Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [4]


Segundo a fé cristã, o ser humano é chamado por Deus a transformar o mundo através da sua ação e, especialmente, com o seu trabalho. O terceiro capítulo da primeira parte da GS refere-se à «atividade humana no mundo». Nela, a pessoa encontra o sentido da vida e a realização da sua vocação. A GS enfatiza que o trabalho existe para o ser humano e não o contrário. E também afirma que o trabalho tem uma dimensão social, uma vez que se orienta para o bem comum. Nesta perspetiva, é visto como condição para assegurar à pessoa a sua dignidade, sendo, portanto, um direito humano. Passados 50 anos, constata-se a pertinência a reflexão conciliar, já que numa grande parte dos países o trabalho humano foi (é) considerado apenas como uma mercadoria que a cada dia perde cada vez mais o seu valor o que, por consequência, atinge a compreensão do ser humano, fere a sua dignidade.

O sentido e valor da atividade humana

Graças à inteligência, à técnica e à ciência, o ser humano alcançou muitos bens que contribuíram para melhorar a qualidade da vida. Todavia, isto parece ter também contribuído para a perda do significado antropológico do trabalho e da própria vocação humana. Desta realidade brotam perguntas tais como: «Qual o sentido e valor desta atividade? Como se devem usar estes bens? Para que fim tendem os esforços dos indivíduos e das sociedades?». A Igreja, à luz da Palavra de Deus, quer dar o seu contributo para ajudar a responder a estas e outras questões relacionadas com o trabalho humano (GS 33). Para os que têm fé, a atividade humana, individual ou coletiva, corresponde à vontade de Deus, pois decorre do mandato de cultivar e guardar a terra (cf. Génesis 2, 15). Logo, é como um prolongamento da atividade divina na construção do mundo. «Isto aplica-se também às atividades de todos os dias. Assim, os homens e as mulheres que, ao ganhar o sustento para si e suas famílias, de tal modo exercem a própria atividade que prestam conveniente serviço à sociedade, com razão podem considerar que prolongam com o seu trabalho a obra do Criador, ajudam os seus irmãos e dão uma contribuição pessoal para a realização dos desígnios de Deus na história» (GS 34). Pelo trabalho, o ser humano transforma o mundo e a sociedade, mas também se constrói enquanto pessoa humana e descobre a sua vocação integral. Neste sentido, de forma profética, a GS afirma que, aquilo que o ser humano faz para promover a justiça, a fraternidade e o bem comum é muito superior a qualquer progresso técnico (GS 35).

A autonomia das realidades terrestres

A Igreja reconhece a «justa autonomia das realidades terrestres», sem contudo aceitar que «a íntima ligação entre a atividade humana e a religião constitua um obstáculo para a autonomia dos humanos, das sociedades ou das ciências». Tanto a religião como a ciência têm origem em Deus; por isso, não são incompatíveis. «A investigação metódica em todos os campos do saber, quando levada a cabo de um modo verdadeiramente científico e segundo as normas morais, nunca será realmente oposta à fé». Ora, a dita autonomia não significa afastar Deus da atividade humana, «pois, sem o Criador, a criatura não subsiste» (GS 36).

A lei do amor para um novo céu e uma nova terra

O progresso é um grande bem, mas também pode fazer esquecer a importância de fazer do mundo «um lugar de verdadeira fraternidade». Por isso, a Igreja «ao mesmo tempo que reconhece que o progresso humano pode servir para a verdadeira felicidade», lembra «que todas as atividades humanas, constantemente ameaçadas pela soberba e amor próprio desordenado, devem ser purificadas e levadas à perfeição pela cruz e ressurreição de Cristo» (GS 37). De facto, todo o esforço em construir um mundo novo e fraterno adquire um novo sentido pela fé em Jesus Cristo. «Ele revela-nos que ‘Deus é amor’ (1João 4, 8) e ensina-nos ao mesmo tempo que a lei fundamental da perfeição humana e, portanto, da transformação do mundo, é o novo mandamento do amor». Isto reflete-se «nas coisas grandes, mas, antes de mais, nas circunstâncias ordinárias da vida». Hoje, o Ressuscitado, pelo Espírito Santo e pelos Sacramentos, alimenta «o desejo da vida futura», mas «anima, purifica e fortalece também aquelas generosas aspirações que levam a humanidade a tentar tornar a vida mais humana» (GS 38). Por conseguinte, a certeza do Reino não deve acomodar os cristãos, mas «ativar a solicitude em ordem a desenvolver esta terra, onde cresce o corpo da nova família humana, que já consegue apresentar uma certa prefiguração do mundo futuro» (GS 39).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.9.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO VIGÉSIMO SEXTO


A Palavra de Deus elogia a abertura do Espírito e convida-nos a acolher com benevolência todas as pessoas que fazem o bem. Na verdade, o Espírito Santo não reconhece as barreiras que queremos impor aos outros. Ele sopra onde quer; e ninguém pode ousar ser destinatário exclusivo dos seus dons (primeiro leitura). E também não podemos pensar que temos o direito de exigir este ou aquele privilégio em função das riquezas ou da pertença à Igreja… O mais importante, o que resulta dos ensinamentos divinos que alegram o coração (salmo), é a fé vivida na atenção às necessidades dos outros (segunda leitura), a fé vivida com coerência e orientada pelo amor (evangelho), seguindo os passos de Jesus Cristo.

«Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta»
O livro dos Números recebe o nome do recenseamento — o número de pessoas — do povo de Deus descrito nos primeiros capítulos. O povo judeu tinha sido libertado da escravidão do Egito; sob a batuta de Moisés, caminha pelo deserto até à Terra Prometida.
O texto proposto para primeira leitura do vigésimo sexto domingo (Ano B) refere a ação do Espírito de Deus entre o povo. Depois de Deus ter entregue ao povo os Dez Mandamentos, Moisés é a única pessoa que fala com Deus. Contudo, Moisés sozinho não consegue governar um povo tão numeroso, de maneira que Deus retira parte do Espírito dado a Moisés e distribui-o por setenta anciãos que constituíam o conselho de governo. Estes experimentam de imediato a força do Espírito. Inclusive dois homens que não se tinham aproximado da tenda também recebem a força do Espírito. O jovem Josué, zeloso da missão exclusiva do seu mestre, vai denunciar o acontecimento a Moisés. Este, ao contrário do que era esperado, dá-lhe uma admoestação que é, ao mesmo tempo, um desejo para todos: «Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta».
Há de acontecer algo semelhante no tempo de Jesus Cristo, quando os discípulos denunciam a ação miraculosa de alguém que, supostamente, não fazia parte do grupo. Na esteira de Moisés, a resposta surpreende-os: «Ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de Mim». Esta é a atitude que se pede aos cristãos: profetizar e agir em nome de Jesus Cristo; e alegrar-se pelo bem realizado pelas pessoas de boa vontade, mesmo que não pertençam ao (nosso) grupo.

O II Concílio do Vaticano foi muito sensível a esta visão de fé sobre as realidades positivas que há para além da Igreja: «O mesmo Senhor nem sequer está longe daqueles que buscam, na sombra e em imagens, o Deus que ainda desconhecem […]. Nem a divina Providência nega os auxílios necessários à salvação àqueles que, sem culpa, não chegaram ainda ao conhecimento explícito de Deus e se esforçam, não sem o auxílio da graça, por levar uma vida reta. Tudo o que de bom e verdadeiro neles há, é considerado pela Igreja como preparação para receberem o Evangelho, dado por Aquele que ilumina todos os homens, para que possuam finalmente a vida» (Constituição Dogmática sobre a Igreja — Lumen Gentium, 16).

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Celebrar o domingo vigésimo sexto (Ano B), no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.9.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO VIGÉSIMO QUINTO


Jesus Cristo, pela segunda vez, anuncia a Paixão aos discípulos (evangelho). E acrescenta um ensinamento sobre o serviço: o maior é aquele que serve, aquele que ama. Ele é o exemplo mais perfeito deste ensinamento: por nós, fez-se servo, o Justo perseguido (primeira leitura). Seguindo os seus passos, somos convidados a fazer o mesmo, sob o olhar de Deus. Na certeza de que, quaisquer que sejam as ameaças, Deus está do nosso lado (salmo). Por isso, não cedamos ao facilitismo: inveja e cobiças provocam más ações; mas nós somos chamados a praticar o bem e viver em paz (segunda leitura), com a graça de Deus.

«Se o justo é filho de Deus, Deus o protegerá»
O livro da Sabedoria foi escrito em grego, na cidade de Alexandria, no Egito, numa data próxima da alvorada do acontecimento cristão.
A primeira parte do livro expõe algumas reflexões profundas sobre o justo e a justiça. Esta é muito mais do que uma realidade política e social; é um valor que compreende todos os âmbitos da existência: a relação da pessoa com Deus, o cumprimento da Lei, o compromisso em favor do bem comum. A via da justiça é, portanto, o caminho sapiencial.
O texto proposto para primeira leitura do vigésimo quinto domingo (Ano B) destaca dois tipos de pessoas: o justo que acredita em Deus e o ímpio que, além de não acreditar, troça de quem tem confiança em Deus. Percebe-se que o justo incomoda porque não pactua com as obras dos ímpios, censura e repreende os comportamentos incorretos.
O ímpio é aquele que vive sem Deus: está convencido de que Deus nada faz, por isso pensa que pode agir impunemente contra a vida do justo; e até ridiculariza: «se o justo é filho de Deus, Deus o protegerá».
No texto, ainda que não o diga claramente, pode-se intuir uma referência à vida depois da morte: «Condenemo-lo à morte infame, porque, segundo diz, Alguém virá socorrê-lo». O livro da Sabedoria supõe um «avanço» indiscutível na revelação bíblica sobre a vida depois da morte que culminará na Ressurreição de Jesus Cristo (e na promessa de um «novo céu e de uma nova terra»).
Outro aspeto que importa destacar é a antecipação da figura do «justo» que cumpre a vontade de Deus, mas é recusado pelos seus contemporâneos. Desta forma se antecipa a condenação à morte de Jesus Cristo.
A mensagem é clara: Deus está sempre do lado dos justos, não os abandona, antes protege e socorre os seus filhos. Recordemos que depois do silêncio de Sexta-feira Santa surge a explosão da Páscoa!

«A sanidade espiritual depende de vermos que, em cada momento de cada dia, Deus faz o que fez na Sexta-feira Santa, não deixando que o mal, a morte e a destruição tivessem a última palavra, mas enobrecendo a humanidade com uma resiliência extraordinária e, através do poder de uma graça assombrosa, permite-nos aproveitar ao máximo mesmo as piores situações, deixando que a luz e a vida tenham a última palavra. O domingo de Páscoa é a resposta de Deus à Sexta-feira Santa: a vida tirada da morte» (Richard Leonard, Onde diabo está Deus?, ed. Paulinas).

