CELEBRAR O DOMINGO QUINTO DA QUARESMA


Depois de Noé, de Abraão, de Moisés no Sinai — onde se revela o amor mais forte do que as infidelidades do povo —, tudo culmina, no quinto domingo da Quaresma (Ano B), com a promessa da «aliança nova» anunciada pelo profeta Jeremias (primeira leitura). Uma Aliança que se realiza de forma plena em Jesus Cristo, ele que se fez, para nós, «causa de salvação eterna» (segunda leitura), dando a própria vida. E com as palavras do próprio Jesus Cristo (evangelho) somos conduzidos para o culminar da Quaresma. Palavras que suscitam o desejo de purificação (salmo): abraçamos a atitude humilde de quem se deixa amar e cumular pela alegria de Deus.

«Esta é a aliança […]: grava-la-ei no seu coração»
A primeira leitura é o texto mais maravilhoso sobre a Aliança que se encontra em todo o Antigo Testamento. Faz parte do capítulo 31 do livro de Jeremias, que está inserido no chamado «Livro da Consolação»: uma coleção de promessas dirigidas por Deus aos exilados em desespero.
A nova aliança está na linha da antiga, mas apresenta-se profundamente renovada. Qualquer novidade tem de ter elementos antigos (continuidade) e elementos diferentes ou inéditos (rutura). O texto mostra-nos que a Aliança tinha sido quebrada pelos israelitas, mas Deus decide decretar uma renovação. Ele deseja uma relação que perdure, apesar da irresponsabilidade do povo. A fórmula da Aliança — «Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo» — é também um ato de profunda fidelidade da parte de Deus para com o povo de exilados.
Nesta nova situação, a Lei — os Mandamentos (Aliança no Sinai) — continua a ser o centro, mas será inscrita no coração («grava-la-ei no seu coração»), isto é, será intimamente familiar: os israelitas converter-se-ão em portadores dos Mandamentos, prontos a pô-los em prática.
A comunidade renovada será um povo com pleno conhecimento de Deus. Isto significa uma profunda intimidade com Deus e o reconhecimento da sua autoridade sobre toda a vida. O objetivo já não é um mero cumprimento do estipulado, mas «conhecer» a Deus. Para amar é preciso «conhecer»: Deus conhece-nos e ama-nos; Deus quer que o conheçamos e o amemos. Isto significa abrir a própria vida aos apelos de Deus e aceitá-los como critérios orientadores da nossa vida.
A concluir, fica claro e reforçado que o facto culminante da Aliança (nova ou renovada) é a iniciativa divina, pois não acontece por um arrependimento ou conversão por parte do povo, mas pela ação unilateral de Deus: «Vou perdoar os seus pecados e não mais recordarei as suas faltas». Deus é misericordioso! Dispõe-se a renovar uma e outra vez a Aliança, gravando-a no coração do ser humano.

Estamos perante um texto fundamental para compreender o cristianismo como plenitude da Aliança. A Igreja leu, neste anúncio de Jeremias, o anúncio da «Nova e Eterna Aliança» cumprida em Jesus Cristo. Sim, Jesus Cristo leva ao seu termo a condição de novidade, de interioridade, de conhecimento de Deus. Jesus Cristo faz duma religião de normas uma religião de vida interior.

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo quinto da Quaresma (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.3.15 | Sem comentários

Viver a fé! [24]


Os «direitos dos trabalhadores» (números 301 a 304) e a «solidariedade entre trabalhadores» (números 305 a 309), tópicos apresentados neste tema, correspondem aos pontos cinco e seis do sexto capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja dedicado ao trabalho. A Igreja proclama a dignidade e os direitos dos trabalhadores, a remuneração equitativa e a distribuição dos rendimentos e o direito à greve (alíneas do ponto cinco). Além disso, reconhece a importância da associação entre os trabalhadores, a constituição dos sindicatos e também a necessidade de surgirem novas formas de solidariedade entre os trabalhadores (alíneas do ponto seis).

Dignidade dos trabalhadores e respeito pelos seus direitos

A natureza humana e a sua dignidade estão na base de todos os direitos humanos (cf. temas 8 a 11), entre os quais se encontram os direitos dos trabalhadores. A este propósito, «o magistério social da Igreja houve por bem enumerar alguns deles, auspiciando o seu reconhecimento nos ordenamentos jurídicos: o direito a uma justa remuneração; o direito ao repouso; o direito ‘a dispor de ambientes de trabalho e de processos de laboração que não causem dano à saúde física dos trabalhadores, nem prejudiquem a sua integridade moral’; o direito a ver salvaguardada a própria personalidade no lugar de trabalho, ‘sem serem violadas seja de que modo for a consciência ou a dignidade’; o direito a convenientes subvenções indispensáveis para a subsistência dos trabalhadores desempregados e das suas famílias; o direito à pensão de aposentação ou reforma, ao seguro para a velhice bem como para a doença e ao seguro em caso de acidentes de trabalho; o direito a disposições sociais referentes à maternidade; o direito de reunir-se e de associar-se» (301).

