MARIA, A MÃE DA EVANGELIZAÇÃO!


Da Exortação Apostólica do papa Francisco 
sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual («Evangelii Gaudium»), 288:

Virgem e Mãe Maria,

Vós que, movida pelo Espírito,

acolhestes o Verbo da vida

na profundidade da vossa fé humilde,

totalmente entregue ao Eterno,

ajudai-nos a dizer o nosso «sim»

perante a urgência,
mais imperiosa do que nunca,

de fazer ressoar a Boa Nova de Jesus.

Vós, cheia da presença de Cristo,

levastes a alegria a João o Baptista,

fazendo-o exultar no seio de sua mãe.


Vós, estremecendo de alegria,

cantastes as maravilhas do Senhor.


Vós, que permanecestes firme 
diante da Cruz

com uma fé inabalável,

e recebestes a jubilosa consolação
da ressurreição,

reunistes os discípulos
à espera do Espírito

para que nascesse
a Igreja evangelizadora.

Alcançai-nos agora
um novo ardor de ressuscitados

para levar a todos o Evangelho da vida

que vence a morte.
 

Dai-nos a santa ousadia
de buscar novos caminhos

para que chegue a todos

o dom da beleza que não se apaga.

Vós, Virgem da escuta e da contemplação,

Mãe do amor,
esposa das núpcias eternas

intercedei pela Igreja,
da qual sois o ícone puríssimo,

para que ela nunca se feche
nem se detenha

na sua paixão por instaurar o Reino. 

Estrela da nova evangelização,

ajudai-nos a refulgir
com o testemunho da comunhão,

do serviço, da fé ardente e generosa,

da justiça e do amor aos pobres,

para que a alegria do Evangelho

chegue até aos confins da terra

e nenhuma periferia
fique privada da sua luz.

Mãe do Evangelho vivente,

manancial de alegria
para os pequeninos,

rogai por nós.
Amen. Aleluia!

© Adaptação de Laboratório da fé, 2015

  • TEMA GERAL PARA O MÊS DE MARIA 2015 > > >

Maria, a mãe da evangelização!
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.5.15 | Sem comentários

MARIA, A MÃE DA EVANGELIZAÇÃO!


Mergulhados na «mística do instante», vivemos a Páscoa na redescoberta do sentido do tato: convidados a experienciar o toque do Ressuscitado. Antes de mais, remete para a possibilidade de nos deixarmos tocar, como no caso de Tomé: «foi o Ressuscitado quem tocou em Tomé, tocou-o com o dom da fé». Ora, Maria, como mãe, foi a primeira a ser tocada, ainda no ventre. Depois, desde Belém até ao Calvário, quantas vezes não terá tocado e sido tocada pelo seu Menino! Maria foi a pessoa que melhor viveu o sentido do tato na relação humana e espiritual com Jesus Cristo. Por isso, em maio, «mês de Maria», ela une-se ao convite pascal para nos deixarmos tocar por Jesus Cristo e pelo Evangelho.

Maio, Mês de Maria: a mãe da evangelização!

«Juntamente com o Espírito Santo, sempre está Maria no meio do povo. Ela reunia os discípulos para O invocarem (Atos 1, 14), e assim tornou possível a explosão missionária que se deu no Pentecostes. Ela é a Mãe da Igreja evangelizadora e, sem Ela, não podemos compreender cabalmente o espírito da nova evangelização» — é com estas afirmações que o papa Francisco inicia a reflexão sobre Maria na Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. O Papa lembra que «ao pé da cruz, na hora suprema da nova criação, Cristo conduz-nos a Maria; conduz-nos a ela, porque não quer que caminhemos sem uma mãe [...]. Não é do agrado do Senhor que falte à sua Igreja o ícone feminino». Sãos os últimos quatro números (284 a 288) dedicados a «Maria, a mãe da evangelização»: «Ela é a mulher de fé, que vive e caminha na fé, e ‘a sua excecional peregrinação da fé representa um ponto de referência constante para a Igreja’. Ela deixou-Se conduzir pelo Espírito, através dum itinerário de fé, rumo a uma destinação feita de serviço e fecundidade. Hoje fixamos nela o olhar, para que nos ajude a anunciar a todos a mensagem de salvação e para que os novos discípulos se tornem operosos evangelizadores. [...] Há um estilo mariano na atividade evangelizadora da Igreja. Porque sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do afeto. Nela, vemos que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos, mas dos fortes, que não precisam de maltratar os outros para se sentir importantes. Fixando-a, descobrimos que aquela que louvava a Deus porque ‘derrubou os poderosos de seus tronos’ e ‘aos ricos despediu de mãos vazias’ (Lucas 1, 52.53) é mesma que assegura o aconchego dum lar à nossa busca de justiça. E é a mesma também que conserva cuidadosamente ‘todas estas coisas ponderando-as no seu coração’ (Lucas 2, 19). Maria sabe reconhecer os vestígios do Espírito de Deus tanto nos grandes acontecimentos como naqueles que parecem impercetíveis. É contemplativa do mistério de Deus no mundo, na história e na vida diária de cada um e de todos. É a mulher orante e trabalhadora em Nazaré, mas é também nossa Senhora da prontidão, a que sai ‘à pressa’ (Lucas 1, 39) da sua povoação para ir ajudar os outros. Esta dinâmica de justiça e ternura, de contemplação e de caminho para os outros faz d’Ela um modelo eclesial para a evangelização. Pedimos-Lhe que nos ajude, com a sua oração materna, para que a Igreja se torne uma casa para muitos, uma mãe para todos os povos, e torne possível o nascimento dum mundo novo. É o Ressuscitado que nos diz, com uma força que nos enche de imensa confiança e firmíssima esperança: ‘Eu renovo todas as coisas’ (Apocalipse 21, 5)».

Laboratório da Fé vivida

«Seguir os mistérios do Rosário deve, por esta razão, levar-nos a aprofundar as razões da nossa fé e a concretizar as obras que este dom exige. Obras que se apresentem como respostas credíveis a cenários de egoísmo e de indiferença. Se observarmos com atenção os contextos que nos rodeiam, não será difícil perceber que as Obras de Misericórdia se apresentam como indispensáveis. Não será oportuno pensarmos, neste mês de Maio, em modalidades objetivas e palpáveis para concretizar essas mesmas 14 Obras? Quantos momentos teremos para as viver!... Neste contexto, o mês de Maio será uma verdadeira escola, tendo Maria por Mestra da fé e da caridade. Aprenderemos a dar a vida e redescobriremos a nossa vocação de Filhos de Deus. Connosco teremos a responsabilidade pessoal de ir construindo um mundo diferente através de pequenos atos de amor que, diariamente, realizaremos para testemunhar uma vida verdadeiramente mariana. Com este testemunho também a Igreja terá um rosto mais materno, oferecendo vida a todos, sobretudo aos mais necessitados» (Dom Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga).

