CELEBRAR O DOMINGO DÉCIMO QUINTO


Não é fácil ser mensageiro do Evangelho! Na continuação do domingo passado, a palavra de Deus proposta para o décimo quinto domingo (Ano B) dá-nos exemplos concretos sobre a difícil condição dos «enviados»: Amós tem de deixar o seu trabalho de pastor porque Deus quer fazer dele um profeta para enfrentar os poderes instalados (primeira leitura); os Doze, que Jesus Cristo envia em missão, são alertados para prováveis hostilidades (evangelho). Mas nada pode deter, no anúncio do Reino, aqueles que Deus «abençoou… escolheu… predestinou» (segunda leitura). Então, escutemos o que Deus nos diz (salmo), a nós, sua Igreja, seu povo, mas também a todos os homens e mulheres a quem mostra todo o seu amor e misericórdia.

«Vai profetizar ao meu povo»
Amós é o profeta escritor mais antigo da Bíblia. Em meados do século oitavo (antes de Cristo), em tempos de convulsão, recebe o encargo de ir pregar ao reino de Israel, a norte, apesar de ser proveniente do sul, das terras de Judá. E vai revelar-se um profeta com uma força singular: preocupa-se com os pobres e reprova o comportamento dos ricos e poderosos. Ora, esta postura, ontem como hoje, envolve sempre grandes riscos.
Amós apresenta-se no santuário real de Betel para denunciar a iniquidade dos poderosos e a insensibilidade face às necessidades dos pobres. O discurso não agrada ao sacerdote Amasias, que lhe diz: «Vai-te daqui, vidente».
Eram frequentes, nesse tempo, os profetas «profissionais», isto é, pessoas que exerciam a profecia como uma profissão reconhecida socialmente e com os correspondentes benefícios económicos. Nos vários templos e santuários do reino do Norte (também designado como reino de Israel), havia pessoas que «ganhavam o pão» dizendo-se profetas em nome de Deus. Um desses santuários era o de Betel, cujo responsável era o sacerdote Amasias. O sacerdote pensa que aquele homem, que anuncia desgraças, se trata de um profeta por conta própria. Amós responde-lhe: «Eu não era profeta, nem filho de profeta». Amós era um pastor, um camponês, que foi chamado e enviado por Deus: «Vai profetizar ao meu povo» (de Israel, o povo de Deus).

Há uma frescura nas vocações verdadeiras que lhes dá força para não se atemorizarem face às ameaças dos poderes que se sentem incomodados pelas suas palavras e ações. Porque o «vocacionado» não fala nem atua em nome próprio: «Foi o Senhor que me tirou da guarda do rebanho e me disse: ‘Vai profetizar ao meu povo de Israel’»; «Jesus chamou os doze Apóstolos e começou a enviá-los dois a dois». Então, se queremos manter a frescura da nossa vocação cristã temos de assumir que esta é a hora da missão, hora de nos pormos a caminho, de deixarmos o nosso lugar de conforto, para nos tornarmos uma «Igreja em saída», uma Igreja como «hospital de campanha» composta por homens e mulheres dispostos a «sujar as mãos». É a frescura que o Papa Francisco não se cansa de propor: «Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo» (cf. EG 27): costumes, estilos, horários, linguagem.

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo décimo quinto (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 10.7.15 | Sem comentários

Viver a fé! [39]


Este tema aborda o conteúdo do terceiro ponto do décimo primeiro capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja («a promoção da paz»): «A falência da paz: a guerra» (números 497 a 515). A Igreja «condena ‘a crueldade da guerra’ e pede que ela seja considerada numa abordagem completamente nova [...]. ‘Nada se perde com a paz; mas, com a guerra, tudo pode perder-se’» (497). Aliás, «o outro nome da paz é desenvolvimento. Como existe a responsabilidade coletiva de evitar a guerra, do mesmo modo há a responsabilidade coletiva de promover o desenvolvimento» (498). Daí «a necessidade e a importância das organizações internacionais e regionais» (499).Este tópico subdivide-se nas seguintes alíneas: «a legítima defesa»; «defender a paz»; «o dever de proteger os inocentes»; «medidas contra quem ameaça a paz»; «o desarmamento»; «a condenação do terrorismo».

A legítima defesa

«Uma guerra de agressão é intrinsecamente imoral. No trágico caso em que esta se desencadeie, os responsáveis por um Estado agredido têm o direito e o dever de organizar a defesa, inclusive recorrendo à força das armas» (500). «A Carta das Nações Unidas [...] baseia-se na interdição generalizada do recurso à força para resolver as controvérsias entre os Estados, exceto em dois casos: a legítima defesa e as medidas tomadas pelo Conselho de Segurança no âmbito das suas responsabilidades para manter a paz» (501).

Defender a paz

«As exigências da legítima defesa justificam a existência, nos Estados, das forças armadas, cuja ação deve ser posta ao serviço da paz» (502). Por isso, «o membro das forças armadas está moralmente obrigado a opor-se às ordens que incitam a cumprir crimes contra o direito das nações e os seus princípios universais» (503).

O dever de proteger os inocentes

«O direito ao uso da força com o objetivo de legítima defesa é associado ao dever de proteger e ajudar as vítimas inocentes que não podem defender-se das agressões» (504). «O princípio da humanidade, inscrito na consciência de cada pessoa e cada povo, comporta a obrigação de manter as populações civis ao abrigo dos efeitos da guerra [...]. Uma categoria particular de vítimas da guerra é a dos refugiados [...]. A Igreja está do lado deles» (505). «As tentativas de eliminação de grupos nacionais inteiros, étnicos, religiosos ou linguísticos, são delitos contra Deus e contra a própria humanidade e os responsáveis de tais crimes devem ser chamados a responder diante da justiça. [...] A comunidade internacional, no seu conjunto, tem a obrigação moral de intervir em favor destes grupos cuja própria sobrevivência é ameaçada, ou daqueles cujos direitos fundamentais são maciçamente violados» (506).

