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Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


Esta ficha sobre a «Lumen Gentium» (LG), aborda os capítulos V e VII sobre a «vocação à santidade» e a «índole escatológica da Igreja», respetivamente.

A vocação à Santidade

O capítulo V recorda que todos os cristãos, estejam onde estiverem, são chamados à santidade, isto é, a uma vida de profunda comunhão com o Senhor, e adesão ao projeto anunciado por Jesus Cristo. Este é o maior testemunho e a maior obra da Igreja!
Falar da vocação à santidade universal da Igreja significa refletir no chamamento à santidade do Povo de Deus. Cremos que a Igreja é indefectivelmente santa, pois Cristo a amou como esposa, entregou-Se por ela, para santificá-la (cf. Efésios 5, 25-26), e uniu-a a Si como Seu corpo, cumulando-a com o dom do Espírito Santo. Esta santidade manifesta-se nos frutos da graça que o Espírito Santo produz nos fiéis; exprime-se de muitas maneiras em cada um daqueles que, no seu estado de vida, tendem à perfeição da caridade, com edificação do próximo; e aparece de modo especial na prática dos conselhos chamados evangélicos. A prática destes conselhos revela ao mundo um admirável testemunho e exemplo desta santidade (LG 39).
Cristo, Mestre e modelo de perfeição, pregou sempre a santidade de vida que Ele é autor e consumador: «Sede perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste» (Mateus 5, 48). Todos aqueles que no batismo da fé foram feitos verdadeiros filhos de Deus e participantes da natureza divina, são destinados à santidade que receberam na graça, devendo conservá-la e aperfeiçoá-la. Sejam os clérigos, os religiosos ou os leigos, todos são igualmente chamados à santidade, cada qual, de acordo com seu estado de vida. A LG exorta toda a Igreja a viver conforme a santidade pregada por Cristo, que consiste no amor incondicional a Deus e ao próximo, na caridade e fraternidade, na prática constante da oração e no exercício das virtudes cristãs (LG 40).
Sobre a santidade, Dom Orani João Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, lembra: «Desde a Antiga Aliança, com os Patriarcas, Deus chama o povo à santidade: ‘Eu sou o Senhor que vos tirou do Egito para ser o vosso Deus. Sereis santos porque Eu sou Santo’» (Levítico 1, 44-45). O desígnio de Deus é claro: uma vez que fomos criados à sua «imagem e semelhança» (Génesis 1, 26), e Ele é Santo, nós devemos ser santos também. O Senhor não deixa por menos. A medida e a essência dessa santidade é o próprio Deus. São Pedro repete esta ordem dada ao povo no deserto, em sua primeira carta, convocando os cristãos a imitarem a santidade de Deus: «A exemplo da santidade daquele que vos chamou, sede também vós santos, em todas as vossas ações, pois está escrito: Sede santos, porque eu sou santo» (1Pedro 1, 15-16)».
Os caminhos e os meios para a santidade passam, em primeiro lugar, pela caridade que Deus difundiu nos nossos corações, pelo Espírito Santo que nos foi dado; em seguida, para que a caridade frutifique, é necessária a escuta atenta da Palavra de Deus e, com seu auxílio, cumprir nas obras a Sua vontade; participar ativa e frequentemente dos Sacramentos, sobretudo da Eucaristia, e nas demais celebrações litúrgicas, aplicando-se constantemente à oração, à abnegação de si mesmo, ao serviço fraterno atuante e no exercício de todas as virtudes (LG 42).
Especialmente os cristãos, leigos e leigas, são chamados a viverem a santidade nos espaços onde estão inseridos. A começar pela família, a Igreja doméstica, os esposos devem viver a santidade no amor mútuo e no serviço um ao outro e aos filhos, proporcionando-lhes educação cristã que os insira no mundo como sal e luz. No trabalho, na política e na sociedade, homem e mulher são chamados a darem testemunhos das virtudes cristãs e de uma fé inabalável na presença salvífica do Senhor na História. Assim testemunharão a santidade da Igreja presente no mundo como luz para iluminar aqueles que jazem nas trevas.
Viver a vocação cristã é estar aberto ao chamamento de Deus para realizar o que Ele pede, tal como na oração do Pai nosso que rezamos: «seja feita a Vossa vontade».

Índole escatológica da Igreja

O capítulo VII aborda a índole escatológica da Igreja. Etimologicamente, escatologia diz respeito à teologia do final dos tempos, mas isso não significa que a Igreja pregue o fim do mundo. Para a doutrina católica, a escatologia diz respeito à promessa da vinda de Cristo quando, então, Ele resgatará todos, definitivamente, para o seu Reino. Enquanto isso, a Igreja espera dando testemunho de que o Reino já está entre nós. Disso nasceu a imagem da Igreja peregrina ou militante!
O texto da carta aos Filipenses (1, 20-24) expõe de maneira clara que, se o Reino é o lugar definitivo para o cristão, «o morrer é lucro», mas todos tem a missão de viver e testemunhar Cristo na Terra, enquanto viventes. Paulo reflete: «Fico na indecisão: meu desejo é partir desta vida e estar com Cristo, e isso é muito melhor. 'No entanto, por causa de vocês, é mais necessário que eu continue a viver'» (Filipenses 1, 23-24).
D. Henrique Soares da Costa, bispo auxiliar de Aracaju, diz o seguinte sobre a índole escatológica da Igreja: «Sendo Povo de Deus peregrino, a Igreja nunca pode esquecer que sua pátria é o céu e é para lá que ela deve conduzir a humanidade toda. Por isso mesmo, ela tem um papel importantíssimo neste mundo, que ninguém, a não ser ela, pode realizar: ser sinal do Reino que está para acontecer plenamente na glória. A Igreja deve despertar nos homens a saudade do céu e a fidelidade ao Cristo na terra! Por isso, tudo quanto de bom os homens construírem, tem a aprovação e solidariedade da Igreja… mas ela sabe, que a plenitude do Reino somente se dará na Glória».
Esta «saudade do céu» que o bispo descreve, não é de forma alguma negação deste mundo, mas certeza e esperança de que ele deve ser transformado segundo os critérios do Reino. Disso nasce a missão da Igreja de se empenhar com outros organismos sociais na construção de uma nova sociedade. Nesta perspetiva, os cristãos são chamados a se envolverem em movimentos alternativos que assegurem maior dignidade aos filhos de Deus. É a certeza de que a maior Glória que pode ser dada a Deus é que a vida de seu povo seja defendida!
Ao falar na índole escatológica da Igreja peregrina e sua união com a Igreja Celeste, a LG começa pela índole escatológica da vocação de todos os cristãos, na Igreja, explicitando que, «a Igreja, para a qual somos todos chamados em Cristo Jesus e na qual pela graça de Deus adquirimos a santidade, só se consumará na glória celeste, quando chegar o tempo da restauração de todas as coisas (Atos 3, 21), e quando com o género humano, também o mundo todo, que está ligado intimamente com o homem e que por ele chega ao seu fim, será perfeitamente restaurado em Cristo». Esta restauração começou já em Cristo, foi impulsionada com a vinda do Espírito Santo e continua por meio d’Ele na Igreja – que nos faz descobrir na fé o sentido da própria vida temporal – à medida que vamos realizando, com esperança nos bens futuros, a obra que o Pai nos confiou no mundo, e vamos operando a nossa salvação (LG 48).
Enquanto estamos neste mundo como Igreja peregrina, mantemo-nos profundamente unidos aos que já morreram e que contemplam «Deus face a face», na Igreja Celeste, através das celebrações litúrgicas e orações pessoais; e à multidão de santos e santas que nos precedeu e intercede por nós. Todos os que são de Cristo formam uma só Igreja, corpo místico, e n’Ele estão unidos entre si, por isso, a união dos que estão na terra com os irmãos que adormeceram na paz de Cristo, de maneira nenhuma se interrompe. A certeza desta união e os santos exemplos deixados por aqueles que seguiram fielmente a Cristo e muitos que o fazem ainda hoje, ajudam na santificação da Igreja, pois, todos aqueles que são constituídos em Cristo formam uma só família unida em caridade e louvor à Trindade Santa (LG 49-51).

