REZAR O DOMINGO TRIGÉSIMO QUARTO

24 DE NOVEMBRO DE 2013


Evangelho segundo Lucas 23, 35-43

Naquele tempo, os chefes dos judeus zombavam de Jesus, dizendo: «Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito». Também os soldados troçavam d’Ele; aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam: «Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo». Por cima d’Ele havia um letreiro: «Este é o Rei dos judeus». Entretanto, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-O, dizendo: «Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também». Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: «Não temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo das nossas más acções. Mas Ele nada praticou de condenável». E acrescentou: «Jesus, lembra-Te de mim, quando vieres com a tua realeza». Jesus respondeu-lhe: «Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso».



Segunda, 18: O POVO OLHA

No domingo passado, Jesus advertia-nos: «Tende cuidado; não vos deixeis enganar» (Lucas 21, 8). Agora, enquanto os chefes dos judeus zombavam de Jesus, o povo permanecia ali a olhar. Jesus tinha convidado a segui-lo e o povo fica passivamente diante da cruz. Esta atitude reenvia para os momentos em que, por vergonha ou medo, renuncio à indignação diante da condenação do inocente. Até posso ter a atitude indecente de ficar fascinado perante o que se está a passar. No meio do povo, imagino-me lá, contemplando a cena. Estou indignado?



Terça, 19: ESPIRAL DE VIOLÊNCIA

Os chefes zombavam. Os soldados troçavam. Um dos malfeitores injuria-o. Há um crescendo de violência na narração; o triunfo dos poderosos e dos malfeitores torna-se arrogante diante do indefeso. Hoje, tomo tempo para fazer memória do sofrimento silencioso de Cristo: as zombarias, os insultos, o despreso... Tudo isso foi vencido por Jesus.



Quarta, 20: UM ECO DIABÓLICO

«Salva-Te a Ti mesmo»: eis a ordem dos chefes, dos saldados, do malfeitor. Como um eco da tripla tentação que o diabo apresenta a Jesus, no capítulo 4 do evangelho. «Se és filho de Deus»..., sussurrava o diabo. «Se és o Messias», «Se és o Rei dos judeus» — repetem os injuriosos. Isto dá uma ideia da conceção que têm de poder, da autoridade: uma espécie de reserva mágica que pode ser usada em caso de dificuldade. Medito na revolução da perspetiva: a autoridade de Deus, a que está a testemunhar o seu Filho, é a do amor até ao fim, deixando-nos livres a ponto de não o reconhecer.



Quinta, 21: AO CENTRO, A CRUZ

O letreiro «Este é o Rei dos judeus» está no coração deste texto. Como a verdade que germina, apesar da violência e da ignomínia que dominam a cena. Sinal irrisório, este cenário não anuncia senão o necessidade de passar pela cruz para entrar no mistério de Deus. Contemplo a cruz onde Jesus está pregado. Depois, traço lentamente o sinal da cruz sobre mim, dizendo ao mesmo tempo «em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Dois mil anos depois, o que significa, para mim, agora, traçar uma cruz sobre o meu corpo?



Sexta, 22: LEMBRA-TE DE MIM

O segundo malfeitor tem a lucidez sobre as más ações que ele e o seu companheiro cometeram. Mas está, sobretudo, cheio de coragem. Qual é a esperança que habita este homem que, em pleno caos, se revela consciente de que a sua vida vale mais do que a soma dos seus atos, a ponto de chamar o Messias pelo seu primeiro nome?! «Jesus, lembra-te de mim»! Qualquer que seja a minha vida, com os seus altos e baixos, será que tenho coragem de a ritmar pelo apelo constante a Cristo, chamando pelo seu nome, Jesus, como se faz a um amigo?



Sábado, 23: O PARAÍSO, JÁ

«Hoje estarás»...: a associação do presente com o futuro. Jesus rompe o seu silêncio para dizer que o seu reino começa agora. Não escaparemos, como o malfeitor e Jesus, à morte temporal, porque ela é uma passagem para a vida. Neste final da semana, deixo florir a força que é evocada pelo «Paraíso» que Jesus promete, lembrando-me também que acreditando (como o malfeitor) em Jesus Messias, já posso viver desta realidade nova e feliz: o reino de Cristo.



Domingo, 24: O SANGUE DO FILHO REVELA-NOS O PAI

No fim deste tempo litúrgico, celebramos Cristo, Rei do Universo. Para celebrar a sua cabeça, a Igreja recorda-nos a decadência que endureceu aqueles a quem foi anunciada, pelo próprio Jesus, uma nova criação, durante a sua vida pública. Para compreender este paradoxo, dêmos particular atenção ao que escreve Paulo aos Colossenses (segunda leitura). Como ao malfeitor, Deus arranca-nos do poder das trevas e faz-nos entrar no reino de seu Filho, pelo qual os nossos pecados são perdoados. «Aprouve a Deus que n’Ele residisse toda a plenitude e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas, estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz, com todas as criaturas na terra e nos céus» (Colossenses 1, 19-20).



© www.versdimanche.com
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

Rezar o domingo trigésimo quarto (Ano C), no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.11.13 | Sem comentários