Medidas contra quem ameaça a paz

«As sanções, nas formas previstas do ordenamento internacional contemporâneo, visam corrigir o comportamento do Governo de um país que viola as regras da convivência internacional pacífica e ordenada ou que põe em prática formas graves de opressão [...]. O verdadeiro objetivo de tais medidas é abrir caminho para as negociações e para o diálogo. As sanções não devem jamais constituir um instrumento de punição direta contra toda a população» (507).

O desarmamento

«A doutrina social propõe a meta de um ‘desarmamento geral, equilibrado e controlado’» (508). «As armas de destruição maciça – biológicas, químicas e nucleares – representam uma ameaça particularmente grave; aqueles que as possuem têm uma responsabilidade enorme diante de Deus e de toda a humanidade» (509). «O desarmamento deve estender-se à interdição das armas que infligem efeitos traumáticos excessivos ou cujo efeito é indiscriminado, assim como as minas anti-homem» (510). Por conseguinte, são necessárias medidas «para o controlo da produção, da venda, da importação e da exportação de armas leves e individuais» (511). E «a utilização de crianças e adolescentes como soldados em conflitos armados – até porque a sua jovem idade não deve permitir o seu recrutamento – tem de ser denunciada» (512).

A condenação do terrorismo

«O terrorismo é uma das formas mais brutais de violência que atualmente atribula a comunidade internacional: semeia ódio, morte, desejo de vingança e de represália» (513). «O terrorismo deve ser condenado do modo mais absoluto. Ele manifesta um desprezo total pela vida humana e nenhuma motivação pode justificá-lo» (514). Por isso, a Igreja afirma que «é profanação e blasfémia proclamar-se terrorista em nome de Deus. [...] Nenhuma religião pode tolerar o terrorismo e, menos ainda, pregá-lo» (515).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 9.7.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO DÉCIMO QUARTO


A Liturgia da Palavra do décimo quarto domingo (Ano B) oferece uma unidade à volta da dificuldade em ser profeta, ou, noutros termos, sobre a dificuldade em ser cristão nos dias de hoje: «Piedade, Senhor, tende piedade de nós, porque estamos saturados de desprezo» (salmo). Situação que, porventura, se repete no seio das nossas famílias ou comunidades… O profeta Ezequiel, no seu tempo, também foi confrontado com um ambiente hostil (primeira leitura). Paulo, ao esbarrar com a oposição de alguns dos seus ouvintes (segunda leitura), reconhece a força que lhe vem de Deus. E o próprio Jesus Cristo é rejeitado pelos seus, «desprezado na sua terra, entre os seus parentes e em sua casa» (evangelho). A fé seja a nossa fortaleza!

«Filhos de cabeça dura e coração obstinado»
Os profetas fazem ressoar a voz de Deus no coração da história do povo de Israel, principalmente nos momentos de tribulação. Ezequiel é um sacerdote incorporado na primeira deportação de Jerusalém para Babilónia, por volta do ano 597 (antes de Cristo). Aí, converter-se-á num profeta que recorre a imagens com grande impacto e realiza ações simbólicas destinadas a deixar uma marca na vida do povo bíblico.
A tarefa profética encomendada a Ezequiel é dada pelo Espírito — «o Espírito entrou em mim» —, a força de Deus que faz agir as pessoas e faz falar os profetas.
No texto proposto para primeira leitura aparece a expressão «filho do homem», tão característica deste profeta, que indica a condição debilitada do destinatário. Quem recebe o Espírito é um homem débil e mortal, que também recebe a missão de anunciar o poder e a força da palavra divina no meio de um povo rebelde e infiel. Mas nem a rebeldia nem a oposição dos ouvintes calam a voz profética. É perante esses «filhos de cabeça dura e coração obstinado» que Ezequiel, constituído pelo Espírito como mensageiro, se torna uma presença da voz salvadora de Deus.
O profeta denuncia o comportamento e abre caminho à conversão. A palavra de Deus não pode ser aprisionada e o profeta é seu fiel servidor. Jesus Cristo seguirá esta linha profética: a sua missão, além de curar os doentes e de se colocar ao lado dos pobres, é também a de denunciar a dureza dos corações para provocar a conversão.

A melhor das notícias, nos dias de hoje, é que continuam a existir profetas, homens e mulheres que denunciam as exclusões e as desigualdades provocadas pela sociedade do progresso, que levam consolo e esperança aos pobres e marginalizados. As suas vidas generosas e solidárias são por si só uma interrogação que incomoda e faz pensar! Por isso, é hora de estar atentos aos profetas, é tempo de nos deixarmos questionar pelo seu testemunho. Mas, sobretudo, é tempo e hora de nos tornarmos profetas, homens e mulheres de Deus que, com as nossas vidas e as nossas palavras, colocamos questões a esta sociedade adormecida, denunciamos a injustiça sem medo, anunciamos a alegria do Evangelho, a única capaz de transformar a vida. Afinal, não é esta a nossa vocação de cristãs/ãos?

© Laboratório da fé, 2015


Celebrar o domingo décimo quarto (Ano B), no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.7.15 | Sem comentários

Viver a fé! [38]


«A promoção da paz» é o título atribuído ao décimo primeiro capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Nesta proposta de formação dividimos o capítulo em duas partes. Este tema resume os pontos um, dois e quatro desse capítulo: «aspetos bíblicos» (números 488 a 493); «a paz: fruto da justiça e da caridade» (494 a 496); «o contributo da Igreja para a paz» (516 a 520). O próximo tema será dedicado ao ponto três: «a falência da paz: a guerra» (números 497 a 515).