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© Arquidiocese de Campinas, Brasil
© Adaptado por Laboratório da fé, 2013



Questões para reflexão

  • Somos chamados à santidade em Jesus Cristo. Como posso responder a este chamamento?
  • Ao falar da índole escatológica, a Igreja prevê que no futuro, no final dos tempos, haverá uma restauração de todas as coisas. Como entendo esta afirmação?
  • O que aprendi nesta ficha vai interferir na minha maneira de viver?

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II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2013

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.8.13 | Sem comentários

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Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


Esta ficha refere-se ao último capítulo da «Lumen Gentium» (LG), que contempla a bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, «como modelo de cristã e membro mais belo da Igreja». O Concílio quis dedicar-lhe este texto para expressar que o significado que Maria tem no mistério de Cristo está relacionado com o amor do Pai, a missão do Filho, o dom do Espírito Santo; ela é a mulher da qual nasceu o Redentor e a nossa filiação divina.
Para realizar a redenção do mundo, «Deus enviou o seu Filho» (Gálatas 4, 4) e, para «formar-lhe um corpo» (cf. Hebreus 10, 5) quis a livre cooperação de uma mulher, «para lembrar a toda humanidade que Deus assim nos fez, homem e mulher, semelhantes a Deus, iguais em dignidade e co-autores… (Génesis 1, 27), e através do ventre materno de uma virgem»… para que recebêssemos a adoção de filhos» (Gálatas 4, 5); Ele que, por amor de nós e para nossa salvação, desceu dos céus e encarnou por obra do Espírito Santo no seio da Virgem Maria. Este mistério da salvação é revelado e continuado (continua a ser revelado a toda sua Igreja) na Igreja. Unidos a Cristo como cabeça, e em comunhão com todos os santos, os fiéis devem também venerar a memória da Virgem Maria, Mãe de Deus e de Nosso Senhor Jesus Cristo (LG 52).
Reconhecida e honrada como Mãe de Deus e do Redentor que se fez irmão de todos, Maria torna-se também, por adoção, Nossa Mãe. A sua santidade, enriquecida desde o primeiro instante de sua conceção, e a sua dignidade de Mãe do Filho de Deus, vem inteiramente dos méritos de Cristo. Mais do que qualquer outra pessoa, o Pai abençoou-a e «escolheu-a nele (Cristo), para ser santa e imaculada em sua presença, no amor» (Efésios 1, 3-4).
Ela é, portanto, a filha predileta de Deus Pai e sacrário vivo do Espírito Santo, e ultrapassa, com este dom de graça sem igual, todas as criaturas celestes e terrestres. Segundo Santo Agostinho, «com seu imenso amor ela colaborou para que na Igreja nascessem os fiéis, que são membros do Corpo do qual a cabeça é Cristo». Ela é também saudada como membro que está acima de todos e de modo único na Igreja, além de ser considerada como o modelo da fé e da caridade. Por isso, a Igreja Católica honra-a como mãe, dedicando-lhe, um afeto de piedade filial (LG53).
A honra que a Igreja sugere não deve ser confundido com «latria» que é reservado somente a Deus. A veneração aos santos é chamado de «dulia», e à Virgem Maria de «hiperdulia». Os cristãos não cultuam imagens, e segundo São Basílio, «a honra prestada a uma imagem dirige-se ao modelo original» e quem venera uma imagem venera a pessoa que nela está pintada. A honra prestada às imagens é uma «veneração respeitosa», e não adoração, que só compete a Deus (Catecismo da Igreja Católica [CIC] 2132).
O Concílio não teve a intenção de propor uma doutrina completa sobre Maria, mas quis esclarecer, cuidadosamente, tanto a função da Santíssima Virgem no mistério do Verbo Encarnado e do Corpo Místico, quanto os deveres dos próprios homens para com a Mãe de Deus, que é Mãe de Cristo e, especialmente dos fiéis (LG 54).
A Mãe do Messias aparece profeticamente nos escritos do Antigo Testamento, esboçada primeiramente na promessa da vitória sobre a serpente (Génesis 3, 15) e depois como a Virgem que há de conceber e dar à luz um filho cujo nome será Emanuel (Isaías 7, 14; Miqueias 5, 2-3). Na Anunciação, quis o Pai de misericórdia que a Encarnação fosse precedida da aceitação por parte da mãe, a fim de que, assim como a mulher tinha contribuído para a morte, também a mulher contribuísse para a vida. Ela que «em certo sentido, tornou-se a primeira discípula do seu Filho, a primeira a quem Ele parecia dizer: 'Segue-me'» (Carta Encíclica sobre a bem-aventurada Virgem Maria na vida da Igreja que está a caminho — A Mãe do Redentor [«Redemptoris Mater» — RM] 20).
«O papel de Maria para com a Igreja é inseparável da sua união com Cristo» (CIC 964). A união da Mãe com o Filho, na obra da redenção, manifesta-se desde o momento da conceção virginal até sua morte e, podemos afirmar isso seguindo os passos de Maria da anunciação à sua visita a Isabel quando entoou seu canto de louvor (Lucas 1, 46-55), passando pelo nascimento, pela infância e pela participação na vida pública de Jesus até aos pés da cruz, (LG 57), ela que na peregrinação da fé foi até à «noite da fé, comungando com o sofrimento de seu Filho e com a noite de seu túmulo» (RM 17-18).
No ministério público de Jesus, a manifestação de Maria aparece claramente desde o início, quando nas bodas de Caná obteve, por sua intercessão, que Ele realizasse o seu primeiro milagre. «Ela põe-se entre o seu Filho e os seres humanos na realidade das suas privações, das suas diligências e dos seus sofrimentos. Torna-se mediadora, intercessora, não como uma estranha, mas como mãe, além de ser porta-voz da vontade do seu Filho, como quem indica as exigências que devem ser satisfeitas» (RM 21).
Manteve-se sempre ao Seu lado, até a Sua morte, sofrendo com Ele e associando-se ao Seu sacrifício. E depois manteve-se junto dos Apóstolos, implorando com eles, em preces, os dons do Espírito Santo que nela já habitava desde a conceção. Preservada de toda a mancha original, terminando o curso de sua vida terrestre, foi levada à glória celeste em corpo e alma e exaltada pelo Senhor como Rainha do Universo (LG 58).
A função maternal de Maria para com a humanidade torna-a dotada de uma mediação especial que de modo nenhum obscurece ou diminui a intercessão única de Cristo, mas que antes mostra qual é a sua eficácia, pois ela continuamente intercede por todos nós junto do seu Filho, mediador por excelência junto de Deus Pai (LG 60-61).
Maria ainda é apresentada como figura da Igreja pelo dom e carga da maternidade divina, cujas virtudes a Igreja deve imitar. Exaltada pela graça de Deus acima de todos os Anjos e de todos os humanos, logo abaixo de seu Filho, por ser a Mãe Santíssima de Deus, Maria recebe da Igreja a honra com culto especial nas festas litúrgicas dedicadas à Mãe de Deus e na oração mariana, tal como o Santo Rosário, resumo de todo evangelho (CIC 971). As várias formas de devoção, lembram os fiéis que ao honrar-se a Mãe, seja bem conhecido, amado e glorificado o Filho e bem observados os mandamentos daquele «pelo qual existem todas as coisas» (LG 66).
O Concílio não só ensina, como exorta os fiéis a promoverem dignamente o culto à Virgem Santíssima cujo tema deve ser tratado com abertura religiosa, evitando induzir em erro os irmãos separados ou quaisquer outras pessoas, quanto à doutrina da Igreja Católica.
Ao finalizar, a LG aponta Maria como sinal de esperança certa e de consolação para o Povo de Deus peregrino, exortando a todos para dirigirem súplicas incessantes à Mãe de Deus e Mãe dos homens. Ela, que assistiu com orações desde o início, o alvorecer da Igreja, também agora, possa interceder junto a seu Filho para que todas as famílias dos povos se reunam em concórdia no único Povo de Deus, para a Glória da Santíssima e Indivisível Trindade (LG 68-69).
Na exortação Apostólica para a reta ordenação e desenvolvimento do culto à bem-aventurada Virgem Maria — «Marialis Cultus» (1974), o papa Paulo VI desejou, em consonância com o II Concílio do Vaticano e especialmente com a LG, definir a forma do culto à Virgem Maria na Liturgia. Em 1987, o papa João Paulo II publicou uma Encíclica dedicada a Maria ((Carta Encíclica sobre a bem-aventurada Virgem Maria na vida da Igreja que está a caminho — A Mãe do Redentor — «Redemptoris Mater»), na qual destacava o lugar de Maria na obra da Salvação e confirmou o título, Mãe da Igreja, proclamada pelo Papa Paulo VI, no II Concílio do Vaticano, em 21 de novembro de 1964 e, em 2002, no 25.º ano de seu pontificado, publicou a Carta Apostólica sobre o Rosário — «Rosarium Virginis Mariae», dedicada especialmente ao Santo Rosário, convocando a Igreja para que o ano entre outubro de 2002 e outubro de 2003, fosse consagrado ao Rosário. Nesta carta, o Papa, também, propôs alterações no Rosário, acrescentando os Mistérios Luminosos, que refletem sobre a revelação do Reino de Deus já personificado em Jesus.

