Jesus Cristo, a sua vitória sobre a morte, torna-o presente em todo os lugares do mundo. Jesus Cristo é o verdadeiro «templo», o nosso «espaço de vida». E, pela graça Batismo, ao ressurgir com Jesus Cristo para uma uma vida nova, também o cristão se torna «templo» de Deus, uma «habitação de Deus» (Efésios 2, 22).

Liturgia: onde celebrar?

É verdade que se pode celebrar em qualquer lugar, num ambiente aberto ou fechado. No entanto, não podemos ignorar que o espaço celebrativo tem um valor simbólico (cf. tema 3), é um verdadeiro sinal litúrgico. Por isso, «enquanto a oração como simples ato religioso pode ser feita em todos os lugares, a liturgia, no entanto, como um ato de culto público e ordenado, requer um lugar, geralmente um edifício, onde possa ser realizada como rito sagrado» (Departamento das celebrações litúrgicas do Sumo Pontífice). Neste sentido, a Igreja aprova a construção de edifícios destinados a atos de culto, à realização de celebrações litúrgicas. «Na sua condição terrena, a Igreja tem necessidade de lugares onde a comunidade possa reunir-se: as nossas igrejas visíveis, lugares sagrados, imagens da Cidade santa, da Jerusalém celeste para a qual caminhamos como peregrinos» (CIC 1198). Jean Corbon diz que «a igreja de pedra ou de madeira onde entramos para participar na liturgia eterna é, sem dúvida, um espaço do nosso mundo, mas a sua novidade está em ser um espaço aberto pela Ressurreição [...], um espaço realmente habitado por um mundo libertado da morte. É aí que celebramos a liturgia» (Jean Corbon, «A fonte da liturgia», ed. Paulinas, Lisboa 1999, 145). O Catecismo da Igreja Católica destaca, como pontos de referência dos edifícios destinados ao culto, o altar, o sacrário, o óleo do Santo Crisma, a cadeira, o ambão, a fonte batismal e o lugar da reconciliação. Os edifícios destinados à prática das celebrações litúrgicas «não são simples lugares de reunião, mas significam e manifestam a Igreja que vive nesse lugar, morada de Deus com os homens reconciliados e unidos em Cristo» (CIC 1180). A Igreja, enquanto comunidade de crentes reunidos, congregados à volta de Jesus Cristo, é que é «templo» de Deus. No início do cristianismo, o edifício não se designava «igreja», mas «casa da igreja», isto é, morada da comunidade. «Para o cristão, é claro que o templo propriamente não é o lugar da presença de Deus (João 4, 23), mas o lugar da presença da assembleia na qual precisamente Deus se torna presente» (Dionisio Borobio, «La celebración en la Iglesia I. Liturgia e Sacramentologia fundamental», ed. Sígueme, Salamanca 1995, 223). Temos de ter bem claro que «o edifício de culto cristão não é o equivalente do templo pagão, onde a câmara com a imagem da divindade também era considerada, de alguma forma, a casa dela. Como diz São Paulo aos atenienses: ‘Deus não habita em templos construídos pelo homem’ (Atos dos Apóstolos 17, 24)» (Departamento das celebrações litúrgicas do Sumo Pontífice).

«Finalmente a igreja tem uma significação escatológica. [...] A igreja visível simboliza a casa paterna. [...] É a casa de todos os filhos de Deus, amplamente aberta e acolhedora» (CIC 1186).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.11.13 | Sem comentários

Mistério da fé! [4]


A assembleia é o sujeito da celebração litúrgica (cf. tema 3), da reunião festiva dos cristãos. Esta concretiza-se no tempo e no espaço: o onde e o quando, o lugar e o dia, são fundamentais para tornar real a celebração. «Quando celebrar?». Vamos procurar a resposta! [Para ajudar a compreender melhor, ler: Salmo 34 (33); Catecismo da Igreja Católica, números 1163 a 1178]

«Em todo o tempo, bendirei o Senhor; 

o seu louvor estará sempre na minha boca»

— canta o salmista, para deixar claro que todos os momentos são uma oportunidade para louvar, aclamar, bendizer, dar graças a Deus.

