Viver a fé! [3]


Este tema — «A pessoa humana no desígnio de amor de Deus» — resume o terceiro ponto (números 34 a 48) do primeiro capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja («O desígnio de amor de Deus para toda a Humanidade»). Dá continuidade ao tema anterior (cf. tema 2), desenvolvendo-se em quatro alíneas: «O Amor Trinitário, origem e meta da pessoa humana»; «A salvação cristã: para todos os homens e do homem todo»; «O discípulo de Cristo qual nova criatura»; «Transcendência da salvação e autonomia das realidades terrestres». A reflexão é norteada por alguns números da Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual — «Gaudium et Spes» — e pela narração do livro do Génesis: «Deus disse: ‘Façamos o ser humano à nossa imagem, à nossa semelhança’ [...] Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher» (1, 26-27).

O Amor Trinitário, origem e meta da pessoa humana

«Na comunhão de amor que é Deus, em que as três Pessoas divinas se amam reciprocamente e são o Único Deus, a pessoa humana é chamada a descobrir a origem e a meta da sua existência e da história» (34). Para nós, crentes, há uma relação profunda entre Deus e o ser humano: este, criado à «imagem», à «semelhança» de Deus, amado e salvo em Jesus Cristo, «realiza-se tecendo multíplices relações de amor, de justiça e de solidariedade com as outras pessoas, na medida em que desenvolve a sua multiforme atividade no mundo» (35). O livro do Génesis contém «um ensinamento fundamental sobre a identidade e a vocação da pessoa humana» (36) e «propõe-nos algumas linhas mestras da antropologia cristã: a inalienável dignidade da pessoa humana [...]; a sociabilidade constitutiva do ser humano [...]; o significado do agir humano no mundo» (37).

A salvação cristã: para todos os homens e do homem todo

O desígnio salvador de Deus, oferecido em Jesus Cristo e atualizado pelo Espírito Santo, é «para todos» e para a totalidade do ser humano: «é salvação universal e integral. Diz respeito à pessoa humana em todas as suas dimensões: pessoal e social, espiritual e corpórea, histórica e transcendente» (38). Mas esta oferta não acontece por uma receção passiva: pela fé, exige «livre resposta e adesão» (39) de cada ser humano, que se concretiza no compromisso de viver o mandamento do amor (cf. tema 2), «no concreto das situações históricas» (40).

O discípulo de Cristo qual nova criatura

«O discípulo de Cristo adere, na fé e mediante os sacramentos, ao mistério pascal de Jesus, de sorte que o seu homem velho, com as suas más inclinações, é crucificado com Cristo. Qual nova criatura, ele fica então habilitado na graça a caminhar em ‘uma vida nova’» (41). Este caminho não é apenas para o cristão, «mas para todos os homens de boa vontade, em cujos corações a graça opera ocultamente» (41). Ora, a «transformação interior da pessoa humana, na sua progressiva conformação a Cristo, é pressuposto essencial de uma real renovação das suas relações com as outras pessoas» (42). Depois, a prática do mandamento do amor conduz a uma «firme e constante determinação de se empenhar em prol do bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos» (43), mesmo daqueles que «pensam ou atuam de modo diferente de nós em matéria social, política ou até religiosa» (43). Por fim, «também a relação com o universo criado e as diversas atividades que o homem dedica ao seu cuidado e transformação [...] devem ser purificadas e levadas à perfeição pela cruz e pela ressurreição de Cristo» (44).

Transcendência da salvação e autonomia das realidades terrestres

«Quanto mais o humano é visto à luz do desígnio de Deus e vivido em comunhão com Ele, tanto mais ele é potenciado e libertado na sua identidade e na mesma liberdade que lhe é própria» (45). Entre Deus e o ser humano não há conflito, mas «mas uma relação de amor na qual o mundo e os frutos do agir do homem no mundo são objeto de recíproco dom entre o Pai e os filhos, e dos filhos entre si, em Cristo Jesus: n’Ele e graças a Ele, o mundo e o homem alcançam o seu significado autêntico e originário» (46).Então, «a pessoa humana não pode e não deve ser instrumentalizada por estruturas sociais, económicas e políticas, pois todo o homem tem a liberdade de se orientar para o seu fim último» (48).

«A pessoa humana, em si mesma e na sua vocação, transcende o horizonte do universo criado, da sociedade e da história: o seu fim último é o próprio Deus, que Se revelou aos homens para os convidar e receber na comunhão com Ele» (47).

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia» 





Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.10.14 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO TRIGÉSIMO

UMA LITURGIA SIMPLES E BELA

Reflexões e sugestões para alcançar o fruto de «uma liturgia simples e bela, sinal da comunhão entre Deus e os seres humanos».



A palavra de Deus coloca-nos, no trigésimo domingo (Ano A), diante do essencial: o amor. De novo, os fariseus querem pôr Jesus Cristo à prova (evangelho). Enquanto eles colocam a questão do maior mandamento da Lei, Jesus Cristo prefere, sobretudo, mostrar como a vê, em toda a sua essência: o amor não tem limites. Deus está próximo de todos os pobres e excluídos; e convida-nos a fazer o mesmo, a praticar a misericórdia (primeira leitura). Ser exemplo, anunciar a palavra de Deus (segunda leitura), supõe o amor aos irmãos: a caridade vem de Deus e nunca nos afasta dele. O primeiro e o segundo mandamento são apenas um: amar, simplesmente amar. Então, a nossa oração não se pode esquecer de cantar (salmo) o amor de Deus e o amor a Deus.

