CELEBRAR O DOMINGO DÉCIMO OITAVO


O alimento evocado nos textos bíblicos propostos para o décimo oitavo domingo (Ano B) serve para colocar a questão de fundo sobre a fé, sobre a confiança em Deus: no deserto, quando têm fome, os filhos de Israel esquecem-se que foram libertados do Egito e perdem a confiança em Deus (primeira leitura). Em Cafarnaum, Jesus Cristo convida a multidão a repensar o caminho da fé, a fazer memória daquilo que os seus pais contaram (salmo) e a reconhecer o verdadeiro Pão do Céu, o Pão da Vida (evangelho). Para viver desse pão, é preciso acreditar em Jesus Cristo, o enviado do Pai, e deixar-se renovar pelo Espírito Santo (segunda leitura).

«É o pão que o Senhor vos dá em alimento»
Os factos relacionados com a libertação do Egito são prodigiosos: o Deus dos escravos vence o faraó e os seus deuses. A passagem do mar foi a vitória contra as forças do mal.
O povo de Israel percorre as primeiras etapas do caminho pelo deserto para chegar à «Terra Prometida». Cedo começa a murmurar contra os mediadores, Moisés e Aarão. A passagem do mar deixou o povo no deserto, um lugar de fome, que inevitavelmente conduz à morte. Nessas circunstâncias, o Egito, o lugar da escravidão, é recordado como um lugar onde havia carne e pão. A necessidade de comida faz esquecer que o caminho do deserto conduz à liberdade e ao bem-estar. Estamos perante uma perversão da vida própria de pessoas que não enxergam além dos interesses imediatos: a (suposta) sobrevivência em vez da (verdadeira) liberdade!
O deserto é apresentado, no livro do Êxodo, como uma realidade ambivalente: por um lado, é o lugar das revelações de Deus, da providência solícita para com o seu povo. Mas, por outro, é o lugar dos confrontos com Moisés, o enviado de Deus, o lugar da carência e da nostalgia.
O que realmente surpreende na narração é que Israel não é censurado pelos seus horizontes limitados, antes recebe uma resposta imediata e positiva: «Vou fazer que chova para vós pão do céu». Deus não abandona o seu povo; tampouco se dá por vencido: dá-lhes um alimento diário. É um pão que tem a sua origem nos «armazéns» do céu e não nos armazéns do faraó. Além disso, em contraste com a carne do Egito, a terra da escravidão, Deus providencia as codornizes. O dito «pão do céu» é um alimento desconhecido — «Man-hu?», quer dizer: «Que é isto?». Moisés, o mediador, desvela o seu sentido: «É o pão que o Senhor vos dá em alimento».
O «pão do céu» («maná») torna-se, na história bíblica, o alimento diário dado por Deus, alimento suficiente para caminhar. Eis a prefiguração do «pão da vida», Jesus Cristo: «Tomai, todos, e comei: isto é o Meu Corpo, que será entregue por vós». Agora, a Eucaristia realiza a oferta do alimento, não só suficiente para caminhar, como também «dura até à vida eterna». Hoje, é fundamental ter presente a nossa união pessoal com Jesus Cristo como o objetivo dos nossos encontros eucarísticos (dominicais): unirmo-nos a Jesus, comungar com Ele; «uma comunhão com Cristo na Eucaristia, que transforme a vida» (EG 138).

© Laboratório da fé, 2015


Celebrar o domingo décimo oitavo (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.7.15 | Sem comentários

Viver a fé! [42]


A conclusão do Compêndio da Doutrina Social da Igreja propõe uma meta: caminharmos «para uma civilização do amor». Esta última proposta desenvolve-se nas seguintes alíneas: «a ajuda da Igreja ao homem contemporâneo» (números 575 e 576); «voltar a partir da fé em Cristo» (577); «uma firme esperança» (578 e 579); «construir a ‘civilização do amor’» (580 a 583).

A ajuda da Igreja ao homem contemporâneo

A Igreja reconhece que se vive «uma nova necessidade de sentido na sociedade contemporânea. [...] Revelam-se árduas as tentativas de responder à exigência de projetar o futuro no novo contexto das relações internacionais, cada vez mais complexas e interdependentes, mas também menos ordenadas e pacíficas» (575). Por isso, «às interrogações de fundo sobre o sentido e o fim da aventura pessoal a Igreja responde com o anúncio do Evangelho de Cristo, que subtrai a dignidade da pessoa humana ao flutuar das opiniões, assegurando a liberdade do ser humano como nenhuma lei humana pode fazer. O II Concílio do Vaticano indicou que a missão da Igreja no mundo contemporâneo consiste em ajudar cada ser humano a descobrir em Deus o significado último da sua existência [...]. Somente Deus, que criou o ser humano à sua imagem e o resgatou do pecado, pode oferecer às interrogações humanas mais radicais uma resposta plenamente adequada por meio da Revelação realizada definitivamente no seu Filho feito homem» (576).

Voltar a partir da fé em Cristo

«A fé em Deus e em Jesus Cristo ilumina os princípios morais que são ‘o fundamento único e insubstituível da estabilidade e tranquilidade, da ordem interior e exterior, particular e pública, únicos valores capazes de criar e salvaguardar a prosperidade dos Estados’. A vida social deve ser ancorada no desígnio divino [...]. Também no que diz respeito à ‘questão social’, não se pode aceitar ‘a esperança ingénua de que possa haver uma fórmula mágica para os grandes desafios do nosso tempo; não será uma fórmula a salvar-nos, mas uma Pessoa, e a certeza que Ela nos infunde: Eu estarei convosco!’» (577).

