CELEBRAR A SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS


É uma felicidade contemplar a imagem da multidão que domina a Liturgia da Palavra da Solenidade de Todos os Santos (não se celebra o trigésimo primeiro domingo). É a festa de todos os que se deixaram amar por Deus e escolheram seguir o caminho das bem-aventuranças (evangelho). Será que também nós queremos ser esses pobres em espírito, humildes, misericordiosos, puros de coração… de que o mundo tanto precisa? Se sim, podemos estar certos da bênção divina (salmo), pois estamos a dignificar o nosso batismo: viver como filhos de Deus (segunda leitura). Na eucaristia, celebramos as núpcias do Cordeiro, associados à multidão imensa, felizes por darmos graças ao nosso Deus (primeira leitura).

«Esses que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e de onde vieram?»
O texto da primeira leitura forma um interlúdio entre a abertura dos seis primeiros selos e o último, segundo o relato do livro do Apocalipse. A primeira parte do texto descreve a marcação dos redimidos de Israel, designados como «os servos do nosso Deus». Esta ação indica que foram confirmados como membros da comunidade do Cordeiro, Jesus Cristo. O número 144 mil é simbólico: resulta da multiplicação de 12 — as tribos de Israel — por 12 e depois por mil; exprime um grande número, embora seja uma referência ao povo de Israel.
A segunda parte é a descrição da incorporação na comunidade do Cordeiro daqueles que são provenientes de fora do judaísmo: «de todas as nações, tribos, povos e línguas». Estes não são associados a um número concreto como o grupo anterior, mas a uma «multidão imensa, que ninguém podia contar». Estão vestidos de branco, símbolo da pureza; transportam palmas na mão, sinal da vitória do Cordeiro e, através dele, de todos os salvos. O hino que cantam é em louvor e ação de graças a Deus e ao Cordeiro.
«Esses que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e de onde vieram?». A resposta faz pensar em quem deu a vida para defender a fé, os primeiros mártires da Igreja. Hoje, pode-se dizer o mesmo de quem continua a dar a vida no anúncio alegre da fé. Diz-se que chegaram aí depois «da grande tribulação». Contudo, é importante reter que a vitória não é obtida pelo méritos pessoais, mas pelo «sangue do Cordeiro», a morte e a vitoriosa ressurreição de Jesus Cristo.

Os caminhos são diversos, mas a meta é a mesma: a santidade. Santos são aqueles/as de quem se pode dizer verdadeiramente que, tendo vivido na terra, agora vivem nos Céus; e tendo alcançado a glória dos Céus, não deixam de estar presentes na terra. Os santos, que contemplamos na glória e na presença de Deus, são a multidão imensa que deu a vida em oferenda de amor, os que viveram movidos pela sabedoria do coração. Esses homens e mulheres são nossos/as irmãos/ãs e como nós plenos de humanidade, também com as suas fragilidades. Porque é que são santos? Porque foram capazes de abrir no seu interior um amplo espaço para a graça de Deus. Por isso, são apresentados como santos, isto é, como amigos dos seres humanos e amigos de Deus.

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar a solenidade de Todos os Santos (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.10.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [9]


A temática relacionada com a política, na Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual («Gaudium et Spes»), ocupa o quarto capítulo da segunda parte, que é dedicada a «alguns problemas mais urgentes». Este capítulo reconhece as hodiernas transformações profundas que também afetam a comunidade política «especialmente no que se refere aos direitos e deveres de cada um no exercício da liberdade cívica, na promoção do bem comum e na estruturação das relações dos cidadãos entre si e com o poder público» (GS 73). E destaca que a crescente consciência sobre a dignidade humana pede uma ordem política e jurídica que assegure os direitos de todos a participar ativamente na vida e na gestão da sociedade. Por isso, os padres conciliares condenam as formas políticas que impedem a liberdade civil ou religiosa em benefício dos partidos e/ou dos próprios governos.

Natureza e fim da comunidade política

A comunidade política existe em vista do bem comum. «Os indivíduos, as famílias e os diferentes grupos que constituem a sociedade civil, têm consciência da própria insuficiência para realizar uma vida plenamente humana e percebem a necessidade duma comunidade mais ampla, no seio da qual todos conjuguem diariamente as próprias forças para cada vez melhor promoverem o bem comum. E por esta razão constituem, segundo diversas formas, a comunidade política. A comunidade política existe, portanto, em vista do bem comum; nele encontra a sua completa justificação e significado e dele deriva o seu direito natural e próprio. Quanto ao bem comum, ele compreende o conjunto das condições de vida social que permitem aos indivíduos, famílias e associações alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição. [...] O exercício da autoridade política, seja na comunidade como tal, seja nos organismos representativos, deve-se sempre desenvolver e atuar dentro dos limites da ordem moral, em vista do bem comum» (GS 74). Ora, faz parte da natureza humana participar politicamente na sociedade através do voto livre, que é tanto um direito quanto um dever. «É plenamente conforme com a natureza do ser humano que se encontrem estruturas jurídico-políticas nas quais todos os cidadãos tenham a possibilidade efetiva de participar livre e ativamente, dum modo cada vez mais perfeito e sem qualquer discriminação, tanto no estabelecimento das bases jurídicas da comunidade política, como na gestão da coisa pública e na determinação do campo e fim das várias instituições e na escolha dos governantes. Todos os cidadãos se lembrem, portanto, do direito e simultaneamente do dever que têm de fazer uso do seu voto livre em vista da promoção do bem comum. A Igreja louva e aprecia o trabalho de quantos se dedicam ao bem da nação e tomam sobre si o peso de tal cargo, em serviço dos seres humanos». E pede que «todos os cristãos tenham consciência da sua vocação especial e própria na comunidade política». Além disso, valoriza a importância da educação política: «deve atender-se cuidadosamente à educação cívica e política, hoje tão necessária à população e sobretudo aos jovens, para que todos os cidadãos possam participar na vida da comunidade política» (GS 75).

