VIVER A QUARTA-FEIRA DE CINZAS


A Quarta-feira de Cinzas inicia de novo a Quaresma, é o começo deste tempo litúrgico forte. O evangelho desta celebração fala-nos dos três pilares da Quaresma: a esmola, a oração e o jejum. Já o profeta Joel (primeira leitura) nos recorda que não se trata duns atos exteriores, que perdem todo o sentido religioso sem uma implicação existencial. O profeta fala de «rasgar o coração», de conversão. O «coração», na Bíblia, é a sede dos sentimentos, mas também das decisões. Há que mudar o coração, não cumprir umas normas externas; mudar os nossos sentimentos e as nossas decisões.
Jesus, no evangelho, pede que a esmola seja dada «em segredo», a oração seja feita «no segredo», e para o jejum diz: «perfuma a cabeça e lava o rosto», ou seja, feito sem que se perceba. A nós não nos agrada fazer as coisas assim. Agrada-nos que se saiba quando fazemos algo bom. Se estes atos que a Quaresma nos convida não correspondem a atitudes internas, não têm qualquer valor, são fogo de vista.
A oração responde a uma necessidade de diálogo com Deus, é uma resposta à sua Palavra. O jejum voluntário pode-nos ajudar a compreender que devemos tudo a Deus, a refletir sobre tantas pessoas que passam fome e necessidade, que praticam um jejum imposto. A esmola responde à reflexão anterior: partilhar com quem não tem os bens que foram criados por Deus para o bem comum.

© Javier Velasco-Arias
© La Biblia compartida — blogue de Javier Velasco-Arias y Quique Fernández
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2015
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor


Viver aa quarta-feira de cinzas, no Laboratório da fé, 2015



La biblia compartida — www.laboratoriodafe.net


Javier Velasco-Arias, nasceu no ano de 1956, em Medina del Campo (Espanha); atualmente, vive em Barcelona (desde os onze anos de idade). É biblista, professor de Sagrada Escritura no «Instituto Superior de Ciências Religiosas de Barcelona» e no «Centro de Estudos Pastorais» das dioceses da Catalunha. É responsável e membro de várias associações bíblicas, em Espanha. Na área bíblica, é autor de diversas publicações, além de artigos de temas bíblicos em revistas especializadas e na internet.
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.2.15 | Sem comentários

QUARESMA DE FÉ — QUARTA-FEIRA DE CINZAS


Joel 2, 12-18

Diz agora o Senhor: «Convertei-vos a Mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e lamentações. Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos. Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete. Quem sabe se Ele não vai reconsiderar e desistir deles, deixando atrás de Si uma bênção, para oferenda e libação ao Senhor, vosso Deus? Tocai a trombeta em Sião, ordenai um jejum, proclamai uma reunião sagrada. Reuni o povo, convocai a assembleia, congregai os anciãos, reuni os jovens e as crianças. Saia o esposo do seu aposento e a esposa do seu tálamo. Entre o vestíbulo e o altar, chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, dizendo: ‘Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo e não entregueis a vossa herança à ignomínia e ao escárnio das nações. Porque diriam entre os povos: Onde está o seu Deus?’». O Senhor encheu-Se de zelo pela sua terra e teve compaixão do seu povo.



Convertei-vos a Mim de todo o coração


O profeta chama a uma «conversão possível». A nossa fé não é num Deus justiceiro, mas num Deus «clemente e compassivo, paciente e misericordioso». O crente espera sempre uma nova «vinda de Deus», cheia de bênçãos.
A fé no perdão de Deus torna-se caminho de conversão e súplica de perdão. O Senhor convoca a todos (todos temos necessidade do seu perdão). E confia uma petição de perdão, feita pelos sacerdotes em nome do povo: «Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo». O perdão de Deus é apresentado como um sinal da fé israelita diante das nações. Deus existe, porque Deus perdoa. E perdoa, por um amor «zeloso»: não quer deixar mal o seu Povo diante das nações.


Sinais para o caminho de fé


  • Ajuda para a mudança da nossa «imagem de Deus». O ambiente religioso que nos rodeia leva-nos a viver «asfixiados» sob a ameaça dum Deus justiceiro e vingativo. Não é essa a imagem do Deus de Jesus de Nazaré..., como tampouco era a imagem de Deus que tinham os profetas.

  • É sempre possível a mudança. A conversão é uma «mudança de direção», quando se descobre que se tinha equivocado na meta. Do coração sai uma sincera petição de perdão e, de novo, começa-se o caminho. Jesus dirá dele mesmo: «não vim chamar os justos, mas os pecadores». Não é verdade que o perdão de Deus seja uma «licença para pecar»... O caminho da fé descobre que é uma «exigência para mais amar».

  • O pecado faz-nos solidários com todos...; o perdão, recebido e vivido, converte-se numa força de atração para quem quer experimentar a sua própria libertação.
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2015
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  • QUARESMA DE FÉ: Mateus 6, 1-6.16-18 > > >



Pedro Jaramillo – Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.2.15 | Sem comentários

Rezar na Quaresma - Ano B, 2015, Edições Salesianas

Começas hoje este caminho até à Páscoa.
Pode ser um caminho feliz.
Começa por ler com calma, por meditar, o evangelho de hoje.
A Palavra de Deus dá-te três pistas para uma vida mais cheia:
esmola, jejum, oração.
Solidariedade, equilíbrio interior, intimidade com Deus.

Aqui estou, Senhor Deus, de coração aberto.
Disponível para confiar em Ti e deixar-me guiar.
Conduz-me ao longo destes quarenta dias.
Contigo, vou encontrar paz interior.
Ao teu lado, 
vou reconstruir a relação com os outros.

«Rezar na Quaresma - Ano B»
© 2015 Rui Alberto
© 2015 Edições Salesianas

Este texto faz parte do livro «Rezar na Quaresma - Ano B» das Edições Salesianas;
qualquer forma de reprodução ou distribuição deste texto precisa de autorização.

