CELEBRAR O DOMINGO DA EPIFANIA


A Epifania dá a plenitude ao Natal. A Luz atinge a sua máxima intensidade! Esta luz, a luz do Natal, é para todos os povos (primeira leitura), pois a realização das promessas diz respeito a todos (segunda leitura), a estrela que brilha na noite pode pôr a caminho quem quer que levante os olhos e se deixe conduzir por ela (evangelho). Se, como os Magos, observamos o sinal da salvação, se estamos dispostos a deixar-nos inquietar pelos apelos de Deus, escutemos a sua Palavra: ela revela-nos o seu amor por todos os homens e mulheres; e recorda-nos a nossa missão de anunciar aos fracos e aos pobres (salmo) que Deus vem para nos salvar.

«Quando o vires ficarás radiante, palpitará e dilatar-se-á o teu coração» 
A Liturgia da Palavra abre com uma maravilhosa visão do profeta Isaías. Desde o primeiro momento, a proclamação do texto tem de levar o ouvinte a perceber o entusiasmo do profeta!
Israel, ao longo da história, passou por profundos períodos de escuridão (o exílio na Babilónia, por exemplo). Agora, chega a época da luz. Uma luz que é um dom de Deus.
Num primeiro momento, os verbos pertencem ao campo semântico da luz: a aurora e o amanhecer impõem-se à noite e à escuridão. Depois, aparecem as imagens dos peregrinos em direção à cidade, não para fazer aumentar a pobreza, mas para encher a cidade de tesouros. O texto é um hino à esperança na restauração de Jerusalém, ainda desolada, mas convidada a olhar para um futuro cheio de prosperidade: «Quando o vires ficarás radiante, palpitará e dilatar-se-á o teu coração».
O profeta Isaías apresenta a vinda de Deus como a vinda da Luz: uma luz que brilha no meio do mundo. Jerusalém e os seus habitantes transformam-se em sinal da presença de Deus. A profecia proposta para o domingo da Epifania (popularmente designado como «dia de Reis») faz de nós — ouvintes e destinatários — testemunhas do extraordinário movimento realizado em Jerusalém: da escuridão para a luz, do desespero para a esperança, da consternação para a tranquilidade, da tristeza para a alegria.
A Luz de Deus põe fim ao exílio. Israel, ao longo da história, tinha sido sempre um povo de segunda categoria, entre vizinhos ricos e poderosos. A partir de agora, as coisas vão mudar: as riquezas excêntricas das nações, com as quais antes nem sequer podia sonhar, são agora oferecidas ao povo de Deus. Jerusalém tornar-se o lugar da luz que brilha sobre o mundo. Contudo, convém recordar que o centro não é o «lugar» mas a própria luz: as riquezas levadas a Jerusalém são para adorar o Senhor, para proclamar «as glórias do Senhor».

No anúncio do acontecimento cristão, mantém-se a centralidade da Luz (estrela), mas dá-se uma deslocação do «lugar» e do «conteúdo»: os tesouros do oriente não se dirigem para Jerusalém, mas para Belém; a riqueza trazida não é tanto a material («tesouros do mar… riquezas das nações»), quanto a que «revela» o mistério do Menino diante do qual se hão de prostrar os Magos (a profecia refere ouro e incenso; falta a mirra do evangelho).

© Laboratório da fé, 2014

Celebrar o domingo da Epifania (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.1.15 | Sem comentários

Viver a fé! [13]


«Da dignidade, unidade e igualdade de todas as pessoas deriva, antes de tudo, o princípio do bem comum, com o qual se deve relacionar cada aspeto da vida social para encontrar pleno sentido» (número 164) — assim começa o segundo ponto do quarto capítulo («Os princípios da Doutrina Social da Igreja») do Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Este ponto é dedicado ao princípio do bem comum que vamos resumir neste tema de acordo com as seguintes alíneas: «significado e principais implicações» (números 164 e 165); «a responsabilidade de todos pelo bem comum» (números 166 e 167); «as tarefas da comunidade política» (números 168 a 170).

Significado e principais implicações

Para chegarmos ao significado do «bem comum» podemos partir da seguinte definição: o bem comum, que «pode ser entendido como a dimensão social e comunitária do bem moral», compreende «‘o conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição’. O bem comum não consiste na simples soma dos bens particulares de cada sujeito do corpo social. Sendo de todos e de cada um, é e permanece comum, porque indivisível e porque somente juntos é possível alcançá-lo, aumentá-lo e conservá-lo, também em vista do futuro. Assim como o agir moral do indivíduo se realiza fazendo o bem, assim o agir social alcança a plenitude realizando o bem comum» (164). Ora, «uma sociedade que, em todos os níveis, quer intencionalmente estar ao serviço do ser humano é a que se propõe como meta prioritária o bem comum, enquanto bem de todos os homens e do homem todo. A pessoa não pode encontrar plena realização somente em si mesma, prescindindo do seu ser ‘com’ e ‘pelos’ outros» (165).

A responsabilidade de todos pelo bem comum

«O bem comum empenha todos os membros da sociedade: ninguém está escusado de colaborar, de acordo com as próprias possibilidades, na sua busca e no seu desenvolvimento» (167). E «todos têm também o direito de fruir das condições de vida social criadas pelos resultados da consecução do bem comum» (167). Neste sentido, «as exigências do bem comum derivam das condições sociais de cada época e estão estreitamente conexas com o respeito e com a promoção integral da pessoa e dos seus direitos fundamentais» (166), tais como: o empenho pela paz, a organização dos poderes do Estado, uma sólida ordem jurídica, a proteção do ambiente, a prestação dos serviços essenciais à pessoa (alimentação, habitação, trabalho, educação, cultura, saúde, transportes, livre circulação das informações e liberdade religiosa). Por conseguinte, «o bem comum corresponde às mais elevadas inclinações do ser humano, mas é um bem difícil de alcançar, porque exige a capacidade e a busca constante do bem de outrem como se fosse próprio» (167). Além disso, «o bem comum exige ser servido plenamente, não segundo visões redutoras subordinadas às vantagens parciais que dele se podem retirar, mas com base numa lógica que tende à mais ampla responsabilização. [...] Soa ainda atual o ensinamento de Pio XI segundo o qual se deve procurar que a repartição dos bens criados, a qual não há quem não reconheça ser hoje causa de gravíssimos inconvenientes pelo contraste estridente que há entre os poucos ultrarricos e a multidão inumerável dos indigentes, seja reconduzida à conformidade com as normas do bem comum e da justiça social» (167).