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© Adaptado por Laboratório da fé, 2013



Questões para reflexão

  • Vimos, ainda que de forma bastante sintética, o tratamento da LG dispensado a Maria. Como é que entendes o lugar de Maria na obra da Salvação? Porquê?
  • A crítica e, às vezes, o ataque direto contra o catolicismo fundamenta-se na alegação de que tratamos Maria como se fosse o próprio Deus? O que é que achas desta acusação?

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II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2013


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.8.13 | Sem comentários

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Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


Esta ficha, nomeada «Uma Igreja ministerial», aborda os capítulos III, IV e VI da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG), respetivamente, a «Constituição Hierárquica da Igreja», «Os Leigos», e «Os Religiosos». A partir da intenção do capítulo II – O Povo de Deus – estudado na ficha anterior, entende-se que a distribuição dos referidos capítulos foi metodológica, e que a Constituição não deseja distinguir uma Igreja clerical de outra laical, mas, sim, mostrar que é toda ministerial, distinguindo apenas as diferentes funções na forma de servir aos irmãos como ao próprio Senhor, pois, segundo o Evangelho, é maior aquele que mais serve (Lucas 22, 26), justificando o titulo da ficha.
No capítulo III, dedicado à «Constituição Hierárquica da Igreja», a LG busca a fundamentação bíblica e teológica para explicar o Sacramento da Ordem, realçando a função do episcopado (Bispos), pois, sobre a vida e o ministérios dos presbíteros (Sacerdotes), o Concílio dedica um documento próprio: o Decreto «Presbyterorum Ordinis».
Cristo instituiu a Igreja e os vários ministérios destinados ao bem do seu Corpo Místico como um todo. Instituiu em Pedro o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade de fé e comunhão, constituindo o Apóstolo como seu líder, enviando-o com os demais para cumprir a missão de evangelizar todos os povos até os confins da terra (LG 18). Missão que pode ser cumprida após o Pentecostes, ocasião em que o Espírito Santo distribuiu vários dons e carismas aos Apóstolos e discípulos e, ao longo do tempo, aos seus seguidores, os novos evangelizados (LG 19); e que continua até o fim dos séculos, pois a mensagem do Evangelho foi, é e será o princípio de toda a vida da Igreja, através dos tempos.
A distribuição de ministérios de serviços é narrada nos Atos dos Apóstolos (6, 2-6; 11, 30; 13, 1; 14, 23; 20, 17) mostrando a instituição dos graus da ordem: episcopado, presbiterato e diaconado. Assim, entende-se que, da mesma forma como Pedro presidia na Igreja nascente ao grupo dos Apóstolos, também a Igreja tem no Sumo Pontífice Romano, aquele que a preside como sucessor de Pedro e que está intimamente unido aos demais Bispos do mundo inteiro, formando o Colégio Episcopal. Na pessoa do Bispo, assistido pelos presbíteros e diáconos, é o próprio Senhor Jesus Cristo, o Pontífice Supremo, que está no meio dos fiéis e continua a caminhar com o seu povo (LG 20).
A missão do Bispo consiste em ensinar todas as pessoas e em pregar o Evangelho a toda criatura; em santificar através da administração dos sacramentos, principalmente da Sagrada Eucaristia; e também em governar através da ação pastoral e administrativa (LG 21-27), para as quais conta com a colaboração dos presbíteros e dos diáconos, a quem confia legitimamente o cargo do seu ministério pelo Sacramento da Ordem (LG 28/29).
Com o II Concílio do Vaticano, os Bispos aproximaram-se muito do povo e assumiram, explicitamente, a vida pastoral nas suas dioceses. Especialmente na América Latina, as Conferências Episcopais depois do Concílio deram um novo impulso pastoral, e no Brasil, igualmente, a CNBB empenhou-se em fortalecer a unidade episcopal e traçar linhas orientadoras da pastoral na Igreja. Significativo também foi a ação individual de alguns Bispos que se empenharam em implantar as orientações do Concilio e tornar a Igreja mais serva.
No capítulo IV, a LG dedica-se ao estado dos fiéis que são denominados leigos, homens e mulheres que se dispõem a assumir o ser Igreja em funções eclesiais e no mundo. O Documento deixa claro que, dos diversos ministérios da Igreja, boa parcela está destinada ao laicado, e explicita: «certas coisas dizem respeito de modo particular aos leigos, homens e mulheres, em razão da sua condição e da sua missão, em virtude das especiais circunstâncias do tempo atual». Os Bispos reconhecem que não foram instituídos para assumirem sozinhos toda a missão quanto à salvação do mundo, e o quanto os leigos, com suas atribuições e carismas, contribuem para o bem de toda a Igreja, de tal maneira que cada um, a seu modo, coopera unanimemente na tarefa comum (LG 30).
A LG cuidou de definir quem são os leigos para a Igreja: «os fiéis que, por haverem sido incorporados em Cristo pelo Batismo e constituídos em Povo de Deus, e por participarem a seu modo do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo, realizam na Igreja e no mundo, na parte que lhes compete, a missão de todo o povo cristão». De forma que, na diversidade dos ministérios, formam um só e único corpo (LG 31-34).
O apostolado do leigo dá-se no mundo secular, naqueles lugares em que a Igreja, só por meio deles, se pode fazer sal da terra. Consagrados a Cristo no Espírito Santo, possuem uma vocação admirável e são dotados de capacidade para que o Espírito produza neles frutos sempre mais abundantes, através do seu modo de vida e do seu testemunho nas estruturas humanas (LG 35-37). Pode-se ler nas entrelinhas da LG que a Igreja reconhece que, somente através dos leigos e leigas, será capaz de se renovar internamente e se efetivar como presença no mundo. E isso foi comprovado, pois, a aplicação do Concilio, no interior da Igreja, apesar de conduzida pelo clero, só foi possível graças à presença de leigos e leigas na maioria dos organismos pastorais.
O documento considerado mais significativo sobre a atuação dos leigos, publicado vinte anos após o II Concílio do Vaticano, em 30 de dezembro de 1988, é a Exortação Apostólica de João Paulo II, «Christifideles Laici» (CL) – «Os fiéis leigos» – sobre a vocação e missão na Igreja e no mundo, que realça a importância dos leigos na Igreja não como «agricultores que trabalham na vinha, mas como parte dessa mesma vinha: 'Eu sou a videira, vós os ramos', diz Jesus (João 15, 5)» (CL 8). Esta afirmação realça que a índole secular da vocação laical é teológica e não apenas sociológica, pois na presença do leigo ou leiga no mundo pode-se contemplar a presença da Igreja (LG 31). Refere, também, que a função do leigo no mundo é promover a dignidade da pessoa, venerar o inviolável direito à vida e lutar por uma sociedade livre para invocar o nome do Senhor (CL 37-40), e que o empenho para a existência de uma sociedade justa deve começar na família, na promoção da caridade através da solidariedade e na participação política; e coloca o ser humano no centro de todas as relações, como um desafio, principalmente as político-económicas e a evangelização das culturas (CL 40-44).
Na América Latina, as Conferências do CELAM deram grande destaque aos ministérios laicais e, especialmente, a Conferência de Puebla dedicou setenta e dois parágrafos para refletir sobre a presença do leigo e leiga na Igreja e no mundo. Destes, dezessete dissertaram sobre as mulheres, reconhecendo que são maioria nas comunidades, cuja presença tende a crescer. Uma realidade prática se comprova na maioria das CEB’s onde os leigos e, especialmente as mulheres, animam e assumem os mais diversos ministérios, ainda que não oficialmente.
No Brasil, por ocasião dos 10 anos da publicação da «Christifideles Laici», a CNBB lançou, em 1999, o Documento 62 – «Missão e Ministérios dos cristãos leigos e leigas», que pode ser visto como uma explicitação da Exortação Apostólica que, por sua vez, despertou a criação de Conselhos de Leigos em muitas dioceses e o desenvolvimento de belos trabalhos. Da mesma forma, o Documento de Aparecida, de 2007, ao insistir na grande missão latino-americana, abre um grande espaço para a participação dos leigos na Igreja e no mundo, sem os quais a missão dificilmente conseguirá avançar.
Um trecho da oração que encerra a CL, resume bem a importância do ministério dos leigos e leigas para a Igreja: «Ó Virgem santíssima, Mãe de Cristo e Mãe da Igreja, [...] Contigo damos graças a Deus, [...] pela maravilhosa vocação e pela multiforme missão dos fiéis leigos, que Deus chamou pelo seu nome para viverem em comunhão de amor e de santidade com Ele e para estarem fraternalmente unidos na grande família dos filhos de Deus, enviados a irradiar a luz de Cristo e a comunicar o fogo do Espírito, em todo o mundo, por meio da sua vida evangélica. Virgem do 'Magnificat', enche os seus corações de gratidão e de entusiasmo por essa vocação e para essa missão».
Quanto à participação ministerial dos religiosos na Igreja, o capítulo VI dedica-se a estes que vivem a consagração das suas vidas como um sinal do Reino de Deus através dos carismas das várias famílias religiosas. Esta consagração dá-se na renúncia das coisas do mundo, na prática constante da oração, na abnegação de si mesmo e na dedicação aos irmãos, entregando-se ao exercício constante das virtudes e dos conselhos evangélicos de castidade, obediência e pobreza (LG 43-47).

