Mistério da fé! [22]


«A presença eucarística de Cristo começa no momento da consagração e dura enquanto as espécies eucarísticas subsistirem» (Catecismo da Igreja Católica, 1377). A Igreja Católica proclama que Jesus Cristo continua sempre presente nos dons consagrados. Por isso, é, não só válida como salutar, a prática da adoração, dentro e fora da celebração eucarística. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Hebreus 9, 11-15; Catecismo da Igreja Católica (CIC), números 1373 a 1381]

«Prestemos culto ao Deus vivo»

— exorta o autor da Carta aos Hebreus. Esta carta é uma solene homilia à volta da figura de Jesus Cristo, apresentado como perfeito (e único) sacerdote. A entrega total e definitiva de Jesus Cristo habilita-nos a oferecer o «culto ao Deus vivo». Este culto, à semelhança da entrega de Jesus Cristo, não é meramente exterior, mas reclama uma entrega total da vida.

Eucaristia

«Fala-se igualmente do ‘Santíssimo Sacramento’, porque é o sacramento dos sacramentos. E, com este nome, se designam as espécies eucarísticas guardadas no sacrário» (CIC 1330). A expressão, embora possa ser usada para designar a Eucaristia, está mais associada ao culto de adoração fora da celebração eucarística. «Pode-se dizer que, nos primeiros séculos, o culto da Eucaristia estava como que implícito na própria celebração do sacramento, que era tratado com suma veneração. [...] Este culto desenvolveu-se mais a partir dos séculos XII-XIII, como reação às controvérsias do século anterior, em que Berengário chegou a negar a presença real. [...] Nas formas de culto, o povo cristão pôde manifestar a sua fé e a consciência que continuava a ter da importância da Eucaristia na vida eclesial e pessoal» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia» [DEL], ed. Paulinas, Prior Velho 2007, 90).

Adoração

«Quando a reforma dava os primeiros passos, aconteceu às vezes não se perceber com suficiente clareza a relação intrínseca entre a Santa Missa e a adoração do Santíssimo Sacramento; uma objeção então em voga, por exemplo, partia da ideia que o pão eucarístico nos fora dado não para ser contemplado, mas comido. Ora, tal contraposição, vista à luz da experiência de oração da Igreja, aparece realmente destituída de qualquer fundamento [...]. De facto, na Eucaristia, o Filho de Deus vem ao nosso encontro e deseja unir-Se connosco; a adoração eucarística é apenas o prolongamento visível da celebração eucarística, a qual, em si mesma, é o maior ato de adoração da Igreja: receber a Eucaristia significa colocar-se em atitude de adoração d’Aquele que comungamos. Precisamente assim, e apenas assim, é que nos tornamos um só com Ele e, de algum modo, saboreamos antecipadamente a beleza da liturgia celeste. O ato de adoração fora da Santa Missa prolonga e intensifica aquilo que se fez na própria celebração litúrgica» (Bento XVI, Exortação Apostólica Pós-Sinodal sobre a Eucaristia fonte e ápice da vida e da missão da Igreja — «Sacramentum Caritatis», 66). Apesar de não ser uma prioridade do II Concílio do Vaticano, são vários os documentos da Igreja Católica (assinados por Paulo VI, João Paulo II e por Bento XVI) que recuperam a importância do culto de adoração ao Santíssimo Sacramento da Eucaristia.

Sacrário

«É o pequeno recinto, à semelhança de caixa ou armário, onde se guarda a Eucaristia depois da celebração, para que possa ser levada aos doentes ou dela possam comungar, fora da Missa, os que não puderam participar nela. A palavra ‘sacrário’ indica que é o lugar onde se ‘guarda o sagrado’. [...] Nos primeiros séculos, guardava-se a Eucaristia em casas particulares, com todo o respeito, e, a seguir, ao construírem-se as igrejas, num anexo da sacristia, ou ainda, num cofrezinho dentro do presbitério. A partir do século XI, colocava-se este sacrário em cima do altar, ou melhor ainda, dentro de uma ‘pomba’ dependurada sobre o altar. Presentemente, o sacrário não se coloca sobre o altar [...]. A Eucaristia reserva-se num só sacrário, em cada igreja ou oratório, colocado num lugar nobre e destacado, convenientemente adornado, inamovível, de matéria sólida e não transparente, fechado com chave, num ambiente que torne fácil a oração pessoal fora do momento da celebração e, portanto, o melhor local é numa capela separada» (DEL 267).