VIVER O DOMINGO: ao ritmo da liturgia


Trigésima terceira semana


Confiança a toda a prova

Jesus Cristo anuncia que o caminho do cristão nem sempre é «cor de rosa»! Os últimos dias do Ano Litúrgico assinalam com intensidade a dimensão escatológica (fim dos tempos) da vida cristã. Para se referirem a essa dimensão, os textos bíblicos recorrem a uma linguagem apocalítica, desenvolvida no tempo dos Profetas e recuperada em algumas narrativas evangélicas. Anunciar as perseguições aos cristãos, as guerras entre as nações, as divisões nas famílias, não se trata de um «furo jornalístico». As nossa história e o nosso quotidiano estão cheias destes casos. Este discurso apocalíptico (e assustador) não pretende levar ao pânico. É exatamente o oposto. Temos de deixar a tentação de ver nos acontecimentos políticos, nas catástrofes naturais ou grandes calamidades, o preâmbulo do «fim do mundo».
A primeira coisa que temos de ter (sempre) presente é que Jesus Cristo vem trazer-nos uma boa notícia. Por isso, este género de discurso não deve ser tomado à letra, porque não foi redigido para predizer o futuro de maneira exata. Ele foi escrito para nos ajudar a ultrapassar as provações do presente. O núcleo da mensagem é: seja o que for que vos aconteça, não temais. Jesus Cristo diz claramente qual deve ser a nossa atitude: confiança a toda a prova, que não cede nem às catástrofes nem às perseguições.
Isto não quer dizer que os cristãos perseguidos vão escapar aos seus perseguidores. Isto não quer dizer que os cristãos estão imunes a todo o tipo de desastres ou sofrimentos. As palavras de Jesus Cristo ensinam-nos que todo o nosso ser está nas mãos de Deus. Pela própria morte, é-nos assegurado que permaneceremos mergulhados na vida de Deus. É a nossa própria segurança, a nossa tranquilidade, o facto de não nos deixarmos abalar, que servirá de testemunho.
Temos de aprender a retirar do Evangelho a sabedoria (DOMINGO: «Eu vos darei língua e sabedoria») para viver a nossa adesão a Jesus Cristo. Ser constante na adversidade é uma boa prova de fogo para depurar a própria fé (SEGUNDA: «A tua fé te salvou»). Os textos bíblicos apocalíticos não são um «filme de terror»; são um apelo à esperança (TERÇA: «Salvar o que estava perdido»), um grito de resistência no meio da injustiça generalizada. O justo há de saber que o mal não tem a última palavra (QUARTA: «Pensavam que o reino de Deus ia manifestar-se imediatamente»), que Deus está do seu lado. O mais fácil é sucumbir à tentação da oferta de poder (QUINTA: «Não deixarão em ti pedra sobre pedra»), à tentação de abandonar a fé (SEXTA: «fizestes dela ‘um covil de ladrões’») e o que ela significa de projeto para mudar o mundo. A perseverança na fé e na fidelidade a Jesus Cristo dar-nos-á a vida (SÁBADO: «Todos estão vivos»).

A fé é perseverante ou é uma fantasia. Esta semana recorda que a perseverança — não a resignação — é a chave. Uma perseverança que nasce da confiança (a fé) no Deus de Jesus Cristo. Em espera, mas sem ficar de braços cruzados! A forma como vivemos revela que somos sinal de esperança ou de desânimo?

A elaboração deste texto foi inspirada nos comentários de P. Jacques Fournier e Maria Noëlle Thabut e também nos textos publicados neste «Laboratório da fé» a propósito do trigésimo terceiro domingo.

© Laboratório da fé, 2013

Trigésima terceira semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.11.13 | Sem comentários

Palavra para hoje: trigésimo terceiro domingo


Um texto de Malaquias abre a Liturgia da Palavra e orienta-nos para o dia que há de vir, «o dia do Senhor». A história do povo crente está marcada pelas «visitas de Deus», por vezes associadas ao pecado, convidando à conversão. Mas uma certeza nos habita: Deus nunca abandona esta história. O seu Cristo veio. Vem na sua hora. Vem (hoje) e virá. Em cada eucaristia proclamamos a sua vinda. Sim, «nascerá o sol de justiça, trazendo nos seus raios a salvação». A realidade quotidiana com os seus gestos de solidariedade preparam-nos para essa vinda, enquanto a história segue o seu curso com todos os seus dramas. «O dia do Senhor» — esperado e temido — chama-nos à confiança: o Sol de justiça é Jesus Cristo, nosso Salvador!

Pergunta da semana: 

A forma como vivemos revela que somos sinal de esperança ou de desânimo?

Palavra de Deus - Lectio divina - imagem de fano
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.11.13 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO TRIGÉSIMO TERCEIRO

UMA LITURGIA SIMPLES E BELA

Neste (novo) ano pastoral dedicado à temática da fé celebrada, iniciamos a publicação desta rubrica «CELEBRAR O DOMINGO». Apresentamos algumas sugestões para concretizar o fruto esperado deste ano pastoral: «uma liturgia simples e bela, sinal da comunhão entre Deus e os seres humanos».



Espera vigilante e confiante

Aproximando-se o final do Ano Litúrgico, o lecionário evoca o fim dos tempos, uma forma de reavivar a nossa vigilância e a nossa fé, já que em cada eucaristia proclamamos a esperança na vinda do Senhor... O profeta Malaquias anuncia o dia do Senhor. É certo que o Senhor virá «para julgar a terra; julgará o mundo com justiça». Mas não temos nada a temer — diz Jesus Cristo. A nossa perseverança na fé e na fidelidade a Jesus Cristo dar-nos-á a vida. Em espera, mas sem ficar de braços cruzados! Paulo recorda-nos a necessidade de permanecer ativos e de anunciar o Evangelho.



Arte de celebrar

Em liturgia, a deslocação não serve apenas para ir de um a outro lugar: é também ritual. A deslocação do leitor significa que vem da assembleia. Por isso, este gesto tem, em si mesmo, uma grande importância. O leitor deixa o seu lugar calmamente, aproxima-se do presbitério, inclina-se diante do altar (sinal da presença de Cristo no centro da assembleia), caminha até ao ambão (lugar da proclamação da palavra de Deus). Esta deslocação ajuda o próprio leitor a tomar consciência da sua missão: proclamar a palavra de Deus. No ambão, o leitor toma a posição correta: o seu corpo também se pode colocar ao serviço da palavra de Deus, através da verticalidade da coluna e dos pés bem assentes no chão. Ao sair do ambão, inclina-se diante do altar e volta ao seu lugar, também ele alimentado pela Palavra que acabou de proclamar.