As tarefas da comunidade política

«A responsabilidade de perseguir o bem comum compete não só às pessoas consideradas individualmente, mas também ao Estado, pois que o bem comum é a razão de ser da autoridade política. Na verdade, o Estado deve garantir coesão, unidade e organização à sociedade civil da qual é expressão, de modo que o bem comum possa ser conseguido com o contributo de todos os cidadãos» (168). O Estado «tem a tarefa específica de harmonizar com justiça os diversos interesses setoriais», tendo em conta, não só «as orientações da maioria, mas também na perspetiva do bem efetivo de todos os membros da comunidade civil, inclusive dos que estão em minoria» (169). A terminar recorda-se que «o bem comum da sociedade não é um fim isolado em si mesmo; ele tem valor somente em referência à obtenção dos fins últimos da pessoa e ao bem comum universal de toda a criação. [...] Uma visão puramente histórica e materialista acabaria por transformar o bem comum em simples bem-estar económico, destituído de qualquer finalização transcendente ou da sua mais profunda razão de ser» (170).

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.1.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO DA SAGRADA FAMÍLIA


Fé, fidelidade, confiança: são palavras com significados muitos próximos («acreditar», «dar crédito»). Estas atitudes estão bem expressas nos textos bíblicos propostos para a festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José (Ano B). São características de Deus (salmo) que também devem ser características do crente, do cristão: Abraão é, por isso, o pai dos crentes ou o seu modelo (primeira leitura); a Carta aos Hebreus evoca os frutos dessa fé (segunda leitura). Quanto a Maria e a José, são fiéis Àquele que é o autor das leis (evangelho) e totalmente disponíveis à sua graça…

«Levanta os olhos para o céu e conta as estrelas, se as puderes contar»
A primeira leitura coloca-nos perante a escuridão da noite de Abr(a)ão e de Sara: um casamento sem filhos para os amparar na velhice e dar continuidade à família.
Por isso, Abraão fala com Deus para expor a sua situação. Ao mesmo tempo, confia numa promessa divina que parece impossível. É o testemunho duma fé pura. Entretanto, Deus responde-lhe com um desafio: «Levanta os olhos para o céu e conta as estrelas, se as puderes contar». O Deus de Abraão é paradoxal: as pessoas não podem contar as estrelas; mas podem acreditar.
Deus promete, e cumpre. Abraão passa à história como modelo para todos os crentes. Sim, a humildade crente de Abraão faz parte da história religiosa da humanidade. Abraão acredita e espera; Deus promete e cumpre.
A fé expressa a nossa disponibilidade para acolher a fidelidade de Deus (estamos a celebrar o Natal, isto é, o cumprimento mais surpreendente da fidelidade divina). É muito mais do que ter uma ideia clara sobre Deus (o seu ser e o seu agir). A fé faz-nos entrar no campo da experiência, uma experiência não raras vezes salpicada de dúvidas. Abraão, por cima de todas as razões humanas que o podiam levar a colocar em dúvida as palavras de Deus, acreditou. A sua confiança deslocou-se do crédito às suas dúvidas razoáveis para as palavras de Deus. Esta é a experiência mais autêntica que se pode ter de Deus. Só num clima de fé é que a palavra de Deus se converte em «recompensa», se transforma em realidade, se aproxima da verdade, se experimenta como fidelidade. O capítulo onze da Carta aos Hebreus é um testemunho vibrante da importância da fé (vivida) na relação com Deus.
No livro do Génesis, primeiro está a fé e só depois a narração do nascimento do filho Isaac. A criança recém-nascida é a revelação do amor e da fidelidade de Deus. A família converte-se em sinal da fé humana e do amor divino.

«A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e se nos abre a visão do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo» (Francisco, Carta Encíclica sobre a fé — «Lumen Fidei», 4).

© Laboratório da fé, 2014

Celebrar o domingo da Sagrada Família (Ano B), no Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.12.14 | Sem comentários

Viver a fé! [12]


«Os princípios da doutrina social da Igreja» é o tema do quarto capítulo que encerra a primeira parte do Compêndio da Doutrina Social da Igreja (números 160 a 208). Neste e nos próximos temas, vamos aprofundar o conteúdo de cada um dos pontos do quarto capítulo: I. Significado e unidade dos princípios (conteúdo deste tema: números 160 a 163); II. O princípio do bem comum (números 164 a 170); III. O destino universal dos bens (números 171 a 184); IV. O princípio da subsidiariedade (números 185 a 188); V. A participação (números 189 a 191); VI. O princípio da solidariedade (números 192 a 196); VII. Os valores fundamentais da vida social (números 197 a 203); VIII. A vida da caridade (números 204 a 208). O princípio da dignidade da pessoa humana não aparece no quarto capítulo, uma vez que já foi objeto de estudo pormenorizado no capítulo anterior (cf. temas 8 a 11).

Princípios permanentes

A dignidade da pessoa humana é o princípio fundamental de todos «os demais princípios ou conteúdos da doutrina social da Igreja». Entre eles, destacam-se os princípios do bem comum, da subsidiariedade e da solidariedade, considerados os «princípios permanentes da doutrina social da Igreja. [...] A Igreja, no curso da história e à luz do Espírito, refletindo sapientemente no seio da própria tradição de fé, pôde dar-lhes fundamentação e configuração cada vez mais acuradas, individualizando-os progressivamente no esforço de responder com coerência às exigências dos tempos e aos contínuos progressos da vida social» (160).

Significado dos princípios

«Estes princípios têm um caráter geral e fundamental, pois que se referem à realidade social no seu conjunto: das relações interpessoais, caracterizadas pela proximidade e por serem imediatas, às mediadas pela política, pela economia e pelo direito; das relações entre indivíduos ou grupos às relações entre os povos e as nações. Pelas suas permanência no tempo e universalidade de significado, a Igreja indica-os como primeiro e fundamental parâmetro de referência para a interpretação e o exame dos fenómenos sociais necessários, porque a partir deles se pode apreender os critérios de discernimento e de orientação do agir social, em todos os âmbitos» (161).