Aspetos bíblicos

«Antes de ser um dom de Deus ao ser humano e um projeto humano conforme o desígnio divino, a paz é, antes de tudo, um atributo especial essencial de Deus» (488). Por isso, «na Revelação bíblica, a paz é muito mais do que a simples ausência de guerra: ela representa a plenitude da vida [...]. A paz é o efeito da bênção de Deus sobre o seu povo» (489). «A paz é a meta da convivência social, tal como aparece de modo extraordinário na visão messiânica da paz: quando todos os povos forem para a casa do Senhor e Ele lhes indicar os seus caminhos, eles caminharão em veredas de paz» (490). Esta «promessa de paz, que percorre todo o Antigo Testamento, encontra o seu cumprimento na Pessoa de Jesus. A paz, de facto, é o bem messiânico por excelência, no qual estão compreendidos todos os outros bens salvíficos. A palavra hebraica ‘shalom’, no sentido etimológico de ‘plenitude’, exprime o conceito de ‘paz’ na totalidade do seu significado» (491). «A paz de Cristo é antes de tudo a reconciliação com o Pai, que se atua mediante a missão apostólica confiada por Jesus aos seus discípulos; esta tem início com um anúncio de paz» (492). «A ação pela paz nunca é dissociada do anúncio do Evangelho, que é precisamente ‘a Boa Nova da paz’ (Atos 10, 36; cf. Efésios 6, 15), dirigida a todos» (493).

A paz: fruto da justiça e da caridade

«A paz é um valor e um dever universal e encontra o seu fundamento na ordem racional e moral da sociedade que tem as suas raízes no próprio Deus [...]. A paz não é simplesmente ausência de guerra nem tão-pouco um equilíbrio estável entre forças adversárias, mas funda-se sobre uma correta conceção da pessoa humana e exige a edificação de uma ordem segundo a justiça e a caridade» (494). «A paz constrói-se dia a dia na busca da ordem querida por Deus e pode florescer somente quando todos reconhecem as próprias responsabilidades na sua promoção. [...] É absolutamente necessário que a paz comece a ser vivida como valor profundo no íntimo de cada pessoa [...]. Só num clima difuso de concórdia e de respeito pela justiça pode amadurecer uma autêntica cultura de paz» (495). Não existe qualquer dúvida, como recorda o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, que «a violência nunca constitui uma resposta justa. A Igreja proclama, com a convicção da sua fé em Cristo e com a consciência da sua missão, ‘que a violência é um mal, que a violência é inaceitável como solução dos problemas, que a violência não é digna do ser humano. A violência é mentira, pois que se opõe à verdade da nossa fé, à verdade da nossa humanidade. [...] Também o mundo contemporâneo necessita do testemunho dos profetas desarmados, infelizmente objecto de escárnio em toda a época» (496).

O contributo da Igreja para a paz

«A promoção da paz no mundo é parte integrante da missão com que a Igreja continua a obra redentora de Cristo na Terra. A Igreja é de facto, ‘em Cristo, “sacramento”, ou seja, sinal e instrumento de paz no mundo e para o mundo’» (516). «A Igreja ensina que uma verdadeira paz só é possível através do perdão e da reconciliação» (517). «O perdão recíproco não deve anular as exigências da justiça nem, tão-pouco, bloquear o caminho que leva à verdade: justiça e verdade representam, pelo contrário, os requisitos concretos da reconciliação» (518). Além disso, «a Igreja luta pela paz com a oração. A oração abre o coração não só a uma profunda relação com Deus, mas também ao encontro com o próximo sob o signo do respeito, da confiança, da compreensão, da estima e do amor. A oração infunde coragem e dá apoio a todos ‘os verdadeiros amigos da Paz’» (519). «Os dias mundiais da paz são celebrações de particular intensidade para a oração de invocação da paz e para o compromisso de construir um mundo de paz. O Papa Paulo VI instituiu-os com o objetivo de ‘que se dedique aos pensamentos e aos propósitos da Paz uma celebração especial, no primeiro dia do ano civil’. As mensagens pontifícias [...] constituem uma rica fonte de atualização e de desenvolvimento da doutrina social e mostram o constante esforço da ação pastoral da Igreja em favor da paz» (520).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.7.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO DÉCIMO TERCEIRO


A eucaristia (dominical) celebra sempre o Mistério Pascal de Jesus Cristo que nos salva. Mas a Liturgia da Palavra do décimo terceiro domingo (Ano B) confirma com insistência o coração da nossa fé: Deus não fez a morte, criou-nos para a vida! Afirmação forte do livro da Sabedoria (primeira leitura), que é preciso repetir hoje, precisamente com sabedoria, para expressar a nossa fé e anunciar «a alegria do Evangelho!». Sim, Deus é festa, Deus é vida, Deus é salvação, Deus é alegria (salmo). Aliás, Jesus Cristo «fez-Se pobre» para nos «enriquecer pela sua pobreza» (segunda leitura), livrou-nos da morte para nos dar a vida! Ele várias vezes ofereceu sinais de vida a quem lhe suplicava com fé (evangelho).

