Viver a fé! [17]


«A doutrina social da Igreja, além dos princípios que devem presidir à edificação de uma sociedade digna do ser humano, indica também valores fundamentais. [...] Todos os valores sociais são inerentes à dignidade da pessoa humana, da qual favorecem o autêntico desenvolvimento e são, essencialmente: a verdade, a liberdade, a justiça, o amor» (197). Este tema inclui os dois últimos pontos do quarto capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja: os valores fundamentais da vida social; a vida da caridade.

Relação entre princípios e valores

Entre os princípios (cf. temas 12 a 16) e os valores há uma relação de reciprocidade: «os valores sociais expressam o apreço que se deve atribuir àqueles determinados aspetos do bem moral que os princípios se propõem conseguir, oferecendo-se como pontos de referência para a oportuna estruturação e a condução ordenada da vida social. [...] A sua prática constitui a via segura e necessária para alcançar um aperfeiçoamento pessoal e uma convivência social mais humana [...]. O respeito pela legítima autonomia das realidades terrenas faz com que a Igreja não se reserve competências específicas de ordem técnica ou temporal, mas não a impede de se pronunciar para mostrar como, nas diferentes opções do ser humano, tais valores são afirmados ou, pelo contrário, negados» (197).

A verdade

«A convivência entre os seres humanos numa comunidade é efetivamente ordenada, fecunda e condizente com a sua dignidade de pessoas quando se funda na verdade. [...] O nosso tempo exige uma intensa atividade educativa e um correspondente empenho por parte de todos, para que a investigação da verdade, não redutível ao conjunto ou a alguma das diversas opiniões, seja promovida em todos os âmbitos» (198).

A liberdade

A liberdade é sina «da imagem divina» e «da sublime dignidade de toda a pessoa humana» (199). Por isso, o ser humano tem direito a: «realizar a própria vocação pessoal; buscar a verdade e professar as próprias ideias religiosas, culturais e políticas; manifestar as próprias opiniões; decidir o próprio estado de vida e, na medida do possível, o próprio trabalho; assumir iniciativas de caráter económico, social e político. [...] A liberdade deve desdobrar-se, por outro lado, também como capacidade de recusa de tudo o que é moralmente negativo, seja qual for a forma em que se apresente, como capacidade de efetivo desapego de tudo o que possa obstar ao crescimento pessoal, familiar e social. A plenitude da liberdade consiste na capacidade de dispor de si em vista do autêntico bem» (200) universal.

A justiça

«Do ponto de vista subjetivo, a justiça traduz-se na atitude determinada pela vontade de reconhecer o outro como pessoa, ao passo que, do ponto de vista objetivo, ela constitui o critério determinante da moralidade no âmbito intersubjetivo e social» (201). «A justiça, com efeito, não é uma simples convenção humana, porque o que é ‘justo’ não é originariamente determinado pela lei, mas pela identidade profunda do ser humano» (202). Neste sentido, «a plena verdade sobre o ser humano permite superar a visão contratualista da justiça, que é visão limitada, e abrir também para a justiça o horizonte da solidariedade e do amor» (203).

A vida da caridade

A caridade tem de ser o critério supremo e universal de toda a ética social» (204). Na verdade, a convivência humana, fundada na verdade e realizada segunda a justiça e a liberdade, «é vivificada pelo amor que faz sentir como próprias as carências e as exigências alheias» (205). «A caridade pressupõe e transcende a justiça. [...] A justiça deve submeter-se a uma “correção” notável, por parte daquele amor que “é paciente” e “benigno”, que encerra em si as características do amor misericordioso’, tão essenciais para o Evangelho como para o Cristianismo» (206). De facto, «nenhuma legislação, nenhum sistema de regras ou de pactos conseguirá persuadir homens e povos a viver na unidade, na fraternidade e na paz, nenhuma argumentação poderá superar o apelo da caridade. [...] É necessário que se cuide de mostrar a caridade não só como inspiradora da ação individual, mas também como força capaz de suscitar novas vias para enfrentar os problemas do mundo de hoje e para renovar profundamente desde o interior das estruturas, organizações sociais, ordenamentos jurídicos. Nesta perspetiva, a caridade torna-se caridade social e política» (207), «não se esgota nas relações entre as pessoas, mas desdobra-se na rede em que tais relações se inserem, que é precisamente a comunidade social e política, e sobre esta intervém, visando o bem possível para a comunidade no seu conjunto» (208).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.1.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO QUARTO


Os extratos da Escritura oferecidos no quarto domingo (Ano B) podem ser resumidos nesta interpelação: «Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações» (salmo). Hoje, estou disposto a ouvir a palavra de Deus, mesmo quando me desconcerta? Escuto os profetas (primeira leitura) que, hoje, continuam a falar em nome de Deus? Vivo unido/a a Deus «sem desvios» (segunda leitura)? Reconheço a «autoridade» (evangelho) de Jesus Cristo?

«Porei as minhas palavras na sua boca»
A primeira leitura faz parte do «Código Deuteronómico» (11, 29 — 26, 15), dentro duma seção em que Moisés autoriza uma série de funções no seio da comunidade de Israel: juízes, rei, sacerdotes, profetas. Todos hão de servir para guiar e guardar o povo de Israel, de modo que a comunidade de fé possa manter a sua identidade e vocação como povo de Deus, especialmente nos momentos de maior tribulação.
Moisés fala de um profeta futuro que será semelhante a ele, mas sem precisar outros detalhes. A missão que lhe será confiada é a dar a conhecer ao povo os ensinamentos de Deus: «Porei as minhas palavras na sua boca».
O texto faz referência aos acontecimentos do Sinai (no Horeb), quando Deus confiou os dez mandamentos (cf. Êxodo 20, 1-17): Israel entendeu que a escuta direta das palavras de Deus era uma ameaça, de maneira que a partir daí a comunicação com Deus fez-se apenas através do mediador Moisés (e daqueles que, depois, continuaram a exercer a mesma função).
Segundo a tradição bíblica, Moisés foi o primeiro profeta: cumpre a dupla função de ser mediador entre Deus e o povo e porta-voz da palavra divina (se bem que, mais tarde, Moisés será apresentado como símbolo da Lei e Elias será o símbolo dos profetas).
O profeta tem a missão de dar continuidade às funções de Moisés: ser testemunha do Deus libertador do Êxodo, dos Mandamentos e da Aliança no Sinai. Trata-se de um compromisso ético que faz com que a vida de Israel seja tão comprometida (enquanto que os «outros deuses» são muito menos exigentes). A narração também recorda a hostilidade com que os profetas podem ser acolhidos entre o povo.
O profeta há de ser o responsável por dar a conhecer as palavras que o próprio Deus colocará «na sua boca». Por isso, é portador de uma autoridade profunda, que tem de ser levada a sério (pelo próprio e pelos outros) e respeitada por todos.

