Bem-aventuranças — temática para 2014, 2015, 2016


Foram escolhidos pelo Santo Padre Francisco os temas das três próximas edições da Jornada Mundial da Juventude. Estes marcarão as etapas do itinerário de preparação espiritual que durante três anos conduzirá à celebração internacional com o Sucessor de Pedro prevista para Cracóvia (Polónia) em julho de 2016:
  • XXIX Jornada Mundial da Juventude de 2014
    — «Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu» (Mateus 5, 3)
  • XXX Jornada Mundial da Juventude de 2015
    — «Felizes os puros de coração, porque verão a Deus» (Mateus 5, 8)
  • XXXI Jornada Mundial da Juventude de 2016 (Cracóvia, Polónia)
    — «Felizes os misericordiosos, porque encontrarão misericórdia» (Mateus 5, 7)

Os três temas, extraídos das Bem-aventuranças do evangelho. No Rio de Janeiro, o Papa Francisco pediu aos jovens, «de todo coração», que lessem novamente as Bem-Aventuranças para delas fazer um concreto programa de vida: «Olha, lê as Bem-Aventuranças, que te farão bem!» (cf. Encontro com os jovens argentinos na Catedral de São Sebastião, 25 de julho de 2013).

Bem-aventuranças no itinerário das Jornadas Mundiais da Juventude (2014, 2015, 2016)

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.11.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO TRIGÉSIMO SEGUNDO


Jesus apresenta-nos, no evangelho proposto para o trigésimo segundo domingo (Ano C), o Deus da vida. A pergunta mal-intencionada dos saduceus dá a possibilidade de nos falar de um Deus que «não é um Deus de mortos, mas de vivos». O Deus de Jesus é um Deus que está sempre ao lado do seu povo, é «o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob», um Deus que se faz presente na história do seu povo, um Deus próximo, um Deus de vida.
Deus ama cada um de nós de uma forma singular, individual, pessoal. Por isso, faz-se presente nas nossas vidas, no nosso quotidiano, na nossa história pessoal, mas também na comunitária e eclesial. Por isso, por amor, deseja que desfrutemos eternamente do seu amor, do amor partilhado, pleno, total.
Esta visão da outra vida não tem nada de alienante, mas tudo ao contrário. É uma vida que se apresenta em continuidade com esta, pois só assim tem sentido. Deus faz-se presente nas nossas vidas, aqui e agora, e dá-nos a possibilidade de viver segundo o seu plano amoroso. Significa que, com a minha vida, começo já a partilhar esse amor com os outros, com cada homem e cada mulher, que considero meus irmãos; dessa forma é antecipação da Vida, com maiúsculas, onde o amor será a única porta de entrada possível.

© Javier Velasco-Arias

© La Biblia compartida — blogue de Javier Velasco-Arias y Quique Fernández
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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Preparar o domingo trigésimo segundo, Ano C, no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.11.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO TRIGÉSIMO SEGUNDO


Há alguns dias perguntaram-me, sem rodeios, quais podem ser as dimensões fundamentais de uma espiritualidade que corresponda ao mundo de hoje. Uma pergunta aparentemente simples, mas, ao mesmo tempo, cheia de profundidade. Respondi rapidamente e sem pensar muito: «Uma espiritualidade que queira responder à nossa realidade tem que ter os olhos bem abertos perante a vida, para contemplar Deus criador no meio da nossa história; deve recorrer sempre à luz oferecida pela Palavra de Deus para discernir os seus caminhos; e lançar-nos na construção da comunidade cristã, em todos os seus níveis».
As três dimensões que apareceram nesta resposta espontânea estão muito relacionados entre si e constituem uma unidade dinâmica que considero muito próxima da própria vida de Deus. Uma espiritualidade não é outra coisa senão uma dinâmica vital que nos põe em sintonia com Deus e nos faz agir segundo o Espírito de Deus. Portanto, não é algo gasoso, abstrato, elevado, desencarnado. Uma espiritualidade é um estilo de vida que se pode ver e comprovar em ações bem concretas.
A participação do cristão na vida de Deus, que é aquilo a que chamamos espiritualidade, faz que a pessoa entre na dinâmica vital própria de Deus uno e trino. A dinâmica que se estabelece constantemente entre o Pai criador que se revela na história, o Filho de Deus encarnado na pessoa de Jesus, e o Espírito Santo que continua a atuar no meio de nós para nos impulsionar a construir uma comunidade de amor. Santo Agostinho dizia que Deus tinha escrito dois livros: o primeiro e mais importante é o livro da vida, o livro da história que começou a escrever no princípio dos tempos e que continua a escrever hoje em cada um de nós; mas como fomos incapazes de ler neste livro os seus desígnios, Deus escreveu um segundo livro a partir do primeiro; este segundo livro é a Bíblia; mas a primeira Revelação está na História, na vida, nos acontecimentos de cada dia: tanto na vida pessoal, como grupal, comunitária, social, política, etc...
Esta é a razão pela qual a primeira dimensão de uma espiritualidade atual é olhar a vida. Aí nos encontramos com o que Deus quer de nós; aí podemos descobrir o que Deus está a construir. Trata-se de perceber a música de Deus, para cantar e bailar ao seu ritmo, para nos deixar invadir pela sua força criadora. É como entrar num rio e perceber para onde vai a corrente e deixar-nos levar por ela.
Isto é o que Jesus queria comunicar quando os saduceus, que negavam a ressurreição dos mortos, lhe propuseram essa difícil pergunta sobre qual dos sete irmãos, que estiveram casados sucessivamente com a mesma mulher, seria o seu esposo na ressurreição dos mortos... «O Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’. Não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos». O Deus em quem acreditamos, por Jesus Cristo, é o Deus da vida, que se revela nos acontecimentos quotidianos; nesses acontecimentos que, muitas vezes, desprezamos, porque não parecem revelar-nos o rosto de Deus. Cuidemos que a nossa espiritualidade não se converta numa série de complicadas elucubrações, que nos distraem do que é verdadeiramente importante.

