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INICIAR À ORAÇÃO 


Aquelas e aqueles que se dispõem a «tomar consciência da presença de Deus que nos habita» confirmam que o ser humano, cada um de nós, é habitado por Deus, pelo Espírito Santo. O Catecismo Jovem da Igreja Católica (YOUCAT 120) diz que o nosso corpo é a «sala de estar de Deus».
Os bispos portugueses, na Carta Pastoral «O Espírito Santo, Senhor que dá a Vida» (26), constatam que «vai crescendo o número de pessoas que dão à oração o primeiro lugar e nela procuram a renovação da vida espiritual». Homens e mulheres que reconhecem no Espírito Santo «o mestre interior da oração cristã» (Catecismo da Igreja Católica, 2672).
Ora, «o Espírito Santo, exprime-se e faz-se ouvir, da forma mais simples e comum, na oração. É belo e salutar pensar que, onde quer que no mundo se reze, aí está presente o Espírito Santo sopro vital da oração. É belo e salutar reconhecer que, se a oração se encontra difundida por todo o universo, igualmente difundida é a presença e a ação do Espírito Santo» (João Paulo II, Carta Encíclica sobre o Espírito Santo na vida da Igreja e no mundo — «Dominum et Vivificantem», 65).
Então, «iniciar à oração» é aprender a invocar o Espírito Santo (por exemplo, no início do dia ou ao começar qualquer tipo de atividade; e claro, sempre ao iniciar a oração). Não há dúvida de que «o Espírito Santo ajuda o nosso espírito a orar. Por isso, devemos dizer continuamente: ‘Vem, Espírito Santo! Vem e ajuda-me a orar!’» (YOUCAT 496).



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Laboratório da fé celebrada: iniciar à oração, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.8.14 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO OITAVO DE PÁSCOA — PENTECOSTES

8 DE JUNHO DE 2014


Atos dos Apóstolos 2, 1-11

Quando chegou o dia de Pentecostes, os Apóstolos estavam todos reunidos no mesmo lugar. Subitamente, fez-se ouvir, vindo do Céu, um rumor semelhante a forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde se encontravam. Viram então aparecer uma espécie de línguas de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem. Residiam em Jerusalém judeus piedosos, procedentes de todas as nações que há debaixo do céu. Ao ouvir aquele ruído, a multidão reuniu-se e ficou muito admirada, pois cada qual os ouvia falar na sua própria língua. Atónitos e maravilhados, diziam: «Não são todos galileus os que estão a falar? Então, como é que os ouve cada um de nós falar na sua própria língua? Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia, vizinha de Cirene, colonos de Roma, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, ouvimo-los proclamar nas nossas línguas as maravilhas de Deus».



Pentecostes é comunhão


O texto no seu contexto
. Do ponto de vista fenomenológico (História das Religiões), Pentecostes é uma festa judaica e cristã. Em ambos os casos te que ver com «cinquenta dias» (é o que significa Pentecostes em grego). Para os judeus, é a festa das colheitas no início do verão; para os cristãos, marca o dom do Espírito Santo culminando a presença de Jesus entre nós depois das suas aparições pascais. Do ponto de vista da expansão da Igreja, Pentecostes é o início da missão do cristianismo por toda a costa mediterrânea. Os judeus que tinham ido a Jerusalém por causa de uma das três festas de peregrinação (Páscoa, Pentecostes e Tendas) voltam aos seus lugares de origem (multidão de povos e regiões); muitos deles comunicam as novidades de Jerusalém: o acontecimento cristão, a Páscoa e o dom do Espírito.

O texto na história da salvação. Do ponto de vista da Bíblia, tomada a Escritura como uma só Aliança, a única que Deus faz com o ser humano, Pentecostes supõe a oposição a Babel. Em Babel, o pecado provoca a dispersão dos povos (diversidade de línguas); no Pentecostes, o Espírito convoca, congrega, une (apesar de serem de povos distintos, todos se entendem). Pentecostes é comunhão; Babel é desunião. Pentecostes é falar a língua do amor; Babel é falar a língua da oposição. Pentecostes é a unidade na diversidade; Babel é a oposição que leva à rutura. A Igreja só pode buscar um novo Pentecostes; nunca uma nova Babel.

Palavra de Deus para nós: sentido e celebração litúrgica. Pentecostes é final de uma etapa e início de outra. Jesus prometeu o seu Espírito; a Igreja acolhe-o e celebra-o. A Igreja começa um novo caminho de evangelização e de presença no meio das pessoas, movida não pelo espírito da concorrência, da oposição e da subjugação, mas sob o espírito do diálogo, da comunhão e e da escuta do Espírito Santo.

© Pedro Fraile Yécora, Homiletica
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor

Preparar o domingo oitavo de Páscoa - Pentecostes (Ano A), no Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.6.14 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO OITAVO DE PÁSCOA — PENTECOSTES

8 DE JUNHO DE 2014


Evangelho segundo João 20, 19-23

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».



Por todo o mundo


O Senhor Ressuscitado faz com que não tenhamos medo e que vivamos com alegria o nosso ser cristãos, suas testemunhas por todo o mundo. «Recebei o Espírito Santo». Recebei o Espírito para voar, para sonhar, para transformar, para colorir a vida e ensinar a olhar com os olhos do Ressuscitado.
Uma Igreja alegre, animada pelo ar do Espírito, que nos empurra, que nos leva daqui para ali, não nos deixa estáticos, mas num contínuo dinamismo. Uma Igreja que é a família dos que partilham a fé no Ressuscitado.
Uma Igreja que não se fixa nos critérios do mundo, da terra, mas que é Igreja que se «eleva» sobre os interesses e as limitações humanas. Ao mesmo tempo, é uma Igreja incarnada e solidária com os que mais sofrem, mas levada pelas asas do Espírito. Uma Igreja no Norte e no Sul, no campo e na cidade, que não fica parada perante os que pedem auxílio afogados pelas diferenças e pelas injustiças, seguindo o exemplo daquele que foi trespassado pelo amor e nos continua a enviar a tantos trespassados da nossa terra.
Envia-nos o teu Espírito, para não nos esquecermos dos pobres e dos humildes, daqueles que levam no seu coração o selo do teu amor.

© Kamiano
© desenho de Patxi Velasco Fano — texto de Fernando Cordero
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor


Preparar o domingo oitavo de Páscoa - Pentecostes (Ano A), no Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.6.14 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO OITAVO DE PÁSCOA — PENTECOSTES

8 DE JUNHO DE 2014


Atos dos Apóstolos 2, 1-11

Quando chegou o dia de Pentecostes, os Apóstolos estavam todos reunidos no mesmo lugar. Subitamente, fez-se ouvir, vindo do Céu, um rumor semelhante a forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde se encontravam. Viram então aparecer uma espécie de línguas de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem. Residiam em Jerusalém judeus piedosos, procedentes de todas as nações que há debaixo do céu. Ao ouvir aquele ruído, a multidão reuniu-se e ficou muito admirada, pois cada qual os ouvia falar na sua própria língua. Atónitos e maravilhados, diziam: «Não são todos galileus os que estão a falar? Então, como é que os ouve cada um de nós falar na sua própria língua? Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia, vizinha de Cirene, colonos de Roma, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, ouvimo-los proclamar nas nossas línguas as maravilhas de Deus».



Ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas


Estamos perante a narração de uma vida nova: imprevista, surpreendente e irresistível. A história explica-a destacando que se trata de uma realidade prodigiosa: um ruído do céu como um vento impetuoso, um fogo que desce do céu, uma linguagem transformada...
Não é acidental que o nascimento da Igreja, essa grande colheita de pessoas, aconteça nesta data. No Antigo Testamento, Pentecostes assinalava o final das colheitas da primavera. Os israelitas fiéis louvavam a Deus e pediam-lhe a sua graça e generosidade.
Na ascensão de Jesus promete-se por duas vezes a vinda do Espírito. Aqui esta promessa chega ao cumprimento de uma maneira que supera as expectativas dos discípulos mais fiéis. Pentecostes é vida nova para a Igreja e para as pessoas que a formam, através do Espírito de Deus.
Ninguém é excluído desta mostra da graça de Deus. Na Transfiguração, por exemplo, só um pequeno grupo tinha sido testemunha da manifestação de Deus, mas aqui ninguém fica à margem. E um momento mais tarde, a multidão «ficou muito admirada, pois cada qual os ouvia falar na sua própria língua»; eram pessoas provenientes de todo o mundo da diáspora greco-romana. O que acontece durante o Pentecostes não é uma experiência mística interior, mas uma manifestação do poder de Deus que toca cada pessoa que está presente.