«O que nasce no mundo destina-se ao bem»
O livro da Sabedoria, o último livro do Antigo Testamento a ser escrito, apresenta, no texto proposto na primeira leitura, afirmações muito interessantes, bem diferentes das anteriores doutrinas judaicas que apenas acreditavam num Deus misericordioso para a vida terrena e não acreditavam na intervenção divina depois da morte.
O autor do texto declara: «não foi Deus quem fez a morte»; «o que nasce no mundo destina-se ao bem». Este é o projeto de Deus, que permanece válido mesmo depois do pecado que causou a morte. De que morte se fala? «Foi pela inveja do Diabo que a morte entrou no mundo, e experimentam-na aqueles que lhe pertencem»? É evidente que não se pode referir à morte física, porque se trata de uma realidade que afeta a todos, bons e maus, justos e injustos.
Neste contexto, é conveniente deixar claro três coisas: a condição mortal do ser humano é natural; a morte física (que faz parte da realidade criada) é ambígua; a morte eterna é entendida como um castigo.
A morte física é uma realidade ambígua: não é um mal em si mesma; só o é na medida em que se torna sinal da morte radical, da morte eterna. A morte física é ambígua porque, para os justos, é a passagem para a vida eterna e prelúdio da ruína eterna para os malvados. Essa morte eterna é a tal morte que não foi criada por Deus.
Queremos viver e ser felizes! Contudo, a experiência parece ensinar que tudo tem um fim e que o nosso fim é a morte. Mas a palavra de Deus diz-nos que não é bem assim, pois a morte não se afigura como um ponto final ou a meta da nossa existência, pelo menos para quem vive mergulhado no amor. Confirma-o Paulo Varela Gomes (possui um cancro de grau quatro), no texto que escreveu para a revista Granta intitulado «Morrer é mais difícil do que parece»: «Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga-me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida. […] Quando isto sucede, o meu tempo já não é o Tempo Comum mas antes um longo domingo de Páscoa: sinto a presença amorosa de todos os que precisam de mim e d’Aquele de quem eu preciso».

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo décimo terceiro (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.6.15 | Sem comentários

Viver a fé! [37]


Neste segundo tema dedicado ao capítulo décimo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja («proteger o ambiente») resumimos o quarto e último ponto («uma responsabilidade comum») que se divide nas seguintes alíneas: «o ambiente, um bem coletivo» (números 466 a 471); «o uso das biotecnologias» (472 a 480); «ambiente e partilha dos bens» (481 a 485); «novos estilos de vida» (486 e 487).

O ambiente, um bem coletivo

«A tutela do ambiente constitui um desafio para toda a humanidade: trata-se do dever, comum e universal, de respeitar um bem coletivo» (466) que se estende «não apenas às exigências do presente, mas também às do futuro» (467). Por isso, «a responsabilidade em relação ao ambiente deve encontrar uma tradução adequada no campo jurídico. [...]. As normas jurídicas, todavia, por si sós não bastam: a par delas, devem amadurecer um forte sentido de responsabilidade, bem como uma efetiva mudança nas mentalidades e nos estilos de vida» (468). Nesta responsabilidade pelo «bem coletivo» que é o ambiente, quando se verifica a ausência de dados científicos e é preciso «tomar decisões para enfrentar riscos sanitários e ambientais», a Igreja sugere «uma avaliação inspirada pelo ‘princípio da precaução’, que não comporta a aplicação de uma regra, mas uma orientação ordenada a administrar situações de incerteza» (469). No mesmo sentido, «a programação do desenvolvimento económico deve considerar atentamente a ‘necessidade de respeitar a integridade e os ritmos da natureza’, já que os recursos naturais são limitados e alguns não são renováveis» (470). «Uma atenção especial merece a relação que os povos indígenas mantêm com a sua terra e os seus recursos: trata-se de uma expressão fundamental da sua identidade» (471).

O uso das biotecnologias

«As novas possibilidades oferecidas pelas atuais técnicas biológicas e biogenéticas suscitam, por um lado, esperanças e entusiasmos e, por outro lado, alarme e hostilidade» (472). «A visão cristã da criação comporta um juízo positivo sobre a liceidade [...] e, ao mesmo tempo, um forte chamamento para o sentido de responsabilidade» (473). «Hão de ser avaliadas de acordo com os critérios éticos» (474). «Num espírito de solidariedade internacional, [...] deve ser facilitado [...] o intercâmbio comercial equitativo, livre de vínculos injustos. [...] É indispensável favorecer também a maturação de uma necessária autonomia científica e tecnológica» (475). «A solidariedade comporta também um chamamento à responsabilidade [...] de promover uma política comercial favorável aos seus povos e o intercâmbio de tecnologias capazes de melhorar as condições alimentares e sanitárias» (476). «Os cientistas e técnicos [...] são chamados a trabalhar com inteligência e perseverança na busca de melhores soluções para os graves e urgentes problemas da alimentação e da saúde» (477). «Os empresários e responsáveis pelas entidades públicas que se ocupam da pesquisa, da produção e do comércio dos produtos derivados das novas biotecnologias devem ter em conta não só o lucro legítimo, mas também o bem comum» (478). «Os políticos, os legisladores e os administradores públicos têm a responsabilidade de avaliar as potencialidades, as vantagens e os eventuais riscos» (479). «Também os responsáveis pela informação têm uma tarefa importante, a desempenhar com prudência e objetividade» (480).

Ambiente e partilha dos bens

«Os bens da Terra foram criados por Deus para serem sabiamente usados por todos: tais bens devem ser divididos com equidade, segundo a justiça e a caridade» (481). «O princípio do destino universal dos bens oferece uma fundamental orientação, moral e cultural, para desatar o complexo e dramático nó que liga crises ambientais e pobreza» (482). «A estreita ligação que existe entre o desenvolvimento dos países mais pobres, o crescimento demográfico e uma utilização sustentável do ambiente é utilizado frequentemente como pretexto para escolas políticas e económicas advogarem medidas pouco conformes à dignidade da pessoa humana» (483). «O princípio do destino universal dos bens aplica-se naturalmente também à água» (484): «pela sua própria natureza, não pode ser tratada como uma mera mercadoria entre outras e o seu uso deve ser racional e solidário» (485).