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Celebrar o domingo vigésimo quinto (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.9.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [3]


O segundo capítulo da primeira parte da GS — «A Igreja e a vocação do ser humano» — aborda a temática da comunidade humana. No intuito de intensificar o diálogo fraterno entre os humanos, este documento conciliar recorda que a revelação cristã favorece a comunhão entre as pessoas e, ao mesmo tempo, «leva a uma compreensão mais profunda das leis da vida social que o Criador inscreveu na natureza espiritual e moral do ser humano. Dado, porém, que recentes documentos do magistério eclesiástico expuseram a doutrina cristã acerca da sociedade humana, o Concílio limita-se a recordar algumas verdades mais importantes e a expor o seu fundamento à luz da revelação» (GS 23).

Vocação humana e sociedade

A Igreja sabe que a vocação à comunidade é inerente ao ser humano, pois a vida tem origem em Deus que colocou, no coração dos homens e mulheres, a vocação a ser membro da família humana. E Jesus Cristo ensinou que o amor a Deus não pode ser separado do amor ao próximo (GS 24). Neste sentido, cada pessoa é chamada a participar nas mais variadas instituições sociais com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento das outras pessoas. E, como membro, também tem o direito a ser beneficiada pelas ações dessas instituições. «No nosso tempo, devido a várias causas, as relações e interdependências mútuas multiplicam-se cada vez mais; o que dá origem a diversas associações e instituições, quer públicas quer privadas. Este facto, denominado socialização, embora não esteja isento de perigos, traz, todavia, consigo muitas vantagens, em ordem a confirmar e desenvolver as qualidades da pessoa humana e a proteger os seus direitos» (GS 25). Contudo, devido a problemas de vária ordem nem todas as sociedades têm condições para dar aos seus membros as condições básicas para uma vida verdadeiramente humana, tais como: «alimento, vestuário, casa, direito de escolher livremente o estado de vida e de constituir família, direito à educação, ao trabalho, à boa fama, ao respeito, à conveniente informação, direito de agir segundo as normas da própria consciência, direito à proteção da sua vida e à justa liberdade mesmo em matéria religiosa» (GS 26).

Respeito pelo ser humano

Coerente com o Evangelho, o Concílio defende o respeito por todo e cada ser humano e denomina como «infame» o seguinte: «tudo quanto se opõe à vida, como seja toda a espécie de homicídio, genocídio, aborto, eutanásia e suicídio voluntário; tudo o que viola a integridade da pessoa humana, como as mutilações, os tormentos corporais e mentais e as tentativas para violentar as próprias consciências; tudo quanto ofende a dignidade da pessoa humana, como as condições de vida infra-humanas, as prisões arbitrárias, as deportações, a escravidão, a prostituição, o comércio de mulheres e jovens; e também as condições degradantes de trabalho; em que os operários são tratados como meros instrumentos de lucro e não como pessoas livres e responsáveis» (GS 27). Todavia, os Padres conciliares lembram a necessária caridade e o esforço para dialogar com todos, mesmo com aqueles que defendem ideias contrárias, pois também esses são seres humanos (GS 28).

Igualdade

A igualdade entre todos deve ser sempre reconhecida. É inaceitável que haja desigualdades económicas e sociais, pois são obstáculo à justiça social, à equidade, à dignidade e à paz social e internacional. O Concílio lembra que compete às instituições, privadas ou públicas, estar ao serviço da dignidade humana, combatendo qualquer forma de sujeição política ou social, e salvaguardando, sob qualquer regime político, os direitos humanos fundamentais (GS 29). Afirma, também, que a justiça e a caridade devem imperar em favor do bem comum e, em função disso, são superiores a uma ética puramente individualista (GS 30).

Participação social

Para que todos cumpram a sua função social é necessário que a educação seja uma prioridade. Neste sentido, dizem os Padres conciliares, «podemos legitimamente pensar que o destino futuro da humanidade está nas mãos daqueles que souberem dar às gerações vindoiras razões de viver e de esperar» (GS 31). A terminar, recorda-se que «esta índole comunitária aperfeiçoa-se e completa-se com a obra de Jesus Cristo. Pois o próprio Verbo encarnado quis participar da vida social. Tomou parte nas bodas de Caná, entrou na casa de Zaqueu, comeu com os publicanos e pecadores. Revelou o amor do Pai e a sublime vocação humana, evocando realidades sociais comuns e servindo-se de modos de falar e de imagens da vida de todos os dias» (GS 32).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

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II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.9.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [2]


Na primeira parte da GS, considerada como a mais doutrinal — «A Igreja e a vocação do ser humano» — os padres conciliares, desejosos de «corresponder aos impulsos do Espírito», expressam o entendimento que têm sobre o ser humano. O documento é uma palavra de esperança sobre o campo de missão da comunidade eclesial: o coração de cada ser humano e a sociedade atual. Reconhece a distinção e independência entre a sociedade e a comunidade eclesial, mas destaca que pode haver cooperação: ambas se dedicam à promoção humana. O Concílio coloca as seguintes questões: «Que pensa a Igreja acerca do ser humano? Que recomendações parecem dever fazer-se, em ordem à construção da sociedade atual? Qual é o significado último da atividade humana no universo?» (GS 11). Neste tema resume-se o conteúdo do primeiro capítulo: «A dignidade da pessoa humana».

