CELEBRAR O DOMINGO VIGÉSIMO SEGUNDO


As leituras do vigésimo segundo domingo (Ano B) interpelam-nos sobre uma questão central para a nossa vida cristã: diz respeito à «lei», aos mandamentos, e à sinceridade da nossa relação com Deus. De que valem os mandamentos, se não os pomos em prática? É, por outras palavras, o que Moisés recorda ao povo de Israel (primeira leitura). Tiago, na sua carta, também exorta: «sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes» (segunda leitura). O mesmo é afirmar a importância da prática, entre outras, das obras de misericórdia, pois «quem assim proceder jamais será abalado» (salmo). E o que opõe os fariseus a Jesus Cristo (evangelho) é da mesma ordem: a atitude exterior não basta; Deus olha a bondade do coração, a autenticidade do compromisso.

«Guardareis os mandamentos do Senhor vosso Deus»
O livro do Deuteronómio («segunda lei») dá a conhecer os discursos de despedida feitos por Moisés ao povo de Israel, às portas da Terra Prometida. Neste fragmento, faz um sumário da história e das leis do povo de Deus.
O Deuteronómio é o grande prólogo teológico dos livros históricos («história deuteronomista») que se seguem no cânon bíblico (de Josué até aos Reis). A ideia é clara: Israel, agora, receberá a terra que tinha sido prometida a Abraão e aos seus descendentes. Esta terra é um dom gratuito, embora haja condições a cumprir para nela permanecer. Uma das condições é cumprir os mandamentos. Estes não se podem alterar. Para todas as gerações vindouras, a cláusula para permanecer naquela terra consiste em observar «as leis e os preceitos» enumerados por Moisés.
Os mandamentos postos em prática serão uma realidade evidente aos olhos de todos os outros povos, uma vez que, através deles, reconhecerão uma sociedade «diferente»: um povo «sábio» e «prudente». Os mandamentos são uma ética sábia e eficaz.
Outro aspeto presente no texto reporta-se à proximidade de Deus. Os deuses pagãos vivem afastados e alheios aos acontecimentos da humanidade, o que não se verifica com o Deus de Israel. Consciente desta proximidade divina, o povo deve sentir-se satisfeito pelas leis e preceitos e não desejar alterações: «Não acrescentareis nada ao que vos ordeno, nem suprimireis coisa alguma». Assim se entende esta petição, que não pode ser lida como imobilismo, mas como sinal da ordem justa desses mandamentos que servem para orientar a vida do povo de Deus.

As recomendações de Moisés dão a conhecer uma proposta de vida que é garantia de sentido no presente e estabilidade no futuro. Todavia, Jesus Cristo, no seu tempo, deteta e denuncia os desvios marcados pelo «ritualismo» e pela moral farisaica, bem contrários ao mandamento do amor. Hoje, certamente que encaixam nestes desvios as orações e os rituais sem convicção, a prática do «preceito» dominical sem compromisso vital, as oferendas e as promessas feitas para obter este ou aquele benefício, tudo o que está à margem do mandamento do amor a Deus e ao próximo. Deus aprecia o «interior», o que habita o coração humano, e não as aparências.

© Laboratório da fé, 2015


Celebrar o domingo vigésimo segundo (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.8.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO VIGÉSIMO PRIMEIRO


O vigésimo primeiro domingo (Ano B) apresenta, na Liturgia da Palavra, o fim do ciclo dos trechos relativos à Carta de Paulo aos Efésios e ao evangelho segundo João. O extrato da segunda leitura é escutado em muitas celebrações do Sacramento do Matrimónio: trata da união indissolúvel entre Jesus Cristo e a Igreja com a qual se compara a união indissolúvel entre o marido e a esposa. Quanto ao evangelho, ficamos a conhecer a reação dos ouvintes às palavras de Jesus Cristo sobre o Pão da Vida. Muitos consideram-nas «duras». Pedro, porém, em nome dos Doze, afirma que são «palavras de vida eterna». É inseridos nesta profissão de fé que somos convidados a repetir, como descreve a primeira leitura sobre o povo da Antiga Aliança, a mesma disponibilidade para «servir» o nosso Deus. Por isso, o salmo volta a lembrar-nos o quanto é bom saborear a presença de Deus!

«Queremos servir o Senhor, porque Ele é o nosso Deus»
O fragmento do livro de Josué, conhecido como «assembleia de Siquém», remete para um momento novo da vida do povo de Israel. É um acontecimento singular na história bíblica!
Deus tinha libertado o povo da escravidão do Egito; havia-lhe dado Moisés como guia, tendo este desempenhado, ao mesmo tempo, o papel de mediador entre Deus e o povo; tinha-lhe entregue a Lei como expressão da eleição entre todos os povos da terra.
Ora, depois da saída do Egito, o povo teve de viver durante quarenta anos no deserto, o qual também foi lugar de conflito e de tentação. Moisés morreu às portas da Terra Prometida, sem que a tenha chegado a pisar.
Josué, sucessor de Moisés, orientou o povo aquando da entrada e da instalação na terra que Deus prometera dar aos sucessores de Abraão. Agora que o povo se instalou, Josué reune as tribos de Israel e pede-lhes que decidam a qual deus querem adorar: «se os deuses que os vossos pais serviram no outro lado do rio, se os deuses dos amorreus em cuja terra habitais». Contudo, Josué avisa: «Eu e a minha família serviremos o Senhor».
O povo de Israel é consequência de um longo percurso de pactos, decisões, alianças e ruturas entre as tribos. A opção colocada por Josué torna-se um apoio unânime à sua causa, longe de ser um motivo de secessão, de rutura definitiva. Todas as tribos se unem para afirmar que querem continuar a ser fiéis ao Deus da liberdade, o Deus que as fez sair do Egito, as acompanhou e protegeu até ao momento: «Queremos servir o Senhor, porque Ele é o nosso Deus».