Para nós, cristãos, a profecia perpassa os vários momentos históricos descritos no Antigo Testamento até culminar em Jesus Cristo. Assim se compreende que Jesus Cristo, na sinagoga de Cafarnaúm, seja muito mais do que um simples «exorcista»; é um verdadeiro profeta que atua com a autoridade de Deus. Então, saboreamos o «diálogo» que se estabelece entre a primeira leitura e o evangelho, para nos dar a conhecer que a «autoridade» das palavras de Deus colocadas na boca de Jesus Cristo é também testemunhada pelos seus gestos. Este ensinamento com «autoridade», destacado pelo evangelista Marcos, é um sinal distintivo da missão profética de Jesus Cristo.

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo quarto (Ano B), no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.1.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO TERCEIRO


A Liturgia da Palavra do terceiro domingo (Ano B) sugere que não há tempo a perder para proclamar a Boa Nova, para entrar no caminho de conversão e acreditar no Evangelho: é por isso que Jonas se dirige à cidade de Nínive (primeira leitura), é esse o objetivo das palavras de Paulo (segunda leitura), é essa a mensagem central de Jesus Cristo (evangelho). Sim, «o tempo é breve», «cumpriu-se o tempo», não há tempo a perder: Jesus Cristo ressuscitado é o caminho (salmo) a seguir e a testemunhar com alegria.

«Acreditaram em Deus»
A primeira leitura propõe o capítulo terceiro do livro de Jonas (valeria a pena ler todo o livro, que é composto por quatro breves capítulos). Em rigor, não estamos perante uma profecia — a pregação de Jonas resume-se a uma frase: «Daqui a quarenta dias Nínive será destruída» —, mas perante uma narração didática a propósito do comportamento dum profeta.
Primeiro, Jonas nega-se a cumprir a missão confiada por Deus (primeiro capítulo): é um «antiprofeta» (a essência do profeta é «escutar e proclamar» a mensagem de Deus). Na sequência dos acontecimentos é atirado ao mar e engolido por um «grande peixe», em cujas entranhas permanece durante três dias e três noites; por fim, é vomitado «em terra firme» (segundo capítulo). Agora (terceiro capítulo), Jonas aceita a missão e dirige-se a Nínive para anunciar a destruição dessa grande cidade. O diálogo final entre Deus e Jonas (quarto capítulo) dá a conhecer o objetivo fundamental do livro: a misericórdia de Deus é universal.
«Daqui a quarenta dias, Nínive será destruída» — proclama Jonas, conforme a indicação dada por Deus. O desenrolar da narrativa causa surpresa porque se trata apenas de uma afirmação, de uma constatação, sem propor qualquer tipo de atitude. São os próprios habitantes da cidade que, de forma criativa, assumem uma atitude de arrependimento, para a qual não tinham sido convocados. A verdade é que essa atitude provoca um resultado eficaz e imediato: Deus «desistiu do castigo». De facto, a atitude dos ninivitas é surpreendente: «acreditaram em Deus».
Nínive é a cidade assíria por excelência, símbolo dos «inimigos» de Israel. Por isso, é merecedora do maior dos castigos: a destruição. Jonas representa o pensamento dominante: se Deus é justo não pode perdoar, tem de destruir a cidade. A surpresa e a novidade que Jonas não está disposto a aceitar é que Deus se compadece e desiste do castigo perante a conversão dos habitantes de Nínive.

O livro de Jonas ensina-nos a não dizer a Deus «o que tem de fazer», nem muito menos a colocar os nossos desejos na boca de Deus. Ao mesmo tempo, releva-nos um Deus misericordioso, um Deus capaz de transformar a desgraça anunciada em graça concretizada.
A fé (acreditar em Deus) supõe deixar que Deus leve por diante a sua obra salvadora, sempre aberta à misericórdia. Só assim poderemos degustar o sabor da conversão: não como resposta a uma ameaça divina, mas como fruto do acolhimento duma Boa Notícia revelada em (e por) Jesus Cristo.

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo terceiro (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.1.15 | Sem comentários

Viver a fé! [16]


O princípio da solidariedade (números 192 a 196) ocupa o sexto ponto do quarto capítulo («Os princípios da Doutrina Social da Igreja») do Compêndio da Doutrina Social da Igreja: significado e valor; a solidariedade como princípio social e como virtude moral; solidariedade e crescimento comum dos homens; a solidariedade na vida e na mensagem de Jesus Cristo.

Significado e valor

«A solidariedade confere particular relevo à intrínseca sociabilidade da pessoa humana, à igualdade de todos em dignidade e direitos, ao caminho comum dos homens e dos povos para uma unidade cada vez mais convicta. Nunca, como hoje, houve uma consciência tão generalizada do liame de interdependência entre os homens e os povos, que se manifesta em qualquer nível. A rapidíssima multiplicação das vias e dos meios de comunicação ‘em tempo real’ [...] estão a testemunhar que, pela primeira vez desde o início da história da humanidade, ao menos tecnicamente, é já possível estabelecer relações também entre pessoas muito distantes umas das outras ou desconhecidas. Em face do fenómeno da interdependência e da sua constante dilatação, subsistem, por outro lado, em todo o mundo, desigualdades muito fortes entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento, alimentadas também por diversas formas de exploração, de opressão e de corrupção que influem negativamente na vida interna e internacional de muitos Estados. O processo de aceleração da interdependência entre as pessoas e os povos deve ser acompanhado por um empenho no plano ético-social igualmente intensificado, para evitar as nefastas consequências de uma situação de injustiça de dimensões planetárias, destinada a repercutir-se muito negativamente até nos próprios países atualmente mais favorecidos» (192).

A solidariedade como princípio social e como virtude moral

A solidariedade apresenta-se sob dois aspetos complementares: princípio social e virtude moral. «A solidariedade deve ser tomada, antes de mais nada, no seu valor de princípio social ordenador das instituições, com base no qual devem ser superadas as ‘estruturas de pecado’ que dominam as relações entre as pessoas e os povos, superadas e transformadas em estruturas de solidariedade, mediante a criação ou a oportuna modificação de leis, regras do mercado, ordenamentos. A solidariedade é também uma verdadeira e própria virtude moral, não ‘um sentimento de compaixão vaga ou de enternecimento superficial pelos males sofridos por tantas pessoas, próximas ou distantes. Pelo contrário, é a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum; ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos’» (193).