Uma firme esperança

«A Igreja ensina ao ser humano que Deus lhe oferece a real possibilidade de superar o mal e de alcançar o bem. O Senhor redimiu o humano, resgatou-o por um ‘grande preço’ (1Coríntios 6, 20). O sentido e o fundamento do empenho cristão no mundo derivam de tal certeza, capaz de acender a esperança não obstante o pecado que marca profundamente a história humana: a promessa divina garante que o mundo não permanece fechado em si mesmo, mas está aberto ao Reino de Deus» (578). «A esperança cristã imprime um grande impulso ao compromisso no campo social, infundindo confiança na possibilidade de construir um mundo melhor, na consciência de que não pode existir um ‘paraíso terrestre’. Os cristãos, especialmente os fiéis leigos, são exortados a comportar-se de modo que ‘a força do Evangelho resplandeça na vida quotidiana, familiar e social’» (579).

Construir a «civilização do amor»

«Finalidade imediata da doutrina social é a de propor os princípios e os valores que possam suster uma sociedade digna do ser humano. Entre estes princípios, o da solidariedade em certa medida compreende todos os demais: ele constitui ‘um dos princípios básicos da conceção cristã da organização social e política’. Tal princípio é iluminado pelo primado da caridade, ‘sinal distintivo dos discípulos de Cristo’ [...]. O comportamento da pessoa é plenamente humano quando nasce do amor, manifesta o amor e é ordenado para o amor. Esta verdade vale também no âmbito social» (580). Assim, «o amor deve estar presente e penetrar todas as relações sociais [...]. Este amor pode ser chamado ‘caridade social’ ou ‘caridade política’ e deve ser estendido a todo o género humano» (581). Ora, «para tornar a sociedade mais humana, mais digna da pessoa, é necessário revalorizar o amor na vida social – nos planos político, económico, cultural –, fazendo dele a norma constante e suprema do agir. [...] Não se pode regular as relações humanas ‘unicamente com a medida da justiça’» (582). «Só a caridade pode transformar completamente o ser humano. Uma semelhante transformação não significa anulação da dimensão terrena numa espiritualidade desencarnada. [...] A caridade representa o maior mandamento social. Ela respeita o outro e os seus direitos, exige a prática da justiça, de que só ela nos torna capazes e inspira-nos uma vida de entrega [...]. Tão-pouco pode a caridade esgotar-se unicamente na dimensão terrena das relações humanas e das relações sociais, porque toda a sua eficácia deriva da referência a Deus» (583).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.7.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO DÉCIMO SÉTIMO


Em cada eucaristia, Deus oferece-nos o alimento da Palavra (Liturgia da Palavra) e do Pão (Liturgia Eucarística). Os textos bíblicos propostos para o décimo sétimo domingo (Ano B) despertam a nossa atenção para celebrar esse duplo «alimento»: «Abris, Senhor, as vossas mãos e saciais a nossa fome» (salmo). O profeta Eliseu já tinha anunciado e prefigurado essa abundância: em período de fome, distribui os pães pelo seu povo (primeira leitura). Jesus Cristo fará o mesmo, revelando-se como aquele que sacia todos os famintos (evangelho). Ele é «um só Senhor» que nos une em «um só Corpo» (segunda leitura). Agora, compete-nos a nós abrir as mãos para multiplicar, partilhar…

«Comerão e ainda há de sobrar»
O fragmento da primeira leitura, retirado do Segundo Livro dos Reis, pertence à tradição dos atos de Eliseu, o profeta de Deus, discípulo de Elias. Estes dois homens atuam no reino do Norte ou de Israel. Não deixaram qualquer obra profética escrita e deles só sabemos os atos prodigiosos recolhidos nos Primeiro e Segundo Livros dos Reis.
Uma vez fixado na «Terra Prometida», o povo é exortado a ser fiel à Aliança. Esta será a grande missão de Elias e do seu servo, o também profeta Eliseu: ambos conhecem o perigo constante da idolatria. Neste contexto, os profetas recordam que o Deus de Israel não é como as divindades das nações vizinhas. O Deus de Israel (YHWH) é um Deus preocupado com o seu povo, um Deus ao lado dos mais pobres, que olha para as suas necessidades, escuta os seus lamentos.
O episódio narrado é duma simplicidade espantosa. O profeta Eliseu recebe uma oferenda com as primícias da colheita do ano: a cevada e o trigo foram cegados e moídos; da farinha fizeram pães que foram oferecidos ao homem de Deus.
Eliseu não guarda para si este dom que lhe é oferecido, mas distribui-o pela comunidade. Ao servo parece-lhe insensato querer partilhar uma quantidade tão escassa de alimento com centenas de pessoas. Mas Eliseu diz que é a vontade de Deus: «Comerão e ainda há de sobrar». E assim sucedeu! Estamos diante da força poderosa da palavra de Deus para quem está disposto a deixar-se orientar por ela.
A resposta de Eliseu é uma antecipação do que é relatado no evangelho: reparte e confia em Deus. Não é só um gesto que convida a partilhar como forma de multiplicar o pouco que existe, mas um gesto de confiança na providência divina. Cada um dispõe do que tem, muito ou pouco, e Deus faz maravilhas!

A ação realizada pelo profeta Eliseu (e por Jesus Cristo) mostra que o «lógico» não é repartir o muito que se tem, mas partilhar o (pouco) que existe. Assim se passa do «eu» da «propriedade privada» ao «nós» do «destino universal dos bens», como bem propõe a doutrina social da Igreja. A fome da multidão não se sacia com um simples repartir o que temos a mais, mas partilhando tudo, ainda que seja pouco. A experiência demonstra precisamente que a lógica do repartir o «muito» (que sobra) nunca chega para todos, enquanto a partilha do «pouco» (que existe) chega para todos!

© Laboratório da fé, 2015


Celebrar o domingo décimo sétimo (Ano B), no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.7.15 | Sem comentários

Viver a fé! [41]


«Doutrina social e compromisso dos cristãos leigos» é o título da segunda parte do último capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Este ponto divide-se nas alíneas: «o cristão leigo» (números 541 a 544); «a espiritualidade do cristão leigo» (545 e 546); «agir com prudência» (547 e 548); «doutrina social e experiência associativa» (549 e 550); «o serviço nos diversos âmbitos da vida social» (551 a 574).