«Se atualmente o cristianismo se deve caracterizar sobretudo pela ‘arte da oração’, como não sentir de novo a necessidade de permanecer longamente, em diálogo espiritual, adoração silenciosa, atitude de amor, diante de Cristo presente no Santíssimo Sacramento?» (João Paulo II, Carta Encíclica sobre a Eucaristia na sua relação com a Igreja — «Ecclesia de Eucharistia», 25).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.3.14 | Sem comentários
Rezar na Quaresma - Ano A, Edições Salesianas, 2014
Viver de fé é uma experiência radical.
Não dá para estar com um pé dentro e com um pé fora.
Claro que Deus é paciente,
que está connosco enquanto vamos moldando a nossa vida à sua imagem.
Mas a Quaresma é sempre um abanão.
É tempo de decidir se ficamos com Deus
ou se Lhe viramos as costas.
Se aceitamos a vida abundante que Ele nos oferece
ou se nos afundamos na nossa mesquinhez.

Tu conheces-me bem, Deus da luz.
Gosto mesmo é de hesitar.
De ter todas as opções em aberto.
Nesta Quaresma, conseguirei decidir-me?
Conseguirei vencer o medo
e deixar-me abraçar pela tua ternura?
Não desistas de mim, Senhor!

«Rezar na Quaresma - Ano A»
© 2014 Rui Alberto
© 2014 Edições Salesianas

Este texto faz parte do livro «Rezar na Quaresma - Ano A» das Edições Salesianas;
qualquer forma de reprodução ou distribuição deste texto precisa de autorização.

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.3.14 | Sem comentários
VIVER A QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Hoje, começamos a Quaresma

Ou melhor, hoje começamos o grande Tempo de Páscoa da Igreja. Quarenta dias de preparação para a Páscoa; e, depois, cinquenta dias de celebração da Ressurreição do Senhor e da presença salvadora do seu Espírito. É o tempo forte da comunidade cristã. > > >

Primeira classe magistral

O estilo: sobre «a forma de ser» dos discípulos de Jesus Cristo

Rever o nosso estilo de anunciadores de Jesus Cristo é a primeira coisa a fazer, porque também nós, evangelizadores, «entramos pelos olhos». > > >

Ao ritmo da liturgia quaresmal

Quaresma... cinzas

Começamos um tempo litúrgico forte: o ciclo Quaresma-Páscoa. Deve ser uma nova oportunidade para renovar a nossa fé comunitária, e pessoal, para continuar com mais fidelidade a nossa vocação de discípulos de Jesus e de comunicadores do seu Evangelho, hoje. O grande objetivo é que cada crente e a comunidade cristã vivamos na atitude pascal de Jesus Cristo, caminhando para a vida em plenitude que ele nos oferece através da doação pessoal, de atitudes de serviço e não de domínio, de perdão e de reconciliação e nunca de ódio ou de exclusão. > > >

José Tolentino Mendonça

Quando (não) comer é uma oração

Na Quarta-feira [de Cinzas], os católicos começam um tempo de exercícios espirituais a que chamam Quaresma. Começam-no de uma forma, no mínimo, curiosa: com um dia de jejum (que voltam a replicar na Sexta-Feira Santa). Ora, um dado muito objetivo é a urgência de as comunidades católicas reencontrarem o sentido desta prática. [...] O que está em causa no jejum é a possibilidade de nos interrogarmos sobre algo mais fundo: aquilo que nos serve de alimento e a voracidade sonâmbula com que vivemos. > > >

Seguir Jesus Cristo

Oração para todos os dias da Quaresma

Senhor Jesus, eu quero seguir-te. Tu ias pelos caminhos e encontravas as crianças; encaminha-me para as crianças que precisam da minha ajuda. [...]  Senhor Jesus, eu quero seguir-te; coloco a minha mão na tua mão, os meus passos nos teus passos, o meu coração no teu coração. Amén. > > >

Mateus 6, 1-6.16-18

Teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa

Na minha família, a mãe nunca revelava ao pai, quando ele regressava do trabalho, as más ações que nós, os filhos, tínhamos feito durante o dia. Ela resolvia sempre os problemas à medida que surgiam. A chegada do meu pai era um momento de alegria. «O que é que se passou de bom, hoje?» — perguntava ele. E cada um contava as suas boas ações. E, a maior parte das vezes, o meu pai descobria que nem tudo tinha sido perfeito. Dizíamos que ele via através de nós. > > >

Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, 

para serdes vistos por eles

Uma advertência geral: «não praticar as boas obras apenas para ser vistos». As boas obras veem-se. Mas a intenção ao praticá-las não pode ser para que sejam vistas pelos outros. A intenção é sempre agradar a Deus. > > >

Rezar na Quaresma

Quando deres esmola.... quando rezares... quando jejuares...

