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Esta é a nossa fé [42]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

A última palavra do «Credo» é comum à maioria das orações: «termina com a palavra hebraica Ámen, palavra que se encontra com frequência no final das orações do Novo Testamento. Do mesmo modo, a Igreja termina com um ‘Ámen’ as suas orações» (Catecismo da Igreja Católica [CIC], 1061). [Para ajudar a compreender melhor, ler: 2Coríntios 1, 18-22; Catecismo da Igreja Católica, números 1061-1065]

«Graças a Ele, nós podemos dizer o ‘ámen’ para glória de Deus» — explica Paulo no início da Segunda Carta aos Coríntios. O termo «ámen» faz parte do património linguístico da Sagrada Escritura e, consequentemente, da Igreja. «Se considerarmos a Sagrada Escritura, vemos que este ‘ámen’ é pronunciado no fim dos Salmos de bênção e de louvor, como por exemplo no Salmo 41: ‘Tu me ajudarás, porque vivo com sinceridade, e me farás viver sempre na tua presença. Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, desde agora e para sempre. Ámen, ámen!» (versículos 13-14). Ou então exprime adesão a Deus, no momento em que o povo de Israel regressa cheio de alegria do exílio babilónico e diz o seu ‘sim’, o seu ‘ámen’ a Deus e à sua Lei. No Livro de Neemias narra-se que, depois deste regresso, ‘Esdras abriu o livro (da Lei) à vista de todo o povo, pois achava-se num lugar elevado, acima da multidão. Quando o escriba abriu o livro, todo o povo se levantou. Então, Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus, e e todo o povo respondeu, levantando as mãos: Ámen, ámen!’ (Neemias 8, 5-6).Por conseguinte, desde os primórdios o ‘ámen’ da liturgia judaica tornou-se o ‘ámen’ das primeiras comunidades cristãs» (Bento XVI, Audiência Geral de 30 de maio de 2012). Por fim, o último livro da Sagrada Escritura começa (cf. Apocalipse 1, 6) e termina (cf. Apocalipse 22, 21) com o «ámen» da Igreja.

Ámen. A raiz hebraica e aramaica («‘aman»), tem o significado de «tornar estável», «consolidar», «estar certo», «dizer a verdade». A partir da tradução grega, tornou-se comum associar «ámen» a «assim seja». Na linguagem popular, tomou o sentido de desejo ou resignação. Contudo, na oração não é resignação nem desejo, mas manifestação de segurança e de consentimento: era a resposta que os noivos pronunciavam perante a pergunta se queriam aceitar-se como marido e esposa. Por isso, o «ámen» não é uma mera conclusão: é também expressão de compromisso e segurança. Por outro lado, o «ámen» expressa a fidelidade recíproca entre Deus e o ser humano, entre Deus e nós (cf. CIC 1062). Neste sentido, dizer «ámen», no final do Credo, é repetir a primeira palavra — «Creio» —, reconhecendo a Trindade como único fundamento e sentido da vida. Então, eu acredito porque antes Deus acreditou e acredita em mim, amou-me e ama-me em cada momento da vida. Assim se exprimiu o papa Bento XVI (Audiência Geral de 30 de maio de 2012): «No ‘sim’ fiel de Deus insere-se o ‘ámen’ da Igreja que ressoa em cada gesto da liturgia: ‘ámen é a resposta da fé que encerra sempre a nossa oração pessoal e comunitária, e que expressa o nosso ‘sim’ à iniciativa de Deus. Muitas vezes respondemos por hábito com o nosso ‘ámen’ na oração, sem entender o seu significado profundo. [...] A oração é o encontro com uma Pessoa viva que deve ser ouvida e com a qual dialogar; é o encontro com Deus que renova a sua fidelidade inabalável, o seu ‘sim’ ao ser humano, a cada um de nós, para nos doar a sua consolação no meio das tempestades da vida e para nos levar a viver, unidos a Ele, uma existência cheia de alegria e de bem, que encontrará o seu cumprimento na vida eterna. Na nossa oração somos chamados a dizer ‘sim’ a Deus, a responder com este ‘ámen’ da adesão, da fidelidade a Ele de toda a nossa vida. Esta fidelidade nunca a podemos conquistar com as nossas próprias forças, não é apenas fruto do nosso compromisso quotidiano; ela vem de Deus e está fundada no ‘sim’ de Cristo, que afirma: o meu alimento é cumprir a vontade do Pai. É neste ‘sim’ que devemos entrar, entrar neste ‘sim’ de Cristo, na adesão à vontade de Deus, para chegar a afirmar com Paulo que já não somos nós que vivemos, mas é o próprio Cristo que vive em nós. Então, o ‘ámen’ da oração pessoal e comunitária envolverá e transformará toda a nossa vida de consolação de Deus, uma vida mergulhada no Amor».

A nossa fé não pode ser só uma fé professada. Tem de ser também uma fé celebrada, vivida, anunciada, contemplada. «A vida cristã de cada dia será, então, o ‘Ámen’ ao ‘Creio’ da profissão de fé do nosso Batismo: ‘Que o teu Símbolo seja para ti como um espelho. Revê-te nele, para ver se crês tudo quanto dizes crer. E alegra-te todos os dias na tua fé’» (CIC 1064).

© Laboratório da fé, 2013

Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé  Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.8.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [41]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

O «Credo» termina com a definição da meta para a qual caminha a existência humana: a esperança da ressurreição (tema 40) e da vida eterna, «a vida do mundo que há de vir». «O cristão, que une a sua morte à de Jesus, encara a morte como uma chegada até junto d’Ele, como uma entrada na vida eterna» (Catecismo da Igreja Católica, 1020). Aliás, esta não é só a meta da existência humana; é também a meta de toda a Criação. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Apocalipse 21, 1-5a; Catecismo da Igreja Católica, números 1020-1060]

«Vi, então, um novo céu e uma nova terra» — refere o autor do livro Apocalipse. A Bíblia termina com uma grandiosa afirmação de novidade. Numa visão, em linguagem simbólica, João vislumbra a meta: céu e terra são renovados (cf. tema 5: céu e terra simbolizam todas as coisas). Os perigos imprevisíveis, simbolizados pelo mar, desaparecem. Toda a Criação recebe uma dinâmica de mudanças positivas. Vencida a morte, eliminados os sofrimentos e as lágrimas, neutralizadas as forças hostis e negativas, começa uma vida nova em Jesus Cristo: «Eu renovo todas as coisas». Eis o resultado da vitória definitiva de Jesus Cristo (cf. temas 23 a 29). A novidade do Evangelho atinge a plenitude. Estamos perante uma nova Criação, em que tudo volta à situação original, tudo volta a ser vida e comunhão gozosa com Deus. Neste sentido, o texto bíblico destaca também a imagem de uma nova cidade: a «nova Jerusalém» que é sinal da instauração definitiva do Reino de Deus, sinal da presença («morada») de Deus. «No fim dos tempos, o Reino de Deus chegará à sua plenitude. [...] O próprio Universo material será transformado. Deus será, portanto, ‘tudo em todos’ (1Coríntios 28), na vida eterna» (Catecismo da Igreja Católica, 1060).

E a vida do mundo que há de vir. Ao refletirmos sobre a esperança da «vida do mundo que há de vir» ou da «vida eterna», a primeira barreira que temos de ultrapassar é pensar que se trata de uma vida e de um mundo iguais à vida e ao mundo em que nos encontramos agora. Não se trata de fazer perdurar para sempre a vida deste mundo ou algo semelhante. Bento XVI, na Carta Encíclica sobre a esperança cristã — «Spe Salvi», ao falar da vida eterna, explicita: «É uma expressão insuficiente, que cria confusão. Com efeito, ‘eterno’ suscita em nós a ideia do interminável, e isto nos amedronta; ‘vida’, faz-nos pensar na existência por nós conhecida, que amamos e não queremos perder, mas que, frequentemente, nos reserva mais canseiras que satisfações, de tal maneira que se por um lado a desejamos, por outro não a queremos. A única possibilidade que temos é procurar sair, com o pensamento, da temporalidade de que somos prisioneiros e, de alguma forma, conjeturar que a eternidade não seja uma sucessão contínua de dias do calendário, mas algo parecido com o instante repleto de satisfação, onde a totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade» (12). Não se trata de um tempo sem fim, mas da ausência de tempo. «A eternidade não é semelhante ao tempo e a verdadeira definição de eternidade não é a duração prolongada, mas a presença» (Jean Guitton, citado por Dionigi Tettamanzi, «Esta é a nossa fé!», Paulinas, Prior Velho 2005, 140). Por isso, a expressão mais apropriada será plenitude: «é plenitude de participação na vida do ‘Eterno’» (João Paulo II, Carta Encíclica sobre o valor e a inviolabilidade da vida humana — «Evangelium Vitae» [EV], 37). Há também outra barreira que precisamos de ultrapassar: pensar em espaço, lugar. Ora, a «vida do mundo que há de vir» não é um local superior, não é um local fora do mundo; não é um local, mas uma maneira de ser: «é a própria vida de Deus e simultaneamente a vida dos filhos de Deus» (João Paulo II, EV 38). Esta maneira de ser consiste na presença plena de Deus em nós e de nós em Deus. Por isso, «a vida eterna não é algo apenas futuro; é uma realidade que já começou e que já está em fase de crescimento. Na medida em que nos confiamos a Cristo, na medida em que o seu Espírito já nos guia, já começamos a viver na Jerusalém do Céu» (Rui Alberto, «Eu creio, Nós cremos. Encontros sobre os fundamentos da fé», ed. Salesianas, Porto 2012, 147).