Novos estilos de vida

«Os graves problemas ecológicos exigem uma efetiva mudança de mentalidade que induza a adotar novos estilos de vida» (486). «A atitude [...] perante a criação é a da gratidão e do reconhecimento: o mundo reconduz-nos ao mistério de Deus que o criou e sustém» (487).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.6.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO DÉCIMO SEGUNDO


Vento, mar, tempestade, fenómenos meteorológicos que destroem tudo… Os Apóstolos ficam indignados perante a tranquilidade de Jesus Cristo, mas Ele interpela-os sobre a falta de fé (evangelho). Já no Antigo Testamento, a tempestade marítima simbolizava o perigo (primeira leitura) e, nesse sentido, uma ameaça à relação com Deus. Por isso, em todos os tempos, o ser humano dominado pela angústia grita para Deus e espera a salvação (salmo). Ora, em Jesus Cristo, morto e ressuscitado, a salvação é oferecida a todos e para sempre (segunda leitura). Acredito na dinâmica salvadora de Jesus Cristo?

«O Senhor respondeu a Job do meio da tempestade»
O décimo segundo domingo (Ano B) oferece, na primeira leitura, um texto do livro de Job. Trata-se de uma obra sapiencial composta por uma parte em prosa — o prólogo e o epílogo — em que se descreve os sofrimentos e as desgraças de um homem que, no final, é recompensado por Deus. É como uma história com um final feliz!
A parte central do livro é poética. Contém os diálogos de Job com os seus amigos. Estes insistem em classificar a desgraça como um castigo divino: Deus é justo; Job é pecador, culpado. Job recusa-se a aceitar: protesta e reivindica a sua inocência.
No final do livro, Deus — o grande desafiado — fala com Job. O fragmento da primeira leitura faz parte desse diálogo. «O Senhor respondeu a Job do meio da tempestade». Mas as respostas de Deus são novas perguntas sobre a ordem e o sentido do Universo (neste caso, sobre a força do mar), perguntas para as quais o ser humano também não tem resposta. Em rigor, Deus não responde às interrogações colocadas por Job ao longo do livro. Mas aceita entrar em diálogo. A solidariedade de Deus com Job torna-se suficiente para lhe dar sentido à vida. Além disso, nas «respostas» de Deus percebe-se um convite a contemplar a vida com olhos de fé.
«A experiência de Job só encontra a sua resposta autêntica na Cruz de Jesus, ato supremo de solidariedade de Deus para connosco, totalmente gratuito, totalmente misericordioso. E esta resposta de amor ao drama do sofrimento humano, especialmente do sofrimento inocente, permanece para sempre gravada no corpo de Cristo ressuscitado, naquelas suas chagas gloriosas que são escândalo para a fé, mas também verificação da fé» (Francisco, Mensagem para o Dia Mundial do Doente, 2015).

Quantas vezes experimentamos o desânimo, o fracasso, a frustração, as surpresas negativas da vida! E, face a esta crua realidade, parece que Deus «está a dormir» ou nos abandona. É certo que, nos momentos difíceis, ficamos «cegos» e não somos capazes de ver mais nada além do que estamos a sentir e a viver. E falta-nos a capacidade para aceitar que o silêncio de Deus não é ausência, mas profunda solidariedade. «A força da fé não consiste na ‘imperturbabilidade da convicção’, mas na capacidade de suportar também as dúvidas, as obscuridades, de suster o peso do mistério — mantendo a lealdade e a esperança» (T. Halík, O meu Deus é um Deus ferido). «Ainda não tendes fé?».

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo segundo primeiro (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.6.15 | Sem comentários

Viver a fé! [36]


«Proteger o ambiente» é a temática que ocupa o capítulo décimo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Neste tema, abordamos os primeiros pontos: «aspetos bíblicos» (números 451 a 455); «o homem e universo das coisas» (456 a 460); «a crise na relação homem-ambiente» (461 a 465).

Aspetos bíblicos

«A experiência viva da presença divina na história é o fundamento da fé do povo de Deus [...]. A fé de Israel vive no tempo e no espaço deste mundo, que é visto não como um ambiente hostil ou um mal do qual deva libertar-se, mas frequentemente como o próprio dom de Deus, o lugar e o projeto que Ele confia à responsável direção e operosidade do ser humano» (451). De facto, «a relação do ser humano com o mundo é um elemento constitutivo da identidade humana. Trata-se de uma relação que nasce como fruto da relação, ainda mais profunda, do ser humano com Deus. O Senhor quis o ser humano como seu interlocutor: somente no diálogo com Deus a criatura humana encontra a própria verdade, da qual extrai inspiração e normas para projetar a história no mundo, um ‘jardim’ que Deus lhe deu para que seja cultivado e guardado. Nem o pecado elimina tal tarefa» (452). Entretanto, «a salvação definitiva, que Deus oferece a toda a humanidade mediante o seu próprio Filho, não atua fora deste mundo. Mesmo ferido pelo pecado, este é destinado a conhecer uma purificação radical da qual sairá renovado, transformado» (453). «O ingresso de Jesus Cristo na história do mundo culmina na Páscoa, onde a própria natureza participa do drama do Filho de Deus rejeitado e da vitória da Ressurreição» (454). «Não apenas a interioridade do humano é sanada, mas toda a sua corporeidade é tocada pela força redentora de Cristo; a criação inteira toma parte na renovação que brota da Páscoa» (455).

O homem e o universo das coisas

«A visão bíblica inspira as atitudes dos cristãos em relação ao uso da terra, assim como ao desenvolvimento da ciência e da técnica» (456). Na verdade, «os resultados da ciência e da técnica são, em si mesmos, positivos: [...] ‘as vitórias do género humano são um sinal da grandeza divina e uma consequência dos Seus desígnios inefáveis’. [...] Nesta perspetiva, o magistério tem repetidas vezes sublinhado que a Igreja Católica não se opõe de modo algum ao progresso» (457). «As considerações do magistério sobre a ciência e sobre a técnica em geral valem também para a sua aplicação ao ambiente natural e à agricultura» (458). Ora, «ponto de referência central para toda a aplicação científica e técnica é o respeito pelo ser humano, que deve acompanhar uma indispensável atitude de respeito para com os outros seres vivos. [...] ‘Toda e qualquer intervenção numa área determinada do ecossistema não pode prescindir da consideração das suas consequências noutras áreas e, em geral, das consequências no bem-estar das futuras gerações’» (459). E o ser humano não pode «esquecer que ‘a sua capacidade de transformar o mundo e, de certo modo, o “criar” com o próprio trabalho […] se desenrola sempre sobre a base da doação originária dos bens por parte de Deus’ [...]. É o próprio Deus que oferece ao ser humano a honra de cooperar com todas as forças da inteligência na obra da criação» (460).