O Deus bíblico, o nosso, é um Deus de pessoas livres, às quais até dá a escolher se o querem adorar ou não. A fé exige tomada de decisões, arriscadas às vezes, mas necessárias. Hoje, também temos de escolher se queremos ou não «servir» a Deus. E a saber descrever a ação divina com todo o tipo de detalhes, tal como conta o salmo trinta e três que rezamos (e cantamos) nos últimos domingos. Trata-se de uma eleição que se aprende a saborear! «Deus saboreia-se, Deus é sabor» (J. Tolentino Mendonça, A mística do instante, ed. Paulinas). Saborear Deus — eis a fé!

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo vigésimo primeiro (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.8.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO VIGÉSIMO


Os textos da Escritura propostos para o vigésimo domingo (Ano B) são sobejamente conhecidos! Vários cânticos utilizados nas celebrações fazem eco destes textos. Por isso, talvez seja necessário escutá-los com ainda mais atenção: a Palavra de Deus é alimento, é para ser comida… um convite a saborear a bondade divina. A Sabedoria «pôs a mesa» (primeira leitura), somos convidados a saborear «como o Senhor é bom» (salmo), a dar graças a Deus com «salmos, hinos e cânticos espirituais» (segunda leitura) e, claro, a alimentarmo-nos de Jesus Cristo para ter «a vida eterna» (evangelho). É um convite que se repete em cada domingo, em cada eucaristia.

«Vinde comer do meu pão»
O livro dos Provérbios faz-nos uma proposta de sensatez e de prudência, com ensinamentos acumulados ao longo dos séculos. Os provérbios são sentenças breves que contêm um pouco da sabedoria que tem origem em Deus e que passou a fazer parte do património cultural dos povos. Este livro — Provérbios — é composto por várias coleções de máximas: as mais antigas (capítulos dez a vinte e dois e capítulos vinte e cinco a vinte e nove) remontam à época de Salomão (século décimo, antes de Cristo); as mais recentes (capítulos um a nove e capítulo trinta e um) fazem parte, muito provavelmente, da época pós-exílio (por volta do século terceiro, antes de Cristo).
O fragmento da primeira leitura (retirado do nono capítulo) apresenta-nos a Sabedoria como uma senhora que constrói uma casa e se dispõe a oferecer os seus bens a todas as pessoas. A proclamação/convite é feita nos pontos mais altos da cidade. E é dirigida ao «inexperiente» e aos «insensatos» para mostrar a necessidade imprescindível deste saber e desta sensatez. O pão e o vinho são o conteúdo da oferta. A interpelação termina com a indicação para seguir pelo «caminho da prudência», o caminho que conduz à vida.
O tema do banquete é um tema recorrente em toda a Sagrada Escritura. Em Israel, como entre nós, partilhar a mesa era sinal de comunhão. Aqui, comer o pão e beber o vinho oferecidos pela Sabedoria, a anfitriã, significa seguir os seus ensinamentos, acolher as suas propostas. Cada um é livre para aceitar ou recusar sentar-se à mesa e partilhar a refeição!

Nesta alusão do livro dos Provérbios vemos uma referência a Jesus Cristo. Ele é quem nos traz a autêntica sabedoria como uma Boa Notícia (Evangelho) e nos convida a sentar à mesa da eucaristia em que o próprio se dá como alimento. Sim, Jesus Cristo é a Sabedoria de Deus incarnada que se oferece como pão e vinho (carne e sangue, na terminologia evangélica; corpo e sangue, na formulação eucarística): «tomai, todos, e comei: isto é o meu corpo»; «tomai, todos, e bebei: este é o cálice do meu sangue». E assim a eucaristia é alimento de vida eterna. «O pão e o vinho transformam-se no Corpo e Sangue de Cristo, que Se faz presente no seu caminho pascal para o Pai: este movimento introduz-nos, corpo e alma, no movimento de toda a criação para a sua plenitude em Deus» (Francisco, A Luz da Fé, 44).

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo vigésimo (Ano B), no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.8.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO DÉCIMO NONO


A palavra de Deus proposta para o décimo nono domingo (Ano B) continua a reflexão dos dois domingos precedentes: Paulo reforça o apelo a viver segundo o Espírito com o qual fomos assinalados, convida-nos a imitar Deus (segunda leitura). Assim, poderemos perceber melhor o sentido do alimento oferecido por Deus: reconforto e força para o caminho dados ao profeta Elias (primeira leitura); na mesma linha, Jesus Cristo revela-se como «pão da vida», «pão vivo que desceu do Céu» (evangelho). Ele anuncia o dom da sua «carne» para nos dar a vida eterna. Sim, Jesus Cristo dará a sua vida na Cruz, verterá o seu sangue, «pela vida do mundo», para nossa salvação. Alegremo-nos, «exaltemos juntos o seu nome» (salmo)!