O ser humano criado à imagem de Deus

Desejando construir um diálogo com o mundo, a Igreja coloca como premissa cristã que a dignidade da pessoa humana deriva da afirmação de que o homem e a mulher foram criados à imagem de Deus (GS 12) e redimidos por Jesus Cristo que a todos liberta das cadeias do pecado (GS 13). Depois, afirma que o ser humano é um ser uno, composto de corpo e alma, pelo que não pode «desprezar a vida corporal; deve, pelo contrário, considerar o seu corpo como bom e digno de respeito [...]. «É, pois, a própria dignidade humana que exige que o ser humano glorifique a Deus no seu corpo, não deixando que este se escravize às más inclinações do próprio coração» (GS 14).

A dignidade do entendimento e da consciência moral

«Participando da luz da inteligência divina», o ser humano passou a dominar o universo através das ciências, das técnicas e das artes, o que lhe permitiu grandes avanços na conquista do mundo material. «Mas buscou sempre, e encontrou, uma verdade mais profunda», que na linguagem cristã é conhecida como vocação: o chamamento que Deus dirige a cada ser humano para que se realize enquanto pessoa no serviço ao próprio Deus, através do serviço aos irmãos (GS 15). E, usando os dons que Deus lhes deu, é chamado a promover e a defender a vida. No fundo da consciência humana, o ser humano descobre e vive uma lei escrita pelo próprio Deus no seu coração, que o chama a viver o amor e a fugir do mal, que é a consciência moral. Assim, a dignidade reside na singular consciência que Deus imprimiu em cada ser humano, que nem mesmo o pecado pode diminuir (GS 16).

A liberdade humana

Uma das afirmações significativas do primeiro capítulo é sobre a liberdade humana: «é um sinal privilegiado da imagem divina no ser humano» que lhe exige que «proceda segundo a própria consciência e por livre adesão» (GS 17). Nesta afirmação, a Igreja coloca-se contra todas as tentativas de controle das consciências.

A morte

«É em face da morte que o enigma da condição humana mais se adensa. [...] Mas a intuição do próprio coração fá-lo acertar, quando o leva a aborrecer e a recusar a ruína total e o desaparecimento definitivo da sua pessoa. O germe de eternidade que nele existe, irredutível à pura matéria, insurge-se contra a morte» (GS 18).

O ateísmo

O Concílio refere-se aos múltiplos rostos do ateísmo presentes no mundo moderno que tentam de todas as formas negar a importância da religião, afirmando que a autonomia humana deve ser plena. Alerta para o facto de que «os crentes podem ter tido parte não pequena na génese do ateísmo» (GS 19). Os que o professam entendem que a liberdade consiste em que o ser humano seja o próprio fim e autor único da sua história. E pensam que isso é incompatível com o reconhecimento de Deus. Por isso, quando alcançam o poder, atacam violentamente a religião, difundindo o ateísmo, sobretudo na educação da juventude (GS 20). Apesar de rejeitar o ateísmo, a Igreja espera que todos, crentes e não crentes, contribuam para a construção do mundo, a partir de um prudente e sincero diálogo, deplorando qualquer tipo de discriminação (GS 21). Vemos, pois, a abertura da Igreja que convoca todos os «homens de boa vontade» para a transformação do mundo com um profundo desejo de diálogo com a sociedade. Para a Igreja, agir e emprestar a voz aos que não têm voz, e chamar todas as pessoas, independentemente da religião, para transformar o mundo, deriva da fé no Espírito Santo que renova todas as coisas e na certeza de que a incarnação, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo «abriu um novo caminho, em que a vida e a morte são santificados e recebem um novo sentido» (GS 22).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 10.9.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO VIGÉSIMO QUARTO


O itinerário de Marcos sugere uma nova etapa inaugurada com a questão que Jesus Cristo coloca aos discípulos: «Quem dizem os homens que Eu sou? […] E vós, quem dizeis que Eu sou?» (evangelho). A confissão de fé de Pedro é notável: «Tu és o Messias». Contudo, no momento seguinte, rejeita a possibilidade da Paixão que Jesus Cristo anuncia. É difícil o compromisso de tomar a (própria) cruz, como nos é pedido. Aceitá-lo é confiar, é «andar» na presença de Deus (salmo). Mas se o recusamos, que valor tem a nossa fé (segunda leitura)? Vale a pena, por isso, meditar na fidelidade do servo descrita por Isaías (primeira leitura) para fazer o ponto da situação sobre a nossa fidelidade a Deus…

«Deus vem em meu auxílio»
O texto da primeira leitura proposta para o vigésimo quarto domingo (Ano B) apresenta o início do terceiro dos «cânticos do Servo de Yahveh». São poemas recolhidos na segunda parte do livro de Isaías (capítulos 40 a 55).
O servo de Deus fala de um profundo incómodo provocado por maus-tratos físicos e morais: «Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam». Ao mesmo tempo, expressa uma profunda confiança: «Deus veio em meu auxílio». Seguem-se três perguntas que denunciam a injustiça dos maus-tratos e o reforço da confiança em Deus: «Pretende alguém instaurar-me um processo? […] Quem é o meu adversário? […] Quem ousará condenar-me?».
Sobre o servo, não se diz quem é, nem quem são os seus algozes, nem os motivos pelos quais é maltratado. Infelizmente, é habitual que os «servos» de Deus tenham a vida em perigo, dado que a verdade de Deus nem sempre é concorde com a maneira como os seres humanos entendem a realidade.
Tudo o que é dito sobre o servo, neste fragmento profético, aponta para Deus: a missão é-lhe confiada por Deus — «O Senhor Deus abriu-me os ouvidos» — e o próprio sabe que Deus está com ele: «sei que não ficarei desiludido. O meu advogado está perto de mim. […] Deus vem em meu auxílio».
A Igreja desde sempre vê neste «servo» a figura de Jesus Cristo: a sua postura não será do agrado de muitos que lhe hão de infligir sofrimentos e até a morte. Mas, mesmo nessas circunstâncias, mantém-se servo confiante e fiel.