Liturgia: quando celebrar?

A resposta genérica é simples: sempre. «Em todo o tempo» («a toda a hora») se manifesta o «hoje» da ação de Deus. O cristão não pode condicionar a celebração da presença de Deus. Contudo, é possível assinalar o carácter (mais) solene de determinados dias ao longo do ano.

Domingo

«O dia do Senhor — como foi definido o domingo, desde os tempos apostólicos —, mereceu sempre, na história da Igreja, uma consideração privilegiada devido à sua estreita conexão com o próprio núcleo do mistério cristão. O domingo, de facto, recorda, no ritmo semanal do tempo, o dia da ressurreição de Cristo. É a Páscoa da semana, na qual se celebra a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, o cumprimento n’Ele da primeira criação e o início da ‘nova criação’. É o dia da evocação adorante e grata do primeiro dia do mundo e, ao mesmo tempo, da prefiguração, vivida na esperança, do ‘último dia’, quando Cristo vier na glória e renovar todas as coisas» (João Paulo II, Carta Apostólica sobre a santificação do domingo — «O dia do Senhor» — «Dies Domini», 1). [A leitura na íntegra desta Carta Apostólica permite compreender melhor a centralidade do domingo]

Ano Litúrgico

«Depois de alguns anos — bastantes seguramente —, alguma das comunidades começou a celebrar, além do encontro dos domingos, um encontro anual especial, nos dias da Páscoa judaica, para recordar e comemorar, não já a libertação do Egito, mas a vida nova de Jesus. E assim terá nascido a Vigília Pascal, a primeira celebração do que hoje se chama Ano Litúrgico. Esta Vigília, que dura toda a noite, depressa será precedida por um jejum de dois dias, a sexta e o sábado, como preparação para a alegria da festa; e será a Eucaristia da Páscoa que marcará o final do jejum. Tempos depois, em Jerusalém, os cristãos começaram a reunir-se no lugar do Calvário para ler a Paixão e recordar os últimos momentos de Jesus, e assim nascerá a celebração da Sexta-feira Santa. Esta celebração cristã básica, que cada ano muda de dia, segundo o calendário lunar que os judeus seguiam (a Páscoa é no domingo seguinte à primeira lua cheia da primavera) dará lugar aos dois primeiros ‘tempos litúrgicos’: cinquenta dias que alongam a festa da Páscoa (o Tempo Pascal) e quarenta dias que a preparam (a Quaresma). Pelo meio, vão-se fixando também comemorações concretas: o Domingo de Ramos, a Quinta-feira Santa, a Ascensão, o Pentecostes. A partir do ano 300, começamos a ter notícia de outro grupo de celebrações: as que giram à volta do nascimento de Jesus. A primeira conhecida é uma festa, a 6 de janeiro, que celebra a manifestação do Filho de Deus, uma festa especialmente relevante no Oriente. No ano 354, aparece, num calendário elaborado pelo calígrafo Dionísio Filócalo, esta anotação: ‘25 de dezembro: Nascimento do Sol Invicto. Nasce Cristo em Belém de Judá’. Em 25 de dezembro, era a festa romana do nascimento do sol, quando o sol vence a obscuridade e os dias começam a crescer: neste dia, os cristãos começaram a celebrar o nascimento do Sol verdadeiro, Jesus. Um pouco depois, iniciaram também um tempo de preparação que, no século VI, ficou fixado em quatro domingos: o tempo do Advento» (Josep Lligadas, «Celebrar o Ano Litúrgico», ed. Paulinas, Lisboa 2001, 8-10).

Santos

«Celebrando a memória dos santos, em primeiro lugar da Santa Mãe de Deus, depois dos Apóstolos, dos mártires e dos outros santos, em dias fixos do ano litúrgico, a Igreja da terra manifesta a sua união à liturgia celeste; glorifica Cristo por ter realizado a salvação nos seus membros glorificados; o exemplo deles é para ela um estímulo no seu peregrinar para o Pai» (Catecismo da Igreja Católica, 1195).

