Viver a fé! [9]


O terceiro ponto do terceiro capítulo («A pessoa e os seus direitos») do Compêndio da Doutrina Social da Igreja intitula-se «A pessoa humana e os seus vários perfis» (números 124 a 151). Neste tema, resumimos as duas primeiras alíneas: a unidade da pessoa (127 a 129); a abertura à transcendência e unicidade da pessoa (130 a 134). As outras serão objeto de estudo no próximo tema: a liberdade da pessoa; a igualdade em dignidade de todas as pessoas; sociabilidade humana. Esta temática insere-se na afirmação de que a pessoa humana não é um mero somatório de partes, mas uma unidade estruturada pela inteligência, sabedoria, consciência e liberdade.

A pessoa humana e os seus vários perfis

Alertando para as visões redutoras da pessoa humana motivadas por ideologias ou «devidas simplesmente a formas difusas do costume e do pensamento», a partir da «admirável mensagem bíblica, a doutrina social da Igreja detém-se antes de tudo nas principais e incindíveis dimensões da pessoa humana, de modo a poder captar os matizes mais relevantes do seu mistério e da sua dignidade» (124). «A doutrina social ocupa-se de diferentes dimensões do mistério do homem, que exige ser abordado ‘na plena verdade da sua existência, ser pessoal e ser comunitário e social’, com uma atenção específica, de sorte a consentir a sua valoração mais pontual» (126). Neste sentido, convém deixar claro que «a pessoa não pode jamais ser pensada unicamente como absoluta individualidade, edificada por si mesma ou sobre si mesma, como se as suas características próprias não dependessem mais de outros que de si mesma. Nem pode ser pensada como pura célula de um organismo disposto a reconhecer-lhe, quando muito, um papel funcional no interior de um sistema» (125).

A unidade da pessoa

A fé cristã reconhece que o ser humano «foi criado por Deus como unidade de alma e corpo» (127). A pessoa humana «tem duas diferentes caraterísticas: é um ser material, ligado a este mundo mediante o seu corpo, e um ser espiritual, aberto à transcendência» (129). «A pessoa, incluindo o corpo, está totalmente confiada a si própria, e é na unidade da alma e do corpo que ela é o sujeito dos próprios atos morais» (127). «Mediante a sua corporeidade, o homem unifica em si os elementos do mundo material, ‘os quais, por meio dele, atingem a sua máxima elevação e louvam livremente o Criador’». Portanto, ao contrário do que outros defendem, a Igreja proclama que «não é lícito desprezar a vida corporal; o homem, ao contrário, ‘deve […] considerar o seu corpo como bom e digno de respeito, pois foi criado por Deus e há de ressuscitar no último dia’». E deve vigiar para «não se tornar vítima de uma visão puramente terrena da vida. Com a espiritualidade o homem supera a totalidade das coisas e penetra na estrutura espiritual mais profunda da realidade. Quando se volta para o seu coração, isto é, quando reflete sobre o próprio destino, o homem [...] transcende o universo sensível e material» (128). Por isso, «nem o espiritualismo, que despreza a realidade do corpo, nem o materialismo, que considera o espírito mera manifestação da matéria, dão conta da natureza complexa, da totalidade e da unidade do ser humano» (129).

Abertura à Transcendência e unicidade da pessoa

«O homem é aberto ao infinito e a todos os seres criados. É aberto antes de tudo ao infinito, isto é, a Deus [...]. É aberto também ao outro, aos outros homens e ao mundo, porque somente enquanto se compreende em referência a um tu pode dizer eu. Sai de si, da conservação egoísta da própria vida, para entrar numa relação de diálogo e de comunhão com o outro» (130). «O homem existe como ser único e irrepetível, existe como ‘eu’, capaz de autocompreender-se, de autopossuir-se, de autodeterminar-se. A pessoa humana é um ser inteligente e consciente, capaz de refletir sobre si mesma e, portanto, de ter consciência dos próprios atos» (131). Face ao exposto, a sociedade que se queira «justa» tem de promover o «respeito pela dignidade transcendente da pessoa humana» (132). Por isso, «em nenhum caso a pessoa humana pode ser instrumentalizada para fins alheios ao seu próprio progresso, que pode encontrar cumprimento pleno e definitivo somente em Deus e no seu projeto salvífico» (133). Entretanto, compete a cada pessoa a responsabilidade de promover «o desenvolvimento daquelas atitudes morais fundamentais em toda a convivência que se queira dizer verdadeiramente humana (justiça, honestidade, veracidade, etc.), que de modo algum poderá ser simplesmente esperada dos outros ou delegada nas instituições» (134).

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.12.14 | Sem comentários

CELEBRAR O SEGUNDO DOMINGO DE ADVENTO


Mexe-te, põe-te a caminho! Depois do convite a vigiar (primeiro domingo), eis o apelo a arregaçar as mangas: o Advento não é tempo de descanso. O Senhor Jesus Cristo vem: preparemos o seu caminho! Pode ser um convite já conhecido; mas é preciso escutá-lo de novo e como novo. Escutá-lo da boca do profeta Isaías (primeira leitura), quando Deus, no Livro da Consolação, responde à oração do povo exilado e lhe promete o fim dos infortúnios. Escutá-lo como Boa Nova, no início do evangelho segundo Marcos: sim, João Batista anuncia a vinda do Salvador... Hoje, nós esperamos esse dia (segunda leitura), certos da bondade do nosso Deus (salmo).

«Então se manifestará a glória do Senhor 
e todo o homem verá a sua magnificência»
No livro de Isaías, o poema escolhido para primeira leitura do segundo domingo de Advento (Ano B) marca o fim do longo exílio do povo de Israel na Babilónia. Estes versos contêm uma mensagem nova, completamente inesperada face ao demorado e terrível silêncio vivido pelo povo exilado. Agora, Deus assegura que a mudança está próxima: «Então se manifestará a glória do Senhor e todo o homem verá a sua magnificência».
Deus quebra o silêncio; e a primeira palavra proclamada é «consolai». Jerusalém já pagou o suficiente pela sua culpa e, por isso, será libertada do cativeiro. Trata-se de um ansiado, mas improvável anúncio de libertação.
O mensageiro tem de falar forte e claro. O «arauto de Jerusalém» tem a missão de anunciar a vitória e o regresso a casa. Ele há de anunciar o novo decreto de Deus, que mudará decisivamente a história e o destino da comunidade ouvinte. A palavra que há de ser dita sem qualquer tipo de temor é: «Eis o vosso Deus». Aquele que parecia derrotado, agora manifesta a sua glória. No imprevisível, Deus fará coisas novas em favor do seu povo: «Então se manifestará a glória do Senhor e todo o homem verá a sua magnificência».
A nova disposição de Deus é evidente na colossal procissão através do deserto que vai tornar possível um novo começo para a comunidade de Israel. A linguagem é também surpreendente: Deus apresenta-se como um guerreiro poderoso — «o seu braço dominará» — que, ao mesmo tempo, é tão gentil e terno como um pastor. O povo não tinha futuro, vivia humilhado e disperso; agora, de forma inesperada, é consolado e reunido por Deus.
Não é de estranhar que os evangelhos citem parte deste poema, aplicando-o à novidade radical iniciada com a vinda ao mundo de Jesus de Nazaré. Será usado na leitura cristã da Escritura para atribuir a João Batista a missão de preparar o caminho do Senhor. O «Segundo Isaías» é o profeta da esperança. O Advento abre o coração à esperança que se cumpre em Jesus Cristo.