«Escutá-lo-ei, porque sou misericordioso»
O fragmento proposto para primeira leitura do trigésimo domingo (Ano A), retirado do livro do Êxodo, pertence à coleção de leis mais antiga do Antigo Testamento. O Êxodo reporta-as ao contexto da aliança, o pacto que Deus ofereceu ao povo de Israel, através de Moisés, no Sinai.
Esta passagem contém duas ordem expressas no negativo — «não prejudicarás... não maltratarás» — seguidas de um comentário. O primeiro mandamento protege os estrangeiros que vivem no meio do povo de Israel. São pessoas muito vulneráveis, sem direito de cidadania. A segunda ordem protege as viúvas e os órfãos: as mulheres e as crianças que perderam o seu protetor masculino encontram-se expostas a todo o tipo de abusos. Os comentários às leis são muito interessantes. O que se refere aos imigrantes remete para a tradição do Êxodo. Da mesma maneira que Israel foi protegido quando era marginalizado, assim também há de agir com os desfavorecidos. A memória do Êxodo, o ato libertador de Deus por antonomásia, há de ser sempre um fundamento da ética.
A segunda parte do texto refere-se aos pobres e é muito radical: a atividade económica há de ser regulada pelo princípio da solidariedade comunitária. Os israelitas não podem ser como os outros banqueiros; têm de ser diferentes: não se pode «brincar» com a miséria. A lei não fala diretamente de uma economia lucrativa; simplesmente exige que se cuide da vida do pobre. Essa sim, há de estar acima de todos os interesses. A garantia é dada pelo próprio Deus, que se mostra disposto a escutar o clamor e a exercer a misericórdia: «Escutá-lo-ei, porque sou misericordioso». Atua sempre como um Deus de graça.

A palavra «eucaristia» significa «dar graças», dizer obrigado (agradecer). Os mais novos (crianças e adolescentes da catequese, por exemplo) podem fazê-lo, na celebração, com as suas próprias palavras ou gestos, de acordo com a criatividade de cada um (de cada grupo). A «Oração Eucarística para as Missas com crianças II» («Missal Romano», página 1331 e seguintes) coloca em evidência o tema do amor e da gratidão pelo amor recebido: «Glória a Vós, Senhor, que tanto nos amais». E a introdução ao gesto da paz merece ser feita a partir do (duplo) mandamento do amor!

© Laboratório da fé, 2014

Celebrar o domingo trigésimo (Ano A), no Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.10.14 | Sem comentários

Reflexão mensal sobre as obras de misericórdia [1]


«Estamos na terceira etapa do nosso plano pastoral. A fé professada e celebrada continua em fé vivida, isto é, a fé transforma-se em vida e transforma a nossa vida. Orienta-nos o desejo de alcançarmos o fruto da unidade profunda entre a fé e a caridade. […] Está em causa a capacidade de ‘reaprender a gramática elementar da caridade’, cujo fio condutor se encontra na prática das obras de misericórdia: dar de comer a quem tem fome; dar de beber a quem tem sede; vestir os nus; dar pousada aos peregrinos; assistir os doentes; visitar os presos; sepultar os mortos; dar bons conselhos; ensinar os ignorantes; corrigir os que erram; consolar os tristes; perdoar as injúrias; suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo; rezar a Deus por vivos e defuntos» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga para 2014+15).

Ser misericordiosos

Jesus Cristo, no evangelho segundo Lucas, no contexto das bem-aventuranças, apresenta a «regra de ouro» que consiste em amar a todos, inclusive os inimigos; e acrescenta: «Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso» (Lucas 6, 36). Mais do que uma ordem, estas palavras de Jesus são a revelação de uma possibilidade: elas atestam a possibilidade do ser humano participar da misericórdia de Deus, ou seja, de dar vida, de mostrar ternura e amor, de perdoar, de co-sofrer com quem sofre, de sentir a unicidade do outro e de lhe estar próximo, de suportar o outro e de ter paciência com a sua lentidão e as suas incapacidades.
Em várias passagens do Antigo Testamento, Deus é designado como «misericordioso e compassivo» — esse é o seu nome: «Deus misericordioso e clemente, vagaroso na ira, cheio de bondade e de fidelidade» (Êxodo 34, 6); «És um Deus misericordioso e compassivo, paciente e grande em bondade e fidelidade» (Salmo 86, 15); «O SENHOR é misericordioso e compassivo, é paciente e cheio de amor» (Salmo 103, 8); «O SENHOR é bondoso e compassivo» (Salmo 111, 4). Ora, no Novo Testamento, Jesus Cristo, através da sua maneira de ser e de viver, apresenta-se como o rosto humano de Deus, isto é, da sua misericórdia e compaixão: «Compadecido, Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: «Quero, fica purificado» (Marcos 1, 41); «Jesus viu uma grande multidão e teve compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor» (Marcos 6, 34); «O Senhor compadeceu-se dela e disse-lhe: «Não chores» (Lucas 7, 13). O discípulo, cada um de nós, seguindo o Mestre, pela fé e pelo amor, também pode viver a misericórdia e a compaixão. Eis o caminho para alcançar o fruto de uma unidade profunda entre a fé e a caridade!