Liturgia das Horas

O Catecismo da Igreja Católica chama-lhe «Ofício divino [...], a oração pública da Igreja» (1174), «destinada a tornar-se a oração de todo o povo de Deus» (1175). Divide-se em «sete horas»: Ofício de Leitura (madrugada); Laudes (início da manhã); Tércia (9h); Sexta (12h); Noa (15h); Vésperas (fim da tarde); Completas (noite).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.10.13 | Sem comentários

Mistério da fé! [3]


Os acontecimentos significativos para a experiência humana normalmente são assinalados com uma celebração (festa). Qualquer verdadeira celebração começa sempre com a convocação e consiste numa reunião. Aqueles que estão unidos através de determinados vínculos (conhecidos, amigos, familiares,...), reúnem-se para celebrar. Nesta experiência insere-se a dimensão religiosa que, também ela, é celebrativa. Depois de termos refletido sobre «quem celebra», vamos responder à questão: «Como celebrar?» [Para ajudar a compreender melhor, ler: Colossenses 3, 12-17; Catecismo da Igreja Católica, números 1145 a 1162]

«Tudo quanto fizerdes por palavras ou por obras, 

fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando graças por Ele a Deus Pai»

— exorta o autor da Carta aos Colossenses. O texto expressa a variedade de modos que constituem a celebração da fé.

Liturgia: como celebrar?

Apesar da variedade, na celebração litúrgica há elementos comuns. O Catecismo da Igreja Católica agrupa-os desta forma: sinais e símbolos; palavras e ações; canto e música; as santas imagens.

Sinais e símbolos

«A celebração litúrgica comporta sinais e símbolos que se referem à criação (luz, água, fogo), à vida humana (lavar, tingir; partir o pão) e à história da salvação (ritos da Páscoa). Inseridos no mundo da fé e assumidos pela força do Espírito Santo, estes elementos cósmicos, estes ritos humanos, estes gestos memoriais de Deus, tornam-se portadores da ação salvadora e santificadora de Cristo» (CIC 1189). Os sinais e os símbolos ocupam um lugar muito importante na vida humana. Por meio deles, o ser humano apresenta realidades que de outro modo não seria capaz de exprimir nem comunicar. Contudo, sinal e símbolo não são a mesma coisa. «O sinal é uma coisa que vemos e nos leva a conhecer algo que não vemos: como, no fumo, a existência do fogo; nas pegadas, a passagem de um animal» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia» [DEL], ed. Paulinas, Prior Velho, 2007, 285). Os símbolos «contêm a realidade que significam, tornam-na presente e põem-nos em relação com ela (a oferta, como sinal de amor). Todo o símbolo é sinal, mas nem todo o sinal é símbolo» (DEL 285). Uma das finalidades da liturgia é introduzir o ser humano na contemplação e na vivência do mistério salvífico. E «Deus sabe que nós, humanos, somos seres não apenas espirituais, mas também corporais; precisamos de sinais e de símbolos para conhecer e indicar realidades espirituais ou íntimas. Sejam rosas vermelhas, alianças, vestuário negro, grafitos ou o laço vermelho do VIH, expressamos as nossas realidades interiores por meio de sinais e somos imediatamente entendidos. Deus, que Se fez carne, dá-nos sinais humanos em que Ele está vivo e ativo entre nós: o pão e o vinho, a água do Batismo, a unção com o Espírito Santo. A nossa resposta aos sinais sagrados de Deus consiste em sinais de veneração: dobrando o joelho, levantando-nos para ouvir o Evangelho, fazendo uma vénia, juntando as mãos. E, por ocasião de um casamento, enfeitamos o lugar da presença divina com as coisas mais belas: flores, velas e música. No entanto, os sinais precisam, de quando em vez, de palavras explicativas» (YOUCAT, 181).