«Levanta-te e come»
Desde o capítulo dezassete do Primeiro Livro dos Reis até ao primeiro capítulo do Segundo Livro dos Reis, o narrador dá a conhecer acontecimentos relacionados com o profeta Elias. A primeira leitura, retirada do capítulo dezanove do Primeiro Livro, oferece-nos um fragmento da fuga de Elias para o monte Horeb, o monte de Deus, que na tradição do Êxodo é conhecido como monte Sinai.
Para entender bem este fragmento é preciso enquadrá-lo num contexto mais amplo: Elias foge da perseguição da rainha Jezabel, uma fenícia adoradora de Baal, deus cananeu. Esta fuga é significativa: inverte o caminho do Êxodo até à Terra Prometida, voltando às fontes da Aliança, a montanha onde Deus se tinha manifestado aos filhos de Israel.
Apesar de ter saído vitorioso em nome do Deus de Israel contra os que praticavam a idolatria ao deus Baal, Elias começa a sentir o peso do cansaço e do desânimo.
No caminho da fuga, Elias perde as forças, física e moral, e deseja a morte: «Já basta, Senhor. Tirai-me a vida, porque não sou melhor que meus pais». Mas Deus tem outros planos para a vida do profeta. Um mensageiro — «anjo» — dá-lhe alimento e diz-lhe: «Levanta-te e come»; e, na segunda vez, acrescenta: «porque ainda tens um longo caminho a percorrer». É um alimento frugal, pão e água, mas fundamental para permanecer vivo. É um alimento que lhe dá a força necessária para caminhar durante quarenta dias e quarenta noites. Quarenta é um número simbólico que significa o tempo necessário para alcançar a maturidade (Israel tinha caminhado durante quarenta anos para fazer o caminho inverso).
Finalmente, chega ao monte de Deus, o Horeb. Aí, Deus vai revelar-se ao profeta como Deus do silêncio e da paz. O caminho dos seres humanos para Deus é um caminho longo e, algumas vezes, árduo!

«Levanta-te e come». Hoje, nós, cristãos, somos isto: gente que, repetidamente, se levanta e come, saboreia, caminha, acredita e vive. Se o fazemos apenas com as próprias forças teremos sempre pouca resistência (vida limitada). Se o fazemos contando com as forças de Deus oferecidas por Jesus Cristo, o Pão da Vida, então receberemos uma vida eterna. A Eucaristia celebrada em dias de verão é uma oportunidade para fazer o exercício de saborear calmamente este dom da presença de Deus na nossa vida!

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo décimo nono (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.8.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO DÉCIMO OITAVO


O alimento evocado nos textos bíblicos propostos para o décimo oitavo domingo (Ano B) serve para colocar a questão de fundo sobre a fé, sobre a confiança em Deus: no deserto, quando têm fome, os filhos de Israel esquecem-se que foram libertados do Egito e perdem a confiança em Deus (primeira leitura). Em Cafarnaum, Jesus Cristo convida a multidão a repensar o caminho da fé, a fazer memória daquilo que os seus pais contaram (salmo) e a reconhecer o verdadeiro Pão do Céu, o Pão da Vida (evangelho). Para viver desse pão, é preciso acreditar em Jesus Cristo, o enviado do Pai, e deixar-se renovar pelo Espírito Santo (segunda leitura).

«É o pão que o Senhor vos dá em alimento»
Os factos relacionados com a libertação do Egito são prodigiosos: o Deus dos escravos vence o faraó e os seus deuses. A passagem do mar foi a vitória contra as forças do mal.
O povo de Israel percorre as primeiras etapas do caminho pelo deserto para chegar à «Terra Prometida». Cedo começa a murmurar contra os mediadores, Moisés e Aarão. A passagem do mar deixou o povo no deserto, um lugar de fome, que inevitavelmente conduz à morte. Nessas circunstâncias, o Egito, o lugar da escravidão, é recordado como um lugar onde havia carne e pão. A necessidade de comida faz esquecer que o caminho do deserto conduz à liberdade e ao bem-estar. Estamos perante uma perversão da vida própria de pessoas que não enxergam além dos interesses imediatos: a (suposta) sobrevivência em vez da (verdadeira) liberdade!
O deserto é apresentado, no livro do Êxodo, como uma realidade ambivalente: por um lado, é o lugar das revelações de Deus, da providência solícita para com o seu povo. Mas, por outro, é o lugar dos confrontos com Moisés, o enviado de Deus, o lugar da carência e da nostalgia.
O que realmente surpreende na narração é que Israel não é censurado pelos seus horizontes limitados, antes recebe uma resposta imediata e positiva: «Vou fazer que chova para vós pão do céu». Deus não abandona o seu povo; tampouco se dá por vencido: dá-lhes um alimento diário. É um pão que tem a sua origem nos «armazéns» do céu e não nos armazéns do faraó. Além disso, em contraste com a carne do Egito, a terra da escravidão, Deus providencia as codornizes. O dito «pão do céu» é um alimento desconhecido — «Man-hu?», quer dizer: «Que é isto?». Moisés, o mediador, desvela o seu sentido: «É o pão que o Senhor vos dá em alimento».
O «pão do céu» («maná») torna-se, na história bíblica, o alimento diário dado por Deus, alimento suficiente para caminhar. Eis a prefiguração do «pão da vida», Jesus Cristo: «Tomai, todos, e comei: isto é o Meu Corpo, que será entregue por vós». Agora, a Eucaristia realiza a oferta do alimento, não só suficiente para caminhar, como também «dura até à vida eterna». Hoje, é fundamental ter presente a nossa união pessoal com Jesus Cristo como o objetivo dos nossos encontros eucarísticos (dominicais): unirmo-nos a Jesus, comungar com Ele; «uma comunhão com Cristo na Eucaristia, que transforme a vida» (EG 138).

© Laboratório da fé, 2015


Celebrar o domingo décimo oitavo (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.7.15 | Sem comentários

Viver a fé! [42]


A conclusão do Compêndio da Doutrina Social da Igreja propõe uma meta: caminharmos «para uma civilização do amor». Esta última proposta desenvolve-se nas seguintes alíneas: «a ajuda da Igreja ao homem contemporâneo» (números 575 e 576); «voltar a partir da fé em Cristo» (577); «uma firme esperança» (578 e 579); «construir a ‘civilização do amor’» (580 a 583).