© Joan Ferrer, Misa dominical
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor

Preparar o domingo oitavo de Páscoa - Pentecostes (Ano A), no Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.6.14 | Sem comentários

NÃO PODEMOS VIVER SEM O DOMINGO!


«Valorizar o domingo como centro de todo o ano litúrgico» — é o primeiro objetivo apresentado no programa pastoral (2013+14) da Arquidiocese de Braga. Com o intuito de «valorizar» o domingo, acompanhando os tempos litúrgicos, propomos um tema a partir da releitura da Carta Apostólica sobre a santificação do domingo — «O dia do Senhor» («Dies Domini»). Este itinerário tem como tema geral: «Não podemos viver sem o domingo!».

Domingo, DIA DA RESSURREIÇÃO

Texto de reflexão para o oitavo domingo de páscoa – pentecostes

    28. O domingo poderia chamar-se também, com referência ao Espírito Santo, dia do «fogo». A luz de Cristo, de facto, liga-se intimamente com o «fogo» do Espírito, e ambas as imagens indicam o sentido do domingo cristão. Mostrando-Se aos Apóstolos no entardecer do dia de Páscoa, Jesus soprou sobre eles e disse: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhe-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos». A efusão do Espírito foi o grande dom do Ressuscitado aos seus discípulos no domingo de Páscoa. Era também domingo, quando, cinquenta dias após a ressurreição, o Espírito desceu como «vento impetuoso» e «fogo» sobre os Apóstolos reunidos com Maria. O Pentecostes não é só um acontecimento das origens, mas um mistério que anima perenemente a Igreja. Se tal acontecimento tem o seu tempo litúrgico forte na celebração anual com que se encerra o «grande domingo», ele permanece também inscrito, precisamente pela sua íntima ligação com o mistério pascal, no sentido profundo de cada domingo. A «Páscoa da semana» torna-se assim, de certa forma, «Pentecostes da semana», no qual os cristãos revivem a experiência feliz do encontro dos Apóstolos com o Ressuscitado, deixando-se vivificar pelo sopro do seu Espírito.



    • Não podemos viver sem o domingo! — textos publicados no Laboratório da fé > > >



    Laboratório da fé celebrada, 2014
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.6.14 | Sem comentários

    Mistério da fé! [12]


    A Confirmação faz parte do grupo de Sacramentos incluídos no itinerário de Iniciação Cristã (cf. tema 7). A primeira abordagem deste sacramento relaciona-o com o dom do Espírito Santo. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Atos dos Apóstolos 8, 14-17; Catecismo da Igreja Católica (CIC), números 1285 a 1292]

    «Recebiam o Espírito Santo»

    — relata o livro dos Atos dos Apóstolos referindo-se aos habitantes da Samaria. A ação evangelizadora é desenvolvida, em primeiro lugar, por Filipe (cf. Atos 8, 5) e depois pelos apóstolos Pedro e João. O primeiro anúncio foi bem recebido: «as multidões aderiam unanimemente à pregação de Filipe» (Atos 8, 6). Segue-se uma segunda intervenção a cargo de duas das primeiras testemunhas do Ressuscitado: Pedro e João. Estes, mediante a imposição das mãos, comunicam o dom do Espírito Santo às pessoas que Filipe tinha batizado.

    Confirmação

    «A Confirmação completa a graça batismal; ela é o sacramento que dá o Espírito Santo» (CIC 1316). Esta afirmação demonstra a íntima ligação que existe entre o sacramento do Batismo e o sacramento da Confirmação. Aliás, em grande parte dos textos do Novo Testamento, não se faz uma distinção explícita entre um e outro. Há apenas dois relatos no livro dos Atos dos Apóstolos em que são apresentados em dois momentos diferenciados, embora complementares (cf. Atos 8, 15; 19, 6). «Muitos pensam que a Confirmação equivale a ‘assumir conscientemente o Batismo’. Esta afirmação não é verdadeira. Se fosse simplesmente assumir o compromisso batismal, não seria Sacramento. Existe algo de mais profundo nela. E é esse algo mais profundo que a torna Sacramento (sinal de salvação)» (José Bortolini, «Os Sacramentos na tua vida», São Paulo, Lisboa 1995, 39).

    Dom

    Na Confirmação, o Espírito Santo é comunicado como um dom, um presente de Deus, para o crescimento espiritual do ser humano. O Espírito Santo é um «presente» (dom) que o Pai faz, a pedido de Jesus; é um presente gratuito que Jesus prometeu aos Apóstolos e à Igreja. (cf. José Bortolini..., 41). Pela Confirmação, aqueles e aquelas que foram batizados «são mais perfeitamente vinculados à Igreja, enriquecidos com uma força especial do Espírito Santo» (Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium», 11).

    Espírito Santo

    O Espírito Santo é a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, é o «Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: Ele que falou pelos profetas» — assim é definido no artigo do Credo niceno-constantinopolitano. O Catecismo da Igreja Católica, além da parte correspondente ao Credo — «Creio no Espírito Santo» (CIC 683-747) [a explicação deste tema está publicada no «Laboratório da fé»: www.laboratoriodafe.net/estaeanossafe] —, possui também uma secção sobre «o Espírito Santo e a Igreja, na Liturgia» (CIC 1091-1112) onde se apresenta a ação do Espírito no contexto sacramental: «é Ele quem prepara para receber Cristo, quem traz continuamente à memória dos crentes o que Cristo ensinou, e quem atualiza o seu mistério salvador da Páscoa. É Ele quem, invocado pela Igreja em oração de epiclese — sobre a água, os óleos, o pão e o vinho, os ordenandos, os doentes, os noivos —, dá eficácia a todos os sacramentos. [...] Na Confirmação, recebe-se como o melhor dom do Senhor Ressuscitado» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia» [DEL], ed. Paulinas, Prior Velho, 2007, 109). Apesar desta importância, agora mais reconhecida explicitamente, o Espírito Santo foi esquecido durante muito tempo na abordagem católica. E muito menos ainda se desenvolveu uma relação pessoal com Ele. Mas o facto de o Espírito Santo ser um «desconhecido» para muitos católicos, não significa que não tenha eficácia. «Quando um treinador manda um jogador de futebol para o campo, põe-lhe a mão sobre o ombro e dá-lhe as últimas instruções. Assim também se pode compreender a Confirmação. É-nos posta a mão, entramos em campo da vida. Pelo Espírito Santo, sabemos o que temos a fazer; Ele motivou-nos até à ponta dos cabelos; o Seu envio ressoa-nos no ouvido; sentimos a sua ajuda; não frustraremos a Sua confiança e decidiremos o jogo por Ele; agora, é só ter vontade e escutá-l’O» (Catecismo Jovem da Igreja Católica [YOUCAT], 203).

    «Mas não haverá alguma experiência do Espírito Santo? Não haverá algum dado ou prova na vida das pessoas de que a graça de Deus está em ação?» (Timothy Radcliffe, «Imersos na vida de Deus. Viver o Batismo e a Confirmação», Paulinas Editora, Prior Velho 2013, 293).






    Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.12.13 | Sem comentários

    PREPARAR O DOMINGOvigésimo sexto domingo


    ESPÍRITO SANTO: no início do Génesis, pairava o vento de Deus sobre o caos de uma terra informe e vazia; no início da Igreja, desce em forma de línguas de fogo sobre os discípulos; no início de cada dia, é derramado sobre a terra para fazer novas todas as coisas. Implora a vinda do Espírito. Depois, mantém as mãos abertas como um mendigo.