© Hermann Rodríguez Osorio, SJ
© Encuentros com la Palabra — blogue de Hermann Rodríguez Osorio
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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Preparar o domingo trigésimo segundo, Ano C, no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.11.13 | Sem comentários

Mistério da fé! [5]


Uma coordenada essencial na existência humana, além do tempo («Quando celebrar?» - tema 4) é o lugar, o espaço. Na verdade, podemos dizer que o lugar que ocupamos, o espaço em que nos movemos, faz parte de nós, pois é, ao mesmo tempo, expressão e consequência da nossa matéria carnal. Neste sentido, percorrido este itinerário, precisamos de responder à questão: «Onde celebrar?» [Para ajudar a compreender melhor, ler: 2Coríntios 6, 14-18; Catecismo da Igreja Católica, números 1179 a 1186]

«Nós somos o templo do Deus vivo»

— refere a Segunda Carta aos Coríntios, para lembrar que o ser humano é templo de Deus, é habitado por Deus. Esta é uma «novidade» realizada através de Jesus Cristo: Deus habita em cada ser humano. Tem razão Paulo ao dizer, em vários dos seus escritos, que somos templo de Deus e que o Espírito Santo habita em nós. Inaugurado por Jesus Cristo, «o culto ‘em espírito e verdade’ (João 4, 24) da Nova Aliança não está ligado a nenhum lugar exclusivo. Toda a terra é santa e está confiada aos filhos dos homens. O que tem primazia, quando os fiéis se reúnem num mesmo lugar, sãs as ‘pedras vivas’ que se juntam para ‘a edificação dum edifício espiritual’ (1Pedro 2, 4-5). O corpo de Cristo ressuscitado é o templo espiritual donde brota a fonte de água viva. Incorporados em Cristo pelo Espírito Santo, ‘nós somos o templo do Deus vivo’ (2Coríntios 6, 16)» (Catecismo da Igreja Católica [CIC], 1179). Está claro que a ressurreição de Jesus Cristo, a sua vitória sobre a morte, torna-o presente em todo os lugares do mundo. Jesus Cristo é o verdadeiro «templo», o nosso «espaço de vida». E, pela graça Batismo, ao ressurgir com Jesus Cristo para uma uma vida nova, também o cristão se torna «templo» de Deus, uma «habitação de Deus» (Efésios 2, 22).

Liturgia: onde celebrar?