O direito à remuneração equitativa 

e à distribuição dos rendimentos

«A remuneração é o instrumento mais importante para realizar a justiça nas relações de trabalho. [...] O simples acordo entre empregado e empregador acerca do montante da remuneração não basta para qualificar como ‘justa’ a remuneração concordada, porque ela ‘não deve ser insuficiente para a subsistência’ do trabalhador» (302). Importa ter presente que «um bem-estar económico autêntico persegue-se também através de adequadas políticas sociais de redistribuição do rendimento que, tendo em conta as condições gerais, considerem oportunamente os méritos e as necessidades de cada cidadão» (303).

O direito à greve

«A doutrina social reconhece a legitimidade da greve ‘quando se apresenta como recurso inevitável, senão mesmo necessário, em vista dum benefício proporcionado’, depois de se terem revelado ineficazes todos os outros recursos para a resolução dos conflitos» (304).

A importância dos sindicatos

«O magistério reconhece o papel fundamental cumprido pelos sindicatos dos trabalhadores, cuja razão de ser consiste no direito dos trabalhadores a formar associações ou uniões para defender os interesses vitais dos homens empregados nas várias profissões» (305). Neste contexto, «a doutrina social ensina que as relações no interior do mundo do trabalho devem ser caracterizadas pela colaboração: o ódio e a luta para eliminar o outro constituem métodos de todo inaceitáveis» (306). Por isso, «ao sindicato, além das funções defensivas e reivindicativas, competem tanto uma representação com o fim de ‘colaborar na boa organização da vida económica’, quanto a educação da consciência social dos trabalhadores» (307).

Novas formas de solidariedade

«O contexto sócio-económico hodierno, caracterizado por processos de globalização económico-financeira cada vez mais rápidos, concita os sindicatos a renovarem-se. Atualmente os sindicatos são chamados a atuar de novas formas, ampliando o raio da própria ação de solidariedade [...]. A solidariedade poderá ser recuperada e quiçá melhor fundada em relação ao passado se houver um empenho para uma redescoberta do valor subjetivo do trabalho [...]. Para tanto, ‘é preciso que haja sempre novos movimentos de solidariedade dos trabalhadores e com os trabalhadores’» (308). Assim, «procurando ‘novas formas de solidariedade’, as associações dos trabalhadores devem orientar-se em direção a uma assunção de maiores responsabilidades, não apenas em relação aos tradicionais mecanismos de redistribuição, mas também em relação à produção da riqueza e à criação de condições sociais, políticas e culturais que consintam a todos os que podem e desejam trabalhar exercer o seu direito ao trabalho, no pleno respeito pela sua dignidade de trabalhadores» (309).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.3.15 | Sem comentários

VIVER O DOMINGO QUARTO DA QUARESMA


A morte de Jesus na cruz não é um fracasso. A sua morte traz vida. Mais ainda: vida sem fim, vida eterna. A vida, a pregação, mas, sobretudo, a morte de Jesus Cristo é o ato supremo de amor de Deus. Deus Pai não quer que se perca nem sequer um de nós. Ama-nos de forma individual, personalizada, não de maneira coletiva. Cada ser humano é objeto pessoal do amor de Deus. O período da Quaresma prepara-nos para apreciar em toda a sua intensidade o ato sublime do amor de doação de Jesus.
A escuridão da morte, em Jesus, converte-se em luz. Ele é «a luz que veio ao mundo». Mas há o perigo de preferirmos «as trevas à luz». A causa de Jesus vale a pena: é luz. O mundo está cheio de escuridão, de injustiças, de atentados à dignidade da pessoa, de mal. Mas outro mundo é possível. A cruz, a morte e a ressurreição de Jesus anunciam-no, inauguram-no. O imenso amor de Deus, feito carne em Jesus, mostra-nos o único caminho possível: o do amor. Um amor que nos impulsiona a lutar para que seja respeitada a dignidade de cada pessoa, a reconhecer no outro um irmão ou uma irmã, a fazer nossos os sofrimentos e as necessidades de cada pessoa. É mais fácil, é verdade, uma vida soporífera, na qual só conta o meu ego, eu e o meu ambiente mais próximo, o sentir-me bem, o não complicar-me a vida. Mas essa não foi a opção de Jesus; não é luz; não é vida inesgotável.

© Javier Velasco-Arias
© La Biblia compartida — blogue de Javier Velasco-Arias y Quique Fernández
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2015
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor


Viver o domingo quarto da Quaresma (Ano B), no Laboratório da fé, 2015



La biblia compartida — www.laboratoriodafe.net


Javier Velasco-Arias, nasceu no ano de 1956, em Medina del Campo (Espanha); atualmente, vive em Barcelona (desde os onze anos de idade). É biblista, professor de Sagrada Escritura no «Instituto Superior de Ciências Religiosas de Barcelona» e no «Centro de Estudos Pastorais» das dioceses da Catalunha. É responsável e membro de várias associações bíblicas, em Espanha. Na área bíblica, é autor de diversas publicações, além de artigos de temas bíblicos em revistas especializadas e na internet.
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.3.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO QUARTO DA QUARESMA


Misericórdia: palavra-chave da Quaresma e outro nome de Deus para exprimir o seu amor. Na caminhada para a Páscoa, a Liturgia da Palavra revela-nos que Deus «é rico em misericórdia» (segunda leitura). Já na antiga Aliança, era com misericórdia que Deus respondia às infidelidades do povo (primeira leitura). Na Nova Aliança, vai até à entrega do seu Filho para nos salvar e nos oferecer a vida eterna (evangelho). Deus não julga, não condena; é o ser humano que se condena (salmo), quando volta as costas à luz… Para se ser salvo, para se obter a vida, é preciso escolher Jesus Cristo e seguir os seus passos.