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Questões para reflexão

  • No teu entendimento, existe um real fundamento para a constituição da hierarquia da Igreja? 
  • Concordas com o sentido da expressão «leigo», com a sua definição, com a sua missão no mundo, estabelecidos na Constituição Dogmática sobre a Igreja?
  • Como entendes o apostolado dos leigos no mundo, nomeadamente quanto ao modo de ser, viver e agir?
  • Como achas que deve ser a presença do leigo no mundo e na Igreja?

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II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2013

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.6.13 | Sem comentários

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Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


O segundo capítulo da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG) é dedicado à definição da Igreja como «Povo de Deus», cuja noção básica reside no sacerdócio comum dos fiéis e já não exclusivamente na hierarquia. Nesta nova conceção eclesial destaca-se o aspeto teológico da Igreja no qual, sob a ótica da fé, todos são iguais, porém, com funções diferenciadas; e não só o aspeto jurídico que reconhece apenas o clero como Igreja.
Na eclesiologia, a nova conceção causou uma verdadeira revolução, pois o conceito dominante de Igreja, desde o Concílio de Trento como «sociedade perfeita e hierarquizada», passou para um modelo circular e aberto ao mundo, como Sacramento e instrumento de Deus que se entende na unidade com todo o género humano.
É de fundamental importância lembrar que o conceito de Povo de Deus inicia-se com Abraão que sai de Ur com destino à terra que Deus lhe indicou. E, a partir de Abraão, Deus escolhe Israel como seu povo, instruindo-o gradualmente, manifestando-Se, revelando-Se a Si mesmo e os desígnios da Sua vontade na História, e santificando aquele povo para Si; depois Deus, com Moisés e Josué, conduz o seu povo para a liberdade, para a Terra prometida, e é por causa deste Povo que Ele deixa de castigar Israel quando alguns pecaram. Tudo aconteceu como preparação e prefiguração da Nova e perfeita Aliança que seria selada em Cristo, Seu Filho Jesus, para redimir definitivamente o seu Povo, na plenitude dos tempos, entregando-Se em sacrifício perfeito para a salvação de toda a humanidade (LG 9).
Cristo, ao estabelecer esse novo pacto, formou com os judeus e com os gentios, um povo segundo o Espírito, constituindo assim, o novo Povo de Deus. Os que crêem em Cristo, renascidos no Batismo, constituem «a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo resgatado… considerado como Povo de Deus» (LG 9).
Embora diferentes, essencialmente entre si e não apenas em grau, o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial hierárquico ordenam-se um para o outro, mutuamente, pois ambos participam, cada qual a seu modo, do sacerdócio único de Cristo. Nos Sacramentos e na prática das virtudes, o povo de Deus exercita o sacerdócio comum de várias formas, de acordo com os seus dons e carismas, participando também da missão profética de Cristo, dando testemunho vivo d’Ele, especialmente pela vida de fé e caridade, oferecendo a Deus o sacrifício do louvor, fruto dos lábios que glorificam o Seu nome (LG 9).
«Cristo Senhor, Pontífice tomado de entre os homens, fez do novo povo um reino de sacerdotes para Deus, seu Pai». Pela regeneração e pela unção do Espírito Santo, os batizados consagram-se para ser edifício espiritual e sacerdócio santo, com a incumbência de ser testemunhas de Cristo e levar ao mundo a esperança que possuem na vida eterna (LG 10).
A LG indica que o senso da fé (consenso universal a respeito da fé e dos costumes) é construído pelo conjunto dos fiéis sustentado pelo Espírito Santo, pela palavra de Deus e sob a direção do Magistério. Este mesmo Espírito «distribui individualmente e a cada um, conforme entende, os seus dons» (1Coríntios 12-11) e as suas graças especiais aos fiéis de todas as classes, tornando-os aptos a assumirem os diversos encargos e ofícios úteis à renovação e maior incremento da Igreja. Assim, os ministérios leigos não decorrem da insuficiência de presbíteros, mas sim porque todos os batizados, em razão do sacerdócio comum, são ministros de Deus, responsáveis diretos também pela Igreja e pela evangelização. Não nos esqueçamos de que o termo «Igreja», na sua origem se refere à «assembleia dos escolhidos» e esta é a ideia que a LG retoma da Igreja primitiva (LG 12).
Todos os seres humanos são chamados a participar do novo Povo de Deus, dilatando-o até aos confins do mundo inteiro e em todos os tempos, para cumprir os desígnios de Deus, que decidiu congregar na unidade todos os seus filhos que andavam dispersos. Assim, Povo de Deus é estendido a todos os povos da terra, aos quais o Espírito Santo inspira o princípio da comunhão e da unidade. Por força desta universalidade, cada parte contribui com os seus dons peculiares para as demais e para toda a Igreja, de modo a crescerem pela comunicação mútua e pelo esforço comum em ordem, a fim de alcançarem a plenitude na unidade.
