Anunciar a alegria da fé! [8]


O segundo «aspeto fundamental» que, de acordo com o Documento de Aparecida (DAp), marca o caminho na formação do discípulo missionário é a conversão. Este é uma consequência direta do primeiro: o encontro pessoal com Jesus Cristo (cf. tema 7). «Em nossa Igreja devemos oferecer a todos os nossos fiéis um ‘encontro pessoal com Jesus Cristo’, uma experiência religiosa profunda e intensa, um anúncio ‘querigmático’ e o testemunho pessoal dos evangelizadores, que leve a uma conversão pessoal e a uma mudança de vida integral» (DAp 226).

Conversão

A conversão é entrar num caminho «que não pode deixar as coisas como estão» (EG 25). Esta mudança não se propõe como uma vergonha, algo a esconder, mas como um desafio a reconhecer o desajuste entre a graça divina e as nossas opções humanas. Tal como o encontro com Jesus Cristo, que o Papa convida a renovar diariamente (cf. EG 3), a conversão é um processo contínuo que há de ser proposto a todos. Neste «todos» estão, por exemplo, aqueles e aquelas que «‘não vivem as exigências do Batismo’, não sentem uma pertença cordial à Igreja e já não experimentam a consolação da fé. Mãe sempre solícita, a Igreja esforça-se para que elas vivam uma conversão que lhes restitua a alegria da fé e o desejo de se comprometerem com o Evangelho. (EG 14). Os bispos da América Latina e do Caribe explicitam assim este aspeto essencial na formação do discípulo missionário: «É a resposta inicial de quem escutou o Senhor com admiração, crê nEle pela ação do Espírito, decide ser seu amigo e ir após Ele, mudando sua forma de pensar e de viver, aceitando a cruz de Cristo, consciente de que morrer para o pecado é alcançar a vida. No Batismo e no sacramento da Reconciliação se atualiza para nós a redenção de Cristo» (DAp 278).

Escuta

Em primeiro lugar, diz-se que a conversão «é a resposta inicial de quem escutou o Senhor». Por isso, torna-se «necessário propor aos fiéis a Palavra de Deus como dom do Pai para o encontro com Jesus Cristo vivo, caminho de ‘autêntica conversão e de renovada comunhão e solidariedade’» (DAp 248). É a escuta do Senhor Jesus Cristo, a Palavra de Deus Pai descida ao coração do crente, que conduz à fé, que proporciona o acreditar. «Uma vez escutada, a palavra de Cristo, pelo seu próprio dinamismo, transforma-se em resposta no cristão, tornando-se ela mesma palavra pronunciada, confissão de fé. [...] São Paulo usará uma fórmula que se tornou clássica: ‘fides ex auditu’ — ‘a fé vem da escuta’ ( Romanos 10, 17)» (Francisco, Carta Encíclica sobre a fé — «Lumen Fidei» [LF], 22.29). Mas o encontro não acontece apenas pela escuta da Palavra; também há (ou tem de haver) outros «encontros». Então, «levanta-se a mesma pergunta cheia de expectativa: “Mestre, onde vives?” (João 1,38), onde te encontramos de maneira adequada para ‘abrir um autêntico processo de conversão, comunhão e solidariedade?’. Quais são os lugares, as pessoas, os dons que nos falam de ti, que nos colocam em comunhão contigo e nos permitem ser discípulos e missionários teus?» (DAp 245).

Iniciação Cristã

«Sentimos a urgência de desenvolver em nossas comunidades um processo de iniciação na vida cristã que comece pelo ‘querigma’ e que, guiado pela Palavra de Deus, conduza a um encontro pessoal, cada vez maior, com Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito homem, experimentado como plenitude da humanidade e que leve à conversão, ao seguimento em uma comunidade eclesial e a um amadurecimento de fé na prática dos sacramentos, do serviço e da missão» (DAp 289).

Reconciliação

No processo de conversão refere-se também a importância do Sacramento da Reconciliação. Este potencia «a conversão que todos necessitamos para combater o pecado que nos faz incoerentes com os compromissos batismais» (DAp 175).

Sociedade

«A conversão pessoal desperta a capacidade de submeter tudo ao serviço da instauração do Reino da vida» (DAp 366). De facto, «já não se pode afirmar que a religião deve limitar-se ao âmbito privado e serve apenas para preparar as almas para o céu. Sabemos que Deus deseja a felicidade dos seus filhos também nesta terra, embora estejam chamados à plenitude eterna, porque Ele criou todas as coisas ‘para nosso usufruto’ (1Timóteo 6, 17), para que ‘todos’ possam usufruir delas. Por isso, a conversão cristã exige rever ‘especialmente tudo o que diz respeito à ordem social e consecução do bem comum’» (EG 182).

Quero ser discípulo missionário da alegria do Evangelho? Que estilo de vida quero assumir? Estou disposto a viver em estado de conversão?

© Laboratório da fé, 2015 












Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.11.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO PRIMEIRO DE ADVENTO


Tempo de Advento: a palavra de Deus, no início deste ano litúrgico (Ano C), prepara os nossos corações para a vinda de Jesus Cristo. O primeiro domingo de Advento marca o início de um itinerário: não é apenas para celebrar o nascimento dum bebé, num presépio; também não é para nos meter medo com um final do mundo cheio de sinais extraordinários (evangelho). É para estar vigilantes. Esta é a mais bela atitude dos cristãos, a atitude de quem ama o seu Senhor e vigia enquanto aguarda o seu regresso. Para que nos encontre a progredir na santidade (segunda leitura), nos caminhos de Deus (salmo). Outrora, o primeiro Natal foi um sinal para Israel (primeira leitura). Hoje, a nossa esperança confirma a concretização da promessa.

