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Viver a fé! [42]


A conclusão do Compêndio da Doutrina Social da Igreja propõe uma meta: caminharmos «para uma civilização do amor». Esta última proposta desenvolve-se nas seguintes alíneas: «a ajuda da Igreja ao homem contemporâneo» (números 575 e 576); «voltar a partir da fé em Cristo» (577); «uma firme esperança» (578 e 579); «construir a ‘civilização do amor’» (580 a 583).

A ajuda da Igreja ao homem contemporâneo

A Igreja reconhece que se vive «uma nova necessidade de sentido na sociedade contemporânea. [...] Revelam-se árduas as tentativas de responder à exigência de projetar o futuro no novo contexto das relações internacionais, cada vez mais complexas e interdependentes, mas também menos ordenadas e pacíficas» (575). Por isso, «às interrogações de fundo sobre o sentido e o fim da aventura pessoal a Igreja responde com o anúncio do Evangelho de Cristo, que subtrai a dignidade da pessoa humana ao flutuar das opiniões, assegurando a liberdade do ser humano como nenhuma lei humana pode fazer. O II Concílio do Vaticano indicou que a missão da Igreja no mundo contemporâneo consiste em ajudar cada ser humano a descobrir em Deus o significado último da sua existência [...]. Somente Deus, que criou o ser humano à sua imagem e o resgatou do pecado, pode oferecer às interrogações humanas mais radicais uma resposta plenamente adequada por meio da Revelação realizada definitivamente no seu Filho feito homem» (576).

Voltar a partir da fé em Cristo

«A fé em Deus e em Jesus Cristo ilumina os princípios morais que são ‘o fundamento único e insubstituível da estabilidade e tranquilidade, da ordem interior e exterior, particular e pública, únicos valores capazes de criar e salvaguardar a prosperidade dos Estados’. A vida social deve ser ancorada no desígnio divino [...]. Também no que diz respeito à ‘questão social’, não se pode aceitar ‘a esperança ingénua de que possa haver uma fórmula mágica para os grandes desafios do nosso tempo; não será uma fórmula a salvar-nos, mas uma Pessoa, e a certeza que Ela nos infunde: Eu estarei convosco!’» (577).

Uma firme esperança

«A Igreja ensina ao ser humano que Deus lhe oferece a real possibilidade de superar o mal e de alcançar o bem. O Senhor redimiu o humano, resgatou-o por um ‘grande preço’ (1Coríntios 6, 20). O sentido e o fundamento do empenho cristão no mundo derivam de tal certeza, capaz de acender a esperança não obstante o pecado que marca profundamente a história humana: a promessa divina garante que o mundo não permanece fechado em si mesmo, mas está aberto ao Reino de Deus» (578). «A esperança cristã imprime um grande impulso ao compromisso no campo social, infundindo confiança na possibilidade de construir um mundo melhor, na consciência de que não pode existir um ‘paraíso terrestre’. Os cristãos, especialmente os fiéis leigos, são exortados a comportar-se de modo que ‘a força do Evangelho resplandeça na vida quotidiana, familiar e social’» (579).

Construir a «civilização do amor»

«Finalidade imediata da doutrina social é a de propor os princípios e os valores que possam suster uma sociedade digna do ser humano. Entre estes princípios, o da solidariedade em certa medida compreende todos os demais: ele constitui ‘um dos princípios básicos da conceção cristã da organização social e política’. Tal princípio é iluminado pelo primado da caridade, ‘sinal distintivo dos discípulos de Cristo’ [...]. O comportamento da pessoa é plenamente humano quando nasce do amor, manifesta o amor e é ordenado para o amor. Esta verdade vale também no âmbito social» (580). Assim, «o amor deve estar presente e penetrar todas as relações sociais [...]. Este amor pode ser chamado ‘caridade social’ ou ‘caridade política’ e deve ser estendido a todo o género humano» (581). Ora, «para tornar a sociedade mais humana, mais digna da pessoa, é necessário revalorizar o amor na vida social – nos planos político, económico, cultural –, fazendo dele a norma constante e suprema do agir. [...] Não se pode regular as relações humanas ‘unicamente com a medida da justiça’» (582). «Só a caridade pode transformar completamente o ser humano. Uma semelhante transformação não significa anulação da dimensão terrena numa espiritualidade desencarnada. [...] A caridade representa o maior mandamento social. Ela respeita o outro e os seus direitos, exige a prática da justiça, de que só ela nos torna capazes e inspira-nos uma vida de entrega [...]. Tão-pouco pode a caridade esgotar-se unicamente na dimensão terrena das relações humanas e das relações sociais, porque toda a sua eficácia deriva da referência a Deus» (583).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.7.15 | Sem comentários

NÃO PODEMOS VIVER SEM O DOMINGO!


«Valorizar o domingo como centro de todo o ano litúrgico» — é o primeiro objetivo apresentado no programa pastoral (2013+14) da Arquidiocese de Braga. Com o intuito de «valorizar» o domingo, acompanhando os tempos litúrgicos, propomos um tema a partir da releitura da Carta Apostólica sobre a santificação do domingo — «O dia do Senhor» («Dies Domini»). Este itinerário tem como tema geral: «Não podemos viver sem o domingo!».

Domingo, DIA DA LUZ

Texto de reflexão para o terceiro domingo de Advento

    75. [...] [O domingo] sulca os tempos do ser humano, os meses, os anos, os séculos como uma seta lançada que os atravessa, orientando-os para a meta da segunda vinda de Cristo. O domingo prefigura o dia final, o da «Parusia», já antecipada de algum modo pela glória de Cristo no acontecimento da Ressurreição. De facto, tudo aquilo que suceder até ao fim do mundo será apenas uma expansão e explicitação do que aconteceu no dia em que o corpo do Crucificado ressuscitou pela força do Espírito e se tornou, por sua vez, a fonte do Espírito para a humanidade. Por isso, o cristão sabe que não deve esperar outro tempo de salvação, visto que o mundo, qualquer que seja a sua duração cronológica, já vive no «último tempo». Não só a Igreja, mas o próprio universo e a história são continuamente dominados e guiados por Cristo glorificado. É esta energia de vida que impele a criação — está «em gemido e sofrido as dores do parto, até ao presente» (Romanos 8, 22) — para a meta do seu pleno resgate. Deste caminho, [...] os cristãos possuem a chave de interpretação e a certeza dele, constituindo a santificação do domingo um testemunho significativo que eles são chamados a dar, para que os tempos do ser humano sejam sempre sustentados pela esperança.



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    Laboratório da fé celebrada, 2013
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.12.13 | Sem comentários

    VIVER O DOMINGO: ao ritmo da liturgia


    Segunda semana de Advento


    É possível um mundo de justiça e de paz!

    O Advento é tempo de esperança. Os profetas, em particular Isaías, recordam a fonte dessa esperança: Deus não abandona as suas promessas. Assim se vai delineando, entre o povo bíblico, a expectativa pela vinda do «Messias», o «Emanuel», o «Deus-connosco»; virá para concretizar, em plenitude, as promessas de Deus.
    Inspirado pelo Espírito, o Messias recebe o dom mais elevado: a construção no mundo de um reino de justiça e de paz. A justiça será a sua maneira de viver (DOMINGO: «A justiça será a faixa dos seus rins»), o seu estilo de vida. Os principais beneficiários serão os infelizes e os humildes.
    O Messias converterá a infelicidade em alegria (SEGUNDA: «Reinarão o prazer e o contentamento»). Não há dúvida, para nós, que esta esperança se concretiza em Jesus Cristo. Ele é a presença de Deus no meio de nós. «A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. [...] Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria» (Francisco, «O anúncio do Evangelho no mundo atual — «Evangelii Gaudium», 1). Mas, às vezes, parece que os cristãos não são pessoas alegres. Parece que nós, cristãos, preferimos outros caminhos: tortuosos (TERÇA: «Endireitem-se os caminhos tortuosos»), tristes, ressentidos, queixosos, sem vida. É «tortuoso» tudo o que não nos transmite alegria em viver.
    A alegria é sinal de plenitude de vida, um sinal de que existe esperança: nasce da serenidade e da confiança em Deus. Na verdade, quem confia em Deus não se deixa vencer pelo cansaço (QUARTA: «Dá força ao que anda exausto»). Sabe que Deus nunca o abandona (QUINTA: «Não temas, Eu venho em teu auxílio»), mas está sempre presente para indicar o caminho (SEXTA: «Te conduzo pelo caminho que deves seguir») da alegria, da reconciliação (SÁBADO: «Reconciliares o coração»), da paz, da salvação.
    «Temos consciência de que a liturgia é uma ação onde damos glória a Deus e recebemos a sua salvação? [...] Precisamos talvez de deixar que a fé nos transforme, de cultivar um estilo de vida paciente e de participar na liturgia com um outro sabor. Só assim é que a fé celebrada será uma autêntica luz que fará do Advento um tempo de esperança que conduz à alegria» (Mensagem do Arcebispo) de uma grande luz.

    A segunda semana de Advento é dedicada à análise da nossa esperança. Caminhar à luz do Senhor é ser portador de esperança! Mas estamos num tempo onde tudo parece desacreditado. A esperança parece uma palavra vazia, sem sentido. Quais são as minhas esperanças enfraquecidas?