Unidade dos princípios

«Os princípios da doutrina social devem ser apreciados nas suas unidade, conexão e articulação. Uma tal exigência tem as suas raízes no significado que a Igreja mesma atribui à própria doutrina social: ‘corpus’ doutrinal unitário que interpreta de modo orgânico as realidades sociais. A atenção a cada princípio na sua especificidade não deve levar ao seu emprego parcial e errado [...]. Estes eixos fundamentais da doutrina da Igreja representam, além disso, bem mais do que um património permanente de reflexão que, diga-se a propósito, é parte essencial da mensagem cristã, pois indicam todos os caminhos possíveis para edificar uma vida social verdadeira, boa, autenticamente renovada» (162). Importa ainda referir que «os princípios da vida social, no seu conjunto, constituem aquela primeira articulação da verdade da sociedade pela qual cada consciência é interpelada e convidada a interagir com todas as demais, na liberdade, em plena corresponsabilidade com todos e em relação a todos. À questão da verdade e do sentido do viver social, com efeito, o homem não se pode furtar, pois a sociedade não é uma realidade estranha ao seu próprio existir. Estes princípios têm um significado profundamente moral porque remetem para os fundamentos últimos e ordenadores da vida social. Para os compreender plenamente, é preciso agir na sua direção, na via do desenvolvimento por eles indicado para uma vida digna do homem. A exigência moral ínsita nos grandes princípios sociais concerne quer ao agir pessoal dos indivíduos, enquanto primeiros e insubstituíveis sujeitos da vida social em todos os níveis, quer, ao mesmo tempo, às instituições, representadas por leis, normas consuetudinárias e estruturas civis, dada a sua capacidade para influenciar e condicionar as opções de muitos e por muito tempo. Os princípios recordam, com efeito, que a sociedade historicamente existente promana do entrelace das liberdades de todas as pessoas que nela interagem, contribuindo, mediante as suas opções, para edificá-la ou para empobrecê-la» (163).

«A Doutrina Social contém um património de reflexão e de esperança que é capaz também hoje de orientar as pessoas e de as manter livres. [...] A Doutrina Social, quando é vivida, gera esperança» (Francisco, Mensagem para o terceiro festival da Doutrina Social da Igreja, 21 a 24 de novembro de 2013).

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.12.14 | Sem comentários

VOLTA A OLHAR O HOMEM PELA PRIMEIRA VEZ


A História da Salvação desvela-se numa aproximação progressiva de Deus ao ser humano, de modo mais explícito a partir de Abr(a)ão, o pai dos crentes, convidado a levantar os olhos. E à medida que Deus se aproxima, o ser humano tem a possibilidade de se «deixar ver» e também de «ver» a Deus. Há um verdadeiro intercâmbio de olhares! Da parte de Deus, a aproximação ao humano culmina numa jovem, filha de Israel, natural de Nazaré: Maria. Nela, o Verbo de Deus faz-se carne, humanidade frágil. E, nela, a carne é envolvida pela glória divina: a «imagem e semelhança» do princípio encontram a sua profundidade mais plena em Jesus Cristo, Deus nascido de uma mulher. Neste Filho, é-nos oferecido um irmão e é-nos concedida uma paternidade insólita: a divina. Somos filhos de Deus Pai; não somos escravos nem marionetas de um deus falsificado. É necessário que o nosso coração se dilate a fim de que nele haja lugar para este Menino que nos fala da ternura de Deus.

Natal: volta a olhar o homem pela primeira vez

Natal é a festa do humano. Do humano, mas a partir de Deus. Todavia, Deus valoriza o humano de uma forma diferente da nossa. Nós preferimos valorizar os bonitos, os fortes, os poderosos, os inteligentes… os ricos. Deus mostra o valor divino do humano a partir daqueles que nos parecem menos humanos, aqueles e aquelas a quem tantas vezes excluímos da festa da humanidade. É, por isso, que Deus inaugura a festa do humano entre nós com a revelação, em primeiro lugar, aos que vivem na «periferia»: aos excluídos (pastores) e aos que «não são dos nossos» (magos). Por isso, o Natal, festa do humano, apresenta-se como um desafio a converter o nosso olhar ao verdadeiramente e mais profundamente humano.
Em continuidade com o Advento, propomos um tempo de Natal sob o signo do «olhar», mergulhados na «mística do instante» ou «de olhos abertos». «A mística de olhos abertos não se dirige a um Deus distante: ela vive na consciência de estar continuamente diante dele. [...] De facto, se acontece não o vermos, não é por estar demasiado distante, mas por ser demasiado próximo» (José Tolentino Mendonça). Assim também proclama o poeta: «Queres saber o lugar da morada de Deus? Volta a olhar o homem pela primeira vez. Pois o Verbo de Deus acampou entre nós».
Isaías continua também a ser o nosso «guia», o profeta que nos desafia a ter os olhos sempre bem abertos. Agora, a sua profecia joga com a figura do mensageiro e das sentinelas, ambos imprescindíveis, na antiguidade, para anunciar o perigo ou o êxito. Desta vez, o mensageiro traz notícias de paz e de vitória. Uma imagem reforçada pelos verbos: «anuncia a paz, traz a boa notícia, proclama a salvação». E são as sentinelas que «veem com os próprios olhos o Senhor». Este anúncio libertador e salvador, primeiro circunscrito a Jerusalém, estende-se a toda a humanidade: «todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus». Hoje, para nós, cristãos, a boa notícia (evangelho) não é que as «ruínas de Jerusalém» recuperam a esperança e a alegria; elas são um símbolo de como Deus nunca abandona o seu povo e de como é preciso abrir os olhos, quais sentinelas dos tempos hodiernos, cheias de alegria, «porque veem com os próprios olhos o Senhor».

Laboratório da Fé vivida

«O modo como vemos decide a qualidade do nosso viver». José Saramago, na epígrafe do «Ensaio sobre a cegueira», recorda: «Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara». Natal é tempo de reparar, «de ‘tomar conta da Palavra para que Ela tome conta de nós’. A Palavra com letra maiúscula ou, se preferirmos, o Verbo que se fez homem e veio habitar connosco. O nascimento de Cristo significa, por isso, o apelo a uma palavra diferente da nossa parte. Uma palavra vinculada a Cristo, inspirada nos gestos e nas ações que Ele realizou, uma palavra que seja testemunho para a sociedade» (Mensagem de Natal do Arcebispo). Entre os gestos realizados por Jesus Cristo destaca-se a forma como olha cada pessoa. «No olhar de Jesus, encontramos o olhar amoroso de Deus que anda à procura do Homem nos sítios mais improváveis, para transformar o seu coração. […] Jesus é o protagonista, é sua a iniciativa, mesmo que o motivo seja a nossa cegueira, a nossa maneira de viver ou de interpretar este instante». Jesus «Cristo é o terapeuta do olhar. Estende-nos a ponte para passarmos do ver ao contemplar e do simples olhar à visão da fé».

© Laboratório da fé, 2014



Volta a olhar o homem pela primeira vez

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.12.14 | Sem comentários

CELEBRAR O QUARTO DOMINGO DE ADVENTO


O quarto domingo de Advento (Ano B) é o domingo do encontro e da disponibilidade. Deus vem ao encontro do humano: «O Senhor está contigo» (primeira leitura e evangelho). E aguarda a (nossa) disponibilidade. Maria é o nosso modelo mais perfeito de disponibilidade à vontade de Deus (evangelho). Antes dela, o rei David foi convidado a acolher o desígnio de Deus relevado através do profeta Natã (primeira leitura). Ao longo da história, Deus sempre procurou e continua a procurar corações disponíveis para acolher a sua aliança (salmo)… Coloquemo-nos na escola de Maria e aclamemos a glória d’Aquele que nos vem salvar (segunda leitura).