Então, «não deixemos que nos roubem a esperança, nem permitamos que esta seja anulada por soluções e propostas imediatas que nos bloqueiam no caminho, que ‘fragmentam’ o tempo transformando-o em espaço. O tempo é sempre superior ao espaço: o espaço cristaliza os processos, ao passo que o tempo projeta para o futuro e impele a caminhar na esperança» (Francisco, Carta Encíclica sobre a fé — «Lumen Fidei», 57).

© Laboratório da fé, 2013

Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé  Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.7.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [40]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

«O Credo cristão — profissão da nossa fé em Deus Pai, Filho e Espírito Santo, e na sua ação criadora, salvadora e santificadora — culmina na proclamação da ressurreição dos mortos, no fim dos tempos, e na vida eterna» (Catecismo da Igreja Católica, 988). [Para ajudar a compreender melhor, ler: Romanos 8, 18-25; Catecismo da Igreja Católica, números 988-1019]

«Foi na esperança que fomos salvos» — afirma Paulo, na Carta aos Romanos, num capítulo (oitavo) dedicado à reflexão sobre a presença no Espírito Santo em cada ser humano. Este capítulo oitavo da Carta aos Romanos apresenta um esquema bem definido. Começa por apresentar dois princípios fundamentais que animam o cristão: o Espírito que dá a vida (versículos 1 a 13) e a filiação divina (versículos 14 a 30). E conclui com um hino ao amor que Deus, através de Jesus Cristo, derramou sobre a humanidade (versículos 31 a 39). A partir da habitação do Espírito no ser humano e da filiação divina, Paulo reflete sobre a fé e a esperança na ressurreição. Esta é a meta oferecida à humanidade e a toda a Criação. «A ‘redenção’, a salvação, segundo a fé cristã, não é um simples dado de facto. A redenção é-nos oferecida no sentido que nos foi dada a esperança, uma esperança fidedigna, graças à qual podemos enfrentar o nosso tempo presente: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho. E imediatamente se levanta a questão: mas de que género é uma tal esperança para poder justificar a afirmação segundo a qual a partir dela, e simplesmente porque ela existe, nós fomos redimidos? E de que tipo de certeza se trata?» (Bento XVI, Carta Encíclica sobre a esperança cristã — «Spe Salvi», [SS] 1).

E espero. «É a esperança que dá sentido à vida. E a esperança baseia-se na perspetiva de poder um dia transformar o mundo atual num mundo possível, julgado melhor» (François Jacob, «O Jogo dos Possíveis. Ensaio sobre a Diversidade do Mundo Vivo», Gradiva, 1989, 137-138). Para o cristão, a esperança é uma característica fundamental da vida. É uma virtude teologal, um dom da presença de Deus em nós. No contexto bíblico, é uma «palavra central da fé, a ponto de, em várias passagens, ser possível intercambiar os termos ‘fé’ e ‘esperança’» (SS 2). Assim, quando proclamamos a esperança, confirmamos a fé. Não se trata de uma incerteza como um desejo de que se realize alguma coisa: «eu espero que aconteça». Trata-se sim de uma realidade já concretizada com a vitória definitiva de Jesus Cristo sobre o pecado e a morte (cf. temas 27, 28 e 29). A esperança cristã está já em ação! «A existência cristã desenrola-se entre o já aqui do Reino vivido na ressurreição de Cristo tornado presente na vida sacramental e o ainda não acontecido desse Reino de paz e de força no Espírito. Esta existência em tensão é, por vezes, difícil de viver. Há a tentação de sobrevalorizar um aspeto em detrimento do outro. É a articulação dos dois que abre à esperança. A esperança não é um sonho, é o futuro aberto em nome do projeto do amor de Deus» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 161).

A ressurreição do mortos. A ressurreição é central na fé cristã. «Em certo sentido, a Ressurreição de Jesus é a única verdade cristã [...]. Mas este acontecimento único só assume a sua dimensão total na nossa ressurreição» (Ph. Ferlay..., 162). O que significa a «ressurreição dos mortos» ou a «ressurreição da carne», como se proclama no Credo batismal e no Símbolo dos Apóstolos? Há muita confusão sobre o verdadeiro significado da ressurreição (cf. tema 23). Até a própria linguagem usada nos documentos da Igreja (como por exemplo, no Catecismo da Igreja Católica), baseada na herança cultural e filosófica presente nos textos do Novo Testamento (nomeadamente nas cartas paulinas), pode interferir negativamente na compreensão desta realidade. Há termos como «carne» e «corpo» ou «espírito» e «alma» que podem conduzir a equívocos na capacidade de acolher o sentido da ressurreição. Por isso, não podemos ficar presos aos conceitos, mas procurarmos aprofundar o conteúdo. E sobre isso há claramente menos dúvidas! «Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou» (1Coríntios 15, 13).

«A ressurreição significa, no centro da fé, a verdade do nosso regresso ao Pai, Aquele que é a origem de tudo é também Aquele para quem caminhamos. Tomado no movimento trinitário, o ato de fé conduz-nos do Pai ao Pai, recapitulando a auto-revelação de Deus» (Ph. Ferlay..., 163).

© Laboratório da fé, 2013

Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé  Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.7.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [37]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

No «Credo niceno-constantinopolitano», existem quatro atributos relacionados com a Igreja: una, santa, católica e apostólica. Interligados entre si, estes atributos indicam os aspetos essenciais da Igreja e da sua missão. Já apresentamos os dois primeiros (cf. temas 35 e 36). Agora, vamos refletir sobre a catolicidade e a apostolicidade da Igreja. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Marcos 16, 15-16.20; Catecismo da Igreja Católica, números 830-870; para um aprofundamento sobre a Igreja propomos a leitura da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» — do II Concílio do Vaticano]

«Proclamai o Evangelho a toda a criatura» — é a missão que Jesus Cristo ressuscitado confia aos Apóstolos, tal como está narrado no evangelho segundo Marcos. Este convite também está presente no evangelho segundo Mateus (28, 19): «Fazei discípulos de todos os povos». Em ambos os casos, as palavras pronunciadas por Jesus Cristo são uma síntese dos evangelhos. Neste contexto, importa destacar a missão universal dos discípulos. Hoje, continua a ser o essencial da missão da Igreja. «Cristo ressuscitado enviou os seus discípulos para dar testemunho da sua presença salvífica a todos os povos, porque Deus, no seu amor superabundante, quer que todos sejam salvos e ninguém se perca. Com o sacrifício de amor na Cruz, Jesus abriu o caminho para que todo o homem e mulher possa conhecer a Deus e entrar na comunhão de amor com Ele. E constituiu uma comunidade de discípulos para levar o anúncio salvífico do Evangelho até os confins da terra, a fim de alcançar os homens e as mulheres de todos os lugares e de todos os tempos. Façamos nosso esse desejo de Deus!» (Bento XVI, Mensagem para a XXVIII Jornada Mundial da Juventude).

Católica. O sentido original do termo («católica») evoca a plenitude, a totalidade da Igreja. Opõe-se a tudo o que é divisão. «Professar na fé a ‘catolicidade’ da Igreja é recusar a atitude de quem seleciona algumas partes da experiência e da verdade de fé em desfavor de outras, mantendo somente as que lhe agradam mais. É empenhar-se num diálogo e numa comunhão universais» (Dionigi Tettamanzi, «Esta é a nossa fé!», Paulinas, Prior Velho 2005, 120-121). O Catecismo da Igreja Católica (número 830) afirma que o atributo da catolicidade possui um duplo sentido: a Igreja «é católica porque nela está presente Cristo [...]; é católica porque Cristo a enviou em missão à universalidade do género humano» (Catecismo da Igreja Católica, 830). Na verdade, a catolicidade da Igreja não está associada a uma dimensão espacial. Em primeiro lugar, a catolicidade remete para a sua identidade, cujo fundamento é Jesus Cristo. Em segundo lugar, aponta para a sua vocação que é ser universal. Ora, é o primeiro sentido (plenitude) que dá fundamento ao segundo (universalidade). Jesus Cristo envia a Igreja em missão a toda a humanidade. Em ambos os sentidos, podemos constatar que a catolicidade da Igreja está relacionada com a sua unidade (cf. tema 35). «Catolicidade e unidade caminham lado a lado. E a unidade tem um conteúdo: a fé que os Apóstolos nos transmitiram da parte de Cristo» (Bento XVI, «A alegria da fé», Paulinas Editora, Prior Velho 2011, 79).