«Queria poupar o seu povo»
Desde Moisés até Jesus Cristo, a Lei da Aliança, no Sinai, regeu a vida do povo bíblico. Embora, nesses treze séculos, houvesse homens e mulheres que se mantinham fiéis a Deus, há (pelo menos) um momento histórico em que já não havia nada a fazer. Deus tudo fez para o evitar: «queria poupar o seu povo». Mas o autor dos últimos versículos do Segundo Livro das Crónicas, texto proposto para primeira leitura do quarto domingo da Quaresma (Ano B), constata, com tristeza, que tanto as autoridades religiosas como o povo «escarneciam dos mensageiros de Deus, desprezavam as suas palavras e riam-se dos profetas, a tal ponto que deixou de haver remédio». A consequência foi nefasta: a destruição do Templo e de Jerusalém.
Os caldeus — uma dinastia que tinha tomado o poder na Babilónia e feito da Assíria um grande império do Médio Oriente — apoderaram-se de Jerusalém, destruíram o Templo e deportaram a aristocracia judaica para a Babilónia. A destruição de Jerusalém e a deportação são interpretadas como um castigo divino. Mas Deus é (sempre) misericordioso!
Quando tudo parecia perdido, acontece uma alteração histórica fundamental: a tomada de Babilónia pelos persas. Então, o rei Ciro da Pérsia — um pagão a quem Isaías apelida de «ungido» (Isaías 45, 1) —, em nome do «Senhor, Deus do Céu», dá a conhecer a sua missão: construir um Templo em Jerusalém e oferecer, aos judeus deportados, a possibilidade de regressarem à Cidade.

Deus é o único dono da história e serve-se dos meios mais insólitos para manifestar a sua presença salvadora. Sim, Deus é sempre surpreendente! A Escritura mostra que a História da Salvação não «fecha» portas, mas abre sempre novas oportunidades, novos caminhos. Por isso, Jesus Cristo diz que «Deus amou[a] tanto o mundo que entregou o seu Filho». E Paulo confirma: «Deus, que é rico em misericórdia, pela grande caridade com que nos amou, a nós, que estávamos mortos por causa dos nossos pecados, restituiu-nos à vida com Cristo». O cardeal Walter Kasper apresenta a misericórdia como o (único) atributo de Deus que «constitui o núcleo da mensagem bíblica» (A Misericórdia — Condição fundamental do Evangelho e chave da vida cristã). E acrescenta que «não se trata de um tema secundário, mas sim de um tema fundamental do Antigo e do Novo Testamento, de um tema fundamental para o século XXI, em resposta aos “sinais dos tempos”».

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo quarto da Quaresma (Ano B), no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.3.15 | Sem comentários

Viver a fé! [23]


O quarto ponto (números 287 a 300) do sexto capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja aborda várias alíneas relacionadas com «o direito ao trabalho»: a necessidade do trabalho; o Estado; a família; a mulher; o trabalho infantil; a imigração; a agricultura.

O trabalho é necessário

«O trabalho é um direito fundamental e é um bem para o ser humano: um bem útil, digno dele porque apto a exprimir e a acrescer a dignidade humana» (287). Por isso, «deve estar disponível para todos aqueles que são capazes de trabalhar. O ‘pleno emprego’ é, portanto, um objetivo obrigatório» (288). Neste sentido, «a consideração das implicações morais que a questão do trabalho comporta na vida social induz a Igreja a qualificar o desemprego como uma ‘verdadeira calamidade social’» (287). «O alto índice de desemprego, a presença de sistemas de instrução obsoletos e de dificuldades duradouras no acesso à formação e ao mercado do trabalho constituem, sobretudo para muitos jovens, um forte obstáculo na estrada da realização humana e profissional. Quem é desempregado ou subempregado, com efeito, sofre as consequências profundamente negativas que tal condição determina na personalidade e corre o risco de ser posto à margem da sociedade, de se tornar uma vítima da exclusão social» (289). A Igreja destaca também a formação profissional: «a manutenção do emprego depende cada vez mais das capacidades profissionais. O sistema de instrução e de educação não deve descurar a formação humana, tão necessária para desempenhar com proveito as tarefas requeridas» (290).

O papel do Estado e da sociedade civil

na promoção do direito ao trabalho

Ao Estado «compete o dever de promover políticas laborais ativas que favoreçam a criação de oportunidades de trabalho» (291). «Face às dimensões planetárias rapidamente assumidas pelas relações económico-financeiras e pelo mercado do trabalho, deve-se promover uma colaboração internacional eficaz entre os Estados, mediante tratados, acordos e planos de ação comuns que salvaguardem o direito ao trabalho também nas fases mais críticas do ciclo económico, em âmbito nacional e internacional» (292). «Para a promoção do direito ao trabalho, é importante, hoje como nos tempos da ‘Rerum Novarum’, que haja um ‘processo livre de auto-organização da sociedade’» (293).