Hoje começa este teu caminho de renovação. À tua frente, tens quarenta dias para um diálogo mais profundo com o Deus da vida. > > >


Quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta 

e ora a teu Pai em segredo....

Hoje começa este tempo de qualidade para a fé que se chama Quaresma. E começa com um convite à autenticidade. > > >

Preparar-se para a Ressurreição

Perfumar-se

Fomos convidados na Quarta-feira de Cinzas a manifestar o nosso desejo de conversão sem nos sentirmos obrigados a fazer uma cara de enterro! O perfume ocupa um lugar importante nos evangelhos: Marcos diz que onde quer que a boa nova venha a ser proclamada, se contará o gesto desta mulher, que ousou verter sobre a cabeça de Jesus um perfume de grande valor (Marcos 14, 9). Paulo falará do bom odor de Cristo (2Coríntios 2, 15). Então, como fazer? > > >

Quaresma, Ano A, Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.3.14 | Sem comentários
Rezar na Quaresma - Ano A, 2014, Edições Salesianas

Hoje começa este teu caminho de renovação.
À tua frente, tens quarenta dias para um diálogo mais profundo com o Deus da vida.
Para te encontrares com Ele... para recuperares o teu equilíbrio interior.
Três pistas te aponta a Palavra de Deus:
uma partilha mais solidária,
uma oração mais autêntica,
um uso dos consumos mais libertador.

Vem comigo nesta viagem, Senhor!
Fica do meu lado.
Ampara-me se desanimar nesta procura de uma fé mais alegre,
de uma esperança mais resistente,
de um amor mais criativo.

«Rezar na Quaresma - Ano A»
© 2014 Rui Alberto
© 2014 Edições Salesianas

Este texto faz parte do livro «Rezar na Quaresma - Ano A» das Edições Salesianas;
qualquer forma de reprodução ou distribuição deste texto precisa de autorização.

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.3.14 | Sem comentários

VIVER A QUARTA-FEIRA DE CINZAS


Hoje, começamos a Quaresma

Ou melhor, hoje começamos o grande Tempo de Páscoa da Igreja. Quarenta dias de preparação para a Páscoa; e, depois, cinquenta dias de celebração da Ressurreição do Senhor e da presença salvadora do seu Espírito. É o tempo forte da comunidade cristã.
Há alguns elementos que marcam muito a maneira de viver a Quaresma. Talvez o primeiro seja o facto de a celebrarmos todos os anos. Para muitos, significa que a repetem há já vinte, trinta ou mais vezes. É muito difícil evitar a sensação de rotina, de ver aproximar-se uma coisa já conhecida. Outro aspeto é a carência progressiva, já quase total, de eco social, quando não é o eco por contraste do carnaval; precisamente o tempo que nos convida a superar a superficialidade é anunciado por um estalido de frivolidade.
A Quaresma convida-nos a tomar consciência do que é a fé cristã, em concreto no mundo de hoje. O centro é Jesus Cristo, a sua pessoa e a sua mensagem, o mistério da sua Morte e Ressurreição. O nosso momento histórico de crise, em muitos sentidos, está cheio de perguntas, de sofrimento, de perplexidades. Pois bem, nós acreditamos que também este nosso mundo encontra a luz verdadeira da vida na mensagem de Jesus, no mistério da sua Páscoa. O Evangelho, situando-nos diante da morte e ressurreição de Jesus Cristo, põe-nos a cada um e a cada comunidade diante da própria fidelidade. Não há outro caminho. Tudo o que seja procurar culpas fora de nós são desculpas. O Evangelho de Jesus e o seu processo pessoal até à entrega à morte e à plenitude da ressurreição interpelam-nos a todos e propõe como caminho verdadeiro a conversão pessoal e comunitária segundo o seu Espírito, a nós cristãos, e a todos.
Este é o sentido do «combate» cristão (oração coleta). A Igreja oferece-nos um tempo favorável (segunda leitura), para voltar a colocar cada cristão e cada comunidade — se fosse possível, cada pessoa e cada grupo humano — diante do mistério de Jesus Cristo como caminho verdadeiro, diante da própria vida como a única coisa que temos em mãos. Trata-se não só de fazer um exercício de devoção, mas de progredir na tarefa de aprender a viver.
[...]
A cinza recorda o nosso erro, correndo atrás de tantas coisas que nos enchem o coração e não nos podem dar a vida, mas fazem este mundo agressivo e injusto. Contudo, esta tónica é parcial e precisa de ser completada. Há que colocar em destaque o que tem de ser o objeto da nossa atenção, centro de toda a Quaresma: o Senhor Jesus, a sua vida, a sua morte e ressurreição. [...]
A Quarta-feira de Cinzas é um convite à conversão. Isto é, a reconhecer com espírito arrependido a falta de humanidade em que vivemos, o pecado, para mudar de mentalidade, de perspetiva, de interesses. A cinza há de significar também esta mudança. É evidentemente um desafio a cada pessoa; mas não é um refúgio espiritualista e individual, mas a recordação da grande mensagem cristã: só pela conversão pessoal e pela fé, os seres humanos acolhemos o dom da Vida e entramos no Reino. [...]
Tudo conduz para dar importância ao que a tem: a verdadeira vida no Espírito.