A comunidade política e a Igreja

É fundamental que haja clareza sobre as relações da comunidade política e a Igreja; e «que se distingam claramente as atividades que os fiéis, isoladamente ou em grupo, desempenham em próprio nome como cidadãos guiados pela sua consciência de cristãos, e aquelas que exercitam em nome da Igreja e em união com os seus pastores». Contudo, a Igreja e comunidade política estão ao serviço da sociedade: façam-no em mútua cooperação. «Ambas servem a vocação pessoal e social [...]. E tanto mais eficazmente exercitarão este serviço para bem de todos, quanto melhor cultivarem entre si uma sã cooperação». Mas sem pôr em causa a autonomia e independência. «A Igreja que, em razão da sua missão e competência, de modo algum se confunde com a sociedade nem está ligada a qualquer sistema político determinado, é ao mesmo tempo o sinal e salvaguarda da transcendência da pessoa humana». Por isso, não devem servir-se uma da outra e tampouco usufruir de vantagens advindas desta relação. Até porque a Igreja tem por missão ensinar e denunciar o que não estiver de acordo com os direitos humanos. «Aderindo fielmente ao Evangelho e realizando a sua missão no mundo, a Igreja — a quem pertence fomentar e elevar tudo o que de verdadeiro, bom e belo se encontra na comunidade humana — consolida, para glória de Deus, a paz entre os seres humanos» (GS 76).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.10.15 | Sem comentários

Anunciar a alegria da fé! [4]


A Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual («Evangelii Gaudium — EG) convida a descobrir «a doce e reconfortante alegria de evangelizar» (EG 9-13). Quem acolhe a salvação tem de fazer esta descoberta; é chamado a perceber o sentido duma autêntica «antropologia da missão» que assenta no duplo movimento de acolhimento e partilha (cf. tema 3).

Porque é que evangelizamos?

Em primeiro lugar, porque o Senhor Jesus Cristo confiou essa missão aos seus discípulos; é a missão da Igreja (cf. tema 1). Neste sentido, «é absolutamente indispensável colocar-nos bem diante dos olhos [...] o dever também de o apresentar aos homens e mulheres do nosso tempo, tanto quanto isso é possível, de uma maneira compreensível e persuasiva» (Paulo VI, Exortação Apostólica sobre a evangelização no mundo contemporâneo — «Evangelii Nuntiandi» — EN 3). Por isso, não nos pode surpreender a afirmação de Paulo: «Ai de mim, se eu não evangelizar!» (1Coríntios 9, 16; cf. EG 9). Evangelizamos para anunciar ao mundo a salvação oferecida por Jesus Cristo. Na sequência dos números anteriores (cf. tema 3), o papa Francisco acrescenta: evangelizamos porque «o bem tende sempre a comunicar-se. Toda a experiência autêntica de verdade e de beleza procura, por si mesma, a sua expansão; e qualquer pessoa que viva uma libertação profunda adquire maior sensibilidade face às necessidades dos outros. E, uma vez comunicado, o bem radica-se e desenvolve-se. Por isso, quem deseja viver com dignidade e em plenitude, não tem outro caminho senão reconhecer o outro e buscar o seu bem» (EG 9). Na verdade, citando o Documento de Aparecida, a EG recorda: «quando a Igreja faz apelo ao compromisso evangelizador, não faz mais do que indicar aos cristãos o verdadeiro dinamismo da realização pessoal: “[...] ‘A vida se alcança e amadurece à medida que é entregue para dar vida aos outros’. Isto é, definitivamente, a missão”». Então, não é possível ser evangelizador e «ter constantemente uma cara de funeral». Pelo contrário, é preciso recuperar — usando as palavras do papa Paulo VI — «a suave e reconfortante alegria de evangelizar, mesmo quando for preciso semear com lágrimas! [...] E que o mundo do nosso tempo, que procura ora na angústia ora com esperança, possa receber a Boa Nova dos lábios, não de evangelizadores tristes e descoroçoados, impacientes ou ansiosos, mas sim de ministros do Evangelho cuja vida irradie fervor, pois foram quem recebeu primeiro em si a alegria de Cristo» (EG 10; EN 80). Importa ter presente o constante recurso que a EG faz aos textos do Documento de Aparecida (V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, realizada em 2007) e da Exortação Apostólica do papa Paulo VI sobre a evangelização no mundo contemporâneo (publicada no dia 8 de dezembro de 1975).

Uma eterna novidade

«A verdadeira novidade é aquela que o próprio Deus misteriosamente quer produzir, aquela que Ele inspira, aquela que Ele provoca, aquela que Ele orienta e acompanha de mil e uma maneiras» (EG 12). Neste sentido, o Papa lembra que o verdadeiro motor da renovação pessoal e comunitária consiste em «voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho», de onde «despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo atual» (EG 11). Assim sendo, a renovação da Igreja depende, em grande parte, da capacidade em «recuperar o frescor original do Evangelho». Trata-se de um desafio decisivo. Compete-nos aceitá-lo com ousadia. Caso contrário, tudo pode ficar apenas em reformas e inovações que em nada contribuem para a conversão radical a Jesus Cristo. Até porque a evangelização não é uma «heroica tarefa pessoal»; é «obra de Deus»: Jesus Cristo é que «é ‘o primeiro e o maior evangelizador’. Em qualquer forma de evangelização, o primado é sempre de Deus, que quis chamar-nos para cooperar com Ele e impelir-nos com a força do seu Espírito» (EG 12). Esta abertura ao «Deus missionário» (que toma sempre a iniciativa) pede-nos para não esquecer que «a memória é uma dimensão da nossa fé», pelo que «a alegria evangelizadora refulge sempre sobre o horizonte da memória agradecida» de todas as «pessoas simples e próximas de nós, que nos iniciaram na vida da fé [...]. O crente é, fundamentalmente, ‘uma pessoa que faz memória’» (EG 13).

O Evangelho de Jesus Cristo é sempre «boa» e «nova» notícia? Ou é uma notícia já conhecida e aborrecida? Como posso recuperar o «frescor original do Evangelho»? Qual é a minha experiência da «novidade» de Deus?

