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— reflexão semanal sobre o credo niceno-constantinopolitano — 

Nós, cristãos, acreditamos que o menino a quem foi dado o nome de Jesus (filho de José e de Maria), que nasceu (em Belém) e viveu (em Nazaré) num determinado contexto histórico (no tempo do rei Herodes) e geográfico (na Palestina) é o próprio Deus que se humaniza, que vem habitar na nossa história. A este mistério, que nunca seremos capazes de compreender na totalidade, chamamos «Encarnação» (também se pode utilizar o termo «Incarnação»). Este grande acontecimento tem origem no Pai e concretiza-se pela ação do Espírito Santo. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Lucas 1, 26-35; Catecismo da Igreja Católica, números 461 a 486]

«O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra» — comunica o anjo Gabriel a Maria, no episódio da «Anunciação» relatado pelo evangelista Lucas. No diálogo, Maria parece pedir ajuda para compreender o que acaba de lhe ser dito: «Como será isso [...]?». O mensageiro de Deus explica-lhe as circunstâncias especiais desta conceção: «O Espírito Santo virá sobre ti». A presença do Espírito remete-nos para o ato criador de Deus (cf. tema 5). Agora, com este «anúncio» Deus realiza uma nova criação! Também a afirmação seguinte — «e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra» — está profundamente ligada a referências bíblicas: a «nuvem» que cobre a tenda da reunião (no livro do Êxodo 40, 34) ou a «nuvem» que enche o templo (no Primeiro livro dos Reis 8, 10), são alguns exemplos. Agora, Deus inaugura uma nova forma de presença: a «nuvem» dá lugar a uma Pessoa, Jesus Cristo. Trata-se de uma presença inédita na história: Deus humaniza-se, vive e partilha a nossa condição humana. Jesus, que é verdadeiramente Deus, é também verdadeiramente homem (ser humano).

E encarnou. A palavra «encarnou» significa «entrar na carne». Afirmamos que Deus entra na nossa «carne», isto é, assume a natureza humana. É claro que reconhecimento da natureza humana de Jesus não foi o problema inicial. As pessoas que contactavam com ele não tinham qualquer dúvida quanto à sua condição humana; mas, ao contrário, não tinham consciência de estarem perante o próprio Deus. Para os seus contemporâneos, Jesus era o filho de José e de Maria, uma família de Nazaré (cf. Marcos 6, 3). É o acontecimento pascal que ilumina a presença histórica de Jesus: Ele não é apenas um ser humano enviado por Deus (como são muitos dos personagens bíblicos); Jesus (de Nazaré) é o próprio Deus presente na história humana. Esta união entre a natureza divina e a natureza humana numa única Pessoa (Jesus Cristo) tem o nome de «encarnação» ou «incarnação». A partir daqui é preciso ter consciência de que se trata de uma realidade que, por mais esforço que possamos fazer, nunca compreenderemos na totalidade; e nunca conseguiremos expressá-la com aquela máxima clareza reclamada pelo pensamento moderno. A «Encarnação» permanecerá sempre um «mistério» que produziu e continuará a produzir discussões infindáveis em dois blocos distintos: os que se fecham na pura racionalidade; os que defendem a transcendência divina incompatível com a natureza humana. O pensamento cristão fez e continua a fazer o maior esforço para encontrar, em cada época, a melhor expressão ou expressões que ajudem a compreender esta realidade que só pode ser acolhida pela fé: em Jesus Cristo unem-se totalmente as naturezas divina e humana. «No entanto, precisamos de compreender. A conceção de Jesus Cristo como o crente a acolhe pela fé não é incompatível com a razão humana. Muito ao contrário, esta conceção é o cumprimento perfeito do que a razão é capaz de pensar; mas pela fé, ela remete isso para a iniciativa de Deus» (Mons. Christophe Dufour, «Cinco pequenas catequeses sobre o Credo», ed. Salesianas, Porto 2012, 31).  

Pelo Espírito Santo. A referência ao Espírito Santo na conceção de Jesus ensina-nos que se trata de uma ação divina; não é uma conceção fruto da união do homem e da mulher. O Espírito Santo é a garantia da intervenção direta de Deus que proporciona uma «nova criação». Jesus Cristo, o Filho, é o «novo início» operado pelo Pai, através do Espírito Santo. Assim, na «Anunciação» está presente a Trindade de Deus: Pai, Filho, Espírito Santo.

Jesus Cristo «foi concebido, não por uma suprema inteligência humana, nem pela imaginação criativa de um artista genial, nem pela vontade de um fundador de religião [...]. Jesus Cristo foi concebido por Deus. Mas como podia ele surgir na história dos homens? O Credo responde: nasceu da Virgem Maria» (Mons. Christophe Dufour, 31).

  
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.12.12 | Sem comentários
— reflexão semanal sobre o credo niceno-constantinopolitano — 

A afirmação da causalidade («E por nós, homens») completa-se com o motivo: «e para nossa salvação desceu dos Céus». Jesus vem para salvar, para nos reconciliar com Deus. É preciso dizer que «não faz sentido a ideia que Cristo arranca a nossa salvação a um Deus vingador e justiceiro que, desde a origem do tempo, esperava a reparação por todos os pecados acumulados pela humanidade: o Deus que tudo criou em seu Filho é o mesmo que nos acolhe e nos perdoa no seu mesmo Filho» (Rui Alberto, «Eu creio, Nós cremos. Encontros sobre os fundamentos da fé», ed. Salesianas, Porto 2012, 95). [Para ajudar a compreender melhor, ler: Mateus 1, 18-25; Catecismo da Igreja Católica, números 422 e 423, 456 a 460]

«Darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados» — esta indicação dada pelo anjo a José (cf. tema 7) revela a identidade e a missão do menino: ser o «Salvador».