    Em casa
    Descubramos como Jesus nos tenta ensinar através da parábola do evangelho do vigésimo sexto domingo (Ano C). Por exemplo, existem locais, na nossa cidade (freguesia), onde nunca vamos passear ou que não queremos ver (compreende-se que é por boas razões)? Ou ainda, há vizinhos de quem não conheço o nome nem o rosto? E, na minha família, há pessoas que desejo ver ou que não vejo há muito tempo? As distâncias ou abismos nas nossas relações humanas são, em geral, fáceis de encontrar. Ao contrário, os gestos são mais difíceis de realizar. Que o Espírito nos inspire!
    © tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013



    imagem de satélite do planeta terra, globo terrestre
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.9.13 | Sem comentários

    Carta encíclica sobre a fé [38]


    A transmissão da fé, que brilha para as pessoas de todos os lugares, passa também através do eixo do tempo, de geração em geração. Dado que a fé nasce de um encontro que acontece na história e ilumina o nosso caminho no tempo, a mesma deve ser transmitida ao longo dos séculos. É através de uma cadeia ininterrupta de testemunhos que nos chega o rosto de Jesus. Como é possível isto? Como se pode estar seguro de beber no «verdadeiro Jesus» através dos séculos? Se o ser humano fosse um indivíduo isolado, se quiséssemos partir apenas do «eu» individual, que pretende encontrar em si mesmo a firmeza do seu conhecimento, tal certeza seria impossível; não posso, por mim mesmo, ver aquilo que aconteceu numa época tão distante de mim. Mas, esta não é a única maneira de o ser humano conhecer; a pessoa vive sempre em relação: provém de outros, pertence a outros, a sua vida torna-se maior no encontro com os outros; o próprio conhecimento e consciência de nós mesmos são de tipo relacional e estão ligados a outros que nos precederam, a começar pelos nossos pais que nos deram a vida e o nome. A própria linguagem, as palavras com que interpretamos a nossa vida e a realidade inteira chegam-nos através dos outros, conservadas na memória viva de outros; o conhecimento de nós mesmos só é possível quando participamos duma memória mais ampla. O mesmo acontece com a fé, que leva à plenitude o modo humano de entender: o passado da fé, aquele ato de amor de Jesus que gerou no mundo uma vida nova, chega até nós na memória de outros, das testemunhas, guardado vivo naquele sujeito único de memória que é a Igreja; esta é uma Mãe que nos ensina a falar a linguagem da fé. São João insistiu sobre este aspecto no seu Evangelho, unindo conjuntamente fé e memória e associando as duas à ação do Espírito Santo que, como diz Jesus, «há de recordar-vos tudo» (João 14, 26). O Amor, que é o Espírito e que habita na Igreja, mantém unidos entre si todos os tempos e faz-nos contemporâneos de Jesus, tornando-Se assim o guia do nosso caminho na fé.

    A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
    A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»] — pdf

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    Refletir... saborear

    • A transmissão da fé brilha para as pessoas de todos os lugares
    • A transmissão da fé passa de geração em geração
    • O rosto de Jesus Cristo chega até nós através de uma cadeia ininterrupta de testemunhos
    • A pessoa vive sempre em relação
    • A vida torna-se maior no encontro com os outros
    • O conhecimento tem uma dimensão relacional
    • A linguagem chega-nos através dos outros
    • O conhecimento de nós mesmos só é possível numa memória mais ampla
    • O passado da fé chega até nós na memória dos outros, das testemunhas
    • O passado da fé é guardado na memória da Igreja
    • A Igreja é uma Mãe que nos ensina a falar a linguagem da fé
    • A fé e a memória estão associadas à ação do Espírito Santo
    • O Espírito Santo faz-nos contemporâneos de Jesus Cristo
    • Como se dá a transmissão da fé?
    • Qual a importância da relação na transmissão da fé?
    • Que missão tem a Igreja na transmissão da fé?
    • Que ligação existe entre fé, memória e Espírito Santo?
    © Laboratório da fé, 2013

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    Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.9.13 | Sem comentários

    Carta encíclica sobre a fé [21]


    Podemos assim compreender a novidade, a que a fé nos conduz. O crente é transformado pelo Amor, ao qual se abriu na fé; e, na sua abertura a este Amor que lhe é oferecido, a sua existência dilata-se para além dele próprio. São Paulo pode afirmar: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim» (Gálatas 2, 20), e exortar: «Que Cristo, pela fé, habite nos vossos corações» (Efésios 3, 17). Na fé, o «eu» do crente dilata-se para ser habitado por um Outro, para viver num Outro, e assim a sua vida amplia-se no Amor. É aqui que se situa a acção própria do Espírito Santo: o cristão pode ter os olhos de Jesus, os seus sentimentos, a sua predisposição filial, porque é feito participante do seu Amor, que é o Espírito; é neste Amor que se recebe, de algum modo, a visão própria de Jesus. Fora desta conformação no Amor, fora da presença do Espírito que o infunde nos nossos corações (cf. Romanos 5, 5), é impossível confessar Jesus como Senhor (cf. 1Coríntios 12, 3).

    A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
    A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»] — pdf

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    Refletir... saborear

    • A fé conduz-nos a uma novidade
    • Na fé, o crente é habitado por Jesus Cristo
    • Na fé, o crente vive em Jesus Cristo
    • Na fé, a vida do crente amplia-se no Amor: o Espírito Santo
    • O Espírito Santo atua em cada pessoa para que:
      — tenha os olhos de Jesus Cristo
      — tenha os sentimentos de Jesus Cristo
      — tenha a predisposição filial de Jesus Cristo
    • Sem Espírito Santo, sem o Amor, não é possível confessar a fé em Jesus Cristo
    • A fé conduz-se a que novidade?
    • Sou habitado por Jesus Cristo?
    • Posso dizer como Paulo: «é Cristo que vive em mim»?
    • Tenho consciência da presença do Espírito Santo?
    © Laboratório da fé, 2013

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    Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.9.13 | Sem comentários
    Ao ritmo da liturgia


    Vigésima semana


    O cristão arde com o fogo de Jesus Cristo

    Um dia, a caminho de Jerusalém, Jesus Cristo declara aos seus discípulos que vem trazer o fogo à terra; e o que mais deseja é que esse fogo se propague.
    Na Bíblia, o fogo reveste-se de diversos significados. Antes de mais, é um sinal da presença de Deus: numa coluna de fogo, Deus guia o povo na fuga do Egito; numa sarça ardente que nunca se consome, Deus dá-se a conhecer a Moisés. Outras vezes, o fogo significa o julgamento de Deus que purifica e destrói tudo o que é fruto da maldade humana. Depois, no livro dos Atos dos Apóstolos, o Espírito Santo aparece sob a forma de línguas de fogo que pousam sobre os discípulos, no dia de Pentecostes. E, nos evangelhos, para exprimir a sua urgência da sua missão, Jesus Cristo fala de um fogo que arde dentro de si; e que ele quer comunicar aos seus seguidores.
    Há fogos que temos de acender dentro de nós: o fogo da criatividade e do dinamismo que nos impulsiona a não ficarmos adormecidos; o fogo do desenvolvimento das nossas capacidades; o fogo do amor concreto, que se traduz em obras; o fogo do conhecimento mais profundo de Jesus Cristo, que nos estimula a viver como ele; o fogo pela vida...
    Há fogos que temos de acender fora de nós: o fogo da cruzada contra a fome, a injustiça, o ódio, a falta de amor no mundo; o fogo que purifica a corrupção ou a hipocrisia; o fogo que aquece os abandonados; o fogo que queima a indiferença...
    Há fogos que temos de acender na nossa comunidade: o fogo do Espírito Santo, que destrói a apatia dos seus membros; o fogo do amor que faz crescer o carinho e a ternura entre todos; o fogo do Evangelho que provoca uma espiritualidade profunda e encarnada; o fogo da missão que leva cada um a ser testemunha da luz da fé...
    Mas também há fogos que é preciso apagar: o fogo da vaidade de quem se julga importante e imprescindível, com mais direitos do que os outros; o fogo do desejo das drogas, que arrasta as pessoas para a destruição; o fogo que queima as florestas; todos os fogos estúpidos que ateamos para ocultar a nossa podridão...
    Reflete, também tu, sobre os fogos que tens de apagar e os que tens de acender!
    Jesus Cristo não é um incendiário (DOMINGO: «Eu vim trazer o fogo à terra»): não procura destruir o mundo com o fogo de uma qualquer ira divina. O Evangelho transpira bondade, ternura e misericórdia! Aliás, os evangelhos revelam-nos a paixão que anima Jesus Cristo e que também nos pode animar (SEGUNDA: «Se queres ser perfeito»). Um desejo louco de ver brilhar em cada ser humano a luz da ressurreição (TERÇA: «Terá como herança a vida eterna»). Uma louca esperança de ver os cristãos saírem do seu tédio para seguirem Jesus Cristo (QUARTA: «Ide vós também para a minha vinha»). Jesus Cristo não quer que ninguém fique de fora (QUINTA: «Convidai para as bodas todos os que encontrardes») desta dinâmica capaz incendiar o mundo.
    O cristão arde com o fogo de Jesus Cristo: lendo o Evangelho, meditando-o, acolhendo-o... até, pouco a pouco, transformar o seu coração (SEXTA: «Com todo o teu coração») à imagem do coração de Jesus Cristo. E que mais? Nada mais (SÁBADO: «Verás coisas maiores do que estas»). Tudo o resto virá por acréscimo!