E apostólica. «A Igreja é apostólica, porque está fundada sobre os Apóstolos» (Catecismo da Igreja Católica, 857), «porque confessa a fé dos Apóstolos e tenta vivê-la» (Bento XVI, 80). Este (quarto) atributo é o fundamento de todos os outros: «uma Igreja só é verdadeiramente una, santa e católica, quando é apostólica. [...] A apostolicidade da Igreja é a garantia da sua fidelidade no Espírito à missão confiada» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 158). Ao referir este atributo («apostólica») podemos cair no equívoco de o associar ao contexto da «sucessão apostólica», remetendo para os bispos, cuja tradição aponta como os sucessores dos Apóstolos. No entanto, precisamos de tomar consciência de que «seguir os apóstolos não é um privilégio de alguns, mas sim a tarefa de toda a Igreja. Somente a Igreja que vive universalmente na sucessão apostólica pode ser considerada apostólica, ou seja, em harmonia com o testemunho apostólico, tal como chegou até nós no Novo Testamento» (Hans Küng, «Credo. A Profissão de Fé Apostólica explicada ao Homem Contemporâneo», Instituto Piaget, Coleção «Crença e Razão» 14, Lisboa 1997, 158).

«Esta é a única Igreja de Cristo, que no Credo confessamos ser una, santa, católica e apostólica» (Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium», 8).

© Laboratório da fé, 2013

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Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 11.7.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [36]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

«Desde o século IV, todas as comunidades cristãs fazem, na sua profissão de fé, esta afirmação: ‘Creio na Igreja santa’. Qual é o verdadeiro significado desta ‘verdade’ que ganhou lugar no credo dos cristãos?» (Manuel Madureira Dias, «Igreja, que dizes de ti mesma? Reflexões sobre a Lumen Gentium», Paulinas Editora, Prior Velho, 2013, 170). [Para ajudar a compreender melhor, ler: Efésios 5, 25-27; Catecismo da Igreja Católica, números 823-829; para um aprofundamento sobre a Igreja propomos a leitura da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» — do II Concílio do Vaticano]

«Santa e imaculada» — são as duas características que a Carta aos Efésios relaciona com a Igreja em virtude do amor de Jesus Cristo. Ao falar da relação entre os esposos, Paulo sugere como modelo a relação de Jesus Cristo com a Igreja. Ele amou-a e entregou-se por ela, «para a santificar». Neste contexto, o autor da Carta aos Efésios retoma o simbolismo nupcial utilizado pelos profetas (Oseias, Jeremias, Isaías) para descrever o amor de Deus pelo seu povo. É este amor de Deus que se torna a fonte da santidade da Igreja. «A Igreja é, no dizer da Lumen Gentium, constituída por Cristo como ‘novo Povo de Deus, como nação santa, que, agora, é verdadeiro Povo de Deus’, na sequência do Povo da Antiga Aliança, e que foi constituído por Deus ‘para que o servisse na santidade’. [...] O plano de Deus em relação ao seu Povo é um só: que esse Povo seja santo. Aliás, as afirmações sobre a santidade de Deus, feitas pelo Antigo Testamento, têm sempre, unido a elas, o convite para que ele seja santo, porque Deus é Santo. E, para que não restem dúvidas [...], os apelos à santidade repetem-se, para eles, com boas razões, em diversas passagens dos livros do Novo Testamento (Manuel Madureira Dias, 156-157).

Santa. A santidade da Igreja é resumida, no Catecismo da Igreja Católica (número 867), com esta afirmação: «A Igreja é santa: é seu autor o Deus santíssimo; Cristo, seu Esposo, por ela se entregou para a santificar; vivifica-a o Espírito de santidade. Embora conte no seu seio pecadores, ela é ‘sem pecado feita de pecadores’». Em primeiro lugar, a Igreja é santa na sua origem. Ela tem a sua fonte na santidade de Deus. «A Igreja é santa, antes de mais, pela sua pertença a Deus, em Cristo, pelo Espírito Santo. Deus escolheu-a em Cristo, fez aliança com ela, consagrou-a, e fez dela lugar da sua habitação. Esta é, pois, a grande razão da santidade da Igreja» (Manuel Madureira Dias, 171). Aliás, qualquer abordagem sobre a Igreja tem sempre como primeira referência o próprio Deus. Por isso, o que dissemos sobre a unidade da Igreja (cf. tema 34), dizemos também sobre a sua santidade. «A unidade da Igreja não tem origem em si mesma, mas na santidade de Deus que a envia em missão ao coração do mundo. A santidade da Igreja não é mais evidente que a sua unidade. É aos olhos da fé que a Igreja é indefetivelmente santa. Não é santa pelas pessoas que a compõem e que seriam melhores que os outros. É a Igreja que Deus santifica sem cessar. É, ao mesmo tempo, santa e chamada a purificar-se vivendo do perdão do Pai. [...] A Igreja deve pedir cada dia a Deus a santificação e a santidade» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 155-156). A origem da Igreja é também a sua meta. «A Igreja, à qual todos somos chamados e na qual por graça de Deus alcançamos a santidade, só na glória celeste alcançará a sua realização acabada, quando vier o tempo da restauração de todas as coisas» (Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» [LG], 48). Entretanto, como membros, não podemos afirmar a santidade da Igreja sem assumirmos, pessoal e comunitariamente, um compromisso de conversão, de permanente arrependimento e uma disponibilidade para renovar a nossa maneira de viver. «A Igreja, contendo pecadores no seu próprio seio, simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação, exercita continuamente a penitência e a renovação» (LG 4). Neste sentido, podemos afirmar que a Igreja também é santa na sua missão, ou melhor, é «santificante»: tem como finalidade contribuir para a santificação de todos os seus membros. «A Igreja, unida a Cristo, é santificada por Ele. Por Ele e n’Ele torna-se também santificante» (Catecismo da Igreja Católica, 824). O II Concílio do Vaticano, na Constituição Dogmática sobre a Igreja («Lumen Gentium»), apresenta um capítulo (número 39 a 42) onde recorda a «vocação de todos à santidade na Igreja».

Una e santa na sua origem, a Igreja tem como missão levar a unidade e a santidade a todos os seres humanos. A sua missão é universal, isto é, católica.

© Laboratório da fé, 2013

Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé  Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.7.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [35]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

A fé no Espírito Santo continua com a proclamação: «Creio na Igreja una»... Na verdade, o «Credo» ensina-nos que há uma ligação profunda entre o Espírito Santo e a Igreja. «A missão de Cristo e do Espírito Santo completa-se na Igreja» — afirma o Catecismo da Igreja Católica (número 737). Por isso, o Espírito Santo é também a fonte da unidade na Igreja. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Atos dos Apóstolos 2, 42-47; Catecismo da Igreja Católica, números 731-741 e 813-822]

«Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum» — relata o livro dos Atos dos Apóstolos. «Os crentes é um modo de designar os ‘cristãos’. Viviam unidos. Sublinha-se fortemente o que caracteriza a comunidade primitiva: a união, a unanimidade, a comunhão fraterna, a partilha dos bens. A comunidade de Jerusalém tornou-se, assim, um exemplo para todos os crentes e para todas as igrejas. Estes versículos constituem o primeiro sumário relativo à vida da comunidade de Jerusalém. [...] É posta em evidência a unidade de uma comunidade, os seus elementos característicos, a partilha dos bens e a atividade miraculosa dos Apóstolos. As primeiras componentes da vida de comunidade são o ensino dos Apóstolos e a união fraterna. O espaço dessa realização comunitária era o culto, do qual faziam parte a fração do pão, a Eucaristia, e as orações» (Bíblia Sagrada. Notas ao texto dos Atos dos Apóstolos, Difusora Bíblica, 1780). Este relato do livro dos Atos dos Apóstolos (cf. capítulo 2) aparece na sequência do dom do Espírito Santo (Pentecostes) e do primeiro discurso de Pedro. Agora, o Espírito Santo continua a animar os cristãos que procuram viver da melhor maneira o ideal comunitário proposto por Jesus Cristo. No texto, percebe-se que a unidade é uma caraterística essencial da comunidade cristã.

Creio. «No Credo, imediatamente depois de ter professado a fé no Espírito Santo, dizemos: ‘Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica’. Há um vínculo profundo entre estas duas realidades de fé: com efeito, é o Espírito Santo que dá vida à Igreja, guiando os seus passos. Sem a presença e a obra incessante do Espírito Santo, a Igreja não poderia viver nem cumprir a tarefa que Jesus ressuscitado lhe confiou, de ir e ensinar todas as nações» (Francisco, Audiência Geral de 22 de maio de 2013). Portanto, apesar deste apartado sobre a Igreja começar com a afirmação «Creio», como acontece em relação à Trindade — «Creio em um só Deus (cf. tema 1)... Creio em um só Senhor, Jesus Cristo (cf. tema 7)... Creio no Espírito Santo» (cf. tema 30) —, convém não esquecer que o «Credo» possui uma estrutura trinitária assente na Trindade: Pai, Filho, Espírito Santo. «O artigo sobre a Igreja depende inteiramente do artigo sobre o Espírito Santo. [...] A Igreja é o lugar ‘onde floresce o Espírito’» (Catecismo da Igreja Católica, 749).

Na Igreja. «A Igreja é a primeira obra do Espírito em que se confessa a sua presença ativa no coração dos homens. [...] A Igreja é a comunidade de crentes convocada e reunida pelo Espírito. A palavra ‘ecclesia’, de onde vem ‘Igreja’, significa quer a convocação, quer a assembleia reunida» (Rui Alberto, «Eu creio, Nós cremos. Encontros sobre os fundamentos da fé», ed. Salesianas, Porto 2012, 134).