Viver a misericórdia

Na Bíblia, a misericórdia não é apenas uma emoção, um sentimento perante o sofrimento do outro: ela nasce como ressonância aguda do sofrimento do outro dentro de mim mas, depois, torna-se ética, práxis e virtude. É o que acontece com o samaritano da parábola, que faz tudo o que está ao seu alcance para aliviar concretamente os sofrimentos daquele homem deixado moribundo à beira do caminho: «‘E quem é o meu próximo?’. Tomando a palavra, Jesus respondeu: ‘Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: “Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar”. Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?’. Respondeu: ‘O que usou de misericórdia para com ele’. Jesus retorquiu: ‘Vai e faz tu também o mesmo’» (Lucas 10, 29-37). A misericórdia deve ser feita: «Vai e faz tu também o mesmo» — diz Jesus Cristo ao doutor da Lei, a quem contou a parábola do samaritano. Assim, os discípulos ficam a conhecer a vontade de Deus; e também sabem como eles próprios devem querê-la e praticá-la: seguindo as pegadas de Jesus Cristo e aprendendo com Ele, que é «manso e humilde de coração» (Mateus 11, 29).

As obras da fé

Ser misericordiosos e viver a misericórdia concretiza-se no mandamento do amor apresentado por Jesus Cristo. Este amor só pode ser concreto e visível, efetivo e não simplesmente afetivo, operante e prático, e não só íntimo e inexpressivo. A Carta de Tiago é muito clara ao recordar que a fé sem obras está «completamente morta»: «De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: ‘Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome’, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta. Mais ainda: poderá alguém alegar sensatamente: ‘Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me então a tua fé sem obras, que eu, pelas minhas obras, te mostrarei a minha fé» (Tiago 2, 14-18).
O Antigo Testamento já tinha enumerado algumas das obras visíveis da caridade, que constituem atos de libertação do pobre e do necessitado: «repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus» (Isaías 58, 7).
O Novo Testamento encontra, na página do Juízo Universal de Mateus (25, 31-46), uma exemplificação e uma lista de seis gestos de caridade que, se forem feitos a um pobre, a um pequeno, são feitos, de facto, ao próprio Jesus Cristo: «Tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo».

As obras de misericórdia

A elaboração doutrinal de uma «lista» das obras de misericórdia, que hoje conhecemos como expressões da unidade profunda entre a fé e a caridade, longe de querer esgotar as possibilidades da misericórdia, deve ser acolhida como um desafio à criatividade crente no concreto da história, para que a caridade não seja apenas um gesto «bom», mas também «profético». Só desta forma se poderá dizer que na raiz das obras de misericórdia está presente o rosto do Deus misericordioso e a necessidade do ser humano: elas nascem da experiência do amor de Deus e cumprem o mandamento do amor ao próximo.
Como vimos, são vários os fundamentos bíblicos para a elaboração de uma «lista» com as «obras de misericórdia materiais», tal como as designamos hoje.
As «obras de misericórdia espirituais» devem ter surgido a partir da interpretação alegórica do capítulo 25 de Mateus por parte de Orígenes: as obras aí indicadas têm um valor «material», mas também «espiritual».
Entre outros escritos, esta dupla dimensão material e espiritual das obras de misericórdia é expressa por Santo Agostinho através do binómio «dar e perdoar: dar dos bens que possuis e perdoar os males que sofres» .
Uma lista definitiva das obras de misericórdia não é confirmada até ao fim do primeiro milénio: provavelmente, só no século doze assistimos à fixação de uma lista estereotipada de sete obras de misericórdia, as chamadas corporais (seis do capítulo 25 de Mateus, mais a sepultura dos mortos referida no livro de Tobias: «Durante o reinado de Sal­manasar, eu dava muitas es­molas aos meus irmãos, forne­cen­do pão aos esfomeados e vestindo os nus, e se encontrava morto al­guém da mi­nha linhagem, atirado para junto dos muros de Nínive, dava-lhe sepul­tura. Enterrei também aque­­­les que Senaquerib mandara matar, quando regressou, fugindo da Ju­deia, du­rante o tempo do castigo que o rei do céu mandou sobre os que blas­fe­ma­vam. De facto, na sua ira, o rei man­dou matar a muitos. Eu, então, rou­bava os corpos para os sepultar. Depois, quando o rei procurava os corpos, não os conseguia encontrar» [Tobite 1, 16-18]), à qual se somará — com certeza pelo menos a partir de Tomás de Aquino — a lista das sete obras de misericórdia espirituais. Aliás, é bem conhecido o fascínio exercido pelo número sete e pelos septenários sobre o espírito do homem medieval, a ponto de a Idade Média ter celebrado «o triunfo do sete» : «O sete é símbolo de ordem e de totalidade, síntese quase mágica de unidade e de multiplicidade» . Com o septenário, a multiplicidade das obras de misericórdia fica de certo modo sintetizada e dotada de unidade. Ainda na Idade Média, a par do septenário, desenvolve-se um sistema binário pelo qual, por exemplo, aos sete pecados se associam sete virtudes, muitas vezes descritas de modo correspondente e paralelo aos pecados.

© Laboratório da fé, 2014 
Este texto foi elaborado a partir da obra de Luciano Manicardi intitulada «A caridade dá que fazer: Redescobrindo a atualidade das ‘obras de misericórdia’» (páginas 61 a 75) publicada em português pelas edições Paulinas





Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.10.14 | Sem comentários
Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