A família e o direito ao trabalho

«O trabalho é ‘o fundamento sobre o qual se edifica a vida familiar, direito fundamental e vocação do ser humano’: ele assegura os meios de subsistência e garante o processo educativo dos filhos. Família e trabalho, assim estreitamente interdependentes na experiência da grande maioria das pessoas, merecem finalmente uma consideração mais adequada à realidade, uma atenção que as compreenda juntas, sem os limites de uma conceção privatista da família e economicista do trabalho» (294).

As mulheres e o direito ao trabalho

«O génio feminino é necessário em todas as expressões da vida social; por isso deve ser garantida a presença das mulheres também no âmbito do trabalho. O primeiro e indispensável passo em tal direção é a concreta possibilidade de acesso a uma formação profissional. [...] Deve levar em conta a dignidade e a vocação da mulher» (295).

Trabalho infantil

«O trabalho infantil, nas suas formas intoleráveis, constitui um tipo de violência menos evidente do que outros, mas nem por isso menos terrível. [...] É sempre essencialmente um problema moral» (296).

A emigração e o trabalho

«A imigração pode ser mais um recurso do que um obstáculo para o desenvolvimento» (297). «As instituições dos países anfitriões devem vigiar cuidadosamente para que não se difunda a tentação de explorar a mão de obra estrangeira, privando-a dos direitos garantidos aos trabalhadores nacionais, que devem ser assegurados a todos sem discriminação. [...] Os imigrantes devem ser acolhidos enquanto pessoas e ajudados, juntamente com as suas famílias, a integrar-se na vida social» (298).

O  mundo agrícola e o direito ao trabalho

«Uma particular atenção merece o trabalho agrícola, pelo papel social, cultural e económico que detém nos sistemas económicos de muitos países, pelos numerosos problemas que deve enfrentar no contexto de uma economia cada vez mais globalizada, pela sua crescente importância na proteção do ambiente natural» (299). «Em alguns países, é indispensável uma redistribuição da terra, no âmbito de políticas de reforma agrária eficazes, a fim de superar o impedimento que o latifúndio improdutivo, condenado pela doutrina social da Igreja, representa para um autêntico desenvolvimento económico» (300).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.3.15 | Sem comentários

VIVER O DOMINGO TERCEIRO DA QUARESMA


Jesus revela-se contra um mundo no qual o económico é o prioritário; o dinheiro importa mais do que as pessoas. E isto acontecia até no Templo de Jerusalém. O Templo era o lugar da «presença de Deus» e os vendedores e cambistas, os especuladores monetários, tinham convertido a «casa de meu Pai [em] casa de comércio» — dirá Jesus. A reação de Jesus é visceral. Não pode admitir que o Templo de Deus se tenha transformado num lugar de negócios e de exclusão.
A narração evangélica, porém, aproveita a cena para explicar uma realidade mais profunda. Jesus é o autêntico Templo de Deus. Na sua humanidade torna-se efetiva, de uma forma única, a presença de Deus. Deus faz-se presente no ser humano.
A ressurreição de Jesus será o sinal definitivo desta realidade. Jesus inaugurou uma nova forma de entender o sagrado, o santo. Cada homem e cada mulher são o lugar onde se manifesta a santidade de Deus, a sua presença única.
O prioritário, nos seus seguidores, naqueles que percebem esta nova realidade, não pode ser o dinheiro, o poder ou o prestígio social. Não podemos admitir a exclusão de nenhum ser humano por nenhuma causa. A vida, a pregação de Jesus, a sua morte e a sua ressurreição, iniciam um novo futuro, onde o nuclear é o ser humano, feito à imagem e semelhança de Deus.

© Javier Velasco-Arias
© La Biblia compartida — blogue de Javier Velasco-Arias y Quique Fernández
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2015
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor


Viver o domingo terceiro da Quaresma (Ano B), no Laboratório da fé, 2015



La biblia compartida — www.laboratoriodafe.net


Javier Velasco-Arias, nasceu no ano de 1956, em Medina del Campo (Espanha); atualmente, vive em Barcelona (desde os onze anos de idade). É biblista, professor de Sagrada Escritura no «Instituto Superior de Ciências Religiosas de Barcelona» e no «Centro de Estudos Pastorais» das dioceses da Catalunha. É responsável e membro de várias associações bíblicas, em Espanha. Na área bíblica, é autor de diversas publicações, além de artigos de temas bíblicos em revistas especializadas e na internet.
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.3.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO TERCEIRO DA QUARESMA


À medida que a Quaresma avança, progredimos no caminho da Aliança: depois de Noé (primeiro domingo) e Abraão (segundo domingo), eis a Aliança do Sinai (terceiro domingo), onde Deus comunica ao seu povo as palavras de vida — os Dez Mandamentos («Decálogo») —, as orientações para o caminho (primeira leitura). Sim, a Lei de Deus é fonte de vida (salmo).
Esta é também uma nova etapa no tempo quaresmal, em que se propõe textos do evangelho segundo João, com o objetivo de nos preparar para a Páscoa de Jesus Cristo: começa com o relato da purificação do Templo. Entretanto, para nós, há uma questão que se mantém: qual é o fundamento da nossa fé? (segunda leitura).