Fé celebrada com a comunidade

A temática do final dos tempos, própria destes últimos domingos, não nos pode fazer desanimar na missão atual. Antes, convida-nos a viver a celebração como um memorial da salvação, passada, presente, futura, tal como proclamamos na «anamnese»: «Anunciamos, Senhor, a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!». Um aspeto a ter em conta nas introduções e comentários... e, depois, na vida quotidiana.



Fé celebrada com a catequese

Todos os instrumentos são convocados pelo salmista para louvar a aclamar o nosso Deus: «Cantai ao Senhor ao som da cítara, ao som da cítara e da lira; ao som da tuba e da trombeta, aclamai o Senhor, nosso Rei». Com instrumentos ou com as mãos, as crianças gostam de rezar com ritmo e com música, até com a dança. Porque não preparar uma «dança» ao ritmo do salmo (97) proposto para o trigésimo terceiro domingo (Ano C)? Bem preparado, este momento pode contribuir para que todos participem e rezem juntos, com alegria e entusiasmo.

© Laboratório da fé, 2013



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Celebrar o domingo trigésimo terceiro (Ano C), no Laboratório da fé, 2013

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.11.13 | Sem comentários

NÃO PODEMOS VIVER SEM O DOMINGO!


«Valorizar o domingo como centro de todo o ano litúrgico» — é o primeiro objetivo apresentado no programa pastoral (2013+14) da Arquidiocese de Braga. Com o intuito de «valorizar» o domingo, acompanhando os tempos litúrgicos, propomos um tema a partir da releitura da Carta Apostólica sobre a santificação do domingo — «O dia do Senhor» («Dies Domini»). Este itinerário tem como tema geral: «Não podemos viver sem o domingo!».

Domingo, DIA DA FÉ

Texto de reflexão para o trigésimo terceiro domingo

    1. O dia do Senhor [...] é o dia da evocação adorante e grata do primeiro dia do mundo e, ao mesmo tempo, da prefiguração, vivida na esperança, do «último dia», quando Cristo vier na glória (cf. Atos dos Apóstolos 1, 11; 1Tessalonicenses 4, 13-17) e renovar todas as coisas (cf. Apocalipse 21, 5).
    37. [...] Domingo a domingo, a Igreja vai avançando para o último «dia do Senhor», o domingo sem fim. Na verdade, a expetativa da vinda de Cristo está incluída no mesmo mistério da Igreja e faz-se visível em cada celebração eucarística. Mas, o dia do Senhor, com a sua memória específica da glória de Cristo ressuscitado, evoca, com maior intensidade também, a glória futura do seu «regresso». Isto faz do domingo o dia em que a Igreja, manifestando com mais clareza o seu carácter «esponsal», antecipa de algum modo a realidade escatológica da Jerusalém celeste. Ao reunir os seus filhos na assembleia eucarística e educá-los para a expectativa do «Esposo divino», ela realiza uma espécie de «exercício do desejo», no qual saboreia antecipadamente a alegria dos novos céus e da nova terra, quando a cidade santa, a nova Jerusalém, descer do céu, de junto de Deus, «bela como uma esposa que se ataviou para o seu esposo» (Apocalipse 21, 2).



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    Laboratório da fé celebrada, 2013
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.11.13 | Sem comentários

    PREPARAR O DOMINGO TRIGÉSIMO TERCEIRO


    A fé é perseverante ou é uma quimera. O evangelho do trigésimo terceiro domingo (Ano C) ao fazer a narração entrelaçada da destruição de Jerusalém e do seu Templo e do fim do mundo, apresenta uma afirmação decidida: «tudo será destruído». Mas depois suaviza com esta afirmação: «nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá». Os textos bíblicos apocalíticos, como o do trigésimo terceiro domingo, não são um «filme de terror»; são um apelo à esperança, um grito de resistência no meio da injustiça generalizada. O justo há de saber que o mal não tem a última palavra, que Deus está do seu lado. O mais fácil é sucumbir à tentação da oferta de poder, à tentação de abandonar a fé e o que ela significa de projeto para mudar o mundo. Ir contra a corrente, em muitas ocasiões, pode significar sofrer maledicências, perseguição e, em alguns casos, a morte (pensemos no testemunho dos cristãos em países de maioria islâmica; ou no martírio que irmãos nossos estão a sofrer na América Latina por defenderem os pobres perante a exploração; ou o perigo que padecem muitos missionários e missionárias em diversos países; ou...).
    A perseverança — não a resignação — é a chave. Uma perseverança que nasce da confiança (a fé) no Deus de Jesus. Nenhuma dificuldade pode destruí-la.

    © Javier Velasco-Arias

    © La Biblia compartida — blogue de Javier Velasco-Arias y Quique Fernández
    © tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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    Preparar o domingo trigésimo terceiro, Ano C, no Laboratório da fé