© Gaspar Mora, Misa dominical
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor

Brilhará na escuridão a tua luz
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.3.14 | Sem comentários

ANO CRISTÃO


A palavra «Quaresma» tem a sua origem na expressão latina «Quadragesima dies»: o «quadragésimo dia» antes da Páscoa (por associação, passou a designar a totalidade dos quarenta dias que antecedem o início da Páscoa).
Os idiomas latinos usam uma palavra com a mesma raiz para referir o «tempo de preparação» para a Páscoa: «Quaresma» (em português); Quaresima» (em italiano); «Cuaresma» (em espanhol); «Carême» (em francês).
Há outros idiomas que seguem lógicas diferentes, como por exemplo, o inglês e o alemão. 
O inglês associou o «tempo de preparação» para a Páscoa à estação temporal da primavera (ainda que uma parte deste tempo coincida com o inverno; e só acontece no Hemisfério Norte). Neste sentido, a palavra inglesa é «Lent» («Lencter» era um termo arcaico para designar a «primavera»). 
O alemão seguiu uma das características deste tempo: o jejum. Assim, o «tempo de preparação» para a Páscoa é designado como «Fastenzeit», isto é, «tempo de jejum»: Fasten (jejum); Zeit (tempo).

© Laboratório da fé, 2013



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Laboratório da fé celebrada, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.3.14 | Sem comentários

VIVER A SEMANA DAS CINZAS DA QUARESMA


5 A 8 DE MARÇO — AO RITMO DA LITURGIA


Primeira classe magistral

A primeira coisa que Jesus Cristo nos diz é que ter uma vida profundamente cristã não significa ser amargurados (QUARTA: «Quando jejuares, perfuma a cabeça»), nem é incompatível com levar uma vida normal (QUINTA: «A sua cruz todos os dias»); diz-nos que as penitências ou os gestos dramáticos e extraordinários não são necessários. Pelo contrário, é preciso saber conservar uma alegria íntima (SEXTA: «Podem os companheiros do esposo ficar de luto, enquanto o esposo estiver com eles?») que nos ajude a «saber estar» em todos os momentos (SÁBADO: «Comeis e bebeis com os publicanos e os pecadores»).

Rever o nosso estilo de anunciadores de Jesus Cristo é a primeira coisa a fazer, porque também nós, evangelizadores, «entramos pelos olhos».

© José Luis Cortés — El ciclo C, Herder Editorial
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor

Brilhará na escuridão a tua luz

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.3.14 | Sem comentários

ANO CRISTÃO


O Secretariado de Liturgia da diocese do Porto, num artigo do jornal «Voz Portucalense» (26 de fevereiro de 2014) recorda que a Quaresma é um tempo que prepara e conduz à Páscoa; e apresenta «algumas notas para a viver e celebrar validamente»: ter bem claro o objetivo; importa considerar que não há muitas ajudas do exterior para a vivência quaresmal; fazer um grande investimento espiritual e litúrgico na Quaresma e valorizar os sinais; os seis domingos da Quaresma pontuam a caminhada da comunidade.