«Eu sou o Senhor teu Deus»
O texto do livro do Êxodo, proposto para primeira leitura do terceiro domingo da Quaresma (Ano B), situa-se num momento decisivo: Israel chega ao monte Sinai. Depois deste acontecimento, Deus não voltará a falar diretamente ao povo; toda a comunicação posterior será através de Moisés.
Antes de mais, Deus recorda o seu nome: «Eu sou o Senhor teu Deus». A identidade divina está profundamente relacionada com o momento libertador e salvador do Êxodo.
O que está em causa é a forma como Israel se há de relacionar com Deus: a insistência está no facto de Deus ser um «Tu», uma pessoa que merece ser honrada, levada a serio, à qual é preciso corresponder.
Além disso, a vida é um acontecimento interpessoal; os Mandamentos são a garantia dessa dinâmica interpessoal (com Deus e com os outros).
O descanso prescrito é um dom do Deus libertador aos antigos escravos, que rompe o jugo de um ciclo de trabalho indigno, no qual não havia possibilidade para gozar o dom da vida.
O texto parece dar a entender que existem outros «deuses», que competem com o Deus do Êxodo. Mas Deus insiste numa lealdade exclusiva, total, sem nenhuma espécie de compromisso à margem dos seus propósitos. É também um Deus que não pode ser capturado por qualquer espécie de imagem e cujo nome não pode ser invocado para qualquer outro fim.
Os Mandamentos não são uma mera lista de normas, mas uma estratégia usada por Deus para anunciar a Aliança com Israel.

A fé apresenta-se «como um caminho, uma estrada a percorrer, aberta pelo encontro com o Deus vivo; por isso, à luz da fé, da entrega total ao Deus que salva, o Decálogo adquire a sua verdade mais profunda, contida nas palavras que introduzem os Dez Mandamentos: ‘Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fiz sair da terra do Egito’. O Decálogo não é um conjunto de preceitos negativos, mas de indicações concretas para sair do deserto do ‘eu’ autorreferencial, fechado em si mesmo, e entrar em diálogo com Deus, deixando-se abraçar pela sua misericórdia a fim de a irradiar. […] O Decálogo aparece como o caminho da gratidão, da resposta de amor, que é possível porque, na fé, nos abrimos à experiência do amor de Deus que nos transforma. E este caminho recebe uma luz nova de tudo aquilo que Jesus ensina no Sermão da Montanha» (Francisco, Carta Encíclica sobre a fé — «Lumen Fidei», 46).

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo terceiro da Quaresma (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.3.15 | Sem comentários

Viver a fé! [22]


Este tema (números 267 a 286) resume os pontos dois («O valor profético da ‘Rerum Novarum’») e três («A dignidade do trabalho») do sexto capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja dedicado à temática do trabalho.

O valor profético da «Rerum Novarum»

O papa Leão XIII, face aos desafios da Revolução Industrial, publicou a Encíclica sobre a condição dos operários — «Rerum Novarum» (cf. tema 1), «afirmando princípios de valor universal [...] em favor do homem que trabalha e dos seus direitos» (267): «a importância do direito à propriedade, do princípio da colaboração entre as classes, dos direitos dos fracos e dos pobres, das obrigações dos trabalhadores e dos empregadores, do direito de associação» (268). Entretanto, o papa João Paulo II, na Encíclica que assinalou o 90.º aniversário da «Rerum Novarum» — «Laborem Exercens» (bit.ly/LaboremExercens) —, «enriquece a visão personalista do trabalho característica dos documentos sociais precedentes, indicando a necessidade de um aprofundamento dos significados e das tarefas que o trabalho comporta [...]. O trabalho, com efeito, ‘chave essencial’ de toda a questão social, condiciona o desenvolvimento não só económico, mas também cultural e moral, das pessoas, da família, da sociedade e de todo o género humano» (269).

A dimensão subjetiva e objetiva do trabalho

«O trabalho humano tem uma dúplice dimensão: objetiva e subjetiva. Em sentido objetivo, é o conjunto de atividades, recursos, instrumentos e técnicas de que o homem se serve para produzir, para dominar a terra, segundo as palavras do Livro do Génesis. O trabalho em sentido subjetivo é o agir do homem enquanto ser dinâmico, capaz de levar a cabo várias ações que pertencem ao processo do trabalho e que correspondem à sua vocação pessoal» (270). De facto, «o trabalho não somente procede da pessoa, mas é também essencialmente ordenado e finalizado para ela. [...] A finalidade do trabalho, de qualquer trabalho, continua a ser sempre o ser humano» (272). Por isso, «a subjetividade confere ao trabalho a sua peculiar dignidade, o que impede de considerá-lo uma simples mercadoria ou um elemento impessoal da organização produtiva. [...] A dimensão subjetiva do trabalho deve ter preeminência sobre a objetiva, porque é aquela do homem mesmo que realiza o trabalho, determinando-lhe a qualidade e o valor mais alto» (271). «O trabalho humano possui também uma intrínseca dimensão social [...]: ‘trabalhar é trabalhar com os outros e trabalhar para os outros’» (273). «O trabalho é também ‘uma obrigação, ou seja, um dever do homem’» (274). «O trabalho confirma a profunda identidade do homem criado à imagem e semelhança de Deus» (275).