Na eucaristia, Deus vem ao nosso encontro, cheio de misericórdia, para reunir todos os seus «filhos dispersos» (Oração Eucarística III). Por isso, esse encontro precisa de momentos de silêncio para oferecer a cada pessoa a possibilidade dum diálogo interior, duma oportunidade para a consolação e a esperança.

© Laboratório da fé, 2014

Celebrar o segundo domingo de Advento (Ano B), no Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.12.14 | Sem comentários

Reflexão mensal sobre as obras de misericórdia [3]


«Jesus sentiu as mordedelas da fome, foi servido à mesa e comeu o alimento que outros prepararam para ele, alimentou multidões famintas, fez da mesa um lugar de encontro e de comunhão humana, em que mostrou como Deus está próximo do homem, e que do vinho servido e do pão partido e repartido pelos comensais, na Última Ceia, fez o sinal da sua vida entregue por todos os homens» (Luciano Manicardi).

Dar de comer a quem tem fome

O ato de comer tem a ver com a atividade cultural do ser humano: implica o trabalho, a preparação do alimento, a sociabilidade (tanto na aquisição e preparação do alimento, como no seu consumo), o convívio. O ato de comer remete para o ser corpo, tanto em termos de necessidade, como em termos de ligação com o universo: comendo, com efeito, assimilamos o mundo em nós, transformando-o. Comer requer tempo e capacidade de relação e de comunhão. A cultura do «fast food» obriga a comer à pressa e sozinhos, em mesas anónimas, de pé, utilizando refeições preconfecionadas e alimentos congelados. Sintomas deste corte entre o comer e o seu fundamento humano e relacional são as desarmonias e as patologias em rápido crescimento nos países ocidentais, em que, apesar de tudo, existe abundância de alimento e de dinheiro para comprá-lo: obesidade, anorexia, bulimia, distúrbios alimentares de vários tipos. Nos países pobres, o problema é ter alguma coisa para comer. Aqui volta a levantar-se a questão do desequilíbrio entre o rico, que se banqueteava lautamente todos os dias, e o pobre Lázaro, que passava fome à sua porta (cf. Lucas 16, 19-31). Mas toda a gente sabe, hoje em dia, que a fome não é um problema irresolúvel ou um facto a que nos devemos resignar de forma supina, porque as causas são políticas e económicas, e a principal é a distribuição desigual das riquezas. Alcançar a segurança alimentar (possibilidade para todos de aceder física e economicamente a alimento suficiente) é essencial para a segurança e a paz do mundo. O número 27 da Encíclica «Caritas in Veritate» de Bento XVI (29 de junho de 2009) aborda o tema da fome, e faz da obra de misericórdia «dar de comer a quem tem fome» uma responsabilidade eclesial diretamente derivada do exemplo de Jesus de Nazaré.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje

A oração que Jesus Cristo ensinou aos discípulos, e que os cristãos repetem diariamente, contém a petição do pão dirigida a Deus. O nome do Deus a quem se dirige a oração é «Aquele que dá o pão a toda a carne» (Salmo 136, 25), ou seja, a todo o ser vivo, a toda a criatura. A petição diz respeito ao pão material, ao alimento essencial para viver, símbolo de tudo aquilo que o ser humano precisa para viver. O orante que pronuncia este pedido, ora não só por si, mas em nome de todos: o filho que pede pão ao «nosso» Pai não pode esquecer o irmão que dele carece. Aqui, o indicativo de Deus torna-se imperativo do humano: pedir o pão a Deus implica assumir a responsabilidade por quem não tem pão. Com efeito, Deus dá o pão ao ser humano, mas também através do ser humano: este é o seu destinatário, mas também o seu mediador. Ao pão dado por Deus corresponde o pão repartido pelo humano. Retomando as palavras dirigidas aos discípulos, face às multidões cansadas e famintas, tam-bém poderíamos dizer: «Dai-lhes vós mesmos de comer» (Marcos 6, 37). Esta ordem, dirigida aos primeiros discípulos, estende-se a toda a Igreja, na história, e chega até nós, hoje. Assistimos assim à passagem do dom de Deus à responsabilidade do ser humano: uma responsabilidade que está no coração da Eucaristia e do Dia do Senhor, que desde sempre estão ligados a uma práxis da caridade, da visita aos doentes, de levar de comer a quem dele carece, de fazer coletas para os pobres. Os cristãos fazem-no recordando o que afirma Tiago: «Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: ‘Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome’, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará?» (Tiago 2, 15-16).

Ensinar os ignorantes

«Compreendes, verdadeiramente, o que estás a ler?», pergunta Filipe ao funcionário etíope que está a ler uma passagem do profeta Isaías. E ele responde: «E como poderei compreender, sem alguém que me oriente?» (Atos dos Apóstolos 8, 30-31). Este diálogo mostra a necessidade de uma instrução para entrar no conhecimento da Escritura. De um modo mais geral, toda a vida de fé requer um ensinamento. Como este ensinamento tem uma dimensão religiosa fundamental, não admira que, no Antigo Testamento, o próprio Deus seja chamado «Mestre», e que o orante se lhe deve dirigir para ser iluminado e tornado sábio. Mesmo o simples, o inexperiente, o ignorante, torna-se sábio pelo conhecimento da vontade do Senhor: «As ordens do Senhor são firmes, dão sabedoria ao homem simples» (Salmo 19, 8). É com os profetas, sobretudo com Oseias, que a «Tora» (termo muitas vezes traduzido por «lei», mas que significa «instrução», «ensinamento») indica o conjunto unitário da vontade de Deus. Este conjunto passará a ser a Tora escrita: os cinco primeiros livros da Bíblia («Pentateuco»). Um âmbito primordial, antigo e importantíssimo, de educação e instrução é a família. No século II antes de Cristo, em Israel, confirma-se também a existência de outro ambiente educativo dedicado à transmissão do saber: a escola. A dimensão histórica da fé bíblica e o caráter relacional do Deus bíblico — Deus que se liga em aliança ao povo de Israel — dão vida a uma transmissão da fé que tem lugar segundo uma modalidade narrativa e dialógica, e não impessoal nem doutrinal, abstratamente teológica ou dogmática. É uma modalidade que envolve o narrador e o destinatário da narração, ambos «encerrados» na narração e tornados participantes da história narrada. Leitura pública da Tora e ensinamento dos seus conteúdos de viva voz, nos santuários e em família, são os meios didáticos deste ensinamento que também é transmissão da fé e inserção numa história familiar e do povo. Tradição oral, ensinamento de viva voz, leitura pública, narração: estas formas de transmissão da vontade do Senhor abrangem todos, também os analfabetos, aqueles que não sabem ou não podem ler. O Novo Testamento apresenta o próprio Jesus como «mestre». A atividade de ensino de Jesus, que se dirige a doutos e ignorantes, envolve a sua pessoa, assumindo um aspeto de testemunho. Jesus ensina com as palavras, com os gestos, com o seu modo de viver, com a sua pessoa. A sua pessoa é ensinamento, ou antes, é revelação de Deus. Jesus Cristo é o sinal do Pai, «o sacramento de Deus»: «Quem me vê, vê o Pai» (João 14, 9). O ensinamento disposto por Jesus para os crentes de todos os tempos é radical: Jesus ensina a viver. Ele apareceu para «nos ensinar a viver neste mundo» (Tito 2, 12).