© Laboratório da fé, 2015 






Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.10.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO TRIGÉSIMO


O evangelho do trigésimo domingo (Ano B), no relato segundo Marcos, anuncia o itinerário percorrido entre Jericó e Jerusalém: a caminhada serve para apresentar as condições para seguir Jesus Cristo. Eis que surge o cego Bartimeu: depois de curado por Jesus Cristo, decide seguir as suas pegadas (evangelho). Em Jesus Cristo, constituído sumo sacerdote em nosso favor (segunda leitura), cumpre-se a salvação anunciada pelo profeta Jeremias: os exilados voltam cheios de alegria (primeira leitura) e cantam as maravilhas de Deus (salmo). Em Jesus Cristo, hoje, tornamo-nos esse povo de salvos quando decidimos seguir as suas pegadas, quando lhe confiamos toda a nossa fé.

«Soltai brados de alegria»
O exílio do povo de Israel, na Babilónia, foi uma derrota e um tempo propício para fazer crescer o sentimento de abandono e de desânimo. Neste sentido, hoje, o exílio serve como uma metáfora para nos ajudar a compreender as atuais situações de desespero e desumanização.
No fragmento do livro de Jeremias proposto para primeira leitura, Deus dirige-se à comunidade exilada e anuncia-lhe uma nova realidade apenas fundada na fidelidade divina. Através do profeta, Deus faz chegar ao povo uma mensagem cheia de imperativos. «Soltai brados de alegria». O povo de Deus é convidado a soltar brados de alegria, a enaltecer, a fazer ouvir, a proclamar. São atos de alegria impensáveis para um povo reduzido ao silêncio do exílio. A razão desse júbilo é que Deus, o Deus da Aliança, quer salvar o povo que escolheu, apesar desse povo lhe ter sido infiel em vários momentos da história. Deus intervém para libertar e dar início a uma nova vida, uma vida completamente inesperada: vai terminar o jugo opressor da Babilónia; todos vão regressar a casa.
Jeremias é um profeta originário da tribo de Benjamim, herdeiro da teologia própria das tribos do Norte. Por isso, não é de estranhar a insistência em destacar Israel em detrimento de Judá, reino do Sul (o reino de Israel tinha desaparecido em 722 antes de Cristo).
No texto, importa destaca a força da primeira pessoa: «Vou trazê-los… reuni-los… vou trazê-los… levá-los-ei». Deus é o autor destas ações que hão de transformar a vida de Israel. Em seguida, o profeta Jeremias explica a grande peregrinação duma multidão que vai regressar a casa. Nesta multidão, incluem-se o cego, o coxo, a mulher grávida e «a que já deu à luz». Estas personagens representam as pessoas frágeis e indefesas que são objeto de um carinho especial da parte de Deus. Por fim, diz-se que terminou o medo e o caminho de regresso será absolutamente seguro, porque Deus é «um Pai para Israel».

Deus é Pai. Esta é também a teologia de Jesus Cristo: Deus é um Pai que ama todas as pessoas. Ninguém fica de fora, «já que ‘da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído’ […]. Ninguém nos pode tirar a dignidade que este amor infinito e inabalável nos confere. Ele permite-nos levantar a cabeça e recomeçar, com uma ternura que nunca nos defrauda e sempre nos pode restituir a alegria» (EG 3).

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo trigésimo (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.10.15 | Sem comentários

Anunciar a alegria da fé! [3]


A exemplo do II Concílio do Vaticano, na Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual («Gaudium et Spes» — GS), e de Paulo VI, na Exortação Apostólica sobre a alegria cristã («Gaudete in Domino» — GD), a EG coloca de novo o tema da alegria no caminho da Igreja. «A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus» (EG 1). Esta alegria, que possui um alcance universal, começa por ser proposta em dois momentos: acolher a alegria do Evangelho, renovar a alegria do encontro com Jesus Cristo; levar aos outros, comunicar-lhes essa mesma alegria.

Alegria universal

A EG retoma as palavras do papa Paulo VI para recordar que «da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído» (EG 2; GD 297). Este alcance universal é uma das consequências da transformação missionária que resulta do encontro com o Ressuscitado.

Alegria que se renova

A EG convida a uma alegria simples e desprendida, pois ela nasce do encontro com Alguém que muda tudo: «Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria» (EG 1). Por isso, o Papa convida «todo o cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar» (EG 3). Esta alegria não é uma alegria ingénua. O cristão sabe, por experiência própria, que há «etapas e circunstâncias da vida, por vezes muito duras», nas quais «a alegria não se vive da mesma maneira». Contudo, existe sempre a segurança de «um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados» e de que «a misericórdia do Senhor não acaba, não se esgota a sua compaixão. Cada manhã ela se renova» (EG 6).

Alegria na Sagrada Escritura

«O Evangelho, onde resplandece gloriosa a Cruz de Cristo, convida insistentemente à alegria» (EG 5). O texto recorda alguns dos momentos evangélicos mais significativos onde se reflete esta dimensão jubilosa: saudação do anjo a Maria; visita de Maria a Isabel; início do ministério de Jesus Cristo. «A sua mensagem é fonte de alegria [...]. A nossa alegria cristã brota da fonte do seu coração transbordante». A mesma alegria repercute-se na vida dos primeiros discípulos, conforme destaca o livro dos Atos dos Apóstolos. «Porque não havemos de entrar, também nós, nesta torrente de alegria?» (EG 5). É a alegria do discipulado, é a alegria da salvação que tinha sido preanunciada no Antigo Testamento e «que havia de tornar-se superabundante nos tempos messiânicos». Entre outras, destacam-se as palavras dos profetas Isaías, Zacarias, Sofonias. Deste, para o papa Francisco, surge o «convite mais tocante [...] que nos mostra o próprio Deus como um centro irradiante de festa e de alegria, que quer comunicar ao seu povo este júbilo salvífico. Enche-me de vida reler este texto: ‘O Senhor, teu Deus, está no meio de ti como poderoso salvador! Ele exulta de alegria por tua causa, pelo seu amor te renovará. Ele dança e grita de alegria por tua causa’ (3, 17)». Hoje, esta «é a alegria que se vive no meio das pequenas coisas da vida quotidiana, como resposta ao amoroso convite de Deus nosso Pai» (EG 4).