E para nossa salvação. Anuncia-se uma «boa notícia»! Jesus Cristo vem ao mundo para nos salvar. Deus quer o nosso bem, quer que sejamos felizes. A presença de Jesus Cristo no meio de nós é um sinal do amor de Deus. O que acontece agora é uma revelação, um gesto visível da salvação que Deus oferece a todos. Aliás, toda a história é um desenrolar da salvação. Não é por acaso que a designamos como «História da Salvação». Ao afirmar que Jesus Cristo é o Salvador, tornamos presente toda a História. Recordamos «a pedagogia de Deus que, ao longo de toda a história de Israel, renova o seu oferecimento de aliança, a fim de acostumar os seres humanos a viverem da sua vida. [...] Ao tomar nos seus braços o filho de Maria, o velho Simeão tem realmente consciência de tocar, finalmente, a promessa feita a Israel e a salvação do mundo inteiro: ‘Os meus olhos virão a tua salvação’ (Lucas 2, 30)» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 79). É isto mesmo que a Igreja diz, na celebração da Eucaristia, quando se reza a Oração Eucarística IV: «Repetidas vezes fizestes aliança com os homens e pelos profetas os formastes na esperança da salvação. De tal modo amastes o mundo, Pai santo, que chegada a plenitude dos tempos, nos enviastes como Salvador o vosso Filho Unigénito». Em Jesus Cristo, a Criação atinge a plenitude. Podemos dizer que Aquele «por quem todas as coisas forma feitas» é o mesmo que leva à plenitude todas as coisas, tornando «presente» a salvação. Por isso, é um erro pensar que a salvação é um ato restaurador de algo perdido. Não é um regresso ao passado. Ela dá-nos algo que não existia: «Adão não comungava na vida de Deus como nós somos convidados a fazê-lo em Jesus Cristo. [...] A salvação é real participação na vida que Deus propõe e que não é outra coisa que a participação na vida trinitária: aderir fortemente a Jesus para se deixar amar pelo Pai na iluminação do Espírito Santo» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, 82). Então, na sequência do que referimos no início desta reflexão, podemos agora dizer que ser salvo é muito mais do que deixar de ser pecador. É ter acesso a um dom de Deus, que a fé nos diz que é suficientemente forte para acabar com as nossas fugas e as nossas recusas: «é o que chamamos a graça de Deus, isto é, o fascínio da sua gratuidade que transforma a nossa vida» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, 82). O Filho de Deus «desceu dos Céus [...] e se fez homem», para que os homens se tornem filhos de Deus (cf. Catecismo da Igreja Católica, 460). Por isso, todas as tentativas para explicar a salvação (justificação, resgate, redenção, satisfação, libertação, reconciliação) são sempre imperfeitas; são isto mesmo «tentativas» para exprimir um dom de Deus. Ele anula todas as distâncias, mesmo aquelas que são fruto da nossa recusa em amar.

Desceu dos Céus. É Deus que toma a iniciativa de vir ao nosso encontro, por amor. Com a expressão «desceu dos Céus» queremos afirmar que Jesus tem uma origem divina. Na linguagem bíblica, os «Céus» não são a abóboda celeste. Os «Céus» designam a vida de Deus e a vida em Deus. Jesus «desceu dos Céus» porque vive em Deus, é Deus. Além disso, «descer dos Céus» ou «vir de Deus» não significa um lugar. Não se trata de uma viagem que Jesus fez de um lugar (Céus) para outro (terra). É uma afirmação possível na nossa linguagem do grande mistério que torna real a Encarnação: Deus humaniza-se, assume a natureza humana.

Jesus Cristo, o Filho Unigénito de Deus, que vive desde sempre com o Pai, vem habitar a nossa história, assume a nossa humanidade. E assim continuaremos nos próximos temas: «E encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem».


 

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.12.12 | Sem comentários
— reflexão semanal sobre o credo niceno-constantinopolitano — 

Jesus Cristo, Filho de Deus, vem ao mundo, habita a nossa história, para nos dar a conhecer o próprio Deus. Jesus Cristo revela-nos um Deus que ama a sua Criação, que ama os seres criados, de modo particular o ser humano. Apesar das (nossas) infidelidades, Deus nunca volta as costas, mas sempre se dispõe a amar. O Pai, que ama infinitamente todos os seus filhos, envia ao mundo o Seu Filho, Jesus Cristo, «por nós homens» — como afirmamos no «Credo». [Para ajudar a compreender melhor, ler: Primeira Carta de João 4, 7-11; Catecismo da Igreja Católica, números 385 a 421

«O amor de Deus manifestou-se desta forma no meio de nós: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que, por Ele, tenhamos a vida» — esta afirmação da Primeira Carta de João destaca (de novo) o tema do amor de Deus pelos seres humanos. É, na verdade, um tema muito presente nos escritos joaninos. O autor da Carta reforça toda a sua convicção a partir de uma afirmação central: «Deus é amor». A mais bela (e até talvez a única) definição de Deus que encontramos em toda a Escritura. Esta revelação de Deus não é uma mera afirmação especulativa. É uma experiência histórica concreta. O amor de Deus não é uma realidade para explicar. «Deus é amor» através do seu agir, que se descobre de modo evidente na vida do Seu Filho, Jesus Cristo. Ele vem ao mundo, «por nós homens», para nos dar a conhecer o amor. E para nos chamar a viver nesse mesmo amor. 

E por nós, homens. No centro do «Credo» (niceno-constantinopolitano) irrompe uma afirmação da causalidade humana. Até parece «que fazemos mexer qualquer coisa do lado de Deus e do Filho por quem e para quem tudo foi feito» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 78). Deus não fica nem está indiferente ao ser humano. Jesus Cristo, o Filho Unigénito de Deus, vem habitar a nossa história. «Por nós, homens». Por mim. Por ti. Por todos. «Doravante, escreve François Mauriac, no destino de todo o homem Deus estará à espreita» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray,78). 