Conhecer as Escrituras

A atividade de ensinamento (que não deve ser confundida com o primeiro anúncio destinado ao não-crente) é ainda mais necessária hoje, dada a situação de ignorância acerca das coisas da fé partilhada pela maior parte dos próprios crentes praticantes, para não falar do analfabetismo em relação à fé das gerações mais jovens. Há que colocar no centro da ação pastoral o problema da ignorância dos crentes. A fé requer a aquisição de conhecimentos, o aprofundamento, caso contrário, fica estéril. O conhecimento cristão, conhecimento não intelectualista mas dinâmico e vital, que se torna amor e participação concreta na vida do Senhor Jesus Cristo, revela a maturidade da consciência cristã, tornando o crente capaz de dar razão da esperança que o habita e de dar testemunho crível do Evangelho. Isso requer o conhecimento das Escrituras e, sobretudo, dos Evangelhos, que transmitem o conhecimento de Jesus: com efeito, «a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo». Transmitir a fé também significa transmitir as Escrituras e dar a possibilidade de lê-las, escutá-las, meditá-las e rezar com elas na fé e no Espírito Santo, e fornecer os instrumentos para isso. O conhecimento necessário no espaço edesial é espiritual, obra do Espírito Santo, que interioriza no crente a memória de Cristo e o leva a assemelhar-se com Ele. E é um conhecimento não individualista, mas pessoal e comunitário, que encontra na liturgia um momento decisivo, que constrói e nutre a comunidade cristã. É certo que, na sociedade pós-tradicional em que vivemos, a transmissão da fé é particularmente problemática: cada gesto e cada palavra da fé devem ser remotivados, hoje, para não parecerem insignificantes. Trata-se de redescobrir que ensinar significa fazer e dar sinais, transmitir símbolos mediante os quais as pessoas se possam orientar na vida, tornar-se «barqueiros», indicar a herança a receber, apontar um caminho e não impor uma lei. O problema também é político e, em muitos países, diz respeito à alfabetização, elemento fundamental de toda a remissão social e de todo o acesso à dignidade humana, e que concerne ainda a nossa sociedade, de modo particular a sua capacidade de educar: com efeito, com base na educação avalia-se o nosso amor pelo mundo e o sentido da responsabilidade pelas gerações futuras. Como bem entendera o padre Lorenzo Milani, que do dar a palavra aos analfabetos e do dotar de recursos da linguagem quem disso carecia fez o programa da sua «educação civil» e da sua «escola popular».

Precisamos de uma fé madura, 
capaz de fazer frente às dificuldades. 
Um escasso conhecimento da fé 
sempre foi o melhor terreno 
para a superstição e para o erro.
Walter Kasper


© Laboratório da fé, 2014 
Este texto foi elaborado a partir da obra de Luciano Manicardi intitulada «A caridade dá que fazer: Redescobrindo a atualidade das ‘obras de misericórdia’» (páginas 77 a 89 e 159 a 167) publicada em português pelas edições Paulinas





Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.12.14 | Sem comentários

CELEBRAR O PRIMEIRO DOMINGO DE ADVENTO


Advento, tempo dos profetas, tempo dos vigilantes: eis que se anuncia a vinda do Senhor Jesus Cristo. Aquando do Exílio, Israel suplica a Deus que venha em seu auxílio: estes crentes dão-nos um belo exemplo de confiança (primeira leitura), também cantada pelo salmista. Esta graça é-nos dada plenamente em Jesus Cristo (segunda leitura), no Natal. Mas Jesus Cristo fala também da sua vinda no final dos tempos (evangelho). Sim, esperamos a sua vinda gloriosa! Então, «vigiai»! Toda a nossa vida é vigilância, pois o cristão precisa de ter o olhar voltado para o regresso do seu Senhor. Eis o feliz tempo de Advento! Que a (primeira) vela da coroa de Advento nos desperte, nos abra os olhos, para a descoberta do que realmente é essencial!

«Nunca os olhos viram que um Deus, além de Vós, 
fizesse tanto em favor dos que n’Ele esperam»
A primeira leitura contém diversos fragmentos dos últimos capítulos do livro de Isaías, uma obra complexa que se estende desde os textos mais antigos, testemunhos do grande profeta de Jerusalém do século VIII, passa pela segunda parte (capítulos 40 a 55), os poemas de ânimo aos filhos de Judá deportados na Babilónia, e acaba com uma miscelânea de textos proféticos da época persa ou do início da época helenística (os versículos da leitura). Trata-se de uma prece dirigida a Deus em nome de um povo oprimido e desprovido de qualquer poder. Contudo, a voz profética está convencida de que Deus pode intervir para tornar a vida pacífica e gozosa. Aliás, a vida sem Deus não se pode suportar; a vida com Deus é sempre marcada pela esperança. Este é o sentido da prece que nos é oferecida no primeiro domingo de Advento (Ano B), primeiro dia do novo ano litúrgico.
O profeta recorda que Deus já «desceu» outras vezes na história do povo, referindo-se aos factos do Êxodo, quando Israel foi libertado e Deus estabeleceu com o povo uma Aliança. O Advento é a esperança de que os factos fundamentais da memória de Israel podem ser atualizados: acontecimentos tão extraordinários que desafiam qualquer outra categoria explicativa que não seja a da fé.
Entretanto, a prece muda de tom e passa para a confissão de culpa. O povo de Israel reconhece-se «impuro», isto é, ritualmente inaceitável: já não se pode apresentar dignamente perante Deus. Nestas circunstâncias, Deus não pode «descer»… mas o povo pode invocar o nome de Deus e recordar tudo o que Deus fez em seu favor: «Nunca os olhos viram que um Deus, além de Vós, fizesse tanto em favor dos que n’Ele esperam».

O tempo de Advento abre com este poema de Isaías: por um lado, é um reconhecimento da nossa condição pecadora; por outro, uma garantia da esperança que procede de Deus. Em suma: uma condição de pecado não derrotista, mas cheia de esperança. Hoje, este é o motivo da nossa ação de graças (eucaristia). Rezamos o «Prefácio do Advento I» que pode ser muito bem acompanhado pela «Oração Eucarística III»: «esperando a sua vinda gloriosa, nós Vos oferecemos, em ação de graças, este sacrifício vivo e santo».

© Laboratório da fé, 2014

Celebrar o primeiro domingo de Advento (Ano B), no Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.11.14 | Sem comentários

VOLTA A OLHAR O MUNDO PELA PRIMEIRA VEZ


A Liturgia não é uma mera repetição de rubricas que recordam a progressiva revelação de Deus e a sua ação salvadora ao longo dos tempos. Como acontece em cada dia da nossa existência, também a celebração litúrgica nos abre à novidade do presente, um presente de graça sempre nova e renovada. O Advento também é para nós, hoje, homens e mulheres do século vinte e um, com a vantagem de já sabermos que a espera teve o seu pleno cumprimento em Jesus Cristo. Sabemos que Deus se implicou na vida concreta da Humanidade, representada pelo povo de Israel, no Antigo Testamento. E continua a implicar-se, hoje, na vida de cada homem e mulher. Os acontecimentos históricos não estão fora do olhar de Deus e da sua maneira amorosa de agir. Por isso, no Advento, é preciso assinalar não só a esperança da vinda do Messias ao povo de Israel do Antigo Testamento, mas a sua vinda ao nosso momento atual. Neste sentido, propomos um Advento sob o signo do «olhar», mergulhados na «mística do instante»: «A mística do instante pede para tomarmos (mais) a sério a nossa humanidade como narra­tiva de Deus que ‘vive neste mundo’» (José Tolentino Mendonça).