Solidariedade e crescimento comum dos homens

«A mensagem da doutrina social acerca da solidariedade realça a existência de estreitos vínculos entre solidariedade e bem comum, solidariedade e destino universal dos bens, solidariedade e igualdade entre os homens e os povos, solidariedade e paz no mundo» (194). Neste sentido, «o princípio da solidariedade implica que os homens do nosso tempo cultivem uma maior consciência da dívida que têm para com a sociedade [...]. Uma tal dívida há de ser honrada nas várias manifestações do agir social, de modo que o caminho dos homens não se interrompa, mas continue aberto às gerações presentes e às futuras, chamadas juntas, umas e outras, a compartilhar na solidariedade o mesmo dom» (195).

A solidariedade na vida e na mensagem de Jesus Cristo

«O vértice insuperável da perspetiva indicada é a vida de Jesus de Nazaré, o Homem novo, solidário com a humanidade até à ‘morte de cruz’ (Filipenses 2, 8): n’Ele é sempre possível reconhecer o Sinal vivente daquele amor incomensurável e transcendente do Deus-connosco, que assume as enfermidades do seu povo, caminha com ele, o salva e constitui na unidade. N’Ele a solidariedade alcança as dimensões do mesmo agir de Deus. N’Ele, e graças a Ele, também a vida social pode ser redescoberta, mesmo com todas as suas contradições e ambiguidades, como lugar de vida e de esperança, enquanto sinal de uma graça que continuamente é oferecida a todos e que, enquanto dom, convida às formas mais altas e abrangentes de partilha. Jesus de Nazaré faz resplandecer aos olhos de todos os homens o nexo entre solidariedade e caridade» (196): a solidariedade cristã exprime-se em gratuitidade total, perdão, reconciliação, reconhecimento do outro como imagem viva de Deus, capacidade de dar a vida pelo outro (mesmo que seja inimigo).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.1.15 | Sem comentários

Viver a fé! [15]


Este tema corresponde aos pontos quarto e quinto do quarto capítulo («Os princípios da Doutrina Social da Igreja») do Compêndio da Doutrina Social da Igreja: o princípio da subsidiariedade (números 185 a 188); a participação (números 189 a 191). Apresenta-se a origem e significado do princípio da subsidariedade, seguidos de indicações concretas para a aplicação do referido princípio. Depois, surgem os conteúdos referentes ao significado e valor da participação, bem como à sua relação com a democracia.

Origem e significado

O princípio da subsidiariedade explica-se em dois sentidos (positivo e negativo): «ajuda económica, institucional, legislativa oferecida às entidades sociais menores»; «impõem ao Estado abster-se de tudo o que, de facto, restrinja o espaço vital das células menores e essenciais da sociedade» (186). De facto, o princípio da dignidade humana exige «que se cuide da família, dos grupos, das associações, das realidades territoriais locais, por outras palavras, daquelas expressões agregativas de tipo económico, social, cultural, desportivo, recreativo, profissional, político, às quais as pessoas dão vida espontaneamente e que lhes tornam possível um efetivo crescimento social» (185).

Indicações concretas

«O princípio da subsidiariedade protege as pessoas dos abusos das instâncias sociais superiores e chama estas últimas a ajudar os indivíduos e os corpos intermédios a desempenhar as próprias funções. Este princípio impõe-se porque cada pessoa, família e corpo intermédio tem algo de original para oferecer à comunidade. A experiência revela que a negação da subsidiariedade ou a sua limitação em nome de uma pretensa democratização ou igualdade de todos na sociedade limita e, às vezes, também anula o espírito de liberdade e de iniciativa. Com o princípio da subsidiariedade estão em contraste formas de centralização, de burocratização, de assistencialismo, de presença injustificada e excessiva do Estado [...]. À atuação do princípio da subsidiariedade correspondem: o respeito e a promoção efetiva do primado da pessoa e da família; a valorização das associações e das organizações intermédias, nas próprias opções fundamentais e em todas as que não podem ser delegadas ou assumidas por outros; o incentivo oferecido à iniciativa privada, de tal modo que cada organismo social, com as próprias peculiaridades, permaneça ao serviço do bem comum; a articulação pluralista da sociedade e a representação das suas forças vitais; a salvaguarda dos direitos humanos e das minorias; a descentralização burocrática e administrativa; o equilíbrio entre a esfera pública e a privada, com o consequente reconhecimento da função social do privado; uma adequada responsabilização do cidadão no seu ‘ser parte ativa’ da realidade política e social do País» (187). Contudo, «diversas circunstâncias podem aconselhar a que o Estado exerça uma função de suplência. [...] Em todo caso, o bem comum corretamente entendido, cujas exigências não deverão de modo algum estar em contraste com a tutela e a promoção do primado da pessoa e das suas principais expressões sociais, deverá continuar a ser o critério de discernimento no que diz respeito à aplicação do princípio da subsidiariedade» (188).

A participação: significado e valor

A participação, uma «consequência caraterística da subsidiariedade», exprime-se «numa série de atividades mediante as quais o cidadão, como indivíduo ou associado com outros, diretamente ou por meio de representantes, contribui para a vida cultural, económica, política e social da comunidade civil a que pertence: a participação é um dever a ser conscientemente exercitado por todos, de modo responsável e em vista do bem comum. [...] Torna-se imprescindível a exigência de favorecer a participação» (189).

Participação e democracia

«A participação na vida comunitária não é somente uma das maiores aspirações do cidadão, chamado a exercitar livre e responsavelmente o próprio papel cívico com e pelos outros, mas também um dos pilares de todos os ordenamentos democráticos, além de ser uma das maiores garantias de permanência da democracia» (190). «A participação pode ser obtida em todas as possíveis relações entre o cidadão e as instituições [...]. A superação dos obstáculos culturais, jurídicos e sociais que não raro se interpõem como verdadeiras barreiras à participação solidária dos cidadãos na sorte da própria comunidade exige uma autêntica obra informativa e educativa» (191). Reprova-se, portanto, tudo o que possa impedir a participação: os regimes totalitários, ditatoriais ou de atuação semelhante; a burocracia exagerada.