O cristão leigo

«Com o Batismo, os leigos são inseridos em Cristo, tornam-se participantes da sua vida e da sua missão segundo a sua peculiar identidade» (541) que «nasce e alimenta-se dos sacramentos: do Batismo, do Crisma e da Eucaristia» (542). «É tarefa própria do fiel leigo anunciar o Evangelho com um exemplar testemunho de vida, radicado em Cristo e vivido nas realidades temporais: família; compromisso profissional no âmbito do trabalho, da cultura, da ciência e da investigação; exercício das responsabilidades sociais, económicas, políticas» (543). «O testemunho do fiel leigo nasce de um dom de graça, reconhecido, cultivado e amadurecido» (544).

A espiritualidade do cristão leigo

«Os fiéis leigos são chamados a cultivar uma autêntica espiritualidade laical que os regenere como homens e mulheres novos, imersos no mistério de Deus e inseridos na sociedade, santos e santificadores» (545). Por isso, «a síntese entre fé e vida exige um caminho ritmado com sabedoria pelos elementos qualificadores do itinerário cristão» (546): Palavra de Deus; celebração litúrgica; oração; a experiência eclesial; exercício das virtudes sociais; esforço de formação cultural e profissional.

Agir com prudência

«O fiel leigo deve agir segundo as exigências ditadas pela prudência» (547): «permite tomar decisões coerentes, com realismo e sentido de responsabilidade» (548).

Doutrina social e experiência associativa

«A doutrina social da Igreja deve entrar, como parte integrante, no caminho formativo do fiel leigo» (549). «A doutrina social da Igreja é importantíssima para as agregações eclesiais cujo esforço têm como objetivo a ação pastoral no âmbito social» (550).

O serviço nos diversos âmbitos da vida social

«A presença do fiel leigo no campo social é caracterizada pelo serviço, sinal e expressão da caridade que se manifesta na vida familiar, cultural, profissional, económica, política» (551). «Entre os âmbitos do empenho social dos fiéis leigos, destaca-se, antes de tudo, o serviço à pessoa humana» (552): «a afirmação do direito inviolável à vida, desde a conceção até à morte natural» (553). Também «a cultura deve constituir um campo privilegiado de presença e empenho» (554): «o fomento de uma cultura social e política inspirada no Evangelho» (555). Neste sentido, «a dimensão ética da cultura é, portanto, uma prioridade» (556). «O empenho social e político do fiel leigo no campo cultural assume atualmente algumas direções precisas. A primeira é a que procura garantir a cada um o direito de todos a uma cultura humana e civil» (557). «O segundo desafio [...] diz respeito ao conteúdo da cultura, ou seja, à verdade» (558). «Os cristãos devem prodigalizar-se em dar plena valorização à dimensão religiosa da cultura» (559). «Na promoção de uma autêntica cultura, os fieis leigos concederão grande relevo aos meios de comunicação social» (560): «possíveis e poderosos instrumentos de solidariedade» (561). Quer os profissionais, quer os que fruem dos meios de comunicação social têm «deveres éticos» e «obrigações» (562). «Diante da complexidade do contexto económico, o fiel leigo deixar-se-á guiar na sua ação pelos princípios do magistério social» (563). «Os cultores da ciência económica, os operadores do setor e os responsáveis políticos devem advertir para a urgência de se repensar a economia» (564). «Para os fiéis leigos, o compromisso político é uma expressão qualificada e exigente do compromisso cristão» (565). Aqui exige-se «a absoluta necessidade de uma qualificação moral da vida social e política» (566), «um cuidado especial na preparação do exercício do poder» (567), tornar presente os «valores morais próprios da vida social» (568), zelar pelo «funcionamento do sistema democrático» (569), não votar contra os «conteúdos fundamentais da fé e da moral» (570). «O empenho político dos católicos é frequentemente posto em relação com a ‘laicidade’, ou seja, a distinção entre a esfera política e a religiosa» (571). «O princípio da laicidade comporta o respeito por toda a confissão religiosa por parte do Estado» (572). «Um âmbito particular de discernimento [...] diz respeito à escolha dos instrumentos políticos» (573): partidos e posições «não incompatíveis com a fé e os valores cristãos» (574).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.7.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO DÉCIMO SEXTO


A Liturgia da Palavra possui, no décimo sexto domingo (Ano B), uma tonalidade pastoral capaz de chegar ao coração e à vida de cada pessoa. Com efeito, revela um Deus que, em Jesus Cristo, se faz próximo e cuida de nós, seu rebanho (salmo): é o bom pastor que vem para congregar todas as ovelhas. Jesus Cristo é o Salvador anunciado pelos profetas (primeira leitura), que obtém para nós a reconciliação pelo sangue derramado na cruz (segunda leitura). Celebrar Jesus Cristo, nossa paz, é aderir ao seu desejo de reconciliar todos os povos na unidade do seu amor. Celebrar o Senhor, bom pastor que nos convida a ir com ele (evangelho), é comungar a alegria do Evangelho que nos envia a proclamar no dia a dia.