    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.11.13 | Sem comentários

    PREPARAR O DOMINGO TRIGÉSIMO TERCEIRO


    No último «Encontros com a Palavra», comentamos como a vida é o lugar privilegiado no qual se revela o rosto de Deus. O Senhor não é Deus de mortos, mas de vivos... e é na vida que nos comunica o seu projeto. Portanto, os cristãos não temos que consultar, como os gregos, o oráculo dos deuses, ou, como os assírios, as estrelas (astrologia), ou ler a mão, etc. Para saber o que Deus quer da nossa vida pessoal, comunitária ou social, só temos que abrir os olhos e ver... Não negar a realidade, não atraiçoá-la ou mentir sobre ela. Não ser como a avestruz que pensa que por deixar de ver a realidade, metendo a cabeça na areia, fará desaparecer o caçador. Não se trata, pois, de difíceis hieróglifos ou adivinhações; é simples; mas, às vezes, as coisas são tão simples, que não as vemos; são tão simples e tão quotidianas, que não lhes prestamos atenção; por isso, é fundamental ter olhos limpos para olhar a realidade sem medo. Por alguma razão Jesus, num momento de inspiração e «cheio do Espírito Santo, disse: 'Louvo-te Pai, Senhor do céu e da terra, porque mostraste aos simples as coisas que escondes aos sábios e entendidos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado» (Lucas 10, 21).
    Esta foi a atitude fundamental de Jesus. Ter os olhos abertos diante da realidade, perante as coisas simples de cada dia, nas quais descobria os planos do seu Pai, Deus. Jesus aprendeu o que aprendeu sobre o Reino de Deus, olhando a sua vida e a vida do seu povo. A partir unicamente do Evangelho de São Mateus podemos chegar a uma lista como esta: Jesus fala de pão, sal, luz, lâmpadas, caixotes, traças, ladrões, aves, celeiros, flores, erva, palha, traves, troncos, cães, pérolas, porcos, pedras, cobras, peixes, portas, caminhos, ovelhas, uvas, espinhos, figos, cardos, fogo, casas, rochas, areia, chuva, rios, ventos, prostitutas, tocas, aves, ninhos, médicos, doentes, bodas, vestidos, telas, remendos, vinho, couros, odres, colheitas, trabalhadores, ouro, prata, cobre, bolsa, roupa, sandálias, bastões, pó, pés, lobos, serpentes, pombas, terraços, passarinhos, moedas, cabelos, árvores, frutos, víboras, semeador, semente, sol, raiz, grãos, ouvidos, joio, trigo, grãos, mostarda, horto, plantas, ramos, fermento, farinha, massa, tesouros, comerciantes, redes, mar, praias, cestas, fornos, boca, planta, raiz, cegos, buracos, ventre, céu, crianças, pedra de moinho, mão, pé, maneta, coxo, reis, funcionários, escravos, prisões, camelos, agulhas, vinhas, cebes, torres, lagar, terreno, lavradores, festas, convidados, criados, animais, hortelã, anis, cominhos, mosquitos, copos, pratos, sepulcros, galinhas, pintos, figueiras, virgens, azeite, dinheiro, banco, pastor, cabras... E por aí adiante.
    Nestes elementos tão simples, Jesus descobriu o que Deus lhe pedia e o que Deus queria fazer com ele e com toda a humanidade. Não se trata de ver coisas distintas, novas, mas de olhar o mesmo, mas com uns olhos novos: «Mas Yahveh disse a Samuel: [...] O olhar de Deus não é como o humano, pois o ser humano vê as aparências, mas Yahveh vê o coração (1Samuel 16, 7). Esta maneira de ver é característica dos profetas; um olhar que não é propriamente o do turista. Esta é a resposta para a pergunta que fazem ao Senhor no evangelho do trigésimo terceiro domingo (Ano C): «Que sinal haverá de que está para acontecer?». Estão aí. Só temos que abrir os olhos e ver...

    © Hermann Rodríguez Osorio, SJ
    © Encuentros com la Palabra — blogue de Hermann Rodríguez Osorio
    © tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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    Preparar o domingo trigésimo terceiro, Ano C, no Laboratório da fé
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.11.13 | Sem comentários

    A porta da fé [14]


    Estamos a menos de duas semanas de concluir o Ano da Fé, que se iniciou em outubro de 2012 e terminará em novembro de 2013. Semanalmente, apresentamos um número da Carta Apostólica do papa Bento XVI com a qual proclamou o Ano da Fé — «A porta da fé» («Porta Fidei»). E juntamos uma proposta de reflexão elaborada por Pedro Jaramillo. O objetivo é dar um contributo para uma avaliação mais cuidada sobre a forma como estamos a viver o Ano da Fé. Bom proveito!

    O Ano da Fé será uma ocasião propícia também para intensificar o testemunho da caridade. Recorda São Paulo: «Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade» (1Coríntios 13, 13). Com palavras ainda mais incisivas – que não cessam de empenhar os cristãos –, afirmava o apóstolo Tiago: «De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: “Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome”, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta. Mais ainda! Poderá alguém alegar sensatamente: “Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me então a tua fé sem obras, que eu, pelas minhas obras, te mostrarei a minha fé”» (Tiago 2, 14-18).
    A fé sem a caridade não dá fruto, e a caridade sem a fé seria um sentimento constantemente à mercê da dúvida. Fé e caridade reclamam-se mutuamente, de tal modo que uma consente à outra realizar o seu caminho. De facto, não poucos cristãos dedicam amorosamente a sua vida a quem vive sozinho, marginalizado ou excluído, considerando-o como o primeiro a quem atender e o mais importante a socorrer, porque é precisamente nele que se espelha o próprio rosto de Cristo. Em virtude da fé, podemos reconhecer naqueles que pedem o nosso amor o rosto do Senhor ressuscitado. «Sempre que fizestes isto a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mateus 25, 40): estas palavras de Jesus são uma advertência que não se deve esquecer e um convite perene a devolvermos aquele amor com que Ele cuida de nós. É a fé que permite reconhecer Cristo, e é o seu próprio amor que impele a socorrê-Lo sempre que Se faz próximo nosso no caminho da vida. Sustentados pela fé, olhamos com esperança o nosso serviço no mundo, aguardando «novos céus e uma nova terra, onde habite a justiça» (2Pedro 3, 13; cf. Apocalipse 21, 1).