Una. O Catecismo da Igreja Católica (número 813) afirma que a igreja é una, graças à sua fonte (Trindade), graças ao seu fundador (Jesus Cristo), graças à sua «alma» (Espírito Santo). É da própria essência da Igreja o ser una. «Há um primeiro efeito importante da obra do Espírito Santo que guia e anima o anúncio do Evangelho: a unidade, a comunhão. Em Babel, segundo a narração bíblica, tiveram início a dispersão dos povos e a confusão das línguas, fruto do gesto de soberba e de orgulho do ser humano [...]. No Pentecostes, estas divisões são superadas. Já não há orgulho em relação a Deus, nem fechamento de uns aos outros, mas abertura a Deus [...]. A língua do Espírito, do Evangelho, é a língua da comunhão, que convida a superar fechamentos e indiferenças, divisões e oposições» (Francisco, Audiência Geral de 22 de maio de 2013). No entanto, a realidade (ontem como hoje) mostra-nos que há ainda um caminho a percorrer para a unidade plena. Por isso, a Igreja tem de se empenhar para conservar o dom da unidade (cf. Catecismo da Igreja Católica, número 820).

«Cada um deve perguntar: como me deixo guiar pelo Espírito Santo, de modo que a minha vida e o meu testemunho de fé seja de unidade e comunhão? [...] Que faço na minha vida? Crio unidade ao meu redor? Ou divido com mexericos, críticas e inveja. O que faço? Pensemos nisto» (Francisco, Audiência Geral de 22 de maio de 2013).

© Laboratório da fé, 2013

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Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.6.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [34]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

A primeira parte dedicada ao Espírito Santo, no «Credo niceno-constantinopolitano», termina com uma referência à ação do Espírito Santo através dos «Profetas»: «Ele que falou pelos Profetas». [Para ajudar a compreender melhor, ler: Hebreus 1, 1-2; Catecismo da Igreja Católica, números 702-716]

«Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais [...] por meio dos profetas» — começa por referir o autor da Carta aos Hebreus. A Igreja associa a ação de Deus através dos profetas à presença do Espírito Santo. Deus fala através dos profetas pela ação do Espírito Santo. Por isso, o Espírito Santo, na expressão de Simeão, Novo Teólogo (1022), é designado como «boca de Deus»: «A boca de Deus é o Espírito Santo» (Livro de Ética: III, citado por Comissão Teológico-Histórica do Grande Jubileu do Ano 2000, «Do Teu Espírito, Senhor, está cheia a terra», Paulinas, Lisboa 1997, 20).

Ele que falou pelos Profetas. A palavra «profeta» tem vários significados. «Talvez as duas conotações mais marcantes de profeta sejam a de ‘vidente’ e a de ‘porta-voz’ que transmite certa mensagem em nome de outro. O termo ‘profeta’, usado em português, deriva do grego e sublinha esta segunda ideia, isto é, alguém que fala como porta-voz de outro» (Bíblia Sagrada, Livros Proféticos, Difusora Bíblica, 1163). No nosso contexto, o «profeta» é aquele que fala em nome de Deus. Por essa razão, afirmamos no «Credo» que o Espírito Santo «falou pelos Profetas». Aliás, quer na Escritura quer na Tradição da Igreja, o dom profético está intimamente ligado ao Espírito Santo. Mas há uma questão que é necessário precisar: quem são os «Profetas» referidos no «Credo»? Na maior partes das vezes, a referência aos profetas está associada a um contexto histórico específico do povo de Israel, situado no Antigo Testamento. «É um facto que, quando falamos de profetas, omitimos quase sempre, uma vezes por simples rotina, outras vezes também por ignorância ou negligência, os profetas cristãos cuja existência é mencionada cerca de 20 vezes no Novo Testamento, e referimo-nos exclusivamente aos profetas do Antigo Testamento, a quem vemos normalmente como homens que atuaram pela ação do Espírito Santo» (António Couto, «O Espírito Santo ‘que falou pelos Profetas’», Bíblica. Série científica, Ano VI, número 6, dezembro de 1997, 47-48). Para evitar este equívoco em relação ao âmbito do termo «Profetas» empregue no «Credo», o Catecismo da Igreja Católica explica: «Por ‘profetas’, a fé da Igreja entende aqui todos aqueles que o Espírito Santo inspirou na redação dos livros santos, tanto do Antigo como do Novo Testamento» (número 702). Então, podemos dizer que a ação do Espírito Santo através dos «Profetas» inclui a totalidade dos livros da Bíblia. O «Espírito também fala, por assim dizer, com palavras humanas [...], é um Espírito falante, ou antes, é Palavra que, nos escritos do Antigo e do Novo Testamento, vem ao nosso encontro» (Bento XVI, «A alegria da fé», Paulinas Editora, Prior Velho 2011, 59). A esta dinâmica da ação do Espírito Santo chamamos «inspiração das Escrituras». Assim o afirmam os documentos da Igreja. A Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina - «Dei Verbum» refere: «A Sagrada Escritura é a palavra de Deus enquanto foi escrita por inspiração do Espírito Santo» (número 9); «As coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo. [...] Tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo» (número 11). Bento XVI, na Exortação Apostólica sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja - «Verbum Domini» também afirma: «A Palavra de Deus exprime-se em palavras humanas graças à obra do Espírito Santo. [...] É este Espírito que inspira os autores das Sagradas Escrituras» ( número 15). Por fim, é importante referir que Espírito Santo que «falou pelos Profetas» continua a «falar» hoje. «O mesmo Espírito inspirador dos autores sagrados da Bíblia também inspira o leitor para a compreensão da sua Palavra, dentro da Igreja. Daí a bela tradição de pedir ao Espírito a sua ação para uma leitura fecunda e eficaz da Palavra» (Palavra do Senhor - «Verbum Domini». Exortação Apostólica pós-sinodal de Bento XVI. Textos e comentários. Difusora Bíblica, Fátima 2010, 35). Esta ação do Espírito concretiza-se na leitura orante da Palavra de Deus (conhecido pela expressão latina «lectio divina»).

«A Igreja, no silêncio, na escuta e acolhimento da Palavra de Deus, deixa-se ensinar, formar e desafiar pelo Espírito, que fala através das Escrituras» (Conferência Espiscopal Portuguesa, Carta Pastoral «O Espírito Santo, Senhor que dá a vida», 12).

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Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé    Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.6.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [33]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

O Catecismo da Igreja Católica resume num parágrafo a identidade divina do Espírito Santo: «A missão do Espírito Santo, enviado pelo Pai em nome do Filho e pelo Filho ‘de junto do Pai’ (João 15, 26), revela que Ele é, com Eles, o mesmo e único Deus. ‘Com o Pai e o Filho é adorado e glorificado’» (número 263). No «Credo niceno-constantinopolitano», esta identidade é reforçada com a afirmação: «E com o Pai e o Filho é adorado e glorificado» [Para ajudar a compreender melhor, ler: Isaías 6, 1-3; Catecismo da Igreja Católica, números 253-267 e 683-690]

«Santo, Santo, Santo. [...] Toda a terra está cheia da sua glória» — afirma o profeta Isaías. São muitos os textos bíblicos que se referem à santidade divina e à sua glória. Estes «atributos» também estão em destaque na liturgia da Igreja. Aqui, é ainda mais evidente a relação da santidade e da glória com a Trindade: Pai, Filho, Espírito Santo.

E com o Pai e o Filho é adorado. Esta afirmação pretende reforçar a natureza divina do Espírito Santo. Ao dizermos que o Espírito Santo é «Senhor» (cf. tema 31) estamos a manifestar a nossa fé na sua divindade, tal como ao dizermos que é «Santo». De facto, estes dois títulos — «Senhor» e «Santo» — são próprios de Deus e já se encontram na Escritura atribuídos ao Espírito (cf. 2Coríntios 3, 17-18; João 14, 26). Por isso, o Espírito Santo, juntamente com o Pai e o Filho, é digno de adoração. «Que significa adorar a Deus? Significa aprender a estar com Ele, demorar-se em diálogo com Ele, sentindo a sua presença como a mais verdadeira, a melhor, a mais importante de todas. [...] Adorar o Senhor quer dizer dar-Lhe o lugar que Ele deve ter; adorar o Senhor significa afirmar, crer – e não apenas por palavras – que Ele é o único que guia verdadeiramente a nossa vida; adorar o Senhor quer dizer que vivemos na sua presença convencidos de que é o único Deus, o Deus da nossa vida, o Deus da nossa história. Daqui deriva uma consequência para a nossa vida: despojar-nos dos numerosos ídolos, pequenos ou grandes, que temos e nos quais nos refugiamos, nos quais buscamos e muitas vezes depomos a nossa segurança. São ídolos que conservamos bem escondidos; podem ser a ambição, o carreirismo, o gosto do sucesso, o sobressair, a tendência a prevalecer sobre os outros, a pretensão de ser os únicos senhores da nossa vida, qualquer pecado ao qual estamos presos, e muitos outros. [...] Adorar é despojarmo-nos dos nossos ídolos, mesmo os mais escondidos, e escolher o Senhor como centro, como via mestra da nossa vida» (Francisco, Homilia 14 de abril de 2013).