Este novo Povo de Deus não é específico dos fiéis católicos, mas estende-se aos irmãos cristãos não católicos, os quais veneram a Sagrada Escritura como norma de fé e de vida, e manifestam sincero zelo religioso; e estende-se também aos não cristãos que, embora não tenham recebido ainda o Evangelho, estão destinados, a fazer parte do Povo de Deus que se revela a toda humanidade de modos e formas diversas, os quais não nos é lícito questionar, mas sim aceitar e acolher, buscando a unidade na diversidade destas manifestações (LG 14, 15 e 16).
Na América Latina, especialmente na Conferência de Medellin (1968) e depois de Puebla (1979), a LG foi entusiasticamente recebida e não se pouparam esforços para a colocar em prática; empenho que se consolidou depois, nas outras Conferências. Mas é especialmente nas duas primeiras que se observa o acolhimento da conceção eclesiológica de «Igreja Povo de Deus». Ao laicado, de modo especial, dirigem-se as Conferências Latino-americanas, culminando com a Conferência de Aparecida (2007), exortando ao cumprimento da «Missão Continental». Não se pode deixar de citar, no sentido do protagonismo dos leigos, a Exortação Apostólica Pós-Sinodal sobre a vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo — «Christifidelis Laici», que nos amplia o horizonte de atuação do laicado.
A LG contribuiu para fortalecer as comunidades eclesiais de base (CEBs) que se reúnem nos mais diversos e distantes lugares, mesmo sem a presença dos presbíteros. Disso exigiu-se a formação dos chamados Ministérios Laicais no interior das comunidades e, especialmente, fora delas. Aos poucos, cresce a consciência de que a presença dos leigos no mundo é a presença da Igreja. Nesta perspectiva, a LG fornece a fundamentação teológica para a Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo — «Gaudium et Spes» (As alegrias e esperanças – sinais da Igreja no mundo), Esta constituição Pastoral não pode ser dissociada da LG.
O caráter missionário da Igreja, que surge da obediência ao mandamento de Cristo: «Ide, pois, ensinai todos os povos» (Marcos 16, 15) estende-se a todo o Povo de Deus; este assume, com Paulo, o múnus decorrente do sacerdócio real comum e do profetismo recebido no Batismo: «Ai de mim se eu não evangelizar!» (1Coríntios 9, 16). Cabe, portanto, ao Povo de Deus – clero, religiosos e leigos – assumir juntos e na Igreja, por força dos seus dons e carismas próprios, a missão de evangelizar e levar aos confins da terra a Boa Nova de Jesus, e construir, no aqui e agora do nosso tempo, o verdadeiro Reino de Paz e de Amor, o Reino dos Céus, o Reino de Deus que Jesus iniciou com a sua Vida, Paixão, Morte e Ressurreição (LG 17).

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Questões para reflexão

  • Na tua comunidade existem pessoas que conheceram a Igreja pré-conciliar? Existe alguma diferença entre a Igreja pré-conciliar e a atual Igreja como Povo de Deus?
  • No teu modo de ver e viver em Igreja, o novo conceito «Povo de Deus» provoca alguma coisa de positivo na vida comunitária?
  • O que se pode entender pelo conceito de «novo» Povo de Deus?

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II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2013


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.6.13 | Sem comentários

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Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


Sem sombra de dúvidas, a Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG) é um dos documentos mais importantes do II Concílio do Vaticano, pois trouxe aos leigos e leigas, e à própria Igreja enquanto instituição hierárquica – conhecida e respeitada no período pré-conciliar como uma «sociedade perfeita fora da qual não existe salvação» – uma nova imagem da Igreja como «Povo de Deus», formada por todos os batizados em Cristo, e com Ele transformados num Reino de sacerdotes para Deus. Sacerdotes, profetas e reis que, independentemente do sacerdócio comum ou do sacerdócio ministerial, participam do Sacerdócio único de Cristo (Hebreus 5, 1-10).
Pelo conteúdo e pelas profundas implicações para o futuro, a elaboração e a votação da LG foram um tanto conturbadas e muito discutidas. Ao texto inicial, elaborado em quatro capítulos, foram apresentadas cerca de quatro mil emendas, o que resultou na alteração para sete capítulos, originando a primeira Constituição Dogmática deste Concílio. O Frei e depois Bispo, Boaventura Kloppenburg, na Introdução Geral dos Documentos do Concílio afirma que, tal como a «Dei Verbum», a «Lumen Gentium» é dogmática porque «teve a intenção formal de ensinar, propor doutrinas e mesmo doutrinas novas». Com o texto consolidado, o documento foi aprovado e solenemente promulgado pelo Papa Paulo VI a 21 de dezembro de 1964; todavia, a novidade deste documento provocou, e provoca ainda hoje, uma certa dificuldade de aceitação dentro da própria Igreja.

A LG está dividida em 8 capítulos:
  • I – O Mistério da Igreja; 
  • II – O Povo de Deus; 
  • III – A Constituição Hierárquica da Igreja e em especial o Episcopado; 
  • IV – Os leigos; 
  • V – Vocação Universal à Santidade na Igreja; 
  • VI – Os Religiosos; 
  • VII – A Índole Escatológica da Igreja Peregrina e sua União com a Igreja Celeste; 
  • VIII – A Bem-Aventurada Virgem Maria Mãe de Deus no Mistério de Cristo e da Igreja. 

Neste estudo, os capítulos da «Lumen Gentium» serão tratados em cinco fichas assim nomeadas: O Mistério da Igreja; O Povo de Deus; Uma Igreja Ministerial; Vocação à santidade e índole escatológica da Igreja; A Bem-Aventurada Virgem.