    A porta da fé [Carta Apostólica para o Ano da Fé - «Porta Fidei»]

    • A porta da fé — números publicados no Laboratório da fé > > >



    Aspetos que se podem sublinhar

    • O Ano da Fé é inseparável da intensificação do testemunho da caridade.
    • Ler os seguintes textos bíblicos: 1Coríntios 13 (hino da caridade); Tiago 2, 14-18.
    • A fé sem a caridade não dá fruto; a caridade sem a fé reduz-se a um simples humanismo (válido, em si mesmo, mas insuficiente para um cristão). A fé e o amor necessitam-se mutuamente. 
    • Há muitos cristãos que se dedicam com amor aos mais pobres e necessitados... Os pobres e os mais necessitados são, para nós, «rosto de Cristo». (Ler o texto bíblico de Mateus 25, 31-46). Disse João Paulo II: «Esta página não é um mero convite à caridade, mas uma página de cristologia que projeta um feixe de luz sobre o mistério de Cristo. Nesta página, não menos do que o faz com a vertente da ortodoxia, a Igreja mede a sua fidelidade de Esposa de Cristo» (Carta Apostólica no termo do Grande Jubileu — «Novo Millennio Ineunte», 49).
    • A partir da fé, olhamos com esperança para o nosso compromisso no mundo. Uma esperança «ativa». Não esperamos que «Deus transforme o mundo». Temos consciência de que «nos dá força para o transformarmos», fazendo dele «os novos céus e a nova terra, onde habite a justiça» (2Pedro 3, 13).

    Interiorizando

    • Examino se tenho propensão para separar a fé da caridade. Estaria a deixar-me instalar na incoerência entre a fé e a vida. É uma tentação muito frequente e, muitas vezes, caímos nela. Essa incoerência converte-se, às vezes, em desprestígio da própria fé.

    • Tiro conclusões concretas para a minha vivência da fé a partir da leitura do Hino da Caridade (1Coríntios 13) e do texto de Tiago 2, 14-18. Posso encontrar outros textos na Primeira Carta de João.

    • Examino se a minha fé concreta é uma verdadeira fonte de entrega aos mais pobres e necessitados. Se acredito em Deus Pai, acredito que todos somos irmãos; reconheço que não vivemos como irmãos e proponho-me a caminhar no sentido de uma fraternidade próxima e comprometida com todos.

    • Examino a minha relação com Jesus, através da minha relação concreta com os necessitados, a partir da leitura serena de Mateus 25, 31-46.

    • A segurança nas promessas de Deus criam em mim passividade, à espera que seja Deus a fazer tudo? Entrego-me a uma esperança ativa? A esperança cristã é uma força para o compromisso; não é o pretexto para cruzar os braços, porque, como «tenho muita fé», Deus vai fazer tudo por mim.

    © Pedro Jaramillo
    © Tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

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    Bento XVI, Carta Apostólica «A porta da fé»
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.11.13 | Sem comentários

    PREPARAR O DOMINGO TRIGÉSIMO TERCEIRO


    Evangelho segundo Lucas 21, 5-19

    Naquele tempo, comentavam alguns que o templo estava ornado com belas pedras e piedosas ofertas. Jesus disse-lhes: «Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído». Eles perguntaram-Lhe: «Mestre, quando sucederá isto? Que sinal haverá de que está para acontecer?». Jesus respondeu: «Tende cuidado; não vos deixeis enganar, pois muitos virão em meu nome e dirão: ‘Sou eu’; e ainda: ‘O tempo está próximo’. Não os sigais. Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas, não vos alarmeis: é preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim». Disse-lhes ainda: «Há-de erguer-se povo contra povo e reino contra reino. Haverá grandes terramotos e, em diversos lugares, fomes e epidemias. Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu. Mas antes de tudo isto, deitar-vos-ão as mãos e hão-de perseguir-vos, entregando-vos às sinagogas e às prisões, conduzindo-vos à presença de reis e governadores, por causa do meu nome. Assim tereis ocasião de dar testemunho. Tende presente em vossos corações que não deveis preparar a vossa defesa. Eu vos darei língua e sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer. Sereis entregues até pelos vossos pais, irmãos, parentes e amigos. Causarão a morte a alguns de vós e todos vos odiarão por causa do meu nome; mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá. Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas».



    Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas

    Como os outros evangelhos sinóticos (Marcos 13 e Mateus 24–25), Lucas conclui a pregação de Jesus, em Jerusalém, com um «sermão ou discurso escatológico» (21, 5-38), onde recolhe uma antologia de avisos e reflexões do Mestre sobre as realidades últimas (escatologia). Toda a doutrina de Jesus está impregnada de pensamento escatológico. Viveu e ensinou a viver o tempo dando-lhe valor de eternidade, deixando uma certeza: após o último passo de cada vida e da história de todos terá lugar o encontro transcendental e definitivo com Deus.
    Na ótica de Lucas, o discurso escatológico é uma meditação sobre a história tendo como ambiente o templo de Jerusalém. É um texto difícil, não só pelo seu conteúdo, mas também pelo uso de uma linguagem «apocalítica», obscura e simbólica. Começa com uma introdução que é a profecia da destruição do monumental templo de Jerusalém (versículos 5-7), sinal da caducidade das instituições e dos valores temporais. Continua com a indicação dos sinais premonitórios do fim do mundo: por um lado, a presença dos falsos messias e profetas; por outro, as guerras, revoltas, fomes, pestes, terramotos e fenómenos astronómicos ou meteorológicos (versículos 8-11); a estas calamidades há que juntar a perseguição aos discípulos: traições, prisões, interrogatórios e martírios (versículos 12-19). É a primeira parte do discurso que corresponde com o texto proposto para o trigésimo terceiro domingo (Ano C).
    A segunda parte continua com a descrição/profecia dos acontecimentos: o primeiro é a destruição de Jerusalém, que aconteceu no ano 70 depois de Cristo (versículos 20-24); o segundo é a vinda gloriosa de Cristo, no final dos tempos (versículos 25-28) descrita com uma linguagem inspirada nos profetas. A reflexão final exorta a estar sempre pronto para receber o Senhor (versículos 29-38).
    Em resumo, o discurso escatológico não é uma previsão sobre o fim do mundo, mas uma mensagem de esperança, que nos convida a viver o presente com responsabilidade.

    © tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
    A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



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    Preparar o domingo trigésimo terceiro, Ano C, no Laboratório da fé
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.11.13 | Sem comentários

    NOVEMBRO: MÊS DA ESCATOLOGIA


    O mês de novembro, no coração do outono, remete-nos para as coisas últimas da vida, o final dos tempos. Ao mesmo tempo, coincide com o final do Ano Litúrgico (Ano Cristão), cujas propostas incidem nas referências à morte, ao final dos tempos (na Igreja, usa-se o termo «escatologia»), à esperança na ressurreição, à vida eterna. Os primeiros dias do mês de novembro (Todos os Santos e Fiéis Defuntos) dão o mote para uma renovada reflexão sobre estas temáticas. Neste contexto, também associado ao encerramento do Ano da Fé (24 de novembro de 2013), propomos a expressão do «Credo niceno-constantinopolitano»: «Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir». Esta iniciativa tem ainda como ponto de referência a conferência do Padre Doutor José Tolentino Mendonça, às 21h do dia 21 de novembro de 2013, no Auditório Vita, Braga.

    Apresentamos, agora, a (primeira parte da) reflexão de Carlo Maria Martini, retirada do livro «Caminhos Laicais» (ed. Paulinas, Lisboa 1995):

    Ilumina, Senhor, a nossa mente, aquece-nos o coração,
    como inflamaste o coração dos discípulos de Emaús,
    para podermos compreender
    a glória que nos prometes,
    a vida que nos dás
    e o mistério escondido que nos fazes conhecer pela fé.
    Maria, nossa mãe,concede-nos compreender o que vives junto do Senhor,
    para conseguirmos exprimi-lo na vida, na doença,
    na morte, na ressurreição e na glória.
    Para isso, dá-nos ó Pai,
    a graça do Espírito Santo
    que te pedimos por Cristo Nosso Senhor.
    Ámen.

    Hoje fala-se pouco da morte e do paraíso, mas creio que é muito importante dar espaço nos nossos pensamentos às últimas realidades que nos abrem as portas da verdadeira compreensão do sentido da vida terrena e do desígnio de Deus na história, instigando-nos a agir no quotidiano corajosamente e com entusiasmo.

    Pontos de partida

    1. O medo da morte é um facto existencial, terrível e impossível de eliminar; é também garantia de viver, porque mobiliza os instintos de conservação, de resistência, de agressividade vital. Não se pode combater o medo da morte com um ato de raciocínio, porque o medo surge por si mesmo, é invencível.
    2. O medo da morte é o símbolo de todos os outros medos perante a depressão física, psíquica, social. A morte é, na verdade, o último de tantos dramas de que o homem é protagonista: doença, velhice, sobretudo quando acompanhada de achaques e solidão, cansaço, esgotamentos nervosos, perda de gosto pelo trabalho, pelos encontros, pela natureza; e depois os abalos sociais, como insucessos, perda da fama, do prestígio, da posição que tínhamos conquistado. São outras tantas formas de antecipação da morte e por isso as vivemos com medo, com horror, desejaríamos que não existissem.
    3. Estes medos, embora moralmente neutros (já que o medo é um instinto), são, porém, de facto, causa e sinal de escravidão interior, porque nos bloqueiam. Por exemplo, o medo de perder a fama, a estima, leva-nos a agir diversamente de como deveríamos e gostaríamos; o medo de perder uma vida tranquila, a comodidade, obriga tanta gente a uma vida negativa, negligente, pecaminosa. E o medo da morte pode levar a experiências que são uma espécie de substituto; penso, por exemplo, nos excessos de sensualidade, no alcoolismo, na droga.
    Por isso, o autor da Carta aos Hebreus afirma que Jesus se tornou participante da nossa carne e do nosso sangue «para reduzir à impotência, pela sua morte, aquele que tinha o império da morte, o demónio, e assim libertar aqueles que, pelo temor da morte, estavam toda a vida sujeitos à escravidão» (Hebreus 2, 14-15). O diabo escraviza muita gente durante toda a vida jogando com o medo da morte e de toda a espécie de diminuição física, psíquica e social.
    É, pois, necessário que o homem (e não só o cristão) chegue, não a eliminar o medo da morte, mas sim a ultrapassar, a vencer o medo de tudo o que pode revestir a imagem da morte. Sem esta superação — que é o nó central da existência e o jogo da verdade — não estaremos verdadeiramente com Jesus.
    Pode-se fazer trapaças sob muitos aspetos e, por exemplo, fingir fazer o bem, ser caritativo, interessar-se pelos outros. Mas não se pode fingir a coragem diante da morte. Muitas vezes podemos presumir que somos mortificados, de ser capazes de tantas renúncias; mas se somos atingidos por uma doença grave, dentro de nós rebenta qualquer coisa que não conseguimos dominar, revelando-nos que na realidade não enfrentámos nem vencemos o medo de morrer.

    © Carlo Maria Martini
    © Inst. Miss. Filhas de S. Paulo, 1995
    © Adaptação de Laboratório da fé, 2013

    Novembro, mês da escatologia — Laboratório da fé, 2013
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.11.13 | Sem comentários

    Mistério da fé! [6]


    A ação litúrgica da Igreja está relacionada com os sacramentos. É certo que nem toda a celebração litúrgica se reduz aos sacramentos; mas estes são o centro e o coração da liturgia. Depois de termos aprofundado a liturgia, vamos abordar a temática sacramental. E começamos por esclarecer a questão: O que é um sacramento? [Para ajudar a compreender melhor, ler: João 1, 38-39; Catecismo da Igreja Católica (CIC), números 1179 a 1113-1134]

    «Vinde e vereis»

    — diz Jesus Cristo aos que lhe perguntam: «Mestre, onde moras?». O narrador acrescenta: «Foram, pois, e viram onde morava e ficaram com Ele». A adesão é antecedida pelo conhecimento da morada e pela experiência de comunhão. «Vinde e vereis» é também o convite da Igreja, mostrando que Jesus Cristo continua vivo e operante, na resposta às inquietações mais profundas do ser humano. Hoje, fá-lo, sobretudo, pelos sacramentos.