    © Laboratório da fé, 2013

    Segunda semana de Advento, no Laboratório da fé, 2013

    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.12.13 | Sem comentários
    Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

    Iniciamos um novo ano litúrgico, celebrando este artigo do Credo: o Senhor «de novo há de vir em sua glória, para julgar os vivos e os mortos». Digo-o todos os anos; e há sempre alguém que se surpreende: a primeira parte do Advento celebra a segunda vinda do Senhor, essa vinda gloriosa, em que porá cada coisa no devido lugar. Esse é o sentido do «juízo»: cada pessoa ocupará o justo lugar que lhe corresponde. Como este justo lugar é determinado por um Deus bom e misericordioso — esse mesmo Deus que por amar até não poder mais quis fazer-se humano, um Deus que compreende as nossas dores, pecados e misérias —, é de esperar que a todos coloque num bom lugar. A esperança cristã no regresso glorioso do Senhor não é um motivo de temor, mas de júbilo.
    Os que já tiveram oportunidade de conhecer a justiça do Senhor glorioso aperceberam-se de algo que ainda está obscuro para muitos. Aperceberam-se do que tem valor e do que não tem valor. Vale o amor. E o que o amor acarreta: verdade, justiça, fidelidade, paz, reconciliação, perdão. Vale porque nestas atitudes reflete-se uma marca de Deus. Portanto, tudo que façamos na perspetiva do amor, como tem um valor divino e eterno, voltaremos a encontrá-lo iluminado e transfigurado, limpo de toda a mancha, na nova terra que Deus prepara para os que ama.
    Sem dúvida, seria mais apelativo (alguns dirão: mais necessário) que o Advento anunciasse o fim do desemprego, da pobreza, da crise. Mas, bem entendido, o anúncio do Advento deveria despertar nos cristãos uma série de atitudes que interferissem na raiz dos problemas, já que permitem ver Cristo em cada pessoa e em cada acontecimento, acelerando assim a chegada do Reino, com efeitos reais no aqui e agora. A esperança é incompatível com a passividade. Se o ser humano cruza os braços, Deus deita-se a dormir. Para que Deus desperte, temos que pôr mãos à obra, a obra do amor.
    O Advento é uma boa ocasião para fazer memória do futuro. Do futuro que virá e do futuro que podemos antecipar. Porque o futuro não é o que ainda não existe. Pode-se tornar presente em forma de projeto. Antecipamo-lo quando vivemos fraternalmente, quando lutamos em prol da paz, da justiça e da solidariedade. Ao antecipá-lo, o Senhor que um dia virá glorioso, faz-se humilde e silenciosamente presente. Porque se faz presente, podemos esperá-lo. Se não o tornamos presente, a esperança converte-se numa ilusão sem futuro.

    © Martín Gelabert Ballester, OP

    © tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
    A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



    Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
    Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
    Outros artigos publicados no Laboratório da fé


    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.11.13 | Sem comentários

    NÃO PODEMOS VIVER SEM O DOMINGO!


    «Valorizar o domingo como centro de todo o ano litúrgico» — é o primeiro objetivo apresentado no programa pastoral (2013+14) da Arquidiocese de Braga. Com o intuito de «valorizar» o domingo, acompanhando os tempos litúrgicos, propomos um tema a partir da releitura da Carta Apostólica sobre a santificação do domingo — «O dia do Senhor» («Dies Domini»). Este itinerário tem como tema geral: «Não podemos viver sem o domingo!».

    Domingo, DIA DA FÉ

    Texto de reflexão para o trigésimo quarto domingo

      38. Deste ponto de vista, se o domingo é o dia da fé, é igualmente o dia da esperança cristã. De facto, a participação na «ceia do Senhor» é antecipação do banquete escatológico das «núpcias do Cordeiro» (Apocalipse 19, 9). A comunidade cristã, ao celebrar o memorial de Cristo, ressuscitado e elevado ao céu, revigora a sua esperança na «vinda gloriosa de Jesus Cristo nosso Salvador». A esperança cristã, vivida e alimentada com este intenso ritmo semanal, torna-se fermento e luz precisamente da esperança humana. Por isso, na oração «universal», enumeram-se juntamente as necessidades não só daquela comunidade cristã, mas da humanidade inteira; a Igreja, reunida na Celebração eucarística, testemunha ao mundo que assume «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem». E, coroando com a oferta eucarística do domingo o testemunho que, todos os dias da semana, os seus filhos, empenhados no trabalho e nos vários compromissos da vida, se esforçam por oferecer com o anúncio do Evangelho e a prática da caridade, a Igreja manifesta com maior evidência ser «sacramento, ou sinal, e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano».



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      Laboratório da fé celebrada, 2013
      Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.11.13 | Sem comentários

      NOVEMBRO: MÊS DA ESCATOLOGIA


      O mês de novembro, no coração do outono, remete-nos para as coisas últimas da vida, o final dos tempos. Ao mesmo tempo, coincide com o final do Ano Litúrgico (Ano Cristão), cujas propostas incidem nas referências à morte, ao final dos tempos (na Igreja, usa-se o termo «escatologia»), à esperança na ressurreição, à vida eterna. Os primeiros dias do mês de novembro (Todos os Santos e Fiéis Defuntos) dão o mote para uma renovada reflexão sobre estas temáticas. Neste contexto, também associado ao encerramento do Ano da Fé (24 de novembro de 2013), propomos a expressão do «Credo niceno-constantinopolitano»: «Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir». Esta iniciativa tem ainda como ponto de referência a conferência do Padre Doutor José Tolentino Mendonça, às 21h do dia 21 de novembro de 2013, no Auditório Vita, Braga.

      Apresentamos, agora, a reflexão de Bento XVI, retirada dos números 10 a 12 da Carta Encíclica sobre a esperança cristã — «Spe Salvi»:

      Para nós, hoje a fé cristã é também uma esperança que transforma e sustenta a nossa vida? Para nós aquela é «performativa» – uma mensagem que molda de modo novo a mesma vida – ou é simplesmente «informação» que, entretanto, pusemos de lado porque nos parece superada por informações mais recentes? Na busca de uma resposta, desejo partir da forma clássica do diálogo, usado no rito do Batismo, para exprimir o acolhimento do recém-nascido na comunidade dos crentes e o seu renascimento em Cristo. O sacerdote perguntava, antes de mais nada, qual era o nome que os pais tinham escolhido para a criança, e prosseguia: «O que é que pedis à Igreja?». Resposta: «A fé». «E o que é que vos dá a fé?». «A vida eterna». Como vemos por este diálogo, os pais pediam para a criança o acesso à fé, a comunhão com os crentes, porque viam na fé a chave para a «vida eterna». Com efeito hoje, como sempre, é disto que se trata no Batismo, quando nos tornamos cristãos: é não somente um ato de socialização no âmbito da comunidade, nem simplesmente de acolhimento na Igreja. Os pais esperam algo mais para o batizando: esperam que a fé – de que faz parte a corporeidade da Igreja e dos seus sacramentos – lhe dê a vida, a vida eterna. Fé é substância da esperança. Aqui, porém, surge a pergunta: Queremos nós realmente isto: viver eternamente? Hoje, muitas pessoas rejeitam a fé, talvez simplesmente porque a vida eterna não lhes parece uma coisa desejável. Não querem de modo algum a vida eterna, mas a presente; antes, a fé na vida eterna parece, para tal fim, um obstáculo. Continuar a viver eternamente – sem fim – parece mais uma condenação do que um dom. Certamente a morte queria-se adiá-la o mais possível. Mas, viver sempre, sem um termo, acabaria por ser fastidioso e, em última análise, insuportável. É isto precisamente que diz, por exemplo, o Padre da Igreja Ambrósio na sua elegia pelo irmão defunto Sátiro: «Sem dúvida, a morte não fazia parte da natureza, mas tornou-se natural; porque Deus não instituiu a morte ao princípio, mas deu-a como remédio. Condenada pelo pecado a um trabalho contínuo e a lamentações insuportáveis, a vida dos homens começou a ser miserável. Deus teve de pôr fim a estes males, para que a morte restituísse o que a vida tinha perdido. Com efeito, a imortalidade seria mais penosa que benéfica, se não fosse promovida pela graça». Antes, Ambrósio tinha dito: «Não devemos chorar a morte, que é a causa de salvação universal».
      Independentemente do que Santo Ambrósio quisesse dizer precisamente com estas palavras, é certo que a eliminação da morte ou mesmo o seu adiamento quase ilimitado, deixaria a terra e a humanidade numa condição impossível e nem mesmo prestaria um benefício ao indivíduo. Obviamente há uma contradição na nossa atitude, que evoca um conflito interior da nossa mesma existência. Por um lado, não queremos morrer; sobretudo quem nos ama não quer que morramos. Mas, por outro, também não desejamos continuar a existir ilimitadamente, nem a terra foi criada com esta perspetiva. Então, o que é que queremos na realidade? Este paradoxo da nossa própria conduta suscita uma questão mais profunda: o que é, na verdade, a «vida»? E o que significa realmente «eternidade»? Há momentos em que de repente temos a sua perceção: sim, isto seria precisamente a «vida» verdadeira, assim deveria ser. Em comparação, aquilo que no dia-a-dia chamamos «vida», na verdade não o é. Agostinho, na sua extensa carta sobre a oração, dirigida a Proba – uma viúva romana rica e mãe de três cônsules –, escreve: no fundo, queremos uma só coisa, «a vida bem-aventurada», a vida que é simplesmente vida, pura «felicidade». No fim de contas, nada mais pedimos na oração. Só para ela caminhamos; só disto se trata. Porém, depois Agostinho diz também: se considerarmos melhor, no fundo não sabemos realmente o que desejamos, o que propriamente queremos. Não conhecemos de modo algum esta realidade; mesmo naqueles momentos em que pensamos tocá-la, não a alcançamos realmente. «Não sabemos o que convém pedir» – confessa ele citando São Paulo (Romanos 8, 26). Sabemos apenas que não é isto. Porém, no facto de não saber sabemos que esta realidade deve existir. «Há em nós, por assim dizer, uma douta ignorância» («docta ignorantia») – escreve ele. Não sabemos realmente o que queremos; não conhecemos esta «vida verdadeira»; e, no entanto, sabemos que deve existir algo que não conhecemos e para isso nos sentimos impelidos.
      Penso que Agostinho descreve aqui, de modo muito preciso e sempre válido, a situação essencial do homem, uma situação donde provêm todas as suas contradições e as suas esperanças. De certo modo, desejamos a própria vida, a vida verdadeira, que depois não seja tocada sequer pela morte; mas, ao mesmo tempo, não conhecemos aquilo para que nos sentimos impelidos. Não podemos deixar de tender para isto e, no entanto, sabemos que tudo quanto podemos experimentar ou realizar não é aquilo por que ansiamos. Esta «coisa» desconhecida é a verdadeira «esperança» que nos impele e o facto de nos ser desconhecida é, ao mesmo tempo, a causa de todas as ansiedades como também de todos os ímpetos positivos ou destruidores para o mundo autêntico e o homem verdadeiro. A palavra «vida eterna» procura dar um nome a esta desconhecida realidade conhecida. Necessariamente é uma expressão insuficiente, que cria confusão. Com efeito, «eterno» suscita em nós a ideia do interminável, e isto mete-nos medo; «vida», faz-nos pensar na existência por nós conhecida, que amamos e não queremos perder, mas que, frequentemente, nos reserva mais canseiras que satisfações, de tal maneira que se por um lado a desejamos, por outro não a queremos. A única possibilidade que temos é procurar sair, com o pensamento, da temporalidade de que somos prisioneiros e, de alguma forma, conjeturar que a eternidade não seja uma sucessão contínua de dias do calendário, mas algo parecido com o instante repleto de satisfação, onde a totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade. Seria o instante de mergulhar no oceano do amor infinito, no qual o tempo – o antes e o depois – já não existe. Podemos somente procurar pensar que este instante é a vida em sentido pleno, um incessante mergulhar na vastidão do ser, ao mesmo tempo que ficamos simplesmente inundados pela alegria. Assim o exprime Jesus, no Evangelho de João: «Eu hei de ver-vos de novo; e o vosso coração alegrar-se-á e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria» (16, 22). Devemos olhar neste sentido, se quisermos entender o que visa a esperança cristã, o que esperamos da fé, do nosso estar com Cristo.