A crise na relação homem-ambiente

«A mensagem bíblica e o magistério eclesial constituem os pontos de referência-parâmetro para avaliar os problemas que se põem nas relações entre o ser humano e o ambiente. [...] A tendência para a ‘exploração inconsiderada’ dos recursos da criação é o resultado de um longo processo histórico e cultural» (461). «A natureza aparece assim como um instrumento nas mãos do ser humano, uma realidade que ele deve constantemente manipular, sobretudo através da tecnologia [...]. O primado atribuído ao fazer e ao ter, mais do que ao ser, gera graves formas de alienação humana» (462). «Uma correta conceção do ambiente, se por um lado não pode reduzir de forma utilitarista a natureza a mero objeto de manipulação e desfrute, por outro lado não pode absolutizar a natureza e sobrepô-la em dignidade à própria pessoa humana. [...] O magistério tem manifestado a sua oposição a uma conceção do ambiente inspirada no ecocentrismo e no biocentrismo» (463). E «uma visão do ser humano e das coisas desligadas de qualquer referência à transcendência conduziu à negação do conceito de criação [...]. ‘A relação que o ser humano tem com Deus é que determina a relação do humano com os seus semelhantes e com o seu ambiente’» (464). Por isso, «o magistério enfatiza a responsabilidade humana de preservar um ambiente íntegro e saudável para todos» (465).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.6.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO DÉCIMO PRIMEIRO


O décimo primeiro domingo (Ano B), na proximidade do verão, oferece-nos belas imagens da natureza: para anunciar o Reino de Deus, Jesus Cristo socorre-se de várias parábolas (evangelho). Neste domingo, propõe as parábolas da semente que «germina e cresce» por si mesma e a do grão de mostarda que se torna «a maior de todas as plantas da horta». Entretanto, já o profeta Ezequiel (primeira leitura) tinha feito um anúncio idêntico como sinal de salvação. E o salmista compara o justo a tais árvores: «florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro do Líbano». Então, como escreve Paulo (segunda leitura), em todas as circunstâncias, vivamos sempre cheios de confiança em Deus.

«Tornar-se-á um cedro majestoso»
Ezequiel é um profeta do tempo da primeira deportação para a Babilónia: Nabucodonosor conquistou Jerusalém e condenou ao exílio a casa real e a aristocracia judaica. Depois, quando já parecia improvável o regresso à Terra Prometida, Deus envia o profeta para reanimar a esperança.
A alegoria do cedro, proposta na primeira leitura, está relacionada com a «promessa messiânica» feita por Natã ao rei David (cf. Segundo Livro de Samuel, capítulo 7) sobre a sua descendência. Depois da deportação de Jeconias para a Babilónia e da colocação de Sedecias no trono por Nabucodonosor, o que se poderá esperar da dinastia de David?
A resposta do profeta remete para Deus: arrancará um «ramo novo» do «cedro frondoso», plantá-lo-á «num monte muito alto», «tornar-se-á um cedro majestoso». Por outras palavras, um resto do povo humilde e desprezado permanecerá fiel; desse «resto», Deus renovará a promessa feita a David.
Não são os reis poderosos que determinam o sentido da história. A segunda parte da profecia, mantendo a imagem da «árvore», recorda que a ação determinante é conduzida pelo próprio Deus: «humilho a árvore elevada e elevo a árvore modesta, faço secar a árvore verde e reverdeço a árvore seca». Por isso, a dinastia de David reinará, para sempre, em Jesus Cristo, com a «árvore» da cruz que se tornará em «árvore» da vida.
Eis o ser e agir de Deus: serve-se dum ramo, algo sempre incerto e delicado, para anunciar um futuro novo, cheio de esperança e de vida. Deus é surpreendente: não usa os modos habituais, nem se rege pelos critérios esperados. O paradoxo que coloca em atitude de abertura à novidade, faz parte de Deus. 

O cristão tem de aprender a ter um olhar sempre novo, renovado. Trata-se de olhar para além do visível, pois «o essencial é invisível aos olhos» (Saint-Exupéry). Não se pode desapreciar o pequeno ou o aparentemente mutilado. Há que ter esperança, saber esperar o tempo necessário para ver os frutos que nascem da ação de Deus. «O prazer de esperar. […] Precisaríamos talvez dizer a nós próprios, e uns aos outros, que esperar não é necessariamente uma perda de tempo. Muitas vezes é o contrário. É reconhecer o seu tempo, o tempo necessário para ser; é tomar o tempo para si, como lugar de maturação, como oportunidade reencontrada» (J. Tolentino Mendonça).

© Laboratório da fé, 2015


Celebrar o domingo décimo primeiro (Ano B), no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.6.15 | Sem comentários

Viver a fé! [35]


Este (segundo) tema dedicado ao nono capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja (sobre «A Comunidade Internacional») resume o terceiro e quarto pontos desse capítulo: «a organização da Comunidade Internacional» (números 440 a 445); «a cooperação internacional para o desenvolvimento» (números 446 a 450).