© Laboratório da fé, 2015

  • ORAÇÃO PARA TODOS OS DIAS > > >


Maria, a mãe da evangelização!


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.5.15 | Sem comentários

Viver a fé! [29]


O sétimo capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja termina com um ponto dedicado às «coisas novas [‘res novae’] em economia» (números 361 a 376). Este quinto ponto aborda as oportunidades e os riscos da globalização, o sistema financeiro internacional, o papel da comunidade internacional, um desenvolvimento integral e solidário, a necessidade de uma grande obra educativa e cultural.

A globalização: as oportunidades e os riscos

«O nosso tempo é marcado pelo complexo fenómeno da globalização económico-financeira [...]. Uma realidade multiforme e não simples de decifrar, dado que se desenrola a vários níveis e evolui constantemente ao longo de trajetórias dificilmente previsíveis» (361). «A globalização alimenta novas esperanças, mas também suscita interrogações inquietantes» (362). «O zelo pelo bem comum exige [...] ‘uma globalização na solidariedade, uma globalização sem marginalização’» (363). Por isso, a Igreja chama «a atenção para a importância dos critérios éticos que deveriam orientar as relações económicas internacionais: a busca do bem comum e o destino universal dos bens; a equidade nas relações comerciais; a atenção aos direitos e às necessidades dos mais pobres nas políticas comerciais e de cooperação internacional» (364). «Uma solidariedade adequada à era da globalização requer a defesa dos direitos humanos» (365). E «particular atenção deve ser reservada às especificidades locais e às diversidades culturais» (366). «Na época da globalização, deve-se ressaltar com força a solidariedade entre as gerações [...]. Este princípio deve ser aplicado sobretudo – ainda que não apenas – no campo dos recursos da terra e da salvaguarda da criação, [...], que diz respeito a todo o planeta, entendido como um único ecossistema» (367).

O sistema financeiro internacional

«Os mercados financeiros não são certamente uma novidade da nossa época: há já muito tempo que, por várias formas, eles cuidam de responder à exigência de financiar atividades produtivas. A experiência histórica atesta que, na ausência de sistemas financeiros adequados, não teria havido crescimento económico» (368). Todavia, «uma economia financeira cujo fim é ela própria está destinada a contradizer os seus fins, pois que se priva das próprias raízes e da própria razão constitutiva, ou seja, do seu papel originário e essencial de serviço à economia real e, ao fim e ao cabo, de desenvolvimento das pessoas e das comunidades» (369).

O papel da comunidade internacional na época da economia global

«A perda de centralidade por parte dos agentes estatais deve coincidir com um maior empenho da comunidade no exercício de um decidido papel de orientação económica e financeira» (370). «Sobressai a exigência de que [...] seja a comunidade internacional a assumir esta delicada função, mediante a utilização de instrumentos políticos e jurídicos adequados e eficazes» (371). «Também a política, a par da economia, deve saber estender o próprio raio de ação para além dos confins nacionais, adquirindo rapidamente aquela dimensão operativa mundial que lhe pode consentir orientar os processos em curso à luz de parâmetros não só económicos, mas também morais» (372).

Um desenvolvimento integral e solidário

«Uma das tarefas fundamentais dos atores da economia internacional é a obtenção de um desenvolvimento integral e solidário para a humanidade, isto é, ‘promover todos os homens e o homem todo’. [...] Os problemas sociais assumem, cada vez mais, uma dimensão planetária: a paz, a ecologia, a alimentação, a droga, as doenças» (373). «Um desenvolvimento mais humano e solidário favorecerá também os próprios países mais ricos» (374).

A necessidade de uma grande obra educativa e cultural

«Para a doutrina social, a economia ‘é apenas um aspeto e uma dimensão da complexa atividade humana. [...] A vida do ser humano, a par da vida social da coletividade, não pode ser reduzida a uma dimensão materialística, ainda que os bens materiais sejam extremamente necessários quer para a mera sobrevivência, quer para o melhoramento do teor de vida» (375). «Em face do rápido andamento do progresso técnico-económico e da mutabilidade, igualmente rápida, dos processos de produção e de consumo, o magistério adverte para a exigência de propor uma grande obra educativa e cultural [...] que abranja a educação dos consumidores para um uso responsável do seu poder de escolha, a formação de um alto sentido de responsabilidade nos produtores e, sobretudo, nos profissionais dos mass-media, além da necessária intervenção das Autoridades públicas» (376).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.4.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO QUARTO DE PÁSCOA


Domingo de oração pelas vocações, na Igreja de Jesus Cristo. Desta Igreja, Ele é a «pedra angular» (salmo) e «em nenhum outro há salvação» (primeira leitura). Hoje, somos chamados a continuar a missão evangelizadora. Nós, os batizados, as pedras vivas, os «filhos de Deus», os destinatários dum «admirável amor» (segunda leitura). E, nos caminhos da missão, não estamos sozinhos: está connosco o «Bom Pastor» (evangelho) que conduz as suas ovelhas pelo caminho da vida e do amor.