O Mistério da Igreja
O primeiro capítulo da LG aborda o Mistério da Igreja, afirmando que «Cristo é a luz dos povos» cuja claridade resplandece na face de uma Igreja que se mostra em Cristo, ao mundo, como sacramento ou sinal, e também como instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano. «E, retomando os ensinamentos dos Concílios anteriores, deseja oferecer aos seus fiéis e a todo o mundo, um ensinamento mais preciso sobre a sua natureza e a sua missão universal» (LG 1). Ao expor que «as presentes condições do mundo tornam ainda mais urgente este dever da Igreja, a fim de que todos os seres humanos… alcancem também a unidade total em Cristo», a LG assume a necessidade de dialogar com a modernidade, com as demais confissões cristãs e com as religiões não cristãs.
Aborda também o plano divino para a salvação, pela bondade, sabedoria, e vontade livre e insondável do Pai Eterno ao criar o mundo, decidindo elevar os humanos à participação da sua vida divina, não os abandonando quando pecaram em Adão, mas proporcionando-lhes sempre os auxílios necessários para se salvarem, na perspetiva de Cristo Redentor, Aquele que cumprindo a vontade do Pai Eterno em plena obediência aos seus desígnios, instaurou na Terra o Reino dos Céus cujo mistério nos revelou e consumou a redenção resgatando o género humano, oferecendo a salvação (LG 2).
A Igreja, ou seja, o Reino de Cristo, já presente em mistério, cresce visivelmente no mundo pelo poder de Deus. Ela é parte do plano de salvação de Deus. Ela não é nossa, é de Deus. A sua missão é ser o lugar, o espaço, a comunidade onde a humanidade pode encontrar Deus em Jesus Cristo e ser santificada no seu Espírito Santo. Por isso, a Igreja, preparada pelo Pai, fundada pelo Filho e continuamente santificada pelo Espírito, é semente do Reino de Deus que nela já atua misteriosamente. É nela que se experimenta, de modo mais intenso, o Reino trazido por Jesus!
O início e o crescimento da Igreja são expressos no sangue e na água que brotaram do lado aberto de Jesus crucificado (João 19, 34), e anunciados nas palavras do Senhor acerca da Sua morte na cruz: «Quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a mim» (João 12, 32). Sempre que no altar se celebra o sacrifício da cruz, no qual «Cristo, nossa Páscoa, foi imolado» (1Coríntios 5,7), realiza-se também a obra da nossa redenção. Pelo Sacramento do Pão Eucarístico, ao mesmo tempo, é representada e realizada a unidade dos fiéis, que «constituem um só corpo em Cristo» (1Coríntios 10, 17). Todos os seres humanos são chamados a esta união com Cristo, luz do mundo, do qual vimos, por quem vivemos, e para o qual caminhamos (LG 3).
Consumada a obra confiada ao Filho, Deus envia o Espírito Santo para santificar a Igreja que nascia, para assim dar acesso aos crentes até ao Pai, por Cristo, num só Espírito. Pelo Espírito da vida, fonte que jorra para a vida eterna, o Pai dá vida aos humanos mortos pelo pecado, até que um dia ressuscitem em Cristo os seus corpos mortais. Este Espírito que habita na Igreja e no coração dos fiéis, como num templo, leva a Igreja ao conhecimento da verdade total, unificando-a na comunhão e no mistério, dotando-a e dirigindo-a com os diversos dons hierárquicos e carismáticos, embelezando-a com os seus frutos e rejuvenescendo-a com a força do Evangelho (LG 4). Enriquecida pelos dons do seu Fundador, a Igreja recebe a missão de anunciar e estabelecer em todos os povos, o Reino de Cristo e de Deus, constituindo-se, ela mesma, na Terra, a semente e o início deste Reino.
O mistério da Santa Igreja manifesta-se na sua fundação. O Senhor Jesus deu início à Sua Igreja pregando a Boa Nova do advento do Reino de Deus prometido desde há séculos nas Escrituras: «cumpriu-se o tempo, o Reino de Deus está próximo» (Marcos 1,15; Mateus 4,17). Este Reino manifesta-se na palavra, nas obras e na presença de Cristo (LG 5).
A Igreja dá-nos a conhecer a sua natureza íntima, servindo-se das várias imagens vislumbradas na Sagrada Escritura: como redil, cuja única e necessária porta é Cristo (João 10, 1-10); como rebanho, do qual o próprio Deus é Pastor em Cristo (João 10, 11; 1Pedro 5, 4); como lavoura ou campo de Deus (1Coríntios 3, 9), onde cresce a oliveira antiga, cuja raiz santa são os patriarcas e da qual se obteve e se completará a reconciliação dos judeus e dos gentios (Romanos 11, 13-26); como construção de Deus (1Coríntios 3, 9), na qual Cristo se comparou à pedra que os construtores rejeitaram e que se tornou a pedra angular (Mateus 21, 42); e, ainda, como Jerusalém celeste e Nossa Mãe (Gálatas 4, 26) descrita no Livro do Apocalipse (19, 7; 21, 2.9; 22, 17) como a «Esposa Imaculada» do «Cordeiro Imaculado» (LG 6).
Refere-se, ainda, como Corpo Místico de Cristo (1Coríntios 12, 13) cuja Cabeça é o próprio Cristo e cujos membros são os seus filhos configurados com Cristo pelo Batismo, formando o corpo da Igreja. Entre os membros existe a diversidade de funções, e esta diferença provém dos dons do Espírito Santo que os distribui conforme as necessidades da Igreja para formarem um corpo único, assim como o corpo humano, cujos membros se devem conformar com a Cabeça, que é o Cristo Senhor, imagem do Deus invisível (LG 7).
Cristo como único mediador, constitui e sustenta indefectivelmente [que não pode falhar ou deixar de ser; apoio indefectível; certo, infalível] a sua Igreja Santa sobre a terra, como organismo visível, comunidade de fé, de esperança e de amor e, por meio dela, comunica a todos a verdade e a graça (presença de Deus nos seres humanos). No entanto, esta Igreja é uma sociedade dotada de órgãos hierárquicos, além de ser também o corpo místico de Cristo; é uma assembleia visível e uma comunidade espiritual. A Igreja terrestre e a Igreja ornada com os dons celestes não devem ser consideradas como duas entidades, mas como uma única realidade complexa, formada pelo duplo elemento humano e divino. É, portanto, ao mesmo tempo uma Igreja visível e espiritual, que continua seu peregrinar entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus, anunciando a cruz e a morte do Senhor, até que Ele venha e se manifeste em luz total no final dos tempos (LG 8).

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Questões para reflexão

  • Sendo Jesus Cristo a «Luz dos povos», em que perspetiva é que a Igreja também pode ser chamada «luz dos povos»?
  • Partindo do pressuposto que a «Lumen Gentium» proporcionou uma nova visão da Igreja e do seu relacionamento com o mundo, parece-te importante ou necessário que seja conhecida, difundida e estudada? Após este estudo sobre a Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium», o que destacas de importante para a vida dos fiéis e da Igreja
  • Das várias imagens da Igreja que a «Lumen Gentium» apresenta, para ti, qual delas é a que a melhor a identifica? Acrescentarias alguma outra imagem para apresentar a Igreja?

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II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2013

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.6.13 | Sem comentários

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No dia 25 de Janeiro de 1959, o beato papa João XXIII (1886-1963) surpreendeu o mundo e toda a Igreja com o anúncio e a convocação do vigésimo primeiro Concílio Ecuménico, conhecido como Vaticano II ou II Concílio do Vaticano, porque se acreditava que o seu pontificado seria breve, de transição. Mas, ao contrário do que se pensava, ele convocou o Concílio porque teve a lucidez do momento histórico que atravessava a Igreja e o mundo. Ele quis realizar um Concílio para que a Igreja se atualizasse e instaurasse um diálogo pleno de esperança com a toda humanidade. Prova isso, a expressão «homens de boa vontade» que ele, constantemente, usou para demonstrar a sua abertura para com todos os que acreditavam na construção de um mundo melhor.
A partir do momento em que o Papa manifestou a um grupo de cardeais a ideia de realizar um Concílio, pode-se dizer que começou a ser preparado, embora tenha sido convocado somente em 25 de dezembro de 1961 e iniciado em outubro do ano seguinte. Neste período, foram criadas várias comissões com a finalidade de sugerir temas para serem discutidos.

Etapas e documentos

O II Concílio do Vaticano teve início a 11 de outubro de 1962 e conclusão a 08 de dezembro de 1965, e foi realizado através de quatro sessões que aconteceram sempre entre os meses de setembro a dezembro desses anos. O beato papa João XXIII participou apenas na primeira sessão, pois morreu em 3 de junho de 1963. Paulo VI tornou-se papa a 21 de junho de 1963 e convocou, para setembro do mesmo ano, a segunda sessão, tendo participado também nas sessões seguintes e na conclusão do Concílio que definiu 16 documentos: quatro Constituições, nove Decretos e três Declarações.