A ajuda da Igreja ao homem contemporâneo

A Igreja reconhece que se vive «uma nova necessidade de sentido na sociedade contemporânea. [...] Revelam-se árduas as tentativas de responder à exigência de projetar o futuro no novo contexto das relações internacionais, cada vez mais complexas e interdependentes, mas também menos ordenadas e pacíficas» (575). Por isso, «às interrogações de fundo sobre o sentido e o fim da aventura pessoal a Igreja responde com o anúncio do Evangelho de Cristo, que subtrai a dignidade da pessoa humana ao flutuar das opiniões, assegurando a liberdade do ser humano como nenhuma lei humana pode fazer. O II Concílio do Vaticano indicou que a missão da Igreja no mundo contemporâneo consiste em ajudar cada ser humano a descobrir em Deus o significado último da sua existência [...]. Somente Deus, que criou o ser humano à sua imagem e o resgatou do pecado, pode oferecer às interrogações humanas mais radicais uma resposta plenamente adequada por meio da Revelação realizada definitivamente no seu Filho feito homem» (576).

Voltar a partir da fé em Cristo

«A fé em Deus e em Jesus Cristo ilumina os princípios morais que são ‘o fundamento único e insubstituível da estabilidade e tranquilidade, da ordem interior e exterior, particular e pública, únicos valores capazes de criar e salvaguardar a prosperidade dos Estados’. A vida social deve ser ancorada no desígnio divino [...]. Também no que diz respeito à ‘questão social’, não se pode aceitar ‘a esperança ingénua de que possa haver uma fórmula mágica para os grandes desafios do nosso tempo; não será uma fórmula a salvar-nos, mas uma Pessoa, e a certeza que Ela nos infunde: Eu estarei convosco!’» (577).

Uma firme esperança

«A Igreja ensina ao ser humano que Deus lhe oferece a real possibilidade de superar o mal e de alcançar o bem. O Senhor redimiu o humano, resgatou-o por um ‘grande preço’ (1Coríntios 6, 20). O sentido e o fundamento do empenho cristão no mundo derivam de tal certeza, capaz de acender a esperança não obstante o pecado que marca profundamente a história humana: a promessa divina garante que o mundo não permanece fechado em si mesmo, mas está aberto ao Reino de Deus» (578). «A esperança cristã imprime um grande impulso ao compromisso no campo social, infundindo confiança na possibilidade de construir um mundo melhor, na consciência de que não pode existir um ‘paraíso terrestre’. Os cristãos, especialmente os fiéis leigos, são exortados a comportar-se de modo que ‘a força do Evangelho resplandeça na vida quotidiana, familiar e social’» (579).

Construir a «civilização do amor»

«Finalidade imediata da doutrina social é a de propor os princípios e os valores que possam suster uma sociedade digna do ser humano. Entre estes princípios, o da solidariedade em certa medida compreende todos os demais: ele constitui ‘um dos princípios básicos da conceção cristã da organização social e política’. Tal princípio é iluminado pelo primado da caridade, ‘sinal distintivo dos discípulos de Cristo’ [...]. O comportamento da pessoa é plenamente humano quando nasce do amor, manifesta o amor e é ordenado para o amor. Esta verdade vale também no âmbito social» (580). Assim, «o amor deve estar presente e penetrar todas as relações sociais [...]. Este amor pode ser chamado ‘caridade social’ ou ‘caridade política’ e deve ser estendido a todo o género humano» (581). Ora, «para tornar a sociedade mais humana, mais digna da pessoa, é necessário revalorizar o amor na vida social – nos planos político, económico, cultural –, fazendo dele a norma constante e suprema do agir. [...] Não se pode regular as relações humanas ‘unicamente com a medida da justiça’» (582). «Só a caridade pode transformar completamente o ser humano. Uma semelhante transformação não significa anulação da dimensão terrena numa espiritualidade desencarnada. [...] A caridade representa o maior mandamento social. Ela respeita o outro e os seus direitos, exige a prática da justiça, de que só ela nos torna capazes e inspira-nos uma vida de entrega [...]. Tão-pouco pode a caridade esgotar-se unicamente na dimensão terrena das relações humanas e das relações sociais, porque toda a sua eficácia deriva da referência a Deus» (583).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.7.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO DÉCIMO SÉTIMO


Em cada eucaristia, Deus oferece-nos o alimento da Palavra (Liturgia da Palavra) e do Pão (Liturgia Eucarística). Os textos bíblicos propostos para o décimo sétimo domingo (Ano B) despertam a nossa atenção para celebrar esse duplo «alimento»: «Abris, Senhor, as vossas mãos e saciais a nossa fome» (salmo). O profeta Eliseu já tinha anunciado e prefigurado essa abundância: em período de fome, distribui os pães pelo seu povo (primeira leitura). Jesus Cristo fará o mesmo, revelando-se como aquele que sacia todos os famintos (evangelho). Ele é «um só Senhor» que nos une em «um só Corpo» (segunda leitura). Agora, compete-nos a nós abrir as mãos para multiplicar, partilhar…