«Pedra angular»
Como consequência da cura do coxo que mendigava à porta do Templo, as autoridades religiosas e políticas judaicas prenderam Pedro e João devido à insistência destes em proclamar a ressurreição de Jesus Cristo. Em tribunal, colocam-lhes a questão: «Com que poder ou em nome de quem fizestes isso?».
O texto proposto para primeira leitura do quarto domingo de Páscoa (Ano B) apresenta a resposta de Pedro. Inspirado pelo Espírito Santo, insiste no que já antes tinha dito ao coxo: «em nome de Jesus Cristo, o Nazareno». Não há magia nem habilidades escondidas. A autoridade da intervenção milagrosa vem daquele «que vós crucificastes e Deus ressuscitou dos mortos». Ora, o escândalo maravilhoso não está no inválido que agora caminha, mas no Nazareno que estava morto e agora vive. A cura é só um sintoma da nova realidade que se instaura nas pessoas como resultado da ressurreição de Jesus Cristo.
Pedro cita o versículo 22 do salmo 117 (118) para descrever a situação: os «chefes do povo e anciãos» judaicos «desprezaram» Jesus Cristo, mas Ele tornou-se «pedra angular», pedra de salvação. A pedra angular pode ter um duplo sentido: é a pedra central colocada na base sobre a qual se sustenta todo o edifício; mas também é a pedra central da abóbada da qual depende todo o equilíbrio da mesma. Jesus Cristo é, ao mesmo tempo, o fundamento firme e o centro de equilíbrio da nossa fé, de toda a nossa vida. Pedro conclui com clareza: «em nenhum outro há salvação», «não existe debaixo do céu outro nome, dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos».
«Na raiz de cada vocação cristã, há este movimento fundamental da experiência de fé: crer significa deixar-se a si mesmo, sair da comodidade e rigidez do próprio eu para centrar a nossa vida em Jesus Cristo […]. Este êxodo libertador rumo a Cristo e aos irmãos constitui também o caminho para a plena compreensão do ser humano e para o crescimento humano e social na história. Ouvir e receber o chamamento do Senhor não é uma questão privada e intimista que se possa confundir com a emoção do momento; é um compromisso concreto, real e total que abraça a nossa existência e a põe ao serviço da construção do Reino de Deus na terra. […]. Como é bom deixar-se surpreender pelo chamamento de Deus, acolher a sua Palavra, pôr os passos da vossa vida nas pegadas de Jesus, na adoração do mistério divino e na generosa dedicação aos outros! A vossa vida tornar-se-á cada dia mais rica e feliz» (Mensagem do Papa para o 52.º Dia Mundial de Oração pelas Vocações).

© Laboratório da fé, 2015


Celebrar o domingo quarto de Páscoa (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.4.15 | Sem comentários

Viver a fé! [28]


O quarto ponto do sétimo capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja («vida económica») apresenta as «instituições económicas ao serviço do ser humano» (números 246 a 360): o mercado, o Estado e os corpos sociais intermédios. «Uma das questões prioritárias na economia é o emprego dos recursos, isto é, de todos aqueles bens e serviços aos quais os sujeitos económicos, produtores e consumidores privados e públicos atribuem um valor por causa da utilidade que lhes é inerente no campo da produção e do consumo» (246).

O papel do mercado livre

«O mercado livre é uma instituição socialmente importante para a capacidade de garantir resultados eficientes na produção de bens e serviços. [...] Um verdadeiro mercado concorrencial é um instrumento eficaz para alcançar importantes objetivos de justiça: moderar os excessos de lucros das empresas singulares; responder às exigências dos consumidores; realizar uma melhor utilização e economia dos recursos; premiar os esforços empresariais e a habilidade de inovação; fazer circular a informação, de modo que seja verdadeiramente possível confrontar e adquirir os produtos num contexto de saudável concorrência» (347). Contudo, «o mercado livre não pode ser julgado prescindindo dos fins que persegue e dos valores que transmite a nível social» (348). «A doutrina social da Igreja, ainda que reconhecendo ao mercado a função de instrumento insubstituível de regulação no interior do sistema económico, coloca em evidência a necessidade de o ancorar à finalidade moral, que assegure e, ao mesmo tempo, circunscreva adequadamente o espaço da sua autonomia. [...] Diante do risco concreto de uma ‘idolatria’ do mercado, a doutrina social da Igreja ressalta-lhe os limites, facilmente reveláveis na sua demonstrada incapacidade para satisfazer as exigências humanas importantes, já que há necessidade de bens que, ‘pela sua natureza, não são nem podem ser simples mercadorias’, bens não negociáveis segundo a regra da ‘troca de equivalentes’ e a lógica do contrato, típicas do mercado» (349). Além disso, «o mercado assume uma função social relevante nas sociedades contemporâneas, pelo que é importante especificar as potencialidades mais positivas e criar condições que permitam a sua concreta expansão» (350).

A ação do Estado

«A ação do Estado e dos outros poderes públicos deve conformar-se com o princípio da subsidiariedade para criar situações favoráveis ao livre exercício da atividade económica; esta deve inspirar-se também no princípio da solidariedade e estabelecer os limites da autonomia das partes para defender a parte mais frágil» (351). «É necessário que mercado e Estado ajam de concerto um com o outro e se tornem complementares» (353). «A tarefa fundamental do Estado em âmbito económico consiste em definir um quadro jurídico apto a regular as relações económicas, com a finalidade de ‘salvaguardar […] as condições primárias de uma livre economia’» (352). «O Estado pode instigar os cidadãos e as empresas na promoção do bem comum cuidando de pôr em prática uma política económica que favoreça a participação de todos» (354). Por fim, a coleta fiscal e a despesa pública têm de ser orientadas de forma a «se proporem como instrumento de desenvolvimento e de solidariedade [...]: pagamento dos impostos como especificação do dever de solidariedade; racionalidade e equidade na imposição dos tributos; rigor e integridade na administração e no destino dado aos recursos públicos» (355).

O papel dos corpos intermédios

«O sistema económico-social deve ser caracterizado pela presença tanto de ação pública como de ação privada, incluindo a ação privada sem fins lucrativos» (356). «As organizações privadas sem fins lucrativos têm um espaço específico no âmbito económico: nos serviços sociais, na instrução, na saúde, na cultura. Caracteriza tais organizações a corajosa tentativa de unir harmoniosamente eficiência produtiva e solidariedade» (357).

Poupança e consumo

«Os consumidores que, em muitos casos, dispõem de amplas margens de poder de aquisição, muito para além do limiar da subsistência, podem influenciar consideravelmente a realidade económica com a sua livre escolha entre consumo e poupança» (358). «O uso do próprio poder de aquisição há de ser exercido no contexto das exigências morais da justiça e da solidariedade e de responsabilidades sociais concretas: é preciso não esquecer «o dever da caridade» (359). A terminar, a Igreja alerta que «o fenómeno do consumismo mantém uma persistente orientação para o ‘ter’ mais do que para o ‘ser’» (360).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.4.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO TERCEIRO DE PÁSCOA


O Ressuscitado tem necessidade de testemunhas: esta é uma constatação evidenciada na Liturgia da Palavra dos domingos de Páscoa. Ele, o Vivente, mostra-se ao seus discípulos, come com eles, explica-lhes que nele se cumprem as Escrituras, faz deles suas testemunhas (evangelho). Depois do Pentecostes, Pedro não hesita em proclamar a boa nova diante de todo o povo (primeira leitura); e apela à conversão. Sim, Deus concretizou a promessa e, portanto, o mal foi vencido para sempre (segunda leitura). «O Senhor faz maravilhas pelos seus amigos» (salmo)! Hoje, cada eucaristia é celebração do encontro com o Ressuscitado, cada eucaristia é memorial da salvação que nos é oferecida: Jesus Cristo torna-se presente no meio de nós para partilhar connosco a Palavra e o Pão. Queremos ser suas testemunhas?