      © Copyright 2007 - Libreria Editrice Vaticana
      © Adaptação de Laboratório da fé, 2013


      Novembro, mês da escatologia — Laboratório da fé, 2013
      Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.11.13 | Sem comentários

      Carta encíclica sobre a fé [7]


      Estas considerações sobre a fé — em continuidade com tudo o que o magistério da Igreja pronunciou acerca desta virtude teologal [7] — pretendem juntar-se a tudo aquilo que Bento XVI escreveu nas cartas encíclicas sobre a caridade e a esperança. Ele já tinha quase concluído um primeiro esboço desta carta encíclica sobre a fé. Estou-lhe profundamente agradecido e, na fraternidade de Cristo, assumo o seu precioso trabalho, limitando-me a acrescentar ao texto qualquer nova contribuição. De facto, o Sucessor de Pedro, ontem, hoje e amanhã, sempre está chamado a «confirmar os irmãos» no tesouro incomensurável da fé que Deus dá a cada ser humano como luz para o seu caminho.
      Na fé, dom de Deus e virtude sobrenatural por Ele infundida, reconhecemos que um grande Amor nos foi oferecido, que uma Palavra estupenda nos foi dirigida: acolhendo esta Palavra que é Jesus Cristo — Palavra encarnada –, o Espírito Santo transforma-nos, ilumina o caminho do futuro e faz crescer em nós as asas da esperança para o percorrermos com alegria. Fé, esperança e caridade constituem, numa interligação admirável, o dinamismo da vida cristã rumo à plena comunhão com Deus. Mas, como é este caminho que a fé desvenda diante de nós? Donde provém a sua luz, tão poderosa que permite iluminar o caminho duma vida bem sucedida e fecunda, cheia de fruto?

      [7] Cf., por exemplo, Conc. Ecum. Vat. I, Const. dogm. sobre a fé católica Dei Filius, III: DS 3008-3020; Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a divina Revelação Dei Verbum, 5; Catecismo da Igreja Católica, 153-165

      A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
      A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»] — pdf

      • A luz da fé — números publicados no Laboratório da fé > > >



      Refletir... saborear

      • Este documento foi escrito a «quatro mãos»: Bento XVI e Francisco
      • Dá continuidade às reflexões de Bento XVI sobre a esperança e a caridade, as outras virtudes teologais, juntamente com a fé: constituem «o dinamismo da vida cristã, rumo à plena comunhão com Deus»
      • A fé é o reconhecimento do Amor que nos é oferecido
      • A fé é o reconhecimento da Palavra que nos é dirigida: Jesus Cristo
      • A fé é o acolhimento dessa Palavra que, pelo Espírito Santo, transforma, ilumina, faz crescer a esperança para percorrer o caminho com alegria
      • Conheço os dois documentos de Bento XVI sobre a caridade e a esperança?
      • O que entendo por virtudes teologais (fé, esperança e caridade)?
      © Laboratório da fé, 2013

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      Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
      Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.8.13 | Sem comentários

      Jornada Mundial da Juventude


      O papa Francisco, no dia 25 de Julho de 2013, presidiu à cerimónia de boas-vindas, na praia de Copacabana (Rio de Janeiro, Brasil). Aí, fez uma primeira saudação e depois uma homilia. Neste artigo, apresentamos a saudação e o texto da homilia
      Em primeiro lugar, na saudação, dirigiu-se aos jovens para enaltecer o entusiasmo e a alegria com que estão a viver estes dias da Jornada Mundial da Juventude, aceitando o convite de Jesus. Em pleno Ano da Fé, disse que Jesus faz três perguntas: Queres ser meu discípulo? Queres ser meu amigo? Queres ser testemunha do Evangelho? E acrescentou: «As vossas famílias e comunidades locais transmitiram-vos o grande dom da fé. Cristo cresceu em vós. Hoje, vim aqui para vos confirmar na fé, a fé em Cristo vivo que habita em vós, mas vim também para ser confirmado pelo entusiasmo da vossa fé».
      Na homilia, serviu-se da linguagem popular: bote fé, bote esperança, bote amor, bote Cristo e a sua vida será fecunda. «Bote fé» e a vida terá um sabor novo; «bote esperança» e todos os seus dias serão iluminados; «bote amor» e a sua existência será como uma casa construída sobre a rocha, o seu caminho será alegre. «Bote Cristo» na sua vida, e você encontrará um amigo em quem sempre confiar.

      Queridos jovens, boa tarde!
      Primeiramente quero lhes agradecer pelo testemunho de fé que vós estais a dar ao mundo. Sempre ouvi dizer que as cariocas não gostam do frio e da chuva, mas vocês estão mostrando que a fé de vocês é mais forte que o frio e a chuva. Parabéns. Vocês são verdadeiros heróis! Vejo em vós a beleza do rosto jovem de Cristo e meu coração se enche de alegria! Lembro-me da primeira Jornada Mundial da Juventude a nível internacional. Foi celebrada em 1987 na Argentina, na minha cidade de Buenos Aires. Guardo vivas na memória estas palavras do Bem-aventurado João Paulo II aos jovens: «Tenho muita esperança em vós! Espero, sobretudo, que renovem a vossa fidelidade a Jesus Cristo e à sua cruz redentora» (Discurso aos jovens, 11 de abril de 1987).
      [...]
      Esta semana, o Rio de Janeiro converte-se no centro da Igreja, no seu coração vivo e jovem, porque vós respondeste com generosidade e entusiasmo ao convite que Jesus vos fez para estar com ele, para ser seus amigos. [...]
      Hoje, Jesus continua a perguntar: Queres ser meu discípulo? Queres ser meu amigo? Queres ser testemunha do Evangelho? No coração do Ano da Fé, estas perguntas convidam-nos a renovar o nosso compromisso cristão. As vossas famílias e comunidades locais transmitiram-vos o grande dom da fé. Cristo cresceu em vós. Hoje, vim aqui para vos confirmar na fé, a fé em Cristo vivo que habita em vós, mas vim também para ser confirmado pelo entusiasmo da vossa fé. Vós sabeis que na vida de um bispo há muitos problemas para serem resolvidos. E com esses problemas e dificuldades, a fé do bispo pode entristecer-se. Que feio é um bispo triste. Que feio que é! Para que a minha fé não seja triste, eu vim aqui para me contagiar com o vosso entusiasmo.
      Saúdo-vos com carinho. A vós aqui presentes, vindos dos cinco continentes e, através de vós, saúdo todos os jovens do mundo, em particular aqueles que queriam vir ao Rio de Janeiro, mas não puderam. Aos que nos seguem por meio da rádio, da televisão e internet, a todos digo: Bem-vindos a esta festa da fé! Em diversas partes do mundo, muitos jovens estão reunidos agora para viver connosco este momento: sintamo-nos unidos uns aos outros na alegria, na amizade, na fé. E tenham a certeza de que o meu coração vos abraça a todos com afeto universal. [...] A todos e a cada um, um abraço afetuoso em Jesus e com Jesus.
      Irmãos e amigos, bem-vindos à vigésima oitava Jornada Mundial da Juventude, nesta cidade maravilhosa do Rio de Janeiro!