O pecado. A causalidade da vinda de Jesus Cristo ao mundo — «por nós homens» — assume uma dupla dimensão: do lado de Deus e do lado dos seres humanos. Da parte de Deus, como já vimos, revela-nos o seu infinito amor. Da parte dos humanos, confronta-nos com a resposta a esse amor, que pode ser uma não resposta, isto é, a infidelidade, o pecado. A plena realização do ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, só pode acontecer no amor. Infelizmente, pode não acontecer assim. O amor não se impõe. É uma escolha livre e pessoal. Pode ser recusado. Esta de recusar o amor concretiza-se no que, em linguagem religiosa, chamamos pecado. O Catecismo da Igreja Católica afirma (número 386): «O pecado está presente na história do homem. Seria vão tentar ignorá-lo ou dar outros nomes a esta obscura realidade. Para tentar compreender o que é o pecado, temos primeiro de reconhecer o laço profundo que une o homem a Deus, porque, fora desta relação, o mal do pecado não é desmascarado na sua verdadeira identidade de recusa e oposição a Deus, embora continue a pesar na vida do homem e na história». O pecado é tudo aquilo que nos impede de acolher o amor de Deus. É tudo aquilo que nega o amor: o egoísmo, o ódio, a violência, a mentira, a injustiça, a opressão, a rejeição, a intolerância, o mal... A recusa do amor desfaz a nossa harmonia interior. A relação com Deus e com os outros «fica transformada num jogo de poder, controlo e desconfiança. [...] Custa-nos acreditar num Deus que seja amor verdadeiro. E as nossas relações com os outros começam a ser dominadas pela desconfiança, pela indiferença e pela agressão» (Rui Alberto, «Eu creio, Nós cremos. Encontros sobre os fundamentos da fé», ed. Salesianas, Porto 2012, 97). Esta possibilidade de se deixar vencer pelo mal faz-nos solidários no pecado. É o que a Igreja chama de «pecado original», relatado na Bíblia de forma poética através da desobediência de Adão e Eva. O autor do livro do Génesis tem uma intenção clara: o ser humano pode deixar de confiar em Deus, pode «esconder-se» de Deus; o homem e a mulher podem usar mal a liberdade que lhe foi dada pelo Criador, recusando-se a viver no amor. 

«Apesar de a humanidade ter voltado as costas a Deus, Ele não desistiu de nós. Deus nunca abandonou a humanidade. Deus comprometeu-se ao longo de toda a história em nos dar sinais, pistas, que nos permitissem reencontrar a alegria e a salvação. E esta aposta de Deus realiza-se de forma perfeita quando Jesus vem até nós e dá a sua vida para nos salvar (Rui Alberto, 97).

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.12.12 | 5 comentários
— reflexão semanal sobre o credo niceno-constantinopolitano — 

No «Credo» proclamamos que o ser humano Jesus, que nasceu e viveu num momento histórico documentado, é o próprio Filho de Deus. Estamos a refletir (às vezes repetindo) sobre a identidade divina de Jesus Cristo. Esta repetição patente no texto do «Credo» é consequência das discussões que marcaram — e porventura ainda marcam — a história da nossa fé cristã. [Para ajudar a compreender melhor, ler: João 3, 16-21; Catecismo da Igreja Católica, números 441 a 445] 

«Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna» — esta afirmação de Jesus no diálogo com Nicodemos destaca um tema muito presente no evangelho segundo João: o carácter universal da obra salvadora realizada através de Jesus Cristo. O ponto de partida é o amor de Deus pelos seres humanos. Perante esta lógica divina, o ser humano pode acolher ou recusar o amor de Deus Pai, que se revela na Pessoa do Filho, Jesus Cristo. Aqueles que acolhem pela fé este amor divino encontram o que ninguém pode alcançar pelas suas próprias forças: a vida eterna, isto é, a vida em Deus. E recebem o «poder de se tornarem filhos de Deus» (João 1, 12). Diz o Papa Bento XVI: «A nossa verdadeira ‘genealogia’ é a fé em Jesus, que nos dá uma nova proveniência, nos faz ‘nascer de Deus’» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré. Prólogo — A infância de Jesus», Princípia Editora, Cascais 2012, 18).

Filho Unigénito de Deus. Esta proclamação reforça a identidade divina de Jesus de Nazaré. Dissemo-lo no encontro anterior na explicitação dos títulos de «Senhor» e «Cristo». Voltamos a referir esta identidade divina no título de «Filho Unigénito de Deus». E vamos repeti-lo nas próximas expressões. Eis a fórmula completa: «Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigénito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai». O Símbolo dos Apóstolos é mais sintético: «[Creio] em Jesus Cristo, seu único Filho, Nosso Senhor». Para explicitar o tema que ocupa esta reflexão — «Filho Unigénito de Deus» — é importante começar por perceber que, historicamente, «filho de Deus» não se trata de uma afirmação atribuída pela primeira vez ou apenas a Jesus. Vários povos e culturas utilizavam este título («filho de Deus») para designar alguém que gozava de uma especial relação com a divindade. Em primeiro lugar, é uma expressão que tem origem na teologia política do antigo Oriente. No Egito, por exemplo, o rei era chamado «filho de Deus»; e «o ritual da entronização era considerado como a sua ‘geração’ como filho de Deus» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré», Esfera dos Livros, Lisboa 2007, 414). O povo de Israel vai assumir e transformar esta terminologia. São várias as narrações contidas no Antigo Testamento que testemunham esta apropriação do termo por parte do povo bíblico. Mas, ao contrário dos outros povos, em Israel, o rei é fruto de uma eleição divina (e não de uma geração). Em rigor, não é o rei que é designado como «filho de Deus», mas todo o povo hebreu. Mais tarde, os primeiros cristãos apoiam-se nesta cultura judaica para a dizer plenamente realizada em Jesus Cristo. Mas, agora, na cultura cristã, «a expressão ‘filho de Deus’ separa-se da esfera do poder político e torna-se expressão de uma união particular com Deus, que se manifesta na cruz e na ressurreição» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré», 416). E há ainda outra clarificação a fazer. Entre os romanos, é o próprio Imperador que se autoproclama «filho de Deus». Numa mesma época histórica e geográfica (convém lembrar que os primeiros cristãos vivem sob o domínio do Império Romano), gera-se o conflito e a colisão entre os súbditos romanos e os cristãos, quanto ao destinatário do título de «filho de Deus». Entre outros motivos, torna-se assim necessário para os primeiros cristãos exprimir e reforçar a divindade de Jesus através do recurso a vários títulos e expressões, que mais tarde hão de ficar gravadas no «Credo». O que para nós, cristãos do século XXI, pode parecer uma mera repetição de palavras e expressões não o foi nos primeiros tempos cristãos e aquando da elaboração do «Credo». 