«Dar-lhes-ei pastores»
Jeremias profetizou em Judá, nos tempos dramáticos da grande crise em que ocorreu a deportação da casa real e dos chefes judaicos para a Babilónia, bem como a destruição do templo de Deus em Jerusalém.
O texto proposto para primeira leitura corresponde ao início do capítulo 23, capítulo que faz parte duma ampla secção onde se recolhem uma série de oráculos dirigidos ao povo de Deus. Aqui, Jeremias queixa-se amargamente dos reis que desaproveitaram todas as oportunidades que Deus lhes tinha oferecido ao longo da história e provocaram a ruína agora inevitável e iminente. Estes, designados como «pastores», tiveram um comportamento indigno: «Dispersastes as minhas ovelhas e as escorraçastes, sem terdes cuidado delas». As ovelhas dispersas são tanto os exilados no passado, quando caiu o Reino do Norte, no ano 722 antes de Cristo, como a premonição de todos os que, aquando da queda de Jerusalém (Reino de Judá), no ano de 587 antes de Cristo, também serão levados para a Babilónia.
Contudo, Deus, o verdadeiro pastor, não abandona o seu povo — «Eu mesmo reunirei o resto das minhas ovelhas» — com a promessa duma nova vida: «para que cresçam e se multipliquem». Com isso, acrescenta: «Dar-lhes-ei pastores».
Jeremias não recusa nem esquece a promessa feita a David através do profeta Natã (cf. Segundo Livro de Samuel, capítulo 7), mas retoma-a e interpreta-a através de um jogo de palavras: o rei histórico a quem Jeremias dirige o oráculo é Sedecias (significa: «O Senhor é a nossa justiça»), que não honra o seu nome. Por isso, o profeta anuncia que o Messias não só honrará esse nome, mas realizará plenamente o seu significado.

A Bíblia, em muitas ocasiões, compara a relação de Deus com o povo como a de um pastor com o seu rebanho. E também usa a mesma comparação para se referir aos dirigentes do povo, uma vez que recebem de Deus a missão de cuidar das «ovelhas». Missão que nem sempre é levada a bom termo!
A imagem do povo «como ovelhas sem pastor» será retomada pelos evangelistas para descrever a situação no tempo de Jesus Cristo. Hoje, como ontem, são precisos pastores que contraiam o «cheiro das ovelhas», que sintam paixão pelo povo, que se alegrem com os que estão alegres e chorem com os que choram, que partilhem a vida e as preocupações de todos.

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo décimo sexto (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.7.15 | Sem comentários

Viver a fé! [40]


O último capítulo (décimo segundo) do Compêndio da Doutrina Social da Igreja intitula-se «Doutrina Social e ação eclesial», subdividindo-se em dois pontos: «a ação social no âmbito social»; «doutrina social e compromisso dos cristãos leigos». Este tema apresenta o conteúdo do primeiro ponto: «doutrina social e inculturação da fé» (números 521 a 523); «doutrina social e pastoral social» (524 a 527); «doutrina social e formação» (528 a 533); «promover o diálogo» (534 a 537); «os sujeitos da pastoral social» (538 a 540).

Doutrina social e inculturação da fé

«Consciente da força renovadora do cristianismo mesmo em relação à cultura e à realidade social, a Igreja oferece o contributo do próprio ensinamento à construção da cidade dos homens, mostrando o significado social do Evangelho» (521). «Oferece sobretudo uma visão integral e uma plena compreensão do ser humano, nas suas dimensões pessoal e social» (522). «A antropologia cristã anima e sustém a obra pastoral de inculturação da fé, dedicada a renovar a partir de dentro, com a força do Evangelho, os critérios de juízo, os valores determinantes, as linhas de pensamento e os modelos de vida do homem contemporâneo» (523).

Doutrina social e pastoral social

«A pastoral social é a expressão viva e concreta de uma Igreja plenamente consciente da própria missão evangelizadora das realidades sociais, económicas, culturais e políticas do mundo» (524). «A ação pastoral da Igreja no âmbito social deve testemunhar, antes de tudo, a verdade acerca do ser humano. [...] Deve inspirar-se no princípio fundamental da centralidade do ser humano» (527). Nesta perspetiva, «a mensagem social do Evangelho deve orientar a Igreja para o desempenho de uma dupla tarefa pastoral: ajudar os homens e mulheres a descobrirem a verdade e a escolherem a via a seguir; encorajar o esforço dos cristãos para testemunhar, com solicitude de serviço, o Evangelho no campo social» (525). «Os critérios fundamentais da ação pastoral no campo social [são]: anunciar o Evangelho; confrontar a mensagem evangélica com a realidade social; projetar ações voltadas para a renovação de tais realidades, conformando-as com as exigências da moral cristã» (526).

Doutrina social e formação

«A doutrina social é um ponto de referência indispensável para uma formação cristã completa» (528). «O valor formativo da doutrina social reconhece-se melhor na atividade catequética» (529): «é importante que o ensino da doutrina social seja orientado para motivar a ação para a evangelização e a humanização das realidades temporais. [...] Adquire um extraordinário valor formativo o testemunho oferecido pelo cristianismo vivido» (530). «A doutrina social deve ser colocada na base de uma ativa e constante obra de formação, sobretudo da dirigida aos cristãos leigos. Tal formação deve ter em conta o seu empenho na vida civil» (531). Aqui, «as instituições educativas católicas podem e devem desempenhar um precioso serviço formativo, esforçando-se com especial solicitude pela inculturação da mensagem cristã, ou seja, o encontro fecundo entre o Evangelho e os vários saberes» (532). «Não menos relevante deve ser o esforço por utilizar a doutrina social na formação dos presbíteros» (533).

Promover o diálogo

«A doutrina social é um instrumento eficaz de diálogo entre as comunidades cristãs e a comunidade civil e política» (534) para uma correta e fecunda colaboração. E também «é um terreno fecundo para o cultivo do diálogo e da colaboração no campo ecuménico» (535). «Na comum tradição do Antigo Testamento, a Igreja Católica sabe poder dialogar com os irmãos hebreus, também mediante a sua doutrina social, para construírem juntos um futuro de justiça e de paz para todos os homens, filhos do único Deus» (536). «A doutrina social caracteriza-se também por um constante apelo ao diálogo entre todos os crentes das religiões do mundo, para que saibam compartilhar a busca de formas mais oportunas de colaboração» (537).