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.1.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO SEGUNDO


Este é um domingo de «transição»: a primeira semana do Tempo Comum começa na segunda-feira depois do Batismo de Jesus; portanto, não existe o primeiro domingo do Tempo Comum. Daí que este seja o segundo domingo (Ano B), mas ainda sem a proclamação do evangelho de Marcos (evangelista do Ano B). Em qualquer dos anos, neste domingo, é sempre proposto um texto retirado do evangelho de João.
Hoje, destaca-se o apelo à missão: chamamento de Samuel (primeira leitura) e dos primeiros discípulos (evangelho). Paulo (segunda leitura) sublinha que toda a pessoa tem consigo a «marca» de Deus: o Espírito Santo. Então, compete-nos «fazer a vontade» (salmo) divina.

«O Senhor estava com ele»
O texto da primeira leitura descreve a vocação de Samuel, um personagem que se tornará central na vida e na política do povo de Israel. É passagem de um tempo antigo — representado pelo sacerdote Heli — para o tempo novo «provocado» por Deus. De facto, a narração mostra com clareza que Deus é um interveniente decisivo na história: aparece como uma voz imponente e incómoda, mas não inoportuna.
O jovem Samuel não reconhece a voz, confunde-a com a voz de Heli. Pensa que é o sacerdote quem o chama a partir dos seus aposentos. «À terceira é de vez»: o sacerdote percebe que se trata da voz de Deus e convida Samuel a responder com disponibilidade para escutar. Foi preciso a colaboração de alguém experiente para ajudar o jovem a discernir a proveniência do chamamento!
Este é um texto paradigmático para compreender a vocação em todos os tempos: Deus toma a iniciativa, aproxima-se, chama pelo nome, insiste segunda e terceira vez; Samuel deixa-se surpreender pelo chamamento, abre-se à novidade, deixa-se ajudar no discernimento, exprime disponibilidade: «Falai, Senhor, que o vosso servo escuta».
O verbo «escutar» é preponderante na Sagrada Escritura e em toda a experiência espiritual, como se expressa no coração da fé de Israel: «Escuta, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. As palavras que te prescrevo ficarão gravadas no teu coração» (Deuteronómio 6, 4-6).
O jovem Samuel recebe um ensinamento decisivo: a vida de fé consiste em escutar a voz de Deus. Ao mostrar-se disponível para escutar, «o Senhor estava com ele». E Deus continua a estar com aqueles e aquelas que, hoje, reconhecem a sua voz, que aprendem a «saborear» a sua presença. Como aqueles homens do evangelho que «foram ver onde [Jesus] morava e ficaram com Ele nesse dia».

Os (cinco) domingos que antecedem o início da Quaresma são adequados para fazermos o exercício de saborear calmamente a presença de Deus. «A Bíblia é para comer» — escreve o padre José Tolentino Mendonça, numa das reflexões que compõem a segunda parte da obra «A mística do instante» (ed. Paulinas). Saborear Deus! Saborear a Bíblia, palavra de Deus! O desafio consiste em aprimorar o paladar, em fazer um «MasterChef» da saborosa presença de Deus na nossa vida.

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo segundo (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.1.15 | Sem comentários

SABOREAR A PRESENÇA DE DEUS


«A Bíblia é para comer» — escreve José Tolentino Mendonça, numa das notas que compõem a segunda parte da obra «A mística do instante» (ed. Paulinas). Saborear Deus! Saborear a Bíblia, palavra de Deus! Eis o «sentido» que propomos para os domingos do «Tempo Comum». O facto de, em português, assumir a designação de «comum» não significa que se trata de um tempo «fraco» (em contraponto com os chamados tempos «fortes»), pelo contrário é um «tempo fortíssimo» (Mario Chesi). O itinerário que propomos consiste em aprimorar o paladar, em fazer um «MasterChef» da saborosa presença de Deus na vida de cada ser humano. «Um grande mestre e pedagogo brasileiro, Rubem Alves [faleceu o ano passado], dizia que a coisa mais importante é a cozinha. Um professor, antes de levar o aluno para a sala, devia fazê-lo passar pela cozinha. A cozinha não dá o alimento, dá o desejo. O paladar não é uma máquina de satisfação, é uma máquina de criar desejo» (José Tolentino Mendonça), criar desejo de Deus!

Tempo Comum: saborear Deus

Um dos aspetos mais significativos do Ano Litúrgico é sua dinâmica contemplativa: em primeiro lugar, centra-se na vida de Jesus Cristo; em segundo lugar, envolve-nos na vida de um povo com o qual Deus preparou a realização desses acontecimentos. Vamos (continuar a) concentrar a nossa atenção neste segundo aspeto, apoiados nos textos bíblicos da primeira leitura de cada domingo. Mas sem deixar de lado o primeiro, até porque as primeiras leituras (ao domingo) procuram «um ato, uma profecia ou um ensinamento do Antigo Testamento que tenha relação com o evangelho que se lerá e nos prepare um pouco para o escutar. Às vezes, como são pedaços curtos e como não estamos, porventura, muito formados no conhecimento do Antigo Testamento, estas primeiras leituras passam um pouco despercebidas. Se temos tempo e vontade, pode ser bom procurá-las na Bíblia e ler a passagem anterior e posterior, com as notas de pé de página que possa haver, e assim ficaremos mais inteirados e passaremos a conhecer um pouco melhor os livros do Antigo Testamento» (Josep Lligadas, «Celebrar o Ano Litúrgico», ed. Paulinas).
Acompanhar a vida dum povo, através dos textos proclamados na primeira leitura de cada domingo, permite-nos saborear cada palavra e cada gesto para neles descobrir o sabor de Deus, não só nesses acontecimentos narrados, mas também na nossa própria história. «Quando é que saboreamos? Quando detemos o mero exercício de devoração do mundo; quando se introduz uma lentidão interior; quando contemplamos com as papilas gustativas; quando o nosso corpo contempla; quando, todo concentrado, ele observa, surpreende-se, avizinha, entreabre o segredo, deixa essa espécie de epifania revelar-se. O sabor é sempre uma forma de intimidade que supõe o contacto profundo» (José Tolentino Mendonça).
A meta é compreendermos que «o paladar não é indiferente ao amor de Deus como não é de todo indiferente a qualquer amor. Deus saboreia-se, Deus é sabor». Ora, «o sabor não é uma coisa que possuímos exteriormente; é, como em todas as experiências que requerem uma arte de ser, uma coisa em que nos tornamos».