«Comerão e ainda há de sobrar»
O fragmento da primeira leitura, retirado do Segundo Livro dos Reis, pertence à tradição dos atos de Eliseu, o profeta de Deus, discípulo de Elias. Estes dois homens atuam no reino do Norte ou de Israel. Não deixaram qualquer obra profética escrita e deles só sabemos os atos prodigiosos recolhidos nos Primeiro e Segundo Livros dos Reis.
Uma vez fixado na «Terra Prometida», o povo é exortado a ser fiel à Aliança. Esta será a grande missão de Elias e do seu servo, o também profeta Eliseu: ambos conhecem o perigo constante da idolatria. Neste contexto, os profetas recordam que o Deus de Israel não é como as divindades das nações vizinhas. O Deus de Israel (YHWH) é um Deus preocupado com o seu povo, um Deus ao lado dos mais pobres, que olha para as suas necessidades, escuta os seus lamentos.
O episódio narrado é duma simplicidade espantosa. O profeta Eliseu recebe uma oferenda com as primícias da colheita do ano: a cevada e o trigo foram cegados e moídos; da farinha fizeram pães que foram oferecidos ao homem de Deus.
Eliseu não guarda para si este dom que lhe é oferecido, mas distribui-o pela comunidade. Ao servo parece-lhe insensato querer partilhar uma quantidade tão escassa de alimento com centenas de pessoas. Mas Eliseu diz que é a vontade de Deus: «Comerão e ainda há de sobrar». E assim sucedeu! Estamos diante da força poderosa da palavra de Deus para quem está disposto a deixar-se orientar por ela.
A resposta de Eliseu é uma antecipação do que é relatado no evangelho: reparte e confia em Deus. Não é só um gesto que convida a partilhar como forma de multiplicar o pouco que existe, mas um gesto de confiança na providência divina. Cada um dispõe do que tem, muito ou pouco, e Deus faz maravilhas!

A ação realizada pelo profeta Eliseu (e por Jesus Cristo) mostra que o «lógico» não é repartir o muito que se tem, mas partilhar o (pouco) que existe. Assim se passa do «eu» da «propriedade privada» ao «nós» do «destino universal dos bens», como bem propõe a doutrina social da Igreja. A fome da multidão não se sacia com um simples repartir o que temos a mais, mas partilhando tudo, ainda que seja pouco. A experiência demonstra precisamente que a lógica do repartir o «muito» (que sobra) nunca chega para todos, enquanto a partilha do «pouco» (que existe) chega para todos!

© Laboratório da fé, 2015


Celebrar o domingo décimo sétimo (Ano B), no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.7.15 | Sem comentários

Viver a fé! [41]


«Doutrina social e compromisso dos cristãos leigos» é o título da segunda parte do último capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Este ponto divide-se nas alíneas: «o cristão leigo» (números 541 a 544); «a espiritualidade do cristão leigo» (545 e 546); «agir com prudência» (547 e 548); «doutrina social e experiência associativa» (549 e 550); «o serviço nos diversos âmbitos da vida social» (551 a 574).

O cristão leigo

«Com o Batismo, os leigos são inseridos em Cristo, tornam-se participantes da sua vida e da sua missão segundo a sua peculiar identidade» (541) que «nasce e alimenta-se dos sacramentos: do Batismo, do Crisma e da Eucaristia» (542). «É tarefa própria do fiel leigo anunciar o Evangelho com um exemplar testemunho de vida, radicado em Cristo e vivido nas realidades temporais: família; compromisso profissional no âmbito do trabalho, da cultura, da ciência e da investigação; exercício das responsabilidades sociais, económicas, políticas» (543). «O testemunho do fiel leigo nasce de um dom de graça, reconhecido, cultivado e amadurecido» (544).

A espiritualidade do cristão leigo

«Os fiéis leigos são chamados a cultivar uma autêntica espiritualidade laical que os regenere como homens e mulheres novos, imersos no mistério de Deus e inseridos na sociedade, santos e santificadores» (545). Por isso, «a síntese entre fé e vida exige um caminho ritmado com sabedoria pelos elementos qualificadores do itinerário cristão» (546): Palavra de Deus; celebração litúrgica; oração; a experiência eclesial; exercício das virtudes sociais; esforço de formação cultural e profissional.

Agir com prudência

«O fiel leigo deve agir segundo as exigências ditadas pela prudência» (547): «permite tomar decisões coerentes, com realismo e sentido de responsabilidade» (548).

Doutrina social e experiência associativa

«A doutrina social da Igreja deve entrar, como parte integrante, no caminho formativo do fiel leigo» (549). «A doutrina social da Igreja é importantíssima para as agregações eclesiais cujo esforço têm como objetivo a ação pastoral no âmbito social» (550).

O serviço nos diversos âmbitos da vida social

«A presença do fiel leigo no campo social é caracterizada pelo serviço, sinal e expressão da caridade que se manifesta na vida familiar, cultural, profissional, económica, política» (551). «Entre os âmbitos do empenho social dos fiéis leigos, destaca-se, antes de tudo, o serviço à pessoa humana» (552): «a afirmação do direito inviolável à vida, desde a conceção até à morte natural» (553). Também «a cultura deve constituir um campo privilegiado de presença e empenho» (554): «o fomento de uma cultura social e política inspirada no Evangelho» (555). Neste sentido, «a dimensão ética da cultura é, portanto, uma prioridade» (556). «O empenho social e político do fiel leigo no campo cultural assume atualmente algumas direções precisas. A primeira é a que procura garantir a cada um o direito de todos a uma cultura humana e civil» (557). «O segundo desafio [...] diz respeito ao conteúdo da cultura, ou seja, à verdade» (558). «Os cristãos devem prodigalizar-se em dar plena valorização à dimensão religiosa da cultura» (559). «Na promoção de uma autêntica cultura, os fieis leigos concederão grande relevo aos meios de comunicação social» (560): «possíveis e poderosos instrumentos de solidariedade» (561). Quer os profissionais, quer os que fruem dos meios de comunicação social têm «deveres éticos» e «obrigações» (562). «Diante da complexidade do contexto económico, o fiel leigo deixar-se-á guiar na sua ação pelos princípios do magistério social» (563). «Os cultores da ciência económica, os operadores do setor e os responsáveis políticos devem advertir para a urgência de se repensar a economia» (564). «Para os fiéis leigos, o compromisso político é uma expressão qualificada e exigente do compromisso cristão» (565). Aqui exige-se «a absoluta necessidade de uma qualificação moral da vida social e política» (566), «um cuidado especial na preparação do exercício do poder» (567), tornar presente os «valores morais próprios da vida social» (568), zelar pelo «funcionamento do sistema democrático» (569), não votar contra os «conteúdos fundamentais da fé e da moral» (570). «O empenho político dos católicos é frequentemente posto em relação com a ‘laicidade’, ou seja, a distinção entre a esfera política e a religiosa» (571). «O princípio da laicidade comporta o respeito por toda a confissão religiosa por parte do Estado» (572). «Um âmbito particular de discernimento [...] diz respeito à escolha dos instrumentos políticos» (573): partidos e posições «não incompatíveis com a fé e os valores cristãos» (574).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.7.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO DÉCIMO SEXTO