As quatro Constituições são:
  • Lumen Gentium (LG) (21-11-1964) – sobre a natureza da Igreja e a sua missão universal;
  • Dei Verbum (DV) (18-11-1965) – sobre a Revelação Divina e a sua transmissão;
  • Gaudium et Spes (GS) (07-12-1965) – sobre a Igreja no mundo de hoje;
  • Sacrosanctum Concilium (SC) (04-12-1963) – sobre a Liturgia e os Sacramentos.
Os nove Decretos são:
As três Declarações são: 
  • Gravissimum Educationis (GE) (28-11-1965) – sobre a educação cristã; 
  • Dignitatis Humanae (DH) (07-12-1965) – sobre a liberdade religiosa e sobre os direitos da pessoa humana;
  • Nostra Aetate (NE) (28-10-1965) – sobre as relações da Igreja com as religiões não cristãs.

Objetivos e linhas de ação

O Concílio teve como linhas mestras a atualização («aggiornamento»), o diálogo (comunhão – corresponsabilidade, participação) e a renovação (diaconia, serviço) como um novo modo de estar presente no mundo. Procurou promover o diálogo e a unidade de todos os cristãos, e a paz no mundo, além da valorização dos leigos. O seu ponto referencial foi Jesus Cristo, Profeta, Sacerdote e Pastor, que serviu como modelo da ação pastoral e evangelizadora da Igreja no mundo. Por desejo expresso do beato papa João XXIII foram convidadas as Igrejas separadas de Roma: Anglicana, Igrejas Alemãs, Escocesas e Orientais, das quais muitas responderam positivamente. Além disso, contou com a presença de alguns cristãos leigos como observadores e, sem sombra de dúvidas, foi o primeiro Concílio a receber tão numerosa participação de Igrejas e seus representantes, além dos leigos.
Sem mudar as verdades da fé, o Concílio promoveu uma renovação da Igreja. Convidou os fiéis a olharem para o cristianismo a partir da sua origem, e a deixarem de lado práticas menos importantes adquiridas ao longo de uma caminhada de vinte séculos. O Concílio resgatou a centralidade cristológica da fé, especialmente na Liturgia, para que o sentido pascal se tornasse mais evidente, e incentivou que as celebrações fossem mais voltadas para a realidade do povo, mais participativa e comunitária. Porém, o mais importante foi a noção de Igreja apresentada como Povo de Deus, isto é, a Igreja formada pelo conjunto dos batizados e não apenas pelo clero. Recupera-se o sentido do ministério eclesial como serviço à comunidade que deve ser exercido através do diálogo e da valorização de todos os seus membros.
Idealizou-se uma Igreja menos jurídica e menos moralista, para ser mais profética e mais centrada na Bíblia que passou a ser mais lida, mais estudada, mais conhecida, destacando-se como fonte da pregação e da vivência cristã. Além disso, valorizou-se o sentido do serviço e da corresponsabilidade.

Nova etapa na vida da Igreja

O II Concílio do Vaticano foi sem dúvida, para a Igreja Católica, o maior acontecimento do século XX, inaugurando um novo período de sua milenar História. Emergiu como o separador de águas, fundamental para a Igreja, dando origem a um processo de abertura, renovação e participação que foi determinante para as dioceses do mundo inteiro. Especialmente, na América Latina o episcopado conseguiu, ao longo desses cinquenta anos, criar um magistério próprio, manifestado nas quatro últimas Conferências do Episcopado Latino Americano (CELAM), sendo elas: Conferência de Medellín (1968),Conferência de Puebla (1978), Conferência de Santo Domingo (1992) e Conferência de Aparecida (2007). Como consequência do II Concílio do Vaticano, a Igreja da América Latina ganhou uma fisionomia própria a partir da Conferência de Medellín, que procurou interpretar o Concílio para a Igreja da América Latina, dando um salto qualitativo pela explícita opção pelos pobres e lançando sementes de uma Igreja mais popular, como as Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s).
As CEB’s revelam uma Igreja mais comunitária, mais fundamentada na Bíblia, através dos círculos bíblicos que multiplicam a experiência de pequenas células no interior da Igreja. Muitos destes grupos passam a se dedicar à Pastoral Social, aos movimentos de luta e às reivindicações populares. Com tudo isso, a Igreja da América Latina definiu uma identidade eclesial que é fruto da conceção de Igreja como Povo de Deus.
A interpretação libertadora do II Concílio do Vaticano fez história na América Latina em termos de Teologia, de estruturas de Igreja e de práticas pastorais. Surgiu, neste momento, uma Teologia Latino-Americana que recebeu o nome de Teologia da Libertação porque desejou dialogar com outras instituições e pensadores do campo social e político que, igualmente, desejavam contribuir para a libertação de todas as injustiças, e propunha que o pobre assumisse o ser sujeito da história para mudar a sociedade.
Diz-se que o II Concílio do Vaticano abriu as portas da Igreja para o mundo e permitiu que o Espírito Santo renovasse todo o seu interior pelo diálogo e pelo acolhimento do mundo moderno. Um Espírito de renovação e de acolhimento, que continua a soprar ao seu Povo, como uma brisa por toda a Igreja, dentro e fora das suas portas, marcando a vida e a vocação missionária de toda a Santa Igreja, formada de homens santos e pecadores, mas que busca incansavelmente, a santidade e o Reino de Deus.
Assim, os documentos que compõem o II Concílio do Vaticano falam-nos do Espírito Santo que é livre e sopra onde quer, razão máxima da importância desse evento histórico do século XX, que continua a fazer história no século XXI. Nestes cinquenta anos das suas propostas e disposições, ainda se procura a concretização e o justo entendimento em toda a Igreja, pois o Espírito Santo não para de soprar até que se complete toda a Obra do Pai da Misericórdia. Daí a suma importância do estudo e compreensão dos documentos do II Concílio do Vaticano por todo o Povo de Deus.

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Questões para reflexão

  • O que foi o II Concílio do Vaticano e qual o seu significado para a Igreja atual?
  • Como é que a Igreja é chamada a dialogar com o mundo de hoje?
  • Como anunciar e viver o Evangelho no mundo de hoje?
  • O II Concílio do Vaticano marcou e continua a marcar a vida eclesial?
  • Como é que a Igreja pode ser presença divina e salvífica num mundo em permanente mudança?

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II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2013

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.6.13 | Sem comentários

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A palavra «Concílio» significa uma assembleia reunida por convocação e, na Igreja, um concílio sempre teve como objetivo discutir, definir e deliberar sobre questões de doutrina, de fé, de pastoral e de costumes. Antes do século XIX, os concílios eram convocados pelos imperadores; só a partir do I Concílio do Vaticano é que passam a ser uma reunião dos bispos convocados pelo Papa.
O texto dos Atos dos Apóstolos (15, 6-35), que narra o encontro dos apóstolos reunidos em Jerusalém, onde discutiram a questão da disciplina a ser aplicada aos judeo-cristãos e aos pagãos convertidos à fé cristã, pode ter sido a inspiração para a realização dos concílios. Segundo este texto bíblico, depois de apresentada a questão, discutiram, e depois rezaram invocando o Espírito Santo que suscitou o que eles deviam fazer; e todos acataram a decisão como vontade de Deus. Apesar deste encontro ser chamado de «Concílio de Jerusalém», verdadeiramente não pode ser considerado um concílio, pois esta nomenclatura só passou a existir depois do Concílio de Niceia, no ano 325, o primeiro Concílio da Igreja.

