Anunciar a alegria da fé! [3]


A exemplo do II Concílio do Vaticano, na Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual («Gaudium et Spes» — GS), e de Paulo VI, na Exortação Apostólica sobre a alegria cristã («Gaudete in Domino» — GD), a EG coloca de novo o tema da alegria no caminho da Igreja. «A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus» (EG 1). Esta alegria, que possui um alcance universal, começa por ser proposta em dois momentos: acolher a alegria do Evangelho, renovar a alegria do encontro com Jesus Cristo; levar aos outros, comunicar-lhes essa mesma alegria.

Alegria universal

A EG retoma as palavras do papa Paulo VI para recordar que «da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído» (EG 2; GD 297). Este alcance universal é uma das consequências da transformação missionária que resulta do encontro com o Ressuscitado.

Alegria que se renova

A EG convida a uma alegria simples e desprendida, pois ela nasce do encontro com Alguém que muda tudo: «Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria» (EG 1). Por isso, o Papa convida «todo o cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar» (EG 3). Esta alegria não é uma alegria ingénua. O cristão sabe, por experiência própria, que há «etapas e circunstâncias da vida, por vezes muito duras», nas quais «a alegria não se vive da mesma maneira». Contudo, existe sempre a segurança de «um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados» e de que «a misericórdia do Senhor não acaba, não se esgota a sua compaixão. Cada manhã ela se renova» (EG 6).

Alegria na Sagrada Escritura

«O Evangelho, onde resplandece gloriosa a Cruz de Cristo, convida insistentemente à alegria» (EG 5). O texto recorda alguns dos momentos evangélicos mais significativos onde se reflete esta dimensão jubilosa: saudação do anjo a Maria; visita de Maria a Isabel; início do ministério de Jesus Cristo. «A sua mensagem é fonte de alegria [...]. A nossa alegria cristã brota da fonte do seu coração transbordante». A mesma alegria repercute-se na vida dos primeiros discípulos, conforme destaca o livro dos Atos dos Apóstolos. «Porque não havemos de entrar, também nós, nesta torrente de alegria?» (EG 5). É a alegria do discipulado, é a alegria da salvação que tinha sido preanunciada no Antigo Testamento e «que havia de tornar-se superabundante nos tempos messiânicos». Entre outras, destacam-se as palavras dos profetas Isaías, Zacarias, Sofonias. Deste, para o papa Francisco, surge o «convite mais tocante [...] que nos mostra o próprio Deus como um centro irradiante de festa e de alegria, que quer comunicar ao seu povo este júbilo salvífico. Enche-me de vida reler este texto: ‘O Senhor, teu Deus, está no meio de ti como poderoso salvador! Ele exulta de alegria por tua causa, pelo seu amor te renovará. Ele dança e grita de alegria por tua causa’ (3, 17)». Hoje, esta «é a alegria que se vive no meio das pequenas coisas da vida quotidiana, como resposta ao amoroso convite de Deus nosso Pai» (EG 4).

Alegria que se comunica

A EG fala mais da alegria do que da cruz. A nossa meta é a Páscoa. Infelizmente, «há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa» (EG 6). São os que se deixam seduzir pela tentação de inventar «desculpas e queixas, como se tivesse de haver inúmeras condições para ser possível a alegria» (EG 7). São aqueles que se tornam permeáveis às propostas consumistas que produzem «uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada». E tornam-se «pessoas ressentidas, queixosas, sem vida» (EG 2). Mas há outro caminho! O Papa recorda que «as alegrias mais belas e espontâneas, que vi ao longo da minha vida, são as alegrias de pessoas muito pobres que têm pouco a que se agarrar. Recordo também a alegria genuína daqueles que, mesmo no meio de grandes compromissos profissionais, souberam conservar um coração crente, generoso e simples. De várias maneiras, estas alegrias bebem na fonte do amor maior, que é o de Deus, a nós manifestado em Jesus Cristo» (EG 7). Por isso, «se alguém acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de o comunicar aos outros?» (EG 8).

O tom geral da minha vida é alegre e otimista? Renovo dia a dia o encontro com Jesus Cristo como fonte da minha alegria? Comunico-a aos outros?

© Laboratório da fé, 2015 





Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.10.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [8]


O terceiro capítulo da segunda parte da GS destaca que a dignidade do ser humano também deve ser respeitada e promovida nas relações económicas da sociedade. E lembra que o ser humano «é o protagonista, o centro e o fim de toda a vida económico-social» (GS 63). Neste tema, apresentamos o resumo do referido capítulo que se divide em duas secções: «o desenvolvimento económico»; «alguns princípios orientadores de toda a vida económico-social». Neste âmbito, como em todos os outros, há aspetos positivos, «mas não faltam motivos de inquietação»: obsessão desmedida pela economia; agravamento das desigualdades; desprezo pelos pobres; coexistência do luxo com a miséria; vidas e trabalhos indignos da pessoa humana. «Semelhantes desequilíbrios verificam-se tanto entre a agricultura, a indústria e os serviços como entre as diferentes regiões do mesmo país» (GS 63).

O desenvolvimento económico

«Hoje, mais do que nunca, para fazer frente ao aumento populacional e satisfazer às crescentes aspirações do género humano, com razão se faz um esforço por aumentar a produção agrícola e industrial e a prestação de serviços. [...] Mas a finalidade fundamental da produção não é o mero aumento dos produtos, nem o lucro ou o poderio, mas o serviço do ser humano; do ser humano integral, isto é, tendo em conta a ordem das suas necessidades materiais e as exigências da sua vida intelectual, moral, espiritual e religiosa» (GS 64). Por isso, «o desenvolvimento não se deve abandonar ao simples curso quase mecânico da atividade económica» (GS 65). E «é necessário esforçar-se para que [...] se eliminem o mais depressa possível as grandes e crescentes desigualdades económicas atualmente existentes, acompanhadas da discriminação individual e social» (GS 66).