E glorificado. O termo «glória» exprime o esplendor de Deus que suscita o louvor agradecido das criaturas. «Deus é glorioso, é a Verdade indestrutível, a Beleza eterna. Trata-se da certeza fundamental e consoladora da nossa fé. Mas também aqui, segundo os três primeiros mandamentos do Decálogo, existe subordinadamente uma tarefa que nos cabe: empenhar-nos para que a grande glória de Deus não seja desonrada nem deturpada no mundo, para que se preste a devida glória à sua grandeza e à sua vontade» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré. Prólogo — A infância de Jesus», Princípia Editora, Cascais 2012, 67-68). A origem bíblica da palavra «glória» (em hebraico diz-se «kabod»), significa «peso», como símbolo de poder e de autoridade. Os gregos traduzem por «doxa», que significa «aparecer» ou «resplandecer». Finalmente, os latinos usam o termo «gloria» que tem o sentido de «ouvir», «fazer-se ouvir» e também «soar», «ser famoso». «A variedade dos termos e dos significados ajudam-nos a compreender que dá glória a Deus quem corresponde à sua iniciativa criadora e salvífica, reconhecendo e celebrando o seu poder, a sua soberania, o seu esplendor e o seu acolhimento universal. [...] Glorificá-lo, quer dizer, amá-lo com os lábios e o coração, com a vida, as palavras e as obras» (Bruno Forte, «Eis o Mistério da Fé: crer, viver, testemunhar», Paulinas Editora, Prior Velho 2012, 102). Esta é a meta da oração e da vida cristã: «Se percorrermos em profundidade este caminho, achamo-nos continuamente na presença do mistério das três Pessoas divinas para As louvar, adorar, agradecer» (João Paulo II, Carta Apostólica sobre o Rosário — «Rosarium Virginis Mariae», 34).

«Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo»: todas as vezes que proclamamos estas palavras, síntese da nossa fé, adoramos o único e verdadeiro Deus em três Pessoas. Contemplamos estupefactos este mistério que nos envolve totalmente. Mistério de amor; mistério de santidade (João Paulo II, 10 de junho de 2001). Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre. Ámen!

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Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.6.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [32]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

A dificuldade em definir o Espírito Santo, que temos vindo a referir (cf. temas 30 e 31), alargou-se à questão da origem do Espírito Santo. Qual é a origem do Espírito Santo? O Pai? O Filho? O Pai e o Filho? A resposta a estas interrogações provocou uma discussão profunda no seio da Igreja; e contribuiu para acentuar a separação entre o Oriente e o Ocidente, dando origem à primeira grande separação entre as igrejas: Igreja Católica e Igreja Ortodoxa [Para ajudar a compreender melhor, ler: João 15, 26-27; Catecismo da Igreja Católica, números 243-248]

«O Espírito da Verdade, que procede do Pai e que Eu vos hei de enviar da parte do Pai» — é a terceira promessa do Espírito feita por Jesus Cristo aos apóstolos, de acordo com o evangelho segundo João. Esta afirmação está na base do doutrina sobre o Espírito Santo que proclamamos no «Credo»: «e procede do Pai e do Filho».

E procede do Pai. Na linguagem humana — sempre imperfeita para referir o ser, a essência de Deus — Deus Pai é apresentado como a «fonte e a origem de toda a Divindade». Assim se compreende que o «Credo» apresente a relação trinitária de Deus sempre a partir do Pai. Por isso, dizemos que o Filho é «gerado» e «consubstancial ao Pai» (cf. temas 12 e 13); e também dizemos que o Espírito «procede do Pai». Isto significa que o Espírito Santo, tal como o Filho, é da mesma identidade e natureza que o Pai. O Filho e o Espírito Santo não foram criados, mas fazem parte da essência de Deus. E assim se constituiu a revelação trinitária de Deus. Através da Bíblia, esta revelação surge como uma relação de comunhão entre as três Pessoas de Deus: Pai, Filho e Espírito Santo.

E do Filho. «O Espírito Santo procede do Pai enquanto fonte primeira; e, pelo dom eterno do Pai ao Filho, procede do Pai e do Filho em comunhão», afirma o Catecismo da Igreja Católica (número 264) citando Santo Agostinho. A relação entre o Filho e o Espírito Santo deu origem à primeira grande divisão no seio da Igreja. Trata-se de uma questão mais linguística do que teológica, mas historicamente teve consequências muito graves para a unidade da Igreja. Por isso, vamos apresentar resumidamente o essencial. «As culturas, as línguas e as sensibilidades teológicas levaram o Ocidente e o Oriente a exprimirem de maneiras diferentes estas relações entre as Pessoas divinas. Sem entrar em pormenores é possível reter que o Oriente foi mais cuidadoso em manifestar a monarquia do Pai, sendo o único sem origem e sendo fonte de vida trinitária. O Ocidente desenvolveu mais especificamente as relações entre as Pessoas divinas, exprimindo-as em termos de amor partilhado. Um e outro confessando realmente que é o Espírito de Cristo que é dado, e que o Espírito está espalhado porque o Filho participa na glória do Pai» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 138). Na verdade, sempre existiu uma diferença sadia e complementar entre as duas partes da mesma Igreja: a parte ocidental dominada pelo pensamento latino e a parte oriental mais dominada pela cultura grega. Os concílios serviam exatamente para dirimir as questões e estabelecer uma doutrina comum a toda a Igreja. Ora, o «Credo» que resulta do Concílio de Constantinopla (em 381) refere apenas que o Espírito Santo «procede do Pai». Assim se definiu o «símbolo» da fé comum à Igreja que estava no Ocidente e no Oriente. No entanto, a tradição latina da Igreja (Ocidente) foi introduzindo, na proclamação de fé nas celebrações litúrgicas, a expressão «e do Filho»: o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. Curiosamente, foram as igrejas situadas na Península Ibérica (Espanha e Portugal) que, durante o século VII, mais promoveram a inserção da expressão «e do Filho» no texto do «Credo», que não seria bem aceite pela parte oriental da Igreja Católica. As posições foram levadas ao extremo: para os orientais, o Espírito procede do Pai pelo Filho; para os ocidentais, o Espírito procede do Pai e do Filho. Devido à importância histórica que assumiu, esta questão ficou conhecida pelo termo latino «Filioque» (em português: «e do Filho»). E será mais um argumento para consumar a rutura que acontece no ano de 1054: a separação entre o Ocidente e o Oriente, dando origem à Igreja Ortodoxa.

Hoje, reconhece-se que a controvérsia tornou-se mais linguística do que teológica, porque o que realmente estava em causa era apenas o significado da palavra «proceder». No entanto, a afirmação que no «Credo niceno-constantinopolitano» se refere à origem do Espírito Santo — «e procede do Pai e do Filho» — contribui para as divergências que separam católicos e ortodoxos.

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Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.6.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [31]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

Há uma dificuldade clara em explicar a Trindade de Deus; e ainda maior é a dificuldade em dizer «quem» é o Espírito Santo, a terceira Pessoa de Deus (cf. tema 30). Na proclamação da fé católica, dizemos que o Espírito Santo é «Senhor que dá a vida». Perante a pergunta sobre quem é o Espírito Santo podemos responder: é Senhor; é fonte de vida. [Para ajudar a compreender melhor, ler: João 4, 1-42; Catecismo da Igreja Católica, números 683-686 e 703-710 e 721-726]

«A água que Eu lhe der há de tornar-se nele em fonte de água que dá a vida eterna» — diz Jesus Cristo, no diálogo com a mulher samaritana que se aproxima do poço de Jacob, em Sicar. Nesta narração do evangelho segundo João, depois da primeira troca de palavras, a mulher fica maravilhada com a resposta de Jesus Cristo. A samaritana não consegue entender tudo, até porque se situa apenas na evidência: para ela, a água encontra-se no fundo do poço. Mas Jesus Cristo insiste numa água que sacia a sede para sempre. «Jesus promete à Samaritana que dará a ‘água viva’, em abundância e para sempre, a todos aqueles que o reconhecerem como o Filho enviado pelo Pai para nos salvar (cf. João 4, 5-26; 3, 17). Jesus veio para nos dar esta ‘água viva’ que é o Espírito Santo, para que a nossa vida seja guiada, animada e alimentada por Deus. Quando dizemos que o cristão é um homem espiritual entendemos precisamente isto: é uma pessoa que pensa e age em conformidade com Deus, segundo o Espírito Santo. Mas pergunto-me: e nós, pensamos segundo Deus? Agimos em conformidade com Deus? Ou deixamo-nos guiar por muitas outras coisas que não são propriamente Deus? Cada um deve responder a isto no profundo do seu coração» (Francisco, Audiência Geral de 8 de maio de 2013).