«O título Filho de Deus revela e indica a relação única e eterna de Jesus com Deus Pai. Reconhecendo o carácter transcendente da filiação divina de Jesus, mostra-se também o carácter inclusivo: também os homens se tornam ‘filhos de Deus’ e rezam a Deus (‘meu Pai e vosso Pai’, diz Jesus) com as palavras do Mestre: ‘Pai nosso’» (Rui Alberto, «Eu creio, Nós cremos. Encontros sobre os fundamentos da fé», ed. Salesianas, Porto 2012, 106).

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.11.12 | Sem comentários
— reflexão semanal sobre o credo niceno-constantinopolitano — 

O segundo artigo do «Credo» é dedicado a Jesus Cristo, a segunda Pessoa de Deus (Uno e Trino). «Jesus Cristo é o Senhor» é uma afirmação de fé comum aos primeiros cristãos. É também a afirmação inicial sobre Jesus Cristo presente no «Credo», como vamos acolher no tema desta semana. [Para ajudar a compreender melhor, ler: João 13, 3-15; Catecismo da Igreja Católica, números 422 a 440 e 446 a 455

«Vós chamais-me ‘o Mestre’ e ‘o Senhor’, e dizeis bem, porque o sou» — ao dizer isto, o próprio Jesus mostra aos Apóstolos qual é o seu senhorio, através do gesto de lhes lavar os pés. Na cultura daquele tempo e lugar, ser o «Mestre e o Senhor» equivalia a dizer que era aquele que tinha o controlo, o domínio sobre todos os outros, a total autoridade para tomar uma decisão. O «senhor» designava o dono dos servos e dos escravos. Em maiúscula, os romanos utilizavam-no para se referirem ao Imperador. Os judeus atribuíam este título a Deus. Ora, no texto joanino, Jesus revela algo de «escandaloso». Ao contrário das regras sociais, o que é designado como «Senhor» é o que se ajoelha para lavar os pés aos servos. E é desta forma que Jesus Cristo se dá a conhecer como «Senhor», acrescentando: «Se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros». 

Creio. No segundo artigo do «Credo» repete-se a expressão inicial: «Creio». Nele está o centro da nossa fé cristã: a Pessoa de Jesus. Afirma o beato João Paulo II, no texto de referência para este milénio: «Certamente não nos move a esperança ingénua de que possa haver uma fórmula mágica para os grandes desafios do nosso tempo; não será uma fórmula a salvar-nos, mas uma Pessoa, e a certeza que Ela nos infunde: Eu estarei convosco!» (Carta Apostólica «No Início do Novo Milénio», 37

Em um só Senhor. O nome de Deus, para os hebreus, merecia uma tal veneração que não se atreviam a pronunciá-lo. Na leitura das Escrituras, onde estava escrito «YHWH» (Yahweh, Javé) pronunciavam «Adonai», isto é, «Senhor». Mais tarde, na tradução grega da Bíblia converte-se no nome próprio de Deus (Kyrios, Senhor). Dizer que Jesus Cristo é o «Senhor» (Kyrios) é proclamar a sua divindade: «ninguém pode dizer: ‘Jesus é Senhor’, senão pelo Espírito Santo» — diz Paulo na Primeira Carta aos Coríntios (12, 1). Deus, em Jesus Cristo, faz-se um ser humano. Por isso, Jesus Cristo é o nosso único Senhor. 

Jesus. Na Bíblia, o nome de uma personagem não é dado ao acaso. A atribuição de um nome levanta um pouco o véu sobre a missão. É o que acontece também com Jesus. A palavra «Jesus» (em hebreu Yehoshua, Yoshua, Josué, Jesus) significa «Deus salva», «Deus é salvação». É o nome revelado pelo anjo a Maria e a José, «porque Ele salvará o povo dos seus pecados (Mateus 1, 20). O nome diz a identidade e a missão: ser o «Salvador». Ao atribuir o nome ao menino, José exerce a paternidade legal sobre Jesus e insere-o na descendência de David. Neste processo, a salvação de Deus toma corpo na nossa história. Na linha das profecias do Antigo Testamento, o evangelista acrescenta «que hão de chamá-lo Emanuel, que quer dizer: Deus connosco» (Mateus 1, 23). «Em suma, Jesus é o nome que recorda [...] um encontro benéfico com Deus. ‘Crer em Jesus’ significa reconhecer que Deus não é indiferente [...] à nossa vida quotidiana, mas quer entrar nela para levar libertação, consolação, salvação e verdade» (Dionigi Tettamanzi, «Esta é a nossa fé!», Paulinas, Prior Velho 2005, 43). 

Cristo. Os discípulos de Jesus, após a Ressurreição, começam a utilizar com mais frequência o título de «Cristo» para se referirem ao Mestre. Os próprios discípulos passam a ser designados de «cristãos» (Atos dos Apóstolos 11, 26). A palavra «Cristo» traduz para o grego o título hebraico de «Messias» (Mashiah): a pessoa consagrada por uma unção de óleo para uma missão particular (o rei, os sacerdotes, os profetas). Ao nome de Jesus é acrescentado este título (Cristo), para expressar que Ele é o «Ungido», o cumprimento vivo de todas as profecias. Em Jesus, o «Cristo», torna-se plena a História da Salvação. Os escritos dos evangelhos mostram-nos que, tal como acontece no título de «Senhor», Jesus tem de ajudar os discípulos e todo o povo a reformular a conceção de «Messias». Não se trata de um político, de um restaurador da independência de Israel, um chefe revolucionário. Ele é o Messias que se revela no Senhor que lava os pés aos seus servos, que dá a vida para salvar o povo de todos os seus pecados. 

Bento XVI exorta-nos: «O Ano da Fé é convite para uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, único Salvador do mundo» («A Porta da Fé», 6).