A Liturgia da Palavra possui, no décimo sexto domingo (Ano B), uma tonalidade pastoral capaz de chegar ao coração e à vida de cada pessoa. Com efeito, revela um Deus que, em Jesus Cristo, se faz próximo e cuida de nós, seu rebanho (salmo): é o bom pastor que vem para congregar todas as ovelhas. Jesus Cristo é o Salvador anunciado pelos profetas (primeira leitura), que obtém para nós a reconciliação pelo sangue derramado na cruz (segunda leitura). Celebrar Jesus Cristo, nossa paz, é aderir ao seu desejo de reconciliar todos os povos na unidade do seu amor. Celebrar o Senhor, bom pastor que nos convida a ir com ele (evangelho), é comungar a alegria do Evangelho que nos envia a proclamar no dia a dia.

«Dar-lhes-ei pastores»
Jeremias profetizou em Judá, nos tempos dramáticos da grande crise em que ocorreu a deportação da casa real e dos chefes judaicos para a Babilónia, bem como a destruição do templo de Deus em Jerusalém.
O texto proposto para primeira leitura corresponde ao início do capítulo 23, capítulo que faz parte duma ampla secção onde se recolhem uma série de oráculos dirigidos ao povo de Deus. Aqui, Jeremias queixa-se amargamente dos reis que desaproveitaram todas as oportunidades que Deus lhes tinha oferecido ao longo da história e provocaram a ruína agora inevitável e iminente. Estes, designados como «pastores», tiveram um comportamento indigno: «Dispersastes as minhas ovelhas e as escorraçastes, sem terdes cuidado delas». As ovelhas dispersas são tanto os exilados no passado, quando caiu o Reino do Norte, no ano 722 antes de Cristo, como a premonição de todos os que, aquando da queda de Jerusalém (Reino de Judá), no ano de 587 antes de Cristo, também serão levados para a Babilónia.
Contudo, Deus, o verdadeiro pastor, não abandona o seu povo — «Eu mesmo reunirei o resto das minhas ovelhas» — com a promessa duma nova vida: «para que cresçam e se multipliquem». Com isso, acrescenta: «Dar-lhes-ei pastores».
Jeremias não recusa nem esquece a promessa feita a David através do profeta Natã (cf. Segundo Livro de Samuel, capítulo 7), mas retoma-a e interpreta-a através de um jogo de palavras: o rei histórico a quem Jeremias dirige o oráculo é Sedecias (significa: «O Senhor é a nossa justiça»), que não honra o seu nome. Por isso, o profeta anuncia que o Messias não só honrará esse nome, mas realizará plenamente o seu significado.

A Bíblia, em muitas ocasiões, compara a relação de Deus com o povo como a de um pastor com o seu rebanho. E também usa a mesma comparação para se referir aos dirigentes do povo, uma vez que recebem de Deus a missão de cuidar das «ovelhas». Missão que nem sempre é levada a bom termo!
A imagem do povo «como ovelhas sem pastor» será retomada pelos evangelistas para descrever a situação no tempo de Jesus Cristo. Hoje, como ontem, são precisos pastores que contraiam o «cheiro das ovelhas», que sintam paixão pelo povo, que se alegrem com os que estão alegres e chorem com os que choram, que partilhem a vida e as preocupações de todos.

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo décimo sexto (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.7.15 | Sem comentários

Viver a fé! [40]


O último capítulo (décimo segundo) do Compêndio da Doutrina Social da Igreja intitula-se «Doutrina Social e ação eclesial», subdividindo-se em dois pontos: «a ação social no âmbito social»; «doutrina social e compromisso dos cristãos leigos». Este tema apresenta o conteúdo do primeiro ponto: «doutrina social e inculturação da fé» (números 521 a 523); «doutrina social e pastoral social» (524 a 527); «doutrina social e formação» (528 a 533); «promover o diálogo» (534 a 537); «os sujeitos da pastoral social» (538 a 540).

Doutrina social e inculturação da fé

«Consciente da força renovadora do cristianismo mesmo em relação à cultura e à realidade social, a Igreja oferece o contributo do próprio ensinamento à construção da cidade dos homens, mostrando o significado social do Evangelho» (521). «Oferece sobretudo uma visão integral e uma plena compreensão do ser humano, nas suas dimensões pessoal e social» (522). «A antropologia cristã anima e sustém a obra pastoral de inculturação da fé, dedicada a renovar a partir de dentro, com a força do Evangelho, os critérios de juízo, os valores determinantes, as linhas de pensamento e os modelos de vida do homem contemporâneo» (523).