«Farei germinar para David um rebento»
Com a chegada do Advento, a Liturgia da Palavra faz-nos tomar consciência de que a graça de Deus torna-se presente para nos oferecer novas oportunidades de libertação e de plenitude: Deus dispõe-se sempre a fazer coisas novas, a tomar novas iniciativas na vida das mulheres e dos homens de cada tempo.
Num momento de grande comoção na história do povo bíblico, a Cidade Santa de Jerusalém foi destruída pelos babilónicos e a população foi deportada; ruiu a dinastia de David. Então, o profeta Jeremias, em nome de Deus, anuncia que as coisas vão mudar: «Dias virão, em que cumprirei a promessa que fiz… farei germinar para David um rebento… o reino de Judá será salvo e Jerusalém viverá em segurança».
A notícia jubilosa consiste em fazer reviver a casa de David. A imagem é de uma árvore da qual, inesperadamente, brotará um rebento. E esse rebento será o cumprimento da promessa: fazer reviver a casa de David que tinha sido extinta pela força das armas poderosas do império da Babilónia. Esta imagem leva-nos a contemplar uma vida que brota de forma inesperada, após a queda da árvore. À chegada deste novo membro da família de David, o país «será salvo» e a cidade «viverá em segurança». A obra deste novo rei será fruto da ação do próprio Deus de Israel, por isso receberá este nome: «O Senhor é a nossa justiça».

O Advento traz alegria ao coração das pessoas fiéis porque é o tempo que, de forma especial, torna presente a vinda do Filho de Deus. O amor de Deus encontra o cumprimento desejado na salvação das pessoas, na sua presença na vida do povo. O tempo de dor e de desgraça acaba quando se concretiza na história o anúncio profético: «farei germinar para David um rebento». De facto, o Advento é sempre caracterizado pela espera e pela esperança. Deus continua a vir até nós; e fá-lo sempre, como sublinha o papa Francisco, em chave de misericórdia. Vivemos momentos difíceis?! Mas sabemos que continuamos nas mãos de Deus misericordioso que se fez um de nós para nos perdoar e salvar. A misericórdia é uma boa atitude para alimentar a nossa pequena esperança, «essa menina, que arrasta tudo consigo» — como bem dizia o escritor francês Charles Péguy. «É ela que faz andar o mundo inteiro». Não renunciemos à esperança!

© Laboratório da fé, 2015



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.11.15 | Sem comentários

ORAÇÃO DIÁRIA A PARTIR DO EVANGELHO

29 DE NOVEMBRO DE 2015


Evangelho segundo Lucas 21, 25-28.34-36

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas e, na terra, angústia entre as nações, aterradas com o rugido e a agitação do mar. Os homens morrerão de pavor, na expectativa do que vai suceder ao universo, pois as forças celestes serão abaladas. Então, hão-de ver o Filho do homem vir numa nuvem, com grande poder e glória. Quando estas coisas começarem a acontecer, erguei-vos e levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima. Tende cuidado convosco, não suceda que os vossos corações se tornem pesados pela intemperança, a embriaguez e as preocupações da vida, e esse dia não vos surpreenda subitamente como uma armadilha, pois ele atingirá todos os que habitam a face da terra. Portanto, vigiai e orai em todo o tempo, para que possais livrar-vos de tudo o que vai acontecer e comparecer diante do Filho do homem».



Segunda, 23: VIR

No próximo domingo, entramos no tempo de Advento. O que é o Advento? No evangelho, Jesus lembra-nos: «Hão de ver o Filho do homem vir…». O Advento é o tempo em que Jesus Cristo nos fala da sua vinda, seja do seu nascimento em Belém, seja da sua presença em nós ou da sua vinda constante ao nosso coração, ou ainda do seu regresso no final dos tempos! Jesus Cristo não é um homem do passado. É um homem que vem ao nosso encontro, hoje. Ele vem fazer história connosco, comigo. Por isso, tenho de me preparar. Vem, Senhor Jesus!



Terça, 24: SER ABALADO

Para falar da sua vinda, Jesus menciona sinais grandiosos no céu, no mar, na terra. Tudo é abalado. Haverá melhor forma de significar o desabar do mundo antigo com a vinda de Jesus Cristo? Com ele, o mundo avança para uma nova era. Com ele, sou levado/a a entrar na novidade de Deus. Isto mete-me medo? Vem, Senhor Jesus!



Quarta, 25: ESPERAR

Se é certo que Jesus virá a nós «com grande poder e glória», se o mundo que conhecemos será abalado, o que é que podemos fazer? Esperar. Esperar sem receio do que poderá acontecer. Mas esperar com um grande desejo de ver o Senhor vir ao mundo, à nossa história, à minha vida. Esperar aquilo que desejo na profundidade do meu ser: uma nova terra onde reinará a justiça e a paz. Esperar um mundo em que todos os pobres sejam saciados. Esperar um Reino no qual o sofrimento e os medos deixarão de existir. Esperar… Na minha oração, posso confiar a Deus aquilo em que espero realmente. Vem, Senhor Jesus!



Quinta, 26: ERGUER-SE

Jesus não esconde que os seres humanos morrerão de medo quando tudo isso acontecer. A novidade, a irrupção dum novo mundo, não vai alegrar espontaneamente toda a gente. E como estarão os discípulos de Jesus Cristo? «Quando estas coisas começarem a acontecer, erguei-vos e levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima». Com medo? Não. Com confiança? Sim, e com a posturar erguida, de cabeça levantada e não de cabeça baixa. É a posição dos ressuscitados, dos salvos, dos que entram na vida nova. Por isso, hoje, rezo de pé, bem erguido, olhando o futuro de frente. Vem, Senhor Jesus!



Sexta, 27: TORNAR-SE PESADO

Jesus sabe que a espera pode ser longa. O nosso coração, cansado de esperar a vinda de Jesus Cristo, pode tornar-se pesado. Com o tempo, as «preocupações da vida» podem impor-se e distrair-nos da atitude correta para esperar e receber Jesus Cristo quando ele vier. Aliviar o coração, recentrar as preocupações é uma bela maneira de se preparar para o Natal. Vou fazê-lo? Vem, Senhor Jesus!



Sábado, 28: PERMANECER VIGILANTES

Como lutar contra o que nos desanima e nos distrai da espera daquele que amamos? Como combater os fardos da vida que com o seu peso nos fazem cair? Como fazer face à falta de esperança que, às vezes, nos faz curvar a coluna? Jesus não propõe soluções milagrosas, mas apela à nossa liberdade. Ele procura suscitar em nós um suplemento de liberdade convidando-nos a duas atitudes muito concretas. Antes de mais, pernanecer vigilantes. Por conseguinte, afastar de mim tudo o que anestesia a esperança e a coragem. Depois, orar em todo o tempo. Então, volto-me para o Senhor e conto-lhe agora e sempre a minha vontade. Vem, Senhor Jesus!