Senhor. O título de «Senhor» (e fonte de vida) atribuído ao Espírito Santo acontece no Concílio de Constantinopla, no ano de 381. Afirmar que o Espírito Santo é Senhor, tal como Jesus Cristo (cf. tema 7), é proclamar a sua divindade: é uma Pessoa de Deus. «Porque é uma Pessoa divina, o Espírito faz-nos participar na vida de Deus» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 125). Neste sentido, podemos dizer que «o ‘Espírito’ é um dom de Deus, melhor, é o próprio Deus que se dá. [...] O Espírito Santo é o próprio Deus que se comunica» (Dionigi Tettamanzi, «Esta é a nossa fé!», Paulinas, Prior Velho 2005, 104-105).

Que dá a vida. O Catecismo da Igreja Católica afirma que o Espírito Santo está presente na Criação como o «Sopro» de Deus que, com a Palavra, está «na origem do ser e da vida de todas as criaturas» (número 703). O Espírito é como a «respiração» de Deus. Entre outros, há um momento ímpar em que se destaca a presença do Espírito Santo como fonte de vida: a Encarnação (cf. tema 17 e Catecismo da Igreja Católica, números 721 a 726: «É com e pelo Espírito Santo que a Virgem concebe e dá à luz o Filho de Deus»). Presente na Criação, na Encarnação — e em todos os momentos da história — o Espírito Santo continua a derramar sobre nós a vida de Deus. «O Espírito Santo é a fonte inesgotável da vida de Deus em nós. O ser humano de todos os tempos e lugares deseja uma vida plena e boa, justa e serena, uma vida que não seja ameaçada pela morte, mas que possa amadurecer e crescer até à sua plenitude. O ser humano é como um viajante que, ao atravessar os desertos da vida, tem sede de água viva, jorrante e fresca, capaz de saciar profundamente o seu desejo de luz, amor, beleza e paz. Todos nós sentimos este desejo! E Jesus doa-nos esta água viva: é o Espírito Santo. [...] Este é o dom precioso que o Espírito Santo derrama nos nossos corações: a própria vida de Deus, vida de filhos verdadeiros, uma relação de intimidade, liberdade e confiança no amor e na misericórdia de Deus, que tem como efeito também um olhar novo para os outros, próximos e distantes, vistos sempre como irmãos e irmãs em Jesus, que devem ser respeitados e amados. O Espírito Santo ensina-nos a ver com os olhos de Cristo, a viver e a compreender a vida como Ele o fez. Eis por que a água viva que é o Espírito Santo sacia a nossa vida, porque nos diz que somos amados por Deus como filhos, que podemos amar Deus como seus filhos e com a sua graça podemos viver como filhos de Deus, como Jesus» (Francisco, 8 de maio de 2013).

«Deixemo-nos guiar pelo Espírito Santo, permitamos que Ele nos fale ao coração e nos diga: Deus é amor, Deus espera-nos, Deus é Pai, ama-nos como verdadeiro pai, ama-nos verdadeiramente e só o Espírito Santo diz isto ao nosso coração» (Francisco).

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Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.5.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [30]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

O «Credo» tem uma estrutura trinitária: divide-se em três partes, cada uma delas correspondendo a uma das Pessoas da Trindade: Pai, Filho, Espírito Santo. Por isso, entramos agora no artigo dedicado ao Espírito Santo. Tal como os outros, também este começa com uma afirmação de fé: «Creio no Espírito Santo». [Para ajudar a compreender melhor, ler: Atos dos Apóstolos 2, 1-13; Catecismo da Igreja Católica, números 683-688 e 692-701]

«Todos ficaram cheios do Espírito Santo» — relata o livro dos Atos dos Apóstolos ao evocar o dom do Espírito Santo oferecido aos apóstolos. Era o dia de «Pentecostes», uma festa judaica (cf. Deuteronómio 16, 9-12; Números 28, 26-31) cujo nome foi adotado pelos cristãos para designar esta nova realidade: a presença do Espírito Santo na vida da Igreja, na vida dos seres humanos. O relato dos Atos dos Apóstolos é composto por duas partes: a descida do Espírito Santo (versículos 1 a 4) e a constatação do milagre das línguas (versículos 5 a 13). Há uma mudança de cenário entre as duas partes: do espaço interior (casa) passa-se para o exterior (cidade); do grupo dos discípulos passa-se para uma multidão composta por pessoas «provenientes de todas as nações que há debaixo do céu». Embora a primeira cena seja a mais conhecida e a mais preferida dos artistas, o narrador desenvolve mais a segunda, através da descrição dos comentários e das reações dos presentes. A primeira observação que podemos fazer é que o Espírito provoca a unidade. Primeiro, a unidade do dom: «Todos ficaram cheios do Espírito Santo». E depois a unidade do anúncio: «cada um os ouvia falar na sua própria língua». Assim, é apresentado o início da Igreja, fundada pelo dom do Espírito Santo, que, embora constituída por povos de todo o mundo, vive unida pela mesma fé.

Creio. Ecoa de novo a afirmação de fé: «Creio» (cf. temas 1 e 7). «A palavra ‘Creio’ introduz-nos numa série de afirmações nas quais se sedimentou a memória de uma longa história de Deus com os seres humanos» (Dionigi Tettamanzi, «Esta é a nossa fé!», Paulinas, Prior Velho 2005, 21).

No Espírito Santo. «Crer no Espírito Santo é professar que o Espírito Santo é um das pessoas da Santíssima Trindade» (Catecismo da Igreja Católica, 685). Apesar de ser o «último na revelação das pessoas da Santíssima Trindade», o Catecismo da Igreja Católica, a partir de duas citações das cartas paulinas (Primeira Carta aos Coríntios 12, 3 e Gálatas 4, 6), afirma que «este conhecimento de fé só é possível no Espírito Santo. Para estar em contacto com Cristo, é preciso primeiro ter sido tocado pelo Espírito Santo. É Ele que vem ao nosso encontro e suscita em nós a fé. [...] O Espírito Santo, pela sua graça é o primeiro no despertar da nossa fé e na vida nova» (números 683 e 684). Mas se há uma dificuldade em abordar a Trindade a partir do Pai e do Filho, parece ser ainda mais difícil fazê-lo a partir do Espírito Santo. «Quando São Paulo chega a Éfeso, os discípulos que encontra dizem-lhe que nunca ouviram falar do Espírito Santo. Será que se Paulo viesse falar às nossas comunidades, não escutaria a mesma resposta? A nossa ideia do Espírito é muito confusa. Não sabemos que nome dar-Lhe nem como O representar. Só as metáforas exprimem um aspeto das suas manifestações: é sopro, fogo, vento, pomba, água, selo...» (Rui Alberto, «Eu creio, Nós cremos. Encontros sobre os fundamentos da fé», ed. Salesianas, Porto 2012, 132). O Catecismo da Igreja Católica (números 694 a 701) apresenta uma explicação para cada um dos símbolos que exprimem a ação do Espírito Santo: água, unção, fogo, nuvem e luz, selo, mão, dedo e pomba. De facto, constatamos que é mais fácil falar do «como» é a experiência do Espírito Santo na vida do que tentar explicar «quem» é o Espírito Santo. «Jesus ao anunciar e prometer a vinda do Espírito Santo, chama-Lhe o ‘Paráclito’, que, à letra, quer dizer: ‘aquele que é chamado para junto’, ‘advocatus’» (Catecismo da Igreja Católica 692). Por isso, entre os nomes mais comuns para designar o Espírito Santo aparecem os termos «Paráclito», «Advogado», «Defensor» e «Consolador». Além dos nomes e dos símbolos associados ao Espírito Santo, a doutrina tradicional da Igreja Católica, refere também sete dons (Sabedoria, Entendimento, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade, Temor de Deus) e doze frutos (Amor, Alegria, Paz, Paciência, Benignidade, Bondade, Longanimidade, Mansidão, Fé, Modéstia, Continência e Castidade).

«Acreditar no Espírito Santo significa acreditar que Deus atua sem parar na história da humanidade. Ele nunca deixou de Se exprimir em palavras que podemos entender» (Rui Alberto, 132).

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Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.5.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [29]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

No «Credo» niceno-constantinopolitano, o artigo dedicado a Jesus Cristo termina com a afirmação da vitória final: «e o seu reino não terá fim». Qual é o reino de Jesus Cristo? Quando é que começa? Este tema será de novo aprofundado quando nos referirmos, no final do «Credo», à esperança na ressurreição e na vida «do mundo que há de vir» (temas 40 e 41) [Para ajudar a compreender melhor, ler: Primeira Carta aos Coríntios 15, 20-28; Catecismo da Igreja Católica, números 668-682]

«É necessário que Ele reine até que tenha colocado todos os inimigos debaixo dos seus pés» — afirma Paulo na Primeira Carta aos Coríntios, ao refletir sobre a vitória obtida com a ressurreição de Jesus Cristo. A seguir acrescenta: «O último inimigo a ser destruído será a morte». Paulo mostra-nos que a vitória definitiva de Jesus Cristo acontece com a vitória sobre a morte. Ora, isso já aconteceu, pois a ressurreição é a manifestação dessa vitória. No entanto, ainda não está totalmente concluída, uma vez que o pecado e a morte continuam presentes nesta nossa existência terrena. De facto, todos podemos constatar que Jesus Cristo «não eliminou a morte biológica: o organismo do ser humano, como o de qualquer ser vivo, corrompe-se e acaba por sucumbir. Porque é que dizemos então que Ele venceu a morte? Ele venceu-a porque a privou do seu sentido de destruição total do ser humano e transformou-a no nascimento duma vida plena e definitiva. Ele foi o primeiro a percorrer esse caminho e com Ele chegam à vida de Deus todos os que morrem com Ele» (Fernando Armellini, «O banquete da Palavra. Ano A», Paulinas, Lisboa 1995, 415). Em Jesus Cristo a história já atingiu a plenitude, mas ainda não se consumou o final dos tempos. Aí, será instaurado definitivamente o Reino, para que «Deus seja tudo em todos».