«Nós somos testemunhas»
O livro dos Atos dos Apóstolos recolhe, nos primeiros capítulos, a atividade fervorosa dos Apóstolos, em Jerusalém. O texto proposto para primeira leitura do terceiro domingo de Páscoa (Ano B) situa-se imediatamente depois do Pentecostes. É um extrato do (terceiro) discurso de Pedro à multidão, depois de ter curado um paralítico que pedia esmola à porta do Templo. É uma resumo preciso e precioso da mensagem cristã dirigida ao coração de fé israelita: Jesus Cristo foi glorificado pelo «Deus de nossos pais».
A primeira parte contém uma reprimenda. Todos — até os amigos — merecem ser repreendidos pelo que aconteceu na morte de Jesus Cristo, porque, duma ou doutra maneira, todos tiveram culpa (curiosamente, o menos culpado parece ser Pilatos!). Agora, também no Templo, um judeu — Pedro — desafia a todos para se abrirem às novas fronteiras da fé. Aquilo que tinha sido um acontecimento trágico — a morte de Jesus Cristo — converteu-se, pelo poder de Deus, em milagre de vida e de ressurreição.
O que tinha começado como uma palavra de juízo torna-se numa proclamação do amor salvador de Deus, um amor tal que não pode ser prejudicado pelos nocivos planos humanos.
As palavras de Pedro terminam com um anúncio de absolvição. Deus, não só trocou as voltas às más intenções humanas, mas também se prepara para as perdoar. Afinal, os que crucificaram Jesus Cristo, sem ter consciência disso, deram um contributo para o cumprimento da promessa divina: um Messias sofredor. O final não é a tragédia; a última palavra é pronunciada por Deus. Há um mistério singular: nas mãos de Deus, até o nosso mal pode ser convertido em bem!

Uma vez mais, Pedro evoca, no plural (refere-se aos Apóstolos), a sua condição essencial: «nós somos testemunhas». Este é o terceiro domingo de Páscoa; esta é a terceira vez que o livro dos Atos dos Apóstolos refere a importância do testemunho. Somos herdeiros de uma fé alicerçada no testemunho dos Apóstolos. Eles mostram como passaram da dúvida à confiança, do medo à paz interior, da desilusão ao entusiasmo, da deceção à alegria do testemunho. Hoje, compete-nos a nós, cristãos, assumir a «suave e reconfortante alegria» (Paulo VI) do testemunho!

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo terceiro de Páscoa (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.4.15 | Sem comentários

Viver a fé! [27]


No sétimo capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja («vida económica»), os pontos dois e três, resumidos neste tema, abordam as relações entre a moral e a economia (números 330 a 335) e entre a iniciativa privada e as empresas (números 336 a 345).

Moral e economia

«A doutrina social da Igreja insiste na conotação moral da economia» (330). Entre a moral e a economia há uma relação «necessária e intrínseca: atividade económica e comportamento moral compenetram-se intimamente» (331). Assim, «a dimensão moral da economia faz tomar como finalidades indivisíveis, nunca separadas e alternativas, a eficiência económica e a promoção de um desenvolvimento solidário da humanidade. A moral constitutiva da vida económica não é nem opositiva, nem neutra: inspira-se na justiça e na solidariedade, constitui um fator de eficiência social da própria economia» (332). «Para assumir um carácter moral, a atividade económica deve ter como sujeitos todos os seres humanos e todos os povos» (333): presta um serviço recíproco pela produção de bens e serviços úteis ao crescimento individual e potencia a solidariedade e a comunhão. «Objeto da economia é a formação da riqueza e o seu incremento progressivo, em termos não apenas quantitativos, mas qualitativos: tudo isto é moralmente correto se orientado para o desenvolvimento global e solidário do homem e da sociedade em que ele vive e atua» (334). «Na perspetiva do desenvolvimento integral e solidário, pode-se dar uma justa apreciação da avaliação moral que a doutrina social oferece sobre a economia de mercado ou, simplesmente, economia livre [...]. Assim se define a perspetiva cristã acerca das condições sociais e políticas da atividade económica: não só as suas regras, mas a sua qualidade moral e o seu significado» (335).

Iniciativa privada e empresa

«A doutrina social da Igreja considera a liberdade da pessoa no campo económico um valor fundamental e um direito inalienável a ser promovido e tutelado» (336). Aqui, «a dimensão criativa é um elemento essencial do agir humano, também no campo empresarial, e manifesta-se especialmente na aptidão para projetar e inovar» (337).

A empresa e os seus fins

«A empresa deve caracterizar-se pela capacidade de servir o bem comum da sociedade mediante a produção de bens e serviços úteis. [...] A empresa cumpre também uma função social, criando oportunidades de encontro, de colaboração, de valorização das capacidades das pessoas envolvidas. [...] O objetivo da empresa deve ser realizado em termos e com critérios económicos, mas não devem ser descurados os autênticos valores que permitem o desenvolvimento concreto da pessoa e da sociedade» (338). «Os componentes da empresa devem estar conscientes de que a comunidade na qual atuam representa um bem para todos e não uma estrutura que permite satisfazer exclusivamente os interesses pessoais de alguns» (339). «A doutrina social reconhece a justa função do lucro, como primeiro indicador do bom andamento da empresa [...]. É indispensável que, no interior da empresa, a legítima busca do lucro se harmonize com a irrenunciável tutela da dignidade das pessoas que, a vários título, atuam na mesma empresa» (340). Por isso, «o recurso à usura é moralmente condenável» (341). Por fim, a Igreja recorda que os cenários macroeconómicos atuais exigem que as empresas assumam «responsabilidades novas e maiores em relação ao passado» (342).