Alguns princípios orientadores de toda a vida económico-social

O que sustenta a economia é o trabalho humano. «É com o seu trabalho que o ser humano sustenta de ordinário a própria vida e a dos seus; por meio dele se une e serve aos seus irmãos, pode exercitar uma caridade autêntica e colaborar no acabamento da criação divina» (GS 67). Assim, mais que um dever, o trabalho é um direito que deve ser assegurado pela lei, pois todo o ser humano tem direito ao salário, a condições humanizantes de trabalho e ao justo descanso para viver e dar vida digna aos seus. Além disso, «entre os direitos fundamentais da pessoa humana deve contar-se o de os trabalhadores criarem livremente associações que os possam representar autenticamente e contribuir para a reta ordenação da vida económica» (GS 68). A Igreja recorda também a importância do destino universal dos bens. Por isso, «sejam quais forem as formas de propriedade, [...] deve-se sempre atender a este destino universal dos bens» (GS 69). E «tenham-se sempre também em conta as necessidades urgentes das nações ou regiões economicamente menos desenvolvidas» (GS 70). É certo que a Igreja defende a propriedade privada: «A propriedade privada ou um certo domínio sobre os bens externos asseguram a cada um a indispensável esfera de autonomia pessoal e familiar, e devem ser considerados como que uma extensão da liberdade humana» (GS 71). Mas considera-a um direito relativo em relação ao bem comum e universal: o conjunto das condições de vida de uma sociedade que favorecem o bem-estar e o desenvolvimento humano de todos. «De resto, a mesma propriedade privada é de índole social, fundada na lei do destino comum dos bens. O desprezo deste carácter social foi muitas vezes ocasião de cobiças e de graves desordens, chegando mesmo a fornecer um pretexto para os que contestam esse próprio direito» (GS 72). Assim, a Igreja considera que a propriedade privada só é licita quando produz e propicia o trabalho e, somente nesta perspetiva ela pode ser defendida, pois as propriedades privadas improdutivas não permitem que outros, nomeadamente os pobres, nelas se fixem e delas tirem o seu sustento. A terminar este capítulo recorda-se que «os cristãos que desempenham parte ativa no atual desenvolvimento económico-social e lutam pela justiça e pela caridade, estejam convencidos de que podem contribuir muito para o bem da humanidade e paz do mundo. Em todas estas atividades, quer sozinhos quer associados, sejam exemplo para todos. Adquirindo a competência e experiência absolutamente indispensáveis, respeitem a devida hierarquia entre as atividades terrenas, fiéis a Cristo e ao seu Evangelho, de maneira que toda a sua vida, tanto individual como social, seja penetrada do espírito das bem-aventuranças, e especialmente do espírito de pobreza» (GS 73).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.10.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO VIGÉSIMO NONO


Exigência, radicalidade: o que nos parece difícil, Jesus Cristo fê-lo de forma absoluta, para nos salvar. Percebemo-lo neste vigésimo nono domingo (Ano B), no evangelho segundo Marcos, depois de ter feito aos apóstolos o terceiro anúncio da Paixão, Jesus Cristo revela-lhes o segredo do seu caminho. Ele é o Servo de Deus anunciado pelo profeta (primeira leitura). E mesmo que Tiago e João não o compreendam, Jesus Cristo repete a necessidade de passar pela Cruz, a importância de amar e servir (evangelho). Carregando sobre si as nossas fraquezas, Jesus Cristo introduz-nos na vida de Deus (segunda leitura), faz-nos mergulhar na misericórdia (salmo).

«O justo, meu servo, justificará a muitos»
A segunda parte do livro de Isaías (Segundo Isaías) recolheu um conjunto de poemas e cânticos referentes ao Servo de Yahveh (Deus) de uma forma que ainda hoje continua enigmática. Os poemas não têm relação com o conjunto do livro: centram-se numa pessoa, enquanto o resto do livro (Segundo Isaías) tem como protagonista o povo desterrado. Os poemas do Servo referem-se a um personagem débil, frágil, ao passo que os convites a regressar a Judá expressam fortaleza, segurança. Os cânticos do Servo parecem a narração poética de um fracasso, mas as exortações ao regresso anunciam um futuro esplendoroso.
Então, o que é que une estes poemas ao resto do livro? A salvação oferecida por Deus: no resto do livro, apresenta-se sob a imagem de um novo êxodo; nos poemas do Servo, é através do seu sofrimento pessoal que acontece a justificação de «muitos».
A primeira leitura coloca-nos perante um fragmento do quarto Cântico do Servo de Deus (52, 13 — 53, 12). Este Servo experimentou uma vida de sofrimento: «Aprouve ao Senhor esmagar o seu servo pelo sofrimento». Com isto, parece que já nada mais podia acontecer. Mas Isaías faz-nos saber que não se trata do último momento, esse não será o fim.
Deus tem outro desígnio: «Terá uma descendência duradoira, viverá longos dias, e a obra do Senhor prosperará em suas mãos. […] Verá a luz e ficará saciado na sua sabedoria». Deus quer que o Servo, que antes tinha dado tudo, agora receba tudo. Deus não o abandona. Nem ao Servo, nem aos outros. No Servo, Deus revela-se como Redentor: na debilidade do Servo esmagado pelo sofrimento torna-se presente a salvação. E não o fará de forma violenta, impetuosa, mas segundo os desígnios surpreendentes de Deus: toma sobre si as iniquidades dos outros.

«O justo, meu servo, justificará a muitos»: faz com que outros recebam os benefícios da sua fidelidade e do seu sofrimento, pois assumiu as «iniquidades» desses «muitos». Aqui há um mistério da justiça divina que justifica uma multidão através do sofrimento dum que é fiel até ao fim. O sofrimento não é um castigo divino, mas consequência da fidelidade ao amor que se recusa a entrar no jogo dos opressores. O caminho que se inicia no Servo há de culminar em Jesus Cristo: «o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos».

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo vigésimo nono (Ano B), no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.10.15 | Sem comentários

Anunciar a alegria da fé! [2]


«Quero, com esta Exortação, dirigir-me aos fiéis cristãos a fim de os convidar para uma nova etapa evangelizadora marcada por esta alegria e indicar caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos» (EG 1) — afirma o papa Francisco, no primeiro número da Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual [EG — bit.ly/EG_Alegria_Evangelho]. A EG apresenta-se como um texto prioritário nesta que é uma etapa decisiva na tomada de consciência por parte da Igreja da sua missão e dos desafios que lhe são colocados nos tempos atuais.