Doutrina social e pastoral social

«A pastoral social é a expressão viva e concreta de uma Igreja plenamente consciente da própria missão evangelizadora das realidades sociais, económicas, culturais e políticas do mundo» (524). «A ação pastoral da Igreja no âmbito social deve testemunhar, antes de tudo, a verdade acerca do ser humano. [...] Deve inspirar-se no princípio fundamental da centralidade do ser humano» (527). Nesta perspetiva, «a mensagem social do Evangelho deve orientar a Igreja para o desempenho de uma dupla tarefa pastoral: ajudar os homens e mulheres a descobrirem a verdade e a escolherem a via a seguir; encorajar o esforço dos cristãos para testemunhar, com solicitude de serviço, o Evangelho no campo social» (525). «Os critérios fundamentais da ação pastoral no campo social [são]: anunciar o Evangelho; confrontar a mensagem evangélica com a realidade social; projetar ações voltadas para a renovação de tais realidades, conformando-as com as exigências da moral cristã» (526).

Doutrina social e formação

«A doutrina social é um ponto de referência indispensável para uma formação cristã completa» (528). «O valor formativo da doutrina social reconhece-se melhor na atividade catequética» (529): «é importante que o ensino da doutrina social seja orientado para motivar a ação para a evangelização e a humanização das realidades temporais. [...] Adquire um extraordinário valor formativo o testemunho oferecido pelo cristianismo vivido» (530). «A doutrina social deve ser colocada na base de uma ativa e constante obra de formação, sobretudo da dirigida aos cristãos leigos. Tal formação deve ter em conta o seu empenho na vida civil» (531). Aqui, «as instituições educativas católicas podem e devem desempenhar um precioso serviço formativo, esforçando-se com especial solicitude pela inculturação da mensagem cristã, ou seja, o encontro fecundo entre o Evangelho e os vários saberes» (532). «Não menos relevante deve ser o esforço por utilizar a doutrina social na formação dos presbíteros» (533).

Promover o diálogo

«A doutrina social é um instrumento eficaz de diálogo entre as comunidades cristãs e a comunidade civil e política» (534) para uma correta e fecunda colaboração. E também «é um terreno fecundo para o cultivo do diálogo e da colaboração no campo ecuménico» (535). «Na comum tradição do Antigo Testamento, a Igreja Católica sabe poder dialogar com os irmãos hebreus, também mediante a sua doutrina social, para construírem juntos um futuro de justiça e de paz para todos os homens, filhos do único Deus» (536). «A doutrina social caracteriza-se também por um constante apelo ao diálogo entre todos os crentes das religiões do mundo, para que saibam compartilhar a busca de formas mais oportunas de colaboração» (537).

Os sujeitos da pastoral social

«A Igreja, ao cumprir a sua missão, empenha todo o povo de Deus. [...] A obra pastoral em âmbito social é destinada a todos os cristãos, chamados a transformarem-se em sujeitos ativos no testemunho da doutrina social» (538). «Na Igreja particular, o primeiro responsável pelo empenho pastoral de evangelização do social é o bispo [...]. A ação pastoral do bispo deve encontrar continuação no ministério dos presbíteros que participam da sua missão de ensino, santificação e guia da comunidade cristã» (539). «A ação pastoral no âmbito social vale-se também das obras das pessoas consagradas, de acordo com o seu carisma» (540).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 16.7.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO DÉCIMO QUINTO


Não é fácil ser mensageiro do Evangelho! Na continuação do domingo passado, a palavra de Deus proposta para o décimo quinto domingo (Ano B) dá-nos exemplos concretos sobre a difícil condição dos «enviados»: Amós tem de deixar o seu trabalho de pastor porque Deus quer fazer dele um profeta para enfrentar os poderes instalados (primeira leitura); os Doze, que Jesus Cristo envia em missão, são alertados para prováveis hostilidades (evangelho). Mas nada pode deter, no anúncio do Reino, aqueles que Deus «abençoou… escolheu… predestinou» (segunda leitura). Então, escutemos o que Deus nos diz (salmo), a nós, sua Igreja, seu povo, mas também a todos os homens e mulheres a quem mostra todo o seu amor e misericórdia.

«Vai profetizar ao meu povo»
Amós é o profeta escritor mais antigo da Bíblia. Em meados do século oitavo (antes de Cristo), em tempos de convulsão, recebe o encargo de ir pregar ao reino de Israel, a norte, apesar de ser proveniente do sul, das terras de Judá. E vai revelar-se um profeta com uma força singular: preocupa-se com os pobres e reprova o comportamento dos ricos e poderosos. Ora, esta postura, ontem como hoje, envolve sempre grandes riscos.
Amós apresenta-se no santuário real de Betel para denunciar a iniquidade dos poderosos e a insensibilidade face às necessidades dos pobres. O discurso não agrada ao sacerdote Amasias, que lhe diz: «Vai-te daqui, vidente».
Eram frequentes, nesse tempo, os profetas «profissionais», isto é, pessoas que exerciam a profecia como uma profissão reconhecida socialmente e com os correspondentes benefícios económicos. Nos vários templos e santuários do reino do Norte (também designado como reino de Israel), havia pessoas que «ganhavam o pão» dizendo-se profetas em nome de Deus. Um desses santuários era o de Betel, cujo responsável era o sacerdote Amasias. O sacerdote pensa que aquele homem, que anuncia desgraças, se trata de um profeta por conta própria. Amós responde-lhe: «Eu não era profeta, nem filho de profeta». Amós era um pastor, um camponês, que foi chamado e enviado por Deus: «Vai profetizar ao meu povo» (de Israel, o povo de Deus).