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.2.15 | Sem comentários

CELEBRAR A QUARTA-FEIRA DE CINZAS


Eis o tempo da Quaresma! Tempo em que a Igreja é convidada à «conversão»: não é esta a primeira afirmação da primeira leitura deste primeiro dia? «Convertei-vos a Mim de todo o coração» (primeira leitura) — diz o nosso Deus. Um caminho a percorrer, pessoal e comunitariamente, interior e exteriormente, física e espiritualmente, em todas as dimensões do nosso ser. Um caminho para redescobrir a alegria da salvação (salmo). Assim, aprenderemos a praticar as boas obras «em segredo» (evangelho), como agrada a Deus, ao serviço dos irmãos. Não há tempo a perder: «este é o tempo favorável, este é o dia da salvação» (segunda leitura).

«Convertei-vos a Mim de todo o coração»
Quase nada se sabe sobre o profeta Joel, nem sobre o momento histórico ou as crises em que viveu. É provável que se situe num período posterior ao exílio na Babilónia, entre os séculos quinto e quarto, antes de Cristo. Portanto, no texto proposto para primeira leitura de Quarta-feira de Cinzas, não sabemos quem são os primeiros destinatários a quem se dirige o profeta.
Ouve-se a trombeta em sinal de alarme, na cidade de Jerusalém. A crise é muito grave. O oráculo quer despertar os habitantes adormecidos. Diz o que é preciso fazer: «Convertei-vos a Mim de todo o coração». Deus pede, não uma simples mudança de roupa, mas uma mudança sincera, «de todo o coração» (de toda a vida).
A resposta, que se inicia com o toque da trombeta, é um ato de religiosidade profunda, que há de romper a indiferença em que se tinha vivido. Na reunião do povo, é necessário expressar a conversão. Isto significa rever a situação. Há que se colocar diante de Deus e «rasgar o coração». Parece que o povo de Jerusalém se tinha esquecido de Deus. Quando isto acontece, a vida perde o sentido e a orientação. Quando nos convertemos a Deus, recordarmos de quem se trata: o Deus «clemente e compassivo, paciente e misericordioso». Quando quebramos a fidelidade para com Deus, as relações humanas tornam-se infiéis e a sociedade fica desintegrada. Então, ganham sentido os atos religiosos que são propostos: servem para recordar quem é Deus realmente, quais são as suas promessas e o que pede ao seu povo. 

A Quarta-feira de Cinzas é um convite a rever a nossa situação perante Deus e perante o mundo. Somos convidados a reinterpretar e a reorganizar a nossa vida, a assumir uma nova atitude de escuta, a «retornar à audição» (José Tolentino Mendonça) dos desafios atuais. «Há tanta coisa que nos está a ser dita e que nós simplesmente não escutamos!».
O rito típico deste dia — a imposição das cinzas — tem uma origem judaica e significa arrependimento e dor pelos pecados; mas, para nós, cristãos, vem acompanhado com as palavras de Jesus Cristo: «Converte-te e acredita no Evangelho». É um convite decisivo à mudança (conversão) para acolher a «alegria do Evangelho» que «enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus» (Francisco, Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual — «A Alegria do Evangelho», 1).

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar a quarta-feira de cinzas, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.2.15 | Sem comentários

ESCUTAR A MELODIA DO PRESENTE


Estamos a viver momentos históricos marcados por processos de transformação, o que provoca sempre um clima de perturbação, até de intranquilidade. Neste sentido, este nosso tempo requer respostas novas para perguntas originais e, porventura, não previstas. Os desafios são apaixonantes, tanto a nível familiar e cultural, como em termos relativos à economia e à política. Precisamos de novos «olhares», na linha de caminhos já iniciados (recordemos o Advento e Natal sob a temática do «olhar… pela primeira vez»). Somos convidados a reinterpretar e a reorganizar a nossa vida, a assumir uma nova atitude de escuta, a «retornar à audição» (José Tolentino Mendonça) dos desafios atuais. No meio desta trama, situa-se a Quaresma que nos é dada a viver, tempo que também nos interpela de um modo novo e inaudito, ao qual temos de responder e em cujo processo temos de participar com uma proposta de conversão e de esperança. «Há tanta coisa que nos está a ser dita e que nós simplesmente não escutamos!».

Quaresma: escutar a melodia do presente

«Tempo de renovação para a Igreja, para as comunidades e para cada um dos fiéis, a Quaresma é sobretudo um ‘tempo favorável’ de graça» (Francisco, Mensagem para a Quaresma). Compete-nos discernir de que modo e com que sentimentos queremos viver a dinâmica quaresmal. Trata-se, juntamente com a Páscoa, de um tempo catecumenal, de renovação batismal, que nos convida a rever o nosso caminho de fé no seguimento de Jesus Cristo. Não é repetição de momentos cultuais, nem de práticas tradicionais. Não se trata de um acontecimento cíclico que voltamos a atravessar mais um ano. Cada tempo litúrgico é um repto à novidade e à esperança, situa-se no horizonte de sentido, para encontrarmos chaves de aprofundamento do mistério cristológico, fraterno e comunitário que não tem limites e que nos enriquece cada vez que voltamos a ele com um coração inquieto e inventivo.
Uma das chaves que propomos passa pela «mística» do sentido da audição: «escutar a melodia do presente» (José Tolentino Mendonça). Aqui, «o desafio é atirar-se para os braços da vida e ouvir aí o bater do coração de Deus. Sem fugas. Sem idealizações». De facto, «a escuta talvez seja o sentido de verificação mais adequado para acolher a complexidade do que uma vida é. […] Na Regra de São Bento há uma expressão essencial, se queremos perceber como se ativa uma escuta autêntica: ‘Abre o ouvido do teu coração’. Quer dizer: a escuta não se faz apenas com o ouvido exterior, mas com o sentido do coração. A escuta não é apenas a recolha do discurso sonoro. Antes de tudo, é atitude, é inclinar-se para o outro, é disponibilidade para acolher o dito e o não dito, o entusiasmo da história ou o seu avesso, a sua dor».
A escuta do outro, para nós, só é plena com a escuta do Outro, que, nesta Quaresma, nos convoca para a Aliança, «com a sucessão dos episódios do Antigo Testamento: a Aliança de Deus com Noé, com Abraão, com Moisés na dádiva da Lei, a fidelidade de Deus à Sua aliança com a libertação do povo do Exílio, e, finalmente, a Nova Aliança escrita no coração. Este último tema, da Nova Aliança, escatológica, anunciada pelos Profetas, [...] leva o ouvinte da Palavra àquela aliança nova e eterna que Cristo realizou na Sua morte e ressurreição e que nos sacramentos pascais é oferecida a todos» (Mario Chesi).