Domingo, 29: COMPARECER DIANTE DO FILHO DO HOMEM

O evangelho do primeiro domingo de Advento termina com uma atitude que marca o início deste tempo de Advento: estar preparado para comparecer diante do Filho do homem. Jesus não pede para estar de joelhos ou prostrado quando ele vier. Pede para estarmos de pé, que permaneçamos de pé. É a posição do homem/mulher livre, que se sabe salvo/a e que está de pé para receber o seu libertador. Então, neste domingo, aprendamos a estar de pé diante de Jesus Cristo, na eucaristia por exemplo (no momento da comunhão), ao dar uma oferta a um mendigo (figura privilegiada de Jesus Cristo), ao abrir os braços para acolher as crianças, ao abençoar a refeição partilhada em família ou entre amigos… Vamos, de pé!



© www.versdimanche.com
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.11.15 | Sem comentários

Anunciar a alegria da fé! [7]


O papa Francisco na Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual («A Alegria do Evangelho» — «Evangelii Gaudium» [EG]), em sintonia com o Documento de Aparecida (DAp), confronta todos os cristãos com uma identidade essencial: ser discípulos missionários (cf. tema 6). Neste e nos próximos temas, vamos apresentar, segundo o Documento de Aparecida, cinco aspetos fundamentais que constituem a base na formação de discípulos missionários: «cinco aspetos fundamentais que aparecem de maneira diversa em cada etapa do caminho, mas que se complementam intimamente e se alimentam entre si» (DAp 278). São eles: o encontro pessoal com Jesus Cristo; a conversão; o discipulado; a comunhão; a missão. Antes de mais, «o discípulo é alguém apaixonado por Cristo, a quem reconhece como o mestre que o conduz e acompanha» (DAp 277).

Encontro com Jesus Cristo

No início da vida cristã está o «encontro pessoal com Jesus Cristo». Por isso, o Papa convida cada cristão «em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar. Não há motivo para alguém poder pensar que este convite não lhe diz respeito, já que ‘da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído’. Quem arrisca, o Senhor não o desilude; e, quando alguém dá um pequeno passo em direção a Jesus, descobre que Ele já aguardava de braços abertos a sua chegada» (EG 3). E os bispos da América Latina e do Caribe declaram: «Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria» (DAp 29). Trata-se de uma alegria (cf. tema 3) que bebe «na fonte do amor maior, que é o de Deus, a nós manifestado em Jesus Cristo. Não me cansarei de repetir estas palavras de Bento XVI que nos levam ao centro do Evangelho: ‘Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo’» (EG 7). Graças a este encontro «com o amor de Deus, que se converte em amizade feliz, é que somos resgatados da nossa consciência isolada e de autorreferencialidade» (EG 8). O Documento de Aparecida explicita assim este aspeto essencial na formação do discípulo missionário: «Aqueles que serão seus discípulos já o buscam (cf. João 1, 38), mas é o Senhor quem os chama: “Segue-me” (Marcos 1, 14; Mateus 9, 9). É necessário descobrir o sentido mais profundo da busca, assim como é necessário propiciar o encontro com Cristo que dá origem à iniciação cristã. Esse encontro deve renovar-se constantemente pelo testemunho pessoal, pelo anúncio do ‘querigma’ e pela ação missionária da comunidade. O ‘querigma’ não é somente uma etapa, mas o fio condutor de um processo que culmina na maturidade do discípulo de Jesus Cristo. Sem o ‘querigma’, os demais aspetos desse processo estão condenados à esterilidade, sem corações verdadeiramente convertidos ao Senhor. Só a partir do ‘querigma’ acontece a possibilidade de uma iniciação cristã verdadeira. Por isso, a Igreja precisa tê-lo presente em todas as suas ações» (DAp 278). Ora, o encontro «com o amor de Deus em Cristo Jesus» (EG 120) acontece na cruz e é um encontro capaz de transformar o cristão em discípulo missionário. Assim, «a primeira motivação para evangelizar é o amor que recebemos de Jesus, aquela experiência de sermos salvos por Ele que nos impele a amá-Lo cada vez mais» (EG 264).

Encontro com o outro

Com Jesus Cristo aprendemos um método (simples) para o encontro com o outro: «Se falava com alguém, fitava os seus olhos com uma profunda solicitude cheia de amor: ‘Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele’ (Marcos 10, 21). Vemo-Lo disponível ao encontro, quando manda aproximar-se o cego do caminho (cf. Marcos 10, 46-52) e quando come e bebe com os pecadores (cf. Marcos 2, 16), sem Se importar que O chamem de glutão e beberrão (cf. Mateus 11, 19). Vemo-Lo disponível, quando deixa uma prostituta ungir-Lhe os pés (cf. Lucas 7, 36-50) ou quando recebe, de noite, Nicodemos (cf. João 3, 1-15). A entrega de Jesus na cruz é apenas o culminar deste estilo que marcou toda a sua vida» (EG 269).

Aceito o convite do Papa para renovar o encontro com Jesus Cristo ou, pelo menos, a deixar-me encontrar por Jesus Cristo? Onde está a minha fonte de amor e de alegria?

© Laboratório da fé, 2015 










Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.11.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [12]


Terminamos o resumo da Constituição Pastoral do II Concílio do Vaticano sobre a Igreja no mundo atual («Gaudium et Spes» [GS]). Neste último tema seguimos o texto publicado na obra de Darlei Zanon, «Para ler o Concílio Vaticano II», ed. Paulus. No início, o Concílio não tinha previsto uma comissão para o estudo dos problemas sociais e da relação da Igreja com o mundo. Esta comissão foi criada a partir do pedido do cardeal Suenes, da Bélgica. Dos estudos desta comissão surgiu um texto inicial que foi reelaborado e ampliado diversas vezes até ser promulgado a 7 de dezembro de 1965. A «Gaudium et Spes» (em português, «Alegrias e Esperanças») foi o último documento aprovado: 2309 votos a favor, 75 contra e 10 nulos. Comparado com outros documentos, o número de votos contra é alto, o que é compreensível devido ao facto de abordar temas delicados para a Igreja daquela época.