Alegria que se comunica

A EG fala mais da alegria do que da cruz. A nossa meta é a Páscoa. Infelizmente, «há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa» (EG 6). São os que se deixam seduzir pela tentação de inventar «desculpas e queixas, como se tivesse de haver inúmeras condições para ser possível a alegria» (EG 7). São aqueles que se tornam permeáveis às propostas consumistas que produzem «uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada». E tornam-se «pessoas ressentidas, queixosas, sem vida» (EG 2). Mas há outro caminho! O Papa recorda que «as alegrias mais belas e espontâneas, que vi ao longo da minha vida, são as alegrias de pessoas muito pobres que têm pouco a que se agarrar. Recordo também a alegria genuína daqueles que, mesmo no meio de grandes compromissos profissionais, souberam conservar um coração crente, generoso e simples. De várias maneiras, estas alegrias bebem na fonte do amor maior, que é o de Deus, a nós manifestado em Jesus Cristo» (EG 7). Por isso, «se alguém acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de o comunicar aos outros?» (EG 8).

O tom geral da minha vida é alegre e otimista? Renovo dia a dia o encontro com Jesus Cristo como fonte da minha alegria? Comunico-a aos outros?

© Laboratório da fé, 2015 





Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.10.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [8]


O terceiro capítulo da segunda parte da GS destaca que a dignidade do ser humano também deve ser respeitada e promovida nas relações económicas da sociedade. E lembra que o ser humano «é o protagonista, o centro e o fim de toda a vida económico-social» (GS 63). Neste tema, apresentamos o resumo do referido capítulo que se divide em duas secções: «o desenvolvimento económico»; «alguns princípios orientadores de toda a vida económico-social». Neste âmbito, como em todos os outros, há aspetos positivos, «mas não faltam motivos de inquietação»: obsessão desmedida pela economia; agravamento das desigualdades; desprezo pelos pobres; coexistência do luxo com a miséria; vidas e trabalhos indignos da pessoa humana. «Semelhantes desequilíbrios verificam-se tanto entre a agricultura, a indústria e os serviços como entre as diferentes regiões do mesmo país» (GS 63).

O desenvolvimento económico

«Hoje, mais do que nunca, para fazer frente ao aumento populacional e satisfazer às crescentes aspirações do género humano, com razão se faz um esforço por aumentar a produção agrícola e industrial e a prestação de serviços. [...] Mas a finalidade fundamental da produção não é o mero aumento dos produtos, nem o lucro ou o poderio, mas o serviço do ser humano; do ser humano integral, isto é, tendo em conta a ordem das suas necessidades materiais e as exigências da sua vida intelectual, moral, espiritual e religiosa» (GS 64). Por isso, «o desenvolvimento não se deve abandonar ao simples curso quase mecânico da atividade económica» (GS 65). E «é necessário esforçar-se para que [...] se eliminem o mais depressa possível as grandes e crescentes desigualdades económicas atualmente existentes, acompanhadas da discriminação individual e social» (GS 66).

Alguns princípios orientadores de toda a vida económico-social

O que sustenta a economia é o trabalho humano. «É com o seu trabalho que o ser humano sustenta de ordinário a própria vida e a dos seus; por meio dele se une e serve aos seus irmãos, pode exercitar uma caridade autêntica e colaborar no acabamento da criação divina» (GS 67). Assim, mais que um dever, o trabalho é um direito que deve ser assegurado pela lei, pois todo o ser humano tem direito ao salário, a condições humanizantes de trabalho e ao justo descanso para viver e dar vida digna aos seus. Além disso, «entre os direitos fundamentais da pessoa humana deve contar-se o de os trabalhadores criarem livremente associações que os possam representar autenticamente e contribuir para a reta ordenação da vida económica» (GS 68). A Igreja recorda também a importância do destino universal dos bens. Por isso, «sejam quais forem as formas de propriedade, [...] deve-se sempre atender a este destino universal dos bens» (GS 69). E «tenham-se sempre também em conta as necessidades urgentes das nações ou regiões economicamente menos desenvolvidas» (GS 70). É certo que a Igreja defende a propriedade privada: «A propriedade privada ou um certo domínio sobre os bens externos asseguram a cada um a indispensável esfera de autonomia pessoal e familiar, e devem ser considerados como que uma extensão da liberdade humana» (GS 71). Mas considera-a um direito relativo em relação ao bem comum e universal: o conjunto das condições de vida de uma sociedade que favorecem o bem-estar e o desenvolvimento humano de todos. «De resto, a mesma propriedade privada é de índole social, fundada na lei do destino comum dos bens. O desprezo deste carácter social foi muitas vezes ocasião de cobiças e de graves desordens, chegando mesmo a fornecer um pretexto para os que contestam esse próprio direito» (GS 72). Assim, a Igreja considera que a propriedade privada só é licita quando produz e propicia o trabalho e, somente nesta perspetiva ela pode ser defendida, pois as propriedades privadas improdutivas não permitem que outros, nomeadamente os pobres, nelas se fixem e delas tirem o seu sustento. A terminar este capítulo recorda-se que «os cristãos que desempenham parte ativa no atual desenvolvimento económico-social e lutam pela justiça e pela caridade, estejam convencidos de que podem contribuir muito para o bem da humanidade e paz do mundo. Em todas estas atividades, quer sozinhos quer associados, sejam exemplo para todos. Adquirindo a competência e experiência absolutamente indispensáveis, respeitem a devida hierarquia entre as atividades terrenas, fiéis a Cristo e ao seu Evangelho, de maneira que toda a sua vida, tanto individual como social, seja penetrada do espírito das bem-aventuranças, e especialmente do espírito de pobreza» (GS 73).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.10.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO VIGÉSIMO NONO


Exigência, radicalidade: o que nos parece difícil, Jesus Cristo fê-lo de forma absoluta, para nos salvar. Percebemo-lo neste vigésimo nono domingo (Ano B), no evangelho segundo Marcos, depois de ter feito aos apóstolos o terceiro anúncio da Paixão, Jesus Cristo revela-lhes o segredo do seu caminho. Ele é o Servo de Deus anunciado pelo profeta (primeira leitura). E mesmo que Tiago e João não o compreendam, Jesus Cristo repete a necessidade de passar pela Cruz, a importância de amar e servir (evangelho). Carregando sobre si as nossas fraquezas, Jesus Cristo introduz-nos na vida de Deus (segunda leitura), faz-nos mergulhar na misericórdia (salmo).