É verdade que se pode celebrar em qualquer lugar, num ambiente aberto ou fechado. No entanto, não podemos ignorar que o espaço celebrativo tem um valor simbólico (cf. tema 3), é um verdadeiro sinal litúrgico. Por isso, «enquanto a oração como simples ato religioso pode ser feita em todos os lugares, a liturgia, no entanto, como um ato de culto público e ordenado, requer um lugar, geralmente um edifício, onde possa ser realizada como rito sagrado» (Departamento das celebrações litúrgicas do Sumo Pontífice). Neste sentido, a Igreja aprova a construção de edifícios destinados a atos de culto, à realização de celebrações litúrgicas. «Na sua condição terrena, a Igreja tem necessidade de lugares onde a comunidade possa reunir-se: as nossas igrejas visíveis, lugares sagrados, imagens da Cidade santa, da Jerusalém celeste para a qual caminhamos como peregrinos» (CIC 1198). Jean Corbon diz que «a igreja de pedra ou de madeira onde entramos para participar na liturgia eterna é, sem dúvida, um espaço do nosso mundo, mas a sua novidade está em ser um espaço aberto pela Ressurreição [...], um espaço realmente habitado por um mundo libertado da morte. É aí que celebramos a liturgia» (Jean Corbon, «A fonte da liturgia», ed. Paulinas, Lisboa 1999, 145). O Catecismo da Igreja Católica destaca, como pontos de referência dos edifícios destinados ao culto, o altar, o sacrário, o óleo do Santo Crisma, a cadeira, o ambão, a fonte batismal e o lugar da reconciliação. Os edifícios destinados à prática das celebrações litúrgicas «não são simples lugares de reunião, mas significam e manifestam a Igreja que vive nesse lugar, morada de Deus com os homens reconciliados e unidos em Cristo» (CIC 1180). A Igreja, enquanto comunidade de crentes reunidos, congregados à volta de Jesus Cristo, é que é «templo» de Deus. No início do cristianismo, o edifício não se designava «igreja», mas «casa da igreja», isto é, morada da comunidade. «Para o cristão, é claro que o templo propriamente não é o lugar da presença de Deus (João 4, 23), mas o lugar da presença da assembleia na qual precisamente Deus se torna presente» (Dionisio Borobio, «La celebración en la Iglesia I. Liturgia e Sacramentologia fundamental», ed. Sígueme, Salamanca 1995, 223). Temos de ter bem claro que «o edifício de culto cristão não é o equivalente do templo pagão, onde a câmara com a imagem da divindade também era considerada, de alguma forma, a casa dela. Como diz São Paulo aos atenienses: ‘Deus não habita em templos construídos pelo homem’ (Atos dos Apóstolos 17, 24)» (Departamento das celebrações litúrgicas do Sumo Pontífice).

«Finalmente a igreja tem uma significação escatológica. [...] A igreja visível simboliza a casa paterna. [...] É a casa de todos os filhos de Deus, amplamente aberta e acolhedora» (CIC 1186).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.11.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO TRIGÉSIMO SEGUNDO


Evangelho segundo Lucas 20, 27-38

Naquele tempo, aproximaram-se de Jesus alguns saduceus – que negam a ressurreição – e fizeram-lhe a seguinte pergunta: «Mestre, Moisés deixou-nos escrito: ‘Se morrer a alguém um irmão, que deixe mulher, mas sem filhos, esse homem deve casar com a viúva, para dar descendência a seu irmão’. Ora havia sete irmãos. O primeiro casou-se e morreu sem filhos. O segundo e depois o terceiro desposaram a viúva; e o mesmo sucedeu aos sete, que morreram e não deixaram filhos. Por fim, morreu também a mulher. De qual destes será ela esposa na ressurreição, uma vez que os sete a tiveram por mulher?». Disse-lhes Jesus: Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento. Mas aqueles que forem dignos de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos, nem se casam nem se dão em casamento. Na verdade, já não podem morrer, pois são como os Anjos, e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus. E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça ardente, quando chama ao Senhor ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’. Não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos».



Não é um Deus de mortos, mas de vivos,
porque para Ele todos estão vivos

O caminho para Jerusalém chegou ao fim. Jesus passa os últimos dias, antes da paixão, a ensinar no templo. Dirigentes religiosos de diversas tendências entram em controvérsia com ele. Agora, é a vez dos saduceus, que eram poucos em número, mas fortes em influência. Instalados na alta classe sacerdotal, monopolizavam o sistema e a gestão económica do templo. Condescendentes com o poder romano e abertos aos costumes pagãos, eram odiados pelos fariseus que se sentiam o baluarte do sentimento nacional. Enquanto estes defendiam a ressurreição dos mortos, os saduceus ridicularizavam quem acreditava nela.
O episódio relatado no texto lucano proposto para o trigésimo segundo domingo (Ano C) segue o esquema das «controvérsias em Jerusalém» tidas por Jesus. Estas contribuíram não só para iluminar a doutrina, mas também serviram de norma para a comunidade apostólica. O esquema consta de duas partes: a) apresentação dos adversários (neste caso os saduceus) e a sua mentalidade (20, 27-33); b) resposta de Jesus (20, 34-38).
A partir da antiga lei do levirato (Deuteronómio 25, 5-10), os saduceus inventam um caso que provocaria, no mais além, uma insólita situação de poligamia. Uma mulher viu-se obrigada a ter sete maridos. Quando todos ressuscitarem, qual será o seu marido? Em primeiro lugar, Jesus corrige a falta de horizonte dos saduceus, que imaginam a vida futura como uma reprodução exata da existência terrena, deixando entrever o mistério da vida eterna (versículos 34-36). Em segundo lugar, recorre ao diálogo de Deus com Moisés na sarça ardente (Êxodo 3, 1-22) para afirmar a razão profunda da fé na ressurreição. O Senhor, fonte de toda a vida, não deixa os seus amigos na morte (versículos 37-38).