    O fogo que Jesus Cristo deseja acender na terra é o Espírito Santo que penetra os corações, purifica-os, transforma-os e torna-os capazes de amar sem limites. Podemos dizer que Jesus Cristo anuncia o tempo do Espírito Santo. É o tempo em que vivemos! Por isso, nesta semana, precisamos de responder a esta questão: Que estou a fazer para que o fogo do Evangelho se propague à minha volta?

    A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial
    © Laboratório da fé, 2013

    Vigésima semana, no Laboratório da fé, 2013
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.8.13 | Sem comentários

    As «chaves» do Concílio


    Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


    A teoria conciliar de carisma
    Mencionámos atrás o impasse de vários séculos entre protes­tantismo e catolicismo sobre o papel dos carismas na vida da Igreja. O Concílio deu vários passos importantes, embora apenas preliminares, para abordar questão tão controversa. 
    É inegável a importância da noção de carisma* nos escritos de São Paulo. Paulo insistia que o Espírito Santo conferia a todos os batizados carismas, ou dons do Espírito, tendo em vista a edificação da Igreja. Esses carismas  ou dons, apresentam-se numa diversidade de formas, algumas mais estáveis do que outras. Na secular polémica entre protestantes e católicos, alguns teólogos protestantes, como Rudolph Söhm, colocavam a visão «carismática» da Igreja segundo Paulo em forte contraposição com as estruturas institucionais do catolicismo. Os polemistas católicos, por sua vez, viam esses carismas como dons importantes conferidos exclusivamente à comunidade apostólica primitiva. Tais dons foram desaparecendo gradualmente da vida da Igreja, em favor do lugar essencial das funções eclesiais estáveis. 
    O Concílio Vaticano II tentou ultrapassar essa polémica. Enquanto São Paulo descrevia o corpo de cada crente como templo do Espírito Santo (1Coríntios 3, 16; 6, 19), os bispos aplicaram essa imagem a toda a Igreja. No texto-chave do presente capítulo, «dons hierárquicos» refere-se a funções estáveis da Igreja, e «dons carismáticos» refere-se aos muitos carismas que o Espírito reparte por todos os fiéis. Carisma e função não se opõem mutuamente, pois ambos têm por origem o mesmo Espírito. O Concílio reconheceu que a função eclesial não poderia existir a menos que fosse animada pelo Espírito Santo, e que os carismas não podiam sobreviver a menos que fossem submetidos a uma ordem que procurasse o bem de toda a Igreja. 
    Apelando ao conceito bíblico de carisma, o Concílio conseguiu afirmar o papel indispensável de todos os fiéis na edificação da Igreja e na assistência prestada ao cumprimento da missão da Igreja no mundo. Escreveram os bispos que «o Espírito Santo não só santifica e conduz o Povo de Deus por meio dos sacra­mentos e ministérios, e o adorna com virtudes, mas 'distribuindo a cada um os seus dons como lhe apraz' (1Coríntios 12, 11), distribui também graças especiais entre os fiéis de todas as classes» (LG 12). Embora poucos — senão nenhuns — participantes no Concílio pudessem antever o florescimento de ministérios leigos que ocorreria nas décadas subsequentes, foi essa ênfase dada aos carismas de todos os batizados que proporcionou uma útil estrutura de interpretação teológica desse desenvolvimento pós-conciliar do ministério dos leigos.
    Uma das formas pelas quais o Concílio conseguiu ultrapassar o binário carismas/funções foi sublinhando a relação recíproca entre esses dois termos. Em várias passagens, o Concílio sugeriu uma possível teologia de liderança pastoral ordenada dentro de uma comunidade animada por muitos carismas. A liderança pastoral dos ministros ordenados não tem de competir com o exer­cício dos muitos dons concedidos aos fiéis. A primeira requer o segundo. No magistério conciliar, os ministros ordenados para a liderança pastoral não deviam absorver no seu ministério todas as tarefas próprias da edificação da Igreja. Pelo contrário, os pastores da Igreja foram exortados a reconhecer, potenciar e afirmar os dons de todo o Povo de Deus. No Decreto sobre o Apostolado dos Leigos («Apostolicam Actuositatem» [AA]), o Concílio afirmou que a receção de carismas do Espírito, pelo Batismo, 
    confere a cada um dos fiéis o direito e o dever de os aplicar na Igreja e no mundo, para bem dos homens e edificação da Igreja, na liberdade do Espírito Santo, que «sopra onde quer»... e, ao mesmo tempo, em comunhão com os outros irmãos em Cristo, sobretudo com os próprios pastores; a estes compete julgar da sua autenticidade e exercício ordenado, não de modo a apagarem o Espírito, mas para que tudo apreciem, retendo o que é bom (AA 3).
    O Decreto sobre o Ministério e a Vida dos Sacerdotes («Presbyterorum Ordinis» [PO]) afirmou, de igual modo, a responsabilidade do sacerdote por confirmar e alimentar os dons dos fiéis: «Sabendo discernir se os espíritos vêm de Deus, perscrutem com o sentido da fé, reconheçam com alegria e promovam com diligência os multiformes carismas dos leigos, tanto os mais modestos como os mais elevados» (PO 9). Estas passagens situavam o ministério pastoral ordenado não acima, mas dentro da comunidade cristã. O ministro ordenado é responsável pelo discernimento e pela coordenação dos carismas e dos ministérios de todos os batizados.

    * Carisma: termo derivado da palavra grega «charis», que significa «dom».

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    © Paulinas Editora, 2012
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    Catherine E. Clifford e Richard R. Gaillardetz, As «chaves» do Concílio, Paulinas Editora, Prior Velho, 2012 (material protegido por leis de direitos autorais)


    • O Espírito Santo na Igreja [1] [2] 

    Há atualidade na Lumen Gentium?
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.6.13 | Sem comentários