E o seu reino não terá fim. O tema do Reino acompanha toda a vida de Jesus Cristo. «Desde o anúncio do seu nascimento, o Filho unigénito do Pai, que nasceu da Virgem Maria, é definido ‘rei’ no sentido messiânico, ou seja, herdeiro do trono de David, segundo as promessas dos profetas, para um reino que não terá fim (cf. Lucas 1, 32-33). A realeza de Cristo permaneceu totalmente escondida, até aos seus trinta anos, transcorridos numa existência comum em Nazaré. Depois, durante a vida pública, Jesus inaugurou o novo Reino, que ‘não é deste mundo’ (João 18, 36) e no final realizou-o plenamente com a sua morte e ressurreição. Ao aparecer ressuscitado aos Apóstolos, disse: ‘Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra’ (Mateus 28, 18): esta autoridade brota do amor, que Deus manifestou plenamente no sacrifício do seu Filho. O Reino de Cristo é dom oferecido aos homens de todos os tempos, para que todo aquele que acredita no Verbo encarnado ‘não morra, mas tenha a vida eterna’ (João 3, 16). Por isso, precisamente no último Livro da Bíblia, o Apocalipse, Ele proclama: ‘Eu sou o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim’ (Apocalipse 22, 13)» (Bento XVI, «Angelus» de 20 de novembro de 2005). Esta reflexão pode ser complementada pela (re)leitura dos temas 14 e 23: «Por Ele todas as coisas foram feitas» e «Ressuscitou ao terceiro dia». O II Concílio do Vaticano, na Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual («Gaudium et Spes») esclarece: «Ignoramos o tempo em que a terra e a humanidade atingirão a sua plenitude, e também não sabemos que transformação sofrerá o universo. [...] Deus ensina-nos que se prepara uma nova habitação e uma nova terra, na qual reina a justiça e cuja felicidade satisfará e superará todos os desejos de paz que se levantam no coração dos seres humanos. [...] Sobre a terra, o reino já está misteriosamente presente; quando o Senhor vier, atingirá a perfeição» (número 39). Na verdade, do início até ao fim, o Reino está intimamente ligado a Jesus Cristo. «Onde Jesus Cristo chegava, chegava o Reino. Onde Jesus Cristo estava, o Reino de Deus mostrava-se. Quando as pessoas tocavam em Jesus, estavam a tocar no Reino, quando o viam estavam a vê-lo. Quando escutavam as parábolas, estavam a escutar a gramática insuspeita do Reino. [...] Este é o grande anúncio de Jesus: ‘O Reino Deus está no meio de vós’! Está dentro de nós, no meio do mundo, no interior da História como semente... É este o maravilhoso tesouro a descobrir. Deus já está presente! [...] Hoje a minha vida está envolvida pelo Reino de Deus» (José Tolentino Mendonça, «Pai nosso que estais na Terra», Paulinas, Prior Velho 2011, 81.83).

A dinâmica do Reino está presente na oração (Pai nosso), na liturgia (último domingo do ano litúrgico: «Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo») e em toda a vida do cristão!

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Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 16.5.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [28]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

A vinda gloriosa de Jesus Cristo está associada, no «Credo», ao juízo no final dos tempos. Ao proclamarmos que Jesus Cristo «há de vir em sua glória», acrescentamos que essa vinda será «para julgar os vivos e os mortos». [Para ajudar a compreender melhor, ler: Mateus 25, 31-46; Catecismo da Igreja Católica, números 678-682]

«Perante Ele, vão reunir-se todos os povos» — refere o evangelista Mateus para ilustrar o encontro definitivo com Jesus Cristo. A este propósito, o papa Francisco disse: «À direita são postos aqueles que agiram segundo a vontade de Deus, socorrendo o próximo faminto, sequioso, estrangeiro, nu, doente e prisioneiro [...] e à esquerda estão quantos não socorreram o próximo. Isto diz-nos que nós seremos julgados por Deus segundo a caridade, segundo o modo como O tivermos amado nos nossos irmãos, especialmente os mais frágeis e necessitados. Sem dúvida, devemos ter sempre bem presente que somos justificados e salvos pela graça, por um gesto de amor gratuito de Deus, que sempre nos precede; sozinhos, nada podemos fazer. A fé é antes de tudo um dom que recebemos. Mas para que dê fruto, a graça de Deus exige sempre a nossa abertura a Ele, a nossa resposta livre e concreta. Cristo vem trazer-nos a misericórdia de Deus que salva. É-nos pedido que confiemos n’Ele, correspondendo ao dom do seu amor com uma vida boa, feita de gestos animados pela fé e pelo amor. Nunca tenhamos medo de olhar para o Juízo final; ao contrário, que ele nos leve a viver melhor o presente. Deus oferece-nos este tempo com misericórdia e paciência, a fim de aprendermos todos os dias a reconhecê-lo nos pobres e nos pequeninos, de trabalharmos para o bem e de sermos vigilantes na oração e no amor» (Audiência Geral de 24 de abril de 2013).

Para julgar. «A história humana tem início com a criação do homem e da mulher, à imagem e semelhança de Deus, e conclui-se com o Juízo final de Cristo. Esquecemo-nos muitas vezes destes dois polos da história, e sobretudo a fé na vinda de Cristo e no Juízo às vezes não é muito clara e sólida no coração dos cristãos» (Francisco, Audiência Geral de 24 de abril de 2013). A consciência de um «juízo» está presente desde sempre nos primeiros cristãos, como se pode comprovar em vários textos do Novo Testamento. Mas este conceito de juízo não está relacionado com um processo judicial. Uma infeliz associação produzida no âmbito da cultura romana transformou o «juízo final» num acontecimento dramático e trágico, como se fosse possível uma decisão arbitrária do juiz. «Se confiamos naquele que nos criou, também podemos ter plena confiança naquele que nos chama à salvação» (Olegario González de Cardedal, «Sobre la muerte», ed. Sígueme, Salamanca 2002, 66). Na Bíblia, o juiz, antes de ser aquele que premeia e castiga, é aquele que vela pela ordem e procura o restabelecimento do que foi destruído ou danificado. A imagem de Deus justiceiro é completamente falsa. «Ora, o Filho não veio para julgar, mas para salvar e dar a vida que tem em Si. É pela recusa da graça nesta vida que cada qual se julga já a si próprio» (Catecismo da Igreja Católica, 679). A salvação é um dom de Deus. Mas nem sempre o ser humano decide acolher esse dom. Essa é a nossa responsabilidade (cf. temas 15, 16 e 39). Basta estar atento aos textos do Novo Testamento para perceber que o juízo é uma consequência da liberdade humana, isto é, está dependente das decisões que tomamos durante a existência terrena. Na passagem do evangelho segundo Mateus, o rei não exerce nenhum julgamento. As palavras que pronuncia não são uma sentença, mas uma declaração que constata o comportamento de cada um: uns são benditos e outros malditos em função do que fizeram aos seus irmãos. Esclarece o Catecismo da Igreja Católica (número 682): «Cristo glorioso há de revelar a disposição secreta dos corações, e dará a cada um segundo as suas obras e segundo a aceitação ou recusa que tiver feito da graça».

Os vivos e os mortos. Jesus Cristo virá para «julgar os vivos e os mortos» significa dizer que é para todos os homens e mulheres de todos os tempos. «Nenhuma situação humana pode ser considerada ‘fora de jogo’, relativamente à oferta que Deus faz à liberdade das pessoas. [...] Somos continuamente convidados a não fazer batota, a ser verdadeiros e sinceros, a viver no sinal da coerência límpida e corajosa» (Dionigi Tettamanzi, «Esta é a nossa fé!», Paulinas, Prior Velho 2005, 101-102).

«Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo» (Mateus 25, 34).