Laboratório da Fé vivida

«O sabor revela, ilumina, dissemina-se por dentro de nós até tornar-se vida». A sequência dos domingos «durante o ano» (interrompida pelos tempos de Quaresma e Páscoa) é um tempo adequado para fazermos o exercício de saborear calmamente a presença de Deus na nossa vida. Calmamente, pois «sem lentidão não há paladar. Talvez precisemos, por isso, de voltar a essa arte tão humana que é a lentidão. Os nossos estilos de vida parecem irremediavelmente contaminados por uma pressão que não dominamos; não há tempo a perder; queremos alcançar as metas o mais rapidamente que formos capazes; os processos desgastam-nos, as perguntas atrasam-nos, os sentimentos são um puro desperdício: dizem-nos que temos de valorizar resultados, apenas resultados. […] Uma alternativa será porventura resgatar a nossa relação com o tempo. Por tentativas, por pequenos passos. Ora, isso não acontece sem um abrandamento interno. […] A lentidão anota os pequemos tráficos de sentido, o manuseamento diversificado da luz, as trocas de sabor».

© Laboratório da fé, 2015


Tempo Comum, Ano B, Ano Pastoral 2014'15

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.1.15 | Sem comentários

Viver a fé! [14]


O terceiro ponto do quarto capítulo («Os princípios da Doutrina Social da Igreja») do Compêndio da Doutrina Social da Igreja é dedicado ao princípio do destino universal dos bens (números 171 a 184). Este é apresentado como uma das «multíplices implicações do bem comum» (171) [cf. tema 13]. A apresentação que se segue é desenvolvida em três alíneas: origem e significado (números 171 a 175); destino universal dos bens e propriedade privada (números 176 a 181); destino universal dos bens e opção preferencial pelos pobres (números 182 a 184).

Origem e significado

O princípio do destino universal dos bens tem a sua origem em Deus «que criou a Terra e o homem e ao homem deu a Terra para que a domine com o seu trabalho e goze dos seus frutos [...], sem excluir nem privilegiar ninguém» (171). Por isso, «o princípio do destino universal dos bens da Terra está na base do direito universal ao uso dos bens» (172). Trata-se de um direito natural, fundamental e prioritário. Contudo, «a atuação concreta» deste princípio «implica uma precisa definição dos modos, dos limites, dos objetos. Destino e uso universal não significam que tudo esteja à disposição de cada um ou de todos, nem mesmo que a mesma coisa sirva ou pertença a cada um ou a todos» (173). Além disso, «o princípio do destino universal dos bens convida a cultivar uma visão da economia inspirada em valores morais que permitam nunca perder de vista nem a origem, nem a finalidade de tais bens, de modo a realizar um mundo equitativo e solidário» (174). «Comporta, portanto, um esforço comum que visa obter para qualquer pessoa e para todos os povos as condições necessárias ao desenvolvimento integral, de modo que todos possam contribuir para a promoção de um mundo mais humano» (175).

Destino universal dos bens e propriedade privada

A origem da propriedade individual ou privada radica na capacidade dada a cada ser humano de «dominar a Terra e torná-la sua digna morada. [...] É elemento essencial de uma política económica autenticamente social e democrática» (176). Note-se, porém, que «a tradição cristã nunca reconheceu o direito à propriedade privada como absoluto e intocável: ‘Pelo contrário, sempre o entendeu no contexto mais vasto do direito comum de todos a utilizarem os bens da criação» (177). Por conseguinte, a Igreja «exorta a reconhecer a função social de qualquer forma de posse privada, com a clara referência às exigências imprescindíveis do bem comum» (178). Entretanto, o tempo atual «impõe uma releitura do princípio do destino universal dos bens da Terra, tornando necessário estendê-lo de sorte a que compreenda também os frutos do recente progresso económico e tecnológico» (179). «Não se pode, todavia, esquecer as tradicionais. A propriedade individual não é a única forma legítima de posse. Reveste também particular importância a antiga forma de propriedade comunitária» (180). Uma nota final sobre as vantagens da propriedade — «melhores condições de vida, segurança para o futuro, oportunidades de escolha mais amplas» — , mas também dos perigos («promessas ilusórias e tentadoras»): ao «absolutizar o papel da propriedade acabam por experimentar a mais radical escravidão» (181).

Destino universal dos bens e opção preferencial pelos pobres

«A miséria humana é o sinal manifesto da condição de fragilidade do homem e da sua necessidade de salvação. Dela teve compaixão Cristo Salvador, que Se identificou com os seus ‘irmãos mais pequeninos’ (Mateus 25)» (183). Por isso, «o princípio do destino universal dos bens requer que se cuide com particular solicitude dos pobres, daqueles que se acham em posição de marginalidade e, em todo o caso, das pessoas cujas condições de vida impedem o seu crescimento adequado [...], não pode deixar de abranger as imensas multidões de famintos, de mendigos, sem-teto, sem assistência médica e, sobretudo, sem esperança de um futuro melhor» (182). Ora, «o amor da Igreja pelos pobres inspira-se no Evangelho das bem-aventuranças, na pobreza de Jesus e na sua atenção aos pobres. Tal amor refere-se à pobreza material e também às numerosas formas de pobreza cultural e religiosa. A Igreja, ‘desde as origens, apesar das falhas de muitos dos seus membros, nunca deixou de trabalhar por aliviá-los, defendê-los e libertá-los; fê-lo através de inúmeras obras de beneficência, que continuam indispensáveis, sempre e em toda a parte’. Inspirada no preceito evangélico [...], a Igreja ensina a socorrer o próximo nas suas várias necessidades e difunde na comunidade humana inúmeras obras de misericórdia corporais e espirituais» (184).

© Laboratório da fé, 2015 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.1.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO DO BATISMO DE JESUS


No domingo da celebração do Batismo de Jesus (Ano B), a palavra de Deus — palavra fecunda, eficaz, que há de dar frutos na nossa vida — diz-nos como é o amor de Deus pela Humanidade: vai até ao ponto de estabelecer connosco uma «aliança eterna» (primeira leitura), plenamente realizada em Jesus Cristo, seu «Filho muito amado» (evangelho). E nós somos chamados a deixar-nos amar, a acreditar n’Aquele que nos salva (segunda leitura), a anunciar as maravilhas de Deus a todos os povos com alegria (salmo). O acontecimento do batismo de Jesus por João, no rio Jordão, com a descida do Espírito e a voz do Pai, revela a força trinitária do testemunho de amor que, desde então, se dá a conhecer ao mundo.