 

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.11.12 | Sem comentários
— reflexão semanal sobre o credo niceno-constantinopolitano —

O primeiro artigo do «Credo niceno-constantinopolitano» termina com a afirmação de que Deus é o Criador de todas as coisas, sejam visíveis ou invisíveis: «Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis». A Criação é muito mais do que aquilo que vemos ou podemos entender. 
[Para ajudar a compreender melhor, ler: Salmo 104 (103); Catecismo da Igreja Católica, números 325 a 384

«SENHOR, como são grandes as tuas obras! Todas elas são fruto da tua sabedoria!» — este versículo do Salmo 104 é uma aclamação ao ato criador de Deus. O salmista refere que a contemplação da obra criadora de Deus produz em nós o louvor. Cada coisa está no seu devido lugar, graças à sabedoria divina. E tudo foi criado com sentido. Cada coisa tem a sua missão. Nada foi feito ao acaso, graças à sabedoria divina que é a origem de todas as coisas. O poeta ensina-nos que a contemplação é um ato gratuito e amoroso. Ele convida o ser humano a contemplar a Criação sem qualquer intuito utilitarista. Inspira-nos a expressar a beleza presente na Criação, como fez São Francisco de Assis ao compor o «Cântico das Criaturas». Somos convidados a transformar em linguagem poética a experiência contemplativa, para a tornar comunicável aos outros. 

De todas as coisas visíveis e invisíveis. Esta expressão do «Credo», que pode parecer estranha, é uma bela forma de dizer que Deus é o Criador de todas as coisas, de tudo o existe, seja ou não visto ou conhecido pelo ser humano. Não se pode cair na tentação de racionalizar tudo o que diz respeito à obra criadora de Deus. A Criação engloba muito mais do que aquilo que somos capazes de ver, transcende aquilo que podemos entender. Nada está fora do ato criador de Deus. 

O Catecismo da Igreja Católica faz um destaque para cada uma das «coisas visíveis e invisíveis»: o ser humano (visíveis) e os anjos (invisíveis). 

O ser humano. Os relatos bíblicos situam o homem e a mulher no centro do ato criador. Deus cria o ser humano à sua imagem e semelhança e confia-lhe a missão de cuidar de toda a Criação: «Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher. Abençoando-os, Deus disse-lhes: 'Crescei, multiplicai-vos, enchei e submetei a terra'» (Génesis 1, 27-28). O homem e a mulher são a plenitude do ato criador. A comunhão de vida entre o homem e a mulher é um sinal visível da colaboração no ato criador. O ser humano é imagem e semelhança de Deus, porque: fala, tal como Deus, que pela Palavra criou todas as coisas; contempla todas as coisas, tal como Deus, como «boas»; domina toda a Criação, tal como Deus, assumindo a missão de cuidar dela com harmonia; descansa, tal como Deus, santificando o «sábado» como dia de repouso; acolhe a Criação como dom de Deus, como fruto gratuito da graça de Deus (cf. Xabier Pikaza, «Antropologia Bíblica», ed. Sígueme, Salamanca 2006, 36-37). Na verdade, todas as coisas existem em relação com Deus antes de entrarmos em relação com elas. Para nós, cristãos, a ecologia não é apenas uma questão ética, mas é, antes de tudo, uma questão teológica. Trata-se de ter a mesma atitude de Deus perante a Criação: cuidar dela com carinho, contemplando-a como «muito boa». 

Os anjos. «A existência dos seres espirituais, não-corporais, a que a Sagrada Escritura habitualmente chama anjos, é uma verdade de fé. O testemunho da Escritura é tão claro como a unanimidade da Tradição» (Catecismo da Igreja Católica, 328). A designação que atribuímos a estes seres espirituais está associada à missão, que a tradição bíblica descreve: são mensageiros, enviados. Hoje, para dar credibilidade à existência destes seres espirituais precisamos de purificar o nosso pensamento de todas as imagens infantilizadas que lhes estão associadas Para muitas pessoas, os anjos são coisas apenas das crianças, um produto do imaginário infantil. Por outro lado, temos de admitir que será sempre difícil qualquer tipo de linguagem para nos referirmos às «coisas invisíveis». Fazem parte de uma dimensão à qual só podemos aceder pela fé. «Excluiríamos uma parte notável do Evangelho, se deixássemos de lado estes seres enviados por Deus, que anunciam a sua presença no meio de nós e constituem um sinal da mesma» (Bento XVI, «Angelus», 1 de março de 2009). 

A terminar a reflexão sobre a primeira parte do «Credo niceno-constantinopolitano», entoemos e vivamos as palavras do salmista: «Cantarei ao SENHOR, enquanto viver; louvarei o meu Deus, enquanto existir» (Salmo 104, 33).

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.11.12 | Sem comentários
— reflexão semanal sobre o credo niceno-constantinopolitano —

A ciência impõe-nos um critério evolucionista sobre as origens do ser humano e do universo. A tradição religiosa judaica e cristã fundamentam-se num critério criacionista. Será que estamos a falar de duas «teorias» diferentes? Aceitar a evolução obriga a negar o ato criador de Deus? Não pode haver negação, mas complementaridade. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Génesis 1, 1 — 2, 4a; Catecismo da Igreja Católica, números 279 a 324

«Esta é a origem da criação dos céus e da Terra» — concluiu a (primeira) narrativa bíblica do livro do Génesis. «Todos os povos se perguntaram alguma vez: Donde viemos? Qual foi a nossa origem? Quem foi o fundador do nosso povo? Qual o nosso destino? Umas vezes, essas perguntas eram formuladas a partir de situações de desgraça coletiva: Que sentido tem o nosso fracasso e o nosso sofrimento? Que sentido tem a morte irremediável? Há um Alguém que possa responder a todas as interrogações do ser humano? [...] O GÉNESIS é, pois, o livro das grandes interrogações e das grandes respostas, não só do povo de Deus, mas de toda a humanidade. Por isso se diz que este livro é uma espécie de grande pórtico da catedral da Bíblia, pois de algum modo a resume na totalidade da sua beleza e conteúdo» (Bíblia Sagrada, Introdução ao Livro do Génesis, Difusora Bíblica). O relato da Criação não é uma informação histórica, mas uma profecia que aponta para a resposta mais profunda às questões sobre as origens: o próprio Deus. O autor do texto apresenta todas as coisas criadas pela bondade de Deus: «E Deus viu que isto era bom». Como numa língua a gramática serve para ordenar o uso das palavras, assim também a Criação é a gramática que dá sentido a todas as coisas a partir do Criador, orientando-as para o ser humano, «imagem e semelhança de Deus». 