O «servo», apesar da oposição, não desiste porque, maior do que a hostilidade, é a sua confiança em Deus. Do mesmo modo, para o cristão, qual servo, a «fé vivida» exprime-se em ações que passam por «tomar a cruz» para seguir Jesus Cristo. Contra o que algumas (muitas?) vezes escutamos, isto não significa que Deus queira ou provoque o sofrimento. Se assim fosse, não seria Deus, mas um ídolo sanguinário e cruel. «Ainda hoje, Cristo confronta-nos, desafia-nos e diz-nos que temos de carregar a nossa cruz e levar os nossos fardos, mas isso é muito diferente de afirmar que o Pai, o Filho e o Espírito nos enviam as cruzes e nos colocam fardos às costas» (Richard Leonard, Onde diabo está Deus?, ed. Paulinas). Deus vem em nosso auxílio (no sofrimento)!

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Celebrar o domingo vigésimo quarto (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 10.9.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO VIGÉSIMO TERCEIRO


Eis-nos convidados a louvar a Deus (salmo) por tudo o que faz. E, em particular, porque se realiza tudo o que os profetas anunciaram (primeira leitura): em Jesus Cristo, a salvação chegou até nós, também para os pagãos (evangelho). Ele cura, na Decápole (dez cidades), um surdo. E todos apregoam: «Tudo o que faz é admirável: faz que os surdos oiçam e que os mudos falem». Hoje, compete-nos acreditar em Jesus Cristo como o Salvador sem fazer qualquer «aceção de pessoas» (segunda leitura). E, em consequência, viver o mesmo amor de predileção pelos mais pobres.

«A língua do mudo cantará de alegria»
O fragmento oferecido na primeira leitura do vigésimo terceiro domingo (Ano B) pertence a um dos últimos capítulos (35) do designado «Primeiro Isaías» (as Bíblias mais recentes apresentam o livro de Isaías dividido em três partes; a primeira termina no capítulo 39). Todavia, os capítulos 34 e 35, uma espécie de «pequeno apocalipse», estão mais em sintonia com o «Livro da Consolação» do «Segundo Isaías», no qual se sublinha a esperança e a vitória do povo Israel, apesar de oprimido e maltratado no presente.
O profeta fala a pessoas perturbadas e desanimadas. A mensagem está intensamente dominada pela esperança: «Tende coragem, não temais». É uma característica dos textos apocalípticos: no meio da escuridão provocada pelas dificuldades e perseguições acende-se a lâmpada da esperança oferecida por Deus. Ora, num tempo em que o povo de Israel tinha perdido o entusiasmo para viver segundo os ensinamentos de Deus, a voz profética anuncia uma boa nova: é a novidade de Deus, reconhecida, pelos cristãos, como «evangelho».
Deus faz saber que estará de novo visível, ativo, decisivo, próximo: «Ele próprio vem salvar-nos». Deus tornar-se-á presente na história para restaurar a esperança e a vida: «Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria».
O profeta fala também de transformações na Criação, entre as quais a abundância de água no deserto. Hoje, porém, tendo presente o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, precisamos de fazer ecoar bem alto as palavras do Papa na Encíclica sobre o Cuidado da Casa Comum (número 30): «nota-se um desperdício de água não só nos países desenvolvidos, mas também naqueles em vias de desenvolvimento que possuem grandes reservas. Isto mostra que o problema da água é, em parte, uma questão educativa e cultural, porque não há consciência da gravidade destes comportamentos num contexto de grande desigualdade».

Na profecia de Isaías reconhecemos a boa nova (evangelho) realizada em e por Jesus Cristo. No ministério de Jesus Cristo, a salvação prometida pelo profeta é já uma realidade. E Deus continua a oferecer sinais da sua presença: onde há caridade, aí habita Deus; onde há pais que fazem tudo pela saúde dos filhos, aí habita Deus; onde há acolhimento de imigrantes e refugiados, aí habita Deus; onde há cuidado pela Criação, aí habita Deus..

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Celebrar o domingo vigésimo terceiro (Ano B), no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.9.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [1]


A partir desta semana vamos apresentar o conteúdo da Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual («Gaudium et Spes» [GS]). É um documento do II Concílio do Vaticano, promulgado pelo papa Paulo VI, no dia sete de dezembro de 1965. Esta Constituição abre com as palavras latinas «Gaudium et Spes» — em português, «as alegrias e as esperanças» — que lhe dão o título, de acordo com a tradição eclesiástica. Trata-se de um longo documento (93 artigos) composto por duas partes, às quais se juntam o proémio, a introdução e a conclusão: «A Igreja e a vocação do ser humano» (primeira parte); «Alguns problemas mais urgentes» (segunda parte).

Constituição Pastoral

A GS é denominada «Constituição Pastoral» porque o seu conteúdo demonstra a clara intenção de apresentar uma nova autocompreensão da vocação da Igreja como serviço («diaconia») ao mundo e à humanidade. E, embora na primeira parte trate de questões doutrinárias, na segunda, vai tratar de vários aspetos da vida atual e da sociedade humana, enfatizando os problemas mais urgentes que atingem a humanidade, ou seja, questões pastorais.