Laboratório da Fé vivida

«A prática da escuta, na tradição bíblica, está muito ligada à fé. É a escuta que funda a radicação crente. [...] Não há fé que não nasça da escuta, de uma escuta profunda, de uma escuta até ao fim» (José Tolentino Mendonça). Eis outra das chaves fundamentais do nosso itinerário pastoral: a fé vivida na prática das obras de misericórdia. Por um lado, a necessidade de voltar a escutar a fonte primeira e autêntica que é a pessoa de Jesus Cristo: viver na escuta da Boa Nova de Jesus Cristo. Por outro lado, a necessidade de abrir o «ouvido do coração»: deixar de ser um coração de pedra, duro, rotineiro, indiferente e individualista, para ser um coração de carne, contemplativo, sensível, compassivo, solidário, misericordioso. Um coração semelhante ao de Jesus Cristo. Um coração disposto a «escutar a melodia do presente» revelada na vida do outro que merece a nossa maior atenção. «A Quaresma é um tempo propício para mostrar este interesse pelo outro, através de um sinal – mesmo pequeno, mas concreto – da nossa participação na humanidade que temos em comum» (Francisco, Mensagem para a Quaresma).

© Laboratório da fé, 2015


Quaresma, Ano B, Ano Pastoral 2014'15

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.2.15 | Sem comentários

Viver a fé! [19]


O terceiro ponto do quinto capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja apresenta «a subjetividade social da família» (números 221 a 245) em quatro alíneas: «o amor e a formação de uma comunidade de pessoas»; «a família é o santuário da vida»; «a tarefa educativa»; «a dignidade e os direitos das crianças».

O amor e a formação de uma comunidade de pessoas

«O ser humano é feito para amar e sem amor não pode viver» (223). E é graças ao dinamismo do amor que a família se propõe como «espaço» de comunhão «que faz crescer uma autêntica comunidade de pessoas» (221), sem excluir «uma pressurosa atenção para com os anciãos» (222). Face ao exposto, «a solidez do núcleo familiar é um recurso determinante para a qualidade da convivência social; por isso a comunidade civil não pode ficar indiferente defronte das tendências desagregadoras que minam na base os seus alicerces fundamentais» (229). Nesta alínea, são também abordadas várias questões relacionadas com a «identidade de género» (224), o «divórcio» (225), «aqueles que, após um divórcio, tornaram a casar» (226), as «uniões de facto» (227), as «uniões homossexuais» (228). Por iniciativa do papa Francisco, com a convocação de dois Sínodos dos Bispos (em outubro de 2014 e em outubro de 2015), estas e outras temáticas relacionadas com a família e o matrimónio têm sido objeto de uma ampla e amadurecida reflexão no seio da Igreja.

A família é o santuário da vida

«A família fundada no matrimónio é deveras o santuário da vida [...]. As famílias cristãs, em força do sacramento recebido, têm a missão peculiar de ser testemunhas e anunciadoras do Evangelho da vida» (231). Neste sentido, recorda-se que «o amor conjugal é, por sua natureza, aberto ao acolhimento da vida. [...] A procriação expressa a subjetividade social da família e dá início a um dinamismo de amor e de solidariedade entre as gerações que está na base da sociedade» (230). Por isso, «a família contribui de modo eminente para o bem social através da paternidade e da maternidade responsáveis, formas peculiares da especial participação dos cônjuges na obra criadora de Deus» (232). E «o juízo acerca do intervalo entre os nascimentos e o número dos filhos a procriar compete somente aos esposos» (234). Mas «o desejo de maternidade ou paternidade não funda algum ‘direito ao filho’, ao passo que, pelo contrário, são evidentes os direitos do nascituro, a quem devem ser garantidas as condições ótimas de existência, através da estabilidade da família fundada no matrimónio» (235). «Quanto aos ‘meios’ para atuar a procriação responsável, há que se excluir como moralmente ilícitos tanto a esterilização como o aborto. [...] É igualmente de excluir o recurso aos métodos contracetivos nas suas diversas formas» (233). Outro aspeto considerado como «uma questão de particular relevância social e cultural, pelas múltiplas e graves implicações morais que apresenta, é a referente à clonagem humana» (236). O último número desta alínea recorda que «os pais, como ministros da vida, não devem nunca olvidar que a dimensão espiritual da procriação merece uma consideração superior à reservada a qualquer outro aspeto: ‘A paternidade e a maternidade representam uma tarefa de natureza conjuntamente física e espiritual; através daquelas, passa realmente a genealogia da pessoa, que tem o seu princípio eterno em Deus e a Ele deve conduzir’. Acolhendo a vida humana na unidade das suas dimensões, físicas e espirituais, as famílias contribuem para a ‘comunhão das gerações’ e para a continuidade da espécie, e dão, deste modo, um contributo essencial e insubstituível para o progresso da sociedade» (238).