Evolução e Criação. Durante muito tempo, houve o interesse (em alguns meios ainda hoje se mantém) em colocar em oposição supostamente duas teorias sobre as origens: criacionista e evolucionista. Afirmar que Deus é «Criador do céu e da terra» não põe em causa a possibilidade de uma evolução das coisas criadas. O ato criador não pretende explicar o ‘como’, mas dar-lhe sentido. «Se a afirmação de Deus criador é parte fundamental da revelação bíblica, o ‘como’ da criação fica sempre aberto a novas interpretações, em função das aquisições da ciência» (AA. VV., «A fé dos católicos», Gráfica de Coimbra, Coimbra 1991, 191). Assim, a teoria evolucionista ganha em sentido e em significado: é o contínuo ato criador de Deus que proporciona a evolução dos seres e do universo. «Assim como a explicação científica do nascimento de uma criança não contradiz a afirmação de que ela é o fruto do livre dom de amor dos seus pais, assim também acontece com a criação do mundo e do ser humano» (Dionigi Tettamanzi, «Esta é a nossa fé!», Paulinas, Prior Velho 2005, 36). A Criação é um ato de amor, livre e gratuito. 

A nossa profissão de fé começa com as palavras: «Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra». «Se omitirmos este primeiro artigo do Credo, toda a história da salvação se torna demasiado restrita e demasiado pequena» (Bento XVI, «A alegria da fé», ed. Paulinas, Prior Velho 2012, 18-19). 

Criador. O ato criador narrado na Bíblia e professado no «Credo» não é um conceito histórico, algo que aconteceu em determinado momento. Na Criação, Deus não atua como «fabricante», como construtor. Deus não fez o universo, num determinado momento; e depois deixou-o por sua conta e risco! O ato criador é um conceito teológico, isto é, faz parte de Deus. E, por isso, está sempre a acontecer: Deus cria e recria continuamente todas as coisas, a partir de si mesmo. Dizer que é o Criador é não só expressar que Deus está na origem de todas as coisas, mas também que se compromete de forma ativa e contínua com toda a Criação. São Tomás de Aquino — um grande pensador do século XIII — disse que não podemos pensar no ato criador como um acontecimento temporal, com um antes e um depois. Deus existe desde sempre, fora do tempo. O tempo começa a existir precisamente quando Deus fala e chama à existência o universo. O autor do Génesis refere-o por diversas vezes na narrativa teológica e catequética: «Deus disse: faça-se [...]. E assim aconteceu». 

Do céu e da terra. É uma expressão que engloba a totalidade daquilo que existe, simboliza todas as coisas. Visualmente, o céu e a terra eram os extremos onde acontecia a experiência humana. 

Entretanto, a Igreja teve necessidade de acrescentar: «de todas as coisas visíveis e invisíveis» — como veremos no próximo tema.


 


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.11.12 | Sem comentários
— reflexão semanal sobre o credo niceno-constantinopolitano —

A omnipotência de Deus é caracterizada no Catecismo da Igreja Católica como universal, amorosa e misteriosa. Tudo isto está condensado no «Credo» na afirmação «todo-poderoso». [Para ajudar a compreender melhor, ler: Segunda Carta aos Coríntios 6, 16b.18Catecismo da Igreja Católica, números 268 a 278

«Serei para vós um pai e vós sereis para mim filhos e filhas, diz o Senhor Todo-Poderoso» — assim se expressa Paulo, na Segunda Carta aos Coríntios. A primeira verdade que temos de acolher é a seguinte: Deus é todo-poderoso enquanto Deus e enquanto Pai. Deus Pai está primeiro. Assim dizemos: «Deus Pai todo-poderoso». Por isso, a omnipotência de Deus tem de ser sempre interpretada a partir da paternidade. «Deus é o Pai todo-poderoso. A sua paternidade e o seu poder esclarecem-se mutuamente» (Catecismo da Igreja Católica, 270). 

Omnipotente, Todo-poderoso. A versão latina do «Credo» utiliza a expressão «omnipotentem» («omnia» significa «todo»; «potens» significa «poderoso»). Uma tradução literal também possível em português seria «omnipotente». Em vez de traduzir por «Deus Pai todo-poderoso», também poderíamos dizer «Deus Pai omnipotente». Em qualquer dos casos, «para os nossos contemporâneos esta fórmula não é bem aceite. Até pode se objeto de dois tipos de crítica. Por um lado, nós opomo-nos à ideia de um Deus que demonstra uma omnipotência sobre o ser humano; que liberdade permanece ao ser humano se Deus é omnipotente? Por outro lado, verificamos que Deus não é omnipotente porque não consegue eliminar todos os males da terra. Quantas pessoas, na provação do mal e do sofrimento, deixaram de acreditar em Deus porque, dizem, ele não atende as suas preces! ‘Se Deus existisse, não deixaria que existisse todo este mal’. ‘Se Deus fosse todo-poderoso, não teria deixado morrer esta pessoa que eu amava’. Ficamos tocados no coração por esta pergunta radical. Também as crianças a põem. Os adolescentes igualmente. Os que acompanham os doentes e os ouvem ficam impressionados no mais íntimo do coração. E muitos outros a sentem em si profundamente» (Mons. Christophe Dufour, «Cinco pequenas catequeses sobre o Credo», Edições Salesianas, Porto 2012, 16).

Deus não é rival do ser humano. A imperfeição da nossa linguagem para falar de Deus torna-se mais evidente quando pretendemos colocar Deus como rival do ser humano. E inventamos um Deus «controlador» da nossa liberdade. A omnipotência de Deus não se assemelha aos desejos humanos de poder, de querer subjugar os outros, às vezes, a todo o custo, recorrendo, se necessário, à violência. A omnipotência de Deus não se manifesta pela subjugação. O poder de Deus manifesta-se na fraqueza — diz São Paulo na Segunda Carta aos Coríntios (12, 9). Por isso, a questão essencial que perturba e prejudica o nosso entendimento não é o tema da omnipotência de Deus, mas a imagem ou imagens que temos de Deus. Purificadas as falsas imagens, que influenciam a forma como entendemos a religião, o atributo omnipotente de Deus será acolhido de uma outra forma, essa sim mais próxima da verdade sobre Deus e o seu poder. 