As relações entre trabalho e capital

«A relação entre trabalho e capital não raro apresenta traços de uma conflituosidade que assume novas características com a mudança dos contextos sociais e económicos» (279). «A doutrina social tem enfrentado as relações entre trabalho e capital, salientando seja a prioridade do primeiro sobre o segundo, seja a sua complementaridade» (277). Na verdade, «o trabalho, pelo seu caráter subjetivo ou pessoal, é superior a todo e qualquer outro fator de produção: este princípio vale, em particular, no que se refere ao capital» (276). Não se pode esquecer que «‘o principal recurso’ e o ‘fator decisivo’ nas mãos do homem é o próprio homem, e que ‘o desenvolvimento integral da pessoa humana no trabalho não contradiz, antes favorece a maior produtividade e eficácia do trabalho’» (278). A finalizar esta alínea a Igreja alerta para aspetos que provocam «alienação no trabalho e do trabalho» (280): ausência de trabalho, trabalho clandestino, infantil, sub-remunerado, explorado, supertrabalho, trabalho-carreira, excessiva flexibilidade, entre outros.

O trabalho, título de participação

«A relação entre trabalho e capital expressa-se também através da participação dos trabalhadores na propriedade, na gestão e nos seus frutos» (281).

Relação entre trabalho e propriedade privada

«O direito à propriedade privada subordina-se ao princípio do destino universal dos bens e não deve constituir motivo de impedimento ao trabalho» (282), mas promover «uma economia ao serviço do homem» (283).

O repouso festivo

«O repouso festivo é um direito» (284). «O domingo é um dia a ser santificado com uma caridade operosa, reservando atenções à família e aos parentes, como aos doentes, aos enfermos, aos idosos» (285). Portanto, todos — autoridades públicas, Igreja, empregadores e empregados — «têm o dever de vigiar para que não se subtraia [...] o tempo destinado ao repouso e ao culto divino» (286).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.3.15 | Sem comentários
Rezar na Quaresma - Ano B, 2015, Edições Salesianas

Será possível apagar os pecados?
Hoje dizemos que sim,
com facilidade.
Tudo tem conserto,
tudo é reversível.
Sem custo,
sem dor.
Mas será mesmo possível
reconciliar-nos com quem agredimos?
Confiar de novo em quem nos traiu?

Ajuda-me a acreditar, Deus de misericórdia,
que é possível começar de novo.
Que o teu amor em mim é maior que o mal.
Que tu podes curar o coração ferido
e reparar as relações desfeitas.

«Rezar na Quaresma - Ano B»
© 2015 Rui Alberto
© 2015 Edições Salesianas

Este texto faz parte do livro «Rezar na Quaresma - Ano B» das Edições Salesianas
qualquer forma de reprodução ou distribuição deste texto precisa de autorização.

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.3.15 | Sem comentários
Rezar na Quaresma - Ano B, 2015, Edições Salesianas

Na Bíblia,
«misericórdia» é a verdade que há no coração de Deus.
É a bondade de Deus em favor do pobre, do frágil, do que sofre.
É afeto que vem do mais interior,
do mais profundo que há em Deus.
Leis justas e equilibradas,
governantes honestos,
bom senso,
reciprocidade...
são coisas boas.
Mas Deus vai muito para além disso.
E convida todos a ir muito para além.

Quero sair da minha rotina, Senhor.
Quero sentir dentro de mim 
as alegrias e as dores de todos os homens meus irmãos.
Quero compadecer-me
de todos os sofrimentos do mundo
como Tu, Pai de misericórdia.
Quero sentir-me teu filho amado
em todas as circunstâncias.
E quero sentir-me irmão 
de todos os desamados desta terra.

«Rezar na Quaresma - Ano B»
© 2015 Rui Alberto
© 2015 Edições Salesianas

Este texto faz parte do livro «Rezar na Quaresma - Ano B» das Edições Salesianas
qualquer forma de reprodução ou distribuição deste texto precisa de autorização.

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.3.15 | Sem comentários
Rezar na Quaresma - Ano B, 2015, Edições Salesianas

Pedro estava de boca aberta.
Jesus manifestou-Se plenamente,
na comunhão com o Pai e o Espírito.
Pedro percebeu quem Jesus era,
para lá das aparências
e da sua pouca fé.
E fica de queixo caído.
E diz a única coisa que tem no coração:
é bom estar aqui contigo!

Tu chamas-me da montanha,
onde o teu céu toca a nossa terra,
onde a minha pouca fé
se encontra com a tua luz,
onde tudo perde importância,
diante do prazer de estar
na tua companhia.
Abre os meus olhos
para que eu veja a verdade de Jesus.
Abre os meus ouvidos
para que eu ouça a voz do Pai.