«O justo, meu servo, justificará a muitos»
A segunda parte do livro de Isaías (Segundo Isaías) recolheu um conjunto de poemas e cânticos referentes ao Servo de Yahveh (Deus) de uma forma que ainda hoje continua enigmática. Os poemas não têm relação com o conjunto do livro: centram-se numa pessoa, enquanto o resto do livro (Segundo Isaías) tem como protagonista o povo desterrado. Os poemas do Servo referem-se a um personagem débil, frágil, ao passo que os convites a regressar a Judá expressam fortaleza, segurança. Os cânticos do Servo parecem a narração poética de um fracasso, mas as exortações ao regresso anunciam um futuro esplendoroso.
Então, o que é que une estes poemas ao resto do livro? A salvação oferecida por Deus: no resto do livro, apresenta-se sob a imagem de um novo êxodo; nos poemas do Servo, é através do seu sofrimento pessoal que acontece a justificação de «muitos».
A primeira leitura coloca-nos perante um fragmento do quarto Cântico do Servo de Deus (52, 13 — 53, 12). Este Servo experimentou uma vida de sofrimento: «Aprouve ao Senhor esmagar o seu servo pelo sofrimento». Com isto, parece que já nada mais podia acontecer. Mas Isaías faz-nos saber que não se trata do último momento, esse não será o fim.
Deus tem outro desígnio: «Terá uma descendência duradoira, viverá longos dias, e a obra do Senhor prosperará em suas mãos. […] Verá a luz e ficará saciado na sua sabedoria». Deus quer que o Servo, que antes tinha dado tudo, agora receba tudo. Deus não o abandona. Nem ao Servo, nem aos outros. No Servo, Deus revela-se como Redentor: na debilidade do Servo esmagado pelo sofrimento torna-se presente a salvação. E não o fará de forma violenta, impetuosa, mas segundo os desígnios surpreendentes de Deus: toma sobre si as iniquidades dos outros.

«O justo, meu servo, justificará a muitos»: faz com que outros recebam os benefícios da sua fidelidade e do seu sofrimento, pois assumiu as «iniquidades» desses «muitos». Aqui há um mistério da justiça divina que justifica uma multidão através do sofrimento dum que é fiel até ao fim. O sofrimento não é um castigo divino, mas consequência da fidelidade ao amor que se recusa a entrar no jogo dos opressores. O caminho que se inicia no Servo há de culminar em Jesus Cristo: «o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos».

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo vigésimo nono (Ano B), no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.10.15 | Sem comentários

Anunciar a alegria da fé! [2]


«Quero, com esta Exortação, dirigir-me aos fiéis cristãos a fim de os convidar para uma nova etapa evangelizadora marcada por esta alegria e indicar caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos» (EG 1) — afirma o papa Francisco, no primeiro número da Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual [EG — bit.ly/EG_Alegria_Evangelho]. A EG apresenta-se como um texto prioritário nesta que é uma etapa decisiva na tomada de consciência por parte da Igreja da sua missão e dos desafios que lhe são colocados nos tempos atuais.

Uma novidade do papa Francisco

A novidade do documento está profundamente interligada com a novidade que o papa Francisco trouxe ao exercício do seu ministério. O texto está carregado de gestos e palavras nos quais se reconhece (com facilidade) a personalidade do papa Francisco. A EG não é apenas o resultado das «conclusões» da XIII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos realizado entre os dias 7 e 28 de outubro de 2012, sobre «a nova evangelização para a transmissão da fé cristã». Até aqui era um costume do Papa apresentar, em forma de «Exortação Apostólica Pós-Sinodal», a sua reflexão baseada nas propostas sinodais. Ora, a EG vai muito para além dos conteúdos resultantes do Sínodo dos Bispos. É certo que, em vários pontos, o Papa menciona o tema e as «proposições» sinodais (cf. EG 14, 16, 73, 112, 245). Contudo, quis ir mais longe: «Com prazer, aceitei o convite dos Padres sinodais para redigir esta Exortação. Para o efeito, recolho a riqueza dos trabalhos do Sínodo; consultei também várias pessoas e pretendo, além disso, exprimir as preocupações que me movem neste momento concreto da obra evangelizadora da Igreja. Os temas relacionados com a evangelização no mundo atual, que se poderiam desenvolver aqui, são inumeráveis. Mas renunciei a tratar detalhadamente esta multiplicidade de questões que devem ser objeto de estudo e aprofundamento cuidadoso. [...] Aqui escolhi propor algumas diretrizes que possam encorajar e orientar, em toda a Igreja, uma nova etapa evangelizadora, cheia de ardor e dinamismo». [...] Ajudam a delinear um preciso estilo evangelizador, que convido a assumir em qualquer atividade que se realize» (EG 16-18).

Um documento programático

A EG é oferecida como um texto programático: traça as linhas de rumo para a «nova primavera» que o papa Francisco quer fazer acontecer na Igreja e no mundo. A EG é um texto programático, isto é, tem como intenção renovar todos os aspetos da vida e levar os cristãos e as comunidades a assumir um renovado compromisso missionário. «Não ignoro que hoje os documentos não suscitam o mesmo interesse que noutras épocas, acabando rapidamente esquecidos. Apesar disso sublinho que, aquilo que pretendo deixar expresso aqui, possui um significado programático e tem consequências importantes. Espero que todas as comunidades se esforcem por atuar os meios necessários para avançar no caminho duma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Neste momento, não nos serve uma ‘simples administração’. Constituamo-nos em ‘estado permanente de missão’, em todas as regiões da terra» (EG 25).