Advento: volta a olhar o mundo pela primeira vez

Isaías evoca a presença contínua de Deus na história: recorda que Deus já «desceu» em outras ocasiões históricas do povo de Israel; e continua a fazê-lo, a «descer» à nossa vida. A história humana tem como primeiro protagonista o próprio Deus; embora se trate dum protagonismo partilhado, pois Deus quer precisar do ser humano para exercer o seu protagonismo. Deus quer fazer-se — se é permitido dizê-lo assim — cada vez mais próximo da nossa vida; e nada nem ninguém o fará mudar de atitude.
O profeta reconhece a iniciativa primordial e única de Deus: «Nunca […] os olhos viram que um Deus, além de Vós, fizesse tanto em favor dos que n’Ele esperam» (Isaías 63, 3). Então, o Advento dá-nos a esperança de que os factos fundamentais da memória de Israel serão novamente atualizados no presente. Assim, desafia-nos a centrar o nosso olhar em tudo o que de bom e de belo Deus continua a fazer no mundo, quando as pessoas se deixam guiar pelo seu Espírito Santo. Por isso, o Advento é também tempo de balanço: olho para o que fiz de bom e de belo ao longo do ano; procuro descobrir como Deus se fez e se faz presente nas minhas vivências concretas, nos instantes que me são dados viver. «Um exercício espiritual importante é percorrermos nós, com o nosso olhar, a criação, a nossa e a do mundo, ao encontro do olhar maravilhado de Deus». Pode ser necessário mudar de atitude, mudar de espiritualidade, mudar de vida, mudar de «lente», «olhar a porta entreaberta do instante».
Chegou a hora de concentrar os nossos esforços no sentido de experienciar «uma espiritualidade que encare os sentidos como caminho que conduz e porta que nos abre ao encontro de Deus». E mais: «Se acreditamos que é com olhos de amor que Deus nos olha, então confiaremos também que os seus olhos partem em busca dos nossos». «E pensar naquilo que Marcel Proust escreveu: ‘A verdadeira viagem de descoberta não consiste em buscar novas paisagens, mas em adquirir um novo olhar’». Quando o ser humano «volta a olhar o mundo pela primeira vez» fica a «saber de que cor são os sonhos de Deus».

Laboratório da Fé vivida

«A fé é uma grande escola do olhar». E «a vida é o imenso laboratório para a atenção, a sensibilidade e o espanto que nos permite reconhecer em cada instante, por mais precário e escasso que seja, a reverberação de uma fantástica presença: os passos do próprio Deus». A fé vivida é uma questão de abrir os olhos. «Isto de abrir os olhos para a vida é muito importante. E é muito raro. […] Ora, é preciso abrir os olhos para que o medo dê lugar à alegria» em viver a fé. Além disso, «a visão torna o mundo uma janela, mas percebemos que há outras dimensões igualmente fulcrais do olhar. A começar pela dimensão da reflexividade [...]. O olhar é fundamental para celebrarmos o encontro connosco próprios e com os outros. [...] De modo semelhante, o olhar é essencial para nos lançarmos na aventura da procura de sentido para a vida». Em cada semana, propomos orientar o nosso olhar ao ritmo de uma palavra: descoberta, pão, alegria, encontro. «Como se opera em nós a transformação do olhar? — é o que deveríamos perguntar» ao longo deste Advento.

© Laboratório da fé, 2014


Volta a olhar o mundo pela primeira vez
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.11.14 | Sem comentários

Viver a fé! [8]


O terceiro capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja intitula-se «A pessoa e os seus direitos» (números 105 a 159). Neste tema, resumimos os dois primeiros pontos: Doutrina Social e princípio personalista (números 105 a 107); a pessoa humana «imago Dei» (números 108 a 123).

Doutrina Social e princípio personalista

«Toda a vida social é expressão do seu inconfundível protagonista: a pessoa humana» (106), «imagem viva do próprio Deus; imagem que encontra e é chamada a encontrar sempre mais profundamente plena explicação de si no mistério de Cristo, Imagem perfeita de Deus, revelador de Deus ao homem e do homem a si mesmo» (105). O ser humano «na sua concretude histórica, representa o coração e a alma do ensinamento social católico. Toda a doutrina social se desenvolve a partir do princípio que afirma a intangível dignidade da pessoa humana» (107).

Criatura à imagem de Deus

O relato das «origens» narrado pelo livro do Génesis revela que «Deus põe a criatura humana no centro e no vértice da criação. [...] Portanto, ‘porque é “à imagem de Deus”, o indivíduo humano possui a dignidade de pessoa: ele não é somente alguma coisa, mas alguém’» (108); «é um ser pessoal criado por Deus para a relação com Ele, que somente na relação pode viver» (109). Depois, «a relação entre Deus e o homem reflete-se na dimensão relacional e social da natureza humana. [...] Em relação a isso, é muito significativo o facto de ter criado Deus o ser humano como homem e mulher» (110). Ambos, homem e mulher, «têm a mesma dignidade e são de igual nível e valor, não só porque ambos, na sua diversidade, são imagem de Deus, mas ainda mais profundamente porque é imagem de Deus o dinamismo de reciprocidade que anima o nós do casal humano» (111). Além desta relação dinâmica entre eles, homem e mulher, também são chamados à relação com os outros seres humanos e com as restantes criaturas. «Estão em relação com os outros antes de tudo como guardiães da sua vida [...] sagrada e inviolável» (112). «Com esta particular vocação para a vida, o homem e a mulher encontram-se também diante de todas as outras criaturas», numa relação que «exige o exercício da responsabilidade, pois não é uma liberdade de desfrute arbitrário e egoísta» (113). É oportuno, ainda, destacar a relação que o próprio ser humano estabelece consigo, pois cada um «pode refletir sobre si próprio. As Sagradas Escrituras falam, nesse sentido, do coração do homem. O coração designa precisamente a interioridade espiritual do homem, ou seja, aquilo que o distingue de todas as outras criaturas» (114).

O drama do pecado

«A admirável visão da criação do homem por parte de Deus é incindível do quadro dramático do pecado das origens» (115). Este «pecado das origens» («pecado original») fez o ser humano perder «a santidade e a justiça em que estava constituído, recebidas não somente para si, mas para toda a humanidade. [...] A consequência do pecado, enquanto ato de separação de Deus, é precisamente a alienação, isto é, a rutura do homem não só com Deus, mas também consigo mesmo, com os demais homens e com o mundo circunstante» (116). «Por isso se pode falar de pecado pessoal e social: todo o pecado é pessoal sob um aspeto; sob um outro aspeto, todo o pecado é social, enquanto e porque tem também consequências sociais» (117). Além disso, há pecados que «pelo próprio objeto, uma agressão direta ao próximo [...] qualificam-se como pecados sociais» (118). São eles: o pecado contra a justiça, contra a dignidade da pessoa humana, contra o bem comum, e tudo o que diz respeito às relações entre as comunidades. «As consequências do pecado alimentam as estruturas de pecado, que se radicam no pecado pessoal e, portanto, estão sempre coligadas aos atos concretos das pessoas, que as introduzem, consolidam e tornam difíceis de remover» (119).

Universalidade do pecado e universalidade da salvação

«A doutrina da universalidade do pecado, todavia, não deve ser desligada da consciência da universalidade da salvação em Jesus Cristo» (120). De facto, não podemos esquecer que «o realismo cristão vê os abismos do pecado, mas na luz da esperança, maior do que todo e qualquer mal, dada pelo ato redentor de Cristo que destruiu o pecado e a morte» (121) e nos torna filhos de Deus. Essa é a «comunhão com o Deus trinitário para a qual os homens desde sempre são orientados no mais profundo do seu ser, graças à sua semelhança criacional com Deus» (122). «A universalidade desta esperança inclui [...] também o céu e a terra» (123).

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.11.14 | Sem comentários

Viver a fé! [7]


A terceira parte (números 87 a 104) do segundo capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja apresenta os «acenos históricos» da formação da Doutrina Social da Igreja, tendo como ponto de partida a encíclica «Rerum Novarum» de Leão XIII (cf. tema 1).