Segui muito por alto as notícias sobre o Sínodo. E, do pouco que li nas notícias, não gostei. Se não soubesse que se tratava de um acontecimento eclesial, teria pensado que eram notícias sobre uma guerra entre dois partidos diferentes, distantes e opostos. E que se tratava de ganhar a batalha da informação, como se essa batalha fosse decisiva para ganhar a guerra.
Em todas as sociedades há tendências e diferenças. Isso, em princípio, é bom, porque o contraste de pareceres ajuda a encontrar a verdade. E, na Igreja, é disso que se trata: não tanto de saber a opinião de um ou de outro, mas qual é a verdade a propósito das coisas. Ora, a verdade, diga-se o que se disser, vem em última instância do Espírito Santo (algo parecido dizia Tomás de Aquino). Por outro lado, quando determinados temas continuam a aparecer, apesar das resistências de alguns em falar deles, é porque estamos diante de um problema sério que requer melhores soluções do que as encontradas até agora.
Duas chaves teológicas vieram-me à mente quando lia as notícias sobre o Sínodo. Uma, a distinção entre verdade de fé e doutrina da Igreja. A doutrina muda. Nalgumas ocasiões, mudou pouco. Por exemplo, a mudança que aconteceu a propósito de algo tão sério como a necessidade do batismo para a salvação. Que Cristo seja o Salvador de todas e de todos, é uma verdade de fé. Que só seja possível aceder a esta salvação por meio do batismo é uma doutrina que se ensinou, mas que mudou, e mudou para melhor. A outra chave refere-se ao Magistério «vivo» da Igreja. Alguns apelam ao Magistério do passado para desqualificar o atual. Esquecem que ambos se interpretam mutuamente, mas deixando claro que o Magistério ao qual se deve dar atenção é, principalmente, o Magistério «vivo», ou seja, o do presente.
As polémicas não oferecem luz. Pelo contrário, criam maior divisão, ao reforçar as respetivas posições adversas. Contudo, alegro-me ao constatar que, nalguns temas considerados até agora intocáveis, os Padres Sinodais tenham adotado uma atitude muito positiva. Inclusive naqueles poucos números do Boletim oficial nos quais não se alcançou a maioria de dois terços a favor, houve uma maioria clara de mais de metade. Isso significa que é legítimo falar dessas coisas na Igreja. E significa, além disso, que quem opina que, em determinadas condições, as pessoas divorciadas que voltaram a casar, poderiam aceder à comunhão eucarística, não são assim tão poucos nem heréticos. Um católico deveria sentir-se representado pelos participantes no Sínodo. Porque se eles não nos representam, quem é que nos vai representar? Os que mais berram, os mais intransigentes, os mais excludentes?
A terminar. Custa-me entender que 64 Padres tenham votado contra a proposição 55 sobre a atenção pastoral às pessoas com orientação homossexual. É verdade: 118 votaram a favor.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.10.14 | Sem comentários

Reflexão mensal sobre as obras de misericórdia


«Uma unidade profunda entre a fé e a caridade» — este «fruto esperado» para este ano pastoral servirá de mote para uma reflexão mensal sobre as obras de misericórdia. «Está em causa a capacidade de ‘reaprender a gramática elementar da caridade’, cujo fio condutor se encontra na prática das obras de misericórdia» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga para 2014+15).

  • Em outubro, o tema será «a tradição das obras de misericórdia» tendo por base a obra de Luciano Manicardi, «A caridade dá que fazer: Redescobrindo a atualidade das ‘obras de misericórdia’», publicada em português pelas edições Paulinas. 
Nos meses seguintes, duas obras de misericórdia (uma material e uma espiritual), a saber: 
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.10.14 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO VIGÉSIMO NONO

UMA LITURGIA SIMPLES E BELA

Reflexões e sugestões para alcançar o fruto de «uma liturgia simples e bela, sinal da comunhão entre Deus e os seres humanos».



Jesus Cristo tinha dado uma resposta aos fariseus que contestavam a sua autoridade. Mas eles não se rendem e armam-lhe uma cilada: interrogam-no sobre a relação do crente com a autoridade política, a delicada questão do imposto romano (evangelho). Cilada que Jesus Cristo desmonta com habilidade: o que tem a «imagem» e a «inscrição» de César pertence-lhe; mas a liberdade do ser humano, que é imagem de Deus, pertence a Deus. O rei Ciro (primeira leitura) compreendeu bem esta pertença; e vai possibilitar a libertação dos exilados. Pois bem, esta pertença a Deus faz-nos dar-lhe a «glória do seu nome»: Deus é «digno de louvor» (salmo). Uma coisa é certa: não é preciso opor deliberadamente a política à religião! O que está em causa é nunca esquecer a «atividade da vossa fé, o esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança» (segunda leitura).

«Eu sou o Senhor e não há outro; fora de Mim não há Deus»
O Deus de Israel atua na história do seu povo e de todas as nações. Segundo a perspetiva de Isaías (Deutero-Isaías ou Segundo Isaías), houve duas grandes intervenções de Deus: a libertação de Israel, escravo no Egito, através da travessia do mar (que se dividiu em dois para deixar passar o povo rumo à liberdade, à Terra Prometida); e, agora, naquele preciso momento histórico da vida do povo e do profeta, com o chamamento de um rei pagão, Ciro da Pérsia, «ungido» com a missão de conquistar Babilónia e oferecer aos judeus exilados há cinquenta anos o regresso à Terra Prometida.
Isaías, no exílio, entende que o futuro de Deus no mundo não ficará limitado ao horizonte de Israel, de tal forma que pode afirmar que Deus confia uma missão libertadora — salvífica — a um pagão. Este facto surpreendente é, de alguma maneira, um prelúdio da afirmação central da fé cristã: Jesus Cristo, um desconhecido sem credenciais perante as autoridades do povo de Israel, realiza a obra salvadora de Deus, através da sua morte na cruz. O escândalo é absoluto.
O texto de Isaías destaca que o futuro que Deus tem preparado para Israel não será levado a cabo da maneira que os judeus exilados esperavam ou preferiam. O plano de Deus supera tudo o que é imaginável, pois Ciro nem sequer conhecia o Deus de Israel. Mas este esquema tão complexo de política internacional, que supõe a queda de impérios e a possibilidade de liberdade para um povo como Israel, foi feito «por causa de Jacob, meu servo, e de Israel, meu eleito». Assim, tudo isto ocorrerá «para que se saiba, do Oriente ao Ocidente, que fora de Mim não há outro. Eu sou o Senhor e mais ninguém». Deus revela-se como o Criador de todas as coisas, o único Senhor: «Eu sou o Senhor e não há outro; fora de Mim não há Deus».