«Aggiornamento»

De fundamental importância para o «aggiornamento» — palavra italiana que se pode traduzir por «atualização» — preconizado pelo papa João XXIII e assumido por Paulo VI, a GS trouxe uma nova visão da Igreja para o mundo e do mundo para a Igreja. Na sua abertura ao diálogo com toda a humanidade, a Igreja («Povo de Deus») faz-se presente na história humana procurando a reformulação das estruturas pecaminosas que são causadoras de injustiça e exclusão social. Esta Constituição Pastoral continua a ser um documento eclesial imprescindível para refletir sobre as transformações que caracterizam a sociedade atual.

Proémio

O II Concílio do Vaticano, colocando-se em completa solidariedade com a humanidade (GS 1), dirige a sua palavra a todos os homens e mulheres com o intuito de expor o seu modo de conceber a presença e a atividade da Igreja no mundo atual (GS 2). Demonstra a sua solidariedade, respeito e amor para com a família humana, estabelecendo com ela um diálogo iluminado à luz do Evangelho, na perspetiva da salvação da pessoa humana e da renovação da sociedade. E, embora seja a humanidade a destinatária destas palavras, a Igreja dirige-se principalmente à sua parcela mais sofredora, a exemplo de Jesus Cristo (GS 3).

Introdução

Na introdução, a GS descreve o seguinte: alguns problemas que afetam a humanidade e a própria condição do homem e da mulher no mundo atual (GS 4); as profundas mudanças ocorridas nos últimos tempos; os avanços da ciência e da técnica (GS 5); as mudanças sociais (GS 6); as mudanças psicológicas, morais e religiosas (GS 7); os desequilíbrios pessoais familiares e sociais do mundo moderno (GS 8). Elabora ainda uma síntese das aspirações mais universais da humanidade, convencida de que o género humano pode e deve dominar mais intensamente as coisas criadas para estabelecer uma ordem política, social e económica que sirva para o bem de toda humanidade. Observa, todavia, o aumento da dependência económica das nações mais pobres em relação às mais ricas, que as mulheres reivindicam a igualdade de direito e de facto com os homens, que os trabalhadores almejam não apenas o necessário para sobreviver, mas desenvolver, pelo trabalho, as próprias qualidades e participar na organização da vida económica, social, política e cultural. Sob todas estas reivindicações lateja uma aspiração mais profunda e universal: as pessoas e os grupos desejam uma vida plena e livre, digna do ser humano, colocando ao seu próprio serviço tudo quanto o mundo moderno lhes pode oferecer com tanta abundância. Além disso, as nações esforçam-se cada vez mais para edificar uma comunidade universal. Diante do mundo moderno que se apresenta simultaneamente poderoso e débil, capaz de realizar o melhor e o pior, ao ser humano abre-se o caminho da liberdade ou escravidão, do progresso ou do regresso, da fraternidade ou do ódio. Em face deste conflito entre a busca de um mundo melhor por uma parte da humanidade e ambição desenfreada de outra parte, os homens e mulheres de boa vontade interrogam-se sobre a sua vocação (GS 9). No final da introdução, a GS confirma a convicção de que, somente à luz da opção evangélica de vida, a humanidade encontrará a chave para a solução dos problemas que a afetam, pois os desequilíbrios que atormentam o mundo moderno estão vinculados ao desequilíbrio mais fundamental radicado no coração do ser humano (GS 10).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

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II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.9.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO VIGÉSIMO SEGUNDO


As leituras do vigésimo segundo domingo (Ano B) interpelam-nos sobre uma questão central para a nossa vida cristã: diz respeito à «lei», aos mandamentos, e à sinceridade da nossa relação com Deus. De que valem os mandamentos, se não os pomos em prática? É, por outras palavras, o que Moisés recorda ao povo de Israel (primeira leitura). Tiago, na sua carta, também exorta: «sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes» (segunda leitura). O mesmo é afirmar a importância da prática, entre outras, das obras de misericórdia, pois «quem assim proceder jamais será abalado» (salmo). E o que opõe os fariseus a Jesus Cristo (evangelho) é da mesma ordem: a atitude exterior não basta; Deus olha a bondade do coração, a autenticidade do compromisso.

«Guardareis os mandamentos do Senhor vosso Deus»
O livro do Deuteronómio («segunda lei») dá a conhecer os discursos de despedida feitos por Moisés ao povo de Israel, às portas da Terra Prometida. Neste fragmento, faz um sumário da história e das leis do povo de Deus.
O Deuteronómio é o grande prólogo teológico dos livros históricos («história deuteronomista») que se seguem no cânon bíblico (de Josué até aos Reis). A ideia é clara: Israel, agora, receberá a terra que tinha sido prometida a Abraão e aos seus descendentes. Esta terra é um dom gratuito, embora haja condições a cumprir para nela permanecer. Uma das condições é cumprir os mandamentos. Estes não se podem alterar. Para todas as gerações vindouras, a cláusula para permanecer naquela terra consiste em observar «as leis e os preceitos» enumerados por Moisés.
Os mandamentos postos em prática serão uma realidade evidente aos olhos de todos os outros povos, uma vez que, através deles, reconhecerão uma sociedade «diferente»: um povo «sábio» e «prudente». Os mandamentos são uma ética sábia e eficaz.
Outro aspeto presente no texto reporta-se à proximidade de Deus. Os deuses pagãos vivem afastados e alheios aos acontecimentos da humanidade, o que não se verifica com o Deus de Israel. Consciente desta proximidade divina, o povo deve sentir-se satisfeito pelas leis e preceitos e não desejar alterações: «Não acrescentareis nada ao que vos ordeno, nem suprimireis coisa alguma». Assim se entende esta petição, que não pode ser lida como imobilismo, mas como sinal da ordem justa desses mandamentos que servem para orientar a vida do povo de Deus.