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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Preparar o domingo trigésimo segundo, Ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.11.13 | Sem comentários

REZAR O DOMINGO TRIGÉSIMO SEGUNDO

10 DE NOVEMBRO DE 2013


Evangelho segundo Lucas 20, 27-38

Naquele tempo, aproximaram-se de Jesus alguns saduceus – que negam a ressurreição – e fizeram-lhe a seguinte pergunta: «Mestre, Moisés deixou-nos escrito: ‘Se morrer a alguém um irmão, que deixe mulher, mas sem filhos, esse homem deve casar com a viúva, para dar descendência a seu irmão’. Ora havia sete irmãos. O primeiro casou-se e morreu sem filhos. O segundo e depois o terceiro desposaram a viúva; e o mesmo sucedeu aos sete, que morreram e não deixaram filhos. Por fim, morreu também a mulher. De qual destes será ela esposa na ressurreição, uma vez que os sete a tiveram por mulher?». Disse-lhes Jesus: Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento. Mas aqueles que forem dignos de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos, nem se casam nem se dão em casamento. Na verdade, já não podem morrer, pois são como os Anjos, e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus. E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça ardente, quando chama ao Senhor ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’. Não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos».



Segunda, 4: FÉ E RESSURREIÇÃO

Vivemos a festa de Todos os Santos; em seguida, honramos os mortos que nos precederam, que amamos, na esperança de que estão na vida. O evangelho que vamos meditar, esta semana, coloca a questão central da nossa fé, a questão da ressurreição: Jesus atravessou a morte e abriu-nos o caminho da vida. Os saduceus recusam acreditar numa vida depois da morte. E eu, o que penso desta questão? Cristo ressuscitado, faz crescer em mim a fé na vida que não tem fim.



Terça, 5: PARTILHAR A QUESTÃO

Os saduceus querem que Jesus dê a sua opinião sobre a questão da vida depois da morte, através de uma situação a roçar o ridículo; fazem-no conscientemente, para lhe mostrar os limites dessa crença. Jesus não recusa o debate, mas procura mostrar que as coisas devem ser vistas de outra maneira. E eu, tenho oportunidade de partilhar com os outros a minha esperança e as minhas questões sobre este assunto? Cristo ressuscitado, dá-me companheiros de jornada que me ajudem a caminhar na fé.



Quarta, 6: FILHOS DE DEUS

Jesus afirma que acreditar no mundo que há de vir e na ressurreição é ser filhos de Deus. Recordo as palavras do Prólogo do evangelho segundo João: «A quantos o receberam, aos que nele crêem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus». Sim, Jesus, o Filho de Deus, tem realmente o poder de  nos tornar filhos; acreditar na ressurreição abre-nos esse caminho. Cristo ressuscitado, aumenta em mim o desejo de ser filho de Deus.



Quinta, 7: FILHOS E HERDEIROS

Na vida familiar, a qualidade de filhos ou filhas faz de nós herdeiros. Herdamos os genes, as qualidades, os bens dos pais. Na vida em Deus acontece o mesmo: somos filhos, herdeiros do bem divino mais precioso, isto é, uma vida sempre mais forte que as forças da morte. Espírito Santo, vem mostrar ao meu espírito que somos filhos e herdeiros de Deus, que teremos parte na sua glória (Romanos 8, 16-17).



Sexta, 8: DEUS DE VIVOS

Enquanto Deus se manifesta a Moisés na sarça ardente (Êxodo 3), revela-lhe o seu nome, referindo os patriarcas que o precederam e que transmitiram a fé ao povo de Israel: «Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob: este é o meu nome para sempre». Eu também recebi a fé daqueles que ma transmitiram e posso dirigir-me ao Senhor como «ao Deus de...» meus pais ou de tal e tal pessoa. É uma grande corrente de vida. Pai Santo, dou-te graças porque tu és o Deus dos vivos.



Sábado, 9: FESTA DA IGREJA

Hoje, celebramos a dedicação da Basílica de Latrão, catedral de Roma; é também símbolo da Igreja. O que na realidade celebramos é o próprio Cristo, verdadeiro Templo e cabeça da Igreja. A nossa Igreja continua, hoje, a ser edificada no mundo inteiro, com os cristãos enxertados em Cristo. «Vós sois o edifício de Deus, cujo alicerce é Jesus Cristo» — diz São Paulo (1Coríntios 3, 11). Senhor, faz de nós pedras vivas da tua Igreja.



Domingo, 10: DOMINGO, DIA DA RESSURREIÇÃO

Domingo, primeiro dia da semana, dia da recordação da ressurreição de Jesus, dia de festa para todos os cristãos. Na origem da nossa fé na ressurreição está a palavra das mulheres que voltam do túmulo e anunciam aos apóstolos esta Boa Nova: «Ele ressuscitou!». Esta palavra fez viver muitas gerações de homens e mulheres; hoje como ontem, continua a ser partilhada e não podemos guardá-la para nós, pois à pessoas ao nosso redor que esperam ouvi-la. A assembleia dominical é a fonte onde podemos beber e alimentar-nos para anunciar, à nossa volta, o que nos faz viver. Com as palavras de São Paulo rezemos «para que a palavra do Senhor se propague rapidamente e seja glorificada» (2Tessalonicenses 3, 1).