Uma verdadeira exortação

A EG é uma verdadeira exortação. Sem excluir a reflexão e a argumentação, usa uma linguagem clara que demonstra o estilo simples e próximo do Papa. Não tem como finalidade transmitir «um tratado» (EG 18) ou uma doutrina. Pretende, isso sim, comunicar uma profunda convicção pessoal que brota da sua própria experiência vivencial (e não de conceitos teóricos). E, por isso, pretende também suscitar nos leitores tal experiência que os leve à mesma convicção e a viver em conformidade. A convicção que o papa Francisco transmite é que «a Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria» (EG 1). A EG faz lembrar a alegria com que o papa João XXIII, no dia 11 de outubro de 1962, procedeu ao início do II Concílio do Vaticano: «Alegra-se a Santa Mãe Igreja, porque, por singular dom da Providência divina, amanheceu o dia tão ansiosamente esperado em que solenemente se inaugura o II Concílio Ecuménico do Vaticano» (http://bit.ly/Abertura_IIConcilioVaticano).

A EG é um texto programático, uma exortação a uma «nova etapa evangelizadora». Interrogo-me sobre o meu estado de disponibilidade para tornar possível esta nova etapa: recetivo, desconfiado, indiferente, indisponível?

© Laboratório da fé, 2015 








Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.10.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [7]


A GS é o primeiro documento eclesial a fazer uma reflexão pastoral sobre a importância da cultura. O segundo capítulo da segunda parte da GS aborda «a conveniente promoção do progresso cultural». O conteúdo distribui-se por três secções que vamos resumir neste tema. Segundo os padres conciliares, «a palavra ‘cultura’ indica, em geral, todas as coisas por meio das quais o ser humano apura e desenvolve as múltiplas capacidades do seu espírito e do seu corpo; se esforça por dominar, pelo estudo e pelo trabalho, o próprio mundo; torna mais humana, com o progresso dos costumes e das instituições, a vida social, quer na família quer na comunidade civil; e, finalmente, no decorrer do tempo, exprime, comunica aos outros e conserva nas suas obras, para que sejam de proveito a muitos e até à inteira humanidade, as suas grandes experiências espirituais e as suas aspirações» (GS 53).

Condições da cultura no mundo atual

Os novos estilos de vida provocados pelas mais diversas transformações ocorridas nos últimos tempos permite «falar duma nova era da história humana» (GS 54), de «um novo humanismo, no qual o ser humano se define antes de mais pela sua responsabilidade com relação aos seus irmãos e à história» (GS 55). «Nestas condições, não é de admirar que o ser humano, sentindo a responsabilidade que tem na promoção da cultura, alimente mais dilatadas esperanças, e ao mesmo tempo encare com inquietação as múltiplas antinomias existentes» (GS 56).

Alguns princípios para a conveniente promoção da cultura

Apesar de reconhecer que alguns métodos podem «dar aso a certo fenomenismo e agnosticismo», a Igreja destaca aspetos positivos: «o gosto das ciências e a exata objetividade nas investigações científicas; a necessidade de colaborar com os outros nas equipas técnicas; o sentido de solidariedade internacional; a consciência cada vez mais nítida da responsabilidade que os sábios têm de ajudar e até de proteger os seres humanos; a vontade de tornar as condições de vida melhores para todos e especialmente para aqueles que sofrem da privação de responsabilidade ou de pobreza cultural. Tudo isto pode constituir uma certa preparação para a receção da mensagem evangélica» (GS 57). A Igreja lembra que entre a mensagem da salvação e a cultura humana existem muitos laços, pois Deus «falou segundo a cultura própria de cada época». E a própria Igreja «empregou os recursos das diversas culturas para fazer chegar a todas as gentes a mensagem de Cristo», além de «entrar em comunicação com as diversas formas de cultura, com o que se enriquecem tanto a própria Igreja como essas várias culturas» (58). Por conseguinte, «a Igreja lembra a todos que a cultura deve orientar-se para a perfeição integral da pessoa humana, para o bem da comunidade e de toda a sociedade» (GS 59).

Alguns deveres mais urgentes dos cristãos com relação à cultura

Afirmando que a cultura exige respeito, liberdade e autonomia para se desenvolver, a Igreja exorta as autoridades públicas a favorecerem e a colaborarem para o desenvolvimento cultural. A Igreja apregoa que todos têm o direito à cultura e ao pleno desenvolvimento conforme as qualidades e tradições próprias de cada um, independentemente de raça, sexo, nação, religião ou situação social. «É preciso, além disso, trabalhar muito para que todos tomem consciência, não só do direito à cultura, mas também do dever que têm de se cultivar e de ajudar os outros nesse campo» (GS 60). E «cada ser humano continua a ter o dever de salvaguardar a integridade da pessoa humana, na qual sobressaem os valores da inteligência, da vontade, da consciência e da fraternidade, valores que se fundam em Deus Criador e por Cristo foram admiravelmente restaurados e elevados» (GS 61). Neste contexto, «os teólogos são convidados a buscar constantemente, de acordo com os métodos e exigências próprias do conhecimento teológico, a forma mais adequada de comunicar a doutrina aos homens do seu tempo [...]. Na atividade pastoral, conheçam-se e apliquem-se suficientemente, não apenas os princípios teológicos, mas também os dados das ciências profanas [...]. A Igreja deve também reconhecer as novas formas artísticas [...]. Vivam os fiéis em estreita união com os demais do seu tempo e procurem compreender perfeitamente o seu modo de pensar e sentir, qual se exprime pela cultura. Saibam conciliar os conhecimentos das novas ciências e doutrinas e últimas descobertas com os costumes e doutrina cristã, [...] e sejam capazes de apreciar e interpretar todas as coisas com autêntico sentido cristão» (GS 62).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.10.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO VIGÉSIMO OITAVO


No vigésimo oitavo domingo (Ano B), o evangelho oferece-nos um diálogo de Jesus Cristo com um homem faminto por alcançar a vida eterna. Ocasião para Jesus Cristo recordar as condições para o seguir. Ocasião para lançar um alerta sobre os perigos das riquezas que obstruem o coração e ensombram o olhar (evangelho). O apelo a vender tudo para dar aos pobres pode-nos parecer demasiado radical, pelo que somos livres de rejeitar tal palavra «viva e eficaz» (segunda leitura)… Mas se temos fé, saberemos implorar a sabedoria (primeira leitura), sentiremos fome da bondade divina (salmo): só Deus nos pode saciar com o essencial, com a sabedoria de coração, e, assim, exultarmos de alegria.