      Bote fé, bote esperança, bote amor
      Jovens amigos, «É bom estarmos aqui!»: exclamou Pedro, depois de ter visto o Senhor Jesus transfigurado, revestido de glória. Queremos também nós repetir estas palavras? Penso que sim, porque para todos nós, hoje, é bom estar aqui juntos unidos em torno de Jesus! É Ele que nos acolhe e se faz presente no meio de nós, aqui no Rio. Mas, no Evangelho, escutamos também as palavras de Deus Pai: «Este é o meu Filho, o Eleito. Escutai-O!» (Lucas 9, 35). Então, se por um lado é Jesus quem nos acolhe, por outro também nós devemos acolhê-lo, ficar à escuta da sua palavra, pois é justamente acolhendo a Jesus Cristo, Palavra encarnada, que o Espírito Santo nos transforma, ilumina o caminho do futuro e faz crescer em nós as asas da esperança para caminharmos com alegria (cf. «A Luz da Fé» — «Lumen fidei» [LF], 7).
      Mas o que podemos fazer? «Bote fé». A cruz da Jornada Mundial da Juventude peregrinou através do Brasil inteiro com este apelo. «Bote fé»: o que significa? Quando se prepara um bom prato e vê que falta o sal, você então «bota» o sal; falta o azeite, então «bota» o azeite... «Botar», ou seja, colocar, derramar. É assim também na nossa vida, queridos jovens: se queremos que ela tenha realmente sentido e plenitude, como vocês mesmos desejam e merecem, digo a cada um e a cada uma de vocês: «bote fé» e a vida terá um sabor novo, terá uma bússola que indica a direção; «bote esperança» e todos os seus dias serão iluminados e o seu horizonte já não será escuro, mas luminoso; «bote amor» e a sua existência será como uma casa construída sobre a rocha, o seu caminho será alegre, porque encontrará muitos amigos que caminham com você. «Bote fé», «bote esperança», «bote amor»!

      Bote Cristo
      Mas quem pode nos dar tudo isso? No Evangelho, escutamos a resposta: Cristo. «Este é o meu Filho, o Eleito. Escutai-O!». Jesus é Aquele que nos traz Deus e que nos leva a Deus; com Ele toda a nossa vida se transforma, se renova e nós podemos olhar a realidade com novos olhos, «a partir da perspectiva de Jesus e com os seus olhos» (LLF 18). Por isso, hoje, lhes digo com força: «Bote Cristo» na sua vida, e você encontrará um amigo em quem sempre confiar; «bote Cristo», e você verá crescer as asas da esperança para percorrer com alegria o caminho do futuro; «bote Cristo» e a sua vida ficará cheia do seu amor, será uma vida fecunda.
      Hoje, queria que nos perguntássemos com sinceridade: em quem depositamos a nossa confiança? Em nós mesmos, nas coisas, ou em Jesus? Sentimo-nos tentados a colocar a nós mesmos no centro, a crer que somos somente nós que construímos a nossa vida, ou que ela se encha de felicidade com o possuir, com o dinheiro, com o poder. Mas não é assim! É verdade, o ter, o dinheiro, o poder podem gerar um momento de embriaguez, a ilusão de ser feliz, mas, no fim de contas, são eles que nos possuem e nos levam a querer ter sempre mais, a nunca estar saciados. «Bote Cristo» na sua vida, deposite n'Ele a sua confiança e você nunca se decepcionará! Vejam, queridos amigos, a fé realiza na nossa vida uma revolução que podíamos chamar copernicana, porque nos tira do centro e o restitui a Deus; a fé imerge-nos no seu amor que nos dá segurança, força, esperança. Aparentemente não muda nada, mas, no mais íntimo de nós mesmos, tudo muda. No nosso coração, habita a paz, a mansidão, a ternura, a coragem, a serenidade e a alegria, que são os frutos do Espírito Santo (cf. Gálatas 5, 22) e a nossa existência se transforma, o nosso modo de pensar e agir se renova, torna-se o modo de pensar e de agir de Jesus, de Deus. No Ano da Fé, esta Jornada Mundial da Juventude é justamente um dom que nos é oferecido para ficarmos ainda mais perto de Jesus, para ser seus discípulos e seus missionários, para deixar que Ele renove a nossa vida.
      Querido jovem: «bote Cristo» na sua vida. Nestes dias, Ele lhe espera na Palavra; escute-O com atenção e o seu coração será inflamado pela sua presença; «Bote Cristo»: Ele lhe acolhe no Sacramento do perdão, para curar, com a sua misericórdia, as feridas do pecado. Não tenham medo de pedir perdão a Deus. Ele nunca se cansa de nos perdoar, como um pai que nos ama. Deus é pura misericórdia! «Bote Cristo»: Ele lhe espera no encontro com a sua Carne na Eucaristia, Sacramento da sua presença, do seu sacrifício de amor, e na humanidade de tantos jovens que vão lhe enriquecer com a sua amizade, lhe encorajar com o seu testemunho de fé, lhe ensinar a linguagem da caridade, da bondade, do serviço. Você também, querido jovem, pode ser uma testemunha jubilosa do seu amor, uma testemunha corajosa do seu Evangelho para levar a este nosso mundo um pouco de luz.
      «É bom estarmos aqui», botando Cristo na nossa vida, botando a fé, a esperança, o amor que Ele nos dá. Queridos amigos, nesta celebração acolhemos a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Com Maria, queremos ser discípulos e missionários. Como Ela, queremos dizer «sim» a Deus. Peçamos ao seu coração de mãe que interceda por nós, para que os nossos corações estejam disponíveis para amar a Jesus e fazê-lo amar. Ele está esperando por nós e conta connosco! Amém.

      Praia de Copacabana (Rio de Janeiro), 25 de julho de 2013
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      Papa Francisco, na cerimónia de boas-vindas, na praia de Copacabana, 2013
      Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.7.13 | Sem comentários

      Jornada Mundial da Juventude


      No Santuário de Nossa Senhora Aparecida, no dia 24 de julho de 2013, o papa Francisco proferiu uma homilia onde convidou os cristãos a assumir «três simples posturas»: conservar a esperança; deixar-se surpreender por Deus; viver na alegria
      A presença do Papa naquele Santuário teve como objetivo «suplicar à Mãe, nossa Mãe, o bom êxito da Jornada Mundial da Juventude». A partir dos textos bíblicos escolhidos para a celebração, Francisco desenvolveu cada uma das três posturas sugeridas. 
      Nunca percamos a esperança! Nunca deixemos que ela se apague nos nossos corações! Deus é a nossa esperança! Sejamos luzeiros de esperança! Tenhamos uma visão positiva sobre a realidade. 
      Deus surpreende sempre. Deus reserva-nos sempre o melhor. Mas pede que nos deixemos surpreender pelo seu amor, que acolhamos as suas surpresas. Confiemos em Deus!
      Se caminhamos na esperança, deixando-nos surpreender pelo vinho novo que Jesus nos oferece, há alegria no nosso coração e não podemos deixar de ser testemunhas dessa alegria. O cristão é alegre, nunca está triste. O cristão não pode ser pessimista! Não pode ter uma cara de quem parece num constante estado de luto.

      Quanta alegria me dá vir à casa da Mãe de cada brasileiro, o Santuário de Nossa Senhora Aparecida. No dia seguinte à minha eleição como Bispo de Roma fui visitar a Basílica de Santa Maria Maior, para confiar a Nossa Senhora o meu ministério. Hoje, eu quis vir aqui para suplicar à Maria, nossa Mãe, o bom êxito da Jornada Mundial da Juventude e colocar aos seus pés a vida do povo latino-americano.
      Queria dizer-lhes, primeiramente, uma coisa. Neste Santuário, há seis anos atrás, quando aqui se realizou a V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, pude dar-me conta pessoalmente de um facto belíssimo: ver como os Bispos — que trabalharam sobre o tema do encontro com Cristo, discipulado e missão — eram animados, acompanhados e, em certo sentido, inspirados pelos milhares de peregrinos que vinham diariamente confiar a sua vida a Nossa Senhora: aquela Conferência foi um grande momento de vida de Igreja. E, de facto, pode-se dizer que o Documento de Aparecida nasceu justamente deste encontro entre os trabalhos dos Pastores e a fé simples dos romeiros, sob a proteção maternal de Maria. A Igreja, quando busca Cristo, bate sempre à casa da Mãe e pede: «Mostrai-nos Jesus». É de Maria que se aprende o verdadeiro discipulado. E, por isso, a Igreja sai em missão sempre na esteira de Maria.
      Assim, diante da Jornada Mundial da Juventude que me trouxe até ao Brasil, também eu venho hoje bater à porta da casa de Maria, que amou e educou Jesus, para que ajude a todos nós, os Pastores do Povo de Deus, aos pais e aos educadores, a transmitir aos nossos jovens os valores que farão deles construtores de um País e de um mundo mais justo, solidário e fraterno. Para tal, gostaria de chamar à atenção para três simples posturas: Conservar a esperança; deixar-se surpreender por Deus; viver na alegria.