Uma novidade do papa Francisco

A novidade do documento está profundamente interligada com a novidade que o papa Francisco trouxe ao exercício do seu ministério. O texto está carregado de gestos e palavras nos quais se reconhece (com facilidade) a personalidade do papa Francisco. A EG não é apenas o resultado das «conclusões» da XIII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos realizado entre os dias 7 e 28 de outubro de 2012, sobre «a nova evangelização para a transmissão da fé cristã». Até aqui era um costume do Papa apresentar, em forma de «Exortação Apostólica Pós-Sinodal», a sua reflexão baseada nas propostas sinodais. Ora, a EG vai muito para além dos conteúdos resultantes do Sínodo dos Bispos. É certo que, em vários pontos, o Papa menciona o tema e as «proposições» sinodais (cf. EG 14, 16, 73, 112, 245). Contudo, quis ir mais longe: «Com prazer, aceitei o convite dos Padres sinodais para redigir esta Exortação. Para o efeito, recolho a riqueza dos trabalhos do Sínodo; consultei também várias pessoas e pretendo, além disso, exprimir as preocupações que me movem neste momento concreto da obra evangelizadora da Igreja. Os temas relacionados com a evangelização no mundo atual, que se poderiam desenvolver aqui, são inumeráveis. Mas renunciei a tratar detalhadamente esta multiplicidade de questões que devem ser objeto de estudo e aprofundamento cuidadoso. [...] Aqui escolhi propor algumas diretrizes que possam encorajar e orientar, em toda a Igreja, uma nova etapa evangelizadora, cheia de ardor e dinamismo». [...] Ajudam a delinear um preciso estilo evangelizador, que convido a assumir em qualquer atividade que se realize» (EG 16-18).

Um documento programático

A EG é oferecida como um texto programático: traça as linhas de rumo para a «nova primavera» que o papa Francisco quer fazer acontecer na Igreja e no mundo. A EG é um texto programático, isto é, tem como intenção renovar todos os aspetos da vida e levar os cristãos e as comunidades a assumir um renovado compromisso missionário. «Não ignoro que hoje os documentos não suscitam o mesmo interesse que noutras épocas, acabando rapidamente esquecidos. Apesar disso sublinho que, aquilo que pretendo deixar expresso aqui, possui um significado programático e tem consequências importantes. Espero que todas as comunidades se esforcem por atuar os meios necessários para avançar no caminho duma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Neste momento, não nos serve uma ‘simples administração’. Constituamo-nos em ‘estado permanente de missão’, em todas as regiões da terra» (EG 25).

Uma verdadeira exortação

A EG é uma verdadeira exortação. Sem excluir a reflexão e a argumentação, usa uma linguagem clara que demonstra o estilo simples e próximo do Papa. Não tem como finalidade transmitir «um tratado» (EG 18) ou uma doutrina. Pretende, isso sim, comunicar uma profunda convicção pessoal que brota da sua própria experiência vivencial (e não de conceitos teóricos). E, por isso, pretende também suscitar nos leitores tal experiência que os leve à mesma convicção e a viver em conformidade. A convicção que o papa Francisco transmite é que «a Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria» (EG 1). A EG faz lembrar a alegria com que o papa João XXIII, no dia 11 de outubro de 1962, procedeu ao início do II Concílio do Vaticano: «Alegra-se a Santa Mãe Igreja, porque, por singular dom da Providência divina, amanheceu o dia tão ansiosamente esperado em que solenemente se inaugura o II Concílio Ecuménico do Vaticano» (http://bit.ly/Abertura_IIConcilioVaticano).

A EG é um texto programático, uma exortação a uma «nova etapa evangelizadora». Interrogo-me sobre o meu estado de disponibilidade para tornar possível esta nova etapa: recetivo, desconfiado, indiferente, indisponível?

© Laboratório da fé, 2015 








Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.10.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [7]


A GS é o primeiro documento eclesial a fazer uma reflexão pastoral sobre a importância da cultura. O segundo capítulo da segunda parte da GS aborda «a conveniente promoção do progresso cultural». O conteúdo distribui-se por três secções que vamos resumir neste tema. Segundo os padres conciliares, «a palavra ‘cultura’ indica, em geral, todas as coisas por meio das quais o ser humano apura e desenvolve as múltiplas capacidades do seu espírito e do seu corpo; se esforça por dominar, pelo estudo e pelo trabalho, o próprio mundo; torna mais humana, com o progresso dos costumes e das instituições, a vida social, quer na família quer na comunidade civil; e, finalmente, no decorrer do tempo, exprime, comunica aos outros e conserva nas suas obras, para que sejam de proveito a muitos e até à inteira humanidade, as suas grandes experiências espirituais e as suas aspirações» (GS 53).

Condições da cultura no mundo atual

Os novos estilos de vida provocados pelas mais diversas transformações ocorridas nos últimos tempos permite «falar duma nova era da história humana» (GS 54), de «um novo humanismo, no qual o ser humano se define antes de mais pela sua responsabilidade com relação aos seus irmãos e à história» (GS 55). «Nestas condições, não é de admirar que o ser humano, sentindo a responsabilidade que tem na promoção da cultura, alimente mais dilatadas esperanças, e ao mesmo tempo encare com inquietação as múltiplas antinomias existentes» (GS 56).