A tarefa educativa

«Exercendo a sua missão educativa, a família contribui para o bem comum e constitui a primeira escola das virtudes sociais, de que todas as sociedades necessitam» (238). «A família tem um papel totalmente original e insubstituível na educação dos filhos» (239), «em colaboração estreita e vigilante com os organismos civis e eclesiais» (240). Por isso, «a família tem a responsabilidade de oferecer uma educação integral» (242), pelo que «os pais têm o direito de fundar e manter instituições educativas» (241). «Os pais têm ainda uma particular responsabilidade na esfera da educação sexual» (243).

A dignidade e os direitos das crianças

Reconhecendo que «a situação de uma grande parte das crianças no mundo está longe de ser satisfatória» (225), «a doutrina social da Igreja indica constantemente a exigência de respeitar a dignidade das crianças» (224), cujos direitos devem ser protegidos.

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.2.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO SEXTO


Naquela época, a lepra era causa de exclusão (primeira leitura): os leprosos eram rejeitados pela comunidade. Hoje, acontece que, por motivos de higiene ou de profilaxia, certas doenças são também motivo de exclusão, mas é sobretudo a pobreza que gera afastamento em relação à sociedade. A palavra de Deus desperta a nossa indiferença! Apresenta-nos como modelo de fé um leproso curado por Jesus Cristo (evangelho). A palavra de Deus fortalece a nossa confiança (salmo), a nossa fé! Alicerçados em todos os que nos precederam, somos «imitadores» de Paulo (segunda leitura), discípulos de Jesus Cristo, nossa alegria.

«Deverá morar à parte, fora do acampamento»
O livro do Levítico contém uma grande coleção de leis da tradição sacerdotal de Israel. O texto da primeira leitura do sexto domingo (Ano B) situa-se na terceira parte do livro, designada como «código da pureza ritual» (capítulos 11 a 15), onde são reportadas diversas categorias: animais puros e impuros; purificação da mulher que dá à luz; purificação da lepra; impureza sexual.
A lepra — naquele tempo não correspondia à doença como a conhecemos hoje, mas designava vários tipos de doenças da pele — era, do ponto de vista social, uma doença muito grave; e os sacerdotes tinham a obrigação de declarar impuras as pessoas infetadas, excluindo-as de qualquer tipo de vida comunitária.
O leproso, segundo a cosmovisão refletida no Levítico, não podia participar no culto a Deus, era colocado à margem — «deverá morar à parte, fora do acampamento» —, como se fosse um morto. A vida fora do acampamento, aquando da peregrinação pelo deserto, também significava, simbolicamente, a exclusão do ambiente abrangido pela presença protetora de Deus. 

Hoje, este texto precisa de ser iluminado pelo relato do evangelho e pelas nossas situações vitais.
No nosso contexto mais próximo, a lepra não é uma doença habitual e, além do mais, tem cura. Contudo, continuam a existir homens e mulheres considerados «impuros», obrigados a «morar à parte», fora da sociedade!
No tempo de Jesus Cristo, continuava a ser proibido ser tocado ou tocar um leproso. Por isso, quando Jesus Cristo toca o leproso, não só se atreve a um gesto proibido, mas também mostra desacordo em relação à situação de exclusão por parte da sociedade. A Boa Nova de Jesus Cristo supõe recuperar a pessoa em todas as suas dimensões.
Como em outras ocasiões, Jesus Cristo não se fica pelas palavras, mas «vai tocar o intocável. Estende a mão àqueles que é interdito tocar. […] Prefere incorrer no perigo da contaminação, desejando tocar a ferida do outro; querendo compartilhar, como só o toque compartilha, aquele sofrimento; ajudando a vencer os ostracismo interiorizado por aquela separação forçada. O que é que cura o homem leproso? Cura-o saber-se tocado, e tocado no sentido de encontrado, assumido, aceite, reconhecido, resgatado. Quando toda a distância se vence, o toque de Jesus reconstrói a nossa humanidade» (José Tolentino Mendonça, «A mística do instante», ed. Paulinas).

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo sexto (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.2.15 | Sem comentários

Reflexão mensal sobre as obras de misericórdia [5]


«Não bastam as boas intenções para realizar, de modo adequado, a visita a um doente; pelo contrário, essas intenções podem ser perigosas precisamente na sua obtusa bondade. Corre-se o risco de não haver encontro com a pessoa visitada, de se sair reforçado pela debilidade desta e gratificados pelo próprio gesto de ‘bondade’ que se está a realizar» (Luciano Manicardi).

A experiência de Job

O livro de Job pode ser apresentado como a história de amigos que se tornam inimigos ao realizarem o piedoso ato de ir ao encontro do doente. E a história de pessoas que querem consolar e que acabam por ser chamados «consoladores importunos», «fazedores de mentira», «charlatães». Eles realizam os gestos rituais do luto e da dor e parecem amigos sinceros, mas, na verdade, fazem gorar o encontro com o doente. Os amigos de Job enganam-se não só por não compreenderem que a cabeceira de um doente não é o lugar adequado para uma lição de teologia, mas sobretudo porque vão ter com ele cheios de certezas, de sapiência e de poder. Eles «sabem» que a doença de um ser humano esconde alguma culpa, pela qual ele é castigado e está a sofrer: segundo eles, Job deverá arrepender-se, confessar a sua culpa e, assim, ser curado. Deste modo, transformam a vítima em culpado. Presumem que «sabem» melhor do que o próprio doente aquilo de que ele precisa, e estão convencidos de possuir os requisitos para consolá-lo com eficácia. Apresentando-se como salvadores, eles estabelecem um triângulo perverso em que fazem do doente uma vítima, tornando-se seus perseguidores e, ao mesmo tempo, alvo das suas acusações. Os dois protagonistas do drama, visitantes e doente, entram numa relação complexa em que ambos vestem, alternadamente, o traje de perseguidor e de vítima, fazendo-o a partir da pretensão inicial dos visitantes de serem salvadores. Colocando-se a si próprios como aqueles que «podem» ajudar e consolar o «pobre Job», erigem-se em seus salvadores, transformando-se, ao fazê-lo, em seus perseguidores. Em suma, quando se pratica essa delicada arte que é a visita ao doente, há que tomar consciência de que não se tem poder sobre o doente.