    As «chaves» do Concílio


    Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


    O Espírito Santo e a «koinonia»
    Um dos grandes contributos do século XX, à eclesiologia, é a recuperação da noção bíblica de «koinonia». O termo aparece pela primeira vez na teologia de São Paulo, sendo muitas vezes tradu­zido de formas diferentes, por «comunhão», «fraternidade», «participação em» ou «partilha». Se incluirmos todas as formas aparentadas com o substantivo «koinonia», este aparece trinta e seis vezes no Novo Testamento, com maior frequência nos escritos paulinos. Etimologicamente, o seu significado tem por base a raiz grega «koinon», que significa «comum». «Koinonia» refere-se a uma participação espiritual em determinada realidade comum.
    Em 1Coríntios 1, 9, Paulo manifesta gratidão pelo facto de os Coríntios terem sido chamados por Deus à «comunhão» («koinonia») com Cristo. Podemos encontrar um uso paralelo na bênção diri­gida por Paulo aos Coríntios, na conclusão da segunda epístola: «A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão [«koi­nonia»] do Espírito Santo estejam com todos vós!» (2Coríntios 13, 13). Esta última passagem afirma que essa «koinonia» é um dom do Espí­rito, sugerindo que é o Espírito que produz uma relação de com­participação entre os crentes. Aquilo que Paulo entendia por «koi­nonia» incorporava tanto um elemento vertical (p. ex., comunhão com Cristo ou com o Espírito) e outro horizontal (p. ex., comu­nhão entre crentes), como é evidente em 1Coríntios 10, 16-17: 
    «O cálice de bênção, que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo? Uma vez que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, porque todos participamos desse único pão».
    Poderíamos falar de dupla dimensão do uso que Paulo faz de «koinonia» — a primeira é uma dimensão vertical, por assim dizer, que sublinha a comunhão com Deus, em Cristo e no Espírito. A segunda, uma dimensão mais horizontal, orienta-se para a comunhão com outros crentes. Essa dupla dimensão também é evi­dente na literatura joanina
    «A Vida manifestou-se; nós vimo-la, dela damos testemunho e anunciamo-vos a Vida eterna que estava junto do Pai e que se manifestou a nós — o que nós vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também vós estejais em comunhão connosco. E nós estamos em comunhão com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo» (1João 1, 2-3).
    Esta passagem põe em destaque a simultaneidade da vida partilhada entre os crentes (dimensão horizontal) e a sua vida partilhada com Deus, ou seja, «com o Pai e com o seu Filho» (dimensão vertical). Ao que parece, a intenção do autor bíblico terá sido prevenir qualquer ideia de que a comunhão com Deus desse às pessoas a liberdade de fazerem tudo o que quisessem na esfera das relações humanas. O autor da Primeira Carta de João insiste que a verdadeira comunhão com Deus encerra em si um imperativo ético e até ontológico; não se pode separar a comunhão com Deus da comunhão com os outros crentes. Por fim, vemos provas do aspeto comunitário da «koinonia» em Atos 2, 42, onde a «koinonia» entre os discípulos é evidente na partilha de todos os seus bens.
    Nas décadas anteriores ao Concílio, vários teólogos católicos esboçam estudos bíblicos e ecuménicos sobre a «koinonia», geral­mente traduzida em latim por «communio» — «comunhão». Exami­naram as formas pelas quais tais estudos colocavam, subjacente às reflexões sobre a Igreja, o sentido de ser-em-relação. O Espírito Santo impele os crentes para uma comunhão espiritual, para uma «participação» de duas vertentes na comunhão com Deus, em Cristo, e na comunhão com outros crentes, na vida da Igreja. O termo «koinonia» exprimia a ligação fundamental entre participação na vida de Deus e participação na comunidade cristã.
    O Concílio Vaticano II incorporou esta linha teológica de pensamento, uma abordagem que eventualmente viria a ser referida como eclesiologia de comunhão. O papa João Paulo II, na sua Exor­tação apostólica sobre os Leigos («Christifideles Laici»), reafirmou a conclusão do Sínodo Extraordinário de 1985, de que a noção de comunhão constituía a ideia central e fundamental do Vaticano II. Com efeito, o conceito de «koinonia»-«communio» encontra-se no centro, do texto-chave do presente capítulo. No início dessa passagem, é-nos dito que o Espírito Santo afirma a nossa comunhão espiritual com Deus, como filhos adotivos. Aí encontramos um reconhecimento da dimensão vertical da «koinonia», que torna pos­sível a nossa intimidade espiritual com Deus. A Igreja existe a fim de nos impelir para uma relação vivificante com Deus em Cristo, pelo poder do Espírito Santo.
    A segunda frase foca o aspeto horizontal de comunhão, que é a obra do Espírito Santo para unir a Igreja, estabelecendo-a como Corpo de Cristo. É-nos recordado que ser batizados é ser batizados em Cristo. O Batismo estabelece a nossa identidade cristã, iniciando-nos na vida da Igreja. O Concílio voltará uma e outra vez a descrever a Igreja como comunhão espiritual, à semelhança de «Lumen Gentium» 9, que se refere à Igreja como «comunhão de vida, amor e verdade». Esta eclesiologia de comunhão é mais aprofundada pelo Concílio em relação à Eucaristia.
    Poucas perspetivas eclesiológicas foram mais frutíferas para a reflexão teológica nas décadas subsequentes ao Concílio. Os teólogos viram nessa ênfase dada à Igreja como comunhão um antídoto contra a preocupação excessiva pelos cargos, pelo poder, pela jurisdição e pelos privilégios clericais na Igreja. Se a Igreja é uma comunhão, mantida como tal pelo poder do Espírito Santo, então termos como «poder» e «posto» devem ser exaustivamente repensados como realidades que só têm legitimidade na medida em que sirvam as diversas relações entre os crentes que compõem a vida da Igreja. Poder e posto não podem deter valor autó­nomo numa comunhão de crentes.

    © Richard R. Gaillardetz - Catherine E. Clifford
    © Paulinas Editora, 2012
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    Catherine E. Clifford e Richard R. Gaillardetz, As «chaves» do Concílio, Paulinas Editora, Prior Velho, 2012 (material protegido por leis de direitos autorais)


    • O Espírito Santo na Igreja [1] 

    Há atualidade na Lumen Gentium?
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 28.6.13 | Sem comentários

    As «chaves» do Concílio


    Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


    O Espírito habita na Igreja e nos corações dos fiéis como num templo (cf. 1Coríntios 3, 16; 6, 19), e dentro deles ora e dá testemunho da adoção de filhos (cf. Gálatas 4, 6; Romanos 8, 15-16.26). A Igreja, que o Espírito conduz à verdade total (cf. João 16, 13) e que unifica na comunhão e no ministério, é enriquecida e guiada por Ele com diversos dons hierárquicos e carismáticos, e adornada com os seus frutos (cf. Efésios 4, 11-12; 1Coríntios 12, 4; Gálatas 5, 22). Pela força do Evangelho, o Espírito rejuvenesce a Igreja, renova-a continuamente e leva-a à união perfeita com o seu Esposo (LG4).

    Antecedentes
    O Espírito Santo é muitas vezes referido como a Pessoa esquecida da Trindade. Ao longo dos últimos mil anos, a eclesiologia católica centrou-se na relação da Igreja com Cristo. A consideração do Espírito Santo estava geralmente limitada à garantia da eficácia dos sacramentos e ao caráter fidedigno do magistério da Igreja. A pneumatologia* era muito pouco considerada na reflexão teológica sobre a Igreja.
    Nas décadas anteriores ao Concílio Vaticano II, o eminente teólogo dominicano Yves Congar criticou esta eclesiologia, limitada por aquilo que descreveu como o seu «Cristomonismo». Congar, entre outros teólogos, apelou a uma recuperação do papel do Espírito Santo na vida da Igreja. Os seus estudos revelaram uma época da Igreja primitiva em que o Espírito Santo tinha muito maior proeminência. Autores cristãos primitivos, como Santo Agostinho, viam o Espírito Santo como a alma do Corpo de Cristo. A relutância tardo-medieval em incorporar o Espírito Santo numa teologia da Igreja pode dever-se, em parte, à frequente referência ao Espírito Santo da parte das seitas heréticas, que tendiam a contrapor a obra carismática do Espírito às instituições da Igreja. Além disso, a partir da Reforma protestante, a cristandade tinha sofrido, por uma polémica continuada entre estudiosos protestantes e católicos, sobre se a Igreja primitiva se fundava sobretudo sobre funções eclesiais estáveis (a estrutura hierárquica da Igreja) ou sobre carismas concedidos a todos os crentes. Da parte da Igreja católica, qualquer referência a um papel decisivo do Espírito Santo corria o risco de parecer demasiado «protestante». Os importantes estudos do século XIX de Johann Adam Möhler e Matthias Scheeben sobre o Espírito Santo foram as exceções que confirmaram a regra.
    No início do século XX, a eclesiologia católica recuperou a antiga imagem da Igreja como Corpo Místico de Cristo. Este tema foi aproveitado pelo papa Pio XII na sua Encíclica «Mystici Corporis». Embora o Papa reconhecesse o papel do Espírito Santo na Igreja, a encíclica não se centrou sobre a obra do Espírito Santo, mas sobre os elementos institucionais da Igreja.
    Um dos contributos mais importantes — e muitas vezes ignorados — do Concílio Vaticano II residiu nos seus passos decisivos para recuperar o papel do Espírito Santo na vida da Igreja. Até o projeto de documento sobre a Igreja que os bispos receberam durante a primeira sessão do Concílio, apesar das suas muitas falhas, incluía numerosas referências ao Espírito Santo, recuperando a visão agostiniana do Espírito Santo como alma da Igreja. Enquanto São Paulo descrevera o corpo de cada crente como templo do Espírito Santo (1Coríntios 3, 16; 6, 19), os bispos aplicaram essa imagem a toda a Igreja.