«Faz o que te pede o teu coração, porque o Senhor está contigo»
O texto da primeira leitura, retirado do Segundo Livro de Samuel, assinala uma mudança radical na vida de David: de chefe de tribo a fundador duma dinastia «para sempre».
Começa com uma consideração sobre a construção do Templo. No mundo antigo, a construção dum templo manifestava a piedade e a glória dos reis.
A narração surpreende por não ser previsível. Expressa o que poderíamos chamar «uma segunda opinião» de Deus. O previsível era a construção do Templo de Jerusalém. Aliás, essa tinha sido a primeira afirmação do profeta: «Faz o que te pede o teu coração, porque o Senhor está contigo». Mas a surpresa e a imprevisibilidade estão precisamente no facto de Deus corrigir a aprovação do profeta Natã. Este pensa como os homens, mas a «palavra do Senhor» propõe outros caminhos!
O núcleo do texto desenvolve-se na evocação dos feitos grandiosos realizados por Deus em favor de David: «Tirei-te das pastagens onde guardavas os rebanhos… Estive contigo… Exterminei diante de ti todos os teus inimigos». Tudo foi obra de Deus; David é um recetor de dons. De novo, Deus anuncia a sua última decisão: «O teu trono será firme para sempre». David queria construir uma casa, um templo para Deus; mas é Deus que vai edificar uma «casa» (descendência) para David. Esta promessa converte-se em garantia do futuro que Deus quer para Israel, que se vincula concretamente a David e à sua descendência e que vai muito além dos desaires da história.
No Advento, nós, cristãos, temos a ousadia de proclamar que o futuro que Deus quis para a humanidade passa por esta promessa feita a David. A «promessa davídica» abre a porta à futura ação de Deus: não está ligada a um lugar físico (Templo de Jerusalém), mas a uma «casa» humana: Jesus Cristo pertence à «casa de David»; um dos seus títulos será «Filho de David», não segundo a carne, mas segundo a promessa. 

A melhor maneira de dar graças a Deus será permitir que Ele nos honre a nós! É salutar promover as obras da fé; mas, antes, é ainda mais importante reconhecer as maravilhas que Deus fez e faz em nosso favor. Mais do que gastar energias em projetos humanos em nome de Deus, urge discernir no silêncio e na oração o projeto que Deus tem para nós. Assim, ganhará pleno sentido a afirmação: «Faz o que te pede o teu coração, porque o Senhor está contigo».

© Laboratório da fé, 2014

Celebrar o domingo quarto de Advento (Ano B), no Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.12.14 | Sem comentários

Viver a fé! [11]


O terceiro capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja («a pessoa e os seus direitos») conclui com uma referência específica aos direitos humanos (números 152 a 159). A Organização das Nações Unidas define-os como «os direitos que todas as pessoas têm, em virtude da sua condição humana comum, de viver em liberdade e dignidade. Dão a todas pessoas direitos morais sobre o comportamento dos indivíduos e sobre o desenho da organização social — e são universais, inalienáveis e indivisíveis». É este o objeto de estudo e reflexão no tema que aqui apresentamos, de acordo com as alíneas propostas no Compêndio da Doutrina Social da Igreja: «o valor dos direitos humanos» (números 152 a 154); «a especificação dos direitos» (155); «direitos e deveres» (156); «direitos dos povos e das nações» (157); «colmatar a distância entre letra e espírito» (158 e 159).

O valor dos direitos humanos

A Igreja afirma que a promoção e a defesa dos direitos humanos são «um dos mais relevantes esforços para responder, de modo eficaz, às exigências imprescindíveis da dignidade humana» (152). Por isso, a Igreja congratulou-se com a Declaração Universal dos Direitos do Homem, proclamada pelas Nações Unidas a 10 de dezembro de 1948. Os direitos humanos têm de ser sempre tutelados no seu conjunto e nunca parcialmente: «universalidade e indivisibilidade são os traços distintivos dos direitos humanos». Eles «correspondem às exigências da dignidade humana e comportam, em primeiro lugar, a satisfação das necessidades essenciais da pessoa, em campo espiritual e material» (154). «A fonte última dos direitos humanos não se situa na mera vontade dos seres humanos, na realidade do Estado, nos poderes públicos, mas no mesmo homem e em Deus, seu Criador. Tais direitos são ‘universais e invioláveis […] absolutamente inalienáveis’. Universais, porque estão presentes em todos os seres humanos, sem exceção alguma de tempo, lugar e sujeitos. Invioláveis, enquanto ‘inerentes à pessoa humana e à sua dignidade’ e porque ‘seria vão proclamar os direitos, se simultaneamente não se envidassem todos os esforços a fim de que seja devidamente assegurado o seu respeito por parte de todos, em toda a parte e em relação a quem quer que seja’. Inalienáveis, enquanto ‘ninguém pode legitimamente privar destes direitos um seu semelhante, seja ele quem for, porque isso significaria violentar a sua natureza’». (153).

A especificação dos direitos

O Magistério da Igreja, nos seus diversos documentos, apresenta o direito à vida, «desde o momento da sua conceção até ao seu fim natural», como o principal direito que «condiciona o exercício de qualquer outro direito» (155). Outros direitos fundamentais são: o direito a viver numa família; o direito a maturar a sua inteligência e liberdade na procura e no conhecimento da verdade; o direito ao trabalho; o direito a fundar uma família; o direito à liberdade religiosa.

Direitos e deveres

«Intimamente conexo com o tema dos direitos é o tema dos deveres [...]. Os que reivindicam os próprios direitos, mas se esquecem por completo dos seus deveres ou lhes dão menor atenção assemelham-se a quem constrói um edifício com uma das mãos e o destrói com a outra» (156).

Direitos dos povos e das nações

«O campo dos direitos humanos alargou-se aos direitos dos povos e das nações: com efeito, ‘o que é verdade para os homens é também verdade para os povos’. [...] A paz funda-se não só no respeito pelos direitos do homem, mas também no respeito pelo direito dos povos, sobretudo o direito à independência. [...] A nação tem um ‘fundamental direito à existência’; à ‘própria língua e cultura’; a ‘modelar a própria vida segundo as suas tradições, excluindo, naturalmente, todas as violações dos direitos humanos’; a ‘edificar o próprio futuro, oferecendo às gerações mais jovens uma educação apropriada’» (157).