Na sequência da Liturgia da Palavra, que já dá glória a Deus (salmo), a Liturgia Eucarística é louvor e ação de graças. Seguindo a indicação de Jesus Cristo — «dai a Deus o que é de Deus» — é oportuno o uso da «Oração Eucarística V/B» («Missal Romano», página 1163 e seguintes). Além disso, porque se trata também do Dia Mundial das Missões pode fazer-se uso das orações para a «evangelização dos povos» («Missal Romano», página 1208 e seguintes).

© Laboratório da fé, 2014

Celebrar o domingo vigésimo nono (Ano A), no Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.10.14 | Sem comentários

Viver a fé! [2]


«O desígnio de amor de Deus para toda a Humanidade» é o título do conteúdo do primeiro capítulo (números 20 a 59) do Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Nesta proposta — «viver a fé» — vamos resumir o primeiro capítulo em três temas. Neste tema, abordamos os dois primeiros pontos do capítulo: «A ação libertadora de Deus na história de Israel» (números 20 a 27) e «Jesus Cristo, cumprimento do desígnio de amor do Pai» (números 28 a 33).

A proximidade gratuita de Deus

O dom e a gratuidade são duas dimensões fundamentais para intuir a presença de Deus e, por isso, servem para iluminar a convivência humana. De facto, em qualquer experiência religiosa autêntica, Deus «aparece, por um lado, como origem daquilo que é, como presença que garante aos homens, socialmente organizados, as condições básicas de vida, pondo à disposição os bens necessários; por outro lado, como medida do que deve ser, como presença que interpela o agir humano – tanto no plano pessoal, como no social – sobre o uso dos mesmos bens nas relações com os outros» (20). Entretanto, a história bíblica revela que a proximidade gratuita de Deus, como relata o livro do Êxodo aquando da saída do Egito, «manifesta-se na libertação da escravidão e na promessa, tornando-se ação histórica na qual tem origem o processo de identificação coletiva do povo do Senhor, através da aquisição da liberdade e da terra que Deus lhe oferece em dom» (21). E toda a história de Israel comprova a constante presença gratuita de Deus. Para perpetuar essa presença, Deus estabelece uma Aliança com o seu povo concretizada, depois, através do «Decálogo»: os dez mandamentos. Eles «constituem um extraordinário caminho de vida, indicam as condições mais seguras para uma existência liberta da escravidão do pecado, [...] constituem as regras primordiais de toda a vida social» (22). O dom e a gratuidade divinas inspiram a vida social e económica do povo de Israel através da criação do «direito do pobre» (23), da lei do ano sabático (celebrado a cada sete anos) e do ano jubilar (a cada cinquenta anos): «é uma lei que prescreve, além do repouso dos campos, a remissão das dívidas e uma libertação geral das pessoas e dos bens: cada um pode retornar à sua família e retomar a posse do seu património» (24). Então, o dom e a gratuidade ficam obscurecidos e distorcidos pela experiência do pecado: «A rutura da relação de comunhão com Deus provoca a rutura da unidade interior da pessoa humana, da relação de comunhão entre o homem e a mulher e da relação harmoniosa entre os homens e as demais criaturas» (27).

Jesus Cristo é o cumprimento do desígnio de amor do Pai

«A benevolência e a misericórdia, que inspiram o agir de Deus e oferecem a sua chave de interpretação, tornam-se tão próximas do homem a ponto de assumir os traços do homem Jesus, o Verbo feito carne» (28). Jesus Cristo anuncia e torna visível o dom e a gratuidade do amor de Deus, nomeadamente junto dos mais pobres. Reconhecendo-se como Filho amado pelo Pai, retira daí a inspiração para a sua ação, com as «mesmas gratuidade e misericórdia de Deus, geradoras de vida nova, e tornar-se assim, com a sua própria existência, exemplo e modelo para os seus discípulos. Estes são chamados a viver como Ele e, depois da sua Páscoa de morte e ressurreição, também n’Ele e d’Ele, graças ao dom sobreabundante do Espírito Santo» (29). Assim, «com palavras e obras, e de modo pleno e definitivo com a sua morte e ressurreição, Jesus revela à humanidade que Deus é Pai e que todos somos chamados por graça a ser filhos d’Ele no Espírito (cf. Romanos 8, 15; Gálatas 4, 6), e por isso irmãos e irmãs entre nós. É por esta razão que a Igreja crê firmemente que ‘a chave, o centro e o fim de toda a história humana se encontram no seu Senhor e Mestre’» (31).

O mandamento do amor

«‘Caríssimos, se Deus nos amou assim, também nos devemos amar uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus; se nos amarmos uns aos outros, Deus está em nós e o Seu amor é perfeito em nós’ (1João 4, 11-12). A reciprocidade do amor é exigida pelo mandamento que o próprio Jesus define como novo e seu: ‘assim como eu vos amei, vós também vos deveis amar uns aos outros’ (João 13, 34). O mandamento do amor recíproco traça a via para viver em Cristo a vida trinitária na Igreja, Corpo de Cristo, e transformar com Ele a história até ao seu pleno cumprimento na Jerusalém Celeste» (32).