    O Espírito Santo no magistério conciliar
    A recuperação, pelo Concílio, do lugar do Espírito Santo na Igreja, é evidente logo no primeiro capítulo da «Lumen Gentium», onde encontramos uma rica abordagem dos fundamentos trinitários da Igreja. No Pentecostes, o Espírito foi enviado para «santificar continuamente a Igreja e, desse modo, os fiéis tivessem acesso ao Pai, por Cristo, num só Espírito» (LG 4). O Concílio unia a Igreja Corpo de Cristo àqueloutra imagem da Igreja como Templo do Espírito Santo (LG 17). Esta ênfase renovada sobre o Espírito Santo é ainda mais desenvolvida e amplificada no Decreto sobre a Atividade Missionária da Igreja, segundo o qual a Igreja é constituída pelas missões trinitárias da Palavra e do Espírito (AG 2). Neste capítulo con-centrar-nos-emos em três aplicações da pneumatologia a uma teologia da Igreja: o papel do Espírito na manutenção da comunhão da Igreja; a teologia conciliar do carisma; a recuperação do caráter carismático da vida religiosa consagrada.

    Pneumatologia: termo derivado da palavra grega «pneuma», que significa «espírito» ou «sopro». Assim, pneumatologia refere-se ao campo da teologia dedicado ao estudo do Espírito Santo.

    © Richard R. Gaillardetz - Catherine E. Clifford
    © Paulinas Editora, 2012
    A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização da editora

    Catherine E. Clifford e Richard R. Gaillardetz, As «chaves» do Concílio, Paulinas Editora, Prior Velho, 2012 (material protegido por leis de direitos autorais)


    • O Espírito Santo na Igreja [2] 

    Há atualidade na Lumen Gentium?
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.6.13 | Sem comentários

    Esta é a nossa fé [34]


    Reflexão semanal 
    sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

    A primeira parte dedicada ao Espírito Santo, no «Credo niceno-constantinopolitano», termina com uma referência à ação do Espírito Santo através dos «Profetas»: «Ele que falou pelos Profetas». [Para ajudar a compreender melhor, ler: Hebreus 1, 1-2; Catecismo da Igreja Católica, números 702-716]

    «Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais [...] por meio dos profetas» — começa por referir o autor da Carta aos Hebreus. A Igreja associa a ação de Deus através dos profetas à presença do Espírito Santo. Deus fala através dos profetas pela ação do Espírito Santo. Por isso, o Espírito Santo, na expressão de Simeão, Novo Teólogo (1022), é designado como «boca de Deus»: «A boca de Deus é o Espírito Santo» (Livro de Ética: III, citado por Comissão Teológico-Histórica do Grande Jubileu do Ano 2000, «Do Teu Espírito, Senhor, está cheia a terra», Paulinas, Lisboa 1997, 20).

    Ele que falou pelos Profetas. A palavra «profeta» tem vários significados. «Talvez as duas conotações mais marcantes de profeta sejam a de ‘vidente’ e a de ‘porta-voz’ que transmite certa mensagem em nome de outro. O termo ‘profeta’, usado em português, deriva do grego e sublinha esta segunda ideia, isto é, alguém que fala como porta-voz de outro» (Bíblia Sagrada, Livros Proféticos, Difusora Bíblica, 1163). No nosso contexto, o «profeta» é aquele que fala em nome de Deus. Por essa razão, afirmamos no «Credo» que o Espírito Santo «falou pelos Profetas». Aliás, quer na Escritura quer na Tradição da Igreja, o dom profético está intimamente ligado ao Espírito Santo. Mas há uma questão que é necessário precisar: quem são os «Profetas» referidos no «Credo»? Na maior partes das vezes, a referência aos profetas está associada a um contexto histórico específico do povo de Israel, situado no Antigo Testamento. «É um facto que, quando falamos de profetas, omitimos quase sempre, uma vezes por simples rotina, outras vezes também por ignorância ou negligência, os profetas cristãos cuja existência é mencionada cerca de 20 vezes no Novo Testamento, e referimo-nos exclusivamente aos profetas do Antigo Testamento, a quem vemos normalmente como homens que atuaram pela ação do Espírito Santo» (António Couto, «O Espírito Santo ‘que falou pelos Profetas’», Bíblica. Série científica, Ano VI, número 6, dezembro de 1997, 47-48). Para evitar este equívoco em relação ao âmbito do termo «Profetas» empregue no «Credo», o Catecismo da Igreja Católica explica: «Por ‘profetas’, a fé da Igreja entende aqui todos aqueles que o Espírito Santo inspirou na redação dos livros santos, tanto do Antigo como do Novo Testamento» (número 702). Então, podemos dizer que a ação do Espírito Santo através dos «Profetas» inclui a totalidade dos livros da Bíblia. O «Espírito também fala, por assim dizer, com palavras humanas [...], é um Espírito falante, ou antes, é Palavra que, nos escritos do Antigo e do Novo Testamento, vem ao nosso encontro» (Bento XVI, «A alegria da fé», Paulinas Editora, Prior Velho 2011, 59). A esta dinâmica da ação do Espírito Santo chamamos «inspiração das Escrituras». Assim o afirmam os documentos da Igreja. A Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina - «Dei Verbum» refere: «A Sagrada Escritura é a palavra de Deus enquanto foi escrita por inspiração do Espírito Santo» (número 9); «As coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo. [...] Tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo» (número 11). Bento XVI, na Exortação Apostólica sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja - «Verbum Domini» também afirma: «A Palavra de Deus exprime-se em palavras humanas graças à obra do Espírito Santo. [...] É este Espírito que inspira os autores das Sagradas Escrituras» ( número 15). Por fim, é importante referir que Espírito Santo que «falou pelos Profetas» continua a «falar» hoje. «O mesmo Espírito inspirador dos autores sagrados da Bíblia também inspira o leitor para a compreensão da sua Palavra, dentro da Igreja. Daí a bela tradição de pedir ao Espírito a sua ação para uma leitura fecunda e eficaz da Palavra» (Palavra do Senhor - «Verbum Domini». Exortação Apostólica pós-sinodal de Bento XVI. Textos e comentários. Difusora Bíblica, Fátima 2010, 35). Esta ação do Espírito concretiza-se na leitura orante da Palavra de Deus (conhecido pela expressão latina «lectio divina»).

    «A Igreja, no silêncio, na escuta e acolhimento da Palavra de Deus, deixa-se ensinar, formar e desafiar pelo Espírito, que fala através das Escrituras» (Conferência Espiscopal Portuguesa, Carta Pastoral «O Espírito Santo, Senhor que dá a vida», 12).

    © Laboratório da fé, 2013

    Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé    Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé


    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.6.13 | Sem comentários

    Esta é a nossa fé [33]


    Reflexão semanal 
    sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

    O Catecismo da Igreja Católica resume num parágrafo a identidade divina do Espírito Santo: «A missão do Espírito Santo, enviado pelo Pai em nome do Filho e pelo Filho ‘de junto do Pai’ (João 15, 26), revela que Ele é, com Eles, o mesmo e único Deus. ‘Com o Pai e o Filho é adorado e glorificado’» (número 263). No «Credo niceno-constantinopolitano», esta identidade é reforçada com a afirmação: «E com o Pai e o Filho é adorado e glorificado» [Para ajudar a compreender melhor, ler: Isaías 6, 1-3; Catecismo da Igreja Católica, números 253-267 e 683-690]

    «Santo, Santo, Santo. [...] Toda a terra está cheia da sua glória» — afirma o profeta Isaías. São muitos os textos bíblicos que se referem à santidade divina e à sua glória. Estes «atributos» também estão em destaque na liturgia da Igreja. Aqui, é ainda mais evidente a relação da santidade e da glória com a Trindade: Pai, Filho, Espírito Santo.

    E com o Pai e o Filho é adorado. Esta afirmação pretende reforçar a natureza divina do Espírito Santo. Ao dizermos que o Espírito Santo é «Senhor» (cf. tema 31) estamos a manifestar a nossa fé na sua divindade, tal como ao dizermos que é «Santo». De facto, estes dois títulos — «Senhor» e «Santo» — são próprios de Deus e já se encontram na Escritura atribuídos ao Espírito (cf. 2Coríntios 3, 17-18; João 14, 26). Por isso, o Espírito Santo, juntamente com o Pai e o Filho, é digno de adoração. «Que significa adorar a Deus? Significa aprender a estar com Ele, demorar-se em diálogo com Ele, sentindo a sua presença como a mais verdadeira, a melhor, a mais importante de todas. [...] Adorar o Senhor quer dizer dar-Lhe o lugar que Ele deve ter; adorar o Senhor significa afirmar, crer – e não apenas por palavras – que Ele é o único que guia verdadeiramente a nossa vida; adorar o Senhor quer dizer que vivemos na sua presença convencidos de que é o único Deus, o Deus da nossa vida, o Deus da nossa história. Daqui deriva uma consequência para a nossa vida: despojar-nos dos numerosos ídolos, pequenos ou grandes, que temos e nos quais nos refugiamos, nos quais buscamos e muitas vezes depomos a nossa segurança. São ídolos que conservamos bem escondidos; podem ser a ambição, o carreirismo, o gosto do sucesso, o sobressair, a tendência a prevalecer sobre os outros, a pretensão de ser os únicos senhores da nossa vida, qualquer pecado ao qual estamos presos, e muitos outros. [...] Adorar é despojarmo-nos dos nossos ídolos, mesmo os mais escondidos, e escolher o Senhor como centro, como via mestra da nossa vida» (Francisco, Homilia 14 de abril de 2013).