Colmatar a distância entre letra e espírito

Infelizmente, constatamos que a violência, as guerras, os genocídios, as deportações, a escravatura, o tráfico e a exploração dos seres humanos, as crianças-soldado, o tráfico de droga, dão a conhecer «uma distância entre a ‘letra’ e o ‘espírito’ dos direitos» (158) humanos. A Igreja inclui na sua missão «a defesa e a promoção dos direitos fundamentais [...]. O empenho pastoral desenvolve-se numa dúplice direção: de anúncio do fundamento cristão dos direitos do homem e de denúncia das violações de tais direitos: em todo caso, ‘o anúncio é sempre mais importante do que a denúncia; e esta não pode prescindir daquele, que lhe dá a verdadeira solidez e a força da motivação mais alta’» (159).

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.12.14 | Sem comentários

Viver a fé! [10]


Neste tema concluímos os «perfis» (números 124 a 151) da pessoa humana (terceiro ponto do terceiro capítulo — «A pessoa e os seus direitos» — do Compêndio da Doutrina Social da Igreja: «A pessoa humana e os seus vários perfis»), de acordo com o referido na temática anterior: a liberdade da pessoa; a igualdade em dignidade de todas as pessoas; sociabilidade humana.

A liberdade da pessoa

«O homem pode orientar-se para o bem somente na liberdade, que Deus lhe deu como sinal altíssimo da sua imagem: ‘Deus quis deixar o homem entregue à sua própria decisão, para que procure por si mesmo o seu Criador e, aderindo a Ele, atinja uma plena e bem-aventurada perfeição’» (135). Por isso, «a liberdade não se opõe à dependência criacional do homem em relação a Deus» (136). Ora, «o reto exercício do livre arbítrio exige precisas condições de ordem económica, social, política e cultural que ‘são por demais desprezadas e violadas’» (137). «No exercício da liberdade, o homem opera atos moralmente bons, construtivos da pessoa e da sociedade, quando obedece à verdade, ou seja, quando não pretende ser criador e senhor absoluto desta última e das normas éticas» (138). «A verdade sobre o bem e o mal é reconhecida, prática e concretamente, pelo juízo da consciência, o qual leva a assumir a responsabilidade do bem realizado e do mal cometido» (139). Ora, «o exercício da liberdade implica a referência a uma lei moral natural, de caráter universal, que precede e unifica todos os direitos e deveres. [...] Esta lei é chamada natural porque a razão que a promulga é própria da natureza humana. Ela é universal, estende-se a todos os homens» (140). E sendo «imutável», «na diversidade das culturas, a lei natural liga os homens entre si, impondo princípios comuns. Porquanto a sua aplicação requeira adaptações à multiplicidade de condições de vida, segundo os lugares, as épocas e as circunstâncias» (141). Infelizmente, «a liberdade é misteriosamente inclinada a trair a abertura à verdade e ao bem humano e, muito frequentemente, prefere o mal e o fechamento egoísta» (143). Face ao exposto, tudo o que diz respeito à «lei natural, que é lei de Deus, não pode ser cancelada pela iniquidade humana. Ela constitui o fundamento moral indispensável para edificar a comunidade dos homens e para elaborar a lei civil» (142).

A igualdade em dignidade de todas as pessoas

Todos os seres humanos, sem exceção, «têm a mesma dignidade», pois todos são «imagem e semelhança de Deus». Ora, «a dignidade de cada homem diante de Deus é o fundamento da dignidade do homem perante os outros homens» (144). E é este reconhecimento mútuo da dignidade de cada um que torna «possível o crescimento comum e pessoal de todos». Por isso, «as condições de equidade e de paridade são o pressuposto para um autêntico progresso da comunidade internacional» (145). Neste contexto, é fundamental lembrar que as diferenças entre «masculino» e «feminino» não beliscam em nada a «igual dignidade» do homem e da mulher. «Porém não refletem uma igualdade estática, porque o específico feminino é diferente do específico masculino e esta diversidade na igualdade é enriquecedora e indispensável para uma harmoniosa convivência humana» (146). «Mulher e homem completam-se mutuamente, não somente do ponto de vista físico e psíquico, mas também do ponto de vista ontológico» (147). Na defesa da igual dignidade de todos, é também importante reter que «as pessoas deficientes são sujeitos plenamente humanos, titulares de direitos e deveres» (148).

Sociabilidade humana

«A pessoa é constitutivamente um ser social [...]: um ser livre e responsável, que reconhece a necessidade de se integrar e de colaborar com os próprios semelhantes e é capaz de comunhão com eles na ordem do conhecimento e do amor [...]. A vida social, portanto, não é algo de exterior ao homem, o qual não pode crescer e realizar a sua vocação senão em relação com os outros» (149). Esta vocação para viver em sociedade não se realiza de forma «uniforme, mas assume multíplices expressões. O bem comum depende, efetivamente, de um são pluralismo social. [...] Algumas sociedades, como a família, a comunidade civil e a comunidade religiosa, são mais imediatamente conexas com a íntima natureza do homem, enquanto outras procedem da vontade livre» (151). Contudo, por causa da soberba e do egoísmo, «a sociabilidade humana não desemboca automaticamente na comunhão das pessoas, no dom de si» (150). Só a força do amor e da procura do bem comum conseguem devolver a vocação social própria do ser humano.

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 11.12.14 | Sem comentários

CELEBRAR O TERCEIRO DOMINGO DE ADVENTO


«Vivei sempre alegres» (segunda leitura) — é o imperativo que faz do terceiro domingo de Advento (Ano B) o «domingo da alegria». Não é a alegria (salmo) um sinal da presença de Deus, da sua vinda? A esperança que preside ao tempo de Advento une-se à alegria da missão (primeira leitura). E João Batista convida a deitar fora tudo o que nos impede de viver essa alegria, a deixarmo-nos santificar pelo Espírito Santo (evangelho). Assim, estaremos preparados para a vinda do Salvador. E os nossos corações exultarão de alegria.