O mandamento do amor (recíproco), a «regra de ouro» da convivência humana, tem de «inspirar, purificar e elevar todas as relações humanas na vida social e política» (33).

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia»





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 16.10.14 | Sem comentários
Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

Uma coisa é o ato de fé e outra as fórmulas com as quais expressamos o conteúdo da fé. A este propósito, São Tomás dizia expressamente que o ato de fé não se dirige aos enunciados (dogmas, catequeses, credos), mas à realidade divina à qual esses enunciados remetem e que expressam de forma muito imperfeita, precisamente porque são fórmulas humanas. Dito de outra forma: nós não acreditamos em dogmas, em fórmulas ou em palavras, mas no Deus revelado em Jesus Cristo que se expressa nessas fórmulas, dogmas ou palavras. Deus é o objeto e meta da nossa fé, Aquele em quem acreditamos e confiamos, Aquele de quem tudo esperamos. Não há nenhuma fórmula, nenhuma pregação, nenhum dogma que possa englobá-lo. Ele é sempre mais do que dizemos e pensamos.
Contudo, não é menos certo que necessitamos dessas palavras, fórmulas e pregações, para dar um conteúdo à nossa fé. Pois a detioração da fé de muitos cristãos começa com a imprecisão dos enunciados sobre Deus e sobre Cristo. Quanto isto acontece, quando não se dispõe de um boa explicação teológica dos conteúdos da fé, esta substitui-se por práticas devocionais e por imagens ou ritos centrados em aspetos secundários que, em determinadas ocasiões, em vez de nos orientar para Deus, afastam-nos dele.
As duas dimensões da fé são importantes: o ato de fé que deve ser eminentemente teologal, isto é, centrado e orientado para o Deus de Jesus Cristo; e uma boa explicação dos conteúdos da fé, que toma como ponto de referência dessas explicações o Jesus que os evangelhos nos dão a conhecer. Se esquecemos o primeiro, a saber, que Deus é o objeto, a meta e o fim da fé e, portanto, que nós acreditamos em Deus e só em Deus, corremos o risco de dar às fórmulas ou aos ritos uma importância desmesurada. E o que é pior, corremos o risco de nos perdermos em discussões sobre as fórmulas e ritos que acabam por desqualificar quem se expressa com matizes ou elementos culturais distintos dos nossos. Corremos o risco de perder a Deus e ficarmos com a fórmula ou o rito.
Se esquecemos o segundo, a saber, que a fé tem um conteúdo e que, de alguma forma, temos que esclarecer, corremos o risco de converter a fé num ato voluntarioso, mas ficarmos com a inteligência vazia. A fé é vida, mas também é luz, verdade e caminho. Por isso, a adesão de fé necessita de se converter em luz e caminho para a vida, bem como na verdade que satisfaça a nossa inteligência. Só assim, quando um dia chegarem as dificuldades, poderemos manter-nos firmes porque temos umas «verdades» às quais nos agarramos, mesmo que na realidade essas verdades sejam um pálido reflexo da Verdade, essa Verdade com maiúscula, a qual todas as verdades com minúscula pretendem expressar, sem nunca o conseguir totalmente.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.10.14 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO VIGÉSIMO OITAVO

UMA LITURGIA SIMPLES E BELA

Reflexões e sugestões para alcançar o fruto de «uma liturgia simples e bela, sinal da comunhão entre Deus e os seres humanos».



O antegozo do Reino de Deus dado a conhecer nas leituras bíblicas propostas para o vigésimo oitavo domingo (Ano A) é particularmente interessante: um banquete preparado para todos os povos (primeira leitura); um banquete nupcial (evangelho); bem-estar e descanso (salmo). São, após a imagem da vinha dos domingos anteriores, imagens bíblicas importantes para exprimir a união entre Deus e o seu povo, e para anunciar a salvação. A grande parábola dos «convidados para as bodas» é, mais uma vez, uma resposta de Jesus Cristo aos «príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo», que contestavam a sua autoridade. A parábola do Reino é parábola de julgamento: para ser «escolhidos» revistamo-nos da alegria do Evangelho e convidemos para a nossa mesa todos aqueles e aquelas que nada têm, certos de que «Deus proverá com abundância a todas as vossas necessidades» (segunda leitura).

«Um banquete de manjares suculentos»
O profeta faz-nos contemplar uma realidade surpreendente: a prodigiosa e generosa ação de Deus. Estes versos indicam a vinda em plenitude do Reino de Deus. Trata-se de uma visão portentosa dum mundo no qual o Reino de Deus é uma realidade sem restrições.
A imaginação profética situa-o «sobre este monte» — a montanha de Sião, Jerusalém, tão amada nas Sagradas Escrituras. Este é o lugar no qual se celebrará a grande festa, o banquete de Deus, para o qual todos os povos serão convidados.
Aí, a dor que atenaza a humanidade será destruída para sempre: «destruirá a morte para sempre». Aí, a morte não é a consciência de que todos hão de morrer, mas uma força ativa de negatividade que atua contra a vida, a pessoa e a comunidade. Essa morte, Deus a «destruirá». Então, já não haverá lágrimas, nem causa de tristeza, nem ocasião para lamentações. O poeta fala duma transformação radical e completa: é uma maneira de tornar ativa, no presente, a certeza do futuro de Deus.
Segundo a descrição, o banquete é um dom dirigido a todos. É uma mensagem de esperança. É um banquete para celebrar o amor de Deus pelos seres humanos. Mais tarde, Jesus Cristo mostra que os primeiros convidados são os que parecem estar mais próximos do rei, mas na verdade são os que se encontram mais afastados; portanto, são os que recusam celebrar o amor! Então, convidar os que se encontram nas «encruzilhadas dos caminhos» é abrir a festa a todos. Hoje, somos todos «convidados para a Ceia do Senhor»!