O mal. Outra das dificuldades está relacionada com a existência do mal no mundo. Exatamente porque Deus não «controla» a nossa liberdade, o ser humano pode ir até ao limite máximo de negar e aniquilar a dignidade do outro. Um Deus que impedisse o ser humano de agir, mesmo que fosse para impedir o mal, estaria a negar-se a si mesmo. O homem e a mulher tornar-se-iam numa espécie de «fantoches» manobrados por Deus de acordo com o que lhe aprouvesse em cada instante. Quando dizemos que Deus é «todo-poderoso» não estamos a afirmar que se trata de um poder arbitrário e intervencionista, para impedir o mal ou o sofrimento sempre que fosse necessário. Não é essa a identidade de Deus! «O teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer, executado pelos nazis, afirmou que ‘Deus é impotente e débil no mundo e só assim está connosco e nos ajuda’. É seguindo o exemplo de Deus que assume a debilidade humana, mas sem renunciar a combater o mal, que o ser humano aprende o seu ofício, combatendo o mal até ao extremo, sem nunca se resignar diante dele» (Marcel Neusch, «El enigma del mal», ed. Sal Terrae, Santander 2010, 184). 

A omnipotência de Deus só pode agir «através da mediação da resposta livre daquele que é amado, daquele que diz: ‘Sim, eu creio’. [...] A fé invoca sobre nós o amor. A fé invoca sobre a humanidade a omnipotência do amor de Deus» (Mons. Christophe Dufour, 19).



 

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 31.10.12 | Sem comentários
— reflexão semanal sobre o credo niceno-constantinopolitano —

«Creio em um só Deus, Pai» — assim começa o «Símbolo Niceno-Constantinopolitano». Também o início da primeira pergunta que — na fórmula batismal — se faz aos catecúmenos (adultos que se prepararm para celebrar o Batismo) ou aos pais e padrinhos no batismo de uma criança é: «Credes em Deus Pai [...]? Mas como é que sabemos que Deus é Pai? [Para ajudar a compreender melhor, ler: Mateus 6, 5-15; Catecismo da Igreja Católica, números 232 a 240

«Pai nosso que estás no Céu» — é a primeira expressão da oração que Jesus ensina aos discípulos. «Não sabemos o que seria ver Jesus rezar!... Aquilo que os discípulos puderam testemunhar devia constituir um espetáculo extraordinário de intimidade e confiança... e, compreensivelmente, pediram para ser iniciados nessa experiência. [...] Não é propriamente novo o pedido que os discípulos fazem. A novidade, a bem dizer, está do lado de Jesus. ‘Rezai, pois, assim: Pai nosso’[...]. Quando é que Jesus ensina o Pai-nosso aos discípulos? - Quando eles estão capazes de perceber Jesus como um acontecimento absolutamente novo. A oração é consequência, mais do que causa. É expressão da vivência, mais do que uma descoberta. O Pai-nosso nasce de uma caminhada. E é no culminar de uma etapa de maturação que o Pai-nosso é revelado. Nós também havemos de rezar o Pai-nosso, com verdade, quando percebermos, não apenas na linha da história e da sua espuma, mas no mais fundo de nós próprios, que Jesus Cristo traz a novidade de Deus. Talvez tenhamos para isso, como recomendava Fernando Pessoa, de ‘aprender a desaprender’. [...] Jesus faz-nos aceder a um limiar novo de Deus e da nossa humanidade» (José Tolentino Mendonça, «Pai-nosso que estais na Terra», Paulinas, Prior Velho 2011, 23.30). 


Esta novidade sobre Deus revelada por Jesus aparece nos (quatro) evangelhos, que usam 170 vezes a palavra «Pai» para designar ou invocar Deus. Em Jesus Cristo, Deus revela-se como seu e nosso «Pai». Aliás, a expressão usada por Jesus é «Abbá», que quer dizer, literalmente, «Papá» ou «Paizinho». Trata-se de uma expressão carregada de intimidade e de amor. É esta a primeira pessoa de Deus: Pai, um Pai que ama os seres humanos como seus filhos.

Pai. Esta bela expressão usada por Jesus para designar ou invocar Deus pode, contudo, provocar equívocos. O principal é a comparação com a paternidade humana, com o nosso progenitor masculino. Em consequência, surgem antropomorfismos (imagens humanas de Deus) que deturpam a realidade divina. E dão origem a falsas imagens de Deus. Ninguém pode negar que a palavra «pai» contém uma carga emocional, positiva ou negativa, conforme a experiência concreta de cada um. Por isso, o uso do termo «Pai» em relação a Deus não pode ser senão analógico. De facto, não existe nenhuma palavra humana capaz de abarcar a totalidade do Mistério de Deus. Todas as expressões, mesmo que tenham sido pronunciadas por Jesus Cristo, só podem ser uma ajuda (e nunca um entrave) para nos aproximar do Mistério divino. Por outro lado, a utilização do termo «Pai» para designar a primeira pessoa de Deus pode levar-nos a pensar, consciente ou inconscientemente, que se trata de uma figura masculino. Ora, isto não pode corresponder à verdade. Deus não é homem nem mulher. O que na verdade Jesus Cristo nos ensina é que Deus é a origem e a fonte da vida. Como afirmou o Papa João Paulo I: «Ele é Pai, mais ainda, é Mãe». Aliás, já no Antigo Testamento, os profetas utilizam a maternidade para se aproximarem do Mistério de Deus. Não é mais fácil recorrermos à imagem materna para designarmos a misericórdia, a ternura, a bondade, o carinho, a beleza? A «ternura paternal de Deus também pode ser expressa pela imagem da maternidade, que indica de modo mais incisivo a imanência de Deus, a intimidade entre Deus e a sua criatura» (Catecismo da Igreja Católica, 239). Neste contexto, o Papa Bento XVI interroga-se sobre o motivo pelo qual, na Bíblia, «mãe» é «uma imagem, mas não um título de Deus?». Talvez seja uma forma de Deus se diferenciar das divindades maternas adoradas pelos povos vizinhos, que «revelavam uma imagem da relação entre Deus e o mundo claramente contrária à imagem bíblica de Deus. [...] Pelo contrário, a imagem do pai era e é adequada para exprimir a alteridade entre Criador e criatura» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré», A Esfera dos Livros, Lisboa 2007, 187).