© Laboratório da fé, 2013


Credo - esta é a nossa fé - laboratório da fé, 2013  Credo - esta é a nossa fé - laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 9.5.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [27]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

Há uma mudança nos tempos verbais! Até agora o conteúdo do «Credo» situou-se no passado e no presente da História da Salvação. Agora, aponta para o tempo futuro: uma realidade marcada pela vinda gloriosa de Jesus Cristo. [Para ajudar a compreender melhor, ler: João 14, 1-6; Catecismo da Igreja Católica, números 668-677]

«Virei novamente e hei de levar-vos para junto de mim» — diz Jesus Cristo aos discípulos, no contexto do (longo) discurso de despedida relatado no evangelho segundo João. À proximidade com os seus discípulos, lavando-lhes os pés e insistindo no mandamento do amor, mistura-se a tensão do anúncio das negações de Pedro e da traição de Judas (cf. João 13). Agora, Jesus Cristo percebe que o rosto e o coração dos discípulos estão perturbados. Por isso, anima-os a ter fé, a ter confiança nele e no Pai. Tranquiliza os seus amigos. Apesar de todas as contrariedades e situações difíceis, explica-lhes que a esperança humana será levada à plenitude. Porque, no coração de Deus, há lugar para todos os seus filhos. A exortação à confiança está também associada à «partida» de Jesus Cristo para a «casa» do Pai onde preparará um «lugar» para os seus amigos. Mas não devem ficar tristes, pois não se trata de um abandono definitivo; ele voltará: «virei novamente e hei de levar-vos para junto de mim». Os discípulos não compreendem. Em nome de todos, Tomé assume essa incompreensão. Ainda não perceberam qual é a meta nem o caminho para lá chegar: «Não sabemos para onde vais, como podemos nós saber o caminho?». A resposta está no próprio Jesus Cristo. Ele é o caminho. «Jesus esclarece os discípulos de que a sua partida é abrir caminho para a casa do Pai, a meta final para todos» (Bíblia Sagrada, Nota ao texto de João 14, 2-3, Difusora Bíblica, 1758).

De novo há de vir em sua glória. «A fé no regresso de Cristo é o segundo pilar da profissão de fé cristã. Ele, que se fez carne e agora permanece Homem para sempre, que para sempre inaugurou em Deus a esfera do ser humano, chama todo o mundo a entrar nos braços abertos de Deus» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré. Parte II — Da Entrada em Jerusalém até à Ressurreição, Princípia Editora, Cascais 2011, 232). As primeiras comunidades cristãs sempre assumiram esta esperança pela vinda gloriosa de Jesus Cristo, como o comprova, entre outros, o final do livro do Apocalipse (que também encerra a Bíblia): «‘Eis que Eu venho em breve. Feliz o que puser em prática as palavras da profecia deste livro. [...] Sim. Virei brevemente’. — Ámen! Vem, Senhor Jesus!» (Apocalipse 22, 7.20). Este texto reflete a expressão aramaica «Marana thá» («Vinde, Senhor») — ou «Maran atha» («O Senhor veio») — usada pelos (primeiros) cristãos. Conforme escreve Bento XVI, «sabemos, pela ‘Didaché’ (cerca do ano 100), que este brado fazia parte das orações litúrgicas da Celebração Eucarística dos primeiros cristãos, aparecendo aqui concretamente também a unidade dos dois modos de leitura: os cristãos invocam a vinda definitiva de Jesus e ao mesmo tempo veem, com alegria e gratidão, que Ele antecipa já agora a sua vinda, dá entrada já agora no nosso meio» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré. Parte II...», 233). Na verdade, esta esperança pela vinda de Jesus Cristo ainda hoje se mantém no ritual da Eucaristia, quando após o Pai nosso o presidente reza: «enquanto esperamos a vinda gloriosa de Jesus Cristo nosso Salvador». E, antes, há uma aclamação em que a assembleia proclama: «Vinde, Senhor Jesus!» ou «esperando a vossa vinda gloriosa». Ao professarmos a nossa fé na vinda de Jesus Cristo manifestamos a nossa convicção de que a história tem uma meta, um sentido que se revelará pleno, no final dos tempos. Esta dimensão da esperança cristã está bem patente no tempo litúrgico do Advento (período que antecede o Natal). Nele, celebramos a preparação para a vinda histórica de Jesus Cristo e a esperança na vinda no final dos tempos, quando entrarmos definitivamente na vida em Deus. Mas não só: há uma outra vinda. «O tempo do Advento é celebrar e abrir-se à vinda constante de Deus, de Jesus, às nossas vidas e à vida da humanidade. Porque Deus vem agora» (Josep Ligadas, «Advento: o Senhor vem», Paulinas, Prior Velho 2003, 10). Na verdade, é preciso ter claro que o facto de nos referirmos a uma nova vinda não significa que Jesus Cristo se encontra ausente do tempo presente. O próprio Jesus Cristo prometeu estar sempre connosco (cf. Mateus 28, 20).

A esperança pela vinda gloriosa de Cristo provoca a alegria de um dia entrarmos na plenitude da vida em Deus. Mas é também um apelo à nossa responsabilidade: Jesus virá «para julgar».

© Laboratório da fé, 2013


  

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.5.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [26]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

A profissão de fé na Ascensão de Jesus Cristo («subiu aos Céus») tem um complemento que acrescenta: «onde está sentado à direita do Pai». Qual é o sentido desta afirmação? Há um simbolismo relacionado com esta terminologia sobre o qual vamos refletir. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Salmo 110 (109); Catecismo da Igreja Católica, números 659 a 667]

«Disse o Senhor ao meu senhor: ‘Senta-te à minha direita’» — começa por afirmar o salmista. Os exegetas sugerem que se trata de um texto sobre a realeza. Neste sentido, a expressão «ao meu senhor» refere-se ao rei (cf. Bíblia Sagrada, Introdução ao Salmo 110, Difusora Bíblica, 957). Contudo, em vários textos do Novo Testamento, inclusive nos evangelhos, esta expressão é usada para se referir a Jesus Cristo. Por exemplo, nos Atos dos Apóstolos, Pedro serve-se deste salmo para anunciar a ressurreição de Jesus Cristo: «David não subiu ao Céu, mas ele próprio diz: ‘O Senhor disse ao meu Senhor: Senta-te à minha direita [...]. Saiba toda a casa de Israel, com absoluta certeza, que Deus estabeleceu como Senhor e Messias a esse Jesus por vós crucificado» (2, 34-36). No mesmo sentido podemos entender a afirmação no final do evangelho segundo Marcos: «O Senhor Jesus [...] foi arrebatado ao Céu e sentou-se à direita de Deus» (16, 19). Esta relação com Jesus Cristo é também confirmada pelo próprio, aquando do julgamento no tribunal judaico. Trata-se de uma referência comum aos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas). O próprio Jesus Cristo responde: «O Filho do Homem vai sentar-se à direita de Deus» (Lucas 22, 69). «Utilizando o Salmo 110, Jesus anuncia o começo do Reinado messiânico que, a partir da sua Páscoa, será reconhecido pela Igreja» (Bíblia Sagrada, Nota ao texto de Lucas, Difusora Bíblica, 1721).

Onde está sentado à direita do Pai. A expressão «está sentado» remete para uma situação solene e triunfal. A expressão «à direita» remete para uma situação hierárquica, isto é, trata-se de alguém «importante». Nas relações humanas, ainda hoje faz parte do protocolo dar um destaque especial à pessoa que é convidada a sentar-se à direita. Atribuir esta situação a Jesus Cristo é proclamar a sua honra. Mas é claro que se trata apenas de uma linguagem simbólica. Ao dizê-lo em relação a Jesus Cristo, não afirmamos uma postura corporal. Trata-se de evidenciar o estatuto especial de Jesus Cristo. Na Carta aos Efésios, Paulo põe em destaque a plenitude do Universo atribuída a Jesus Cristo pelo Pai: «ressuscitou-o dos mortos e sentou-o à sua direita, no alto do Céu, muito acima de todo o Poder, Principado, Autoridade, Potestade e Dominação e de qualquer outro nome que seja nomeado, não só neste mundo, mas também no que há de vir» (Efésios 1, 20-23). Na limitação da nossa linguagem para falar de Deus, esta é uma imagem visual simbólica que só tem sentido se ajudar a perceber melhor a presença de Jesus Cristo em Deus. O Catecismo da Igreja Católica [CIC] sublinha esta afirmação atribuindo-lhe duas características: a honra de Jesus Cristo (CIC 663) e a inauguração do Reino de Deus (CIC 664). «Com isto não se alude a um espaço cósmico distante, onde Deus tenha, por assim dizer, erigido o seu trono e, nele, dado um lugar também a Jesus. Deus não se encontra num espaço ao lado de outros espaços. Deus é Deus — Ele é o pressuposto e o fundamento de todo o espaço existente, mas não faz parte dele. A relação de Deus com todos os espaços é a de Senhor e Criador. A sua presença não é espacial, mas, precisamente, divina. ‘Sentar-se à direita de Deus’ significa participar na soberania própria de Deus sobre todo o espaço. [...] Ele entra na comunhão de vida e de poder com o Deus vivo, na situação de superioridade de Deus sobre todo o espaço. [...] Uma vez que está junto do Pai, Jesus não está longe, mas sim perto de nós. Agora já não se encontra num lugar concreto do mundo, como antes da ‘ascensão’; no seu poder, que supera todo e qualquer espaço, está presente junto de todos, podendo ser invocado por todos, através de toda a história e em todos os lugares» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré. Parte II — Da Entrada em Jerusalém até à Ressurreição, Princípia Editora, Cascais 2011, 229-230).

«A Ascensão leva-nos a conhecer esta realidade tão consoladora para o nosso caminho: em Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, a nossa humanidade foi levada para junto de Deus; Ele abriu-nos a passagem; Ele é como um chefe de grupo, quando se escala uma montanha, que chega ao cimo e nos puxa para junto de si, conduzindo-nos para Deus» (Francisco, Audiência Geral, 17 de abril de 2013).

© Laboratório da fé, 2013


  
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.4.13 | Sem comentários
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