«Rezar na Quaresma - Ano B»
© 2015 Rui Alberto
© 2015 Edições Salesianas

Este texto faz parte do livro «Rezar na Quaresma - Ano B» das Edições Salesianas
qualquer forma de reprodução ou distribuição deste texto precisa de autorização.

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.3.15 | Sem comentários

Reflexão mensal sobre as obras de misericórdia [6]


«Dar de beber, nem que seja um copo de água fresca, aos ‘pequeninos’ é gesto que não será esquecido pelo Senhor Jesus Cristo (cf. Mateus 10, 42; Marcos 9, 41). Pelo contrário, cada ser humano que se encontra na penosa situação de ter sede torna-se sacramento da presença de Jesus Cristo e interpela a responsabilidade de quem tem a possibilidade de dessedentá-lo (cf. Mateus 25)» (Luciano Manicardi).

A sede na Bíblia

Na região do Médio Oriente, que constitui o cenário bíblico em que se desenrolam as experiências do povo de Israel, a água é um recurso particularmente precioso, porque a paisagem é árida ou semiárida, com precipitações de chuva marginais e sazonais, e muitas páginas bíblicas, bem como vários episódios da história de Israel, são atravessados pelo terror da seca e das suas consequências devastadoras. Aliás, a seca e a sede contam-se entre as maldições que atingirão Israel se este não obedecer à voz de Deus. Experiência dolo­rosa para o povo durante o caminho do êxodo do Egito foi a sede, o não encontrar oásis para se dessedentar ou encontrar «águas amargas» impróprias para beber. A falta de água ou a água impotável são problemas dramáticos, que ocorrem repetidas vezes na experiência bíblica. Frente ao dever sagrado de dar de beber devia parecer terrível a acusação de Elifaz, que procurava explicar a Job o estado lastimável a que este estava reduzido pelas culpas que cometera: «Não deste de beber ao sedento» (Job 22, 7). Por outro lado, são constantes as exortações a dar de beber a quem tenha sede e os testemunhos de tal prática: «Levai a água àqueles que têm sede» (Isaías 21,14). E nem sequer aos inimigos se pode recusar água: «Se o teu inimigo tem fome, dá-lhe de comer; se tem sede, dá-lhe de beber» (Provérbios 25, 21). Num episódio relatado apenas no segundo livro das Crónicas (28, 15), sobre a guerra siro-efraimita, é revelado que os prisioneiros foram libertados, trata­dos, fortalecidos e repatriados. O cuidado com que foram tratados parece esboçar desde já a tradição das obras de misericórdia: «revestiram com as vestes tiradas dos despojos aqueles que estavam nus, calçaram-nos, deram-lhes de comer e beber, trataram-lhes as feridas».

Água, fonte da vida

Dar de beber a quem tem sede é um dever absoluto, incluído na lei da hospitalidade; recusar-se a fazê-lo significaria condenar o sedento à morte. A tortura da sede, não dar de beber, conduz a uma morte horrível. Aos primeiros sinais de desidratação (tonturas, pele seca, febre, sentido de desorientação) vêm somar-se-lhes o inchaço da língua, a incapacidade de caminhar e até de se arrastar por falta de forças, as gretas e a descarnação da pele, a subida cada vez maior da temperatura corporal, até que os rins e o fígado deixam de funcionar, perde-se a capacidade de controlar o ritmo da respiração e o batimento do coração, sobrevém o coma e depois a morte. A água, fonte da vida, é um recurso renovável, mas limitado, e a crise hídrica mundial corre o risco de assumir proporções de catástrofe global, embora, de momento, «seja a emergência mais ignorada e mais subestimada dos nossos dias». Entre os fatores que estão na base de tal crise contam-se mutações climáticas, sobre as quais incide profundamente a responsabilidade humana (aumento do aquecimento global, desertificação), crescimento da população e dos estabelecimentos urbanos, intervenções impensadas do homem sobre o território: inquinamento (descargas civis, industriais, de adubos e pesticidas), desflorestação, construção de grandes barragens que alteram a morfologia da paisagem, o curso dos rios e os equilíbrios da vida aquática e terrestre, tendo ainda dolorosas consequências sociais e políticas (êxodos humanos, submersão de bens naturais e culturais, discórdias, conflitos). É necessário reconhecer que a água é um direito e não uma mercadoria, e que a disponibilidade de água e o acesso à água potável constitui um direito essencial. Ou é reconhecida como um direito, ou transformar-se-á cada vez mais num privilégio.