Concílios Ecuménicos

Ao longo do tempo, até aos dias de hoje, a Igreja Católica realizou vinte e um Concílios Ecuménicos (Ecuménico, no sentido de universal ou global, com representantes da Igreja presente em diferentes lugares; ecuménico também quanto à doutrina e costumes eclesiásticos aceite como norma para toda a Igreja Católica).
Uma pergunta interessante e curiosa é: Por que aconteceram tantos Concílios?
A Igreja possui duas naturezas: a divina e a humana. Enquanto instituição terrena, é envolvida pelo tempo e pelo espaço; e é conduzida por ser humanos que, embora atuem em nome de Deus, são humanos que pela unção do Espírito Santo, procuram acertar. Ao longo da História, para cumprir a sua ação evangelizadora, a Igreja procura fazer-se presente no mundo e, com a sua experiência, contribuir para a construção da sociedade. Isto implica constantes adaptações no seu modo de ser e de agir pastoralmente, o que, consequentemente, exige novas formulações doutrinais, marcando a sua história e, inclusive, a história do ocidente. Por outro lado, sob a ótica da fé, a existência de vinte e um Concílios demonstra a força do Espírito Santo que suscitou novos modos de interpretar as verdades da Revelação, para que a Igreja de Cristo continue presente no mundo.
As decisões de todos os Concílios foram incorporadas na vida da Igreja, e fazem parte do «depósito da fé», que é preservado pelo Magistério da Igreja. Os estudos dos concílios mostram que certas questões que num determinado tempo provocaram grandes discussões, hoje são pacíficas, como por exemplo, a questão se Jesus de Nazaré era humano ou divino. É difícil imaginar como isso inflamou os ânimos dos participantes do primeiro Concílio de Niceia! Na fé, a Igreja reunida no primeiro Concílio da História definiu a consubstancialidade de Jesus, isto é, reconheceu, simultaneamente, a humanidade e a divindade de Jesus Cristo.
Um Concílio não nasce da noite para o dia. Todos foram convocados depois de um longo período de reflexão e, até mesmo, de resistência da Igreja às novas interpelações da sociedade. O Magistério da Igreja, exercido pelos bispos, é responsável pela conservação da doutrina cristã e, justamente por isso, a convocação de um Concílio acontece para tentar impedir que as mudanças sociais modifiquem o modo de pensar e agir dos cristãos.
Os dois últimos concílios que precederam o II do Vaticano — Concílio de Trento (século XVI) e I do Vaticano (século XIX) — demonstraram a reação da Igreja perante as diversas questões colocadas pela sociedade moderna. O Concílio de Trento foi mais uma resposta da Igreja às questões de fé, especialmente sobre os sacramentos e a pastoral; enquanto que o I Concílio do Vaticano versou sobre a autoridade da Igreja, posicionando-se contra o liberalismo económico e político, os progressos científicos etc. Apesar disso, algumas nações europeias adotaram regimes políticos republicanos e aboliram o Catolicismo como religião oficial do Estado. No início do século XX, mais preocupada com os seus problemas, a Igreja não foi capaz de perceber as mudanças sociais causadas pelo capitalismo, que acabaram por desencadear as duas guerras mundiais, nas quais alguns países cristãos se destruíram mutuamente. Nas vésperas do II Concílio do Vaticano, muitos constatavam que a Igreja precisava de se renovar, pois o zelo exagerado pela disciplina eclesiástica, pelas normas canónicas e ritualistas estava a comprometer a sua missão no mundo.

Movimentos renovadores

Paradoxalmente, ainda no século XIX, assistiu-se a uma tímida mas significativa abertura, que alimentou as esperanças de novas perspectivas teológicas e eclesiais, com o papa Leão XIII (1810-1903), que incentivou a pesquisa e o estudo dos textos originais da Bíblia – em hebraico, aramaico e grego – e os textos patrísticos, também chamados textos dos Padres da Igreja. Com isso, logo no início da primeira metade do século XX, surgiram vários movimentos que podem ser vistos como causas remotas do II Concílio do Vaticano. O estudo da Bíblia deu origem ao Movimento Bíblico, que rompeu com a rigidez de um único sentido literal dos textos bíblicos, trazendo avanços na compreensão da inspiração e da interpretação dos textos. O estudo dos textos patrísticos deu origem ao Movimento Litúrgico que procurou valorizar a liturgia dos primeiros tempos, profundamente cristológica (Cristo é o centro), e essencialmente mistagógica, isto é, catequética e espiritual, orientada para o mistério de Cristo. Esta atitude denunciava a rigidez e a formalidade da liturgia da época. Paralelamente a estes dois movimentos, surge o Movimento Teológico, como tentativa de refletir teologicamente sobre as experiências do homem moderno perante os avanços da Ciência, da História, da Literatura e da Filosofia, que foram sempre negados pela Igreja. Este Movimento idealizou uma teologia que propiciasse uma moderna compreensão global da existência, da transcendência e do espiritual.
Desde o início do século XX, houve também grandes esforços dos Movimentos Ecuménicos, principalmente entre os protestantes que cada vez mais questionavam a Igreja Católica, de tal forma que, timidamente, dentro da Igreja começam a aparecer simpatizantes da causa, até que em 1960 foi criado o Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos que, depois do II Concílio do Vaticano, tornou-se no Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos. A partir destes movimentos, o termo «ecuménico» passou a ter o significado pelo qual o entendemos atualmente: movimento entre diversas denominações cristãs na procura do diálogo e cooperação comum, para superar as divergências históricas e culturais a partir de uma reconciliação cristã que aceite a diversidade entre as Igrejas.
Ao ser confrontada com o crescente fenómeno da urbanização e da secularização, a Igreja também sofreu mudanças. Até então, a pastoral orientava-se, sobretudo, para o meio rural e agrário; os novos desafios da cidade encontraram um clero impreparado. Em relação ao mundo operário, a Igreja, por meio do papa Leão XIII, ao procurar dar respostas às questões sociais, principalmente ao mundo do trabalho, abriu espaço para o chamado Movimento Social, que recentemente foi identificado com a origem da Doutrina Social da Igreja. Por fim, a Instituição foi percebendo que nos muitos espaços do mundo moderno, aos quais a Igreja não tinha acesso, havia leigos cristãos. É neste contexto, portanto, que surge a Ação Católica como um dos mais importantes Movimentos de Leigos na História da Igreja. Ela tinha como projeto cristianizar a vida pública, através dos leigos orientados pelo clero; e era vista como um «exército» pacífico ao serviço de Cristo Rei, na implantação do seu Reino.
Todos estes Movimentos trouxeram a questão da modernidade para dentro da Igreja, como desafios que emergiram para que saísse de uma suposta estabilidade conservadora e abrisse espaços para um diálogo com o mundo moderno. Assim, na segunda metade do século XX, não restava outra alternativa às Igrejas cristãs, a não ser assumir a necessidade de mudanças internas. Estes diversos fatores influenciaram na convocação e na orientação do II Concílio do Vaticano, que possibilitou uma modernização eficaz da Instituição, com a finalidade de tornar viva e atual a mensagem de esperança do Evangelho, para atender melhor às exigências dos novos tempos.

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Questões para reflexão

  • O que é que não sabias sobre os Concílios e que mais te chamou a atenção?
  • Acreditas na importância dos leigos conhecerem mais e melhor a História da Igreja?
  • Como entendes a atuação (acolhimento ou resistência) da Igreja face ao mundo?
  • Que importância tem o estudo dos Concílios para a prática pastoral?

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II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.6.13 | 2 comentários
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