Visitar/ver o doente

Para indicar a visita ao doente, o hebraico usa por vezes o verbo «ra’ah», que significa «ver», mas este «ir ver o doente» significa, em sentido mais profundo, «escutar» o próprio doente, deixar que seja ele a guiar a relação, não fazer nada para além do consentido por ele, ater-se ao quadro relacional que ele apresenta. O mestre é o doente! É ele que detém um magistério diante do qual o visitante deve colocar-se à escuta. Surgem, então, duas perguntas essenciais para aquele que vai visitar um doente: porquê visitar um doente? Como visitar um doente? O ato de «visitar/ver» implica apreciação, consideração, providência e conhecimento. Ser vistos/visitados deve significar, portanto, um ser apreciados, estimados e considerados, ter valor para alguém. E o doente poderá apreender, no interesse e no cuidado que lhe demonstrou o visitante, um sinal da solicitude e do cuidado que o próprio Senhor tem por ele. Na situação de solidão e de impotência em que muitas vezes se encontra, o doente pede, a quem está a seu lado, para ser escutado; pede para ser aceite na sua situação, mesmo que aquilo que ele é, faz ou diz não seja aprovado pelos visitantes. Diz Job: «O doente precisa da lealdade dos amigos, mesmo que renegue o Omnipotente» (Job 6, 14; cf. 19, 21). «Escutai atentamente as minhas palavras! Seja ao menos este o conforto que me dais» (Job 21, 2; cf. 13, 6). Escutar é permitir a presença do outro e visitar o doente significa reconhecer e respeitar o seu espaço, evitando ao máximo ocupá-lo. E a passagem de Ben Sira afirma: «Não sejas preguiçoso em visitar um doente, porque é assim que lhe cativarás o afeto» (7, 35). Ou seja, visitando um doente, o homem cumpre o mandamento de amar o próximo (cf. Levítico 19, 18) recebendo, em troca, o seu amor..

Suportar as fraquezas do nosso próximo

Quando sentimos que uma pessoa é insuportável? Por que motivo determinado comportamento de uma pessoa nos aborrece? Quanto nos afeta a debilidade de alguém, que nos parece insuportável, também se manifesta uma revelação de nós a nós mesmos. Quando sentimos a debilidade de uma pessoa aborrecida e incómoda, isso pode ser simplesmente a expressão de sentimentos egoístas e racistas, ou de medo e de rejeição do confronto. Ora, a capacidade de suportar tem por fundamento o Evangelho e o exemplo de Jesus Cristo, e torna-se possível pela fé. A este propósito, importa perceber que isto não tem nada a ver com o suportar passivamente o sofrimento. A atitude — livre e amorosa — de suportar quem é incómodo, antipático, aborrecido, lento, carenciado, equipara-se ao amor ao inimigo. E requer que trabalhemos sobre nós mesmos para aprendermos a conhecer e a amar o inimigo que existe em nós, aquilo que em nós é incómodo, aquilo que nos é insuportável e que Deus, em Jesus Cristo, suportou pacientemente, amando-nos de modo incondicional. Deste modo, torna-se abertura de futuro; para o outro, confirmação de confiança nele, luta a seu lado e em seu favor contra a tentação do desespero. O suportar paciente do outro, que é sentido como aborrecido ou hostil, caminha a par e passo com a paciência para consigo mesmo e para com as suas incongruências, frente aos acontecimentos que se opõem aos nossos desejos e à nossa vontade, frente a Deus, cujo desígnio de salvação continua incompleto. Longe de ser sinónimo de debilidade, a paciência é força em relação a nós mesmos, capacidade de agir de forma compulsiva, espera dos tempos do outro, capacidade de suportar o outro, de apoiar e carregar o outro. Trata-se, portanto, de um momento particularmente importante na edificação das relações interpessoais e eclesiais. Não é por acaso que o Novo Testamento exorta com frequência a ter paciência e a suportar os outros no contexto de difíceis relações comunitárias: «Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente se alguém tiver razão de queixa contra outro» (Colossenses 3, 13). O suportar-se mutuamente é manifestação de caridade.

Exorto-vos a que procedais 
de um modo digno
do chamamento que recebestes;
com toda a humildade e mansidão, 
com paciência: 
suportando-vos uns aos outros 
no amor.
Carta aos Efésios 4, 1-2