O início de um novo caminho

A Encíclica sobre os operários («Rerum Novarum», 1891) «assinala um novo início e um substancial desenvolvimento do ensinamento em campo social» (87). Por isso, é apresentada como referência inicial da «Doutrina Social da Igreja». A sua mais valia consiste em alertar para os problemas nascidos com a Revolução Industrial: «Era necessário um renovado discernimento da situação, apto a delinear soluções apropriadas para problemas insólitos e inexplorados» (88). Contudo, será o papa Pio XI a falar pela primeira vez em «doutrina social», «doutrina social católica», «doutrina social da Igreja».

Da «Rerum Novarum» aos nossos dias

Na encíclica «Rerum Novarum», a questão operária «é explorada em todas as suas articulações sociais e políticas, para ser adequadamente avaliada à luz dos princípios doutrinais baseados na Revelação, na lei e na moral natural» (89). Leão XIII usou «um método que se tornaria ‘um paradigma permanente’ para o desenvolvimento da doutrina social» (90). No quadragésimo aniversário da «Rerum Novarum», Pio XI publicou a encíclica «Quadragesimo Anno» (1931): «relê o passado à luz de uma situação económico-social em que à industrialização se juntara a expansão do poder dos grupos financeiros, em âmbito nacional e internacional». O Papa sugere o «‘princípio da subsidiariedade’, princípio que se tornará um elemento permanente da doutrina social» (91). No mesmo contexto, «Pio XI não deixou de elevar a voz contra os regimes totalitários que durante o seu pontificado se afirmaram na Europa» (92). A seguir, na sequência da Segunda Guerra Mundial, o papa Pio XII, através de radiomensagens, contribuiu para a reflexão «sobre uma nova ordem social, governada pela moral e pelo direito e fundada na justiça e na paz» (93). Mais tarde, com João XXIII, surge a encíclica «Mater et Magistra» (1961): «as palavras-chave da encíclica são comunidade e socialização: a Igreja é chamada, na verdade, na justiça e no amor, a colaborar com todos os homens para construir uma autêntica comunhão» (94). O mesmo Papa, na encíclica «Pacem in Terris» (1963), destaca o tema da paz e esboça «uma primeira reflexão aprofundada da Igreja sobre os direitos; é a encíclica da paz e da dignidade humana» (95). Entretanto, surgem os documentos emanados do II Concílio do Vaticano: a Constituição Pastoral «Gaudium et Spes» (1965), que, abordando os tópicos da família, da cultura, da economia, da política, da paz e da comunidade internacional, «constitui uma significativa resposta da Igreja às expetativas do mundo contemporâneo» (96); a declaração «Dignitatis Humanae» (1965), que «proclama o direito à liberdade religiosa» (97). No sequência da reflexão conciliar, Paulo VI, com a encíclica «Populorum Progressio» (1967), proclama que «o desenvolvimento é o novo nome da paz» (98), institui a Comissão Pontifícia Justiça e Paz, e o Dia Mundial da Paz (99). O mesmo Papa, ao comemorar os oitenta anos da «Rerum Novarum», publica uma carta apostólica («Octogesima Adveniens», 1971), na qual «reflete sobre a sociedade pós-industrial com todos os seus complexos problemas [...]: a urbanização, a condição juvenil, a condição da mulher, o desemprego, as discriminações, a emigração, o crescimento demográfico, o influxo dos meios de comunicação social, o ambiente natural» (100). Dez anos depois, João Paulo II, na encíclica «Laborem Exercens» (1981), «delineia uma espiritualidade e uma ética do trabalho, no contexto de uma profunda reflexão teológica e filosófica» (101). No vigésimo aniversário da «Populorum Progressio», apresenta a encíclica «Sollicitudo Rei Socialis» (1987), onde «aborda novamente o tema do desenvolvimento» (102). E, ao comemorar o centésimo aniversário da «Rerum Novarum», João Paulo II promulga a encíclia «Centesimus Annus» (1991), na qual «emerge a continuidade doutrinal de cem anos de magistério social da Igreja» (103). Por fim, depois da elaboração do Compêndio da Doutrina Social da Igreja (2004), podemos salientar o contributo de Bento XVI com a encíclica «Caritas in Veritate» (2009).

À luz e sob o impulso do Evangelho

A Doutrina Social da Igreja é «um corpo doutrinal atualizado, que se articula à medida que a Igreja, dispondo da plenitude da Palavra revelada por Cristo Jesus e com a assistência do Espírito Santo, vai lendo os acontecimentos enquanto se desenrolam no decurso da história» (104).

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.11.14 | Sem comentários

Viver a fé! [6]


Continuamos o segundo capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Este tema resume a segunda parte do capítulo sobre a «Missão da Igreja e Doutrina Social». Apresenta «a natureza da doutrina social» (números 72 a 86), subordinada às seguintes alíneas: Um saber iluminado pela fé (72-75); Em diálogo cordial com todo o saber (76-78); Expressão do ministério de ensinamento da Igreja (79-80); Por uma sociedade reconciliada na justiça e no amor (81-84); No signo da continuidade e da renovação (85-86).

Um saber iluminado pela fé

A Doutrina Social da Igreja, cujo «fundamento essencial» (74) se encontra na Revelação bíblica e na Tradição da Igreja, «não foi pensada desde o princípio como um sistema orgânico; mas foi-se formando pouco a pouco, com progressivos pronunciamentos do magistério sobre os temas sociais» (72). O objetivo principal é «interpretar» as realidades da existência humana e da vida em sociedade «à luz da fé e da tradição eclesial [...] examinando a sua conformidade ou desconformidade com as linhas do ensino do Evangelho sobre o homem, e sobre a sua vocação terrena e ao mesmo tempo transcendente; visa, pois, orientar o comportamento cristão» (72). Por isso, a doutrina social é de natureza teológica e moral. «Efetivamente, a doutrina social reflete os três níveis do ensinamento teológico-moral: o nível fundante das motivações; o diretivo das normas do viver social; o deliberativo das consciências, chamadas a mediar as normas objetivas e gerais nas situações sociais concretas e particulares. Estes três níveis definem implicitamente também o método próprio e a específica estrutura epistemológica da doutrina social da Igreja» (73). A Doutrina Social da Igreja, no seu processo de formação, conjuga a fé e a razão. «É um conhecer iluminado pela fé» (75).

Em diálogo cordial com todo o saber

A doutrina social da Igreja «tem uma importante dimensão interdisciplinar» (76). Destaca-se, «em primeiro lugar, o contributo da filosofia [...], instrumento apto e indispensável para uma correta compreensão de conceitos basilares da doutrina social» (77). E, sem excluir nenhum saber, acolhe também o contributo das «ciências humanas e sociais». Esta abertura «atenta e constante» a todos os saberes «faz com que a doutrina social da Igreja adquira competência, concretude e atualidade» (78).

Expressão do ministério de ensinamento da Igreja

«A doutrina social é da Igreja porque a Igreja é o sujeito que a elabora, difunde e ensina. Essa não é prerrogativa de uma componente do corpo eclesial, mas da comunidade inteira: expressão do modo como a Igreja compreende a sociedade e se coloca em relação às suas estruturas e às suas mudanças. Toda a comunidade eclesial — sacerdotes, religiosos e leigos — concorre para constituir a doutrina social, segundo a diversidade, no seu interior, de tarefas, carismas e ministérios» (79). Isto significa que «a doutrina social não é somente o fruto do pensamento e da obra de pessoas qualificadas, mas é o pensamento da Igreja, enquanto obra do magistério, o qual ensina com a autoridade que Cristo conferiu aos apóstolos e aos seus sucessores» (79): «o magistério universal do Papa e do Concílio [...] integrado pelo magistério episcopal» (80).