As recomendações de Moisés dão a conhecer uma proposta de vida que é garantia de sentido no presente e estabilidade no futuro. Todavia, Jesus Cristo, no seu tempo, deteta e denuncia os desvios marcados pelo «ritualismo» e pela moral farisaica, bem contrários ao mandamento do amor. Hoje, certamente que encaixam nestes desvios as orações e os rituais sem convicção, a prática do «preceito» dominical sem compromisso vital, as oferendas e as promessas feitas para obter este ou aquele benefício, tudo o que está à margem do mandamento do amor a Deus e ao próximo. Deus aprecia o «interior», o que habita o coração humano, e não as aparências.

© Laboratório da fé, 2015


Celebrar o domingo vigésimo segundo (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.8.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO VIGÉSIMO PRIMEIRO


O vigésimo primeiro domingo (Ano B) apresenta, na Liturgia da Palavra, o fim do ciclo dos trechos relativos à Carta de Paulo aos Efésios e ao evangelho segundo João. O extrato da segunda leitura é escutado em muitas celebrações do Sacramento do Matrimónio: trata da união indissolúvel entre Jesus Cristo e a Igreja com a qual se compara a união indissolúvel entre o marido e a esposa. Quanto ao evangelho, ficamos a conhecer a reação dos ouvintes às palavras de Jesus Cristo sobre o Pão da Vida. Muitos consideram-nas «duras». Pedro, porém, em nome dos Doze, afirma que são «palavras de vida eterna». É inseridos nesta profissão de fé que somos convidados a repetir, como descreve a primeira leitura sobre o povo da Antiga Aliança, a mesma disponibilidade para «servir» o nosso Deus. Por isso, o salmo volta a lembrar-nos o quanto é bom saborear a presença de Deus!

«Queremos servir o Senhor, porque Ele é o nosso Deus»
O fragmento do livro de Josué, conhecido como «assembleia de Siquém», remete para um momento novo da vida do povo de Israel. É um acontecimento singular na história bíblica!
Deus tinha libertado o povo da escravidão do Egito; havia-lhe dado Moisés como guia, tendo este desempenhado, ao mesmo tempo, o papel de mediador entre Deus e o povo; tinha-lhe entregue a Lei como expressão da eleição entre todos os povos da terra.
Ora, depois da saída do Egito, o povo teve de viver durante quarenta anos no deserto, o qual também foi lugar de conflito e de tentação. Moisés morreu às portas da Terra Prometida, sem que a tenha chegado a pisar.
Josué, sucessor de Moisés, orientou o povo aquando da entrada e da instalação na terra que Deus prometera dar aos sucessores de Abraão. Agora que o povo se instalou, Josué reune as tribos de Israel e pede-lhes que decidam a qual deus querem adorar: «se os deuses que os vossos pais serviram no outro lado do rio, se os deuses dos amorreus em cuja terra habitais». Contudo, Josué avisa: «Eu e a minha família serviremos o Senhor».
O povo de Israel é consequência de um longo percurso de pactos, decisões, alianças e ruturas entre as tribos. A opção colocada por Josué torna-se um apoio unânime à sua causa, longe de ser um motivo de secessão, de rutura definitiva. Todas as tribos se unem para afirmar que querem continuar a ser fiéis ao Deus da liberdade, o Deus que as fez sair do Egito, as acompanhou e protegeu até ao momento: «Queremos servir o Senhor, porque Ele é o nosso Deus».

O Deus bíblico, o nosso, é um Deus de pessoas livres, às quais até dá a escolher se o querem adorar ou não. A fé exige tomada de decisões, arriscadas às vezes, mas necessárias. Hoje, também temos de escolher se queremos ou não «servir» a Deus. E a saber descrever a ação divina com todo o tipo de detalhes, tal como conta o salmo trinta e três que rezamos (e cantamos) nos últimos domingos. Trata-se de uma eleição que se aprende a saborear! «Deus saboreia-se, Deus é sabor» (J. Tolentino Mendonça, A mística do instante, ed. Paulinas). Saborear Deus — eis a fé!

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo vigésimo primeiro (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.8.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO VIGÉSIMO


Os textos da Escritura propostos para o vigésimo domingo (Ano B) são sobejamente conhecidos! Vários cânticos utilizados nas celebrações fazem eco destes textos. Por isso, talvez seja necessário escutá-los com ainda mais atenção: a Palavra de Deus é alimento, é para ser comida… um convite a saborear a bondade divina. A Sabedoria «pôs a mesa» (primeira leitura), somos convidados a saborear «como o Senhor é bom» (salmo), a dar graças a Deus com «salmos, hinos e cânticos espirituais» (segunda leitura) e, claro, a alimentarmo-nos de Jesus Cristo para ter «a vida eterna» (evangelho). É um convite que se repete em cada domingo, em cada eucaristia.