O papel do empresário e do dirigente de empresa

«A iniciativa económica é expressão da inteligência humana e da exigência de responder às necessidades humanas de modo criativo e colaborativo. Na criatividade e na cooperação está inscrita a autêntica conceção da competição empresarial» (343). Ora, quanto ao papel do empresário e do dirigente de empresa, a Igreja lembra que «não podem levar em conta exclusivamente o objetivo económico da empresa, os critérios de eficiência produtiva, as exigências do cuidado com o ‘capital’ como conjunto dos meios de produção: é também um preciso dever deles o concreto respeito pela dignidade humana dos trabalhadores que atuam na empresa. Estes últimos constituem ‘o património mais precioso da empresa’» (344). «A doutrina social insiste na necessidade de que o empresário e o dirigente se empenhem em estruturar a atividade profissional nas suas empresas de modo a favorecer a família [...]; respondam, à luz de uma visão integral do ser humano e do desenvolvimento, à demanda de qualidade [...]; invistam [...] nos setores produtivos que oferecem a indivíduos e povos ‘a ocasião de valorizar o próprio trabalho’» (345).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 16.4.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO SEGUNDO DE PÁSCOA


O segundo domingo de Páscoa, Oitava da Páscoa e Domingo da Divina Misericórdia, é o domingo da alegria (da fé). Jesus Cristo declara: «Felizes os que acreditam sem terem visto» (evangelho), felizes os que colocam toda a confiança em Deus, pois «é eterna a sua misericórdia» (salmo). E quem acredita que Jesus Cristo é o Filho de Deus «vence o mundo», explica São João (segunda leitura). Os cristãos, vivificados «pela água e pelo sangue» — pelo Batismo e pela Eucaristia — constituem a Igreja de Jesus Cristo, chamada a viver em comunhão e a testemunhar a caridade, distribuindo «a cada um conforme a sua necessidade» (primeira leitura). Eis o brilho duma fé vivida!

«Um só coração e uma só alma»
O livro dos Atos dos Apóstolos mostra que a nova realidade inaugurada pela ressurreição de Jesus Cristo não se encontra exclusivamente orientada para a relação entre as pessoas e Deus, nem apenas para um momento além da história terrena. O Evangelho, isto é, a Boa Nova do Ressuscitado tem implicações imediatas na vida das pessoas e das comunidades.
O versículo anterior ao texto proposto para primeira leitura do segundo domingo de Páscoa (Ano B) refere a ação do Espírito Santo que enche de coragem os discípulos para pregarem a Palavra de Deus. Portanto, tudo o que se explica a seguir tem de ser entendido como resultado da ação do próprio Espírito Santo.
A ressurreição de Jesus Cristo e o dom do Espírito Santo são sinais da presença do Reino de Deus. Por isso, tinham «um só coração e uma só alma».
O objetivo da atividade dos primeiros cristãos não é político, mas teológico e antropológico, apoiado na convicção de que, em Jesus Cristo, todos formamos um só povo. Constitui-se uma nova (e única) família — a Igreja — que acolhe e cuida de todos os seus membros. A comunhão de bens é expressão da unidade em Jesus Cristo e da presença do Reino de Deus; e também servia para assegurar que «não havia entre eles qualquer necessitado».
Este «sumário» não pretende despertar a saudade dum passado em que tudo era maravilhoso nas comunidades cristãs. É, isso sim, um acicate para torná-lo presente, hoje. A palavra de Deus bebe do passado histórico, mas não é nostálgica; é palavra viva para «aqui e agora». Com este texto dos Atos dos Apóstolos o homileta (e cada cristão) reconhece «o poder da vida do Senhor ressuscitado operante nas primeiras comunidades, e proclama com fé ao povo que o mesmo poder ainda atua entre nós» («Diretório homilético», 53).
O texto diz ainda que «gozavam todos de grande simpatia». Ora, para despertar simpatia e mostrar que o «poder» do Ressuscitado «atua entre nós» é preciso estar próximo. Estar próximo é o primeiro passo para testemunhar uma fé vivida: «é preciso também desenvolver o prazer espiritual de estar próximo da vida das pessoas, até chegar a descobrir que isto se torna fonte duma alegria superior […]. Não como uma obrigação, nem como um peso que nos desgasta, mas como uma opção pessoal que nos enche de alegria e nos dá uma identidade» (EG 268-269).

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo segundo de Páscoa (Ano B), no Laboratório da fé, 2015
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 10.4.15 | Sem comentários

Viver a fé! [26]


Os «aspetos bíblicos» ocupam o primeiro ponto do sétimo capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja dedicado ao tema intitulado «vida económica». Este primeiro ponto (números 323 a 329) subdivide-se em duas alíneas: «o homem, a pobreza e a riqueza»; «as riquezas existem para serem partilhadas».

O homem, a pobreza e a riqueza

«No Antigo Testamento percebe-se uma dupla postura em relação aos bens económicos e à riqueza. Por um lado, apreço em relação à disponibilidade dos bens materiais considerados necessários para a vida [...]. Por outro lado, os bens económicos e a riqueza não são condenados por si mesmos, mas pelo seu mau uso» (323), Entretanto, nomeadamente nos textos proféticos, a pobreza (oprimidos, fracos, indigentes), mesmo sendo um mal, é apresentada como um símbolo da situação humana diante de Deus. Por conseguinte, «aquele que reconhece a própria pobreza diante de Deus, qualquer que seja a situação que esteja a viver, é objeto de particular atenção da parte de Deus: quando o pobre O procura, o Senhor responde; quando grita, Ele escuta-o. Aos pobres se dirigem as promessas divinas: eles serão os herdeiros da aliança entre Deus e o seu povo. [...] A pobreza, quando é aceite ou procurada com espírito religioso, predispõe ao reconhecimento e à aceitação da ordem criacional; o ‘rico’, nesta perspetiva, é aquele que repõe a sua confiança mais nas coisas que possui do que em Deus, o homem que se faz forte pela obra das suas mãos e que confia somente nessa força. A pobreza assume valor moral quando se manifesta como humilde disponibilidade e abertura em relação a Deus, confiança n’Ele. Estas atitudes tornam o ser humano capaz de reconhecer a relatividade dos bens económicos, tratando-os como dons divinos para administrar e partilhar, porque a propriedade originária de todos os bens pertence a Deus» (324). «Jesus assume toda a tradição do Antigo Testamento também sobre os bens económicos, sobre a riqueza e sobre a pobreza, conferindo-lhe definitivas clareza e plenitude [...]. O Reino inaugurado por Cristo aperfeiçoa a bondade originária da criação e da atividade humana, comprometida pelo pecado. Libertado do mal e reintroduzido na comunhão com Deus, cada ser humano pode continuar a obra de Jesus, com a ajuda do seu Espírito: fazer justiça aos pobres, resgatar os oprimidos, consolar os aflitos, buscar ativamente uma nova ordem social, em que se ofereçam adequadas soluções à pobreza material e venham impedidas mais eficazmente as forças que dificultam as tentativas dos mais fracos de se libertarem de uma condição de miséria e escravidão. Quando isto acontece, o Reino de Deus faz-se já presente sobre esta Terra, embora não lhe pertença. Nisto encontrarão cumprimento, finalmente, as promessas dos profetas» (325). Em resumo, «a atividade económica deve ser considerada e desenvolvida como resposta reconhecida à vocação que Deus reserva a cada ser humano. [...] A atividade económica e o progresso material devem ser colocados ao serviço» (326) dos outros. «A fé em Jesus Cristo consente uma correta compreensão do progresso social, no contexto de um humanismo integral e solidário» (327).