    E glorificado. O termo «glória» exprime o esplendor de Deus que suscita o louvor agradecido das criaturas. «Deus é glorioso, é a Verdade indestrutível, a Beleza eterna. Trata-se da certeza fundamental e consoladora da nossa fé. Mas também aqui, segundo os três primeiros mandamentos do Decálogo, existe subordinadamente uma tarefa que nos cabe: empenhar-nos para que a grande glória de Deus não seja desonrada nem deturpada no mundo, para que se preste a devida glória à sua grandeza e à sua vontade» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré. Prólogo — A infância de Jesus», Princípia Editora, Cascais 2012, 67-68). A origem bíblica da palavra «glória» (em hebraico diz-se «kabod»), significa «peso», como símbolo de poder e de autoridade. Os gregos traduzem por «doxa», que significa «aparecer» ou «resplandecer». Finalmente, os latinos usam o termo «gloria» que tem o sentido de «ouvir», «fazer-se ouvir» e também «soar», «ser famoso». «A variedade dos termos e dos significados ajudam-nos a compreender que dá glória a Deus quem corresponde à sua iniciativa criadora e salvífica, reconhecendo e celebrando o seu poder, a sua soberania, o seu esplendor e o seu acolhimento universal. [...] Glorificá-lo, quer dizer, amá-lo com os lábios e o coração, com a vida, as palavras e as obras» (Bruno Forte, «Eis o Mistério da Fé: crer, viver, testemunhar», Paulinas Editora, Prior Velho 2012, 102). Esta é a meta da oração e da vida cristã: «Se percorrermos em profundidade este caminho, achamo-nos continuamente na presença do mistério das três Pessoas divinas para As louvar, adorar, agradecer» (João Paulo II, Carta Apostólica sobre o Rosário — «Rosarium Virginis Mariae», 34).

    «Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo»: todas as vezes que proclamamos estas palavras, síntese da nossa fé, adoramos o único e verdadeiro Deus em três Pessoas. Contemplamos estupefactos este mistério que nos envolve totalmente. Mistério de amor; mistério de santidade (João Paulo II, 10 de junho de 2001). Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre. Ámen!

    © Laboratório da fé, 2013

    Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé  Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé

    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.6.13 | Sem comentários

    Esta é a nossa fé [32]


    Reflexão semanal 
    sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

    A dificuldade em definir o Espírito Santo, que temos vindo a referir (cf. temas 30 e 31), alargou-se à questão da origem do Espírito Santo. Qual é a origem do Espírito Santo? O Pai? O Filho? O Pai e o Filho? A resposta a estas interrogações provocou uma discussão profunda no seio da Igreja; e contribuiu para acentuar a separação entre o Oriente e o Ocidente, dando origem à primeira grande separação entre as igrejas: Igreja Católica e Igreja Ortodoxa [Para ajudar a compreender melhor, ler: João 15, 26-27; Catecismo da Igreja Católica, números 243-248]

    «O Espírito da Verdade, que procede do Pai e que Eu vos hei de enviar da parte do Pai» — é a terceira promessa do Espírito feita por Jesus Cristo aos apóstolos, de acordo com o evangelho segundo João. Esta afirmação está na base do doutrina sobre o Espírito Santo que proclamamos no «Credo»: «e procede do Pai e do Filho».

    E procede do Pai. Na linguagem humana — sempre imperfeita para referir o ser, a essência de Deus — Deus Pai é apresentado como a «fonte e a origem de toda a Divindade». Assim se compreende que o «Credo» apresente a relação trinitária de Deus sempre a partir do Pai. Por isso, dizemos que o Filho é «gerado» e «consubstancial ao Pai» (cf. temas 12 e 13); e também dizemos que o Espírito «procede do Pai». Isto significa que o Espírito Santo, tal como o Filho, é da mesma identidade e natureza que o Pai. O Filho e o Espírito Santo não foram criados, mas fazem parte da essência de Deus. E assim se constituiu a revelação trinitária de Deus. Através da Bíblia, esta revelação surge como uma relação de comunhão entre as três Pessoas de Deus: Pai, Filho e Espírito Santo.

    E do Filho. «O Espírito Santo procede do Pai enquanto fonte primeira; e, pelo dom eterno do Pai ao Filho, procede do Pai e do Filho em comunhão», afirma o Catecismo da Igreja Católica (número 264) citando Santo Agostinho. A relação entre o Filho e o Espírito Santo deu origem à primeira grande divisão no seio da Igreja. Trata-se de uma questão mais linguística do que teológica, mas historicamente teve consequências muito graves para a unidade da Igreja. Por isso, vamos apresentar resumidamente o essencial. «As culturas, as línguas e as sensibilidades teológicas levaram o Ocidente e o Oriente a exprimirem de maneiras diferentes estas relações entre as Pessoas divinas. Sem entrar em pormenores é possível reter que o Oriente foi mais cuidadoso em manifestar a monarquia do Pai, sendo o único sem origem e sendo fonte de vida trinitária. O Ocidente desenvolveu mais especificamente as relações entre as Pessoas divinas, exprimindo-as em termos de amor partilhado. Um e outro confessando realmente que é o Espírito de Cristo que é dado, e que o Espírito está espalhado porque o Filho participa na glória do Pai» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 138). Na verdade, sempre existiu uma diferença sadia e complementar entre as duas partes da mesma Igreja: a parte ocidental dominada pelo pensamento latino e a parte oriental mais dominada pela cultura grega. Os concílios serviam exatamente para dirimir as questões e estabelecer uma doutrina comum a toda a Igreja. Ora, o «Credo» que resulta do Concílio de Constantinopla (em 381) refere apenas que o Espírito Santo «procede do Pai». Assim se definiu o «símbolo» da fé comum à Igreja que estava no Ocidente e no Oriente. No entanto, a tradição latina da Igreja (Ocidente) foi introduzindo, na proclamação de fé nas celebrações litúrgicas, a expressão «e do Filho»: o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. Curiosamente, foram as igrejas situadas na Península Ibérica (Espanha e Portugal) que, durante o século VII, mais promoveram a inserção da expressão «e do Filho» no texto do «Credo», que não seria bem aceite pela parte oriental da Igreja Católica. As posições foram levadas ao extremo: para os orientais, o Espírito procede do Pai pelo Filho; para os ocidentais, o Espírito procede do Pai e do Filho. Devido à importância histórica que assumiu, esta questão ficou conhecida pelo termo latino «Filioque» (em português: «e do Filho»). E será mais um argumento para consumar a rutura que acontece no ano de 1054: a separação entre o Ocidente e o Oriente, dando origem à Igreja Ortodoxa.

    Hoje, reconhece-se que a controvérsia tornou-se mais linguística do que teológica, porque o que realmente estava em causa era apenas o significado da palavra «proceder». No entanto, a afirmação que no «Credo niceno-constantinopolitano» se refere à origem do Espírito Santo — «e procede do Pai e do Filho» — contribui para as divergências que separam católicos e ortodoxos.