© www.versdimanche.com
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

Rezar o domingo trigésimo segundo (Ano C), no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.11.13 | Sem comentários

VIVER O DOMINGO: ao ritmo da liturgia


Trigésima primeira semana


Não há lugar para remorsos

A história de Zaqueu é uma história de conversão, de perdão, de penitência e de acolhimento renovado. É uma história de reconciliação e de salvação. A este propósito, o jesuíta indiano Anthony de Mello chamou a atenção para o facto de em parte nenhuma dos Evangelhos Jesus Cristo ter pedido aos pecadores que manifestassem remorsos: não há lugar para remorsos no processo de conversão. Esse processo é um acontecimento de profunda alegria. As pessoas só se podem aperceber do seu pecado à luz da misericórdia. Ver os próprios pecados com verdadeira clareza é um privilégio dos santos. Então, se eu vejo o meu pecado, não devo deixar que a visão do mesmo me seduza ou deixe consternado. Em vez disso, devo voltar-me para a fonte de luz que me permitiu vê-lo e reconhecê-lo.
Antony de Mello acredita que, em vez de sublinhar o remorso como o principal componente do processo de arrependimento e conversão, os nossos catecismos deveriam pôr em destaque a confiança no poder do perdão de Deus e na disponibilidade para perdoar aos nossos inimigos. A incapacidade de confiar no poder de Deus para fazer algo substancial com o mundo e comigo mesmo é o nosso maior pecado. E com esta atitude impedimos que Jesus Cristo entre na nossa «casa», isto é, na nossa vida.
A «boa notícia» de Jesus Cristo é para todos (DOMINGO: «Hoje devo ficar em tua casa») sem exceção: homens e mulheres, ricos e pobres (SEGUNDA: os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos»), judeus e não judeus, piedosos e pecadores, sãos e doentes...
É precisamente pelo acolhimento que as pessoas mudam ao contactarem com Jesus Cristo. O encontro é sempre propício para a «festa». Esta é expressão do ser próprio de Deus (TERÇA: «Banquete do reino de Deus»). O exemplo de Zaqueu, entre tantos outros, mostra como um vigarista se pode converter em generoso (QUARTA: «Renunciar a todos os seus bens»). Mas os «piedosos» só estão interessados em murmurar por causa de Jesus Cristo se juntar com os pecadores.
Jesus Cristo também se quer aproximar de nós, para nos oferecer o seu perdão sem condições. Em nós está a possibilidade de o acolher com alegria (QUINTA: «Haverá alegria»). Hoje como ontem, só a alegria de nos sentirmos acolhidos pelo amor pode iluminar (SEXTA: «Filhos da luz») a nossa vida e dar-nos a coragem para ser verdadeiros discípulos (SÁBADO: «Acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus») de Jesus Cristo.

O que estou disposto a fazer para que Jesus Cristo entre em minha «casa»? A fé não é algo que fazemos; a fé é confiança. O mais importante na fé não está em nós, nos nossos conhecimentos. O mais importante está em Deus e na nossa abertura à sua presença. Esta semana, deixemo-nos invadir pela presença de Jesus Cristo e pela alegria que transborda do nosso coração.

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de Tomáš Halík — «Paciência com Deus. Oportunidade para um encontro» — e nos textos publicados neste «Laboratório da fé» a propósito do trigésimo primeiro domingo.

© Laboratório da fé, 2013

Trigésima primeira semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.11.13 | Sem comentários

Palavra para hoje: trigésimo primeiro domingo


O crente que fala, na primeira leitura, está diante de Deus. Não nos fala em nome de Deus. Ele fala ao seu Deus. Nas suas palavras, procura fazer uma descrição de Deus. Como tantos outros, preparou os caminhos do Senhor. Hoje, outras perspetivas ajudam-nos a entendê-lo melhor, quando na longa caminhada até Jerusalém, Jesus Cristo atravessa Jericó. É o olhar de um adulto de baixa estatura que, a todo o custo, quer «ver quem era Jesus». É o olhar de Jesus para Zaqueu, esse adulto que se assemelha a uma criança que trepa às árvores. Então, manifesta-se a força do amor: «Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa». A mesma força acontece, hoje, nas nossas eucaristias e dirigida a cada um de nós.

Pergunta da semana: 

O que estou disposto a fazer para que Jesus Cristo entre em minha «casa»?

Palavra de Deus - Lectio divina - imagem de fano
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.11.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO TRIGÉSIMO PRIMEIRO


Tomáš Halík escreveu uma obra — «Paciência com Deus. Oportunidade para um encontro» — sobre o episódio de Zaqueu, narrado no evangelho segundo Lucas (19, 1-10), cuja tradução e edição em português foi realizada sob a responsabilidade das edições Paulinas (Prior Velho, 2013). O texto que se segue é retirado das páginas 254 a 257.