A Quaresma está à porta. É certamente um tempo litúrgico muito importante. Porquê? Porque nos conduz à Páscoa e para ela – que é muitíssimo mais importante – nos prepara. Aqui deixamos algumas notas para a viver e celebrar validamente:
1. Ter bem claro o objetivo: celebrar de forma autêntica a ressurreição do Senhor. Objetivo com consequências: a) Mudar a nossa vida, de modo a assemelhar-nos mais a Jesus; se isso não acontecer, então a celebração da ressurreição soará a falso. b) Preparar bem e participar na celebração do Tríduo santo da Páscoa, especialmente na Vigília Pascal; se tal não acontecer, então a Quaresma será um caminho que não leva a parte nenhuma. Ambas as consequências (conversão e celebração) são fundamentais para todo o cristão. Sem elas a Quaresma perde a principal razão de ser.
2. Importa considerar que não há muitas ajudas do exterior para a vivência quaresmal: o carnaval tende a prolongar-se; as propostas dos media são evasivas; mesmo com a “crise”, o tempo da Páscoa é absorvido pela indústria do turismo. Estas propostas dispersivas atraem muitos cristãos e desviam­‑nos da riqueza espiritual deste tempo favorável.
3. Dada a importância da celebração da Páscoa, torna-se necessário fazer um grande investimento espiritual e litúrgico na Quaresma e valorizar os sinais. A peregrinação interior a que somos convidados há de levar-nos a evitar tudo quanto nos disperse e nos desvie de contemplar o mistério e de ouvir a voz de Deus. As nossas igrejas deverão, por isso, ser um convite a essa atitude: não estarão adornadas com flores, nem nelas soarão os instrumentos festivos. Talvez um crucifixo ou uma bíblia nos possam chamar a atenção para o essencial: escutar a Palavra e seguir Jesus tomando a cruz de cada dia. Mas o canto não deixa de desempenhar um importante papel neste tempo evidenciando a Palavra e restituindo-lhe a sua força expressiva e impressiva. A Quaresma tem um repertório musical próprio que lhe dá identidade. Neste tempo, deverá dar-se um lugar muito especial ao canto do Salmo responsorial. Iniciar a Quaresma com o canto das ladainhas dos santos, acompanhando a procissão de toda a assembleia para o lugar da celebração, ajudará a perceber que a Quaresma nos põe em movimento comunitário para a casa do Pai. A riqueza da Palavra de Deus exige leitores capazes e bem preparados e a expressividade da ação litúrgica requer acólitos suficientes e competentes, aptos a tornar viva e visível a ação mistérica nela contida.
4. Os seis domingos da Quaresma pontuam a caminhada da comunidade. Os dois primeiros mostram-nos o sentido e a natureza desta nossa peregrinação: Cristo aparece como protagonista, modelo e mestre da Quaresma; os quarenta dias no deserto, a luta que se consumará na cruz, por um lado, e a glória que antecipadamente se revela e que resplandecerá para sempre no corpo do ressuscitado. Luta e glória que mostram o caminho de Jesus entre as oposições dos seus inimigos e a certeza da presença do Pai na sua vida. Este é, pois também, o itinerário da nossa peregrinação: «peregrinando entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus» (Sto. Agostinho). Esta temática é comum a todos os ciclos.
O ciclo A (este ano) apresenta-nos a mensagem luminosa de três encontros de Cristo com os homens que assinalam as etapas do itinerário batismal dos crentes. Como caminho catecumenal (tempo de iluminação e de purificação) estes encontros purificam e iluminam em contacto vivo com a pessoa de Cristo. Como memória do batismo recebido, renovam a consciência do cristão e abrem-na à luz de Cristo que sonda as profundezas do coração e purifica os resíduos necróticos do pecado. A Quaresma prepara para o batismo e para a revitalização da nossa condição de batizados.
O sexto domingo (conhecido por Domingo de Ramos) abre-nos à grande celebração anual da Páscoa do Senhor que terá lugar no Tríduo sacro da sua morte, sepultura e ressurreição (missa vespertina da Ceia do Senhor, celebração da Paixão do Senhor, o sábado do repouso, da contemplação e da oração e o domingo da ressurreição que abre com a solene vigília).

© SDL | Voz Portucalense
© Adaptação de Laboratório da fé, 2014



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Laboratório da fé celebrada, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.3.14 | Sem comentários

VIVER A QUARESMA


5 DE MARÇO A 17 DE ABRIL — AO RITMO DA LITURGIA

O Laboratório da fé apresentou, em 2013, uma caminhada quaresmal inspirada no Ciclo C de Cortés (RD-Herder), tendo como ponto de apoio os textos evangélicos para os dias quaresmais. Neste ano pastoral (2013+14), voltamos a recuperar a proposta com algumas adaptações.