Paciência

O hebreu bíblico fala de Deus como «lento para a ira», para indicar a sua paciência. Paciência que é, portanto, intenção de amor para com o ser humano, mas também sofrimento frente ao pecado do ser humano: «Até quando terei de ouvir esta assembleia má a murmurar contra mim?» — diz Deus a Moisés e a Aarão (Números 14, 27). A paciência, com efeito, não quer tornar-se cúmplice do mal cometido. A paciência divina não é ausência de cólera, mas capacidade de elaborá-la, de domá-la, de interpor uma espera entre a sua insipiência e a sua manifestação: «Muitas vezes conteve a sua ira, e não deixou que o seu furor se avivasse. Lembrou-se de que eles eram humanos, um sopro que passa e não volta mais (Salmo 78, 38-39). A paciência é o olhar generoso de Deus fixo no ser humano, olhar que não se detém nos detalhes, no acidente de percurso, que não considera o pecado definitivo, mas que o coloca no contexto de todo o caminho existencial que o ser humano é chamado a percorrer. Portanto, ela expõe Deus ao risco de não ser tomado a sério, de ser «usado» pelo ser humano. A paciência de Deus não é impassibilidade nem passividade, mas a longa respiração da sua paixão, paixão de amor que aceita sofrer esperando os tempos do ser humano e a sua conversão: «Não é que o Senhor tarde em cumprir a sua promessa, como alguns pensam, mas simplesmente usa de paciência para convosco, pois não quer que ninguém pereça, mas que todos se convertam» (2Pedro 3, 9). Por isso, o tempo concedido ao ser humano deve ser considerado como revelação da «longanimidade» de Deus, e, portanto, apreendido como «salvação» (2Pedro 3, 15). Em Jesus Cristo e, de modo particular, na sua paixão e morte, a paciência de Deus alcança o seu ápice enquanto assunção radical da incapacidade e debilidade do ser humano, do seu pecado. Em Cristo, Deus aceita «carregar o fardo», «suportar» a insuficiência e incapacidade humanas, assumindo a responsabilidade pelo homem na sua falibilidade. A «paciência de Cristo» (2Tessalonicenses 3, 5) exprime assim o amor de Deus, do qual é sacramento: «O amor é paciente»; «o amor tudo suporta» (1Coríntios 13, 4.7). Além disso, para o cristão, a paciência é fruto do Espírito (cf. Gálatas 5, 22) e declina-se como perseverança e constância nas tribulações e nas provas, como capacidade de suportar e de tolerar quem causa aborrecimentos e suscita conflitos, como olhar longânime frente às incapacidades alheias. A paciência é a arte de viver a insuficiência. E a insuficiência, encontramo-la nos outros, mas também em nós, na realidade e em Deus. Na tradição cristã, a paciência é considerada uma virtude, ou até «a maior virtude». Hoje, porém, a paciência perdeu grande parte do seu fascínio: os tempos acelerados suscitam a impaciência, o não adiamento, o «agora e já», a posse que não dá lugar à espera. Eis, então, que a paciência, que outrora constituía uma modalidade sábia e humana de habitar o mundo, é votada ao esquecimento.

© Laboratório da fé, 2015
Este texto foi elaborado a partir da obra de Luciano Manicardi intitulada «A caridade dá que fazer: Redescobrindo a atualidade das ‘obras de misericórdia’» (páginas 121 a 128 e 195 a 205) publicada em português pelas edições Paulinas





Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.2.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO QUINTO


«Ai de mim se não anunciar o Evangelho!» — diz Paulo (segunda leitura). Como seria bom que cada um de nós fizesse a mesma declaração! Descobrir que o Evangelho é um tesouro de vida a partilhar, que «é uma obrigação que me foi imposta», não por dever, mas por felicidade… Sim, quando como Job (primeira leitura), apesar das dificuldades da vida, mantemos a confiança e rezamos com fé. Sim, quando, como muitos outros, fazemos a experiência de que «é agradável e justo celebrar o seu louvor» (salmo). Sim, quando, como os discípulos e a multidão, vamos à «procura» de Jesus Cristo (evangelho). Sim, quando, acolhendo o Evangelho, nos tornamos testemunhas entusiasmadas da Boa Nova revelada em Jesus Cristo. «Não nos deixemos roubar o entusiasmo missionário! […] Não deixemos que nos roubem a alegria da evangelização!» (Francisco, Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual — «A Alegria do Evangelho», 80.83).

«A minha vida não passa de um sopro»
O livro de Job é uma das obras mais singulares de toda a Sagrada Escritura. O início e o fim são uma espécie de conto com um final feliz. Todavia, no coração do livro, constituído pelos diálogos entre Job e os seus amigos e, depois, com o próprio Deus, deparamo-nos com o grande enigma do sofrimento e com a inquietante pergunta sobre a justiça de Deus. E tudo desemboca na grande interrogação sobre o sentido da existência, que, para os humanos, será sempre uma questão em aberto.
O fragmento da primeira leitura do quinto domingo (Ano B) possui um tom terrivelmente sombrio. Job, diante dos seus amigos, lamenta-se da sua situação, lamenta-se da vida que experiencia como uma carga insuportável, pois nem a noite serve para descansar: «agito-me angustiado até ao crepúsculo». A vida é comparada à lançadeira que faz passar o fio da trama de um ao outro lado do tear. Job está convencido de que se aproxima o fim dos seus dias: «a minha vida não passa de um sopro».
Podemos ficar surpreendidos, mas é útil recordar que, nesta época, a teologia judaica ainda não tinha descoberto a vida para além da morte (ressurreição). Para eles, Deus premeia ou castiga nos (curtos) anos de vida. A história humana era o lugar da justiça de Deus. Assim, a doença, a pobreza, a morte dos entes queridos, eram vistas como castigos divinos.
Mas Job não consegue conciliar os males de que padece com a justiça divina. E atreve-se a colocar em causa a «teologia» do seu tempo. Ele representa o crente que não se contenta com as respostas convencionais.
Em que consiste a justiça de Deus? Vale a pena uma vida breve e cheia de sofrimentos? A resposta é esboçada apenas no final do livro quando coloca a nu as (nossas) falsas imagens e destaca a necessidade de conhecer melhor a Deus. Ora, nós, cristãos, temos acesso ao conhecimento de Deus a partir de Jesus Cristo, das suas palavras e das suas ações. É o Evangelho! E Jesus Cristo não está com os que causam a dor, mas com aqueles que sofrem. Jesus Cristo veio para dar saúde e vida plena ao ser humano.

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo quinto (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.2.15 | Sem comentários

Viver a fé! [18]


A segunda parte do Compêndio da Doutrina Social da Igreja começa com a referência à família como «célula vital da sociedade» (números 209 a 220). Este (quinto) capítulo desenvolve-se em dois pontos que são apresentados neste tema: «A família, primeira sociedade natural» (números 209 a 214); «O matrimónio, fundamento da família» (números 215 a 220).