Há uma frescura nas vocações verdadeiras que lhes dá força para não se atemorizarem face às ameaças dos poderes que se sentem incomodados pelas suas palavras e ações. Porque o «vocacionado» não fala nem atua em nome próprio: «Foi o Senhor que me tirou da guarda do rebanho e me disse: ‘Vai profetizar ao meu povo de Israel’»; «Jesus chamou os doze Apóstolos e começou a enviá-los dois a dois». Então, se queremos manter a frescura da nossa vocação cristã temos de assumir que esta é a hora da missão, hora de nos pormos a caminho, de deixarmos o nosso lugar de conforto, para nos tornarmos uma «Igreja em saída», uma Igreja como «hospital de campanha» composta por homens e mulheres dispostos a «sujar as mãos». É a frescura que o Papa Francisco não se cansa de propor: «Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo» (cf. EG 27): costumes, estilos, horários, linguagem.

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo décimo quinto (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 10.7.15 | Sem comentários

Viver a fé! [39]


Este tema aborda o conteúdo do terceiro ponto do décimo primeiro capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja («a promoção da paz»): «A falência da paz: a guerra» (números 497 a 515). A Igreja «condena ‘a crueldade da guerra’ e pede que ela seja considerada numa abordagem completamente nova [...]. ‘Nada se perde com a paz; mas, com a guerra, tudo pode perder-se’» (497). Aliás, «o outro nome da paz é desenvolvimento. Como existe a responsabilidade coletiva de evitar a guerra, do mesmo modo há a responsabilidade coletiva de promover o desenvolvimento» (498). Daí «a necessidade e a importância das organizações internacionais e regionais» (499).Este tópico subdivide-se nas seguintes alíneas: «a legítima defesa»; «defender a paz»; «o dever de proteger os inocentes»; «medidas contra quem ameaça a paz»; «o desarmamento»; «a condenação do terrorismo».

A legítima defesa

«Uma guerra de agressão é intrinsecamente imoral. No trágico caso em que esta se desencadeie, os responsáveis por um Estado agredido têm o direito e o dever de organizar a defesa, inclusive recorrendo à força das armas» (500). «A Carta das Nações Unidas [...] baseia-se na interdição generalizada do recurso à força para resolver as controvérsias entre os Estados, exceto em dois casos: a legítima defesa e as medidas tomadas pelo Conselho de Segurança no âmbito das suas responsabilidades para manter a paz» (501).

Defender a paz

«As exigências da legítima defesa justificam a existência, nos Estados, das forças armadas, cuja ação deve ser posta ao serviço da paz» (502). Por isso, «o membro das forças armadas está moralmente obrigado a opor-se às ordens que incitam a cumprir crimes contra o direito das nações e os seus princípios universais» (503).

O dever de proteger os inocentes

«O direito ao uso da força com o objetivo de legítima defesa é associado ao dever de proteger e ajudar as vítimas inocentes que não podem defender-se das agressões» (504). «O princípio da humanidade, inscrito na consciência de cada pessoa e cada povo, comporta a obrigação de manter as populações civis ao abrigo dos efeitos da guerra [...]. Uma categoria particular de vítimas da guerra é a dos refugiados [...]. A Igreja está do lado deles» (505). «As tentativas de eliminação de grupos nacionais inteiros, étnicos, religiosos ou linguísticos, são delitos contra Deus e contra a própria humanidade e os responsáveis de tais crimes devem ser chamados a responder diante da justiça. [...] A comunidade internacional, no seu conjunto, tem a obrigação moral de intervir em favor destes grupos cuja própria sobrevivência é ameaçada, ou daqueles cujos direitos fundamentais são maciçamente violados» (506).

Medidas contra quem ameaça a paz

«As sanções, nas formas previstas do ordenamento internacional contemporâneo, visam corrigir o comportamento do Governo de um país que viola as regras da convivência internacional pacífica e ordenada ou que põe em prática formas graves de opressão [...]. O verdadeiro objetivo de tais medidas é abrir caminho para as negociações e para o diálogo. As sanções não devem jamais constituir um instrumento de punição direta contra toda a população» (507).

O desarmamento

«A doutrina social propõe a meta de um ‘desarmamento geral, equilibrado e controlado’» (508). «As armas de destruição maciça – biológicas, químicas e nucleares – representam uma ameaça particularmente grave; aqueles que as possuem têm uma responsabilidade enorme diante de Deus e de toda a humanidade» (509). «O desarmamento deve estender-se à interdição das armas que infligem efeitos traumáticos excessivos ou cujo efeito é indiscriminado, assim como as minas anti-homem» (510). Por conseguinte, são necessárias medidas «para o controlo da produção, da venda, da importação e da exportação de armas leves e individuais» (511). E «a utilização de crianças e adolescentes como soldados em conflitos armados – até porque a sua jovem idade não deve permitir o seu recrutamento – tem de ser denunciada» (512).

A condenação do terrorismo

«O terrorismo é uma das formas mais brutais de violência que atualmente atribula a comunidade internacional: semeia ódio, morte, desejo de vingança e de represália» (513). «O terrorismo deve ser condenado do modo mais absoluto. Ele manifesta um desprezo total pela vida humana e nenhuma motivação pode justificá-lo» (514). Por isso, a Igreja afirma que «é profanação e blasfémia proclamar-se terrorista em nome de Deus. [...] Nenhuma religião pode tolerar o terrorismo e, menos ainda, pregá-lo» (515).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 9.7.15 | Sem comentários
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