Base da Doutrina Social da Igreja

A quarta das constituições do Concílio trata fundamentalmente das relações entre a Igreja Católica e o mundo. A GS é apresentada como «Constituição Pastoral», pois apresenta na primeira parte a compreensão do ser humano e da sociedade em chave teológica (parte doutrinária) e na segunda trata de alguns problemas concretos (parte pastoral). O seu texto é profundo e completo, constituindo a base de toda a Doutrina Social da Igreja. Mais tarde (26 de março de 1967), Paulo VI escreveu a Encíclica sobre o desenvolvimento dos povos («Populorum Progressio») para reforçar a linha de pensamento assumida pela Igreja nesta área, ou seja, alertar para o descompasso crescente entre o crescimento económico e o desenvolvimento integral, para o contraste entre o progresso tecnológico e a capacidade produtiva, de um lado, e o subdesenvolvimento de tantos povos, de outro.

Estrutura e conteúdo

A maior riqueza da GS é apresentar um olhar profético, eclesiológico e pastoral sobre a sociedade, sempre em busca da promoção da justiça e da paz. Ela visa «iluminar o mistério do ser humano e cooperar na solução das principais questões do nosso tempo» (GS 10). A sua primeira frase traduz o espírito do próprio Concílio como um todo: «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e mulheres de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por seres humanos, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao género humano e à sua história» (GS 1). Aí está expressa claramente a nova conceção de Igreja assumida pelo Concílio, como Povo de Deus, Corpo de Cristo e Templo do Espírito. A «Introdução» recorda a necessidade de a Igreja conhecer o mundo e acompanhar as suas transformações técnicas e sociais. Na primeira parte, o documento trata da doutrina da Igreja acerca do ser humano e do mundo. Aborda temas como a dignidade humana (números 12 a 22), a condição humana (23 a 32), a atividade do ser humano no mundo (33 a 39) e o papel da Igreja no mundo (40 a 45). Na segunda parte, estabelece linhas pastorais, respondendo à missão da Igreja no mundo. Considera vários aspetos da vida humana e da sociedade, respondendo a problemas de maior urgência para a época: matrimónio e família (47 a 52), progresso cultural (53 a 62), vida económica e social (63 a 72), comunidade política (73 a 76), promoção da paz e da Comunidade Internacional (77 a 90). Esta parte, inicialmente foi designada como «anexos», mas devido à sua importância e aos debates gerados foi incluída no corpo do documento. Ao analisarmos com cuidado a situação da sociedade atual, em clima de crise económica e principalmente de crise de valores, constatamos que os problemas não são muito diferentes, assumindo apenas uma nova face, mais moderna. Por ser o último documento aprovado, a GS bebeu de toda a nova mentalidade conciliar. Ela põe em prática todas as novidades do Concílio, especialmente o que diz respeito a uma Igreja mais aberta, comprometida e missionária. Tem especial ligação com a Constituição «Lumen Gentium», sobre a Igreja e com o Decreto «Ad Gentes», sobre a atividade missionária da Igreja: «A Igreja é por natureza missionária». O conteúdo apresentado na GS é de uma profundidade e beleza impressionantes e merece ser conhecido e retomado com frequência por todos os cristãos.

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.11.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO TRIGÉSIMO QUARTO


Na última solenidade do Ano Litúrgico (Ano B), Jesus Cristo faz rimar realeza com humildade e verdade: não se trata de um rei à maneira do mundo! A sua realeza não é deste mundo. Ele veio para «dar testemunho da verdade» (evangelho), para nos libertar do pecado (segunda leitura). Jesus Cristo é o Servo perfeito, o filho do homem que deu a vida para obter a salvação de todos e reunir todas as nações na sua glória (primeira leitura). O poder da sua majestade (salmo) brota do serviço, da doação, da fidelidade, do amor. Ele é «Aquele que é, que era e que há de vir, o Senhor do Universo».

«O seu reino não será destruído»
O capítulo sete de Daniel inicia a segunda parte do livro (7, 1 — 12, 13), que é caracterizada por «visões» de pendor apocalíptico difíceis de interpretar.
Daniel tem uma primeira visão em que vislumbra quatro feras, «quatro grandes animais, diferentes uns dos outros» (7, 3). Atribuiu-se esta referência às últimas grandes potências sanguinárias que importunaram o povo bíblico (desde o tempo de Nabucodonosor): babilónicos, medos, persas, macedónios. É importante esta referência para entender o alcance da nova figura que, entretanto, aparece no texto proposto para primeira leitura.
O profeta é testemunha de um facto surpreendente que ocorre no céu: um «Ancião» — figura que se interpreta como uma referência a Deus —, sentado como juiz, julga o quarto animal, que é o mais insolente. Trata-se do rei da Síria, Antíoco IV, que oprimia religiosamente o povo de Israel, perseguia os judeus que permaneciam fiéis à fé dos seus antepassados.
A luta só em aparência é política, porque, na realidade, por detrás dos grandes impérios há uma potência sobre-humana que combate contra o Deus da Aliança: a interpretação da história há de ser, pois, teológica, lida a partir de Deus. É certo que os impérios passam e não há estabilidade duradoira, mas a opressão do povo bíblico pede uma intervenção divina que interrompa as sucessivas investidas do mal.
Daniel constata a necessidade de instaurar o Reino de Deus, um reino que substitua a série dos impérios humanos, um reino liderado por uma figura humana, um «filho do homem», que mostrará a decisão divina de alterar o rumo da história: «O seu poder é eterno, não passará jamais, e o seu reino não será destruído».

O texto culmina numa mensagem de esperança: não são os poderes deste mundo que dominam a história; o triunfo será do verdadeiro Senhor da história, Deus, que há de instaurar o seu Reino através do seu enviado: «alguém semelhante a um filho do homem». A última palavra pertence a Deus. Assim, o povo adquire a chave que permite interpretar o sentido da história. Esta figura do «filho do homem», que vem de Deus, a quem é dado o domínio universal, que reina sobre todos os povos, é vista pela teologia cristã como uma antecipação profética do domínio universal de Jesus Cristo. Ele não usará o poder para escravizar como fazem os poderosos deste mundo, mas para nos libertar e fazer de nós seus irmãos, filhos de Deus.

© Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.11.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO TRIGÉSIMO TERCEIRO


Na reta final do ano litúrgico, a Liturgia da Palavra remete para o «final dos tempos». É preciso estar preparado? Jesus Cristo alerta: não sabemos o dia nem a hora desse fim do mundo que suscita tantas especulações… Mas a fé abre-nos novas perspectivas: Jesus Cristo vai reunir-nos na glória (evangelho) e, uma vez que o seu perfeito e «único sacrifício» nos salva (segunda leitura), saborearemos a vida eterna que nos foi prometida (primeira leitura). É esta convicção, esta confiança, que aclamamos (salmo 15), certos do amor com que somos amados.

«Brilharão como estrelas por toda a eternidade»
O livro de Daniel pertence ao género apocalíptico. Não se pode ler como o quarto dos «profetas maiores» (Isaías, Jeremias e Ezequiel), mas como representante da apocalítica judaica canónica: textos que têm uma predileção pelo contraste entre o presente dececionante e a esperança num futuro glorioso!
O protagonista situa-se na Babilónia, no império que resulta dos sucessos de Nabucodonosor, o conquistador e destruidor de Jerusalém, causador da deportação do povo de Deus. Mas, na realidade, refere-se à época da opressão causada pelos reis helenistas da Síria contra Jerusalém e da perseguição religiosa que acabou por desencadear a revolta dos Macabeus, no século segundo antes de Cristo.
Na segunda parte deste livro especial e complexo — escrito em três línguas: hebraico, aramaico, grego — estão as «visões de Daniel». Na imagética do texto proposto para primeira leitura do trigésimo terceiro domingo (Ano B) contempla-se o futuro escatológico. Os eleitos de Deus são aqueles cujos nomes estão «inscritos no livro de Deus». Estes, apesar dos sofrimentos, serão salvos. O mundo divino representado aqui por Miguel – «o grande chefe dos Anjos, que protege os filhos do teu povo» – irrompe na história para levar a cabo o seu plano. Encontramo-nos num contexto singular: a luta das forças que obstaculizam o plano divino contra o Deus que salva o seu povo. O resultado final é uma vitória clara de Deus, que agrega a si os sábios e os justos: «brilharão como estrelas por toda a eternidade».
O texto é muito especial porque é, provavelmente, o primeiro do Antigo Testamento em que se evoca a ressurreição dos mortos (embora não se use o termo): «Muitos dos que dormem no pó da terra acordarão, uns para a vida eterna, outros para a vergonha e o horror eterno».

O Ano Litúrgico atualiza e realiza o mistério global da salvação. É preciso orientar o olhar para o futuro, movidos pela esperança, enquanto vivemos a experiência presente com constância e paciência. É importante percorrer o caminho que conduz ao final glorioso. Os crentes (cristãos) têm a missão ser testemunhas da esperança enquanto partilham com os irmãos as circunstâncias da vida, sejam marcadas pelo sofrimento, sejam marcadas pela alegria. A interpretação dos textos apocalípticos possui estas duas versões: esperança para o futuro e testemunho consolador para o presente. Uma tarefa nada fácil de assumir no concreto do dia a dia!

© Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.11.15 | Sem comentários

Anunciar a alegria da fé! [6]


«A evangelização obedece ao mandato missionário de Jesus: ‘Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado’ (Mateus 28, 19-20)» (EG 19). Esta é a missão da Igreja (cf. tema 1). Por isso, «este mesmo mandato continua a ser confiado aos discípulos de hoje (e de sempre), a quem compete, em primeiro lugar, ‘viver a alegria do Evangelho’» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga). Com este tema iniciamos a segunda parte desta proposta (cf. tema 1). Nesta parte dedicada à reflexão sobre os «discípulos missionários», sem deixar de ter como ponto de referência a Exortação Apostólica do papa Francisco sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual (EG), não podemos ignorar o contributo essencial dado pelo Documento de Aparecida (DAp) para iluminar esta temática.

Discípulos

A EG afirma que a Igreja é constituída por comunidades de discípulos e discípulas, que têm de ser «sal da terra e luz do mundo»: «Precisamente nesta época, inclusive onde são um ‘pequenino rebanho’ (Lucas 12, 32), os discípulos do Senhor são chamados a viver como comunidade que seja sal da terra e luz do mundo (cf. Mateus 5, 13-16). São chamados a testemunhar, de forma sempre nova, uma pertença evangelizadora» (EG 92). O conteúdo da EG sobre o discipulado sintetiza o que se encontra no Documento de Aparecida sobre os «discípulos missionários de Jesus Cristo». Eles são enviados como comunidade e pela comunidade eclesial para «dar testemunho do amor» (DAp 386), anunciar a chegada do Reino, a dinâmica «transformadora do Reino de Deus que se faz presente em Jesus» (DAp 382) e assumir «as tarefas prioritárias» para o bem comum e a dignificação do ser humano (DAp 384).