Gostaria de sugerir outra versão dos apócrifos acerca de Zaqueu.
Zaqueu cumpriu tudo o que prometera solenemente a Jesus... e fez muitas outras coisas boas além disso. Morreu em idade avançada, rodeado pelo amor da sua família e pela gratidão dos seus conterrâneos de Jericó e das cercanias. Nele se cumpriu a promessa de que, como filho de Abraão, receberia a salvação. Repousa agora no seio de Abraão, embora, devido a vários importantes obstáculos burocráticos (como o facto de não ter sido batizado), não possa ser declarado santo pela Congregação do Vaticano competente; Jesus não só não lhe negou uma auréola, mas até lhe confiou uma missão bastante específica na comunicação entre o céu e a terra: São Zaqueu tornou-se o padroeiro e o protetor dos eternos buscadores, dos «vigilantes». E, para nossa surpresa, o seu papel não é convertê-los (qualquer velho santo poderia fazê-lo), mas velar pela sua paciência na antecâmara da fé. Afinal, Deus tem de ter «dos seus» mesmo fora dos edifícios das igrejas; aliás, também os tem nos intrincados labirintos da busca, em que os «piedosos» nunca se perderam nem sequer se aventuraram... e é aí que os filhos de Deus também precisam de alguém que os proteja e interceda por eles. Até na «outra margem» há muitos daqueles a quem as palavras de Jesus «não estais longe do Reino de Deus» também se aplicam.
Quem deverá transmitir-lhes essas palavras, se não nós? Mas como poderemos fazê-lo, a fim de que as notícias sejam realmente uma mensagem de alegria? Como é que o anúncio de Jesus lhes deve ser dirigido, tratando-os pelo nome, de tal modo que aquilo que eles ouvem dos nossos lábios não os afugente? Como podemos garantir que é aceite de verdade como um convite amigo que apela à sua liberdade e não como uma tentativa invasiva de fazer deles prosélitos, como uma apropriação arrogante daqueles que não nos querem pertencer? Como devemos mostrar-lhes não só tato e «visão pastoral», mas também o amor que — segundo Levinas — permite aos outros serem diferentes, respeita a sua diferença e não tenta apagar todas as diferenças e convertê-los de imediato para o nosso lado?
Quando o autor católico François Mauriac leu determinado texto do filósofo Gabriel Marcel, escreveu-Ihe, perguntando: «Meu filho, porque é que ainda não és um dos nossos?» Marcel discerniu nisso uma chamada de Deus, converteu-se e foi batizado. Poderá ser assim tão fácil, será esse o caminho certo? De vez em quando, eu também dou comigo a dizer, quando observo certas pessoas: meu filho, porque é que ainda não és um dos nossos? Digo-o, muitas vezes, não só em relação àqueles que vejo timidamente de pé, no pórtico da igreja, como eu próprio estava antigamente, mas também no caso de muita gente que começou a refletir, séria e honestamente, sobre questões importantes, ou que experimenta profundamente algum tipo de felicidade ou desgosto genuíno.
Conheço estas coisas de as ler na inspirada obra de C. S. Lewis, «Vorazmente teu», que ofereço a cada novo convertido como leitura obrigatória. Nela, o jovem e inexperiente demónio, a quem fora confiada a missão de tentar um jovem intelectual cristão convertido, gaba-se dos seus êxitos, mas é sempre e imediatamente repreendido pelo seu experiente tio, membro sénior da hierarquia satânica. Quando o jovem demónio se vangloria pelo facto de o seu pupilo andar a refletir sobre um livro de um filósofo ateu, o velho demónio fica horrorizado: Não o deixes! Quem quer que raciocine, de facto, já está no território do Inimigo (de Deus)! O nosso território é o reino dos slogans simples, tais como «Isso não é científico! Isso é antiquado», etc. (Esse medo do estudo de filósofos ateus faz lembrar aquilo que o padre Tischner costumava dizer, de que nunca tinha encontrado ninguém que tivesse abandonado a fé por ter lido «O Capital de Marx», embora conhecesse muita gente que a tinha abandonado como resultado da estúpida pregação do seu pároco.) O demónio sénior também achava perigoso que as pessoas sentissem um desgosto genuíno, uma verdadeira alegria ou até o simples prazer de um tranquilo passeio de outono, passando por um velho moinho, porque isso poderia torná-los mais próximos do Inimigo «lá de cima». «Lá em baixo», os demónios rejubilam quando, em vez de uma verdadeira tristeza ou de uma verdadeira alegria, as pessoas cultivam nas suas almas o desânimo, o cansaço da vida e a autocomiseração, aquilo a que os checos chamam «um estado de espírito podre», referido certo dia em determinado discurso de Václav Havel. Eis um terreno perfeito em que os demónios se podem verdadeiramente deleitar, em que os seus sussurros podem criar raízes e espalhar-se «como cogumelos depois da chuva», como também dizemos no nosso país.
Como e quando devemos chegar a dizer aos «afastados» que eles estão realmente próximos de nós — e será que devemos mesmo dizer-lho — sem os afugentarmos? Que as orações de São Zaqueu nos deem sabedoria!