Palavras e ações

«Cada celebração sacramental é um encontro dos filhos de Deus com o seu Pai, em Cristo e no Espírito Santo. Tal encontro exprime-se como um diálogo, através de ações e de palavras. Sem dúvida, as ações simbólicas são já, só por si, uma linguagem. Mas é preciso que a Palavra de Deus e a resposta da fé acompanhem e deem vida a estas ações, para que a semente do Reino produza os seus frutos em terra boa. As ações litúrgicas significam o que a Palavra de Deus exprime: ao mesmo tempo, a iniciativa gratuita de Deus e a resposta de fé do seu povo» (CIC 1153).

Canto e música

«Estão em conexão estreita com a ação litúrgica. São critérios do seu bom uso: a beleza expressiva da oração, a participação unânime da assembleia e o caráter sagrado da celebração» (CIC 1191).

As santas imagens

«Destinam-se a despertar e alimentar a nossa fé no mistério de Cristo. Através do ícone de Cristo e das suas obras de salvação, é a Ele que adoramos. Através das imagens sagradas da Santa Mãe de Deus, dos anjos e dos santos, veneramos as pessoas que nelas vemos representadas» (CIC 1192).

A atenção ao «como celebrar» permite evitar a banalização dos sinais e dos símbolos, a frieza inexpressiva das palavras, a escolha desadequada das músicas, o automatismo dos gestos, a repetição mecânica dos ritos, a simples emoção religiosa ou estética!






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.10.13 | Sem comentários

Mistério da fé! [2]


O Catecismo da Igreja Católica [CIC] apresenta, no segundo capítulo, um esquema uniforme em relação ao aprofundamento da Liturgia e dos Sacramentos. Assim, em cada tema há a preocupação em responder a quatro questões: «Quem celebra?»; «Como celebrar?»; «Quando celebrar?»; «Onde celebrar?». Vamos seguir a mesma sequência. Por isso, começamos por questionar: Quem celebra na Liturgia? [Para ajudar a compreender melhor, ler: Apocalipse 7, 9-14; Catecismo da Igreja Católica, números 1135 a 1144]

«O louvor, a glória, a sabedoria, a ação de graças, a honra, o poder e a força 

devem ser dadas ao nosso Deus»

— é uma das aclamações referidas pelo autor do livro do Apocalipse, na descrição de uma «visão» da liturgia que acontece nos Céus. O centro desta liturgia celeste é ocupado pelo «trono de Deus» onde está sentado o «Cordeiro», isto é, Jesus Cristo. Nela participa também uma «multidão enorme», que se encontra de «de pé» em sinal de vitória. É uma multidão incontável («que ninguém podia contar») constituída por «todas as nações, tribos, povos e línguas», isto é, os cristãos. Vestem-se com «túnicas brancas», porque já participam da vitória do «Cordeiro». Há ainda referência a «anjos», «anciãos» e «quatro seres vivos».
Sem ignorar que se trata de uma «visão» profética, o livro do Apocalipse ajuda-nos a perceber a centralidade da liturgia celeste; esta é o modelo, a fonte de inspiração de toda a liturgia terrena, como afirma o Catecismo da Igreja Católica: «na liturgia da terra, participamos, saboreando-a de antemão, na liturgia celeste, celebrada na cidade santa de Jerusalém, para a qual nos dirigimos como peregrinos e onde Cristo está sentado à direita de Deus» (1090); «através das suas ações litúrgicas, a Igreja peregrina participa já, por antecipação, na liturgia do céu» (1111).

Liturgia: quem celebra?