    © Laboratório da fé, 2013

    Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé  Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé
      
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.6.13 | Sem comentários

    Esta é a nossa fé [31]


    Reflexão semanal 
    sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

    Há uma dificuldade clara em explicar a Trindade de Deus; e ainda maior é a dificuldade em dizer «quem» é o Espírito Santo, a terceira Pessoa de Deus (cf. tema 30). Na proclamação da fé católica, dizemos que o Espírito Santo é «Senhor que dá a vida». Perante a pergunta sobre quem é o Espírito Santo podemos responder: é Senhor; é fonte de vida. [Para ajudar a compreender melhor, ler: João 4, 1-42; Catecismo da Igreja Católica, números 683-686 e 703-710 e 721-726]

    «A água que Eu lhe der há de tornar-se nele em fonte de água que dá a vida eterna» — diz Jesus Cristo, no diálogo com a mulher samaritana que se aproxima do poço de Jacob, em Sicar. Nesta narração do evangelho segundo João, depois da primeira troca de palavras, a mulher fica maravilhada com a resposta de Jesus Cristo. A samaritana não consegue entender tudo, até porque se situa apenas na evidência: para ela, a água encontra-se no fundo do poço. Mas Jesus Cristo insiste numa água que sacia a sede para sempre. «Jesus promete à Samaritana que dará a ‘água viva’, em abundância e para sempre, a todos aqueles que o reconhecerem como o Filho enviado pelo Pai para nos salvar (cf. João 4, 5-26; 3, 17). Jesus veio para nos dar esta ‘água viva’ que é o Espírito Santo, para que a nossa vida seja guiada, animada e alimentada por Deus. Quando dizemos que o cristão é um homem espiritual entendemos precisamente isto: é uma pessoa que pensa e age em conformidade com Deus, segundo o Espírito Santo. Mas pergunto-me: e nós, pensamos segundo Deus? Agimos em conformidade com Deus? Ou deixamo-nos guiar por muitas outras coisas que não são propriamente Deus? Cada um deve responder a isto no profundo do seu coração» (Francisco, Audiência Geral de 8 de maio de 2013).

    Senhor. O título de «Senhor» (e fonte de vida) atribuído ao Espírito Santo acontece no Concílio de Constantinopla, no ano de 381. Afirmar que o Espírito Santo é Senhor, tal como Jesus Cristo (cf. tema 7), é proclamar a sua divindade: é uma Pessoa de Deus. «Porque é uma Pessoa divina, o Espírito faz-nos participar na vida de Deus» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 125). Neste sentido, podemos dizer que «o ‘Espírito’ é um dom de Deus, melhor, é o próprio Deus que se dá. [...] O Espírito Santo é o próprio Deus que se comunica» (Dionigi Tettamanzi, «Esta é a nossa fé!», Paulinas, Prior Velho 2005, 104-105).

    Que dá a vida. O Catecismo da Igreja Católica afirma que o Espírito Santo está presente na Criação como o «Sopro» de Deus que, com a Palavra, está «na origem do ser e da vida de todas as criaturas» (número 703). O Espírito é como a «respiração» de Deus. Entre outros, há um momento ímpar em que se destaca a presença do Espírito Santo como fonte de vida: a Encarnação (cf. tema 17 e Catecismo da Igreja Católica, números 721 a 726: «É com e pelo Espírito Santo que a Virgem concebe e dá à luz o Filho de Deus»). Presente na Criação, na Encarnação — e em todos os momentos da história — o Espírito Santo continua a derramar sobre nós a vida de Deus. «O Espírito Santo é a fonte inesgotável da vida de Deus em nós. O ser humano de todos os tempos e lugares deseja uma vida plena e boa, justa e serena, uma vida que não seja ameaçada pela morte, mas que possa amadurecer e crescer até à sua plenitude. O ser humano é como um viajante que, ao atravessar os desertos da vida, tem sede de água viva, jorrante e fresca, capaz de saciar profundamente o seu desejo de luz, amor, beleza e paz. Todos nós sentimos este desejo! E Jesus doa-nos esta água viva: é o Espírito Santo. [...] Este é o dom precioso que o Espírito Santo derrama nos nossos corações: a própria vida de Deus, vida de filhos verdadeiros, uma relação de intimidade, liberdade e confiança no amor e na misericórdia de Deus, que tem como efeito também um olhar novo para os outros, próximos e distantes, vistos sempre como irmãos e irmãs em Jesus, que devem ser respeitados e amados. O Espírito Santo ensina-nos a ver com os olhos de Cristo, a viver e a compreender a vida como Ele o fez. Eis por que a água viva que é o Espírito Santo sacia a nossa vida, porque nos diz que somos amados por Deus como filhos, que podemos amar Deus como seus filhos e com a sua graça podemos viver como filhos de Deus, como Jesus» (Francisco, 8 de maio de 2013).

    «Deixemo-nos guiar pelo Espírito Santo, permitamos que Ele nos fale ao coração e nos diga: Deus é amor, Deus espera-nos, Deus é Pai, ama-nos como verdadeiro pai, ama-nos verdadeiramente e só o Espírito Santo diz isto ao nosso coração» (Francisco).

    © Laboratório da fé, 2013


    Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé  Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.5.13 | Sem comentários

    Domingo da Santíssima Trindade


    Evangelho segundo João 16, 12-15

    Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis compreender agora. Quando vier o Espírito da verdade, Ele vos guiará para a verdade plena; porque não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que está para vir. Ele Me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. Tudo o que o Pai tem é meu. Por isso vos disse que Ele receberá do que é meu e vo-lo anunciará».

    Tenho ainda muitas coisas para vos dizer

    Entrar no mistério da Santíssima Trindade faz-nos escutar as palavras de Jesus Cristo nesta passagem do evangelho: «Tenho ainda muitas coisas para vos dizer». Haverá sempre muito para dizer sobre Deus, pois todas as nossas tentativas, todos as palavras e expressões que possamos usar são sempre imperfeitas para explicar a realidade de Deus. «Não as podeis compreender agora», acrescenta Jesus Cristo, ao mesmo tempo que convida a deixarmo-nos guiar pelo Espírito Santo: «Ele vos guiará para a verdade plena». 

    Refletir sobre o «Credo» no Ano da Fé

    Ao longo deste Ano da Fé estamos a refletir semanalmente sobre o conteúdo do «Credo» para nos ajudar a compreender e a viver melhor a nossa fé. Mas não se trata de explicar tudo sobre Deus. Antes, de nos ajudar a entender as palavras e as expressões que, ao longo dos séculos, têm sido usadas pelos teólogos e pelos papas para falar de Deus. Uma grande parte dos cristãos não sabe explicar minimamente as afirmações que proclama quando reza o «Credo».

    Deus é Pai, Filho e Espírito Santo

    A única maneira de falar da Trindade de Deus é através de imagens. Mas nunca podemos esquecer que são apenas imagens. E embora seja a melhor maneira de falar de Deus, qualquer imagem que usemos será sempre imperfeita. Na verdade, a distinção entre as três «pessoas» de Deus só se refere à relação interna, isto é, à relação que existe dentro do próprio Deus. Há distinção entre elas quando se relacionam entre si. Porque no que diz respeito à relação externa não há distinção: Deus age sempre como Um. A nossa relação com Deus é sempre através da Trindade (em simultâneo) e nunca com cada uma das «pessoas» em separado. Por isso, não podemos dizer que se trata de três em um, mas de uma única realidade que é relação. Vamos tentar perceber através de um exemplo. Quem é o Criador? Deus, isto é, a Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A obra de Deus é sempre comunhão. Em Deus, nada é solitário: tudo é comunhão. Mas nós não dizemos no «Credo» que Deus é Pai Criador de todas as coisas? Sim, dizemos. Mas também dizemos que «todas as coisas foram feitas» pelo Filho. E ainda que o Espírito Santo é o «Senhor que dá a vida». Neste exemplo, vemos que no ato criador está envolvida a totalidade de Deus: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Uma vez mais, temos de entender que a distinção em três «pessoas» apenas diz respeito à essência, ao ser de Deus, e não à sua relação connosco. Os primeiros cristãos experimentaram que Deus podia ser ao mesmo tempo e sem contradição: Deus que está acima de nós (Pai); Deus que se faz um de nós (Filho); Deus que se identifica com cada um de nós (Espírito).

    Então, como é que acontece a nossa relação com Deus? As leituras de hoje mostram-nos que tudo o que nos faz entrar em relação com Deus está relacionado com a fé, a esperança e a caridade ou amor. Na verdade, estas três virtudes são as portas que nos fazem entrar na comunhão de Deus, que nos fazem sentir que Deus está connosco. E desta comunhão com Deus nasce depois o nosso compromisso de viver também em comunhão com os outros. Por isso, ao longo desta semana, deixemo-nos interpelar por esta pergunta: Testemunho o amor de Deus na relação com os outros?

    © Laboratório da fé, 2013
    Tenho ainda muitas coisas para vos dizer — Laboratório da fé

    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.5.13 | Sem comentários
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