Discípulos missionários

Em virtude do Batismo recebido, cada membro do povo de Deus tornou-se discípulo missionário» (EG 120). E por conseguinte todos os cristãos são sujeitos de evangelização, porque «em todos os batizados, desde o primeiro ao último, atua a força santificadora do Espírito que impele a evangelizar» (EG 119). Evangelizar não é uma tarefa de alguns; «seria inapropriado pensar num esquema de evangelização realizado por agentes qualificados enquanto o resto do povo fiel seria apenas recetor das suas ações» (EG 120). Não se trata de uma opção, mas de uma característica essencial que brota do batismo. «O batismo não é um título que recebemos, mas um chamamento para o serviço ativo na vida da Igreja, dentro e fora de portas. O (cristão) batizado não pode não ser ‘discípulo missionário’. Na reflexão do Papa percebe-se claramente que não se trata duma opção, duma escolha entre ser ou não ser» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga). Por isso, a missão dos «discípulos missionários» é universal: todos são enviados e todos são convidados. A missão é também universal quanto aos destinatários: é para todos, a começar pelos mais frágeis. «Todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho» (EG 20). Uma Igreja «em saída» é uma comunidade que caminha ao encontro dos mais necessitados para estar ao serviço: «Faz falta ajudar a reconhecer que o único caminho é aprender a encontrar os demais com a atitude adequada, que é valorizá-los e aceitá-los como companheiros de estrada, sem resistências interiores. Melhor ainda, trata-se de aprender a descobrir Jesus no rosto dos outros, na sua voz, nas suas reivindicações; e aprender também a sofrer, num abraço com Jesus crucificado» (EG 91). A comunidade dos discípulos é «uma fraternidade mística, contemplativa, que sabe ver a grandeza sagrada do próximo, que sabe descobrir Deus em cada ser humano» (EG 92). Ser discípulo missionário significa existir para estar ao serviço dos outros. «Com obras e gestos, a comunidade missionária entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até à humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo» (EG 24). Não há outro caminho. «Trata-se de ‘cumprir’ aquilo que o Senhor nos indicou como resposta ao seu amor, sobressaindo, junto com todas as virtudes, aquele mandamento novo que é o primeiro, o maior, o que melhor nos identifica como discípulos: ‘É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei’ (João 15, 12)» (EG 161).

Vive-se o mandato de Jesus Cristo, quando os «paroquianos» se conformam em ficar sentados nos bancos da igreja e não se dispõem a ir, a servir a comunidade?

© Laboratório da fé, 2015 









Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.11.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [11]


A segunda secção do quinto capítulo encerra as temáticas propostas pelo II Concílio do Vaticano na Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual («Gaudium et Spes» — GS). Trata-se de uma reflexão sobre a Comunidade Internacional inserida na conjuntura da promoção da paz. «Para edificar a paz, é preciso, antes de mais, eliminar as causas das discórdias [...]. Como o ser humano não pode suportar tantas desordens, delas provém que, mesmo sem haver guerra, o mundo está continuamente envenenado com as contendas e violências entre os humanos. E como se verificam os mesmos males nas relações entre as nações, é absolutamente necessário, para os vencer ou prevenir, e para reprimir as violências desenfreadas, que os organismos internacionais cooperem e se coordenem melhor e que se fomentem incansavelmente as organizações que promovem a paz» (GS 83).

A Comunidade Internacional

Tendo como meta o «bem comum universal» é urgente que «a comunidade dos povos se dê a si mesma uma estrutura à altura das tarefas atuais [...]. Para obter tais fins, as instituições da comunidade internacional devem prover, cada uma por sua parte, às diversas necessidades humanas, no domínio da vida social — a que pertencem a alimentação, saúde, educação, trabalho — como em certas circunstâncias particulares, que podem surgir aqui ou ali, tais como a necessidade geral de favorecer o progresso das nações em vias de desenvolvimento, de obviar às necessidades dos refugiados dispersos por todo o mundo, ou ainda de ajudar os emigrantes e suas famílias» (GS 84). E também «é preciso abolir o apetite de lucros excessivos, as ambições nacionais, o desejo de domínio político, os cálculos de ordem militar bem como as manobras para propagar e impor ideologias» (GS 85).

Algumas normas oportunas

A GS sugere algumas orientações para assegurar o acesso de todos aos bens necessários para viver: que «a plena perfeição humana dos cidadãos» seja a finalidade expressa das nações; que os povos desenvolvidos ajudem os que estão em vias de desenvolvimento; que se estabeleça uma Comunidade Internacional com autoridade e poder para coordenar e estimular o desenvolvimento, bem como «regular as relações económicas no mundo inteiro»; que se revejam as atuais estruturas sociais e económicas, tendo em conta as necessidades materiais, mas também as de ordem cultural e espiritual (GS 86). A Igreja aponta também para a necessidade de auxílio educacional e tecnológico aos «povos que, além de muitas outras dificuldades, sofrem especialmente da que deriva dum rápido aumento da população» e aos que não têm acesso a técnicas modernas de produção ou não possuem adequada formação educacional e profissional. Entretanto, «o Concílio exorta todos a que evitem as soluções, promovidas privada ou publicamente ou até por vezes impostas, que sejam contrárias à lei moral» (GS 87). Com estas indicações, pretende despertar os cristãos para a sua responsabilidade: «Não se dê o escândalo de haver algumas nações, geralmente de maioria cristã, na abundância, enquanto outras não têm sequer o necessário para viver e são atormentadas pela fome, pela doença e por toda a espécie de misérias» (GS 88). Por isso, é «absolutamente necessário que a Igreja esteja presente na comunidade das nações, para fomentar e estimular a cooperação entre os humanos» (GS 89). Entre as possibilidades, «uma das melhores formas de atuação internacional dos cristãos consiste certamente na cooperação que, isoladamente ou em grupo, prestam nas próprias instituições criadas ou a criar para o desenvolvimento da cooperação entre as nações» (GS 90).

Conclusão

A GS pretende fazer com que todas as pessoas tornem «o mundo mais conforme à sublime dignidade humana, aspirem a uma fraternidade universal mais profundamente fundada e, impelidos pelo amor, correspondam com um esforço generoso e comum às urgentes exigências da nossa era» (GS 91). Impõe-se, assim, que a fraternidade e a caridade impulsionem o diálogo, o entendimento e o respeito pela legítima diversidade entre as nações, as raças, as culturas e religiões, sem excluir ninguém. «Por isso, chamados pela mesma vocação humana e divina, podemos e devemos cooperar pacificamente, sem violência nem engano, na edificação do mundo na verdadeira paz» (GS 92). Os cristãos «nada podem desejar mais ardentemente do que servir sempre com maior generosidade e eficácia os homens e mulheres do mundo de hoje. [...] ‘Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros’ (João 13, 35). Essa é «a vontade do Pai» (GS 93).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.11.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO TRIGÉSIMO SEGUNDO


Um ensinamento sobre a sinceridade de coração: Deus não olha às aparências, conhece o íntimo dos nossos pensamentos; e a sinceridade da fé é garantia da nossa salvação. Neste trigésimo segundo domingo (Ano B), o que está em causa é a generosidade, a caridade: a viúva de Sarepta partilha o pouco que tem para alimentar o profeta Elias (primeira leitura), a pobre viúva, no Templo, não hesita em dar tudo o que possui (evangelho). Deus, que «ampara o órfão e a viúva» (salmo 145), aprecia a beleza do gesto, a gratuidade da oferenda. A nossa salvação não pode ser comprada pelos nossos méritos; é uma dádiva recebida graças à oferta vital («sacrifício») de Jesus Cristo (segunda leitura).