Os sujeitos da pastoral social

«A Igreja, ao cumprir a sua missão, empenha todo o povo de Deus. [...] A obra pastoral em âmbito social é destinada a todos os cristãos, chamados a transformarem-se em sujeitos ativos no testemunho da doutrina social» (538). «Na Igreja particular, o primeiro responsável pelo empenho pastoral de evangelização do social é o bispo [...]. A ação pastoral do bispo deve encontrar continuação no ministério dos presbíteros que participam da sua missão de ensino, santificação e guia da comunidade cristã» (539). «A ação pastoral no âmbito social vale-se também das obras das pessoas consagradas, de acordo com o seu carisma» (540).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 16.7.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO DÉCIMO QUINTO


Não é fácil ser mensageiro do Evangelho! Na continuação do domingo passado, a palavra de Deus proposta para o décimo quinto domingo (Ano B) dá-nos exemplos concretos sobre a difícil condição dos «enviados»: Amós tem de deixar o seu trabalho de pastor porque Deus quer fazer dele um profeta para enfrentar os poderes instalados (primeira leitura); os Doze, que Jesus Cristo envia em missão, são alertados para prováveis hostilidades (evangelho). Mas nada pode deter, no anúncio do Reino, aqueles que Deus «abençoou… escolheu… predestinou» (segunda leitura). Então, escutemos o que Deus nos diz (salmo), a nós, sua Igreja, seu povo, mas também a todos os homens e mulheres a quem mostra todo o seu amor e misericórdia.

«Vai profetizar ao meu povo»
Amós é o profeta escritor mais antigo da Bíblia. Em meados do século oitavo (antes de Cristo), em tempos de convulsão, recebe o encargo de ir pregar ao reino de Israel, a norte, apesar de ser proveniente do sul, das terras de Judá. E vai revelar-se um profeta com uma força singular: preocupa-se com os pobres e reprova o comportamento dos ricos e poderosos. Ora, esta postura, ontem como hoje, envolve sempre grandes riscos.
Amós apresenta-se no santuário real de Betel para denunciar a iniquidade dos poderosos e a insensibilidade face às necessidades dos pobres. O discurso não agrada ao sacerdote Amasias, que lhe diz: «Vai-te daqui, vidente».
Eram frequentes, nesse tempo, os profetas «profissionais», isto é, pessoas que exerciam a profecia como uma profissão reconhecida socialmente e com os correspondentes benefícios económicos. Nos vários templos e santuários do reino do Norte (também designado como reino de Israel), havia pessoas que «ganhavam o pão» dizendo-se profetas em nome de Deus. Um desses santuários era o de Betel, cujo responsável era o sacerdote Amasias. O sacerdote pensa que aquele homem, que anuncia desgraças, se trata de um profeta por conta própria. Amós responde-lhe: «Eu não era profeta, nem filho de profeta». Amós era um pastor, um camponês, que foi chamado e enviado por Deus: «Vai profetizar ao meu povo» (de Israel, o povo de Deus).

Há uma frescura nas vocações verdadeiras que lhes dá força para não se atemorizarem face às ameaças dos poderes que se sentem incomodados pelas suas palavras e ações. Porque o «vocacionado» não fala nem atua em nome próprio: «Foi o Senhor que me tirou da guarda do rebanho e me disse: ‘Vai profetizar ao meu povo de Israel’»; «Jesus chamou os doze Apóstolos e começou a enviá-los dois a dois». Então, se queremos manter a frescura da nossa vocação cristã temos de assumir que esta é a hora da missão, hora de nos pormos a caminho, de deixarmos o nosso lugar de conforto, para nos tornarmos uma «Igreja em saída», uma Igreja como «hospital de campanha» composta por homens e mulheres dispostos a «sujar as mãos». É a frescura que o Papa Francisco não se cansa de propor: «Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo» (cf. EG 27): costumes, estilos, horários, linguagem.

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo décimo quinto (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 10.7.15 | Sem comentários

Viver a fé! [39]


Este tema aborda o conteúdo do terceiro ponto do décimo primeiro capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja («a promoção da paz»): «A falência da paz: a guerra» (números 497 a 515). A Igreja «condena ‘a crueldade da guerra’ e pede que ela seja considerada numa abordagem completamente nova [...]. ‘Nada se perde com a paz; mas, com a guerra, tudo pode perder-se’» (497). Aliás, «o outro nome da paz é desenvolvimento. Como existe a responsabilidade coletiva de evitar a guerra, do mesmo modo há a responsabilidade coletiva de promover o desenvolvimento» (498). Daí «a necessidade e a importância das organizações internacionais e regionais» (499).Este tópico subdivide-se nas seguintes alíneas: «a legítima defesa»; «defender a paz»; «o dever de proteger os inocentes»; «medidas contra quem ameaça a paz»; «o desarmamento»; «a condenação do terrorismo».

A legítima defesa

«Uma guerra de agressão é intrinsecamente imoral. No trágico caso em que esta se desencadeie, os responsáveis por um Estado agredido têm o direito e o dever de organizar a defesa, inclusive recorrendo à força das armas» (500). «A Carta das Nações Unidas [...] baseia-se na interdição generalizada do recurso à força para resolver as controvérsias entre os Estados, exceto em dois casos: a legítima defesa e as medidas tomadas pelo Conselho de Segurança no âmbito das suas responsabilidades para manter a paz» (501).

Defender a paz

«As exigências da legítima defesa justificam a existência, nos Estados, das forças armadas, cuja ação deve ser posta ao serviço da paz» (502). Por isso, «o membro das forças armadas está moralmente obrigado a opor-se às ordens que incitam a cumprir crimes contra o direito das nações e os seus princípios universais» (503).

O dever de proteger os inocentes

«O direito ao uso da força com o objetivo de legítima defesa é associado ao dever de proteger e ajudar as vítimas inocentes que não podem defender-se das agressões» (504). «O princípio da humanidade, inscrito na consciência de cada pessoa e cada povo, comporta a obrigação de manter as populações civis ao abrigo dos efeitos da guerra [...]. Uma categoria particular de vítimas da guerra é a dos refugiados [...]. A Igreja está do lado deles» (505). «As tentativas de eliminação de grupos nacionais inteiros, étnicos, religiosos ou linguísticos, são delitos contra Deus e contra a própria humanidade e os responsáveis de tais crimes devem ser chamados a responder diante da justiça. [...] A comunidade internacional, no seu conjunto, tem a obrigação moral de intervir em favor destes grupos cuja própria sobrevivência é ameaçada, ou daqueles cujos direitos fundamentais são maciçamente violados» (506).