«Exulto de alegria no Senhor, a minha alma rejubila no meu Deus»
A primeira leitura apresenta dois textos distintos do mesmo capítulo unidos pela primeira pessoa do singular: um personagem anónimo, uma voz sem nome anuncia a sua vocação, uma vocação que lhe foi dada por Deus e que se destina à renovação da comunidade.
Em primeiro lugar, este personagem reconhece-se ungido e enviado por Deus: «O Senhor me ungiu e me enviou». Na segunda parte, o próprio entoa um cântico de louvor e de ação de graças: «Exulto de alegria no Senhor, a minha alma rejubila no meu Deus».
O «ungido», na tradição de Israel, indica uma pessoa que recebeu de Deus uma missão profética ou salvífica: neste caso, consiste em «anunciar a boa nova» da salvação oferecida por Deus. A voz que fala assegura que lhe foi confiada uma missão designada como «o ano da graça do Senhor».
Na segunda parte do poema, o «ungido» expressa a sua alegria. A missão é descrita com traços de festa, de triunfo, de núpcias, de justiça. Este «evangelista» do Antigo Testamento exulta com a sua própria missão, porque foi revestido com o traje da salvação e da justiça. Quem recebe a força do Espírito sente-se alegre como o noivo e a noiva adornados para a festa. A notícia que enche de alegria é que a justiça e o louvor serão uma realidade realizada por Deus.
O «Terceiro Isaías» abre caminhos de futuro sustentado não em qualquer pessoa ou promessa, mas no «ungido» e na missão concreta que lhe foi confiada por Deus. Ele ativa a esperança porque anuncia uma transformação pública da realidade. E confirma que essa transformação querida por Deus depende de um ser humano concreto.
O Novo Testamento dirá que o «Ungido» (com letra maiúscula) sobre o qual pousa o Espírito do Senhor é Jesus Cristo, em quem se cumprem todas as promessas, em quem se concentram todas as esperanças.
A missão de Jesus Cristo não termina n’Ele nem com Ele. Cada um de nós é também «ungido»: pelo batismo, o Espírito Santo desce sobre nós para nos tornar participantes da missão de Jesus Cristo.

Estamos em tempo de Advento, tempo de esperança… A redenção, a liberdade, a justiça, a misericórdia, a paz, são possíveis. Só precisamos de olhar o rosto dos pobres e das vítimas de qualquer espécie de mal.
Estamos em tempo de Advento, tempo de alegria… Não há lugar para o cansaço ou a indiferença. Só precisamos de «olhar o mundo pela primeira vez», de abrir os olhos para que o medo dê lugar à alegria em anunciar e viver a fé.

© Laboratório da fé, 2014

Celebrar o domingo terceiro de Advento (Ano B), no Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 11.12.14 | Sem comentários

Viver a fé! [9]


O terceiro ponto do terceiro capítulo («A pessoa e os seus direitos») do Compêndio da Doutrina Social da Igreja intitula-se «A pessoa humana e os seus vários perfis» (números 124 a 151). Neste tema, resumimos as duas primeiras alíneas: a unidade da pessoa (127 a 129); a abertura à transcendência e unicidade da pessoa (130 a 134). As outras serão objeto de estudo no próximo tema: a liberdade da pessoa; a igualdade em dignidade de todas as pessoas; sociabilidade humana. Esta temática insere-se na afirmação de que a pessoa humana não é um mero somatório de partes, mas uma unidade estruturada pela inteligência, sabedoria, consciência e liberdade.

A pessoa humana e os seus vários perfis

Alertando para as visões redutoras da pessoa humana motivadas por ideologias ou «devidas simplesmente a formas difusas do costume e do pensamento», a partir da «admirável mensagem bíblica, a doutrina social da Igreja detém-se antes de tudo nas principais e incindíveis dimensões da pessoa humana, de modo a poder captar os matizes mais relevantes do seu mistério e da sua dignidade» (124). «A doutrina social ocupa-se de diferentes dimensões do mistério do homem, que exige ser abordado ‘na plena verdade da sua existência, ser pessoal e ser comunitário e social’, com uma atenção específica, de sorte a consentir a sua valoração mais pontual» (126). Neste sentido, convém deixar claro que «a pessoa não pode jamais ser pensada unicamente como absoluta individualidade, edificada por si mesma ou sobre si mesma, como se as suas características próprias não dependessem mais de outros que de si mesma. Nem pode ser pensada como pura célula de um organismo disposto a reconhecer-lhe, quando muito, um papel funcional no interior de um sistema» (125).

A unidade da pessoa

A fé cristã reconhece que o ser humano «foi criado por Deus como unidade de alma e corpo» (127). A pessoa humana «tem duas diferentes caraterísticas: é um ser material, ligado a este mundo mediante o seu corpo, e um ser espiritual, aberto à transcendência» (129). «A pessoa, incluindo o corpo, está totalmente confiada a si própria, e é na unidade da alma e do corpo que ela é o sujeito dos próprios atos morais» (127). «Mediante a sua corporeidade, o homem unifica em si os elementos do mundo material, ‘os quais, por meio dele, atingem a sua máxima elevação e louvam livremente o Criador’». Portanto, ao contrário do que outros defendem, a Igreja proclama que «não é lícito desprezar a vida corporal; o homem, ao contrário, ‘deve […] considerar o seu corpo como bom e digno de respeito, pois foi criado por Deus e há de ressuscitar no último dia’». E deve vigiar para «não se tornar vítima de uma visão puramente terrena da vida. Com a espiritualidade o homem supera a totalidade das coisas e penetra na estrutura espiritual mais profunda da realidade. Quando se volta para o seu coração, isto é, quando reflete sobre o próprio destino, o homem [...] transcende o universo sensível e material» (128). Por isso, «nem o espiritualismo, que despreza a realidade do corpo, nem o materialismo, que considera o espírito mera manifestação da matéria, dão conta da natureza complexa, da totalidade e da unidade do ser humano» (129).

Abertura à Transcendência e unicidade da pessoa

«O homem é aberto ao infinito e a todos os seres criados. É aberto antes de tudo ao infinito, isto é, a Deus [...]. É aberto também ao outro, aos outros homens e ao mundo, porque somente enquanto se compreende em referência a um tu pode dizer eu. Sai de si, da conservação egoísta da própria vida, para entrar numa relação de diálogo e de comunhão com o outro» (130). «O homem existe como ser único e irrepetível, existe como ‘eu’, capaz de autocompreender-se, de autopossuir-se, de autodeterminar-se. A pessoa humana é um ser inteligente e consciente, capaz de refletir sobre si mesma e, portanto, de ter consciência dos próprios atos» (131). Face ao exposto, a sociedade que se queira «justa» tem de promover o «respeito pela dignidade transcendente da pessoa humana» (132). Por isso, «em nenhum caso a pessoa humana pode ser instrumentalizada para fins alheios ao seu próprio progresso, que pode encontrar cumprimento pleno e definitivo somente em Deus e no seu projeto salvífico» (133). Entretanto, compete a cada pessoa a responsabilidade de promover «o desenvolvimento daquelas atitudes morais fundamentais em toda a convivência que se queira dizer verdadeiramente humana (justiça, honestidade, veracidade, etc.), que de modo algum poderá ser simplesmente esperada dos outros ou delegada nas instituições» (134).