      1. Conservar a esperança
      A segunda leitura da Missa apresenta uma cena dramática: uma mulher — figura de Maria e da Igreja — sendo perseguida por um Dragão — o diabo — que quer lhe devorar o filho. A cena, porém, não é de morte, mas de vida, porque Deus intervém e coloca o filho a salvo (cf. Apocalipse 12, 13a.15-16a). Quantas dificuldades na vida de cada um, no nosso povo, nas nossas comunidades, mas, por maiores que possam parecer, Deus nunca deixa que sejamos submergidos. Frente ao desânimo que poderia aparecer na vida, em quem trabalha na evangelização ou em quem se esforça por viver a fé como pai e mãe de família, quero dizer com força: Tenham sempre no coração esta certeza: Deus caminha ao vosso lado, nunca vos deixa desamparados! Nunca percamos a esperança! Nunca deixemos que ela se apague nos nossos corações! O «dragão», o mal, faz-se presente na nossa história, mas não é o mais forte. Deus é o mais forte, e Deus é a nossa esperança! É verdade que hoje, mais ou menos todas as pessoas, e também os nossos jovens, experimentam o fascínio de tantos ídolos que se colocam no lugar de Deus e parecem dar esperança: o dinheiro, o poder, o sucesso, o prazer. Frequentemente, uma sensação de solidão e de vazio entra no coração de muitos e conduz à busca de compensações, destes ídolos passageiros. Queridos irmãos e irmãs, sejamos luzeiros de esperança! Tenhamos uma visão positiva sobre a realidade. Encorajemos a generosidade que caracteriza os jovens, acompanhando-lhes no processo de se tornarem protagonistas da construção de um mundo melhor: eles são um motor potente para a Igreja e para a sociedade. Eles não precisam só de coisas, precisam sobretudo que lhes sejam propostos aqueles valores imateriais que são o coração espiritual de um povo, a memória de um povo. Neste Santuário, que faz parte da memória do Brasil, podemos quase que apalpá-los: espiritualidade, generosidade, solidariedade, perseverança, fraternidade, alegria; trata-se de valores que encontram a sua raiz mais profunda na fé cristã.

      2. Deixar-se surpreender por Deus
      Quem é homem e mulher de esperança — a grande esperança que a fé nos dá — sabe que, mesmo no meio das dificuldades, Deus atua e nos surpreende. A história deste Santuário serve de exemplo: três pescadores, depois de um dia sem conseguir apanhar peixes, nas águas do Rio Parnaíba, encontram algo inesperado: uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Quem poderia imaginar que o lugar de uma pesca infrutífera, tornar-se-ia o lugar onde todos os brasileiros podem se sentir filhos de uma mesma Mãe? Deus surpreende sempre, como o vinho novo, no Evangelho que ouvimos. Deus reserva-nos sempre o melhor. Mas pede que nos deixemos surpreender pelo seu amor, que acolhamos as suas surpresas. Confiemos em Deus! Longe d’Ele, o vinho da alegria, o vinho da esperança, se esgota. Se nos aproximamos d’Ele, se permanecemos com Ele, aquilo que parece água fria, aquilo que é dificuldade, aquilo que é pecado, se transforma em vinho novo de amizade com Ele.

      3. Viver na alegria
      Queridos amigos, se caminhamos na esperança, deixando-nos surpreender pelo vinho novo que Jesus nos oferece, há alegria no nosso coração e não podemos deixar de ser testemunhas dessa alegria. O cristão é alegre, nunca está triste. Deus nos acompanha. Temos uma Mãe que sempre intercede pela vida dos seus filhos, por nós, como a rainha Ester na primeira leitura (cf. Ester 5, 3). Jesus mostrou-nos que a face de Deus é a de um Pai que nos ama. O pecado e a morte foram derrotados. O cristão não pode ser pessimista! Não pode ter uma cara de quem parece num constante estado de luto. Se estivermos verdadeiramente enamorados de Cristo e sentirmos o quanto Ele nos ama, o nosso coração se «incendiará» de tal alegria que contagiará quem estiver ao nosso lado. Como dizia Bento XVI aqui neste Santuário: «O discípulo sabe que sem Cristo não há luz, não há esperança, não há amor, não há futuro» (Discurso inaugural da Conferência de Aparecida, 13 de maio de 2007).
      Queridos amigos, viemos bater à porta da casa de Maria. Ela abriu-nos, fez-nos entrar e nos aponta o seu Filho. Agora Ela pede-nos: «Fazei o que Ele vos disser» (João 2, 5). Sim, Mãe nossa, nos comprometemos a fazer o que Jesus nos disser! E o faremos com esperança, confiantes nas surpresas de Deus e cheios de alegria. Assim seja.

      Santuário de Nossa Senhora Aparecida, 24 de julho de 2013
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      Papa Francisco, na Jornada Mundial da Juventude, Aparecida, 24 de Julho de 2013

      Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.7.13 | comentários

      Sinal de Esperança e de consolação


      Entretanto, a Mãe de Jesus, assim como, glorificada já em corpo e alma, é imagem e início da Igreja que se há de consumar no século futuro, assim também, na terra, brilha como sinal de esperança segura e de consolação, para o Povo de Deus ainda peregrinante, até que chegue o dia do Senhor (cf. 2 Pedro 3, 10) (Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium», 68).

      Mistérios a partir do texto da «Lumen Gentium»


      • PRIMEIRO MISTÉRIO: A MÃE DE JESUS FOI GLORIFICADA
      No dia 1 de Novembro de 1950, ao definir o dogma da Assunção, Pio XII evitou usar o termo «ressurreição» e tomar posição a propósito da questão da morte da Virgem como verdade de fé. Limita-se a afirmar a elevação do corpo de Maria à glória celeste, declarando tal verdade como um «dogma divinamente revelado». O primeiro vestígio da fé na Assunção da Virgem está presente nas narrações que remontam ao século segundo ou terceiro (cf. João Paulo II, Audiência Geral de 2 de julho de 1997).

      • SEGUNDO MISTÉRIO: IMAGEM E INÍCIO DA IGREJA
      Como ensina o II Concílio do Vaticano, Maria Santíssima deve ser inserida sempre no mistério de Cristo e da Igreja. Maria elevada ao Céu indica-nos a meta derradeira da nossa peregrinação terrena. Recorda-nos que todo o nosso ser está destinado à plenitude da vida; que quem vive e morre no amor a Deus e ao próximo será transfigurado à imagem do corpo glorioso de Cristo ressuscitado; que o Senhor derruba os soberbos e eleva os humildes (Bento XVI, Angelus de 15 de agosto de 2008).

      • TERCEIRO MISTÉRIO: BRILHA COMO SINAL DE ESPERANÇA SEGURA E CONSOLAÇÃO
      Maria «brilha como sinal de esperança segura e de consolação aos olhos do Povo de Deus peregrino». Mas estamos de tal forma absorvidos pelas vicissitudes de todos os dias que nos esquecemos por vezes desta confortadora realidade espiritual, que constitui uma importante verdade de fé. Disto temos a certeza: do alto, Maria acompanha os nossos passos com doce trepidação, alenta-nos nos momentos incertos e de tempestade, tranquiliza-nos com a sua mão materna (Bento XVI, Audiência Geral de 16 de agosto de 2006).

      • QUARTO MISTÉRIO: POVO DE DEUS PEREGRINANTE
      O Povo de Deus, peregrinante no tempo, dirige-se à sua Mãe celeste e pede a sua ajuda; pede isto para que ela acompanhe o caminho de fé, a fim de que encorage o compromisso de vida cristã e para que apoie a esperança. Dela temos necessidade, sobretudo neste momento tão difícil para a Europa, para várias partes do mundo. Maria nos ajude a ver que há uma luz além da barreira de nevoeiro que parece envolver a realidade (Bento XVI, Discurso a 8 de dezembro de 2008).

      • QUINTO MISTÉRIO: ATÉ QUE CHEGUE O DIA DO SENHOR
      O crente permanece alerta e vigilante a fim de estar pronto para receber Jesus quando Ele vier na sua glória. Os primeiros cristãos expressavam a característica mais importante da Igreja, que é precisamente a propensão para o céu. Um convite a usar a nossa existência de modo sábio e previdente. A Virgem Maria, que do céu vigia sobre nós, nos ajude a não esquecer que aqui, na terra, estamos apenas de passagem, e nos ensine a preparar-nos para nos encontrarmos com Jesus (Bento XVI, Angelus de 12 de agosto de 2007).

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      © Laboratório da fé, 2013

      Maio, mês de Maria, 2013 — Laboratório da fé
      Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 28.5.13 | Sem comentários

      Domingo da Santíssima Trindade


      Evangelho segundo João 16, 12-15

      Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis compreender agora. Quando vier o Espírito da verdade, Ele vos guiará para a verdade plena; porque não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que está para vir. Ele Me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. Tudo o que o Pai tem é meu. Por isso vos disse que Ele receberá do que é meu e vo-lo anunciará».

      Tenho ainda muitas coisas para vos dizer

      Entrar no mistério da Santíssima Trindade faz-nos escutar as palavras de Jesus Cristo nesta passagem do evangelho: «Tenho ainda muitas coisas para vos dizer». Haverá sempre muito para dizer sobre Deus, pois todas as nossas tentativas, todos as palavras e expressões que possamos usar são sempre imperfeitas para explicar a realidade de Deus. «Não as podeis compreender agora», acrescenta Jesus Cristo, ao mesmo tempo que convida a deixarmo-nos guiar pelo Espírito Santo: «Ele vos guiará para a verdade plena». 

      Refletir sobre o «Credo» no Ano da Fé

      Ao longo deste Ano da Fé estamos a refletir semanalmente sobre o conteúdo do «Credo» para nos ajudar a compreender e a viver melhor a nossa fé. Mas não se trata de explicar tudo sobre Deus. Antes, de nos ajudar a entender as palavras e as expressões que, ao longo dos séculos, têm sido usadas pelos teólogos e pelos papas para falar de Deus. Uma grande parte dos cristãos não sabe explicar minimamente as afirmações que proclama quando reza o «Credo».