As riqueza existem para serem partilhadas

«Os bens, ainda que legitimamente possuídos, mantêm sempre um destino universal: é imoral toda a forma de acumulação indébita, porque se encontra em aberto contraste com o destino universal consignado por Deus Criador a todos os bens. A salvação cristã é, efetivamente, uma libertação integral do ser humano, libertação da necessidade, mas também em relação às próprias posses: ‘a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro’» (328). «As riquezas realizam a sua função de serviço ao homem quando destinadas a produzir benefícios para os outros e a sociedade. [...] Elas são um bem que vem de Deus: quem o possuir, deve usá-lo e fazê-lo circular, de sorte que também os necessitados possam fruir; o mal está no apego desmedido às riquezas, no desejo de açambarcá-las. São Basílio Magno convida os ricos a abrirem as portas dos seus armazéns [...]. A riqueza, explica São Basílio, é como a água que flui mais pura da fonte na medida em que dela se haure com mais frequência, mas que apodrece se a fonte permanece inutilizada. O rico, dirá mais tarde São Gregório Magno, não é mais que um administrador daquilo que possui; dar o necessário a quem necessita é obra a ser cumprida com humildade, porque os bens não pertencem a quem os distribui. Quem tem as riquezas somente para si não é inocente; dar a quem tem necessidade significa pagar uma dívida» (329).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 9.4.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO PRIMEIRO DE PÁSCOA


Eis a aurora de um novo dia: a pedra retirada, o sepulcro vazio, as ligaduras no chão, o sudário enrolado à parte (evangelho). A fé nascente das primeiras testemunhas desafia a proclamar: Deus ressuscitou Jesus Cristo (primeira leitura)! Homens e mulheres que se sentem investidos na missão de anunciar e proclamar a vitória da Páscoa. «Exultemos e cantemos de alegria» (salmo)! Todos os que depositam a sua confiança em Deus já estão ressuscitados, vivos em Jesus Cristo (segunda leitura). Um dia, hão de partilhar plenamente a vitória, porque a ressurreição do Filho abre, para a humanidade, a porta da salvação. A Páscoa é meta e ponto de partida: Jesus Cristo ressuscitou; abre-nos as portas da ressurreição!

«Quem acredita n’Ele recebe a remissão dos pecados»
A Páscoa é o centro do ano cristão. Até ao Pentecostes, vão ser lidos, na primeira leitura de cada domingo, textos retirados do livro dos Atos dos Apóstolos. Neles, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo são apresentadas como ações da graça de Deus, através dos quais os homens e as mulheres são salvos e reconciliados com Deus e uns com os outros.
O fragmento proclamado na primeira leitura do primeiro domingo de Páscoa pertence ao sermão de Pedro dirigido ao centurião romano Cornélio. O facto do destinatário ser um romano não é marginal, considerando o interesse do livro dos Atos em acentuar a universalidade do Evangelho.
O autor coloca na boca de Pedro um discurso que recolhe o «primeiro anúncio» («kerygma») da Igreja. Um anúncio conciso e completo; dito de forma telegráfica: Jesus, galileu de Nazaré, contemporâneo de João Batista, o Ungido de Deus, passou fazendo o bem; mataram-no, mas Deus ressuscitou-O; nós somos testemunhas; Ele enviou-nos a pregar; Deus nomeou-o juiz; os que acreditam recebem o perdão. Conteúdo histórico, teológico, salvífico.
Ora, este é o anúncio da Igreja ao longo dos tempos: Jesus Cristo, morto e ressuscitado, oferece-nos o perdão e a salvação: «Quem acredita n’Ele recebe pelo seu nome a remissão dos pecados». A missão da Igreja é dar testemunho. A experiência pascal e o anúncio são inseparáveis. Não é um assunto de ideólogos, mas de testemunhas!

A Páscoa não é uma recordação sentimental. É uma realidade que afeta toda a humanidade. A manhã de Páscoa renova-se, em cada ano, em cada domingo, na comunidade, em cada pessoa. «Convido todo o cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar. Não há motivo para alguém poder pensar que este convite não lhe diz respeito, já que ‘da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído’. […] Ele permite-nos levantar a cabeça e recomeçar, com uma ternura que nunca nos defrauda e sempre nos pode restituir a alegria. Não fujamos da ressurreição de Jesus; nunca nos demos por mortos, suceda o que suceder. Que nada possa mais do que a sua vida que nos impele para diante!» (EG 3).

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo primeiro de Páscoa (Ano B), no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.4.15 | Sem comentários

TOMÉ TOCOU EM JESUS?


O tempo de Páscoa é um tempo em que somos recriados pelo Espírito Santo que, pelo Batismo, nos identifica com Jesus Cristo. E nos fortalece com o poder da Ressurreição para podermos prolongar a incarnação do seu amor no hoje que nos é dado viver. Voltamos a olhar o mundo pela primeira vez, escutamos a melodia do presente, abrimos o ouvido do coração à realidade pascal que nos convida a viver como autênticos filhos de Deus. Trata-se de não nos deixarmos vencer pelo medo, mas de viver na confiança dos que se sabem amados e salvos (mesmo sem termos visto). A Páscoa surge como um tempo de novidade e de graça, para nós e para toda a humanidade. Já não há lugar para o velho, para as cópias sem autenticidade, para o passageiro e superficial; agora, tudo é novo, autêntico, permanente e profundo... tudo é Vida! Audácia, valentia, novidade, criatividade, compromisso, compaixão, misericórdia — são os caminhos a calcorrear, a «tocar», para dar testemunho do Ressuscitado, do Vivente.

Páscoa: Tomé tocou em Jesus?