Medidas contra quem ameaça a paz

«As sanções, nas formas previstas do ordenamento internacional contemporâneo, visam corrigir o comportamento do Governo de um país que viola as regras da convivência internacional pacífica e ordenada ou que põe em prática formas graves de opressão [...]. O verdadeiro objetivo de tais medidas é abrir caminho para as negociações e para o diálogo. As sanções não devem jamais constituir um instrumento de punição direta contra toda a população» (507).

O desarmamento

«A doutrina social propõe a meta de um ‘desarmamento geral, equilibrado e controlado’» (508). «As armas de destruição maciça – biológicas, químicas e nucleares – representam uma ameaça particularmente grave; aqueles que as possuem têm uma responsabilidade enorme diante de Deus e de toda a humanidade» (509). «O desarmamento deve estender-se à interdição das armas que infligem efeitos traumáticos excessivos ou cujo efeito é indiscriminado, assim como as minas anti-homem» (510). Por conseguinte, são necessárias medidas «para o controlo da produção, da venda, da importação e da exportação de armas leves e individuais» (511). E «a utilização de crianças e adolescentes como soldados em conflitos armados – até porque a sua jovem idade não deve permitir o seu recrutamento – tem de ser denunciada» (512).

A condenação do terrorismo

«O terrorismo é uma das formas mais brutais de violência que atualmente atribula a comunidade internacional: semeia ódio, morte, desejo de vingança e de represália» (513). «O terrorismo deve ser condenado do modo mais absoluto. Ele manifesta um desprezo total pela vida humana e nenhuma motivação pode justificá-lo» (514). Por isso, a Igreja afirma que «é profanação e blasfémia proclamar-se terrorista em nome de Deus. [...] Nenhuma religião pode tolerar o terrorismo e, menos ainda, pregá-lo» (515).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 9.7.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO DÉCIMO QUARTO


A Liturgia da Palavra do décimo quarto domingo (Ano B) oferece uma unidade à volta da dificuldade em ser profeta, ou, noutros termos, sobre a dificuldade em ser cristão nos dias de hoje: «Piedade, Senhor, tende piedade de nós, porque estamos saturados de desprezo» (salmo). Situação que, porventura, se repete no seio das nossas famílias ou comunidades… O profeta Ezequiel, no seu tempo, também foi confrontado com um ambiente hostil (primeira leitura). Paulo, ao esbarrar com a oposição de alguns dos seus ouvintes (segunda leitura), reconhece a força que lhe vem de Deus. E o próprio Jesus Cristo é rejeitado pelos seus, «desprezado na sua terra, entre os seus parentes e em sua casa» (evangelho). A fé seja a nossa fortaleza!

«Filhos de cabeça dura e coração obstinado»
Os profetas fazem ressoar a voz de Deus no coração da história do povo de Israel, principalmente nos momentos de tribulação. Ezequiel é um sacerdote incorporado na primeira deportação de Jerusalém para Babilónia, por volta do ano 597 (antes de Cristo). Aí, converter-se-á num profeta que recorre a imagens com grande impacto e realiza ações simbólicas destinadas a deixar uma marca na vida do povo bíblico.
A tarefa profética encomendada a Ezequiel é dada pelo Espírito — «o Espírito entrou em mim» —, a força de Deus que faz agir as pessoas e faz falar os profetas.
No texto proposto para primeira leitura aparece a expressão «filho do homem», tão característica deste profeta, que indica a condição debilitada do destinatário. Quem recebe o Espírito é um homem débil e mortal, que também recebe a missão de anunciar o poder e a força da palavra divina no meio de um povo rebelde e infiel. Mas nem a rebeldia nem a oposição dos ouvintes calam a voz profética. É perante esses «filhos de cabeça dura e coração obstinado» que Ezequiel, constituído pelo Espírito como mensageiro, se torna uma presença da voz salvadora de Deus.
O profeta denuncia o comportamento e abre caminho à conversão. A palavra de Deus não pode ser aprisionada e o profeta é seu fiel servidor. Jesus Cristo seguirá esta linha profética: a sua missão, além de curar os doentes e de se colocar ao lado dos pobres, é também a de denunciar a dureza dos corações para provocar a conversão.

A melhor das notícias, nos dias de hoje, é que continuam a existir profetas, homens e mulheres que denunciam as exclusões e as desigualdades provocadas pela sociedade do progresso, que levam consolo e esperança aos pobres e marginalizados. As suas vidas generosas e solidárias são por si só uma interrogação que incomoda e faz pensar! Por isso, é hora de estar atentos aos profetas, é tempo de nos deixarmos questionar pelo seu testemunho. Mas, sobretudo, é tempo e hora de nos tornarmos profetas, homens e mulheres de Deus que, com as nossas vidas e as nossas palavras, colocamos questões a esta sociedade adormecida, denunciamos a injustiça sem medo, anunciamos a alegria do Evangelho, a única capaz de transformar a vida. Afinal, não é esta a nossa vocação de cristãs/ãos?

© Laboratório da fé, 2015


Celebrar o domingo décimo quarto (Ano B), no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.7.15 | Sem comentários

Viver a fé! [38]


«A promoção da paz» é o título atribuído ao décimo primeiro capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Nesta proposta de formação dividimos o capítulo em duas partes. Este tema resume os pontos um, dois e quatro desse capítulo: «aspetos bíblicos» (números 488 a 493); «a paz: fruto da justiça e da caridade» (494 a 496); «o contributo da Igreja para a paz» (516 a 520). O próximo tema será dedicado ao ponto três: «a falência da paz: a guerra» (números 497 a 515).