Brilhará na escuridão a tua luz

Ao longo deste ano litúrgico (Ano A) caminhamos iluminados por uma luz, a luz da fé. A temática da luz, apoiada na Carta Encíclica do papa Francisco sobre a fé — «Lumen Fidei», marca o ritmo do nosso itinerário litúrgico e existencial. Por isso, nesta Quaresma queremos que o seguimento de Jesus Cristo e o acolhimento dos seus ensinamentos se transformem em luz capaz de dissipar a escuridão que, muitas vezes, nos envolve para deixar brilhar a luz que nos habita.
Jesus Cristo convida-nos a ir com ele para um lugar tranquilo para receber, através dos seus ensinamentos, um «mestrado em Jesus Cristo», isto é, aprender a viver o Evangelho.
Este mestrado dura quarenta dias (tal como a Quaresma) e consta de sete lições magistrais:
  1. sobre o estilo (5 a 8 de março): classe magistral sobre «a forma de ser» dos discípulos de Jesus Cristo; > > >
  2. sobre o núcleo da mensagem (9 a 15 de março): «core business», o miolo da mensagem que tem de ser transmitida pelo discípulo de Jesus Cristo; > > >
  3. sobre o enfoque (16 a 22 de março): «focus», a pequenez entendida como verdadeira grandeza; > > > 
  4. sobre o trabalho de campo I (23 a 29 de março): «fieldwork», o conhecimento da realidade, a necessidade de perceber os sinais dos tempos para que a nossa ação seja eficaz; > > >
  5. sobre o trabalho de campo II (30 de março a 5 de abril): «fieldwork», o conhecimento de Deus, a necessidade de perceber Deus para que a nossa ação seja profunda; 
  6. sobre a atitude e a técnica do apostolado (6 a 12 de abril): «tools», o perdão e a misericórdia como instrumentos de trabalho; 
  7. sobre as equipas (13 a 17 de abril): «the team», a comunidade como espaço imprescindível para a vivência do Evangelho. 
Tomemos bons apontamentos, porque teremos de fazer um exame final; e porque imediatamente depois da Quaresma (na Páscoa) começam as aulas práticas.

© Laboratório da fé, 2014

Brilhará na escuridão a tua luz

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.3.14 | Sem comentários

ANO CRISTÃO


A Editora Paulus traduziu e publicou (em 2009) uma obra italiana com comentários aos textos bíblicos proclamados nas celebrações eucarísticas. No volume dedicado à Quaresma e Páscoa («Leccionário Comentado. Regenerados pela Palavra de Deus. Quaresma - Páscoa — organização de Giuseppe Casarin) faz uma breve apresentação da Quaresma e dos textos bíblicos propostos na LiturgiaA coleção está estruturada à maneira da «lectio divina», acompanhando progressivamente todo o ano litúrgico nos seus tempos fortes, nas suas festas mas também nos dias feriais, todas as vezes que a comunidade cristã é convocada para celebrar a Cristo presente na Palavra e no Pão eucarístico.

Todos os anos, o período quaresmal tem a finalidade de preparar os cristãos para a Páscoa. A liturgia, com todas as suas propostas festivas e feriais, guia os fiéis para a celebração da Páscoa, e os catecúmenos para os sacramentos da iniciação cristã (Baptismo, Confirmação ou Crisma, e Eucaristia) que celebrarão na Vigília Pascal.
Batismo e Reconciliação ou Penitência são, portanto, as ca­racterísticas que assinalam este período, sobretudo para aqueles que, já redimidos e renovados em Cristo, se dispõem, através do itinerário anual da caminhada penitencial, a renovar a sua adesão ao mistério da morte e da ressurreição do Salvador.
O tempo da Quaresma decorre de Quarta-feira de Cinzas até à Missa de Quinta-Feira Santa, ou da Ceia do Senhor, exclusive. São quarenta dias (os domingos não entram na contagem!) nos quais os fiéis, através da riqueza dos itinerários festivo e ferial, são amparados na sua caminhada por uma riqueza que cada ano é proposta sempre do mesmo modo (exceptuando o lecionário festivo, conquanto se possa utilizar sempre o lecionário do ano A se se quiser renovar ou aprofundar em anos seguidos o itinerário batismal).
Diversamente dos outros períodos, a Quaresma é um espaço de tempo em que a escuta da Palavra é acompanhada por obras que denotam a atitude de conversão: o jejum e a penitência com­pletam tudo o que caracteriza quer o anúncio quer a celebração. E nesta linha não pode esquecer-se o papel das expressões típicas da piedade popular.