© Tomáš Halík

© Paulinas Editora, 2013



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Preparar o domingo trigésimo primeiro, Ano C, no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.11.13 | 2 comentários

CELEBRAR O DOMINGO TRIGÉSIMO PRIMEIRO

UMA LITURGIA SIMPLES E BELA

Neste (novo) ano pastoral dedicado à temática da fé celebrada, iniciamos a publicação desta rubrica «CELEBRAR O DOMINGO». Apresentamos algumas sugestões para concretizar o fruto esperado deste ano pastoral: «uma liturgia simples e bela, sinal da comunhão entre Deus e os seres humanos».



Deus é misericordioso

A misericórdia divina está no centro da Liturgia da Palavra. Mas nada de «pieguice» nesta misericórdia. Ao contrário, é a total revelação do seu próprio Ser, da sua bondade, da sua compaixão. O Senhor tem misericórdia de todos os seres humanos, porque os ama — diz o livro da Sabedoria. E, perante Zaqueu, é esta mesma benevolência que Jesus Cristo incarna: nada de condenação, «o Senhor é clemente e compassivo», a ponto de tocar o coração de Zaqueu e levá-lo à conversão. Sim, salvos por Cristo, somos também chamados a fazer o bem, para que, em nós, Deus seja glorificado.



Arte de celebrar

O Missal propõe quatro fórmulas para o momento penitencial. A segunda («Tende compaixão»...), mais breve, é pouco utilizada. A quarta (aspersão) é mais frequente no tempo de Páscoa (mas não exclusiva desse tempo). A primeira e a terceira são as mais comuns, utilizadas com mais frequência quer nos dias de semana quer ao domingo. Porque não estar atento às possibilidades propostas pelo Missal e usá-las de acordo com a temática própria de cada domingo? Outro aspeto a ter em conta é a utilização correta de cada uma das fórmulas. No casa do primeiro, por exemplo, as aclamações cristológicas («Senhor, tende piedade de nós») fazem-se depois da oração de perdão («Deus todo-poderoso»...). As invocações da terceira fórmula podem ser redigidas tendo em conta a temática de cada dia. Há ainda várias propostas musicais que permitem renovar e tornar mais vivo o momento penitencial.



Fé celebrada com a comunidade

  • A proximidade com os dias 1 (Todos os Santos) e 2 (Fiéis Defuntos) de novembro traz às assembleias litúrgicas dominicais pessoas menos frequentes ou até provenientes de outras comunidades paroquiais. É uma oportunidade para lhes dirigir uma palavra de boas vindas (acolhimento) que exprime bem o sentido da «reunião» e destaca a tonalidade «dominical». 
  • A partir deste domingo, ganham relevo as referências à plenitude da vida na ressurreição próprias do final do Ano Litúrgico. E ainda em estreita sintonia com os dias de Todos os Santos e Fiéis Defuntos que marcam o início do mês de novembro. Vale a pena realçar a temática da esperança; relacionando com o final do Ano da Fé, pode-se destacar a expressão do «Credo»: «Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir».



Fé celebrada com a catequese

As crianças gostam muito da história de Zaqueu; e até se identificam com ele, sem qualquer receio. Como a Zaqueu, Jesus Cristo diz-nos: «Hoje devo ficar em tua casa», isto é, «hoje quero mudar o teu coração para que sejas melhor!». As crianças podem preparar uma oração nesta perspetiva, que será partilhada no momento da homilia: «Jesus, ensina-nos a acolher o teu amor...».

© Laboratório da fé, 2013



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Celebrar o domingo trigésimo primeiro (Ano C), no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.11.13 | Sem comentários

NÃO PODEMOS VIVER SEM O DOMINGO!


«Valorizar o domingo como centro de todo o ano litúrgico» — é o primeiro objetivo apresentado no programa pastoral (2013+14) da Arquidiocese de Braga. Com o intuito de «valorizar» o domingo, acompanhando os tempos litúrgicos, propomos um tema a partir da releitura da Carta Apostólica sobre a santificação do domingo — «O dia do Senhor» («Dies Domini»). Este itinerário tem como tema geral: «Não podemos viver sem o domingo!».