Alguns princípios para a conveniente promoção da cultura

Apesar de reconhecer que alguns métodos podem «dar aso a certo fenomenismo e agnosticismo», a Igreja destaca aspetos positivos: «o gosto das ciências e a exata objetividade nas investigações científicas; a necessidade de colaborar com os outros nas equipas técnicas; o sentido de solidariedade internacional; a consciência cada vez mais nítida da responsabilidade que os sábios têm de ajudar e até de proteger os seres humanos; a vontade de tornar as condições de vida melhores para todos e especialmente para aqueles que sofrem da privação de responsabilidade ou de pobreza cultural. Tudo isto pode constituir uma certa preparação para a receção da mensagem evangélica» (GS 57). A Igreja lembra que entre a mensagem da salvação e a cultura humana existem muitos laços, pois Deus «falou segundo a cultura própria de cada época». E a própria Igreja «empregou os recursos das diversas culturas para fazer chegar a todas as gentes a mensagem de Cristo», além de «entrar em comunicação com as diversas formas de cultura, com o que se enriquecem tanto a própria Igreja como essas várias culturas» (58). Por conseguinte, «a Igreja lembra a todos que a cultura deve orientar-se para a perfeição integral da pessoa humana, para o bem da comunidade e de toda a sociedade» (GS 59).

Alguns deveres mais urgentes dos cristãos com relação à cultura

Afirmando que a cultura exige respeito, liberdade e autonomia para se desenvolver, a Igreja exorta as autoridades públicas a favorecerem e a colaborarem para o desenvolvimento cultural. A Igreja apregoa que todos têm o direito à cultura e ao pleno desenvolvimento conforme as qualidades e tradições próprias de cada um, independentemente de raça, sexo, nação, religião ou situação social. «É preciso, além disso, trabalhar muito para que todos tomem consciência, não só do direito à cultura, mas também do dever que têm de se cultivar e de ajudar os outros nesse campo» (GS 60). E «cada ser humano continua a ter o dever de salvaguardar a integridade da pessoa humana, na qual sobressaem os valores da inteligência, da vontade, da consciência e da fraternidade, valores que se fundam em Deus Criador e por Cristo foram admiravelmente restaurados e elevados» (GS 61). Neste contexto, «os teólogos são convidados a buscar constantemente, de acordo com os métodos e exigências próprias do conhecimento teológico, a forma mais adequada de comunicar a doutrina aos homens do seu tempo [...]. Na atividade pastoral, conheçam-se e apliquem-se suficientemente, não apenas os princípios teológicos, mas também os dados das ciências profanas [...]. A Igreja deve também reconhecer as novas formas artísticas [...]. Vivam os fiéis em estreita união com os demais do seu tempo e procurem compreender perfeitamente o seu modo de pensar e sentir, qual se exprime pela cultura. Saibam conciliar os conhecimentos das novas ciências e doutrinas e últimas descobertas com os costumes e doutrina cristã, [...] e sejam capazes de apreciar e interpretar todas as coisas com autêntico sentido cristão» (GS 62).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.10.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO VIGÉSIMO OITAVO


No vigésimo oitavo domingo (Ano B), o evangelho oferece-nos um diálogo de Jesus Cristo com um homem faminto por alcançar a vida eterna. Ocasião para Jesus Cristo recordar as condições para o seguir. Ocasião para lançar um alerta sobre os perigos das riquezas que obstruem o coração e ensombram o olhar (evangelho). O apelo a vender tudo para dar aos pobres pode-nos parecer demasiado radical, pelo que somos livres de rejeitar tal palavra «viva e eficaz» (segunda leitura)… Mas se temos fé, saberemos implorar a sabedoria (primeira leitura), sentiremos fome da bondade divina (salmo): só Deus nos pode saciar com o essencial, com a sabedoria de coração, e, assim, exultarmos de alegria.

«O seu brilho jamais se extingue»
O livro da Sabedoria recebe esse nome, precisamente, por se tratar de uma ponte entre as propostas do mundo helénico (influência grega) e as provenientes do judaísmo. Os gregos propõem um «amor» ao conhecimento, à reflexão, à compreensão da natureza, à meditação sobre os comportamentos humanos. São os pais da «filosofia», que se expande na ética, na política, na metafísica, na epistemologia. O judaísmo não é alheio a essa reflexão e a esse «amor» ao conhecimento, mas concebe-os a partir da relação com o Deus da Aliança que acompanha o povo no desenrolar da história. São duas formas diferentes, necessárias e não excludentes, de aproximação à verdade.
O poema proposto para primeira leitura (provavelmente, escrito no primeiro século antes de Cristo) identifica a aproximação à verdade com a «prudência», que podemos traduzir também como «sensatez», «bom senso»; mas sempre em união com a fé (oração), pois não é uma conquista humana, mas dom de Deus.
Qualquer pessoa que vive com critério sabe que o poder («cetros e tronos») é passageiro e passível de atraiçoar o sentido da vida; tal como as riquezas (pedras preciosas, ouro e prata) e a beleza. Surpreende o facto de colocar a sabedoria até acima da saúde!
A sabedoria é superior aos bens da terra, é superior às coisas preciosas e desejadas pelos humanos (poder, riqueza, saúde, beleza). Todos esses bens comparados com a sabedoria tornam-se insignificantes (nada, pouco de areia, lodo). A sabedoria vale mais do que a luz para a visão, porque os olhos iluminados guiam apenas os passos, enquanto que a sabedoria guia a totalidade da vida: «o seu brilho jamais se extingue».

O que pedimos na oração? Importa refletir sobre o ponto de partida que assumimos na hora de focalizar a nossa vida (cristã): partimos do «comum», daquilo que é preferido pela maioria da sociedade, ou partimos da palavra de Deus (Evangelho)? Para o cristão, a chave de leitura da vida e os critérios para o discernimento estão na palavra de Deus. Uma palavra que é «viva e eficaz», quando permitimos que ela penetre a nossa inteligência e coração, pois não se trata de uma teoria, de uma vago pensamento ou sentimento, mas de uma intervenção direta no agir, no estilo de vida. A palavra de Deus é a sabedoria mais valiosa do que qualquer outro bem!

© Laboratório da fé, 2015


Celebrar o domingo vigésimo oitavo (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 9.10.15 | Sem comentários

Anunciar a alegria da fé! [1]


«A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária» (Decreto sobre a atividade missionária da Igreja — AG 2 — bit.ly/AdGentes), a Igreja «existe para evangelizar» (Paulo VI, Exortação Apostólica sobre a evangelização no mundo contemporâneo — EN 14 — bit.ly/PauloVI_EN). Este ano pastoral, focamos a nossa atenção na natureza, identidade, vocação e missão da Igreja: evangelizar. Por isso, «anunciar o Evangelho (fé anunciada) ‘não pode ser apenas o ponto conclusivo dos nossos programas pastorais’, tem de ser ‘a alma de toda a programação e de todos os itinerários de formação cristã’» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga). A partir da Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual [EG — bit.ly/EG_Alegria_Evangelho], vamos propor uma reflexão semanal (ao longo de 42 semanas) em três partes: evangelizar; discípulos missionários; paróquias missionárias.