Uma riqueza temática com amplos aspetos espirituais e vitais

O percurso ferial oferecido pelo Lecionário é diverso do que apresenta o do Tempo Comum. Com efeito, as leituras são esco­lhidas cada dia «segundo um tema». Quer a primeira leitura, sem­pre unida ao salmo responsorial, quer o Evangelho, proclamam um tema unitário. Com o passar das várias semanas, o fiel tem deste modo diante de si o apelo dos elementos fundamentais da vida cristã, segundo uma riqueza que pode ser assim sintetizada:
- nos dias depois das Cinzas: jejum espiritual; conversão interior; fraternidade;
- na primeira semana: amor do próximo e justiça; conversão; cumprimento da vontade do Pai; oração feita com fé; chamados à santidade;
- na segunda semana: perdão dos pecados; interioridade e valores verdadeiros; anúncio da Paixão;
- na terceira semana: escutar o único Senhor; salvos pela fé; perdoarmos para sermos perdoados; interioridade do culto;
- na quarta semana: a vida de renovação interior e a aliança; incredulidade; tentativas para matarem o Senhor;
- na quinta semana: o poder do Senhor que salva e acolhe os homens na unidade;
- nos dias da Semana Santa: as leituras dos primeiros dias da Semana Santa referem-se ao mistério da Paixão (a unção em Betânia; o anúncio e a efetivação da traição de Judas).
Quando se juntam estes temas notamos a sua riqueza e valor, quer considerados em si mesmos, quer no conjunto do itinerário do inteiro ano litúrgico.
A esta riqueza deve acrescentar-se a da Liturgia das Horas, que a complementa. Aqui a palavra de Deus oferece um percurso que completa o das leituras da celebração eucarística; partindo da ampla leitura do Livro do Êxodo, passa-se à Carta aos Hebreus que guia a «lectio» do fiel orante até à manhã do Sábado Santo. Dos conteúdos do «evangelho da antiga aliança» para o texto «homilético», com o qual o autor da Carta quis fornecer a chave interpretativa do mistério da antiga aliança à luz de Cristo e portanto o fundamento do culto cristão.
[...]
A celebração da Reconciliação, os conteúdos da Liturgia das Horas, as diversas formas penitenciais do jejum juntamente — subordinadamente, é claro — com as formas da piedade familiar, oferecem as dimensões, os conteúdos, os desafios, os auxílios para um «caminho de verdadeira conversão» a que é chamado a percorrer, cada ano, o fiel na Quaresma «sinal sacramental de conversão».

© Manlio Sodi | Editora Paulus
© Adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do editor



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Laboratório da fé celebrada, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.3.14 | Sem comentários

BRILHARÁ NA ESCURIDÃO A TUA LUZ


«Ponham-se em maior realce, tanto na Liturgia como na catequese litúrgica, os dois aspetos característicos do tempo quaresmal, que pretende, sobretudo através da recordação ou preparação do Batismo e pela Penitência, preparar os fiéis, que devem ouvir com mais frequência a Palavra de Deus e dar-se à oração com mais insistência, para a celebração do mistério pascal» (Constituição Conciliar sobre a Liturgia — «Sacrosanctum Concilium», 109). A Quaresma não é um tempo «arqueológico» de práticas avulsas, mais ou menos com sentido. A Quaresma é um tempo novo, um tempo dito no presente, que faz mergulhar no mistério pascal de Jesus Cristo. «A celebração do mistério pascal de Cristo é celebração da salvação do ser humano que se faz realidade na morte e ressurreição de Jesus Cristo» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga). O acento não se coloca tanto nas práticas ascéticas, mas mais na ação purificadora e santificadora de Jesus Cristo na nossa vida. As dinâmicas penitenciais são úteis na medida em que se tornam sinal da participação na Páscoa de Jesus Cristo, que se há de tornar na nossa própria páscoa.

Quaresma: brilhará na escuridão a tua luz!