A família, primeira sociedade natural

Os primeiros textos da Sagrada Escritura (os primeiros dois capítulos do livro dos Génesis) sublinham a «importância e a centralidade da família, em vista da pessoa e da sociedade. [...] A família delineia-se, no desígnio do Criador, como ‘lugar primário da “humanização” da pessoa e da sociedade’ e ‘berço da vida e do amor’» (209). O mesmo se verifica em muitos outros textos bíblicos (do Antigo Testamento). E também «Jesus nasceu e viveu numa família concreta, acolhendo todas as características próprias desta vida, e conferiu uma excelsa dignidade ao instituto matrimonial, constituindo-o como sacramento da nova aliança (cf. Mateus 19, 3-9). Nesta perspetiva, o casal encontra toda a sua dignidade e a família a sua própria solidez» (210). Assim, «iluminada pela luz da mensagem bíblica, a Igreja considera a família a primeira sociedade natural, titular de direitos próprios e originários, e põe-na no centro da vida social [...], enquanto lugar primário de relações interpessoais, célula primeira e vital da sociedade» (211).

A importância da família para a pessoa

Em primeiro lugar, «a família é importante e central em relação à pessoa»: lugar onde o ser humano «nasce e cresce». É «no clima de natural afeto que liga os membros de uma comunidade familiar, as pessoas são reconhecidas e responsabilizadas na sua integralidade» (212).

A importância da família para a sociedade

«A família, comunidade natural na qual se experimenta a sociabilidade humana, contribui de modo único e insubstituível para o bem da sociedade. [...] Uma sociedade à medida da família é a melhor garantia contra toda a deriva de tipo individualista ou coletivista, porque nela a pessoa está sempre no centro da atenção enquanto fim e nunca como meio» (213). Por isso, «há que afirmar a prioridade da família em relação à sociedade e ao Estado. [...] A família não é, portanto, para a sociedade e para o Estado; antes a sociedade e o Estado são para a família. Qualquer modelo social que pretenda servir ao bem do homem não pode prescindir da centralidade e da responsabilidade social da família. A sociedade e o Estado, nas suas relações com a família, têm o dever de se ater ao princípio da subsidiariedade» (214).

O valor do matrimónio

«A família tem o seu fundamento na livre vontade dos cônjuges de se unirem em matrimónio, no respeito pelos significados e pelos valores próprios deste instituto, que não depende do homem, mas do próprio Deus: ‘[...] O próprio Deus é o autor do matrimónio, dotado de diversos bens e fins’» (215). Por isso, «nenhum poder pode abolir o direito natural ao matrimónio nem modificar-lhe as características e a finalidade» (216). «O matrimónio tem como traços característicos: a totalidade, por força da qual os cônjuges se doam reciprocamente em todas as componentes da pessoa, físicas e espirituais; a unidade, que os torna ‘uma só carne’; a indissolubilidade e a fidelidade que a doação recíproca definitiva exige; a fecundidade à qual ela naturalmente se abre» (217). Sendo certo que «o matrimónio, na sua verdade ‘objetiva’, está ordenado à procriação e à educação dos filhos [...], porém, não foi instituído unicamente em vista da procriação: o seu caráter indissolúvel e o seu valor de comunhão permanecem mesmo quando os filhos, ainda que vivamente desejados, não chegam a completar a vida conjugal» (218).

O sacramento do matrimónio

«O matrimónio, enquanto sacramento, é uma aliança de um homem e uma mulher no amor», cuja sacramentalidade promana «do amor esponsal de Cristo pela Igreja, que mostra a sua plenitude na oferta consumada na Cruz» (219). «O sacramento do matrimónio assume a realidade humana do amor conjugal em todas as implicações e ‘habilita e empenha os esposos e os pais cristãos a viverem a sua vocação’ [...]. A dimensão natural do seu amor é constantemente purificada, consolidada e elevada pela graça sacramental. Deste modo, os cônjuges cristãos, para além de se ajudarem reciprocamente no caminho de santificação, convertem-se em sinal e instrumento da caridade de Cristo no mundo. Com a sua própria vida, eles são chamados a ser testemunhas e anunciadores do significado religioso do matrimónio» (220).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.2.15 | Sem comentários

Viver a fé! [17]


«A doutrina social da Igreja, além dos princípios que devem presidir à edificação de uma sociedade digna do ser humano, indica também valores fundamentais. [...] Todos os valores sociais são inerentes à dignidade da pessoa humana, da qual favorecem o autêntico desenvolvimento e são, essencialmente: a verdade, a liberdade, a justiça, o amor» (197). Este tema inclui os dois últimos pontos do quarto capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja: os valores fundamentais da vida social; a vida da caridade.

Relação entre princípios e valores

Entre os princípios (cf. temas 12 a 16) e os valores há uma relação de reciprocidade: «os valores sociais expressam o apreço que se deve atribuir àqueles determinados aspetos do bem moral que os princípios se propõem conseguir, oferecendo-se como pontos de referência para a oportuna estruturação e a condução ordenada da vida social. [...] A sua prática constitui a via segura e necessária para alcançar um aperfeiçoamento pessoal e uma convivência social mais humana [...]. O respeito pela legítima autonomia das realidades terrenas faz com que a Igreja não se reserve competências específicas de ordem técnica ou temporal, mas não a impede de se pronunciar para mostrar como, nas diferentes opções do ser humano, tais valores são afirmados ou, pelo contrário, negados» (197).

A verdade

«A convivência entre os seres humanos numa comunidade é efetivamente ordenada, fecunda e condizente com a sua dignidade de pessoas quando se funda na verdade. [...] O nosso tempo exige uma intensa atividade educativa e um correspondente empenho por parte de todos, para que a investigação da verdade, não redutível ao conjunto ou a alguma das diversas opiniões, seja promovida em todos os âmbitos» (198).