«A mulher foi e fez como Elias lhe mandara»
Os livros dos Reis contêm narrações sobre as diversas atividades dos profetas Elias e Eliseu. Estes viveram numa época muito antiga da história de Israel (século nono antes de Cristo). São uns personagens singulares de quem não temos qualquer escrito próprio. Esta é a característica principal dos grandes profetas bíblicos: homens que comunicam a palavra de Deus que dá sentido à história de um tempo concreto. Neste caso, apenas temos conhecimento de atos singulares e prodigiosos realizados por intermédio de Elias e Eliseu.
A história narrada no Primeiro Livro dos Rei — texto proposto para primeira leitura — tem como protagonista o profeta Elias, o porta-voz de Deus contra a corrupção política e espiritual da vida israelita. A função do profeta consiste em contribuir para romper com o ciclo de violência e de apostasia que caracterizava o Reino do Norte desde a sua fundação.
As atitudes de Acab, rei de Israel, fizeram aumentar «a ira do Se­nhor, Deus de Israel, mais do que todos os reis de Israel, seus predecessores» (cf. 1Reis 16, 29-34). Então, Deus enviou uma seca extrema. Em consequência, o profeta, perseguido pelo rei, teve que fugir. Depois de várias peripécias, chega a Sarepta, uma cidade fenícia.
A viúva com quem o profeta se encontra não é uma adoradora do Deus de Israel. Ela diz: «Tão certo como estar vivo o Senhor, teu Deus…». Neste fragmento, aprendemos uma lição importante sobre o amor universal de Deus, um amor que vai para além dos estreitos limites dos reinos de Israel (Norte) e de Judá (Sul). E também recebemos o testemunho da bondade e da compaixão duma pessoa não crente para com um homem de Deus.
«A mulher foi e fez como Elias lhe mandara», mesmo sem ter qualquer outro recurso para sobreviver juntamente com o seu filho. O profeta, perante a generosidade extrema da mulher anuncia um prodígio. Não se trata de um qualquer poder mágico de Elias; a comida milagrosa é um dom de Deus à mulher que teve compaixão pelo profeta.

O texto questiona as nossas oferendas: fazemos contas ao que damos, damos «as sobras» ou aquilo que nos faz falta? Vale a pena experimentar que a dinâmica do compartilhar multiplica o que parece pouco, acrescenta em vez de subtrair. Essa é a caridade que brota, não das aparências, mas do íntimo do coração.

© Laboratório da fé, 2015



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.11.15 | Sem comentários

Anunciar a alegria da fé! [5]


«O que é que é feito, em nossos dias, daquela energia escondida da Boa Nova, suscetível de impressionar profundamente a consciência dos homens e mulheres? Até que ponto e como é que essa força evangélica está em condições de transformar verdadeiramente o ser humano deste nosso século? Quais os métodos que hão de ser seguidos para proclamar o Evangelho de modo a que a sua potência possa ser eficaz? Tais perguntas, no fundo, exprimem o problema fundamental que a Igreja hoje põe a si mesma e que nós poderíamos equacionar assim: [...] encontrar-se-á a Igreja mais apta para anunciar o Evangelho e para o inserir no coração dos seres humanos, com convicção, liberdade de espírito e eficácia? Sim ou não?» (EN 4) — escritas em 1975 pelo papa Paulo VI, no décimo aniversário da conclusão do Concílio, são palavras (ainda) atuais passados 40 anos (50 do Concílio).

Quem evangelizamos?

A alegria do Evangelho tem um alcance universal (cf. tema 3). Por isso, todos são destinatários da evangelização, a começar pelos que aceitam a missão de ser evangelizadores! O papa Francisco sintetiza a dinâmica evangelizadora em três âmbitos: «pastoral ordinária»; «pessoas batizadas que não vivem as exigências do Batismo»; os que «não conhecem Jesus Cristo». Para explicitar estes três âmbitos o Papa serve-se de palavras proferidas pelos seus antecessores (João Paulo II e Bento XVI): «Em primeiro lugar, mencionamos o âmbito da pastoral ordinária, ‘animada pelo fogo do Espírito a fim de incendiar os corações dos fiéis que frequentam regularmente a comunidade, reunindo-se no dia do Senhor, para se alimentarem da sua Palavra e do Pão de vida eterna’. Devem ser incluídos também neste âmbito os fiéis que conservam uma fé católica intensa e sincera, exprimindo-a de diversos modos, embora não participem frequentemente no culto. Esta pastoral está orientada para o crescimento dos crentes, a fim de corresponderem cada vez melhor e com toda a sua vida ao amor de Deus. Em segundo lugar, lembramos o âmbito das ‘pessoas batizadas que, porém, não vivem as exigências do Batismo’, não sentem uma pertença cordial à Igreja e já não experimentam a consolação da fé. Mãe sempre solícita, a Igreja esforça-se para que elas vivam uma conversão que lhes restitua a alegria da fé e o desejo de se comprometerem com o Evangelho. Por fim, frisamos que a evangelização está essencialmente relacionada com a proclamação do Evangelho àqueles que não conhecem Jesus Cristo ou que sempre O recusaram. Muitos deles buscam secretamente a Deus, movidos pela nostalgia do seu rosto, mesmo em países de antiga tradição cristã. Todos têm o direito de receber o Evangelho» (EG 14). Aliás, «João Paulo II convidou-nos a reconhecer que ‘não se pode perder a tensão para o anúncio’ àqueles que estão longe de Cristo, ‘porque esta é a tarefa primária da Igreja’» (EG 15).

Proselitismo ou atração?

O anúncio da alegria do Evangelho é um dever de todos os cristãos, «sem excluir ninguém, e não como quem impõe uma nova obrigação, mas como quem partilha uma alegria, indica um horizonte estupendo, oferece um banquete apetecível. A Igreja não cresce por proselitismo, mas ‘por atração’» (EG 14).