«Vinde comer do meu pão»
O livro dos Provérbios faz-nos uma proposta de sensatez e de prudência, com ensinamentos acumulados ao longo dos séculos. Os provérbios são sentenças breves que contêm um pouco da sabedoria que tem origem em Deus e que passou a fazer parte do património cultural dos povos. Este livro — Provérbios — é composto por várias coleções de máximas: as mais antigas (capítulos dez a vinte e dois e capítulos vinte e cinco a vinte e nove) remontam à época de Salomão (século décimo, antes de Cristo); as mais recentes (capítulos um a nove e capítulo trinta e um) fazem parte, muito provavelmente, da época pós-exílio (por volta do século terceiro, antes de Cristo).
O fragmento da primeira leitura (retirado do nono capítulo) apresenta-nos a Sabedoria como uma senhora que constrói uma casa e se dispõe a oferecer os seus bens a todas as pessoas. A proclamação/convite é feita nos pontos mais altos da cidade. E é dirigida ao «inexperiente» e aos «insensatos» para mostrar a necessidade imprescindível deste saber e desta sensatez. O pão e o vinho são o conteúdo da oferta. A interpelação termina com a indicação para seguir pelo «caminho da prudência», o caminho que conduz à vida.
O tema do banquete é um tema recorrente em toda a Sagrada Escritura. Em Israel, como entre nós, partilhar a mesa era sinal de comunhão. Aqui, comer o pão e beber o vinho oferecidos pela Sabedoria, a anfitriã, significa seguir os seus ensinamentos, acolher as suas propostas. Cada um é livre para aceitar ou recusar sentar-se à mesa e partilhar a refeição!

Nesta alusão do livro dos Provérbios vemos uma referência a Jesus Cristo. Ele é quem nos traz a autêntica sabedoria como uma Boa Notícia (Evangelho) e nos convida a sentar à mesa da eucaristia em que o próprio se dá como alimento. Sim, Jesus Cristo é a Sabedoria de Deus incarnada que se oferece como pão e vinho (carne e sangue, na terminologia evangélica; corpo e sangue, na formulação eucarística): «tomai, todos, e comei: isto é o meu corpo»; «tomai, todos, e bebei: este é o cálice do meu sangue». E assim a eucaristia é alimento de vida eterna. «O pão e o vinho transformam-se no Corpo e Sangue de Cristo, que Se faz presente no seu caminho pascal para o Pai: este movimento introduz-nos, corpo e alma, no movimento de toda a criação para a sua plenitude em Deus» (Francisco, A Luz da Fé, 44).

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo vigésimo (Ano B), no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.8.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO DÉCIMO NONO


A palavra de Deus proposta para o décimo nono domingo (Ano B) continua a reflexão dos dois domingos precedentes: Paulo reforça o apelo a viver segundo o Espírito com o qual fomos assinalados, convida-nos a imitar Deus (segunda leitura). Assim, poderemos perceber melhor o sentido do alimento oferecido por Deus: reconforto e força para o caminho dados ao profeta Elias (primeira leitura); na mesma linha, Jesus Cristo revela-se como «pão da vida», «pão vivo que desceu do Céu» (evangelho). Ele anuncia o dom da sua «carne» para nos dar a vida eterna. Sim, Jesus Cristo dará a sua vida na Cruz, verterá o seu sangue, «pela vida do mundo», para nossa salvação. Alegremo-nos, «exaltemos juntos o seu nome» (salmo)!

«Levanta-te e come»
Desde o capítulo dezassete do Primeiro Livro dos Reis até ao primeiro capítulo do Segundo Livro dos Reis, o narrador dá a conhecer acontecimentos relacionados com o profeta Elias. A primeira leitura, retirada do capítulo dezanove do Primeiro Livro, oferece-nos um fragmento da fuga de Elias para o monte Horeb, o monte de Deus, que na tradição do Êxodo é conhecido como monte Sinai.
Para entender bem este fragmento é preciso enquadrá-lo num contexto mais amplo: Elias foge da perseguição da rainha Jezabel, uma fenícia adoradora de Baal, deus cananeu. Esta fuga é significativa: inverte o caminho do Êxodo até à Terra Prometida, voltando às fontes da Aliança, a montanha onde Deus se tinha manifestado aos filhos de Israel.
Apesar de ter saído vitorioso em nome do Deus de Israel contra os que praticavam a idolatria ao deus Baal, Elias começa a sentir o peso do cansaço e do desânimo.
No caminho da fuga, Elias perde as forças, física e moral, e deseja a morte: «Já basta, Senhor. Tirai-me a vida, porque não sou melhor que meus pais». Mas Deus tem outros planos para a vida do profeta. Um mensageiro — «anjo» — dá-lhe alimento e diz-lhe: «Levanta-te e come»; e, na segunda vez, acrescenta: «porque ainda tens um longo caminho a percorrer». É um alimento frugal, pão e água, mas fundamental para permanecer vivo. É um alimento que lhe dá a força necessária para caminhar durante quarenta dias e quarenta noites. Quarenta é um número simbólico que significa o tempo necessário para alcançar a maturidade (Israel tinha caminhado durante quarenta anos para fazer o caminho inverso).
Finalmente, chega ao monte de Deus, o Horeb. Aí, Deus vai revelar-se ao profeta como Deus do silêncio e da paz. O caminho dos seres humanos para Deus é um caminho longo e, algumas vezes, árduo!

«Levanta-te e come». Hoje, nós, cristãos, somos isto: gente que, repetidamente, se levanta e come, saboreia, caminha, acredita e vive. Se o fazemos apenas com as próprias forças teremos sempre pouca resistência (vida limitada). Se o fazemos contando com as forças de Deus oferecidas por Jesus Cristo, o Pão da Vida, então receberemos uma vida eterna. A Eucaristia celebrada em dias de verão é uma oportunidade para fazer o exercício de saborear calmamente este dom da presença de Deus na nossa vida!

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo décimo nono (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.8.15 | Sem comentários
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