«O seu brilho jamais se extingue»
O livro da Sabedoria recebe esse nome, precisamente, por se tratar de uma ponte entre as propostas do mundo helénico (influência grega) e as provenientes do judaísmo. Os gregos propõem um «amor» ao conhecimento, à reflexão, à compreensão da natureza, à meditação sobre os comportamentos humanos. São os pais da «filosofia», que se expande na ética, na política, na metafísica, na epistemologia. O judaísmo não é alheio a essa reflexão e a esse «amor» ao conhecimento, mas concebe-os a partir da relação com o Deus da Aliança que acompanha o povo no desenrolar da história. São duas formas diferentes, necessárias e não excludentes, de aproximação à verdade.
O poema proposto para primeira leitura (provavelmente, escrito no primeiro século antes de Cristo) identifica a aproximação à verdade com a «prudência», que podemos traduzir também como «sensatez», «bom senso»; mas sempre em união com a fé (oração), pois não é uma conquista humana, mas dom de Deus.
Qualquer pessoa que vive com critério sabe que o poder («cetros e tronos») é passageiro e passível de atraiçoar o sentido da vida; tal como as riquezas (pedras preciosas, ouro e prata) e a beleza. Surpreende o facto de colocar a sabedoria até acima da saúde!
A sabedoria é superior aos bens da terra, é superior às coisas preciosas e desejadas pelos humanos (poder, riqueza, saúde, beleza). Todos esses bens comparados com a sabedoria tornam-se insignificantes (nada, pouco de areia, lodo). A sabedoria vale mais do que a luz para a visão, porque os olhos iluminados guiam apenas os passos, enquanto que a sabedoria guia a totalidade da vida: «o seu brilho jamais se extingue».

O que pedimos na oração? Importa refletir sobre o ponto de partida que assumimos na hora de focalizar a nossa vida (cristã): partimos do «comum», daquilo que é preferido pela maioria da sociedade, ou partimos da palavra de Deus (Evangelho)? Para o cristão, a chave de leitura da vida e os critérios para o discernimento estão na palavra de Deus. Uma palavra que é «viva e eficaz», quando permitimos que ela penetre a nossa inteligência e coração, pois não se trata de uma teoria, de uma vago pensamento ou sentimento, mas de uma intervenção direta no agir, no estilo de vida. A palavra de Deus é a sabedoria mais valiosa do que qualquer outro bem!

© Laboratório da fé, 2015


Celebrar o domingo vigésimo oitavo (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 9.10.15 | Sem comentários

Anunciar a alegria da fé! [1]


«A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária» (Decreto sobre a atividade missionária da Igreja — AG 2 — bit.ly/AdGentes), a Igreja «existe para evangelizar» (Paulo VI, Exortação Apostólica sobre a evangelização no mundo contemporâneo — EN 14 — bit.ly/PauloVI_EN). Este ano pastoral, focamos a nossa atenção na natureza, identidade, vocação e missão da Igreja: evangelizar. Por isso, «anunciar o Evangelho (fé anunciada) ‘não pode ser apenas o ponto conclusivo dos nossos programas pastorais’, tem de ser ‘a alma de toda a programação e de todos os itinerários de formação cristã’» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga). A partir da Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual [EG — bit.ly/EG_Alegria_Evangelho], vamos propor uma reflexão semanal (ao longo de 42 semanas) em três partes: evangelizar; discípulos missionários; paróquias missionárias.

Anunciar o Evangelho: a missão da Igreja

A Igreja nasceu da experiência fundadora de Jesus Cristo que foi enviado pelo Pai para salvar o mundo (cf. AG 3). Tendo vivido na história humana, Jesus Cristo confia uma missão clara aos seus discípulos: «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos» (Mateus 28, 19); «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura» (Marcos, 16, 15). Com a consciência deste compromisso missionário, Paulo exprime-se assim numa das suas cartas: «Ai de mim, se eu não evangelizar!» (1Cor 9, 16). De então para cá, a Igreja continuou esta missão, ainda que o tenha feito de forma diversificada consoante as épocas. Chegados ao século XXI, surgem repetidas constatações semelhantes à que foi pronunciada pelos Bispos de Portugal: «O Evangelho de Jesus Cristo é cada vez menos conhecido. E para uma parte significativa daqueles que dizem conhecê-lo, é notório que já perdeu muito do seu encanto e significado. Este cenário é preocupante e pede, com urgência, à Igreja presente na cidade dos homens uma nova cultura de evangelização, que vá muito para além de uma simples pastoral de manutenção» (Carta Pastoral dos Bispos de Portugal, «Como Eu fiz, fazei vós também». Para um rosto missionário da Igreja em Portugal, 2010, 3 — bit.ly/BP_ComoEuFiz).

O que é evangelizar?