      Deus é Pai, Filho e Espírito Santo

      A única maneira de falar da Trindade de Deus é através de imagens. Mas nunca podemos esquecer que são apenas imagens. E embora seja a melhor maneira de falar de Deus, qualquer imagem que usemos será sempre imperfeita. Na verdade, a distinção entre as três «pessoas» de Deus só se refere à relação interna, isto é, à relação que existe dentro do próprio Deus. Há distinção entre elas quando se relacionam entre si. Porque no que diz respeito à relação externa não há distinção: Deus age sempre como Um. A nossa relação com Deus é sempre através da Trindade (em simultâneo) e nunca com cada uma das «pessoas» em separado. Por isso, não podemos dizer que se trata de três em um, mas de uma única realidade que é relação. Vamos tentar perceber através de um exemplo. Quem é o Criador? Deus, isto é, a Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A obra de Deus é sempre comunhão. Em Deus, nada é solitário: tudo é comunhão. Mas nós não dizemos no «Credo» que Deus é Pai Criador de todas as coisas? Sim, dizemos. Mas também dizemos que «todas as coisas foram feitas» pelo Filho. E ainda que o Espírito Santo é o «Senhor que dá a vida». Neste exemplo, vemos que no ato criador está envolvida a totalidade de Deus: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Uma vez mais, temos de entender que a distinção em três «pessoas» apenas diz respeito à essência, ao ser de Deus, e não à sua relação connosco. Os primeiros cristãos experimentaram que Deus podia ser ao mesmo tempo e sem contradição: Deus que está acima de nós (Pai); Deus que se faz um de nós (Filho); Deus que se identifica com cada um de nós (Espírito).

      Então, como é que acontece a nossa relação com Deus? As leituras de hoje mostram-nos que tudo o que nos faz entrar em relação com Deus está relacionado com a fé, a esperança e a caridade ou amor. Na verdade, estas três virtudes são as portas que nos fazem entrar na comunhão de Deus, que nos fazem sentir que Deus está connosco. E desta comunhão com Deus nasce depois o nosso compromisso de viver também em comunhão com os outros. Por isso, ao longo desta semana, deixemo-nos interpelar por esta pergunta: Testemunho o amor de Deus na relação com os outros?

      © Laboratório da fé, 2013
      Tenho ainda muitas coisas para vos dizer — Laboratório da fé

      Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.5.13 | Sem comentários

      Virtudes de Maria


      A Igreja, procurando a glória de Cristo, torna-se mais semelhante àquela que é seu tipo e sublime figura, progredindo continuamente na fé, na esperança e na caridade, e buscando e fazendo em tudo a vontade divina. Daqui vem igualmente que, na sua ação apostólica, a Igreja olha com razão para aquela que gerou a Cristo, o qual foi concebido por ação do Espírito Santo e nasceu da Virgem precisamente para nascer e crescer também no coração dos fiéis, por meio da Igreja. E, na sua vida, deu a Virgem exemplo daquele afeto maternal de que devem estar animados todos quantos cooperam na missão apostólica que a Igreja tem de regenerar os seres humanos (Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium», 65).

      Mistérios a partir do texto da «Lumen Gentium»


      • PRIMEIRO MISTÉRIO: PROCURANDO A GLÓRIA DE CRISTO
      Os Padres conciliares lembram que a vida da Igreja está associada à procura da glória de Cristo. Tudo deve ser realizado para glória de Cristo, para glória de Deus. Esta consciência tem de acompanhar cada palavra e cada gesto de todos os membros da Igreja, imitando aquela «que é seu tipo e sublime figura», Maria. A Igreja se não tiver como objetivo procurar a glória de Cristo, mas antes buscar outros interesses ou o seu próprio louvor, coloca-se fora da lógica evangélica, coloca-se fora da sua missão.

      • SEGUNDO MISTÉRIO: PROGREDINDO NA FÉ, NA ESPERANÇA E NA CARIDADE
      Maria é para a Igreja modelo de fé, esperança e caridade. Ela precede os cristãos na adesão à palavra. Encoraja-os e guia-nos na esperança. Inspira-os a viver na caridade. Observando a situação da primeira comunidade cristã, descobrimos que a unanimidade dos corações, manifestada à espera do Pentecostes, está associada à presença da Virgem Santa. E graças precisamente à caridade irradiante de Maria é possível conservar em todos os tempos no interior da Igreja a concórdia e o amor fraterno (cf. João Paulo II, Audiência Geral de 3 de setembro de 1997).

      • TERCEIRO MISTÉRIO: NASCER E CRESCER NO CORAÇÃO DOS FIÉIS
      Segundo a expressão do Beato mártir carmelita Tito Brandsma, pomo-nos em profunda sintonia com Maria, tornando-nos como Ela transmissores da vida divina: «Também a nós o Senhor envia o seu anjo... também nós devemos receber Deus nos nossos corações, levá-lo dentro dos nossos corações, nutri-lo e fazê-lo crescer em nós de tal forma que ele nasça de nós e viva connosco como Deus-connosco, o Emanuel» (João Paulo II, Mensagem à ordem do Carmelo, a 25 de março de 2001).

      • QUARTO MISTÉRIO: EXEMPLO DE AFETO MATERNAL
      A Igreja, na sua missão apostólica, volta o seu olhar para Maria, animada pelo seu afeto maternal. Maria foi uma educadora admirável. Na pessoa de Maria, a Igreja adquire um rosto materno mais concreto. Para compreendermos até que ponto a Igreja nos ama como mãe, basta-nos fixar o olhar da Virgem, que se debruça amorosa e ternamente sobre nós. Graças à maternidade de Nossa Senhora, a maternidade da Igreja torna-se mais real e mais familiar (Jean Galot).

      • QUINTO MISTÉRIO: MISSÃO APOSTÓLICA
      O II Concílio do Vaticano na Constituição Dogmática sobre a Igreja põe em evidência expressamente o papel de exemplaridade, desempenhado por Maria em relação à Igreja na sua missão apostólica. Depois de ter cooperado na obra de salvação com a maternidade, com a associação ao sacrifício de Cristo e com a ajuda materna à Igreja nascente, Maria continua a sustentar a comunidade cristã e todos os crentes no generoso empenho pelo anúncio do Evangelho (João Paulo II, Audiência Geral de 3 de setembro de 1997).

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      © Laboratório da fé, 2013

      Maio, mês de Maria, 2013 — Laboratório da fé
      Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.5.13 | Sem comentários

      Mês de maio, Mês de Maria


      A afirmação da Esperança como virtude fundamental é um dos grandes significados de «Fátima» para os homens e mulheres do nosso tempo, na opinião do padre José Tolentino Mendonça. Esta questão da Esperança é também questão do Homem. E acrescenta: «Fátima é um laboratório da humanidade renovada».

      Fátima representa, de um modo tão extraordinário que o nosso século apenas começou a descobrir, a afirmação de uma virtude proscrita e fundamental: a da Esperança.
      Nos baldios de outrora, povoados de rochas e azinheiras, ou no santuário atual, o que as multidões ouvem não é nada que, de mil maneiras, já não tenha sido sussurrado à alma humana. Aliás, para os cristãos, todas as revelações são sequências, linhas de água que arrastam o Espírito pelas paisagens da História. Mas o manancial, a torrente incessante, a palavra que dessedenta é, ontem, hoje e sempre, Jesus Cristo.
      Fátima tem a simplicidade e o mistério de uma página evangélica. É o seu enredo eterno que, diariamente, desenrola: as nossas histórias humanas, frágeis, estilhaçadas; o nosso brilho ameaçado; a nossa vida por salvar. Isso e o encontro com Maria que sugere: «Fazei tudo o que Ele vos disser» (João 2, 5).
      Numa cultura que se compraz em exaltações crepusculares, impotente face à crise de sentido e de valores, sem os quais as existências dos indivíduos e das sociedades facilmente se esboroam, Fátima vem recolocar a questão da Esperança, porque recoloca também a questão do Homem. Ensinando, na sua linguagem pobre (que escandaliza e confunde os sábios, mas que as crianças e, os que são simples como elas, entendem), que o Homem não tem de ser náufrago ou prisioneiro (eis a paradoxal proposta da «penitência»), mas que a vocação profunda da Pessoa Humana realiza-se na abertura e no diálogo com Deus (eis o que quer dizer a «oração»).
      [...]
      Quebrando a casca dura dos pietismos pode-se melhor entender (e crer) até que ponto, por exemplo, a Consagração ao Imaculado Coração de Maria, um dos aspetos centrais da mensagem, ao contrário de ação intimista e espiritualmente vaga, é ousadia de afirmar o triunfo do coração como cimento de um mundo novo que deve nascer. Um mundo que não tome os ínvios caminhos da desmedida e da desumanidade. Um mundo que não ignore a justiça e o bem. Um mundo que estimule os laços de fraternidade para lá de todas as fronteiras. Um mundo que potencie o acontecer da beleza e da alegria. Um mundo que pressinta o silencioso e redentor brilho de Deus.
      Fátima é um laboratório da humanidade renovada. O fluir da salvação, encetada no já e no agora desta vida. Uma proposta de redenção próxima e amável, como uma mão amiga estendida ou uma porta entreaberta nas nossas noites errantes de peregrinos.
      À medida que o tempo passa, acredito mais no segredo de Fátima. Nesse segredo que desassossega, que nos arranca de casa, dos trabalhos, da cidade e nos lança, peregrinos, para a imensidão das estradas. Eu acredito num "não sei quê" que esse segredo derrama em nós: uma porção de confiança, de abandono e de aventura. Uma vontade de tornar a vida mais que tudo verdadeira. De tornar generosos os projetos e fecundos os laços que nos ligam aos outros. De tornar absoluta a nossa sempre frágil Esperança. [...]