«Em toda a liturgia cristã, o que se celebra e se vive é o mistério da nossa salvação realizado em Jesus Cristo. A Santíssima Trindade é a origem, o conteúdo e o centro de toda a liturgia cristã» (Arquidiocese de Braga, «Programa Pastoral 2013+14: Fé Celebrada», Braga 2013, 12). Na verdade, a liturgia é sempre obra da Santíssima Trindade: «Deus Pai é bendito e adorado como fonte de todas as bênçãos da criação e da salvação, com que nos abençoou no seu Filho, para nos dar o Espírito da adoção filial» (CIC 1110). Na liturgia — à imagem da «visão» do Apocalipse —, há vários tipos de participantes. Quem preside à celebração é sempre o «Cordeiro» (Jesus Cristo). «É o próprio Cristo Senhor que em todos os eventos litúrgicos terrenos celebra a Liturgia cósmica, que envolve anjos e seres humanos, vivos e falecidos, passado, presente e futuro, o Céu e a terra» (YOUCAT. Catecismo Jovem da Igreja Católica, 170). A liturgia é exercício da presença de Jesus Cristo, isto é, a continuação no tempo da sua ação sacerdotal mediante a qual se realiza a obra da nossa salvação. «Para realizar tão grande obra, Cristo está sempre presente na sua igreja, especialmente nas ações litúrgicas» (Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia — «Sacrosanctum Concilum» [SC], 7). A liturgia é uma manifestação da presença real, santificadora e redentora de Jesus Cristo. Esta presença de Jesus Cristo acontece na assembleia. «Está presente quando a Igreja reza e canta, Ele que prometeu: ‘Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles’ (Mateus 18, 20)» (SC 7) [cf. tema 1]. Porque é expressão da Igreja, a assembleia cristã tem de possuir as mesmas características: crente («apostólica»; aberta («católica»); reconciliada («una»); ativa ou dinâmica («santa»). Então, «é toda a comunidade, o Corpo de Cristo unido à sua Cabeça, que celebra» (CIC 1140); «a assembleia que celebra é a comunidade dos batizados. [...] Este ‘sacerdócio comum’ é o de Cristo, único sacerdote, participado por todos os seus membros» (CIC 1141). No entanto, na assembleia, «nem todos os membros têm a mesma função», como refere a Carta aos Romanos (12, 4). Assim, temos ministérios ordenados (bispos, presbíteros e diáconos) e «ministérios particulares» («Mesmo os acólitos, os leitores, comentadores, e os membros do coro desempenham um verdadeiro ministério litúrgico» (SC 29; CIC 1143). Podemos concluir que «toda a assembleia é ‘liturga’, cada qual segundo a sua função» (CIC 1144).

O Catecismo da Igreja Católica, como acontece várias vezes neste apartado, recupera uma afirmação do documento conciliar (SC 29) para lembrar: «Nas celebrações litúrgicas, limite-se cada um, ministro ou simples fiel, ao exercer o seu ofício, a fazer tudo e só o que é da sua competência, segundo a natureza do rito e as leis litúrgicas».






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 16.10.13 | Sem comentários

Mistério da fé! [1]


As palavras «liturgia» e «sacramento» fazem parte do (habitual) vocabulário religioso católico, nomeadamente no contexto da celebração comunitária da fé. No entanto, uma grande parte dos cristãos tem dificuldade em explicitar com clareza o sentido de cada uma destas expressões. O que é a liturgia? O que é um sacramento? Este ano pastoral — sob o lema «fé celebrada» — , durante quarenta e duas semanas, tendo por base o Catecismo da Igreja Católica, vamos explicar os conteúdos essenciais relacionados com as temáticas litúrgica e sacramental [Para ajudar a compreender melhor, ler: Mateus 18, 19-20; Catecismo da Igreja Católica, números 1066 a 1134]

«Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles»

— esta frase atribuída pelo evangelista Mateus a Jesus Cristo está interligada com o tema da oração do versículo anterior. Jesus Cristo garante a sua presença junto daqueles que, em oração, se reúnem em seu nome. Além disso, a expressão «no meio» também se pode aplicar à centralidade de Jesus Cristo na vida dos seus discípulos. Este texto bíblico «recorda-nos aquilo que somos: uma Igreja reunida em nome e à volta de Jesus. Vivemos a nossa adesão a Cristo em comunidade. E a nossa assembleia dominical torna visível um corpo, cuja cabeça é o próprio Cristo, pois é Ele que edifica a Igreja. Reunimo-nos, ‘dois ou três’, para fazer memória de Jesus, recordar as suas palavras e os seus gestos, acolhê-los com alegria e celebrá-los com fé» (Arquidiocese de Braga, «Programa Pastoral 2013+14: Fé Celebrada», Braga 2013, 11-12). 