No décimo aniversário do encerramento do II Concílio do Vaticano, e na sequência do Sínodo dos Bispos (1974), Paulo VI apresentou, em 1975, a Exortação Apostólica sobre a evangelização (EN). Neste documento, o Papa define assim o significado do termo evangelizar: «Evangelizar, para a Igreja, é levar a Boa Nova a todas as parcelas da humanidade, em qualquer meio e latitude, e pelo seu influxo transformá-las a partir de dentro e tornar nova a própria humanidade: ‘Eis que faço de novo todas as coisas’. No entanto não haverá humanidade nova, se não houver em primeiro lugar homens novos, pela novidade do batismo e da vida segundo o Evangelho. A finalidade da evangelização, portanto, é precisamente esta mudança interior; e se fosse necessário traduzir isso em breves termos, o mais exato seria dizer que a Igreja evangeliza quando, unicamente firmada na potência divina da mensagem que proclama, ela procura converter ao mesmo tempo a consciência pessoal e coletiva dos homens, a atividade em que eles se aplicam, e a vida e o meio concreto que lhes são próprios» (EN 18). E concretiza: «Não haverá nunca evangelização verdadeira se o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus, não forem anunciados» (EN 22). A evangelização acontece quando as palavras e os gestos, isto é, a vida de Jesus Cristo toca a mente e o coração das pessoas. Antes de mais, é «uma mudança interior», faz-se «a partir de dentro» provocando um novo estilo de vida, o estilo de vida cristão. Entretanto, João Paulo II propõe a necessidade «não de reevangelização mas de uma evangelização nova. Nova no seu entusiasmo, nos seus métodos, na sua expressão» (bit.ly/CELAM931983). Usadas pela primeira vez a 9 de março de 1983, no discurso na abertura da XIX Assembleia do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), as palavras «nova evangelização» tornaram-se comuns no contexto eclesial. Bento XVI continua na mesma linha ao convocar, em 2012, o Sínodo dos Bispos sobre «a nova evangelização para a transmissão da fé cristã». Entretanto, na sequência da resignação de Bento XVI, foi eleito o papa Francisco que, em vez da (habitual) Exortação Pós-Sinodal, num estilo de linguagem diferente, decidiu propor a todos os cristãos «uma nova etapa evangelizadora» marcada pela alegria, apresentando «caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos» (EG 1).

© Laboratório da fé, 2015 









Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.10.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [6]


A segunda parte da GS aborda as reflexões pastorais e orientações que a Igreja quis manifestar sobre «alguns problemas mais urgentes» que afetam profundamente a humanidade, especificamente: «a promoção da dignidade do Matrimónio e da Família»; «a conveniente promoção do progresso cultural»; «a vida económico-social»; «a vida da comunidade política»; «a promoção da paz e a Comunidade Internacional». «O Concílio dirige agora a atenção de todos, à luz do Evangelho e da experiência humana, para algumas necessidades mais urgentes do nosso tempo, que profundamente afetam a humanidade». Sobre cada uma «devem resplandecer os princípios e as luzes que provêm de Cristo e que dirigirão os cristãos e iluminarão todos os humanos na busca da solução para tantos e tão complexos problemas» (GS 46). Neste tema apresentamos o resumo do primeiro capítulo.

O Matrimónio e a Família no mundo atual

A pessoa humana nasce no seio de uma família, querida pelo Criador a partir da união do homem e da mulher, colaboradores na obra da Criação. E cada família deve ser construída sobre a comunhão e o amor, tal qual a Santíssima Trindade, sendo considerada a primeira manifestação da comunidade humana, cuja expressão do amor maior se manifesta na geração de uma nova vida. Com Jesus Cristo, a família alcança nova dimensão no Sacramento do Matrimónio, marcado pela entrega, renúncia e doação que o próprio Jesus Cristo dedicou à humanidade. Neste sentido, Jesus Cristo é o esposo, cuja esposa é a Igreja. Jesus Cristo, aquele que ama, redime e cuida da Igreja, torna-se modelo de relação matrimonial. «Por isso, a família cristã, nascida de um matrimónio que é imagem e participação da aliança de amor entre Cristo e a Igreja, manifestará a todos a presença viva do Salvador no mundo e a autêntica natureza da Igreja, quer por meio do amor dos esposos, quer pela sua generosa fecundidade, unidade e fidelidade, quer pela amável cooperação de todos os seus membros» (GS 48). Por conseguinte, para a Igreja, o Matrimónio e a Família são instituições fundamentais para a preservação da vida e para a constituição e a manutenção da sociedade, por isso se compromete na defesa contra a poligamia, o divórcio, o egoísmo, o hedonismo, e quaisquer «práticas ilícitas contra a geração». E afirma, ainda, que as condições económicas, sociais e políticas também causam diversas perturbações na família e na sociedade. «Por tal motivo, o Concílio, esclarecendo alguns pontos da doutrina da Igreja, deseja ilustrar e robustecer os cristãos e todos os que se esforçam por proteger e fomentar a nativa dignidade do estado matrimonial e o seu alto e sagrado valor» (GS 47).

O amor e a fecundidade

«A Palavra de Deus convida repetidas vezes os noivos a alimentar e robustecer o seu noivado com um amor casto, e os esposos a sua união com um amor indiviso. [...] Este amor tem a sua expressão e realização peculiar no ato próprio do matrimónio» (GS 49). Ora, «os filhos são, sem dúvida, o maior dom do matrimónio e contribuem muito para o bem dos próprios pais. No entanto, o matrimónio não foi instituído só em ordem à procriação da prole. A própria natureza da aliança indissolúvel entre as pessoas e o bem da prole exigem que o mútuo amor dos esposos se exprima convenientemente, aumente e chegue à maturidade. E por isso, mesmo que faltem os filhos, tantas vezes ardentemente desejados, o matrimónio conserva o seu valor e indissolubilidade, como comunidade e comunhão de toda a vida» (GS 50).

O amor e o respeito pela vida

«Quando se trata de conciliar o amor conjugal com a transmissão responsável da vida, a moralidade do comportamento não depende apenas da sinceridade da intenção e da apreciação dos motivos; deve também determinar-se por critérios objetivos, tomados da natureza da pessoa e dos seus atos; critérios que respeitem, num contexto de autêntico amor, o sentido da mútua doação e da procriação humana. Tudo isto só é possível se se cultivar sinceramente a virtude da castidade conjugal» (GS 51).

O progresso e a promoção do Matrimónio e da Família 

A Igreja entende a família como uma escola de humanização que orienta os filhos para serem capazes de seguir com responsabilidade a sua vocação. Por isso, exorta a sociedade, os cientistas, e especialmente todos os cristãos a promoverem a dignidade do Matrimónio e da Família, a fim de garantir que a sociedade possa se perpetuar segundo os valores da vida. «Protejam-se também e ajudem-se convenientemente, por meio duma previdente legislação e com iniciativas várias, aqueles que por infelicidade não beneficiam duma família» (GS 52).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.10.15 | Sem comentários
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