Por uma sociedade reconciliada na justiça e no amor

Por uma sociedade reconciliada na justiça e no amor. «Com a doutrina social, a Igreja preocupa-se com a vida humana na sociedade, ciente de que da qualidade da experiência social, ou seja, das relações de justiça e de amor que a tecem, dependem de modo decisivo a tutela e a promoção das pessoas, para as quais toda a comunidade é constituída. [...] Nesta perspetiva, a doutrina social cumpre uma função de anúncio, mas também de denúncia» (81). Anuncia uma visão global do ser humano e da humanidade e denuncia as injustiças sociais. Por isso, «o intento da doutrina social da Igreja é de ordem religiosa e moral» (82).

Uma mensagem para os filhos da Igreja e para a humanidade

«A primeira destinatária da doutrina social é a comunidade eclesial em todos os seus membros, porque todos têm responsabilidades sociais a assumir [...], segundo a vocação e o ministério próprios de cada cristão» (83). «Além do destino, primário e específico, aos filhos da Igreja, a doutrina social tem um destino universal» (84).

No signo da continuidade e da renovação

«Orientada pela luz perene do Evangelho e constantemente atenta à evolução da sociedade, a doutrina social da Igreja caracteriza-se pela continuidade e pela renovação» (85). É como um «canteiro sempre aberto, [...] traçando caminhos inéditos de justiça e de paz. [...] A fé é fermento de novidade e criatividade» (86).

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.11.14 | Sem comentários

CELEBRAR A DEDICAÇÃO DA BASÍLICA DE LATRÃO

UMA LITURGIA SIMPLES E BELA

Reflexões e sugestões para alcançar o fruto de «uma liturgia simples e bela, sinal da comunhão entre Deus e os seres humanos».



A Igreja, em cada dia nove de novembro, celebra a festa da «Dedicação da Basílica de Latrão» (as orações tomam-se do «Comum da Dedicação de uma Igreja: No aniversário da Dedicação – 2. fora da Igreja dedicada», páginas 1004 e 1005). A basílica de Latrão é a catedral da diocese de Roma. Portanto, o Papa, que é o bispo de Roma, tem nesta basílica a sua sede, a sua cátedra (Sé Catedral). Todos recordamos vivamente a imagem do papa Francisco no dia da sua eleição quando se apresentou como «o bispo de Roma».
Este domingo corresponde ao aniversário da dedicação da basílica que aconteceu no dia nove de novembro de 324 pelo papa Silvestre I. Hoje, celebrar o seu aniversário é expressar a comunhão das Igrejas e comunidades locais com a Igreja fundada por Jesus Cristo sob o alicerce dos Apóstolos.
As leituras propostas para este dia («Leccionário Santoral», páginas 347 a 350) colocam a tónica do significado da palavra «templo». Através da visão de Ezequiel (primeira leitura), acolhemos a fonte da vida que brota do templo. Entretanto, surgirá um novo templo: o próprio Jesus Cristo (evangelho), ressuscitado e vivo no meio de nós. Jesus Cristo é o verdadeiro templo. Ele é o «lugar» da comunhão profunda entre os seres humanos e Deus. Ele, pela presença do Espírito, faz de nós templos de Deus (segunda leitura). Sim, Deus está connosco (salmo). Esta é a nossa fé, a nossa alegria!

«Haverá vida por toda a parte aonde chegar esta torrente»
O profeta Ezequiel, membro da família sacerdotal, foi deportado para a Babilónia no ano 597 por Nabucodonosor, juntamente com o rei de Judá e com as famílias aristocráticas judaicas.
A última parte do seu livro profético é destinada às imagens sobre a restauração do templo e do culto, no futuro. Neste contexto, vê que do vestíbulo do santuário nasce uma fonte de água que se converte numa torrente impetuosa que cura e dá vida às zonas mais áridas da terra santa. O profeta, no seu exílio na Babilónia, viu que a riqueza da cidade provinha em boa parte do rio. Então, contempla que a partir do lugar onde Deus manifesta a sua presença e onde se celebra o seu culto — o templo de Jerusalém já restaurado — nasce um manancial de água: «Haverá vida por toda a parte aonde chegar esta torrente». Ora, não se trata da humilde fonte de Siloé, que nascia na encosta da colina do templo, mas de um rio poderoso que enche tudo de vida, porque provém do lugar da presença de Deus Salvador e Senhor da vida.
A água que brotava do vestíbulo do templo, como nos explica o profeta, é a água que dá vida, que purifica até o Mar Morto e dá possibilidade de vida ao que parecia impossível de a ter. E sai do coração do lugar santo. A fonte sai da experiência da vida espiritual em comunhão com a Igreja. Este é o grande bem que podemos fazer quando, vivendo na profundidade da celebração e da comunhão com Deus, encontramos na eucaristia uma fonte de vida; e, depois, saímos dela com a vontade de dar a todos a vida que transportamos dentro de nós.

© Laboratório da fé, 2014

Celebrar a Dedicação da Basílica de Latrão (Ano A), no Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.11.14 | Sem comentários

Viver a fé! [5]


O segundo capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja intitula-se «Missão da Igreja e Doutrina Social». Neste capítulo, abordam-se assuntos como a relação entre a evangelização e a doutrina social (I), a natureza da doutrina social (II) e os acenos históricos da doutrina social no nosso tempo (III). Este tema resume o conteúdo da primeira parte do capítulo — «Evangelização e Doutrina Social» (números 60 a 71) — estruturada em quatro partes: A Igreja, morada de Deus com os homens (60 e 61); Fecundar e fermentar, com o Evangelho, a sociedade (62 a 65); Doutrina social, evangelização e promoção humana (66 a 68); Direito e dever da Igreja (69 a 71).

A Igreja, morada de Deus com os homens

A Igreja é apresentada com imagens sugestivas que fundamentam a sua missão (cf. tema 4) no meio da humanidade: «sacramento do amor de Deus», «a tenda da companhia de Deus», «ministra da salvação», «perita em humanidade». Estas expressões mostram que o ser humano «não se encontra só, perdido ou transtornado no seu empenho em humanizar o mundo, mas encontra amparo no amor redentor de Cristo» (60). Este amor torna-se visível através da Igreja. Essa é a sua missão: «A Igreja, partícipe das alegrias e esperanças, das angústias e das tristezas dos homens, é solidária com todo o homem e toda a mulher, de todo o lugar e de todo o tempo, e leva-lhes a Boa Nova do Reino de Deus, que, com Jesus Cristo, se vem colocar no meio deles» (60). Com a sua doutrina social, a Igreja mostra que está atenta ao ser humano, «está apta a compreendê-lo na sua vocação e nas suas aspirações, nos seus limites e nos seus apuros, nos seus direitos e nas suas tarefas, e a ter para com ele uma palavra de vida que ressoe nas vicissitudes históricas e sociais da existência humana» (61).

Fecundar e fermentar, com o Evangelho, a sociedade

O Compêndio da Doutrina Social da Igreja explicita detalhadamente em que consiste a missão da Igreja (cf. tema 4). Agora, além de recordar que a missão da Igreja é anunciar o Evangelho, acrescenta que também é sua missão «atualizar o Evangelho na complexa rede de relações sociais» (62). Na verdade, a Igreja entende que a sua missão a implica na criação de condições favoráveis para que o Evangelho de Jesus Cristo atinja a totalidade do ser humano e da sociedade. Neste contexto, recorre aos termos «fecundar» e «fermentar» (62) para explicar a sua missão na sociedade. Assim, através da sua doutrina social, «palavra que liberta», a Igreja anuncia, mas também «atualiza no curso da história o Evangelho do Reino, a mensagem de libertação e de redenção de Cristo» (63); ou seja, «promover uma sociedade à medida do homem porque à medida de Cristo: é construir uma cidade do homem mais humana porque mais conforme com o Reino de Deus» (63). Não se trata de se afastar da sua missão, mas de ser «rigorosamente fiel» (64) à missão. «Portadora da mensagem de Encarnação e de Redenção do Evangelho, a Igreja não pode percorrer outra via: com a sua doutrina social e com a ação eficaz que ela ativa, não somente não falseia o seu rosto e a sua missão, mas também é fiel a Cristo e revela-se aos homens como ‘universal sacramento da salvação’» (65).