A liberdade

A liberdade é sina «da imagem divina» e «da sublime dignidade de toda a pessoa humana» (199). Por isso, o ser humano tem direito a: «realizar a própria vocação pessoal; buscar a verdade e professar as próprias ideias religiosas, culturais e políticas; manifestar as próprias opiniões; decidir o próprio estado de vida e, na medida do possível, o próprio trabalho; assumir iniciativas de caráter económico, social e político. [...] A liberdade deve desdobrar-se, por outro lado, também como capacidade de recusa de tudo o que é moralmente negativo, seja qual for a forma em que se apresente, como capacidade de efetivo desapego de tudo o que possa obstar ao crescimento pessoal, familiar e social. A plenitude da liberdade consiste na capacidade de dispor de si em vista do autêntico bem» (200) universal.

A justiça

«Do ponto de vista subjetivo, a justiça traduz-se na atitude determinada pela vontade de reconhecer o outro como pessoa, ao passo que, do ponto de vista objetivo, ela constitui o critério determinante da moralidade no âmbito intersubjetivo e social» (201). «A justiça, com efeito, não é uma simples convenção humana, porque o que é ‘justo’ não é originariamente determinado pela lei, mas pela identidade profunda do ser humano» (202). Neste sentido, «a plena verdade sobre o ser humano permite superar a visão contratualista da justiça, que é visão limitada, e abrir também para a justiça o horizonte da solidariedade e do amor» (203).

A vida da caridade

A caridade tem de ser o critério supremo e universal de toda a ética social» (204). Na verdade, a convivência humana, fundada na verdade e realizada segunda a justiça e a liberdade, «é vivificada pelo amor que faz sentir como próprias as carências e as exigências alheias» (205). «A caridade pressupõe e transcende a justiça. [...] A justiça deve submeter-se a uma “correção” notável, por parte daquele amor que “é paciente” e “benigno”, que encerra em si as características do amor misericordioso’, tão essenciais para o Evangelho como para o Cristianismo» (206). De facto, «nenhuma legislação, nenhum sistema de regras ou de pactos conseguirá persuadir homens e povos a viver na unidade, na fraternidade e na paz, nenhuma argumentação poderá superar o apelo da caridade. [...] É necessário que se cuide de mostrar a caridade não só como inspiradora da ação individual, mas também como força capaz de suscitar novas vias para enfrentar os problemas do mundo de hoje e para renovar profundamente desde o interior das estruturas, organizações sociais, ordenamentos jurídicos. Nesta perspetiva, a caridade torna-se caridade social e política» (207), «não se esgota nas relações entre as pessoas, mas desdobra-se na rede em que tais relações se inserem, que é precisamente a comunidade social e política, e sobre esta intervém, visando o bem possível para a comunidade no seu conjunto» (208).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.1.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO QUARTO


Os extratos da Escritura oferecidos no quarto domingo (Ano B) podem ser resumidos nesta interpelação: «Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações» (salmo). Hoje, estou disposto a ouvir a palavra de Deus, mesmo quando me desconcerta? Escuto os profetas (primeira leitura) que, hoje, continuam a falar em nome de Deus? Vivo unido/a a Deus «sem desvios» (segunda leitura)? Reconheço a «autoridade» (evangelho) de Jesus Cristo?

«Porei as minhas palavras na sua boca»
A primeira leitura faz parte do «Código Deuteronómico» (11, 29 — 26, 15), dentro duma seção em que Moisés autoriza uma série de funções no seio da comunidade de Israel: juízes, rei, sacerdotes, profetas. Todos hão de servir para guiar e guardar o povo de Israel, de modo que a comunidade de fé possa manter a sua identidade e vocação como povo de Deus, especialmente nos momentos de maior tribulação.
Moisés fala de um profeta futuro que será semelhante a ele, mas sem precisar outros detalhes. A missão que lhe será confiada é a dar a conhecer ao povo os ensinamentos de Deus: «Porei as minhas palavras na sua boca».
O texto faz referência aos acontecimentos do Sinai (no Horeb), quando Deus confiou os dez mandamentos (cf. Êxodo 20, 1-17): Israel entendeu que a escuta direta das palavras de Deus era uma ameaça, de maneira que a partir daí a comunicação com Deus fez-se apenas através do mediador Moisés (e daqueles que, depois, continuaram a exercer a mesma função).
Segundo a tradição bíblica, Moisés foi o primeiro profeta: cumpre a dupla função de ser mediador entre Deus e o povo e porta-voz da palavra divina (se bem que, mais tarde, Moisés será apresentado como símbolo da Lei e Elias será o símbolo dos profetas).
O profeta tem a missão de dar continuidade às funções de Moisés: ser testemunha do Deus libertador do Êxodo, dos Mandamentos e da Aliança no Sinai. Trata-se de um compromisso ético que faz com que a vida de Israel seja tão comprometida (enquanto que os «outros deuses» são muito menos exigentes). A narração também recorda a hostilidade com que os profetas podem ser acolhidos entre o povo.
O profeta há de ser o responsável por dar a conhecer as palavras que o próprio Deus colocará «na sua boca». Por isso, é portador de uma autoridade profunda, que tem de ser levada a sério (pelo próprio e pelos outros) e respeitada por todos.

Para nós, cristãos, a profecia perpassa os vários momentos históricos descritos no Antigo Testamento até culminar em Jesus Cristo. Assim se compreende que Jesus Cristo, na sinagoga de Cafarnaúm, seja muito mais do que um simples «exorcista»; é um verdadeiro profeta que atua com a autoridade de Deus. Então, saboreamos o «diálogo» que se estabelece entre a primeira leitura e o evangelho, para nos dar a conhecer que a «autoridade» das palavras de Deus colocadas na boca de Jesus Cristo é também testemunhada pelos seus gestos. Este ensinamento com «autoridade», destacado pelo evangelista Marcos, é um sinal distintivo da missão profética de Jesus Cristo.

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo quarto (Ano B), no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.1.15 | Sem comentários
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