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.12.14 | Sem comentários

CELEBRAR O SEGUNDO DOMINGO DE ADVENTO


Mexe-te, põe-te a caminho! Depois do convite a vigiar (primeiro domingo), eis o apelo a arregaçar as mangas: o Advento não é tempo de descanso. O Senhor Jesus Cristo vem: preparemos o seu caminho! Pode ser um convite já conhecido; mas é preciso escutá-lo de novo e como novo. Escutá-lo da boca do profeta Isaías (primeira leitura), quando Deus, no Livro da Consolação, responde à oração do povo exilado e lhe promete o fim dos infortúnios. Escutá-lo como Boa Nova, no início do evangelho segundo Marcos: sim, João Batista anuncia a vinda do Salvador... Hoje, nós esperamos esse dia (segunda leitura), certos da bondade do nosso Deus (salmo).

«Então se manifestará a glória do Senhor 
e todo o homem verá a sua magnificência»
No livro de Isaías, o poema escolhido para primeira leitura do segundo domingo de Advento (Ano B) marca o fim do longo exílio do povo de Israel na Babilónia. Estes versos contêm uma mensagem nova, completamente inesperada face ao demorado e terrível silêncio vivido pelo povo exilado. Agora, Deus assegura que a mudança está próxima: «Então se manifestará a glória do Senhor e todo o homem verá a sua magnificência».
Deus quebra o silêncio; e a primeira palavra proclamada é «consolai». Jerusalém já pagou o suficiente pela sua culpa e, por isso, será libertada do cativeiro. Trata-se de um ansiado, mas improvável anúncio de libertação.
O mensageiro tem de falar forte e claro. O «arauto de Jerusalém» tem a missão de anunciar a vitória e o regresso a casa. Ele há de anunciar o novo decreto de Deus, que mudará decisivamente a história e o destino da comunidade ouvinte. A palavra que há de ser dita sem qualquer tipo de temor é: «Eis o vosso Deus». Aquele que parecia derrotado, agora manifesta a sua glória. No imprevisível, Deus fará coisas novas em favor do seu povo: «Então se manifestará a glória do Senhor e todo o homem verá a sua magnificência».
A nova disposição de Deus é evidente na colossal procissão através do deserto que vai tornar possível um novo começo para a comunidade de Israel. A linguagem é também surpreendente: Deus apresenta-se como um guerreiro poderoso — «o seu braço dominará» — que, ao mesmo tempo, é tão gentil e terno como um pastor. O povo não tinha futuro, vivia humilhado e disperso; agora, de forma inesperada, é consolado e reunido por Deus.
Não é de estranhar que os evangelhos citem parte deste poema, aplicando-o à novidade radical iniciada com a vinda ao mundo de Jesus de Nazaré. Será usado na leitura cristã da Escritura para atribuir a João Batista a missão de preparar o caminho do Senhor. O «Segundo Isaías» é o profeta da esperança. O Advento abre o coração à esperança que se cumpre em Jesus Cristo.

Na eucaristia, Deus vem ao nosso encontro, cheio de misericórdia, para reunir todos os seus «filhos dispersos» (Oração Eucarística III). Por isso, esse encontro precisa de momentos de silêncio para oferecer a cada pessoa a possibilidade dum diálogo interior, duma oportunidade para a consolação e a esperança.

© Laboratório da fé, 2014

Celebrar o segundo domingo de Advento (Ano B), no Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.12.14 | Sem comentários

Reflexão mensal sobre as obras de misericórdia [3]


«Jesus sentiu as mordedelas da fome, foi servido à mesa e comeu o alimento que outros prepararam para ele, alimentou multidões famintas, fez da mesa um lugar de encontro e de comunhão humana, em que mostrou como Deus está próximo do homem, e que do vinho servido e do pão partido e repartido pelos comensais, na Última Ceia, fez o sinal da sua vida entregue por todos os homens» (Luciano Manicardi).

Dar de comer a quem tem fome

O ato de comer tem a ver com a atividade cultural do ser humano: implica o trabalho, a preparação do alimento, a sociabilidade (tanto na aquisição e preparação do alimento, como no seu consumo), o convívio. O ato de comer remete para o ser corpo, tanto em termos de necessidade, como em termos de ligação com o universo: comendo, com efeito, assimilamos o mundo em nós, transformando-o. Comer requer tempo e capacidade de relação e de comunhão. A cultura do «fast food» obriga a comer à pressa e sozinhos, em mesas anónimas, de pé, utilizando refeições preconfecionadas e alimentos congelados. Sintomas deste corte entre o comer e o seu fundamento humano e relacional são as desarmonias e as patologias em rápido crescimento nos países ocidentais, em que, apesar de tudo, existe abundância de alimento e de dinheiro para comprá-lo: obesidade, anorexia, bulimia, distúrbios alimentares de vários tipos. Nos países pobres, o problema é ter alguma coisa para comer. Aqui volta a levantar-se a questão do desequilíbrio entre o rico, que se banqueteava lautamente todos os dias, e o pobre Lázaro, que passava fome à sua porta (cf. Lucas 16, 19-31). Mas toda a gente sabe, hoje em dia, que a fome não é um problema irresolúvel ou um facto a que nos devemos resignar de forma supina, porque as causas são políticas e económicas, e a principal é a distribuição desigual das riquezas. Alcançar a segurança alimentar (possibilidade para todos de aceder física e economicamente a alimento suficiente) é essencial para a segurança e a paz do mundo. O número 27 da Encíclica «Caritas in Veritate» de Bento XVI (29 de junho de 2009) aborda o tema da fome, e faz da obra de misericórdia «dar de comer a quem tem fome» uma responsabilidade eclesial diretamente derivada do exemplo de Jesus de Nazaré.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje

A oração que Jesus Cristo ensinou aos discípulos, e que os cristãos repetem diariamente, contém a petição do pão dirigida a Deus. O nome do Deus a quem se dirige a oração é «Aquele que dá o pão a toda a carne» (Salmo 136, 25), ou seja, a todo o ser vivo, a toda a criatura. A petição diz respeito ao pão material, ao alimento essencial para viver, símbolo de tudo aquilo que o ser humano precisa para viver. O orante que pronuncia este pedido, ora não só por si, mas em nome de todos: o filho que pede pão ao «nosso» Pai não pode esquecer o irmão que dele carece. Aqui, o indicativo de Deus torna-se imperativo do humano: pedir o pão a Deus implica assumir a responsabilidade por quem não tem pão. Com efeito, Deus dá o pão ao ser humano, mas também através do ser humano: este é o seu destinatário, mas também o seu mediador. Ao pão dado por Deus corresponde o pão repartido pelo humano. Retomando as palavras dirigidas aos discípulos, face às multidões cansadas e famintas, tam-bém poderíamos dizer: «Dai-lhes vós mesmos de comer» (Marcos 6, 37). Esta ordem, dirigida aos primeiros discípulos, estende-se a toda a Igreja, na história, e chega até nós, hoje. Assistimos assim à passagem do dom de Deus à responsabilidade do ser humano: uma responsabilidade que está no coração da Eucaristia e do Dia do Senhor, que desde sempre estão ligados a uma práxis da caridade, da visita aos doentes, de levar de comer a quem dele carece, de fazer coletas para os pobres. Os cristãos fazem-no recordando o que afirma Tiago: «Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: ‘Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome’, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará?» (Tiago 2, 15-16).