O valor das organizações internacionais

«O caminho rumo a uma autêntica ‘comunidade’ internacional, que assumiu uma precisa direção com a instituição da Organização das Nações Unidas em 1945, é acompanhado pela Igreja» (440). A doutrina social da Igreja ressalta a necessidade «de instituir ‘uma autoridade pública universal, reconhecida por todos, com poder eficaz para garantir a segurança, a observância da justiça e o respeito dos direitos’» (441). Aliás, a «globalização dos problemas» exige «uma política internacional voltada para o objetivo da paz e do desenvolvimento mediante a adoção de medidas coordenadas [...]. Em particular, as estruturas intergovernamentais devem exercitar eficazmente as suas funções de controlo e de guia no campo da economia» (442). Por isso, «o magistério avalia positivamente o papel dos agrupamentos que se formaram na sociedade civil para exercer uma importante função de sensibilização da opinião pública em relação aos diversos aspetos da vida internacional, com uma atenção especial para o respeito dos direitos do ser humano» (443).

A personalidade jurídica da Santa Sé

«A Santa Sé – ou Sé Apostólica – goza de plena subjetividade internacional enquanto autoridade soberana que realiza atos juridicamente próprios. Ela exerce uma soberania externa, reconhecida no quadro da comunidade internacional, que reflete a soberania exercida no seio da Igreja e que se caracteriza pela unidade organizativa e pela independência» (444). «O serviço diplomático da Santa Sé, fruto de uma antiga e consolidada praxe, é um instrumento que atua não só pela ‘libertas Ecclesiae’, mas também pela defesa e a promoção da dignidade humana, bem como por uma ordem social baseada nos valores da justiça, da liberdade e do amor» (445).

Colaboração para garantir o direito ao desenvolvimento

«A solução do problema do desenvolvimento requer a cooperação entre as comunidades políticas [...]. O desenvolvimento não é apenas uma aspiração, mas também um direito [...]. O direito ao desenvolvimento funda-se nos seguintes princípios: unidade de origem e comunhão de destino da família humana; igualdade entre todas as pessoas e todas as comunidades baseada na dignidade humana; destino universal dos bens da terra; integralidade da noção de desenvolvimento; centralidade da pessoa humana; solidariedade» (446). Neste sentido, «a doutrina social encoraja formas de cooperação capazes de incentivar o acesso ao mercado internacional dos países marcados pela pobreza e pelo subdesenvolvimento [...]. Entre as causas que predominantemente concorrem para determinar o desenvolvimento e a pobreza, além da impossibilidade de ascender ao mercado internacional, devem ser enumerados o analfabetismo, a insegurança alimentar, a ausência de estruturas e serviços, a carência de medidas para garantir o saneamento básico, a falta de água potável, a corrupção, a precariedade das instituições e da própria vida política. Existe uma conexão entre a pobreza e a falta, em muitos países, de liberdade, de possibilidade de iniciativa económica, de administração estatal capaz de oferecer um sistema adequado de educação e de informação» (447). Por isso, «o espírito da cooperação internacional exige que acima da estrita lógica do mercado esteja a consciência de um dever de solidariedade, de justiça social e de caridade universal» (448).

Luta contra a pobreza

A pobreza «‘é a questão que, em absoluto, mais interpela a nossa consciência humana e cristã’. [...] A luta contra a pobreza encontra uma forte motivação na opção ou no amor preferencial da Igreja pelos pobres. [...] A Igreja não se cansa de reafirmar também outros princípios fundamentais seus, entre os quais se destaca o do destino universal dos bens. [...] Aos pobres se deve olhar ‘não como um problema, mas como possíveis sujeitos e protagonistas dum futuro novo e mais humano para todo o mundo’» (449).

A dívida externa

«Deve-se ter presente o direito fundamental dos povos ao desenvolvimento nas questões ligadas à crise das dívidas de muitos países pobres. [...] Mesmo reafirmando o princípio de que o débito contraído deve ser honrado, é preciso encontrar caminhos para não comprometer o ‘fundamental direito dos povos à subsistência e ao progresso’» (450).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 11.6.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO DO CORPO E SANGUE DE JESUS CRISTO


A Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo («Corpo de Deus») celebra a «Nova e Eterna Aliança» em Jesus Cristo. Os textos da Escritura propostos na Liturgia da Palavra (Ano B) relatam, progressivamente, o amor de Deus pela Humanidade revelado em termos de «Aliança». No tempo de Moisés, Deus estabelece uma Aliança com o povo (primeira leitura). Mais tarde, anuncia-se uma nova Aliança selada com o sangue de Jesus Cristo (segunda leitura), da qual, a Igreja, novo povo de Deus, faz memória em cada eucaristia (evangelho). Esta é o «sacrifício de louvor» (salmo) que cada um de nós oferece ao Pai em reconhecimento de tão grande amor.

«Faremos tudo o que o Senhor ordenou»
Há dois meses tivemos uma celebração centrada na Eucaristia: a Quinta-feira Santa. A Eucaristia tem suficiente importância e riqueza para lhe serem dedicadas duas celebrações especiais ao longo do ano!
O livro do Êxodo, depois da grande intervenção libertadora de Deus em favor dum povo escravo no Egito, situa a ação junto do monte Sinai. Este monte, o centro literário e teológico da caminhada do povo pelo deserto, tornar-se-à uma referência central para o judaísmo posterior.
Deus pronunciara as «dez palavras» ou «dez mandamentos». O povo compromete-se a obedecer: «Faremos tudo o que o Senhor ordenou». Moisés coloca-o por escrito. A Escritura será capital na experiência religiosa do povo de Israel. É a perpetuação da memória!
O texto da primeira leitura descreve com detalhes o rito da Aliança entre Deus e Israel: Moisés construiu um altar, mandou oferecer novilhos em holocausto (recordemos que a religião de Israel se expressava cultualmente com sacrifícios de animais), derramou metade do sangue dos novilhos sobre o altar e aspergiu o povo com a outra metade. Este sangue tem um papel fundamental: é sinal (selo) da fidelidade à Aliança.
O sangue, na mentalidade do povo bíblico, era portador da vida. Partilhar o sangue é partilhar a vida. Aspergir o sangue sobre as pessoas era implicar a vida do povo no cumprimento da Aliança. Por isso, o autor da Epístola aos Hebreus (segunda leitura) recorreu à imagem do sangue derramado por Jesus Cristo na cruz para expressar a «Nova e Eterna Aliança» entre Deus e a Humanidade.
A Eucaristia é o sacramento central da vida cristã. Escutamos muitas vezes esta afirmação com palavras semelhantes e de muitas e variadas formas. E também escutamos, outras tantas vezes, que a Eucaristia é aborrecida… Como conjugar estas duas experiências que são tão reais e contraditórias? Habitualmente, propõe-se dois caminhos: procura-se aprofundar o sabor teológico da Eucaristia (a sua transcendência e espiritualidade); procura-se que a celebração se torne mais participativa e expressiva. Ambos os caminhos são necessários e devem continuar a ser explorados. Mas é também importante propor a conjugação dos dois: a Eucaristia como uma Aliança vital, uma Aliança onde se dá a conhecer o seu aroma transcendente e onde se exprime a sua fragrância presente na vida quotidiana de cada pessoa.