«São 40 oportunidades (40 dias) para mudarmos o significado dos hábitos […]. Não pretendemos que a Quaresma seja apenas mais um tempo do calendário litúrgico, mais um tempo de carácter penitencial ou mais um tempo inútil, mas que seja, acima de tudo, um tempo e um teste de conversão progressiva» (Mensagem do Arcebispo de Braga, Dom Jorge Ortiga). Este «teste de conversão» não se esgota no tempo da Quaresma. É um desafio para todo o ano, para toda a vida.
A Quaresma torna-se «o ‘tempo exemplar’ para todo o ano: ou seja, fornece as linhas de fundo para uma vida cristã que, inspirando-se na Páscoa do Senhor, se coloca em atitude de ‘conversão permanente’. É preciso ter muito cuidado, então, para não isolar a Quaresma da Páscoa. […] Toda a vida do cristão é sempre uma caminhada na luz da Páscoa e em direção à luz da Páscoa, por isso requer um dinamismo de conversão permanente: a Quaresma, sinal sacramental da nossa conversão, torna-se momento de referência e de reabastecimento necessário para todas as estações da vida do cristão» (Mario Chesi).
Então, a Quaresma não pode ser vista como um tempo de «trevas» ou «escuridão». Também na Quaresma há uma luz, a luz da fé, que permite ver com mais clarividência o caminho. «A fé desvenda-nos o caminho e acompanha os nossos passos na história. Por isso, se quisermos compreender o que é a fé, temos de explanar o seu percurso, o caminho dos homens crentes» (Francisco, Carta Encíclica sobre a fé — «A luz da fé» [«Lumen Fidei» — LF], 8), desde o patriarca Abraão até ao apóstolo Paulo, culminando com «a forma eclesial da fé»: «O crente aprende a ver-se a si mesmo a partir da fé que professa. A figura de Cristo é o espelho em que descobre realizada a sua própria imagem. E dado que Cristo abraça em Si mesmo todos os crentes que formam o seu corpo, o cristão compreende-se a si mesmo neste corpo, em relação primordial com Cristo e os irmãos na fé» (LF 22). Ao longo desta Quaresma, percorrendo o primeiro capítulo da Carta Encíclica sobre a fé (números 8 a 22), queremos que se abra para nós um novo modo de ver, que a fé se torne luz para os nossos olhos (cf. LF 22). E com toda a propriedade poderemos dizer que, assim transformados, «brilhará na escuridão a tua luz».

Laboratório da Fé celebrada

Na liturgia, «não celebramos uma mera doutrina teórica, mas o acontecimento concreto da nossa salvação realizada em Jesus Cristo. […] A liturgia é, assim, um lugar privilegiado onde Cristo se torna presente na comunidade cristã e a Quaresma, um tempo privilegiado para meditarmos nos principais momentos da Sua vida pública, que culminou no alto da Cruz. Nesta consciência, gostaria apenas de deixar-vos uma pergunta a ser interiorizada durante este tempo: será que as nossas celebrações convidam realmente a um encontro pessoal e comunitário com Cristo, concretizado num encontro com os mais carenciados? […] Desejo uma boa caminhada quaresmal a todos nós, na certeza de que da Cruz de Cristo radiará uma luz carregada de sentido para as nossas vidas!» (Mensagem do Arcebispo). A Cruz, enquanto parte do mistério pascal, apresenta-se como um sinal luminoso no centro da nossa vida: há de brilhar uma luz capaz de dissipar qualquer tipo de escuridão; serei «envolvido numa luz intensa».

© Laboratório da fé, 2014

Brilhará na escuridão a tua luz

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.3.14 | Sem comentários

Palavra para hoje: domingo oitavo


«O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-Se de mim». Eis o grito do judeu, o grito do crente, o grito da Igreja, o grito daqueles que estão mergulhados na dor. É também o grito de Jesus Cristo («Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?»). A resposta de Isaías é desconcertante: «Poderá a mulher esquecer a criança que amamenta? [...] Mas ainda que ela se esquecesse, Eu não te esquecerei». Perante este amor, Paulo manifesta a sua confiança. E Jesus Cristo revela: «Bem sabe o vosso Pai celeste que precisais...». Desta forma, a Liturgia da Palavra desafia-nos à confiança incondicional, pois o amor do Pai não tem limites. Em cada eucaristia, a nossa vida mergulha nesta relação de confiança e de acolhimento do amor.

Pergunta da semana: 

Que significa, para mim, ter uma confiança ilimitada em Deus?

Palavra de Deus - Lectio divina - imagem de fano
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.3.14 | Sem comentários
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