    Sacramento

    A palavra latina «sacramentum» designava, juridicamente, o depósito de um valor como garantia da boa-fé e da promessa do cumprimento. Era o «juramento de fidelidade» que se estabelecia entre duas pessoas ou entidades. «Quando se começou a traduzir a Bíblia para latim, esta palavra [sacramento] pareceu adequada a verter o termo grego ‘mistério’ que, no Novo Testamento — sobretudo em Paulo — designa o plano divino de salvação, que se realiza no tempo. O ‘mistério’ é uma espécie de pacto pela qual Deus Se dirige ao ser humano no amor, entra na sua história e chama-o a edificar consigo o Seu projeto de salvação» (Bruno Forte, «Introdução aos Sacramentos», Gráfica de Coimbra, Coimbra 1997, 16). No entanto, hoje, continua-se a usar os dois termos: mistério e sacramento. Este (sacramento) designa o sinal visível e eficaz da realidade divina; aquele (mistério) designa a realidade invisível.

    Jesus Cristo

    «O verdadeiro sacramento é Jesus Cristo. Como dizia Santo Agostinho, ‘não há outro sacramento de Deus senão Cristo’ (Carta 187). Ele é o sinal vivente que nos exprime a salvação de Deus, contém-na em si mesmo, e no-la comunica eficazmente, agora, por meio da sua Igreja. Cristo não só instituiu os sacramentos, como Ele próprio é o sacramento primordial e definitivo do encontro de Deus com a humanidade» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia» [DEL], ed. Paulinas, Prior Velho, 2007, 266-267).

    Igreja

    «A Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano» — afirma o II Concílio do Vaticano, na Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG 1). Esta é a primeira finalidade da Igreja (cf. CIC 775). «Como sacramento, a Igreja é instrumento de Cristo. ‘É assumida por Ele como instrumento da redenção universal’ (LG 9), ‘o sacramento universal da salvação’ (LG 48), pelo qual o mesmo Cristo ‘manifesta e atualiza o mistério do amor de Deus pelos seres humanos’ (Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual — «Gaudium et Spes», 45). É o ‘projeto visível do amor de Deus para com a humanidade’» (CIC 776).

    Sete sacramentos

    Durante os primeiros doze séculos a palavra «sacramento» era usada para designar várias realidades: Cristo, Igreja, Escritura, Páscoa, Encarnação, Quaresma, entre outras. Só a partir do século XIII — e com mais evidência após o Concílio de Trento — se utiliza o termo «sacramento» para indicar as sete ações sacramentais da Igreja (Batismo, Confirmação ou Crisma, Eucaristia, Penitência, Unção dos Doentes, Ordem e Matrimónio). Curiosamente, o II Concílio do Vaticano retoma o seu uso original, aplicando-o a Jesus Cristo, à Igreja, e em sentido ainda mais amplo, referindo-se ao cristão, ao ser humano, às coisas criadas. Na verdade, se «sacramento» significa a manifestação visível do dom invisível da graça de Deus, não há nenhum inconveniente em aplicar o vocábulo a outras realidades além dos sete sacramentos. «Os sete sacramentos têm a ver com todas as fases e momentos importantes da vida do cristão: conferem nascimento e crescimento, cura e missão à vida de fé dos cristãos. Existe uma certa semelhança entre as fases da vida natural e as da vida espiritual» (CIC 1210). Atos eficazes «como ‘forças que saem’ do Corpo de Cristo, sempre vivo e vivificante; ações do Espírito Santo que opera no seu Corpo que é a Igreja, os sacramentos são ‘as obras-primas de Deus’, na nova e eterna Aliança» (CIC 1116).

    «Há sacramentos da iniciação, que introduzem na fé: o Batismo, a Confirmação e a Eucaristia. Há sacramentos da cura: a Reconciliação e a Unção dos Enfermos. E há sacramentos da comunhão e do envio: o Matrimónio e a Ordem» (YOUCAT 193).






    Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.11.13 | Sem comentários

    NOVEMBRO: MÊS DA ESCATOLOGIA


    O mês de novembro, no coração do outono, remete-nos para as coisas últimas da vida, o final dos tempos. Ao mesmo tempo, coincide com o final do Ano Litúrgico (Ano Cristão), cujas propostas incidem nas referências à morte, ao final dos tempos (na Igreja, usa-se o termo «escatologia»), à esperança na ressurreição, à vida eterna. Os primeiros dias do mês de novembro (Todos os Santos e Fiéis Defuntos) dão o mote para uma renovada reflexão sobre estas temáticas. Neste contexto, também associado ao encerramento do Ano da Fé (24 de novembro de 2013), propomos a expressão do «Credo niceno-constantinopolitano»: «Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir». Esta iniciativa tem ainda como ponto de referência a conferência do Padre Doutor José Tolentino Mendonça, às 21h do dia 21 de novembro de 2013, no Auditório Vita, Braga.

    Apresentamos, agora, a reflexão de Bento XVI, retirada dos números 10 a 12 da Carta Encíclica sobre a esperança cristã — «Spe Salvi»:

    Para nós, hoje a fé cristã é também uma esperança que transforma e sustenta a nossa vida? Para nós aquela é «performativa» – uma mensagem que molda de modo novo a mesma vida – ou é simplesmente «informação» que, entretanto, pusemos de lado porque nos parece superada por informações mais recentes? Na busca de uma resposta, desejo partir da forma clássica do diálogo, usado no rito do Batismo, para exprimir o acolhimento do recém-nascido na comunidade dos crentes e o seu renascimento em Cristo. O sacerdote perguntava, antes de mais nada, qual era o nome que os pais tinham escolhido para a criança, e prosseguia: «O que é que pedis à Igreja?». Resposta: «A fé». «E o que é que vos dá a fé?». «A vida eterna». Como vemos por este diálogo, os pais pediam para a criança o acesso à fé, a comunhão com os crentes, porque viam na fé a chave para a «vida eterna». Com efeito hoje, como sempre, é disto que se trata no Batismo, quando nos tornamos cristãos: é não somente um ato de socialização no âmbito da comunidade, nem simplesmente de acolhimento na Igreja. Os pais esperam algo mais para o batizando: esperam que a fé – de que faz parte a corporeidade da Igreja e dos seus sacramentos – lhe dê a vida, a vida eterna. Fé é substância da esperança. Aqui, porém, surge a pergunta: Queremos nós realmente isto: viver eternamente? Hoje, muitas pessoas rejeitam a fé, talvez simplesmente porque a vida eterna não lhes parece uma coisa desejável. Não querem de modo algum a vida eterna, mas a presente; antes, a fé na vida eterna parece, para tal fim, um obstáculo. Continuar a viver eternamente – sem fim – parece mais uma condenação do que um dom. Certamente a morte queria-se adiá-la o mais possível. Mas, viver sempre, sem um termo, acabaria por ser fastidioso e, em última análise, insuportável. É isto precisamente que diz, por exemplo, o Padre da Igreja Ambrósio na sua elegia pelo irmão defunto Sátiro: «Sem dúvida, a morte não fazia parte da natureza, mas tornou-se natural; porque Deus não instituiu a morte ao princípio, mas deu-a como remédio. Condenada pelo pecado a um trabalho contínuo e a lamentações insuportáveis, a vida dos homens começou a ser miserável. Deus teve de pôr fim a estes males, para que a morte restituísse o que a vida tinha perdido. Com efeito, a imortalidade seria mais penosa que benéfica, se não fosse promovida pela graça». Antes, Ambrósio tinha dito: «Não devemos chorar a morte, que é a causa de salvação universal».
    Independentemente do que Santo Ambrósio quisesse dizer precisamente com estas palavras, é certo que a eliminação da morte ou mesmo o seu adiamento quase ilimitado, deixaria a terra e a humanidade numa condição impossível e nem mesmo prestaria um benefício ao indivíduo. Obviamente há uma contradição na nossa atitude, que evoca um conflito interior da nossa mesma existência. Por um lado, não queremos morrer; sobretudo quem nos ama não quer que morramos. Mas, por outro, também não desejamos continuar a existir ilimitadamente, nem a terra foi criada com esta perspetiva. Então, o que é que queremos na realidade? Este paradoxo da nossa própria conduta suscita uma questão mais profunda: o que é, na verdade, a «vida»? E o que significa realmente «eternidade»? Há momentos em que de repente temos a sua perceção: sim, isto seria precisamente a «vida» verdadeira, assim deveria ser. Em comparação, aquilo que no dia-a-dia chamamos «vida», na verdade não o é. Agostinho, na sua extensa carta sobre a oração, dirigida a Proba – uma viúva romana rica e mãe de três cônsules –, escreve: no fundo, queremos uma só coisa, «a vida bem-aventurada», a vida que é simplesmente vida, pura «felicidade». No fim de contas, nada mais pedimos na oração. Só para ela caminhamos; só disto se trata. Porém, depois Agostinho diz também: se considerarmos melhor, no fundo não sabemos realmente o que desejamos, o que propriamente queremos. Não conhecemos de modo algum esta realidade; mesmo naqueles momentos em que pensamos tocá-la, não a alcançamos realmente. «Não sabemos o que convém pedir» – confessa ele citando São Paulo (Romanos 8, 26). Sabemos apenas que não é isto. Porém, no facto de não saber sabemos que esta realidade deve existir. «Há em nós, por assim dizer, uma douta ignorância» («docta ignorantia») – escreve ele. Não sabemos realmente o que queremos; não conhecemos esta «vida verdadeira»; e, no entanto, sabemos que deve existir algo que não conhecemos e para isso nos sentimos impelidos.
    Penso que Agostinho descreve aqui, de modo muito preciso e sempre válido, a situação essencial do homem, uma situação donde provêm todas as suas contradições e as suas esperanças. De certo modo, desejamos a própria vida, a vida verdadeira, que depois não seja tocada sequer pela morte; mas, ao mesmo tempo, não conhecemos aquilo para que nos sentimos impelidos. Não podemos deixar de tender para isto e, no entanto, sabemos que tudo quanto podemos experimentar ou realizar não é aquilo por que ansiamos. Esta «coisa» desconhecida é a verdadeira «esperança» que nos impele e o facto de nos ser desconhecida é, ao mesmo tempo, a causa de todas as ansiedades como também de todos os ímpetos positivos ou destruidores para o mundo autêntico e o homem verdadeiro. A palavra «vida eterna» procura dar um nome a esta desconhecida realidade conhecida. Necessariamente é uma expressão insuficiente, que cria confusão. Com efeito, «eterno» suscita em nós a ideia do interminável, e isto mete-nos medo; «vida», faz-nos pensar na existência por nós conhecida, que amamos e não queremos perder, mas que, frequentemente, nos reserva mais canseiras que satisfações, de tal maneira que se por um lado a desejamos, por outro não a queremos. A única possibilidade que temos é procurar sair, com o pensamento, da temporalidade de que somos prisioneiros e, de alguma forma, conjeturar que a eternidade não seja uma sucessão contínua de dias do calendário, mas algo parecido com o instante repleto de satisfação, onde a totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade. Seria o instante de mergulhar no oceano do amor infinito, no qual o tempo – o antes e o depois – já não existe. Podemos somente procurar pensar que este instante é a vida em sentido pleno, um incessante mergulhar na vastidão do ser, ao mesmo tempo que ficamos simplesmente inundados pela alegria. Assim o exprime Jesus, no Evangelho de João: «Eu hei de ver-vos de novo; e o vosso coração alegrar-se-á e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria» (16, 22). Devemos olhar neste sentido, se quisermos entender o que visa a esperança cristã, o que esperamos da fé, do nosso estar com Cristo.

    © Copyright 2007 - Libreria Editrice Vaticana
    © Adaptação de Laboratório da fé, 2013


    Novembro, mês da escatologia — Laboratório da fé, 2013
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.11.13 | Sem comentários
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