A correção na Bíblia

Jesus de Nazaré, na sua vida marcada pela pregação do Reino de Deus que requer conversão e arrependimento urgentes, e na sua vida de comunhão com um grupo de discípulos, denuncia, com coragem e liberdade, as hipocrisias religiosas, as violências e os abusos dos poderosos, ou a preguiça do coração dos discípulos... Herdeiro da tradição veterotestamentária, que vê o profeta como sentinela que desperta no povo a consciência dos seus pecados em vista da conversão, Jesus assume o encargo de corrigir e admoestar os seus contemporâneos, como parte da missão recebida do Pai. Para Jesus, a correção faz parte da sua obediência à vontade do Pai. Aplicada com palavras por vezes gritadas, para vencer a surdez do coração endurecido, por vezes magoadas, frente à evidência da não-escuta e, outras vezes ainda, sussurradas com melancólica doçura, ou expressa com um simples olhar silencioso, a correção de Jesus, fundada sobre o amor aos humanos e capaz de transmitir o amor do Pai, tem sempre em vista a vida do pecador. As cartas do Novo Testamento mostram que a correção fraterna é inerente ao ministério do apóstolo, mas também que ela diz respeito, na verdade, a cada cristão. Paulo reconhece na capacidade de correção fraterna dos cristãos de Roma um elemento da sua maturidade na fé: «Vós sois capazes de vos corrigirdes uns aos outros» (Romanos 15,14). Os cristãos de Colossos são exortados a corrigir-se mutuamente: «A palavra de Cristo habite em vós com toda a sua riqueza: ensinai-vos e admoestai-vos uns aos outros com toda a sabedoria; cantai a Deus, nos vossos corações, o vosso reconhecimento, com salmos, hinos e cânticos inspirados» (Colossenses 3,16). A correção fraterna recíproca é um dos modos pelos quais a palavra de Jesus Cristo faz, concretamente, morada na comunidade cristã. Aliás, o verdadeiro sujeito de uma correção fraterna, exercida com humanidade e em conformidade com o Evangelho, é o próprio Senhor: «corrige aquele a quem ama» (Hebreus 12, 6; Apocalipse 3, 19). Sim, o amor verdadeiramente espiritual é capaz de corrigir e de admoestar o amado. Com efeito, as pessoas correm o risco de calar o mal por amor ao pecador, tornando-se assim suas cúmplices. Se, por um lado, o ato de instruir os ignorantes se dirige à inteligência das pessoas para iluminá-la, a admoestação dos pecadores dirige-se à vontade débil de quem, embora conhecendo a vontade divina, não soube estar à sua altura. Eis, então, por que o Novo Testamento fala de corrigir os desobedientes e de admoestar os indisciplinados. A correção é fruto do Espírito. Dirige-se ao pecador, não como a um inimigo, mas como a um irmão, e pode assim resultar na recondução ao caminho da vida de um irmão que se estava a extraviar.

Correção fraterna

A correção fraterna deve ser sempre um ato que une misericórdia e verdade, compaixão e parrésia, amor ao irmão e obediência ao Evangelho, autoridade e doçura. Na comunidade cristã a correção do irmão que cai no erro é uma responsabilidade associada ao facto de todos nós sermos membros do mesmo corpo. Na correção fraterna, eu rompo com o individualismo que me dissocia do outro e que me leva a pensar apenas em mim e na minha «perfeição» individual; assumindo o encargo da correção, saio da indiferença em que muitas vezes me refúgio para me proteger do duro encontro com o outro; com ela, mostro que sou responsável pela santidade do irmão e assumo o seu pecado como se fosse meu. Afinal, em que consiste a correção fraterna? O verbo grego muitas vezes utilizando no Novo Testamento indica «colocar a mente» sobre outro para ajudá-lo a descobrir os seus enganos, e a evitá-los: trata-se, portanto, de uma atenção amorosa, de uma vigilância sobre o outro a fim de corrigir os seus eventuais erros. Além disso, a correção é necessária para não alimentar rancor no coração: com efeito, se não se corrige o irmão pecador, chegar-se-á a odiá-lo. A correção não é, portanto, apenas para bem do irmão que recebe a correção, mas também para bem daquele que a aplica. Quem, podendo fazê-lo, não corrige o irmão, peca contra o mesmo. A correção pretende fazer o irmão regressar à relação de aliança: por isso, deve ser reativado o movimento de escuta, estabelecendo um contexto de confiança. A correção, com efeito, deve dar-se não como juízo, mas como serviço de verdade e de amor ao irmão. Embora essencial na vida espiritual e eclesial, a correção fraterna é pouco e mal praticada. Porquê? Porque a verdadeira correção exige um trabalho sobre si, da parte de quem a exerce; um trabalho que o leve a aprender a conviver com o mal do outro e também com o seu próprio mal. Só quem aprendeu a discernir o mal que habita em si poderá assumir o mal do irmão e tratá-lo como médico experiente. Experiente com base na própria vivência de doente que foi curado, de pecador que foi perdoado. Se é difícil aplicar a correção, também não é fácil recebê-la: as pessoas recusam-se a abrir o coração, a admitir os erros, temem a humilhação, iludem-se, pensando que conseguirão corrigir-se a si próprias, sem necessidade de ajuda, esperam que as coisas se resolvam sozinhas, com o tempo. A correção fraterna, retamente entendida e vivida, pode tornar-se uma relação sacramental em que, através de um ser humano, o próprio Deus se faz presente a outro ser humano.

Se tudo isto ocorrer, 
a correção fraterna poderá produzir 
um fruto de paz e de bênção. 

Luciano Manicardi

© Laboratório da fé, 2015
Este texto foi elaborado a partir da obra de Luciano Manicardi intitulada «A caridade dá que fazer: Redescobrindo a atualidade das ‘obras de misericórdia’» (páginas 121 a 128 e 195 a 205) publicada em português pelas edições Paulinas





Laboratório da fé, 2014
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