«Saboreareis manjares suculentos»
O fragmento da primeira leitura pertence à secção final da segunda parte do livro de Isaías («Segundo Isaías» ou «Deutero Isaías»: capítulos 40 a 55), que se situa na época do exílio na Babilónia, no século quarto antes de Cristo. É uma proclamação jubilosa do regresso dos exiliados a Jerusalém.
O poeta-profeta começa com um contraste muito vivo entre as formas de vida sob o domínio dos babilónios e a nova oferta de vida dada por Deus. O verso inicial, à maneira de um pregão dito por um vendedor, oferece água, vinho e leite, gratuitamente. O contraste com as formas de vida no tempo do opressor é absoluto. Israel é convidado a escolher os novos alimentos oferecidos por Deus. E o resultado é este: «saboreareis manjares suculentos». Trata-se do anúncio da nova aliança oferecida por Deus aos oprimidos.
A última parte da passagem profética abandona a metáfora da comida e passa a falar diretamente da promessa de fidelidade feita por Deus a David, que agora é ampliada a toda a comunidade de Israel. O pacto que Deus oferece é de fidelidade, uma fidelidade que comporta vida — «escutai-Me e vivereis» —, porque o Deus que fala e que convida — «vinde a Mim» — é um Deus vivo e dador de vida a todos os que estão dispostos a escutar e a acolher a sua proposta. Estes são os caminhos de Deus, são os seus pensamentos, sempre superiores aos nossos.
Por fim, o poder de Deus é vinculado à ação da chuva e da neve. Ambas produzem coisas tangíveis na terra. O resultado é regular e digno de confiança: a terra é alimentada e a criação é sustentada. A palavra de Deus também é assim: produz um futuro novo para o povo de Israel.
Não deixa de ser uma maravilha escutar que Deus nunca abandonará o seu desígnio de salvação: a sua palavra, o seu amor, não serão infecundos, antes pelo contrário, cumprirão a sua vontade, realizarão a sua missão. Deus promete-nos o que há de melhor: «saboreareis manjares suculentos».

Hoje, sabemos que, em Jesus Cristo, Deus estabelece connosco a «nova e eterna aliança». Uma aliança jamais irrevogável porque não depende da nossa fidelidade, mas da fidelidade de Deus. A nossa fidelidade consiste, sobretudo, em acolher o rosto bondoso de Deus como fonte de paz e de vitalidade.

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar o domingo do Batismo de Jesus (Ano B), no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.1.15 | Sem comentários

Reflexão mensal sobre as obras de misericórdia [4]


«Partilhar a roupa é um gesto de intimidade que implica delicadeza, discrição e ternura, pois tem diretamente a ver com o corpo do outro, [...] o rosto descoberto, que permanece nu. [...] Só na medida em que o ‘vestir os nus’ é encontro de nudez, a nudez do rosto de quem dá e do rosto de quem recebe, e sobretudo a nudez dos olhos, que são a parte mais exposta do rosto esse gesto deixa de correr o risco de ser humilhante, e dá-se no único espaço que confere verdade a cada gesto de caridade: o encontro com o outro» (Luciano Manicardi).

A nudez

«Saí nu do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá» (Job 1, 21). A vida humana desenrola-se entre duas nudezas: a nudez do início da vida, e a nudez do fim da vida. Duas nudezas diferentes porque, no meio ocorre o processo de subjetivação: se nascemos nus, no fim da vida despojamo-nos [das vestes]. Como é óbvio, trata-se de um processo físico que tem a ver com a nudez do recém-nascido e com a nudez do morto, mas também tem um valor psicológico e simbólico: no fim da vida abandonamos aquilo a que nos tínhamos ligado, deixamos aquilo a que nos tínhamos habituado, vivemos um luto. Neste processo, a carne que o recém-nascido é torna-se corpo, e o corpo, com a morte, torna-se cadáver. Além disso, a nudez do recém-nascido e do cadáver é sempre revestida por outros, enquanto, na fase da subjetividade, o ser humano se veste a si próprio, exceto nos casos de impossibilidade por doença ou deficiência. O ato de vestir a nudez do início e do fim da vida coloca toda a existência humana sob o signo dos cuidados necessários ao nosso ser-corpo. O vestir-se é uma arte que a criança aprende, graças à mãe que o veste; mais tarde, o ancião tem muitas vezes de pedir ajuda para se vestir e para se despir. Além disso, ao longo da sua vida, há situações de pobreza e de miséria que podem despojar dos bens e reduzir à nudez, uma nudez que significa não só exposição às inclemências do tempo, mas também humilhação, indignidade, inermidade, ausência de defesas, perigo. A nudez é abandono ao estado natural, ao passo que o vestir é obra de cultura e distingue o humano dos animais. A roupa traduz o sentido de pudor que talvez seja o mais antigo gesto que nos distingue dos animais e que não se limita ao âmbito sexual, mas que abarca a totalidade do ser humano.

Vestir os nus

Não ter roupa ou estar quase nus ou cobertos de farrapos é uma condição que tem importantes conotações psicológicas e espirituais. Na Bíblia, uma boa parte do valor simbólico da nudez é negativa: trata-se da nudez que retira identidade, da nudez do anónimo, do sem dignidade: o escravo que é vendido, o preso privado da liberdade, a prostituta exposta aos olhares de todos, o doente mental que vive numa condição de alienação. A Bíblia mostra particular interesse pela nudez inocente e humilhada do pobre, da vítima, do marginal. A simples referência à mesma significa já dar voz a quem não tem voz e pretende suscitar a compaixão ativa de quem depara com tais situações. Na tradição cristã ocidental, o gesto de vestir os nus é expresso, de um modo conhecido de todos, pelo episódio em que Martinho de Tours corta o próprio manto para reparti-lo com um pobre indefeso dos rigores de um inverno gélido. O revestimento da nudez não se encontra apenas no início da vida humana e da passagem da natureza à cultura, mas também tem uma importância significativa na iniciação cristã, como o denota a antiga práxis batismal (do século III ao século VI). No fim do século IV, na região siríaca, o desenrolar do rito batismal compreendia o ato com o qual o/a neófito/a se despojava das próprias vestes e as espezinhava; a unção do seu corpo nu; a imersão (ainda completamente nu) nas águas batismais; e, por fim, o ato pelo qual, tendo saído da piscina, o neobatizado era revestido com uma túnica branca. A nudez gloriosa de Cristo morto (na cruz, o condenado estava completamente nu, para significar a sua indignidade) e ressuscitado reveste e protege o recém-batizado, que agora sabe que já se encontra mergulhado numa vida nova, tendo-se «revestido de Cristo»: «Batizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo» (Gálatas 3, 27).