Doutrina social, evangelização e promoção humana

«Nada é alheio à evangelização e esta não seria completa se não levasse em conta o recíproco apelo que continuamente se fazem o Evangelho e a vida concreta, pessoal e social do homem» (66). Por isso, a doutrina social é apresentada como «‘um instrumento de evangelização’ e desenvolve-se no encontro sempre renovado entre a mensagem evangélica e a história humana» (67). Trata-se da «função profética» própria da missão da Igreja, «um ministério que procede não só do anúncio, mas também do testemunho» (67). Contudo, a Igreja «não entra em questões técnicas e não institui nem propõe sistemas ou modelos de organização social» (68).

Direito e dever da Igreja

«Com a sua doutrina social, a Igreja propõe-se ‘assistir o homem no caminho da salvação’: trata-se do seu fim precípuo e único» (69). Quer dizer que «a Igreja tem o direito de ser para o homem mestra de verdades da fé: da verdade não só do dogma, mas também da moral que dimana da mesma natureza humana e do Evangelho» (70). Este direito também se configura como um dever: «a Igreja não pode renunciar a ele sem se desmentir a si mesma e desmentir a sua fidelidade a Cristo» (71).

«Ai de mim se não evangelizar!». A admonição de Paulo na Primeira Carta aos Coríntios (9, 16) «ressoa na consciência da Igreja como um apelo a percorrer todas as vias da evangelização» (71).

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.11.14 | Sem comentários
Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

Na Eucaristia, a comunidade cristã solidariza-se com aqueles que nos precederam sob o signo da fé e foram acolhidos no seio de Deus. A festa do dia dois de novembro convida-nos a reavivar a esperança que nos assegura que, apesar dos nossos familiares e amigos já terem deixado este mundo, não nos deixaram a nós, nem nós a eles.
A festa de dois de novembro também nos convida a pensar na morte. A morte dá que pensar. Faz-nos ter em conta a finitude do ser humano, mas também coloca a pergunta sobre a possível transcendência do humano. Isto manifesta-se no facto de nós, humanos, tratarmos os mortos com respeito, não os deixamos abandonados. Quando alguém morre, os seus encarregam-se de celebrar alguma cerimónia ou de partilhar recordações. Aquele que morreu não é um qualquer, é alguém único, irrepetível. E, nas cerimónias fúnebres, que são tão antigas como os seres humanos, subjaz a pergunta sobre a possível permanência do defunto. Até no mundo laico e secular se ouve a expressão, referindo-se ao defunto: «lá onde está» (mas em que ficamos: está enterrado ou «lá onde está»?).
Há uma relação perversa com a morte. Por um lado, é objeto de repulsa e de medo e fazemos qualquer coisa para a evitar. Contudo, na sociedade contemporânea, a morte adquiriu novos rostos. Na noite de 31 de outubro, celebra-se a festa do Halloween. Assim, a morte é motivo de riso, farra, diversão. Em muitas cidades espanholas aparecem adornos, colocados pelas autoridades públicas, para se divertirem à custa da morte. Os bares e as discotecas oferecem todo o tipo de festas para atrair clientes desejosos de rir e brincar com a morte, não sei se para esquecer outras mortes mais reais e lacerantes que os atormentam todos os dias e que se resumem na fragilidade da existência.
As imagens da televisão ou do cinema mostram outra vertente na relação com a morte. As crianças passam o tempo com videojogos onde abundam as execuções. Os adolescentes brincam com a morte pelo prazer da velocidade, da competição ou com o uso de estupefacientes que lhes destroem a vida. Os adultos recorrem às guerras, à violência conjugal, às rivalidades étnicas. Os humanos gostam de se guerrear. Há pessoas religiosas que colocam o sacrifício no centro das suas práticas, uma espécie de execução e de desprezo pelo corpo. São muitas, demasiadas, as realidades que negam o valor da vida.
O cristão acredita na vida. Por isso, espera a ressurreição dos mortos. Esta consideração fundamenta-se no amor e no poder de Deus, o único que pode dar vida a um morto, tal como pode fazer surgir coisas do nada. Esta fé deve fazer-nos críticos com tudo o que, de um modo ou de outro, atenta contra vida e a dignidade da pessoa. Positivamente, esta fé faz-nos viver de outra maneira, seguindo os passos de Cristo, o Vivente por excelência.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.11.14 | Sem comentários

Reflexão mensal sobre as obras de misericórdia [2]


«A caridade é atenção ao corpo do outro. E como o corpo é a realidade humana mais espiritual, é através do contacto com o corpo ferido, carente, sofredor, necessitado, que recriamos as condições de dignidade do ser humano ferido e ofendido, injuriado pela vida. [...] A tradição das obras de misericórdia é atividade eminentemente espiritual, precisamente no seu acontecer no corpo e graças ao corpo» (Luciano Manicardi).

Sepultar os mortos

A sepultura dos mortos não está incluída entre as obras de misericórdia enumeradas no capítulo vinte e cinco de Mateus (versículos 31 a 46), mas é prática de piedade bem estabelecida no Judaísmo. O livro de Ben Sira ou Eclesiástico (capítulo 38, versículo 16) exorta: «Filho, derrama lágrimas sobre o morto, e chora como um homem que sofreu um rude golpe. Sepulta o seu corpo segundo o costume, e não desprezes a sua sepultura» (Sir 38,16). A ausência de sepultura era considerada uma maldição e uma condição vergonhosa (cf. Salmo 79, 2-3; Jeremias 16, 4-6; 25, 33), e era a sorte miserável dos ímpios (cf. Deuteronómio 28, 26; Isaías 34, 3). Por isso, a exigência de dar sepultura adequada aos mortos é assim expressa no livro de Ben Sira (capítulo 7, versículo 33): «Dá de boa vontade a todos os vivos, e não recuses o teu benefício a um morto». As práticas fúnebres da Bíblia mostram que os parentes próximos podiam dar ao morto um último abraço e um último beijo (Génesis 50, 1: «José precipitou-se sobre o rosto de seu pai e cobriu-o de lágrimas e de beijos»). O uso de fechar os olhos do morto, também referido no livro do Génesis (cf. capítulo 46, versículo 4), explica-se pela equiparação da morte ao sono, sendo prática comum em muitas culturas. Lembremos que o termo «cemitério» deriva de um termo grego que significa «dormitório». Numa homilia inteiramente dedicada a explicar o termo «cemitério», João Crisóstomo escreve: «O lugar da sepultura chama-se ‘cemitério’ para que se saiba que aqueles que aí repousam não estão mortos, mas a dormir»; e, depois de ter observado que, muitas vezes, na Escritura, a morte é evocada com a imagem do sono e se diz dos mortos que estão adormecidos, acrescenta que daí deriva a palavra «cemitério», ou seja, «dormitório», «lugar onde se dorme».