A simbólica dada a conhecer na Liturgia da Palavra pode manter-se na Liturgia Eucarística, quer na preparação um pouco mais cuidada do altar (a mesa do banquete pascal), quer nos textos escolhidos (a «Oração Eucarística II das Missas da Reconciliação» — «Missal Romano», páginas 1320 e seguintes — sublinha muito bem a tensão entre o «já» e o «ainda não» do Reino de Deus: «Vós que nos reunistes à vossa mesa para participarmos no pão da vida e no cálice da salvação, congregai um dia na unidade perfeita os homens de todos os povos […] para que, no banquete da nova Jerusalém, gozem eternamente a plenitude da paz»).

© Laboratório da fé, 2014

Celebrar o domingo vigésimo oitavo (Ano A), no Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 10.10.14 | Sem comentários

Viver a fé! [1]


A fé professada («Esta é a nossa fé») e celebrada («Mistério da fé») continua em fé vivida («Viver a fé»): «a fé transforma-se em vida e transforma a nossa vida. Orienta-nos o desejo de alcançarmos o fruto da unidade profunda entre a fé e a caridade» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga). Por isso, este ano pastoral — sob o lema «fé vivida» — , durante quarenta e duas semanas (entre outubro de 2014 e julho de 2015), tendo por base o «Compêndio de Doutrina Social da Igreja», vamos percorrer os conteúdos nele apresentados com o objetivo de despertar para a importância de «aprofundar os conteúdos da Doutrina Social da Igreja». [Os números entre parêntesis dizem respeito ao referido «Compêndio»; seguimos a versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia», a quem agradecemos a autorização para reproduzir o texto; a versão do Vaticano apresenta uma tradução em português do Brasil]

Doutrina Social da Igreja [DSI]

A expressão «Doutrina Social da Igreja» é de uso recente, tendo em conta o contexto bimilenar da Igreja. É unânime apresentar a Encíclica sobre a condição dos operários — «Rerum Novarum» — do Papa Leão XII (bit.ly/RerumNovarum), publicada a 15 de maio de 1891, como marco oficial do «nascimento» da Doutrina Social da Igreja. Contudo, trata-se apenas de um ponto de referência, pois a origem e o fundamento da DSI encontra-se em Deus e no seu amor salvífico dado a conhecer de forma plena em Jesus Cristo, «único Salvador e fim da história» (1). Neste contexto, é missão da Igreja «anunciar o Evangelho que propicia salvação e autêntica liberdade, mesmo nas coisas temporais» (2), isto é, «nas realidades da economia e do trabalho, da sociedade e da política, da técnica e da comunicação, da comunidade internacional e das relações entre as culturas e os povos» (1).

Compêndio da Doutrina Social da Igreja

O Pontifício Conselho «Justiça e Paz», em dois mil e quatro (dois de abril), apresentou o «Compêndio da Doutrina Social da Igreja», dedicando-o a João Paulo II «mestre de doutrina social, testemunha evangélica de justiça e paz». Fruto de um longo e apurado trabalho, tem como finalidade expor de modo sintético, mas completo, o ensinamento social da Igreja: «Este documento entende apresentar de maneira abrangente e orgânica, se bem que sinteticamente, o ensinamento social da Igreja, fruto da sapiente reflexão magisterial e expressão do constante empenho da Igreja na fidelidade à Graça da salvação de Cristo e na amorosa solicitude pela sorte da humanidade. Os aspetos teológicos, filosóficos, morais, culturais e pastorais mais relevantes deste ensinamento são aqui organicamente evocados em relação às questões sociais. Deste modo é testemunhada a fecundidade do encontro entre o Evangelho e os problemas com que se depara o homem no seu caminho histórico» (8). O «Compêndio» apresenta-se como um instrumento para o discernimento moral e pastoral dos complexos eventos que caracterizam o nosso tempo; como um guia para inspirar, tanto no plano individual como no plano coletivo, comportamentos e opções que permitam a todos os homens olhar para o futuro com confiança e esperança; como um subsídio para os fiéis sobre o ensinamento da moral social» (10).

Humanismo integral e solidário

Na introdução (números 1 a 19), o «Compêndio» esclarece que a DSI propõe «os princípios de reflexão, os critérios de julgamento e as diretrizes de ação donde partir para promover esse humanismo integral e solidário. Difundir tal doutrina constitui, portanto, uma autêntica prioridade pastoral, de modo que as pessoas, por ela iluminadas, se tornem capazes de interpretar a realidade de hoje e de procurar caminhos apropriados para a ação: ‘O ensino e a difusão da doutrina social fazem parte da missão evangelizadora da Igreja’» (7). Esta proposta encontra inspiração na Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual — «Gaudium et Spes»: «Também este documento perspetiva o homem como linha mestra de toda a exposição, o ‘homem na sua unidade e integridade’. Na perspetiva delineada, ‘nenhuma ambição terrena move a Igreja, mas unicamente este objetivo: continuar, conduzida pelo Espírito Paráclito, a obra de Cristo, que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar e não para julgar, para servir e não para ser servido’» (13).