A «mística do instante» convida-nos, nesta Páscoa, a redescobrir o tato. O sentido do tato «permite que existam encontros. [...] A nossa autobiografia é também uma história da pele e do tato, da forma como tocamos ou não, da forma como fomos e não fomos tocados [...]. Existe um tipo de conhecimento que só nos chega através do tato» (José Tolentino Mendonça). Talvez tenha sido esse tipo de conhecimento que Tomé evocou, quando os amigos lhe contaram que tinham visto o Senhor: «se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei» (João 20, 24-29). Oito dias depois, isto é, no domingo, eis o Ressuscitado disposto a dissipar as dúvidas: «’Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado e não sejas incrédulo, mas crente’. Tomé respondeu-Lhe: ‘Meu Senhor e meu Deus!’». Por um lado, parece que vemos, como no quadro de Caravaggio, Jesus Cristo a pegar no braço de Tomé para o fazer tocar nas suas chagas. Mas, por outro lado, a continuação do texto ignora o tato e apenas refere a visão: «porque Me viste acreditaste». Pode ser que as palavras do Ressuscitado recuperem a expressão popular «ver com as mãos» ou podem referir-se aos «olhos da pele», belo título dum ensaio do arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa: «Na verdade a nossa pele é capaz de distinguir diversas cores; nós realmente vemos com a nossa pele. [...] Todos os sentidos, incluindo a visão, são extensões do tato; os sentidos são especializações do tecido cutâneo, e todas as experiências sensoriais são variantes do tato». Voltando ao evangelho: Tomé tocou em Jesus? O mais certo é ter acontecido o inverso: foi o Ressuscitado quem tocou em Tomé, tocou-o com o dom da fé. Por isso, tem razão S. Gregório Magno: «A incredulidade de Tomé é mais útil à fé do que a fé dos discípulos que acreditam»!
Há ainda um outro aspeto que podemos aprofundar: «A alegria de Tomé, a sua ‘segunda conversão’, foi causada por algo que, certamente, o terá afetado mais do que aos outros apóstolos: a identificação do Crucificado com o Ressuscitado. Para ela apontam as chagas de Jesus. [...] A luz das feridas transformadas de Jesus permitiu-lhe, por um instante, avistar Deus através do homem, o futuro através do presente, o invisível através do visível» (Tomáš Halík). O nosso Deus, como o de Tomé, é um «Deus ferido»!


Laboratório da Fé vivida

A fé é uma relação tátil. Mais ainda quando nos referimos à «fé vivida»: uma fé que toca e se deixa tocar. Aliás, a primeira atitude consiste em deixar-se tocar pelo Espírito do Ressuscitado. «O Espírito Santo é aquele que faz estremecer as estruturas, que toca nos lugares mais profundos e nossos. [...] Precisamos desse sopro que verdadeiramente nos agite, nos empurre, nos toque. [...] O Espírito Santo não é determinado por nós: nós é que somos tocados por Ele» (José Tolentino Mendonça). Abre-nos a uma nova gestualidade. Quando as nossas mãos são «tocadas» pelo Espírito Santo, elas abrem-se para acolher o que a vida nos traz sem querer controlar ou dominar, oferecem-se sem se imporem, unem-se a outras mãos para tecer o manto da misericórdia, em obras «corporais» e «espirituais», transformam o monótono e caduco em oportunidades para a criatividade e o amor. Precisamos de mãos como as de Jesus Cristo: dedicadas a servir, a curar, a abençoar, a acariciar; gastas e feridas de tanto tocar. «O Senhor da História, quando voltar, olhará para as nossas mãos» (Mamerto Menapace)!

© Laboratório da fé, 2015


Tomé tocou em Jesus?
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.4.15 | Sem comentários

Reflexão mensal sobre as obras de misericórdia [7]


«É importante ajudar o preso a situar-se na dimensão temporal, pois só assim poderá reconstruir a imagem de si, derrubada pela culpa e deprimida pela pena. [...] O trabalho de assistência e de aproximação dos presos, o ‘visitar os presos’, não pode, certamente, ser separado de um trabalho político e de uma reflexão que, em nome da dignidade do ser humano e dos direitos humanos, tente encontrar formas de pena que não privem da liberdade, mas que prevejam atos de reparação» (Luciano Manicardi).

O preso

«Estive na prisão e fostes ter comigo» (Mateus 25, 36). Estas palavras de Jesus Cristo apresentam o preso como uma pessoa necessitada de cuidados e de relação. Se o doente, o faminto, o sedento ou o nu (cf. Mateus 25, 35-45) podem ser vistos como simples vítimas, como pessoas marcadas por desgraças, o preso traz em si o estigma de uma culpa, de um delito cometido. Jesus Cristo, porém, que se fez companheiro de pecadores e de pessoas desonestas, anunciando a todos a comunhão de Deus e a possibilidade de conversão, não hesita em identificar-se com quem está privado da liberdade, na prisão: «estive na prisão e fostes ter comigo». Ora, quem se dispõe a reconhecer Jesus Cristo naquele que está preso, antes de mais, precisa de trabalhar sobre si próprio, o que implica: a perceção da tragédia da perda da liberdade, por parte da pessoa; a consciência da vergonha que muitas vezes habita aquele que está na prisão; o discernimento das prisões a que nós próprios nos condenamos; o reconhecimento da nossa sede de liberdade e do nosso desejo de resgate das escravidões interiores e dos ídolos; o discernimento da nossa debilidade, que faz de nós homicidas, ladrões, malvados, caluniadores, violentos (cf. Marcos 7, 21-23), no nosso coração, mesmo que não cheguemos a exteriorizar em atos os nossos impulsos interiores; o desenvolvimento da capacidade de compaixão pela nossa fragilidade, que também é a via de acesso para entrar em contacto profundo com quem está na prisão e que sofre pelo remorso ou pelo endurecimento do coração, pela revolta ou pela ausência de um futuro... Trabalho sobre si próprio que tende a dilatar os espaços da caridade do coração, para nunca julgar o pecador, reconhecendo nele, pelo contrário, um irmão com o qual devemos ser solidários.

Visitar os presos

Visitar os presos tem um primeiro e elementar significado: fazer-se presente junto de quem vive na prisão. A população prisional é formada em grande parte por pobres, marginalizados, estrangeiros imigrantes, toxicodependentes: vários destes não têm ninguém, não têm pessoas que os visitem e, portanto, não têm ninguém com quem falar e que os escute, ou seja, para quem sabem que valem alguma coisa. A perda da liberdade, a solidão afetiva e sexual, a ausência de vida social, a perspetiva de ficar muito tempo na prisão, induzem com frequência a atitudes de perda de interesse pela vida, provocando embrutecimento ou tentações suicidas. Oprimido entre o desespero e a revolta, o preso precisa de um rosto que o escute e que lhe fale, que lhe dê a entender, com a sua presença e o seu acolhimento, que ele é maior do que os atos que cometeu e que não é redutível aos mesmos. O contacto epistolar é particularmente útil e importante. Quem visita um preso e estabelece com ele uma relação perdurável no tempo, é confrontado, muitas vezes, com uma pessoa em grave crise «espiritual» — em que o espiritual se refere ao sentido da existência. O diálogo será, portanto, um caminho comum para um sentido possível, caminho que, para o preso, implica com frequência restabelecer a ordem na relação com o tempo, que a culpa cometida pode ter perturbado ou destruído. O importante, certamente, é infundir confiança no preso, ajudando-o a não desesperar e a não se deixar afundar, a não abdicar da própria humanidade. Como é óbvio, uma pastoral solícita para com os presos deverá dirigir-se também aos familiares do mesmo, ajudar e apoiar as suas famílias, informando-as sobre as formas de assistência a que têm direito e garantindo que delas usufruam... As formas de presença cristã nas prisões são múltiplas e criativas.