Anunciar o Evangelho: a missão da Igreja

A Igreja nasceu da experiência fundadora de Jesus Cristo que foi enviado pelo Pai para salvar o mundo (cf. AG 3). Tendo vivido na história humana, Jesus Cristo confia uma missão clara aos seus discípulos: «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos» (Mateus 28, 19); «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura» (Marcos, 16, 15). Com a consciência deste compromisso missionário, Paulo exprime-se assim numa das suas cartas: «Ai de mim, se eu não evangelizar!» (1Cor 9, 16). De então para cá, a Igreja continuou esta missão, ainda que o tenha feito de forma diversificada consoante as épocas. Chegados ao século XXI, surgem repetidas constatações semelhantes à que foi pronunciada pelos Bispos de Portugal: «O Evangelho de Jesus Cristo é cada vez menos conhecido. E para uma parte significativa daqueles que dizem conhecê-lo, é notório que já perdeu muito do seu encanto e significado. Este cenário é preocupante e pede, com urgência, à Igreja presente na cidade dos homens uma nova cultura de evangelização, que vá muito para além de uma simples pastoral de manutenção» (Carta Pastoral dos Bispos de Portugal, «Como Eu fiz, fazei vós também». Para um rosto missionário da Igreja em Portugal, 2010, 3 — bit.ly/BP_ComoEuFiz).

O que é evangelizar?

No décimo aniversário do encerramento do II Concílio do Vaticano, e na sequência do Sínodo dos Bispos (1974), Paulo VI apresentou, em 1975, a Exortação Apostólica sobre a evangelização (EN). Neste documento, o Papa define assim o significado do termo evangelizar: «Evangelizar, para a Igreja, é levar a Boa Nova a todas as parcelas da humanidade, em qualquer meio e latitude, e pelo seu influxo transformá-las a partir de dentro e tornar nova a própria humanidade: ‘Eis que faço de novo todas as coisas’. No entanto não haverá humanidade nova, se não houver em primeiro lugar homens novos, pela novidade do batismo e da vida segundo o Evangelho. A finalidade da evangelização, portanto, é precisamente esta mudança interior; e se fosse necessário traduzir isso em breves termos, o mais exato seria dizer que a Igreja evangeliza quando, unicamente firmada na potência divina da mensagem que proclama, ela procura converter ao mesmo tempo a consciência pessoal e coletiva dos homens, a atividade em que eles se aplicam, e a vida e o meio concreto que lhes são próprios» (EN 18). E concretiza: «Não haverá nunca evangelização verdadeira se o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus, não forem anunciados» (EN 22). A evangelização acontece quando as palavras e os gestos, isto é, a vida de Jesus Cristo toca a mente e o coração das pessoas. Antes de mais, é «uma mudança interior», faz-se «a partir de dentro» provocando um novo estilo de vida, o estilo de vida cristão. Entretanto, João Paulo II propõe a necessidade «não de reevangelização mas de uma evangelização nova. Nova no seu entusiasmo, nos seus métodos, na sua expressão» (bit.ly/CELAM931983). Usadas pela primeira vez a 9 de março de 1983, no discurso na abertura da XIX Assembleia do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), as palavras «nova evangelização» tornaram-se comuns no contexto eclesial. Bento XVI continua na mesma linha ao convocar, em 2012, o Sínodo dos Bispos sobre «a nova evangelização para a transmissão da fé cristã». Entretanto, na sequência da resignação de Bento XVI, foi eleito o papa Francisco que, em vez da (habitual) Exortação Pós-Sinodal, num estilo de linguagem diferente, decidiu propor a todos os cristãos «uma nova etapa evangelizadora» marcada pela alegria, apresentando «caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos» (EG 1).

© Laboratório da fé, 2015 









Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.10.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [6]


A segunda parte da GS aborda as reflexões pastorais e orientações que a Igreja quis manifestar sobre «alguns problemas mais urgentes» que afetam profundamente a humanidade, especificamente: «a promoção da dignidade do Matrimónio e da Família»; «a conveniente promoção do progresso cultural»; «a vida económico-social»; «a vida da comunidade política»; «a promoção da paz e a Comunidade Internacional». «O Concílio dirige agora a atenção de todos, à luz do Evangelho e da experiência humana, para algumas necessidades mais urgentes do nosso tempo, que profundamente afetam a humanidade». Sobre cada uma «devem resplandecer os princípios e as luzes que provêm de Cristo e que dirigirão os cristãos e iluminarão todos os humanos na busca da solução para tantos e tão complexos problemas» (GS 46). Neste tema apresentamos o resumo do primeiro capítulo.

O Matrimónio e a Família no mundo atual

A pessoa humana nasce no seio de uma família, querida pelo Criador a partir da união do homem e da mulher, colaboradores na obra da Criação. E cada família deve ser construída sobre a comunhão e o amor, tal qual a Santíssima Trindade, sendo considerada a primeira manifestação da comunidade humana, cuja expressão do amor maior se manifesta na geração de uma nova vida. Com Jesus Cristo, a família alcança nova dimensão no Sacramento do Matrimónio, marcado pela entrega, renúncia e doação que o próprio Jesus Cristo dedicou à humanidade. Neste sentido, Jesus Cristo é o esposo, cuja esposa é a Igreja. Jesus Cristo, aquele que ama, redime e cuida da Igreja, torna-se modelo de relação matrimonial. «Por isso, a família cristã, nascida de um matrimónio que é imagem e participação da aliança de amor entre Cristo e a Igreja, manifestará a todos a presença viva do Salvador no mundo e a autêntica natureza da Igreja, quer por meio do amor dos esposos, quer pela sua generosa fecundidade, unidade e fidelidade, quer pela amável cooperação de todos os seus membros» (GS 48). Por conseguinte, para a Igreja, o Matrimónio e a Família são instituições fundamentais para a preservação da vida e para a constituição e a manutenção da sociedade, por isso se compromete na defesa contra a poligamia, o divórcio, o egoísmo, o hedonismo, e quaisquer «práticas ilícitas contra a geração». E afirma, ainda, que as condições económicas, sociais e políticas também causam diversas perturbações na família e na sociedade. «Por tal motivo, o Concílio, esclarecendo alguns pontos da doutrina da Igreja, deseja ilustrar e robustecer os cristãos e todos os que se esforçam por proteger e fomentar a nativa dignidade do estado matrimonial e o seu alto e sagrado valor» (GS 47).