«Aos homens e às mulheres do nosso tempo, seus companheiros de viagem, a Igreja oferece também a sua doutrina social. [...] Tal doutrina possui uma profunda unidade, que provém da Fé numa salvação integral, da Esperança numa justiça plena, da Caridade que torna todos os homens verdadeiramente irmãos em Cristo» (3).

© Laboratório da fé, 2014 
Os números entre parêntesis dizem respeito ao «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» 
na versão portuguesa editada em 2005 pela editora «Princípia»





Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 9.10.14 | Sem comentários

Reflexão semanal sobre Doutrina Social da Igreja


«Viver a fé!» — é o título geral da iniciativa que se vai desenvolver em quarenta e duas reflexões sobre a «fé vivida», no sentido de «aprofundar os conteúdos da Doutrina Social da Igreja». As reflexões, elaboradas a partir do Compêndio da Doutrina Social da Igreja, vão ser publicadas, no «Laboratório da fé», ao ritmo de uma por semana, até finais de julho de dois mil e quinze.


Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.10.14 | Sem comentários

REDESCOBRIR O CAMINHO DA FÉ


Segundo aniversário! O «Laboratório da fé» surgiu no mês de outubro de dois mil e doze. Nasceu para concretizar os objetivos propostos naquele ano pastoral dedicado à fé professada e também associado ao Ano da Fé. Aliás, uma das fontes inspiradoras deste projeto é retirada da Carta Apostólica de Bento XVI com a qual se proclamou o Ano da Fé: «redescobrir o caminho da fé para fazer brilhar, com evidência sempre maior, a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo» (número 2).
Depois, no ano seguinte, quisemos dar-lhe continuidade através de várias propostas cuja meta era facultar uma atenção mais cuidada à fé celebrada, tema desse ano pastoral.

Laboratório da fé vivida

Agora, em outubro de dois mil e catorze, «estamos na terceira etapa do nosso plano pastoral. A fé professada e celebrada continua em fé vivida, isto é, a fé transforma-se em vida e transforma a nossa vida. Orienta-nos o desejo de alcançarmos o fruto da unidade profunda entre a fé e a caridade» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga).
O «rosto» deste projeto continua a ser uma página na internet (www.laboratoriodafe.net) onde são publicados textos que pretendem ajudar cada pessoa a entrar no «laboratório da fé», a fazer o seu caminho de (re)descoberta da fé, a despertar para a importância de cada um/ «renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar. Não há motivo para alguém poder pensar que este convite não lhe diz respeito, já que ‘da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído’» (Exortação Apostólica do Papa Francisco sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual: «A Alegria do Evangelho» — «Evangelii Gaudium», 3).
Este «Laboratório da fé» também pode ser acompanhado nas principais redes sociais: facebook, twitter, google+.

Uma unidade profunda entre a e a caridade

O «fruto esperado» para este ano pastoral — «uma unidade profunda entre a fé e a caridade» — servirá de mote para uma reflexão mensal sobre as obras de misericórdia. «Está em causa a capacidade de ‘reaprender a gramática elementar da caridade’, cujo fio condutor se encontra na prática das obras de misericórdia» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga para 2014+15).
Em outubro, o tema será a «tradição das obras de misericórdia» tendo por base a obra de Luciano Manicardi, «A caridade dá que fazer: Redescobrindo a atualidade das ‘obras de misericórdia’», publicada em português pelas edições Paulinas. Nos meses seguintes, duas obras de misericórdia (uma material e uma espiritual), a saber: novembro – sepultar os mortos e rezar a Deus por vivos e defuntos; dezembro – dar de comer a quem tem fome e ensinar os ignorantes; janeiro – vestir os nus e consolar os tristes; fevereiro – assistir os doentes e suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo; março – dar de beber a quem tem sede e corrigir os que erram; abril – visitar os presos e dar bons conselhos; maio – dar pousada aos peregrinos e perdoar as injúrias.

Viver a 

«Viver a fé» — é o título geral da iniciativa que se vai desenvolver em quarenta e duas reflexões sobre a «fé vivida», no sentido de «aprofundar os conteúdos da Doutrina Social da Igreja». As reflexões, elaboradas a partir do Compêndio da Doutrina Social da Igreja, vão ser publicadas, no «Laboratório da fé», ao ritmo de uma por semana, até finais de julho de dois mil e quinze.
Além destas reflexões, daremos início à divulgação diária do conteúdo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja: um número por dia acompanhado de uma imagem; serão 583 dias a divulgar a Doutrina Social da Igreja. Com autorização expressa, reproduziremos a versão em língua portuguesa retirada da obra publicada pela «Princípia Editora»: Compêndio de Doutrina Social da Igreja, Princípia, 2005.
Esperamos dar um contributo para alcançar o objetivo proposto no programa pastoral.

Vivamos corajosamente a alegria do Evangelho!

«A dinâmica eclesial deste tempo exige a leitura atenta da Exortação Apostólica do Papa Francisco sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual (‘A Alegria do Evangelho’ — ‘Evangelii Gaudium’ [EG]). No nosso caso, dedicaremos maior atenção a alguns pontos retirados dos segundo e quarto capítulos da referida Exortação Apostólica. Neles, buscamos inspiração e (novos) caminhos pastorais. Ao longo deste ano pastoral, vivamos corajosamente a alegria do Evangelho!» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga para 2014+15). Os números pertencentes aos dois capítulos referidos serão compilados em cinquenta e dois temas (um para cada semana do ano pastoral).

© Laboratório da fé, 2014


Laboratório da fé, 2012/2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.10.14 | Sem comentários
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