O conselho

Para apreender o sentido desta obra de misericórdia, há que tomar consciência do caráter ambivalente do termo «conselho». Este termo não é ambivalente apenas porque um conselho pode ser bom ou mau, adequado ou inadequado, certo ou errado, mas também porque pode ser um ato de presunção pensar que se pode e sabe dar um conselho. A Bíblia põe-nos de sobreaviso contra quem distribui conselhos, sugerindo várias interrogações antes de nos deixarmos aconselhar. De quem recebo eu conselhos? E sobre que tema? Com efeito, não é qualquer um que pode aconselhar os outros sobre qualquer tema. Além disso: o que é que move aquele que me aconselha? O seu conselho é desinteressado? Tem em vista o meu bem? O livro do Ben Sirá alerta: «Diante de um conselheiro, põe-te alerta; vê primeiro quais são os seus interesses porque ele pode aconselhar em seu próprio interesse» (37, 8). Põe-nos de sobreaviso contra o risco de deixarmos que nos aconselhem a praticar um ato de desresponsabilização. O conselho não exime da responsabilidade da escolha, que é sempre pessoal e livre. Mendigar conselhos à direita e à esquerda, sem nunca chegar a uma decisão, é sinal de incerteza patológica ou de medo, ou antes, de terror frente à responsabilidade. E do ponto de vista de quem aconselha, é indispensável que os conselhos não se transformem em manipulação, num forçar da vontade do outro a fim de conduzi-lo para onde se pretende, mesmo que se considerasse que esse «para onde se pretende» era o melhor para o outro. Pode dar bons conselhos quem se abstém, de forma consciente, de ter poder sobre aquele a quem se dirige. Aconselhar não será, portanto, adular nem seduzir, e ainda menos manipular ou abusar, mas ocupa o espaço do serviço à liberdade alheia. Analisados os riscos do ato de aconselhar, devemos reconhecer que a humildade é a qualidade sapiêncial necessária tanto a quem dá conselhos como àquele que os pede. Em relação a este — o que pede um conselho —, importa também recordar que há um princípio de incerteza e de insegurança que é salvífico para o ser humano, porquanto está na origem daquela inquietação que lhe permite continuar a interrogar-se, a questionar, ou seja, a ser humano. .

Dar bons conselhos

No atual momento histórico e cultural, caracterizado pela desorientação — perdemos a bússola capaz de guiar o nosso caminho, capaz de orientar —, precisamos de quem saiba abrir caminho, indicar a direção, o leste, o oriente, o lugar onde nasce a luz e o sentido. É aí que, de modo especial, se situa a necessidade de alguém que saiba dar um bom conselho. Hoje, mais do que nunca, precisamos dum bom conselheiro! Não um funcionário do conselho, não um consultor que, numa relação não paritária, ajuda a abordar problemas ou temáticas com competências particulares, mas uma pessoa que saiba sentir empatia, escutar o outro em profundidade, apreender as suas potencialidades e debilidades, podendo assim ajudá-lo a entrever a melhor opção ou, pelo menos, a que lhe é possível. A arte de aconselhar, portanto, está ligada à capacidade de compreender a situação do outro, requerendo, ao mesmo tempo, imaginação e adesão à realidade. O realismo é essencial para indicar caminhos realmente exequíveis para a pessoa que pede conselho; não estabelece ideais altos e sublimes, mas alcançáveis. A imaginação também é importante porque a própria ponderação de uma alternativa, de uma via nova e inédita, mesmo que possa não representar a solução para o problema, dá esperança, muda alguma coisa, abre um futuro em que se poderá chegar a aperfeiçoar aquilo que foi ponderado. Para ser libertadora, a arte de aconselhar também requer liberdade, capacidade de sair dos lugares comuns, de reconhecer que o humano é muito mais extenso e vasto do que pretendem os pensamentos prefabricados, as morais rígidas e as ideologias. A arte de aconselhar requer a capacidade de sentir o sofrimento daquele que duvida e de não o julgar. Por isso, o conselho encontra a sua sensatez no âmbito de uma relação de confiança entre duas pessoas. A «paternidade espiritual» pode ser um lugar importante para aconselhar, tendo presente que não se trata de dizer ao outro aquilo que deve fazer, mas de ajudá-lo a encontrar a resposta que já habita nele e que ele não sabe ou não se atreve a fazer emergir ou, então, sugerir-lhe hipóteses em que ele ainda não tinha pensado. Na relação de «paternidade espiritual», a experiência do ancião funde-se com o entusiasmo do mais jovem que, oportunamente aconselhado, pode ser ajudado a correr expeditamente pela via do crescimento humano e espiritual. E, neste contexto, trata-se de pedir conselhos a propósito de tudo, ou seja, nenhum tema é tabu, nenhum problema é excluído, de tudo se pode e é bom falar na relação de «paternidade espiritual». Encontrar, então, quem saiba indicar uma via, dirigir uma palavra de ajuda, dar um conselho elucidativo, pode revelar-se uma riqueza inestimável para a nossa vida. Assim poder-se-á experimentar a verdade da afirmação proferida pelo autor do livro do Ben Sira: «O saber do sábio derrama-se como água que transborda, e o seu conselho permanece como fonte de vida» (21, 13).

A consciência 
do caráter inseguro do ato cognitivo 
constitui uma oportunidade para chegar 
a um conhecimento pertinente, 
o qual requer exames, verificações 
e convergências dos indícios. 

Edgar Morin

© Laboratório da fé, 2015
Este texto foi elaborado a partir da obra de Luciano Manicardi intitulada «A caridade dá que fazer: Redescobrindo a atualidade das ‘obras de misericórdia’» (páginas 121 a 128 e 195 a 205) publicada em português pelas edições Paulinas





Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.4.15 | Sem comentários
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