A consolação

A consolação é uma prática que o ser humano enquanto tal conhece, deseja, pede, concretiza, frente às situações de morte, de sofrimento físico e moral, de velhice, de solidão e abandono; ou melhor, frente a pessoas enlutadas, em sofrimento, entregues à sua velhice, isolamento e abandono. A Antiguidade desenvolveu uma verdadeira arte da consolação que se foi diversificando em relação às diversas situações de aflição (um luto também é diferente se se refere a uma morte inesperada, a uma morte trágica, à morte de uma criança recém-nascida, à morte de um filho já crescido, a uma morte prematura ou à morte de um idoso). A arte de consolar consistia numa presença compassiva, na capacidade de proferir palavras sentidas como expressão de encorajamento e de proximidade, através de visitas de condolências e de bilhetes ou cartas em tom consolador. O verbo grego que indica o ato de consolar («parakalein»), significa, a um primeiro nível, «chamar para junto de si», «mandar chamar», significa em seguida «exortar», «suplicar» e também «consolar». Mediante a consolação tenta-se criar uma proximidade, fazer «presença junto de» quem está na desolação e no isolamento. É certo que, por vezes, a consolação pode ser transmitida por palavras. Na primeira carta aos cristãos de Tessalónica, Paulo anuncia a esperança cristã frente à morte para consolar uma comunidade aflita com a morte de alguns dos seus membros, e conclui: «Consolai-vos mutuamente com estas palavras» (4, 18). Todavia, muitas vezes, sobretudo quando quem está na aflição é uma única pessoa, as palavras revelam-se inadequadas, ou antes, inimigas de uma verdadeira consolação. Os amigos que foram ter com Job «para consolá-lo», depois de se terem colocado ao lado do desventurado com lamentos, prantos, gestos de luto e, por fim e acima de tudo, com um longo silêncio, «pois viram que a sua dor era demasiado grande» (Job 2, 11-13), quando começaram a falar arruinaram a sua presença ali, revelando-se «consoladores importunos» (Job 16, 2). E Job sabe desmascarar a consolação falsa e vazia. Uma verdadeira consolação consiste numa presença capaz de escuta. Uma presença que não avilta a desgraça do aflito com palavras falsamente tranquilizantes e ilusoriamente espirituais, com discursos teológicos, que, inevitavelmente, não alcançam a tragédia que a pessoa está a viver, antes, dela se distanciam. Muitas vezes, apressar discursos é sinal de angústia e de medo frente à aflição do aflito. Mais difícil, mas mais capaz de alcançar o outro na sua dor, é escutar o seu sofrimento, deixar que seja o seu silêncio, o seu estado de espírito, a sugerir gestos, tempos, movimentos, silêncios, palavras, olhares, abraços, carícias, distâncias, para lhes poderem servir realmente de consolação.

Consolar os tristes

A consolação tem os seus tempos, tal como a tristeza. Temos de nos despojar das formas de «poder» que nos podem habitar, de renunciar às respostas salvíficas, à ilusão de possuir «técnicas» de consolação. Além disso, aquele que se faz próximo de quem está «triste» nunca poderá substituí-lo, caso contrário, a sua ação será de violência, e não de encontro nem de consolação. Vital, na ação de consolação, é evitar a presunção de que se sabe e pode consolar, do delírio de omnipotência de pensar que o bem-estar do outro dependa de nós. A consolação não é uma intervenção anestésica. Trata-se de entrar, de certo modo, na situação do outro, ou melhor, de estar ao lado do outro e de mostrar empatia comunicando-lhe o nosso sentimento, que ocorre mediante uma sábia e equilibrada relação de tensão do corpo, atenção da mente e sensibilidade das emoções. Realidade desanimadora, pelo contrário, é que, muitas vezes, não há quem console. Na Bíblia repete-se com frequência esta lamentação: «Esperava alguém que me consolasse, mas não encontrei» (Salmo 69, 21), ou esta amarga constatação: «Vede as lágrimas dos oprimidos: eles não têm consolador. Os seus opressores fazem-lhes violência: eles não têm consolador» (Eclesiastes 4, 1). Entre as expressões usadas há o «falar ao coração» (Génesis 50, 21; Isaías 40, 1-2), que designa o gesto amoroso e afetuoso de quem apoia a cabeça sobre o peito da pessoa amada e lhe dirige palavras que pretendem atingi-la profundamente, no coração. Trata-se de uma comunicação íntima e pessoalíssima. Se o próprio Deus é o verdadeiro sujeito da consolação, a sua ação de consolador é descrita recorrendo às imagens de uma mãe (cf. Isaías 66, 13) e de um pastor (cf. Isaías 40, 11). Assim, a consolação revela-se como elemento essencial do cuidado que Deus tem pelo seu povo e pelas suas criaturas, cuidado esse que tende para a plenitude de vida do seu povo. É significativo que a imagem talvez mais comovente, que exprime a salvação escatológica, seja a de Deus que enxuga as lágrimas dos olhos das criaturas (cf. Apocalipse 7, 17; 21, 4). É verdade que a consolação definitiva, no Cristianismo, é escatológica, é obra de Deus, porque pretende ser consolação radical frente ao mal e ao pecado. Esta consolação só pode vir de Deus.

Entre as mais praticáveis... 
obras de misericórdia espirituais, 
há uma sempre necessária [...]: 
consolar os aflitos. 
A civilização contemporânea 
teme os aflitos e foge deles, 
e não sabe transmitir 
o contágio da consolação.
Paolo de Benedetti

© Laboratório da fé, 2015
Este texto foi elaborado a partir da obra de Luciano Manicardi intitulada «A caridade dá que fazer: Redescobrindo a atualidade das ‘obras de misericórdia’» (páginas 103 a 110 e 179 a 186) publicada em português pelas edições Paulinas





Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.1.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO DA EPIFANIA


A Epifania dá a plenitude ao Natal. A Luz atinge a sua máxima intensidade! Esta luz, a luz do Natal, é para todos os povos (primeira leitura), pois a realização das promessas diz respeito a todos (segunda leitura), a estrela que brilha na noite pode pôr a caminho quem quer que levante os olhos e se deixe conduzir por ela (evangelho). Se, como os Magos, observamos o sinal da salvação, se estamos dispostos a deixar-nos inquietar pelos apelos de Deus, escutemos a sua Palavra: ela revela-nos o seu amor por todos os homens e mulheres; e recorda-nos a nossa missão de anunciar aos fracos e aos pobres (salmo) que Deus vem para nos salvar.