O amor e a fecundidade

«A Palavra de Deus convida repetidas vezes os noivos a alimentar e robustecer o seu noivado com um amor casto, e os esposos a sua união com um amor indiviso. [...] Este amor tem a sua expressão e realização peculiar no ato próprio do matrimónio» (GS 49). Ora, «os filhos são, sem dúvida, o maior dom do matrimónio e contribuem muito para o bem dos próprios pais. No entanto, o matrimónio não foi instituído só em ordem à procriação da prole. A própria natureza da aliança indissolúvel entre as pessoas e o bem da prole exigem que o mútuo amor dos esposos se exprima convenientemente, aumente e chegue à maturidade. E por isso, mesmo que faltem os filhos, tantas vezes ardentemente desejados, o matrimónio conserva o seu valor e indissolubilidade, como comunidade e comunhão de toda a vida» (GS 50).

O amor e o respeito pela vida

«Quando se trata de conciliar o amor conjugal com a transmissão responsável da vida, a moralidade do comportamento não depende apenas da sinceridade da intenção e da apreciação dos motivos; deve também determinar-se por critérios objetivos, tomados da natureza da pessoa e dos seus atos; critérios que respeitem, num contexto de autêntico amor, o sentido da mútua doação e da procriação humana. Tudo isto só é possível se se cultivar sinceramente a virtude da castidade conjugal» (GS 51).

O progresso e a promoção do Matrimónio e da Família 

A Igreja entende a família como uma escola de humanização que orienta os filhos para serem capazes de seguir com responsabilidade a sua vocação. Por isso, exorta a sociedade, os cientistas, e especialmente todos os cristãos a promoverem a dignidade do Matrimónio e da Família, a fim de garantir que a sociedade possa se perpetuar segundo os valores da vida. «Protejam-se também e ajudem-se convenientemente, por meio duma previdente legislação e com iniciativas várias, aqueles que por infelicidade não beneficiam duma família» (GS 52).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.10.15 | Sem comentários

Reflexão semanal sobre evangelização e missão


«Anunciar a alegria da fé!» — é o título geral da iniciativa que se vai desenvolver em quarenta e duas reflexões sobre a «fé anunciada», no sentido de «anunciar a alegria do Evangelho» e «implementar a dinâmica missionária em cada comunidade paroquialAs reflexões, elaboradas a partir da Carta Encíclica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual («Evangelii Gaudium») e do Documento de Aparecida (V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe), vão ser publicadas, no «Laboratório da fé», ao ritmo de uma por semana, até finais de julho de dois mil e dezasseis.







      • Anunciar a alegria da fé! — textos publicados no Laboratório da fé > > >


    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.10.15 | Sem comentários

    CELEBRAR O DOMINGO VIGÉSIMO SÉTIMO


    Neste «domingo das famílias», dia em que (re)começa o Sínodo dos Bispos, a Palavra de Deus recorda o fundamento familiar associado ao projeto divino: a criação do ser humano, homem e mulher (primeira leitura). E o salmista canta a felicidade oferecida por Deus, dá graças pela felicidade conjugal (salmo 127). Em continuidade, Jesus Cristo confirma a magnanimidade do amor que une o homem e a mulher: faz deles «uma só carne»; é um amor indissolúvel (evangelho). Porque nos amou com perfeição (segunda leitura), Jesus Cristo não impõe algo impossível de viver, mais convida a segui-lo pelo caminho exigente da verdadeira felicidade.

    «Os dois serão uma só carne»
    A primeira leitura proposta para o vigésimo sétimo domingo (Ano B) situa-se na segunda narrativa da Criação, no livro do Génesis. Depois do relato solene, no primeiro capítulo, estruturado em sete dias, nos quais Deus, através da Palavra, criou o Universo, o segundo capítulo apresenta uma perspetiva diferente. Neste, Deus atua como um oleiro que modela todos os seres criados.
    Importa salientar dois aspetos. O primeiro é óbvio, mas nunca é demais repeti-lo: não se trata dum «tratado de biologia», pelo que qualquer tentativa de explicar a origem da mulher a partir do homem não tem razão de ser. O segundo é que também não se trata dum «tratado de psicologia», pelo que é errado usar o texto para justificar uma suposta primazia do homem sobre a mulher.
    O que está verdadeiramente em causa, tal como no primeiro relato, é a afirmação de que Deus é o Criador e o ser humano é uma criatura: homem e mulher, diferentes, mas complementares. Trata-se duma narração simbólica, expressiva, reflexo da literatura semítica mais antiga, que propõe uma reflexão teológica e antropológica.
    Neste trecho, o homem é convidado a atribuir um nome a «todos os seres vivos» criados por Deus; mas não encontra outro ser «semelhante a ele» para o «auxiliar» e lhe fazer companhia. Surge de novo a iniciativa divina: tomou uma parte do homem («costela») e dela «formou» uma companheira, a mulher. Com um grito de entusiasmo, o homem reconhece alguém verdadeiramente como ele, alguém com quem pode partilhar a vida e dar-lhe sentido. É um dom de Deus Criador!
    O texto original hebraico usa um jogo de palavras — homem (ish) e mulher (ishah) — para expressar a semelhança e a diferença entre ambos. A tradução esquece este (importante) jogo de palavras que expressa uma origem comum, ao mesmo tempo que aponta para um destino também comum: «os dois serão uma só carne».