      © José Tolentino Mendonça
      © Secretariado Nacional da Pastoral da Cultural, 2013

      Maria, em Fátima, convida a viver o Evangelho


      Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.5.13 | Sem comentários

      François Jacob, Prémio Nobel da Medicina


      «Somos feitos de uma estranha mistura de ácidos nucleicos e de memórias, de sonhos e de proteínas, de células e de palavras» — disse um dia François Jacob. «O francês François Jacob, prémio Nobel pelo seu trabalho pioneiro em genética, morreu na sexta-feira [19 de abril de 2013] aos 92 anos», noticia o jornal «Público» desta terça-feira [23 de abril de 2013], dizendo: «Queria ser cirurgião, mas foi combater os nazis. No pós-guerra, escolheu a biologia. Podia ser poético a falar da sua ciência e da sua vida».
      E acrescentamos: era um entusiasta daquilo que dá sentido às causas últimas (mas não perdidas) da vida. François Jacob foi um profeta da esperança. «É a esperança que dá sentido à vida. E a esperança baseia-se na perspetiva de poder um dia transformar o mundo atual num mundo possível, julgado melhor. Quando Tristan Bernard foi preso pela Gestapo com a mulher, disse-lhe: ‘O tempo do medo acabou. Agora começa o tempo da esperança’» (François JACOB, «O Jogo dos Possíveis. Ensaio sobre a Diversidade do Mundo Vivo», Gradiva, 1989, 2.ª ed., 137-138).
      As mudanças acontecidas ao longo da sua vida, nomeadamente na sua carreira, fizeram dele um homem aberto à novidade, disponível para o sonho de ser sempre outro. Porque ao acordar do sonho, a pessoa «reconstrói-se, religa-se a personagem que se tinha desligado no sono» (François JACOB, «A Estátua Interior. Autobiografia», Dom Quixote, Lisboa 1988, 17). 

      Prémio Nobel da Medicina

      «François Jacob nasceu em Nancy, no Leste de França, em Junho de 1920. Em 1940, estava a estudar Medicina queria ser cirurgião, quando a França capitulou perante os nazis. Decidiu então alistar-se nas Forças Francesas Livres, o braço armado do movimento de resistência criado em Londres pelo general Charles de Gaulle. Combateu em África e em França e ficou gravemente ferido em Utah Beach, em Agosto de 1944, durante o desembarque aliado na Normandia.
      Jacob teve de permanecer hospitalizado durante vários meses e, quando teve alta, como as sequelas dos seus ferimentos lhe vedavam para sempre a prática da cirurgia, virou-se para a biologia um pouco por acaso. Mas rapidamente ficou entusiasmado com a nova ciência que estava a emergir. E os resultados dessa mudança algo tardia de carreira foram, como se provou, excepcionais» (Ana GERSCHENFELD, François JACOB [1920/2013] Geneticista, combatente antinazi e um pouco poeta, Público, 23 de abril de 2013, 26). Em dezembro de 1965 recebeu, em Estocolmo, o Prémio Nobel da Medecina, juntamente com os seus colegas de laboratório André Lwoff e Jacques Monod.

      Essência das coisas

      François Jacob dá um belo contributo a uma profunda preocupação em encontrar o sentido da vida, em descobrir a «essência das coisas», em dar sentido à existência humana, em «organizar o mundo à sua volta».
      «E como pessoa? ‘François Jacob não é apenas um investigador. A fé que sempre teve no progresso da ciência é a fé de um espírito lutador, apaixonado e profundamente humanista’, lê-se na biografia do cientista no site do Nobel. ‘Jacob era companhia das melhores para uma conversa, pela sua enorme cultura e experiência de vida’, responde por seu lado António Coutinho» (Ana GERSCHENFELD, 27).

      Progredir através do diálogo

      Nas suas conversas, na sua maneira de encarar a vida, descobrimos a falácia do fanatismo e a vitalidade do diálogo, do trabalho em equipa.
      Não há nada mais perigoso do que as «certezas de ter razão». Com ironia mostra-se adepto das «ideias fixas» quando se assume como única a «condição de mudar de ideias» (François JACOB, «A Estátua Interior. Autobiografia», 19).
      «Muito depressa verifiquei as vantagens de trabalhar, não sozinho num canto, mas em estreita ligação com outros habitantes do sótão. Pela eficácia e pela crítica recíproca; mas também pelo prazer, já que o diálogo leva a melhor sobre o monólogo. Muitas vezes, vários membros do grupo combinavam esforços para experiências de objetivos limitados. [...] Para pensar, para progredir, tenho necessidade de discutir. De ensaiar ideias, de as ver saltitar» (François JACOB, «A Estátua Interior. Autobiografia», 263.289).

      Felicidade no pormenor

      «Um dos mais brilhantes especialistas americanos do bacteriófago, Al Hershey, dizia que, para um biólogo, a felicidade consiste em ultimar uma experiência muito complexa e refazê-la todos os dias modificando somente um pormenor» (François JACOB, «A Estátua Interior. Autobiografia», 243). Quando se pensa ou se pretende fazer crer que só as grandes revoluções podem mudar o mundo, talvez seja importante recordar que a nossa felicidade se pode alcançar «modificando somente um pormenor».
      E, mesmo quando surge a depressão, «aqueles dias em que nada andava», mesmo quando é «difícil a pessoa não se considerar estúpida, incapaz», há algo que Jacob recorda como fundamental: «Com efeito, muito depressa aprendi que, para evitar cair no fundo do abismo por cada experiência falhada, o que importava era ter vários ferros na bigorna. Ter conjuntamente vários temas, de modo a que um falhanço aqui pudesse ser compensado por um êxito ali» (François JACOB, «A Estátua Interior. Autobiografia», 243).

      Estátua interior

      Cada ser humano é uma sucessão de «estranhos» mais do que uma continuidade. São as «transformações e as suas relações» ao longo da existência que permitem reconstruir a nossa identidade. É neste conjunto de sucessões de «estranhos» e de transformações quase diárias que se toma consciência da unidade. Este exercício da busca da identidade é «trajeto que ninguém pode fazer por nós»: «Esta comunicação entre o meu coração e a minha memória, todas estas emoções que ressurgem sob o aguilhão da lembrança, tecem uma rede entre o que sou e o que fui. Obrigam-me à unidade. Como me obriga também o sentimento de uma velha cumplicidade com todas as personagens do meu passado nos eternos debates que formam o diálogo interior. A certeza de que, cada uma a seu tempo, me deram a réplica» (François JACOB, «A Estátua Interior. Autobiografia», 22).
      Assim nasce a «estátua» que cada um traz esculpida dentro de si: «Trago assim em mim, esculpida desde a infância, uma espécie de estátua interior que dá continuidade à minha vida e que é a parte mais íntima, o núcleo mais duro do meu carácter. Essa estátua, toda a vida a modelei. Nunca parei de lhe dar retoques. Aperfeiçoei-a. Poli-a. A goiva e o cinzel são, aqui, encontros e combinações. Ritmos que se entrechocam. Folhas soltas de um capítulo que deslizam para outro no calendário das emoções. Terrores evocados pelo que é só suavidade. Uma necessidade de infinito surgida nos estilhaços de uma música. Um prazer que subitamente irrompe sob a severidade de um olhar. Uma exaltação nascida de uma associação de palavras. Todas as perturbações e todos os constrangimentos, as marcas deixadas por uns e por outros, pela vida e pelo sonho» (François JACOB, «A Estátua Interior. Autobiografia», 23).

      © Laboratório da fé, 2013

      Prémio Nobel da Medicina
      Postado por Unknown | 23.4.13 | Sem comentários

       Mensagem quaresmal em Quarta Feira de Cinzas de 2013 —


      Caríssimos irmãos a caminho da Páscoa: 
      1.Começamos esta Quaresma particularmente necessitados dela, por nós e por todos, na Igreja e na sociedade que integramos. Na sociedade portuguesa, antes de mais, onde dificuldades persistentes como que reduziram a cinzas muitas viabilidades que pareciam seguras e muitas previsões que se criam certas. Com maior ou menor inadvertência nossa, com maior ou menor inadvertência alheia, o resultado não foi o esperado e ainda há muito a resolver no âmbito particular e público, para que os inegáveis esforços de quem pode e deve e a notável persistência de quem não se resigna deem o resultado pretendido. Lá chegaremos, decerto, se formos todos a chegar, com justiça e solidariedade reforçadas. 
      E, no entanto, perdura o sentimento de que não se trata de algo episódico, nem que episodicamente se resolva. Entre más notícias e outras mais esperançosas, poderíamos cair numa relativa indiferença, que apenas se aguentasse porque, ao fim e ao cabo, alguma entidade nos seguraria em casos extremos, a raiar a penúria. Entretanto, quem pudesse partiria e outros ficariam, vendo a marcha da história passar ao lado, muito ao lado. 
      Não é justo este sentimento, nem faz jus a muito trabalho de quem não cruza os braços. Mas é ainda assim um sentimento que aflora em comentários recorrentes, na praça e nos media, qual negativismo de raiz, que desmotiva à partida. Ora, quando falamos de realidades assim, indicamos uma “crise” mais profunda do que meramente económica ou política que fosse. Estamos a falar de humanidade, estamos a falar de nós, onde mal nos sondamos e certamente sofremos. 
      A Quaresma é do calendário cristão e aos cristãos primeiramente interessa e incumbe. Lembrando ao vivo os quarenta anos do Povo de Deus no deserto, em duríssima libertação que só poucos alcançaram, lembrando ainda mais os quarenta dias de Jesus, no deserto em que venceu todas as tentações principais, é oportunidade maior para fazermos nossa a sua vitória sobre quanto nos afasta de Deus, dos outros e do melhor de nós mesmos. 
      Os exercícios quaresmais são a obra e o fruto duma fé verdadeira. Oração, esmola e jejum, na designação tradicional, podem traduzir-se por exercício espiritual de filiação autêntica, aproximação concreta das necessidades alheias e domínio de apetites vários que nos distraem do essencial. Conjugam-se aliás e muito bem, porque quem procura antes de mais o reino de Deus e a sua justiça, compreende melhor o que deve aos outros e consequentemente partilha do que tem e do que poupa. 
      Não precisamos de grandes cogitações para concluir da oportunidade redobrada de Quaresmas sérias. Os discípulos de Jesus Cristo admiram-lhe a plena liberdade sobre si próprio, percorrendo a estreita senda que, nele mesmo, Deus abria ao mundo. Estreita senda, que a sua Ressurreição transformou em viabilidade garantida para quem a queira percorrer, no mesmo Espírito e com a sua graça. Se olharmos em redor, para outras possibilidades que porventura nos apresentem, continuaremos a responder com as palavras de Pedro, apesar de tudo e até apesar de nós: «A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna!» (Jo 6, 68). 
      Irmãos caríssimos, diocesanos do Porto: Acolhamos de coração entregue as palavras de Paulo, no trecho que ouvimos: «Como colaboradores de Deus, nós vos exortamos a que não recebais em vão a sua graça. […] Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação!». 