«Quando o vires ficarás radiante, palpitará e dilatar-se-á o teu coração» 
A Liturgia da Palavra abre com uma maravilhosa visão do profeta Isaías. Desde o primeiro momento, a proclamação do texto tem de levar o ouvinte a perceber o entusiasmo do profeta!
Israel, ao longo da história, passou por profundos períodos de escuridão (o exílio na Babilónia, por exemplo). Agora, chega a época da luz. Uma luz que é um dom de Deus.
Num primeiro momento, os verbos pertencem ao campo semântico da luz: a aurora e o amanhecer impõem-se à noite e à escuridão. Depois, aparecem as imagens dos peregrinos em direção à cidade, não para fazer aumentar a pobreza, mas para encher a cidade de tesouros. O texto é um hino à esperança na restauração de Jerusalém, ainda desolada, mas convidada a olhar para um futuro cheio de prosperidade: «Quando o vires ficarás radiante, palpitará e dilatar-se-á o teu coração».
O profeta Isaías apresenta a vinda de Deus como a vinda da Luz: uma luz que brilha no meio do mundo. Jerusalém e os seus habitantes transformam-se em sinal da presença de Deus. A profecia proposta para o domingo da Epifania (popularmente designado como «dia de Reis») faz de nós — ouvintes e destinatários — testemunhas do extraordinário movimento realizado em Jerusalém: da escuridão para a luz, do desespero para a esperança, da consternação para a tranquilidade, da tristeza para a alegria.
A Luz de Deus põe fim ao exílio. Israel, ao longo da história, tinha sido sempre um povo de segunda categoria, entre vizinhos ricos e poderosos. A partir de agora, as coisas vão mudar: as riquezas excêntricas das nações, com as quais antes nem sequer podia sonhar, são agora oferecidas ao povo de Deus. Jerusalém tornar-se o lugar da luz que brilha sobre o mundo. Contudo, convém recordar que o centro não é o «lugar» mas a própria luz: as riquezas levadas a Jerusalém são para adorar o Senhor, para proclamar «as glórias do Senhor».

No anúncio do acontecimento cristão, mantém-se a centralidade da Luz (estrela), mas dá-se uma deslocação do «lugar» e do «conteúdo»: os tesouros do oriente não se dirigem para Jerusalém, mas para Belém; a riqueza trazida não é tanto a material («tesouros do mar… riquezas das nações»), quanto a que «revela» o mistério do Menino diante do qual se hão de prostrar os Magos (a profecia refere ouro e incenso; falta a mirra do evangelho).

© Laboratório da fé, 2014

Celebrar o domingo da Epifania (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.1.15 | Sem comentários

Viver a fé! [13]


«Da dignidade, unidade e igualdade de todas as pessoas deriva, antes de tudo, o princípio do bem comum, com o qual se deve relacionar cada aspeto da vida social para encontrar pleno sentido» (número 164) — assim começa o segundo ponto do quarto capítulo («Os princípios da Doutrina Social da Igreja») do Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Este ponto é dedicado ao princípio do bem comum que vamos resumir neste tema de acordo com as seguintes alíneas: «significado e principais implicações» (números 164 e 165); «a responsabilidade de todos pelo bem comum» (números 166 e 167); «as tarefas da comunidade política» (números 168 a 170).

Significado e principais implicações

Para chegarmos ao significado do «bem comum» podemos partir da seguinte definição: o bem comum, que «pode ser entendido como a dimensão social e comunitária do bem moral», compreende «‘o conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição’. O bem comum não consiste na simples soma dos bens particulares de cada sujeito do corpo social. Sendo de todos e de cada um, é e permanece comum, porque indivisível e porque somente juntos é possível alcançá-lo, aumentá-lo e conservá-lo, também em vista do futuro. Assim como o agir moral do indivíduo se realiza fazendo o bem, assim o agir social alcança a plenitude realizando o bem comum» (164). Ora, «uma sociedade que, em todos os níveis, quer intencionalmente estar ao serviço do ser humano é a que se propõe como meta prioritária o bem comum, enquanto bem de todos os homens e do homem todo. A pessoa não pode encontrar plena realização somente em si mesma, prescindindo do seu ser ‘com’ e ‘pelos’ outros» (165).

A responsabilidade de todos pelo bem comum

«O bem comum empenha todos os membros da sociedade: ninguém está escusado de colaborar, de acordo com as próprias possibilidades, na sua busca e no seu desenvolvimento» (167). E «todos têm também o direito de fruir das condições de vida social criadas pelos resultados da consecução do bem comum» (167). Neste sentido, «as exigências do bem comum derivam das condições sociais de cada época e estão estreitamente conexas com o respeito e com a promoção integral da pessoa e dos seus direitos fundamentais» (166), tais como: o empenho pela paz, a organização dos poderes do Estado, uma sólida ordem jurídica, a proteção do ambiente, a prestação dos serviços essenciais à pessoa (alimentação, habitação, trabalho, educação, cultura, saúde, transportes, livre circulação das informações e liberdade religiosa). Por conseguinte, «o bem comum corresponde às mais elevadas inclinações do ser humano, mas é um bem difícil de alcançar, porque exige a capacidade e a busca constante do bem de outrem como se fosse próprio» (167). Além disso, «o bem comum exige ser servido plenamente, não segundo visões redutoras subordinadas às vantagens parciais que dele se podem retirar, mas com base numa lógica que tende à mais ampla responsabilização. [...] Soa ainda atual o ensinamento de Pio XI segundo o qual se deve procurar que a repartição dos bens criados, a qual não há quem não reconheça ser hoje causa de gravíssimos inconvenientes pelo contraste estridente que há entre os poucos ultrarricos e a multidão inumerável dos indigentes, seja reconduzida à conformidade com as normas do bem comum e da justiça social» (167).

As tarefas da comunidade política

«A responsabilidade de perseguir o bem comum compete não só às pessoas consideradas individualmente, mas também ao Estado, pois que o bem comum é a razão de ser da autoridade política. Na verdade, o Estado deve garantir coesão, unidade e organização à sociedade civil da qual é expressão, de modo que o bem comum possa ser conseguido com o contributo de todos os cidadãos» (168). O Estado «tem a tarefa específica de harmonizar com justiça os diversos interesses setoriais», tendo em conta, não só «as orientações da maioria, mas também na perspetiva do bem efetivo de todos os membros da comunidade civil, inclusive dos que estão em minoria» (169). A terminar recorda-se que «o bem comum da sociedade não é um fim isolado em si mesmo; ele tem valor somente em referência à obtenção dos fins últimos da pessoa e ao bem comum universal de toda a criação. [...] Uma visão puramente histórica e materialista acabaria por transformar o bem comum em simples bem-estar económico, destituído de qualquer finalização transcendente ou da sua mais profunda razão de ser» (170).

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.1.15 | Sem comentários
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