Respeitar o cadáver

Na tradição bíblica, a sepultura sempre foi tida na máxima consideração, a par dos cuidados a prestar ao cadáver (lavar o defunto, pentear, vestir). Por outro lado, a cremação dos corpos em Israel nunca foi praticada e era considerada um ultraje ao corpo ou, então, era uma prática abominável, reservada a transgressores e inimigos, para significar o seu aniquilamento total (cf. Amós 2, 1). O respeito pelo cadáver, já notável no Antigo Testamento, que é perpassado por uma conceção antropológica unitária, pela qual o corpo se reveste de um valor espiritual, aumenta com o desenvolvimento da crença na ressurreição: não se pode deixar de tratar com toda a honra o corpo destinado à ressurreição. No Novo Testamento, os evangelhos dão particular destaque à sepultura de Jesus. Sem dúvida que a sepultura de Jesus Cristo faz parte do anúncio que a fé da Igreja proclamou e transmitiu de geração em geração, a partir de Paulo, pelo que já era uma mensagem tradicional: «Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras» (1Coríntios 15,3-4). Este facto explica a importância da sepultura em todo o cristianismo. Aliás, o ser humano é o único animal que tem consciência da morte e é o único ser que desenvolveu a prática da sepultura dos mortos. A sepultura dos mortos revela o nível de humanização e o grau de civilização de uma sociedade humana. Todos nós sentimos horror diante de imagens que mostram ultrajes e violências contra os corpos mortos de inimigos durante a guerra. Percebemos uma sacralidade violada, consideramos ímpia e desumana essa forma de atuação violenta. E sentimos que se não há respeito e atenção para com os mortos, também não pode haver respeito nem atenção para com os vivos, para com os seres humanos.

Rezar a Deus pelos vivos e com os vivos

A lista das obras de misericórdia espirituais culmina com a oração: rezar a Deus por vivos e defuntos. Tal como o amor, a oração também é uma obra, um trabalho. Rezar é uma ação laboriosa. Aqui, a oração é intercessão: rezar pelos outros. Na oração de intercessão, o ser humano manifesta a ligação indissolúvel entre a relação com Deus e a responsabilidade pelos outros, a confissão da fé e o empenho histórico, o amor a Deus e a solidariedade para com os irmãos. Assim como nós vivemos com e pelos outros, também rezamos com e pelos outros. Etimologicamente, interceder significa «dar um passo entre (‘inter-cedere’)», «interpor-se», colocar-se entre duas partes para tentar construir uma ponte, uma comunicação entre elas. É uma posição «crucial». É a posição de Jesus Cristo na cruz, quando o seu estar entre o céu e a terra terra, de braços estendidos para levar a Deus todos os seres humanos, se torna revelação do resultado último da intercessão: o dar a vida pelos pecadores, por parte daquele que é santo; o «morrer pelos» injustos, por parte daquele que é justo. E o Ressuscitado continua a interceder pelos seres humanos (cf. Hebreus 7, 25; Romanos 8, 34). Na intercessão não pedimos a Deus que se lembre de alguém, mas, «diante dele» recordamos, nós próprios, outras pessoas para que a nossa relação com elas seja iluminada pela palavra de Deus. Enquanto invocamos o perdão ou a ajuda de Deus para quem deles necessita, empenhamo-nos concretamente e fazemos tudo o que está no nosso poder em favor dessas pessoas. Neste sentido, a intercessão é luta contra a amnésia que nos ameaça, purificação da nossa relação com os outros e entrega concreta em favor daqueles pelos quais se reza. A intercessão coloca-nos na alternância entre solidão e solidariedade. Ora, se Jesus Cristo, no seu ministério histórico, rezou pelos seus discípulos, agora, também os discípulos são chamados a «rezar uns pelos outros» (Tiago 5, 16). Sujeito da oração no coração do discípulo e da comunidade cristã é o Espírito Santo, o Paráclito, que fala a língua de Deus e ensina o crente a rezar. Então, o cristão é convidado a interceder, a elevar súplicas e orações por todos. Graças à intercessão, a vontade de Deus e o amor universal que a anima tornam-se práxis quotidiana do crente, convertendo o seu coração. Com efeito, a oração pelos outros nasce do amor e conduz ao amor, purificando o amor. Aliás, como seria possível chegar a amar os inimigos sem rezar por eles? Não foi por acaso que Jesus Cristo, depois de ter dito «Amai os vossos inimigos» (Lucas 6, 27), acrescenta de imediato: «Rezai por aqueles que vos maltratam» (Lucas 6, 28). A oração infunde intencionalidade na nossa atuação e forma de relacionamento, tornando-se o seu fundamento espiritual.

Rezar a Deus pelos defuntos e com os defuntos

A Escritura também refere a oração dos vivos pelos mortos (cf. 2Macabeus 12, 41-45) e dos mortos pelos vivos (cf. 2Macabeus 15, 11-16). A oração pelos defuntos é sustentada e tornada possível pela fé na ressurreição e torna-se um dever da comunidade crente, que também vive deste modo a sua solidariedade para com os irmãos defuntos. A fé na ressurreição é o resultado radical da aliança que Deus faz com os humanos e que fala de um amor divino que «vale mais do que a vida» (Salmo 63, 4) e impele-nos para além da vida. A comunhão experimentada em vida não é desfeita pela morte, porque o crente encontra a sua vida «em Cristo»: aqueles que vivem os seus dias em Cristo ficam, portanto, em comunhão com aqueles que «morreram em Cristo» e entre eles estabelece-se uma misteriosa comunhão que também torna possível uma comunicação (cf. Apocalipse 7, 13-17). Aliás, o Batismo, que incorpora o indivíduo crente no acontecimento pascal e cria a comunhão daqueles que, na história, formam o Corpo de Cristo, representa uma morte simbólica para viver em Cristo, e infunde a convicção de que a morte física não quebra a ligação do crente que, em Cristo, está unido à comunidade de fé. A Igreja atesta, desde a Antiguidade, a possibilidade de uma oração pelos mortos, que se situa na «comunicação das linguagens», que une, em Cristo, os vivos e os mortos. Assim, a liturgia da Igreja reza pelos defuntos, sobretudo nas anáforas eucarísticas. A Igreja reza por todos os seus membros, vivos ou mortos, e reza pelos que morreram em santidade e pelos que morreram em pecado: todos eles, com efeito, precisam da misericórdia de Deus, único poder de salvação. Na oração pelos defuntos, a Igreja manifesta a sua qualidade de Corpo de Cristo e vive a solidariedade com todos os membros deste corpo, inclusive com aqueles que já faleceram. Ao rezar pelos mortos, a Igreja também reza com eles. Única, com efeito, é a liturgia da Igreja celeste e terrestre. Rezando pelos mortos, a Igreja confessa o perdão dos pecados para todos: tanto para os vivos como para os mortos. Aliás, a salvação que Jesus Cristo veio trazer é para todos os ser humanos. Ao rezar pelos mortos, a Igreja insere-se no plano de salvação de Deus, que tem por fim o Reino, a ressurreição final e a vida eterna. Eis então que as orações tradicionais pelos mortos invocam «paz», «repouso eterno», «refrigério», «luz eterna», e evocam imagens como «paraíso» e «Jerusalém celeste».

Rezar pelos vivos e pelos mortos 
é lutar contra o inferno da não relação 
que ameaça as nossas vidas 
e fazer reinar o amor 
que é ligação vital e salvífica, 
invocando o Deus misericordioso 
e compassivo.

© Laboratório da fé, 2014 
Este texto foi elaborado a partir da obra de Luciano Manicardi intitulada «A caridade dá que fazer: Redescobrindo a atualidade das ‘obras de misericórdia’» (páginas 137 a 147 e 207 a 215) publicada em português pelas edições Paulinas





Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.11.14 | Sem comentários
  • Recentes
  • Arquivo
  • Comentários