Domingo, DIA DA FÉ

Texto de reflexão para o trigésimo primeiro domingo

    4. [...] Infelizmente, quando o domingo perde o significado original e se reduz a puro «fim de semana», pode acontecer que o ser humano permaneça cerrado num horizonte tão restrito, que não mais lhe permite ver o «céu». Então, mesmo bem trajado, torna-se intimamente incapaz de «festejar». Aos discípulos de Cristo, contudo, é-lhes pedido que não confundam a celebração do domingo, que deve ser uma verdadeira santificação do dia Senhor, com o «fim de semana» entendido fundamentalmente como tempo de mero repouso ou de diversão. Urge uma autêntica maturidade espiritual, que ajude os cristãos a «serem eles próprios», plenamente coerentes com o dom da fé, sempre prontos a mostrar a esperança neles depositada. Isto implica também uma compreensão mais profunda do domingo, para poder vivê-lo, inclusivamente em situações difíceis, com plena docilidade ao Espírito Santo.
    5. [...] Talvez pela falta de fortes motivações de fé, regista-se uma percentagem significativamente baixa de participantes na liturgia dominical. Na consciência de muitos fiéis parece enfraquecer não só o sentido da centralidade da Eucaristia, mas até mesmo o sentido do dever de dar graças ao Senhor, rezando-Lhe unido com os demais no seio da comunidade eclesial.



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    Laboratório da fé celebrada, 2013
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.11.13 | Sem comentários

    PREPARAR O DOMINGO TRIGÉSIMO PRIMEIRO


    Tomáš Halík escreveu uma obra — «Paciência com Deus. Oportunidade para um encontro» — sobre o episódio de Zaqueu, narrado no evangelho segundo Lucas (19, 1-10), cuja tradução e edição em português foi realizada sob a responsabilidade das edições Paulinas (Prior Velho, 2013). O texto que se segue é retirado das páginas 250 a 252.

    A história de Zaqueu é uma história de conversão, de perdão, de penitência e de acolhimento renovado. É uma história de reconciliação e de salvação: «Porque o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido».
    No relato da conversão de Zaqueu feito por Lucas não se menciona a contrição, no sentido de «sentimentos de penitência», que tantas homilias e escritos piedosos têm tentado forjar com grande fervor. Zaqueu não está a delirar: quando ele diz que vai dar metade dos seus bens aos pobres e restituir quatro vezes mais àqueles a quem defraudara, isso deve-se à alegria esfuziante que sente por ter Jesus em sua casa. Ele age sobretudo como aquele homem da parábola de Jesus, que encontrou um tesouro escondido num campo e, na sua alegria, vendeu tudo para poder comprar o campo, adquirindo assim a sua preciosa descoberta.
    O jesuíta indiano Anthony de Mello chamou a atenção para o facto de em parte nenhuma dos Evangelhos Jesus ter pedido aos pecadores que manifestassem remorsos: não há lugar para remorsos no processo de conversão. Esse processo é um acontecimento de profunda alegria. A aflição suscitada pelo pecado sempre se misturou com a alegria e a gratidão pelo dom do perdão e pela sua generosa aceitação. As pessoas só se podem aperceber do seu pecado, se já se encontrarem fora da cela tenebrosa do pecado; elas só podem ver o pecado à luz da misericórdia. Geralmente, os pecadores não vêem o seu pecado, ou não o vêem com verdade; estão enredados na escuridão. Ver os próprios pecados com verdadeira clareza é um privilégio dos santos. Muitas vezes, estes choravam com sinceridade os seus pecados, mas, simultaneamente, sabiam louvar a Deus pela sua misericórdia.
    Se eu vejo o meu pecado, não devo deixar que a visão do mesmo me seduza ou deixe consternado, em vez disso, devo voltar-me para a fonte de luz que me permitiu vê-lo e reconhecê-lo. Se estivéssemos sempre a olhar para trás, poderíamos acabar como a mulher de Lot, transformados em «colunas de sal», e não no «sal da terra». Sim, há momentos em que olhamos para as nossas faltas e descobrimos que, nesse preciso momento, não temos nada que oferecer a Deus a não ser um coração despedaçado, como canta o famoso salmo de arrependimento de David. No entanto, nessa história sobre o pecado e o arrependimento de David, com a qual o referido salmo é geralmente associado, lemos que no preciso momento em que os servos esperavam que David mergulhasse na depressão mais profunda, ele parou de chorar e de jejuar, lavou o rosto e sentou-se à mesa para comer, a fim de se fortalecer para a sua nova vida.
    De Mello acredita que, em vez de sublinhar o remorso como o principal componente do processo de arrependimento e conversão, os nossos catecismos deveriam pôr em destaque a confiança no poder do perdão de Deus e na disponibilidade para perdoar aos nossos inimigos. A incapacidade de confiar no poder de Deus para fazer algo substancial com o mundo e comigo mesmo é considerado, por esse jesuíta indiano, o único pecado verdadeiramente trágico: «um pecado contra o Espírito Santo».

    © Tomáš Halík

    © Paulinas Editora, 2013



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    Preparar o domingo trigésimo primeiro, Ano C, no Laboratório da fé

    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.11.13 | Sem comentários
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