Pastoral missionária

Inspirada na Encíclica sobre a validade permanente do mandato missionário («Redemptoris Missio»), dada à Igreja pelo papa João Paulo II no dia sete de dezembro do ano de 1990, no vigésimo quinto aniversário do decreto conciliar «Ad gentes», a EG recorda que «a atividade missionária ‘ainda hoje representa o máximo desafio para a Igreja’ e ‘a causa missionária deve ser [...] a primeira de todas as causas’. Que sucederia se tomássemos realmente a sério estas palavras? Simplesmente reconheceríamos que a ação missionária é o paradigma de toda a obra da Igreja. Nesta linha, os Bispos latino-americanos afirmaram que ‘não podemos ficar tranquilos, em espera passiva, em nossos templos’, sendo necessário passar ‘de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária’. Esta tarefa continua a ser a fonte das maiores alegrias para a Igreja: ‘Haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não necessitam de conversão’ (Lucas 15, 7)» (EG 15).

Estou pronto para anunciar a alegria do Evangelho? Reconheço que, em primeiro lugar, preciso de ser evangelizado para ser um bom evangelizador? Quero ser um evangelizador que «partilha uma alegria» ou que «impõe uma nova obrigação»? A missão pode ser comparada a uma pesca: prefiro a linha (um a um) ou a rede (multidão)? Fico à espera ou vou ao encontro?

© Laboratório da fé, 2015 







Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.11.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [10]


A Igreja, no quinto capítulo da GS intitulado «a promoção da paz e a Comunidade Internacional», declara que «chegou a hora decisiva» no «processo de maturação» da família humana, reconhecendo que «as dores e angústias derivadas da guerra ou da sua ameaça ainda oprimem tão duramente os seres humanos». E desafia a que «todos se orientem com espírito renovado à verdadeira paz. [...] Por isso, o Concílio, explicando a verdadeira e nobilíssima natureza da paz, e uma vez condenada a desumanidade da guerra, quer apelar ardentemente para que os cristãos, com a ajuda de Cristo, autor da paz, colaborem com todos os seres humanos no estabelecimento da paz na justiça e no amor» (77). O desenvolvimento deste capítulo concretiza-se em duas secções: «evitar a guerra»; «construção da Comunidade Internacional». Neste tema damos conta dos conteúdos essenciais da primeira secção.

Natureza da paz

«A paz não é ausência de guerra; nem se reduz ao estabelecimento do equilíbrio entre as forças adversas, nem resulta duma dominação despótica. [...] É um fruto da ordem que o divino Criador estabeleceu para a sociedade humana [...]. A paz nunca se alcança duma vez para sempre, antes deve estar constantemente a ser edificada. [...] Absolutamente necessárias para a edificação da paz são ainda a vontade firme de respeitar a dignidade dos outros e a prática assídua da fraternidade. A paz é assim também fruto do amor, o qual vai além do que a justiça consegue alcançar. A paz terrena, nascida do amor do próximo, é imagem e efeito da paz de Cristo, vinda do Pai. Pois o próprio Filho encarnado, príncipe da paz, reconciliou com Deus, pela cruz, todos os seres humanos; restabelecendo a unidade [...], extinguiu o ódio e, exaltado na ressurreição, derramou nos corações o Espírito de amor» (78).

Evitar a guerra

«Apesar de as últimas guerras terem trazido tão grandes danos materiais e morais, ainda todos os dias a guerra leva por diante as suas devastações em alguma parte da terra. Mais ainda, o emprego de armas científicas de todo o género para fazer a guerra, ameaça, dada a selvajaria daquelas, levar os combatentes a uma barbárie muito pior que a de outros tempos. Além disso, a complexidade da atual situação e o intrincado dos relações entre países tornam possível o prolongar-se de guerras mais ou menos larvadas, pelo recurso a novos métodos insidiosos e subversivos. Em muitos casos, o recurso aos métodos do terrorismo é considerado como uma nova forma de guerra. Tendo diante dos olhos este estado de prostração da humanidade, o Concílio quer, antes de mais, recordar o valor permanente do direito natural internacional e dos seus princípios universais» (79). Daí a necessidade de fazer valer os acordos e as convenções internacionais que exigem o respeito pela dignidade humana. «Saibam os homens e mulheres de hoje que darão grave conta das suas atividades bélicas. Pois das suas decisões atuais dependerá em grande parte o curso dos tempos futuros». Reafirmando a tradição de condenar sempre a guerra, declara que qualquer ação bélica genocida «é um crime contra Deus e o próprio ser humano, que se deve condenar com firmeza e sem hesitação» (80). Lembra, também, que «a corrida aos armamentos, a que se entregam muitas nações, não é caminho seguro para uma firme manutenção da paz; e de que o pretenso equilíbrio daí resultante não é uma paz segura nem verdadeira. [...] É preciso escolher outros caminhos, partindo da reforma das mentalidades, para eliminar este escândalo e poder-se restituir ao mundo, liberto da angústia que o oprime, uma paz verdadeira» (81). Neste contexto, é função das autoridades nacionais e internacionais buscar os meios mais aptos para assegurar a vida, garantir o direito e a justiça. É função de todos promover uma cultura que seja capaz de suplantar aquilo que divide a humanidade. Pouco adiantarão os esforços daqueles que buscam edificar a paz, «enquanto os sentimentos de hostilidade, desprezo e desconfiança, os ódios raciais e os preconceitos ideológicos dividirem os seres humanos e os opuserem uns aos outros. Daqui a enorme necessidade duma renovação na educação das mentalidades e na orientação da opinião pública. [...] Todos nós temos de reformar o nosso coração, com os olhos postos naquelas tarefas que podemos realizar juntos para o progresso da humanidade. [...] A Igreja de Cristo, no meio das angústias do tempo atual, não deixa de esperar firmemente. À nossa época quer ela propor, uma e outra vez, oportuna e importunamente, a mensagem do Apóstolo: ‘eis agora o tempo favorável’ para a conversão dos corações, ‘eis agora os dias da salvação’» (82).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.11.15 | Sem comentários
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