Ensinar os ignorantes

«Compreendes, verdadeiramente, o que estás a ler?», pergunta Filipe ao funcionário etíope que está a ler uma passagem do profeta Isaías. E ele responde: «E como poderei compreender, sem alguém que me oriente?» (Atos dos Apóstolos 8, 30-31). Este diálogo mostra a necessidade de uma instrução para entrar no conhecimento da Escritura. De um modo mais geral, toda a vida de fé requer um ensinamento. Como este ensinamento tem uma dimensão religiosa fundamental, não admira que, no Antigo Testamento, o próprio Deus seja chamado «Mestre», e que o orante se lhe deve dirigir para ser iluminado e tornado sábio. Mesmo o simples, o inexperiente, o ignorante, torna-se sábio pelo conhecimento da vontade do Senhor: «As ordens do Senhor são firmes, dão sabedoria ao homem simples» (Salmo 19, 8). É com os profetas, sobretudo com Oseias, que a «Tora» (termo muitas vezes traduzido por «lei», mas que significa «instrução», «ensinamento») indica o conjunto unitário da vontade de Deus. Este conjunto passará a ser a Tora escrita: os cinco primeiros livros da Bíblia («Pentateuco»). Um âmbito primordial, antigo e importantíssimo, de educação e instrução é a família. No século II antes de Cristo, em Israel, confirma-se também a existência de outro ambiente educativo dedicado à transmissão do saber: a escola. A dimensão histórica da fé bíblica e o caráter relacional do Deus bíblico — Deus que se liga em aliança ao povo de Israel — dão vida a uma transmissão da fé que tem lugar segundo uma modalidade narrativa e dialógica, e não impessoal nem doutrinal, abstratamente teológica ou dogmática. É uma modalidade que envolve o narrador e o destinatário da narração, ambos «encerrados» na narração e tornados participantes da história narrada. Leitura pública da Tora e ensinamento dos seus conteúdos de viva voz, nos santuários e em família, são os meios didáticos deste ensinamento que também é transmissão da fé e inserção numa história familiar e do povo. Tradição oral, ensinamento de viva voz, leitura pública, narração: estas formas de transmissão da vontade do Senhor abrangem todos, também os analfabetos, aqueles que não sabem ou não podem ler. O Novo Testamento apresenta o próprio Jesus como «mestre». A atividade de ensino de Jesus, que se dirige a doutos e ignorantes, envolve a sua pessoa, assumindo um aspeto de testemunho. Jesus ensina com as palavras, com os gestos, com o seu modo de viver, com a sua pessoa. A sua pessoa é ensinamento, ou antes, é revelação de Deus. Jesus Cristo é o sinal do Pai, «o sacramento de Deus»: «Quem me vê, vê o Pai» (João 14, 9). O ensinamento disposto por Jesus para os crentes de todos os tempos é radical: Jesus ensina a viver. Ele apareceu para «nos ensinar a viver neste mundo» (Tito 2, 12).

Conhecer as Escrituras

A atividade de ensinamento (que não deve ser confundida com o primeiro anúncio destinado ao não-crente) é ainda mais necessária hoje, dada a situação de ignorância acerca das coisas da fé partilhada pela maior parte dos próprios crentes praticantes, para não falar do analfabetismo em relação à fé das gerações mais jovens. Há que colocar no centro da ação pastoral o problema da ignorância dos crentes. A fé requer a aquisição de conhecimentos, o aprofundamento, caso contrário, fica estéril. O conhecimento cristão, conhecimento não intelectualista mas dinâmico e vital, que se torna amor e participação concreta na vida do Senhor Jesus Cristo, revela a maturidade da consciência cristã, tornando o crente capaz de dar razão da esperança que o habita e de dar testemunho crível do Evangelho. Isso requer o conhecimento das Escrituras e, sobretudo, dos Evangelhos, que transmitem o conhecimento de Jesus: com efeito, «a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo». Transmitir a fé também significa transmitir as Escrituras e dar a possibilidade de lê-las, escutá-las, meditá-las e rezar com elas na fé e no Espírito Santo, e fornecer os instrumentos para isso. O conhecimento necessário no espaço edesial é espiritual, obra do Espírito Santo, que interioriza no crente a memória de Cristo e o leva a assemelhar-se com Ele. E é um conhecimento não individualista, mas pessoal e comunitário, que encontra na liturgia um momento decisivo, que constrói e nutre a comunidade cristã. É certo que, na sociedade pós-tradicional em que vivemos, a transmissão da fé é particularmente problemática: cada gesto e cada palavra da fé devem ser remotivados, hoje, para não parecerem insignificantes. Trata-se de redescobrir que ensinar significa fazer e dar sinais, transmitir símbolos mediante os quais as pessoas se possam orientar na vida, tornar-se «barqueiros», indicar a herança a receber, apontar um caminho e não impor uma lei. O problema também é político e, em muitos países, diz respeito à alfabetização, elemento fundamental de toda a remissão social e de todo o acesso à dignidade humana, e que concerne ainda a nossa sociedade, de modo particular a sua capacidade de educar: com efeito, com base na educação avalia-se o nosso amor pelo mundo e o sentido da responsabilidade pelas gerações futuras. Como bem entendera o padre Lorenzo Milani, que do dar a palavra aos analfabetos e do dotar de recursos da linguagem quem disso carecia fez o programa da sua «educação civil» e da sua «escola popular».

Precisamos de uma fé madura, 
capaz de fazer frente às dificuldades. 
Um escasso conhecimento da fé 
sempre foi o melhor terreno 
para a superstição e para o erro.
Walter Kasper


© Laboratório da fé, 2014 
Este texto foi elaborado a partir da obra de Luciano Manicardi intitulada «A caridade dá que fazer: Redescobrindo a atualidade das ‘obras de misericórdia’» (páginas 77 a 89 e 159 a 167) publicada em português pelas edições Paulinas





Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.12.14 | Sem comentários
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