Aspetos bíblicos

«Antes de ser um dom de Deus ao ser humano e um projeto humano conforme o desígnio divino, a paz é, antes de tudo, um atributo especial essencial de Deus» (488). Por isso, «na Revelação bíblica, a paz é muito mais do que a simples ausência de guerra: ela representa a plenitude da vida [...]. A paz é o efeito da bênção de Deus sobre o seu povo» (489). «A paz é a meta da convivência social, tal como aparece de modo extraordinário na visão messiânica da paz: quando todos os povos forem para a casa do Senhor e Ele lhes indicar os seus caminhos, eles caminharão em veredas de paz» (490). Esta «promessa de paz, que percorre todo o Antigo Testamento, encontra o seu cumprimento na Pessoa de Jesus. A paz, de facto, é o bem messiânico por excelência, no qual estão compreendidos todos os outros bens salvíficos. A palavra hebraica ‘shalom’, no sentido etimológico de ‘plenitude’, exprime o conceito de ‘paz’ na totalidade do seu significado» (491). «A paz de Cristo é antes de tudo a reconciliação com o Pai, que se atua mediante a missão apostólica confiada por Jesus aos seus discípulos; esta tem início com um anúncio de paz» (492). «A ação pela paz nunca é dissociada do anúncio do Evangelho, que é precisamente ‘a Boa Nova da paz’ (Atos 10, 36; cf. Efésios 6, 15), dirigida a todos» (493).

A paz: fruto da justiça e da caridade

«A paz é um valor e um dever universal e encontra o seu fundamento na ordem racional e moral da sociedade que tem as suas raízes no próprio Deus [...]. A paz não é simplesmente ausência de guerra nem tão-pouco um equilíbrio estável entre forças adversárias, mas funda-se sobre uma correta conceção da pessoa humana e exige a edificação de uma ordem segundo a justiça e a caridade» (494). «A paz constrói-se dia a dia na busca da ordem querida por Deus e pode florescer somente quando todos reconhecem as próprias responsabilidades na sua promoção. [...] É absolutamente necessário que a paz comece a ser vivida como valor profundo no íntimo de cada pessoa [...]. Só num clima difuso de concórdia e de respeito pela justiça pode amadurecer uma autêntica cultura de paz» (495). Não existe qualquer dúvida, como recorda o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, que «a violência nunca constitui uma resposta justa. A Igreja proclama, com a convicção da sua fé em Cristo e com a consciência da sua missão, ‘que a violência é um mal, que a violência é inaceitável como solução dos problemas, que a violência não é digna do ser humano. A violência é mentira, pois que se opõe à verdade da nossa fé, à verdade da nossa humanidade. [...] Também o mundo contemporâneo necessita do testemunho dos profetas desarmados, infelizmente objecto de escárnio em toda a época» (496).

O contributo da Igreja para a paz

«A promoção da paz no mundo é parte integrante da missão com que a Igreja continua a obra redentora de Cristo na Terra. A Igreja é de facto, ‘em Cristo, “sacramento”, ou seja, sinal e instrumento de paz no mundo e para o mundo’» (516). «A Igreja ensina que uma verdadeira paz só é possível através do perdão e da reconciliação» (517). «O perdão recíproco não deve anular as exigências da justiça nem, tão-pouco, bloquear o caminho que leva à verdade: justiça e verdade representam, pelo contrário, os requisitos concretos da reconciliação» (518). Além disso, «a Igreja luta pela paz com a oração. A oração abre o coração não só a uma profunda relação com Deus, mas também ao encontro com o próximo sob o signo do respeito, da confiança, da compreensão, da estima e do amor. A oração infunde coragem e dá apoio a todos ‘os verdadeiros amigos da Paz’» (519). «Os dias mundiais da paz são celebrações de particular intensidade para a oração de invocação da paz e para o compromisso de construir um mundo de paz. O Papa Paulo VI instituiu-os com o objetivo de ‘que se dedique aos pensamentos e aos propósitos da Paz uma celebração especial, no primeiro dia do ano civil’. As mensagens pontifícias [...] constituem uma rica fonte de atualização e de desenvolvimento da doutrina social e mostram o constante esforço da ação pastoral da Igreja em favor da paz» (520).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.7.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO DÉCIMO TERCEIRO


A eucaristia (dominical) celebra sempre o Mistério Pascal de Jesus Cristo que nos salva. Mas a Liturgia da Palavra do décimo terceiro domingo (Ano B) confirma com insistência o coração da nossa fé: Deus não fez a morte, criou-nos para a vida! Afirmação forte do livro da Sabedoria (primeira leitura), que é preciso repetir hoje, precisamente com sabedoria, para expressar a nossa fé e anunciar «a alegria do Evangelho!». Sim, Deus é festa, Deus é vida, Deus é salvação, Deus é alegria (salmo). Aliás, Jesus Cristo «fez-Se pobre» para nos «enriquecer pela sua pobreza» (segunda leitura), livrou-nos da morte para nos dar a vida! Ele várias vezes ofereceu sinais de vida a quem lhe suplicava com fé (evangelho).