    Este domingo começa o Sínodo dos Bispos sobre a família: «A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo». É mais uma bela ocasião para pedir ao Espírito Santo que ilumine a mente e o coração dos participantes para que, juntamente com o Papa, sejam capazes de encontrar caminhos adequados para propor a vocação e a missão da família, no contexto atual, segundo a criatividade evangélica: «o anúncio do Evangelho da família constitui uma urgência para a nova evangelização».

    © Laboratório da fé, 2015

    Celebrar o domingo vigésimo sétimo (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.10.15 | Sem comentários

    Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [5]


    O quarto e último capítulo da primeira parte da GS aborda a compreensão do Concílio sobre «a função da Igreja no mundo atual»: apresenta-se como serva do mundo, a exemplo de Jesus Cristo. «No presente capítulo, pressupondo tudo o que o Concílio já declarou acerca do mistério da Igreja, considerar-se-á a mesma Igreja enquanto existe neste mundo e com ele vive e atua». Embora convicta do seu fim «salvador e escatológico», a Igreja de Jesus Cristo neste mundo, organizada como sociedade, é uma comunidade visível que deseja caminhar com a humanidade e ajudar, através dos seus ensinamentos, a tornar a família humana mais fraterna e solidária (GS 40).

    A Igreja ajuda o ser humano

    A Igreja entende que, apesar do desenvolvimento humano e da afirmação dos seus direitos, os quais não só proclama como apoia os que os promovem, existe para ajudar o ser humano na busca pelo «significado da sua vida, da sua atividade e da sua morte». Neste auxílio prestado ao ser humano, destaca-se o Evangelho de Jesus Cristo, pois «nenhuma lei humana pode salvaguardar tão perfeitamente a dignidade pessoal e a liberdade do homem como o Evangelho de Cristo, confiado à Igreja» (GS 41).

    A Igreja ajuda a sociedade

    A Igreja sabe que a missão que lhe foi confiada por Jesus Cristo não é de ordem política, económica ou social, mas de ordem religiosa. «Mas desta mesma missão religiosa deriva um encargo, uma luz e uma energia que podem servir para o estabelecimento e consolidação da comunidade humana segundo a lei divina». Por isso, coloca-se ao serviço da humanidade como promotora, orientadora e colaboradora das instituições, pessoas e associações que procuram preservar a dignidade e bem estar de todos, nomeadamente no apoio aos mais necessitados (GS 42).

    A Igreja ajuda a atividade humana

    Sem esquecer o papel dos bispos e dos presbíteros, o principal destaque está na afirmação de que a Igreja se faz presente no mundo através da ação dos leigos que conscientemente assumem a sua vocação de serviço no mundo como um serviço religioso. Assim, para a Igreja não pode existir oposição entre a fé professada e a vida quotidiana. «Este divórcio entre a fé que professam e o comportamento quotidiano de muitos deve ser contado entre os mais graves erros do nosso tempo». Cabe, pois, aos leigos, evangelizar onde exercem as suas atividades. Porque «o cristão que descuida os seus deveres temporais, falta aos seus deveres para com o próximo e até para com o próprio Deus, e põe em risco a sua salvação eterna». Assim, são testemunhas de Jesus Cristo exercendo no mundo a sua função como membros da Igreja. Quanto aos bispos e presbíteros, além do testemunho que lhes compete nos vários âmbitos da sua missão específica, ressalta-se a importância de anunciarem a mensagem cristã «de tal maneira que todas as atividades terrenas dos fiéis sejam penetradas pela luz do Evangelho. Lembrem-se, além disso, os pastores que, com o seu comportamento e solicitude quotidianos, manifestam ao mundo o rosto da Igreja com base no qual os seres humanos julgam da força e da verdade da mensagem cristã. [...] tornem-se capazes de tomar parte no diálogo com o mundo» (GS 43).

    A Igreja recebe a ajuda do mundo

    A Igreja não ignora o contributo que recebe «da história e evolução do género humano [...]. Ela aprendeu, desde os começos da sua história, a formular a mensagem de Cristo por meio dos conceitos e línguas dos diversos povos [...]. Tudo isto com o fim de adaptar o Evangelho à capacidade de compreensão de todos e às exigências dos sábios. Esta maneira adaptada de pregar a palavra revelada deve permanecer a lei de toda a evangelização». Por isso, para continuar a sua missão e manter a sua mensagem sempre atual, a Igreja necessita «da ajuda daqueles que, vivendo no mundo, conhecem bem o espírito e conteúdo das várias instituições e disciplinas, sejam eles crentes ou não. É dever de todo o Povo de Deus e sobretudo dos pastores e teólogos, com a ajuda do Espírito Santo, saber ouvir, discernir e interpretar as várias linguagens do nosso tempo, e julgá-las à luz da palavra de Deus, de modo que a verdade revelada possa ser cada vez mais intimamente percebida, melhor compreendida e apresentada de um modo conveniente» (GS 44).

    Jesus Cristo, Alfa e Ómega

    O bem que a Igreja presta ao mundo deriva do facto de ser «sacramento universal da salvação». Pela Igreja, «o próprio Senhor o diz: ‘Eis que venho em breve, trazendo comigo a minha recompensa, para dar a cada um segundo as suas obras. Eu sou o alfa e o ómega, o primeiro e o último, o começo e o fim’» (GS 45).

    Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

    © Laboratório da fé, 2015

    II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015

    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.10.15 | Sem comentários

    Outubro Missionário 2015


    As Obras Missionárias Pontifícias da Comissão Episcopal das Missões publicaram, como já é habitual, um guião para ajudar os cristãos, individualmente e em grupo, a crescer no compromisso missionário.  «Dinamizar o mês de Outubro através de reflexões, momentos de oração e celebrações de modo a torná-lo um mês especialmente dedicado à Missão. E a partir deste mês, esta dinâmica, se possa estender ao longo de todo o ano» — pode ler-se no texto de apresentação.



    Oração diária

    31. Para que a Igreja seja no mundo sinal da presença salvadora de Deus, pelo testemunho de vida, palavra e ação, levando todos a participar na grande Festa do Reino de Deus.