      2.Porque é de acolher que efetivamente se trata. Aquele sentimento pesado e difuso, atrás referido, que tanto desmotiva socialmente, pode igualmente expandir-se na vida eclesial que levamos. Tal não deve acontecer de modo algum, porque os discípulos de Cristo hão de ser, especialmente agora, sinais vivos de esperança certa, nos mais diversos ambientes e setores em que a coexistência decorra. Assim o concluímos por nós, mas sobretudo o ganhamos de Cristo e do que nos oferece. 
      Leva-nos este ponto a uma consideração maior e mais exigente. Leva-nos ao que propriamente se chama conversão e quase rendição à graça e à justiça de Cristo, que só elas nos recriam e habilitam para o que importa sermos, para Deus e para o mundo. 
      Algumas décadas de otimismo apressado tentaram-nos a considerar mais “horizontalmente” as coisas, o que acabou por nos desencantar de nós mesmos, como pretendeu desencantar o mundo. Tudo estaria ao nosso alcance, dizia-se, mas nem sempre se atingiram novos patamares de humanidade livre e solidária - e muito pelo contrário, nalguns casos mais gritantes. De facto, temos de nos ver de mais alto para nos abarcarmos a todos. 
      Ao invés de tal horizontalismo, Jesus, de pés bem assentes na terra que foi sua, apresentou-se inteiramente “vertical”, em si mesmo abrindo tanto a terra ao céu como o céu à terra. Lembremos, por exemplo, como se apresentou segundo o antigo sonho do patriarca Jacob: «Em verdade, em verdade vos digo: vereis o Céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo por meio do Filho do Homem» (Jo 1, 51). 
      Por meio d’ Ele, e nunca doutro modo. Os discípulos de Cristo, que verdadeiramente o queiram ser, sabem-se resgatados dum imenso peso, que só Ele suportou. Há cativeiros de alma que nem conseguimos esclarecer, quanto mais quebrar… Oiçamos de novo e guardemos melhor as palavras de Paulo: «A Cristo, que não conhecera o pecado, identificou-O Deus com o pecado por amor de nós, para que em Cristo nos tornássemos justiça de Deus». 
      Reparemos que a iniciativa é divina, desvendando-nos o próprio modo de ser e agir de Deus. É Deus Pai que nos oferece em Cristo a reconciliação que por nós não atingiríamos nunca, como a não conseguiríamos agora. É essa a deslumbrante justiça de Deus, como se nos devesse o que gratuitamente nos oferece. Adianta-se no perdão, quase substituindo o ofensor. E tal acontece porque, em Deus, a justiça tem outra raiz, que se chama propriamente “amor”. 
      O Papa Bento XVI, a quem ficamos devedores de oito anos de luminoso pontificado, escolheu para a sua primeira encíclica o título “Deus é amor”, plenamente acertando com a revelação cristã. Na sua última mensagem quaresmal, diz-nos agora, entre muitas outras coisas oportunas: «O cristão é uma pessoa conquistada pelo amor de Cristo e, movido por este amor […], está aberto de modo profundo e concreto ao amor do próximo. Esta atitude nasce, antes de tudo, da consciência de sermos amados, perdoados e mesmo servidos pelo Senhor, que Se inclina para lavar os pés dos Apóstolos e Se oferece a Si mesmo na cruz para atrair a humanidade ao amor de Deus» (Mensagem do Papa para a Quaresma de 2013. Crer na caridade suscita caridade, nº 1). 
      Retiremos deste trecho duas consequências maiores, a nós referentes, como Igreja de Cristo, e ainda a nós mesmos, como Igreja no mundo e para o mundo, na nossa sociedade e circunstância:
      Primeiramente, caríssimos irmãos e condiocesanos, retomemo-nos diante de Deus como permanentes devedores dum resgate que não mereceríamos. É surpreendente deveras que todos os que mais tentaram corresponder ao amor de Deus – de Paulo de Tarso a Francisco de Assis ou a Teresa de Calcutá – sentissem tanto a desproporção absoluta entre o dom de Deus e a capacidade humana de se retribuir inteira… Por nós, não podemos nem queremos considerar-nos outra coisa senão pobres pecadores, constantemente carecidos do perdão de Deus. Seremos até a única comunidade humana que, ao reunir-se, começa por se confessar pecadora, diante de Deus e dos homens, «por pensamentos e palavras, atos e omissões», e insistindo cada um «por minha culpa, minha culpa, minha tão grande culpa». 
      Esta a verdade de que partimos nós, condição indispensável e assumida para acolhermos a verdade maior da misericórdia divina. Juntando uma e outra, continuamos a ser - como já antigamente se dizia - «a santa Igreja dos pecadores». Dos pecadores que assim nos confessamos e da santidade divina que nos é oferecida, pela mediação eclesial que Cristo não dispensa. Como outrora mandou aos discípulos que distribuíssem o pão com que só Ele alimentava o povo, como os mandou perpetuar a eucaristia em sua memória, como lhes confiou o serviço do perdão e da paz… E como nos envia todos a todos, caríssimos irmãos e irmãs, para que chegue a cada um a vida divina que só assim se expande. 
      Nada sucede por nós, mas porque em nós atua o amor divino, que só “merecemos” porque a ele nos rendemos, sem a mínima presunção da nossa parte. E o próprio Jesus Cristo o esclareceu na conclusiva parábola do fariseu e do cobrador de impostos, quando foram ao templo para orar. O primeiro, mais propriamente para afirmar a sua suposta impecabilidade, ali de pé e gabando-se de cumprir o preceituário completo. O segundo, nem levantava os olhos do chão e só conseguia repetir: «Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador». Sabemos a conclusão da parábola, como Cristo a tirou: «Este último voltou justificado para casa, e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado» (cf. Lc 18, 9-14). 
      Mas, se a humildade religiosa é a primeira consequência a reter, a humildade diante dos outros é a segunda e igualmente necessária. Aquele fariseu cheio de si e da sua suposta grandeza, no próprio orgulho com que se apresentava diante de Deus, transportava um profundo desprezo pelos seus semelhantes. Pois assim mesmo dizia: «Ó Deus, dou-te graças por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros…». Assim blasfemava ele, mas assim não blasfemaremos nós, atribuindo-nos uma impecabilidade que só a Deus pertence. Como o próprio Jesus o afirmou, para não restarem dúvidas: «Ninguém é bom senão um só: Deus» (Mc 10, 18).
      Em suma, caríssimos irmãos: Acolhamos esta Quaresma como oportunidade concreta de libertação de raiz. Por nós, não somos melhores do que outros, mas queremos substituir qualquer auto-convencimento pela conversão sem reservas à misericórdia divina. 

      3.Só assim ficaremos aptos para servirmos a sociedade que integramos, com disponibilidade oferecida e reforçada. Quem se sabe recuperado pela graça de Cristo, confessa um Deus que não desiste de nenhuma das suas criaturas e mantém constantemente a vontade criadora que subjaz a toda a existência. 
      Sobretudo por isso, estamos com todos os outros nas inevitáveis fronteiras da justiça, da solidariedade e da paz. É ainda Bento XVI a dizer-nos: «Quando damos espaço ao amor de Deus, tornamo-nos semelhantes a Ele, participantes da sua própria caridade. Abrirmo-nos ao seu amor significa deixar que Ele viva em nós e nos leve a amar com Ele, n’Ele e como Ele» (Mensagem, nº 2). 
      Nas nossas comunidades cristãs, certamente, e por elas no espaço em redor. Mas também nas escolas, nos hospitais, nas empresas, na sociedade em geral, estaremos com todos e para todos, com as competências que tivermos ou ganharmos, iguais entre iguais; e como “sal da terra”, que não perde a força que Deus sempre garante, para que tudo alcance melhor gosto e sobretudo não se corrompa e degrade. 
      Porque é magnífica a declaração mas tremenda a advertência que Jesus Cristo nos faz: «Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se corromper, com que se há de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens» (Mt 5, 13). Lembremos a advertência, mas apliquemo-nos na declaração. E que aqueles que connosco não desistem de resolver todas as crises, das famílias ao Estado, da economia à sociedade, da escola à cultura, possam confirmar que, ali mesmo onde está um discípulo de Cristo, não há desistência prévia, não há pessimismo paralisante, não há cansaço insuperável. - Ofereçamos esta exercitação quaresmal de crentes como incentivo nacional de esperança! 

      Manuel Clemente 
      Sé do Porto, Quarta Feira de Cinzas, 13 de fevereiro de 2013



      Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.2.13 | Sem comentários
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