«O que nasce no mundo destina-se ao bem»
O livro da Sabedoria, o último livro do Antigo Testamento a ser escrito, apresenta, no texto proposto na primeira leitura, afirmações muito interessantes, bem diferentes das anteriores doutrinas judaicas que apenas acreditavam num Deus misericordioso para a vida terrena e não acreditavam na intervenção divina depois da morte.
O autor do texto declara: «não foi Deus quem fez a morte»; «o que nasce no mundo destina-se ao bem». Este é o projeto de Deus, que permanece válido mesmo depois do pecado que causou a morte. De que morte se fala? «Foi pela inveja do Diabo que a morte entrou no mundo, e experimentam-na aqueles que lhe pertencem»? É evidente que não se pode referir à morte física, porque se trata de uma realidade que afeta a todos, bons e maus, justos e injustos.
Neste contexto, é conveniente deixar claro três coisas: a condição mortal do ser humano é natural; a morte física (que faz parte da realidade criada) é ambígua; a morte eterna é entendida como um castigo.
A morte física é uma realidade ambígua: não é um mal em si mesma; só o é na medida em que se torna sinal da morte radical, da morte eterna. A morte física é ambígua porque, para os justos, é a passagem para a vida eterna e prelúdio da ruína eterna para os malvados. Essa morte eterna é a tal morte que não foi criada por Deus.
Queremos viver e ser felizes! Contudo, a experiência parece ensinar que tudo tem um fim e que o nosso fim é a morte. Mas a palavra de Deus diz-nos que não é bem assim, pois a morte não se afigura como um ponto final ou a meta da nossa existência, pelo menos para quem vive mergulhado no amor. Confirma-o Paulo Varela Gomes (possui um cancro de grau quatro), no texto que escreveu para a revista Granta intitulado «Morrer é mais difícil do que parece»: «Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga-me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida. […] Quando isto sucede, o meu tempo já não é o Tempo Comum mas antes um longo domingo de Páscoa: sinto a presença amorosa de todos os que precisam de mim e d’Aquele de quem eu preciso».

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo décimo terceiro (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.6.15 | Sem comentários

Viver a fé! [37]


Neste segundo tema dedicado ao capítulo décimo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja («proteger o ambiente») resumimos o quarto e último ponto («uma responsabilidade comum») que se divide nas seguintes alíneas: «o ambiente, um bem coletivo» (números 466 a 471); «o uso das biotecnologias» (472 a 480); «ambiente e partilha dos bens» (481 a 485); «novos estilos de vida» (486 e 487).

O ambiente, um bem coletivo

«A tutela do ambiente constitui um desafio para toda a humanidade: trata-se do dever, comum e universal, de respeitar um bem coletivo» (466) que se estende «não apenas às exigências do presente, mas também às do futuro» (467). Por isso, «a responsabilidade em relação ao ambiente deve encontrar uma tradução adequada no campo jurídico. [...]. As normas jurídicas, todavia, por si sós não bastam: a par delas, devem amadurecer um forte sentido de responsabilidade, bem como uma efetiva mudança nas mentalidades e nos estilos de vida» (468). Nesta responsabilidade pelo «bem coletivo» que é o ambiente, quando se verifica a ausência de dados científicos e é preciso «tomar decisões para enfrentar riscos sanitários e ambientais», a Igreja sugere «uma avaliação inspirada pelo ‘princípio da precaução’, que não comporta a aplicação de uma regra, mas uma orientação ordenada a administrar situações de incerteza» (469). No mesmo sentido, «a programação do desenvolvimento económico deve considerar atentamente a ‘necessidade de respeitar a integridade e os ritmos da natureza’, já que os recursos naturais são limitados e alguns não são renováveis» (470). «Uma atenção especial merece a relação que os povos indígenas mantêm com a sua terra e os seus recursos: trata-se de uma expressão fundamental da sua identidade» (471).

O uso das biotecnologias

«As novas possibilidades oferecidas pelas atuais técnicas biológicas e biogenéticas suscitam, por um lado, esperanças e entusiasmos e, por outro lado, alarme e hostilidade» (472). «A visão cristã da criação comporta um juízo positivo sobre a liceidade [...] e, ao mesmo tempo, um forte chamamento para o sentido de responsabilidade» (473). «Hão de ser avaliadas de acordo com os critérios éticos» (474). «Num espírito de solidariedade internacional, [...] deve ser facilitado [...] o intercâmbio comercial equitativo, livre de vínculos injustos. [...] É indispensável favorecer também a maturação de uma necessária autonomia científica e tecnológica» (475). «A solidariedade comporta também um chamamento à responsabilidade [...] de promover uma política comercial favorável aos seus povos e o intercâmbio de tecnologias capazes de melhorar as condições alimentares e sanitárias» (476). «Os cientistas e técnicos [...] são chamados a trabalhar com inteligência e perseverança na busca de melhores soluções para os graves e urgentes problemas da alimentação e da saúde» (477). «Os empresários e responsáveis pelas entidades públicas que se ocupam da pesquisa, da produção e do comércio dos produtos derivados das novas biotecnologias devem ter em conta não só o lucro legítimo, mas também o bem comum» (478). «Os políticos, os legisladores e os administradores públicos têm a responsabilidade de avaliar as potencialidades, as vantagens e os eventuais riscos» (479). «Também os responsáveis pela informação têm uma tarefa importante, a desempenhar com prudência e objetividade» (480).

Ambiente e partilha dos bens

«Os bens da Terra foram criados por Deus para serem sabiamente usados por todos: tais bens devem ser divididos com equidade, segundo a justiça e a caridade» (481). «O princípio do destino universal dos bens oferece uma fundamental orientação, moral e cultural, para desatar o complexo e dramático nó que liga crises ambientais e pobreza» (482). «A estreita ligação que existe entre o desenvolvimento dos países mais pobres, o crescimento demográfico e uma utilização sustentável do ambiente é utilizado frequentemente como pretexto para escolas políticas e económicas advogarem medidas pouco conformes à dignidade da pessoa humana» (483). «O princípio do destino universal dos bens aplica-se naturalmente também à água» (484): «pela sua própria natureza, não pode ser tratada como uma mera mercadoria entre outras e o seu uso deve ser racional e solidário» (485).

Novos estilos de vida

«Os graves problemas ecológicos exigem uma efetiva mudança de mentalidade que induza a adotar novos estilos de vida» (486). «A atitude [...] perante a criação é a da gratidão e do reconhecimento: o mundo reconduz-nos ao mistério de Deus que o criou e sustém» (487).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.6.15 | Sem comentários
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