    30. Para que os cristãos tenham um coração grande como o de São Paulo, atento às necessidades dos outros, e as instituições da Igreja não se cansem de ajudar os que mais precisam.

    29. Para que a Igreja denuncie o mal no mundo e apresente como solução a misericórdia de Jesus Salvador, colaborando com as pessoas de boa vontade no serviço do bem, da paz e da justiça.

    28. Pela Igreja de Deus, edificada sobre o alicerce dos Apóstolos, para que saiba dar testemunho da ressurreição de Jesus, fazendo ressoar por todo o mundo esta feliz Boa Nova.

    27. Para que o Senhor faça surgir na Igreja fiéis que acolham o chamamento de Jesus e se entreguem ao serviço do Evangelho, reconhecendo o rosto de Cristo em cada um, como o bem-aventurado Gonçalo de Lagos.

    26. Por todos os que sofrem no corpo ou na alma, para que tenham o auxílio daqueles que os rodeiam, sobretudo dos cristãos, vendo neles sinais da presença de Jesus compassivo.

    25. Pelos fiéis das nossas comunidades para que saibam compreender os mais fracos na fé conduzindo-os a Jesus Cristo e estejam atentos às necessidades dos mais pobres.

    24. Pelos missionários, consagrados e leigos, que trabalham em regiões de missão, para que, por intercessão de Santo António Maria Claret, tenham como finalidade a glória de Deus e a salvação do mundo.

    23. Pelos membros da Igreja, para que aprendam a descobrir nos acontecimentos do mundo, sinais da vontade de Deus e a ver nos Sacramentos sinais da presença de Jesus Salvador.

    22. Pelos catecúmenos e batizados, para que neles se acenda o fogo da palavra de Deus, aceitando seguir a Cristo, e pelas famílias divididas por causa do Evangelho, para que se mantenham unidas.

    21. Para que Jesus Cristo, Filho de Deus e de Maria, inspire aqueles que receberam muitos dons, a pô-los ao serviço dos outros, sobretudo os pobres, doentes e desprezados.

    20. Pelos que se preocupam com o futuro, os que creem em Jesus ressuscitado e sabem que, onde abundou o mal, superabundou a graça, e pelos que sofrem muito, para que não percam a esperança.

    19. Pelos filhos da Igreja, para que alcancem a santidade no estado de vida que escolheram, e pelos jovens, a quem o Senhor chama a segui-l’O, para que, a exemplo de São Paulo da Cruz, imitem a Cristo pobre.

    18. Pelos que anunciam Jesus aos mais novos, pelos Associados da Infância Missionária, e pelos missionários que se entregam à Missão, testemunhando pela palavra e pela vida, que Jesus é o Salvador. 

    17. Pelos cristãos do Oriente e do Ocidente, para sejam fiéis a Jesus Cristo até ao fim, como o mártir Santo Inácio de Antioquia que ofereceu a sua vida como «pão limpo de Cristo».

    16. Pelas mulheres que servem a igreja na evangelização, para que, a exemplo de Santa Margarida Maria, vivam o amor de Jesus Cristo por toda a humanidade e O saibam anunciar.

    15. Pelas comunidades cristãs em todo o mundo, pelos filhos que elas geram no batismo, pelas famílias cristãs, para que percorram, como Santa Teresa de Jesus, o caminho da santidade.

    14. Para que os governantes e os políticos não imponham leis insuportáveis aos seus países e as associações de defesa dos cidadãos denunciem as injustiças, defendendo os mais fracos.

    13. Para que a Igreja seja sincera e corajosa em dizer a verdade ao mundo de hoje, não se envergonhando do Evangelho e anunciando-o em palavras e atitudes a todos os que ainda não conhecem o dom da fé.

    12. Para que os pastores e os fiéis se juntem à volta de Jesus para O ouvir e andem atentos aos sinais da presença de Deus no mundo e lhes correspondam.

    11. Para que surjam muitos homens e mulheres que considerem a riqueza como nada e que muitos jovens deixem pais, irmãos, terras e tudo o mais, por causa de Jesus e do Evangelho.

    10. Para que a Virgem Maria, Mãe de Jesus, modelo de quem ama, escuta e vive a palavra de Deus, nos ensine a todos a ser e a fazer como Ela.

    9. Por todos os que combatem contra os poderes do mal, por aqueles que, nesta luta, se juntam a Jesus e O bendizem e por todos os que acreditam que o mal nunca vencerá.

    8. Pelos que fazem o bem a quem precisa de ajuda, pelos que dia a dia oferecem a sua vida a Deus, e pelos que são pacientes mesmo com quem os ofende.

    7. Pelos mais pobres, os migrantes e perseguidos, para que haja sempre alguém que os ajude e lhes anuncie o Evangelho de Jesus.

    6. Pelas donas de casa que recebem alguém, como fez Marta, e pelas que sabem acolher a palavra de Deus, como Maria, para que todas guardem nos seus corações o que Jesus disse.

    5. Por todo o povo cristão que escuta o Evangelho de Jesus Cristo, para que todos descubram que o centro da Sua mensagem está em unir o amor a Deus e o amor ao próximo.

    4. Pelas famílias cristãs que perseveram na unidade e pelos jovens que se preparam para o matrimónio, para que sejam um sinal do amor de Deus, que os santifica na fidelidade ao amor.

    3. Por todos os discípulos enviados em missão, para que experimentem, à luz da fé e da esperança, a alegria de colaborarem com Jesus Cristo na obra do Reino de Deus.

    2. Santos Anjos da Guarda — Pelos missionários, catequistas e todos os evangelizadores, para que anunciem com diligência e alegria a Boa Nova de Jesus Cristo, como o fazem os Anjos de Deus.

    1. Santa Teresa do Menino Jesus — Pela Igreja de Deus, para que, por intercessão de Santa Teresa do Menino Jesus, seja anúncio e profecia do Reino dos Céus na descoberta do caminho do amor servindo a Deus e aos irmãos.

    Outubro Missionário 2015 — Dia Mundial das Missões

    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.10.15 | Sem comentários
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