Chamar a Deus «Pai» é um convite ao silêncio contemplativo e ao amor. É um convite a entrar numa relação filial. Até que dentro de nós possam ecoar as palavras do nosso Pai que está no Céu: tu és o meu filho muito amado!




 

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.10.12 | Sem comentários
A primeira afirmação de fé, no «Símbolo Niceno-Constantinopolitano», é «Creio em um só Deus». Fica bem claro que acreditamos num único Deus ou num Deus uno, «um só Deus». Mas o Deus que Jesus Cristo nos revela não é também Trindade?! Não são três as pessoas divinas?! Hoje, vamos tentar ajudar a compreender, ou melhor, vamos aprender a acolher, pela fé, esta realidade divina: «um só Deus». [Para ajudar a compreender melhor, ler: Êxodo 3, 13-15; Catecismo da Igreja Católica, números 198 a 231

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.10.12 | Sem comentários
A reflexão sobre o «Credo» limita-se, muitas vezes, a constatar que o texto é muito complicado... Não poderemos olhar de outra forma para as palavras que expressam a nossa identidade cristã?! Este ano pastoral, durante quarenta e duas semanas, vamos apresentar as expressões do «Credo» para, a partir do texto, aprendermos a «dizer» (melhor) qual é a nossa fé. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Segunda Carta a Timóteo 1, 6-14; Catecismo da Igreja Católica, números 185 a 197

«Sei em quem acreditei» — esta afirmação de Paulo «ajuda-nos a compreender que ‘antes de mais, a fé é uma adesão pessoal do homem a Deus. Ao mesmo tempo, e inseparavelmente, é o assentimento livre a toda a verdade revelada por Deus’. A fé como confiança pessoal no Senhor e a fé que professamos no Credo são inseparáveis, se atraem e se exigem reciprocamente. Existe uma ligação profunda entre a fé vivida e os seus conteúdos: a fé das testemunhas e dos confessores é também a fé dos apóstolos» (Congregação para a Doutrina da Fé, «Nota com indicações pastorais para o Ano da Fé»).

Sinal de identidade. O «Credo» é designado símbolo da fé. Esta denominação está conforme com a origem etimológica da palavra, porque o símbolo, originalmente, era um objeto partido em dois, permitindo o reconhecimento entre as duas partes de um pacto, de um contrato. Cada parceiro conservava consigo uma metade desse objeto, e quando se juntavam as duas partes, podiam reconhecer-se ligados pelo pacto que anteriormente tinham assinado. O símbolo tem o valor do reconhecimento. Da mesma forma, o «Credo» é um símbolo porque, ao recitarmos este texto, reconhecemo-nos cristãos e parceiros de todas as gerações cristãs que nos precederam. É a expressão de uma fé comum, a fé da Igreja.

Existem três fórmulas «oficiais» para a profissão de fé, para o «Credo».


Credo batismal. A mais antiga é a profissão de fé nascida da liturgia batismal, que se faz sob a forma de pergunta/resposta, que permite proclamar, por um lado a renúncia ao mal, e, por outro lado, a profissão de fé em Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Esta forma, muito litúrgica, porque estava ligada à tripla imersão no batismo, é a mais simples. 

Símbolo dos Apóstolos. O nome desta fórmula nasce de uma lenda que atribuiu aos Apóstolos a autoria do texto. Este Símbolo é considerado a «regra da fé, breve e grande» (Santo Agostinho): breve pelo número das palavras, grande pelo alcance capaz de evocar em poucas palavras a totalidade da fé cristã. 

Símbolo Niceno-Constantinopolitano. Este texto não foi escrito, inicialmente, para uso na liturgia; resulta de discussões teológicas complicadas. O nome deste símbolo está relacionado com o Primeiro Concílio de Niceia (no ano 325) e com o Primeiro Concílio de Constantinopla (no ano 381), onde foi feita uma revisão do texto anterior. O «Credo» possui uma tríplice estrutura: a primeira estrutura é trinitária (Deus é confessado como único, mas também como comunhão de três pessoas distintas: Pai, Filho e Espírito Santo), a segunda estrutura é narrativa (conta a História da Salvação); a terceira estrutura é enunciativa (não se refere apenas ao conteúdo da fé, mas também aos sujeitos que dele se apropriam, para o viver e testemunhar).

«O Credo está no coração da liturgia pascal, batismal e dominical. Está no coração da catequese no catecumenado dos adultos, na profissão de fé dos jovens, na confirmação como também nos materiais catequéticos (catecismos). Ele está também no coração da teologia» (André Fossion, «Dieu désirable», Novalis; Lumen Vitae, Bélgica 2010, 121).

Creio. «Com a palavra ‘creio [acredito em ti]’, manifestamos um modo pessoal, nosso, de nos pormos diante de uma determinada pessoa: consideramo-la digna de confiança, convencidos de que diz a verdade» (Dionigi Tettamanzi, «Esta é a nossa fé!», Paulinas, Prior Velho 2005, 12). Dizer «creio» é afirmar a nossa confiança, apesar da dúvida ou do risco. Por isso, há uma (grande) diferença entre o crer, o ver e o saber. Como escreveu Jean Guitton, «saber é mais belo do que ver. Mas crer é ainda mais belo do que saber, porque no ato de crer há muito amor. Ver é uma operação feita pela vontade, e até pelo mais alto grau da vontade, que é o amor. Pois bem, há mais na inteligência do que nos sentidos; e há mais no amor do que na inteligência». Dizer «creio» é manifestar a nossa adesão livre e pessoal. Por isso, exige o envolvimento e o empenho da razão. Assim, torna-se útil e importante saber o que dizemos no «Credo» de modo a (re)descobrirmos a sua beleza e significado; e a fazer com que se torne um «sinal distintivo» da identidade cristã.


 
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.10.12 | Sem comentários
«Esta é a nossa fé» — é o título geral da iniciativa que se vai concretizar em quarenta e duas reflexões sobre o «Credo Niceno-Constantinopolitano». A partir de textos bíblicos e do Catecismo da Igreja Católica vão ser publicadas, nesta página, ao ritmo de uma por semana, até finais de julho de dois mil e treze. Em breve, estas reflexões estarão também disponíveis em audio através de uma parceria com as edições salesianas.



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.10.12 | Sem comentários
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