No «Credo» (www.laboratoriodafe.net/estaeanossafe), a Igreja confessa a sua fé na Trindade de Deus (Pai, Filho, Espírito Santo). É a profissão de fé! Esta fé professada torna-se fé celebrada na Liturgia da Igreja. É a celebração da fé!

Liturgia: o que significa?

O termo «liturgia» tem origem no vocábulo grego «leitourgia», que é composto por duas palavras: «leitos» que significa «popular» (do povo) e «ergon» que significa «ação», «obra», trabalho». «Etimologicamente, a palavra ‘Liturgia’ significa ‘obra pública’, ‘serviço por parte de/e em favor do povo’» (Catecismo da Igreja Católica, 1069). Em sentido amplo e original, a liturgia designa qualquer tipo de serviço em favor do povo. Na Bíblia, nomeadamente com a tradução grega do Antigo Testamento — chamada a tradução dos «Setenta» — este termo surge aplicado ao serviço de culto, principalmente relacionado com o Templo de Jerusalém. O Novo Testamento mantém esta associação ao culto judaico no Templo, mas introduz uma nova aplicação: «chama-se ‘liturgo’ a Cristo, Sumo Sacerdote (sobretudo na Carta aos Hebreus, por ex., cf. Hebreus 8, 1-6), e também à ‘liturgia da vida’, como o ministério de um apóstolo (cf. Romanos 15,16), ou à caridade fraterna (cf. Romanos 15, 17; cf. Filipenses 1, 15)» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia» [DEL], ed. Paulinas, Prior Velho, 2007, 167). [O «Dicionário Elementar de Liturgia» de José Aldazábal e a «Enciclopédia Católica Popular» de Manuel Franco Falcão são instrumentos úteis para compreender os termos e conceitos usados no vocabulário católico; estes dois livros, das edições Paulinas, também estão disponíveis na internet: http://bit.ly/1gmCMwf e http://bit.ly/1ffjHx1, respetivamente].

Liturgia cristã.

Curiosamente, o uso habitual da palavra «liturgia» no contexto católico é muito recente: remonta ao século XIX. Antes, eram mais comuns os termos «ofício», «sagrados ritos», «celebração», «ação». Nas Igrejas Orientais, está mais associada à Missa ou Eucaristia. Na Igreja latina (Ocidente), só aparece no século XVI; mas é no século XIX (nos documentos oficiais da Igreja só se vulgariza no século XX) que se usa o termo «liturgia» com o sentido atual. E qual é o sentido atual da palavra «liturgia» aplicada à Igreja Católica? «Com este nome se designam aquelas celebrações que a Igreja considera como suas e estão contidas nos seus livros oficiais, e se realizam pela comunidade e ministros assinalados para cada caso: assim, é ‘litúrgica’ a celebração da Eucaristia e dos demais sacramentos, a Liturgia das Horas, os sacramentais, etc. Enquanto que não o são, embora sejam muito dignas e louváveis, o Rosário, a Via-sacra e outras devoções pessoais e populares» (DEL). A Constituição do II Concílio do Vaticano sobre a Sagrada Liturgia («Sacrosanctum Concilium»), no número 10, apresenta-a como «a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força».

O Catecismo da Igreja Católica, depois da «Profissão da Fé», dedica a segunda parte à «Celebração do Mistério Cristão» (1066-1690). Aqui apresenta-se a liturgia como obra da Trindade e obra da comunidade cristã.






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 9.10.13 | Sem comentários

Reflexão semanal sobre Liturgia e Sacramentos


«Mistério da fé!» — é o título geral da iniciativa que se vai concretizar em quarenta e duas reflexões sobre a «fé celebrada» (Liturgia e Sacramentos). A partir de textos bíblicos e do Catecismo da Igreja Católica vão ser publicadas, no «Laboratório da fé», ao ritmo de uma por semana, até finais de julho de dois mil e catorze.

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.10.13 | Sem comentários
  • Recentes
  • Arquivo