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo do Corpo e Sangue de Jesus Cristo (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.6.15 | Sem comentários

Viver a fé! [34]


O capítulo nono do Compêndio da Doutrina Social da Igreja é dedicado à «Comunidade Internacional». Neste tema apresentamos os dois primeiros pontos: «aspetos bíblicos» (números 429 a 432); «as regras fundamentais da Comunidade Internacional» (números 433 a 439).

A unidade da família humana

«Os relatos bíblicos sobre as origens mostram a unidade do género humano e ensinam que o Deus de Israel é o Senhor da história e do cosmos: a sua ação abraça todo o mundo e a família humana inteira, à qual é destinada a obra da criação» (428). Assim, «a aliança de Deus com Noé (cf. Génesis 9, 1-17) e, nele, com toda a humanidade, após a destruição causada pelo dilúvio, manifesta que Deus quer manter para a comunidade humana a bênção de fecundidade» (429). Entretanto, após a divisão causada pelo episódio de Babel, «a aliança estabelecida por Deus com Abraão, eleito ‘pai de uma multidão de povos’ (Génesis 17, 4), abre o caminho para a reunião da família humana no seu Criador. [...] Os Profetas anunciarão, para um tempo escatológico, a peregrinação de todos os povos ao templo do Senhor e uma era de paz entre as nações» (430).

Jesus Cristo protótipo e fundamento da nova humanidade

«O Senhor Jesus é o protótipo e o fundamento da nova humanidade. N’Ele, verdadeira ‘imagem de Deus’ (2Coríntios 4, 4), o ser humano, criado por Deus à sua imagem e à sua semelhança, encontra a sua realização» (431).

A viação universal do Cristianismo

«A mensagem cristã oferece uma visão universal da vida dos seres humanos e dos povos sobre a Terra que leva a compreender a unidade da família humana [...]. A mensagem cristã foi decisiva para fazer a humanidade compreender que os povos tendem a unirem-se não apenas em razão das formas de organização, de vicissitudes políticas, de projetos económicos ou em nome de um internacionalismo abstrato e ideológico, mas porque livremente se orientam em direção à cooperação, ‘conscientes de pertencer como membros vivos a uma comunidade mundial’, que se deve propor sempre mais e sempre melhor como figura concreta da unidade querida pelo Criador» (432).

Comunidade Internacional e valores

«A centralidade da pessoa humana e da aptidão natural das pessoas e dos povos para estreitar relações entre si são elementos fundamentais para construir uma verdadeira comunidade internacional, cuja organização deve tender ao efetivo bem comum universal. [...] A convivência entre as nações funda-se nos mesmos valores que devem orientar a convivência entre os seres humanos: a verdade, a justiça, a solidariedade e a liberdade» (433). «A comunidade internacional é uma comunidade jurídica fundada sobre a soberania de cada Estado-membro, sem vínculos de subordinação que neguem ou limitem a cada qual a sua independência» (434). «O magistério reconhece a importância da soberania nacional [...]. Não é, porém, um absoluto. As nações podem renunciar livremente ao exercício de alguns dos seus direitos, em vista de um objetivo comum, com a consciência de formarem uma única ‘família’, na qual devem reinar a confiança recíproca, o apoio e o respeito mútuo» (435).

Relações fundadas na harmonia entre ordem jurídica e ordem moral

«A mesma lei moral que rege a vida dos seres humanos deve regular também as relações entre os Estados [...], uma ‘gramática’ capaz de orientar o diálogo sobre o futuro do mundo» (436). «O respeito universal dos princípios que inspiram uma ‘ordenação jurídica em harmonia com a ordem moral’ é uma condição necessária para a estabilidade da vida internacional» (437). «Para resolver os conflitos que surgem entre as diversas comunidades políticas e que comprometem a estabilidade das nações e a segurança internacional, é indispensável referir-se a regras comuns confiadas à negociação, renunciando definitivamente à ideia de buscar a justiça mediante o recurso à guerra [...]. A Carta das Nações Unidas interditou não somente o recurso à força, mas também a simples ameaça de usá-la: tal disposição nasceu da trágica experiência da Segunda Guerra Mundial» (438). «Para consolidar o primado do direito, vale acima de tudo o princípio da confiança recíproca. Nesta perspetiva, os instrumentos normativos para a solução pacífica das controvérsias devem ser repensados de tal modo que lhes sejam reforçados o alcance e a obrigatoriedade. [...] Consentirá à Comunidade Internacional propor-se já não como simples momento de agregação da vida dos Estados, mas como uma estrutura em que os conflitos possam ser resolvidos pacificamente» (439).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.6.15 | Sem comentários
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