REZAR O DOMINGO TRIGÉSIMO

27 DE OUTUBRO DE 2013

Evangelho segundo Lucas 18, 9-14

Naquele tempo, Jesus disse a seguinte parábola para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros: «Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu e o outro publicano. O fariseu, de pé, orava assim: ‘Meu Deus, dou-Vos graças por não ser como os outros homens, que são ladrões, injustos e adúlteros, nem como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de todos os meus rendimentos’. O publicano ficou a distância e nem sequer se atrevia a erguer os olhos ao Céu; mas batia no peito e dizia: ‘Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador’. Eu vos digo que este desceu justificado para sua casa e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado».



Segunda, 21: SEM PRECONCEITOS

Não há suspense! O evangelista diz-nos, no início, o que está em causa neste relato; mas diz-nos também que é uma parábola, uma história para fazer refletir e analisar a nossa situação. Dêmos uma oportunidade à história que Jesus propõe, sem julgar demasiado rápido as personagens. Os dois homens vão ao templo e falam a Deus. É um lugar de verdade e eles apresentam-se diante o Senhor. Também eu tenho coragem de me dirigir a Deus? Os dois homens estão preocupados com a própria salvação. Também eu tenho o desejo de ser salvo por Deus?



Terça, 22: UM BOM FARISEU...

Num primeiro momento, posso olhar para o fariseu e escutar o que ele diz, com um sentido positivo. Ele pode ter uma maneira justa de se regojizar com a cabeça erguida, de respeitar os mandamentos e a moral. É um homem generoso que está ali diante do seu Senhor. Ele não poupa os seus esforços. Também eu tenho a coragem de praticar o que digo?



Quarta, 23: QUE SE COMPARA...

O fariseu é generoso, mas compara-se: «Dou-Vos graças por não ser como os outros homens». A comparação raramente é boa conselheira, conduz ao exagero. «Quando me vejo, fico desolado; quando vejo os outros, fico consolado»; «A erva está sempre mais verde na casa do vizinho»... Quando nos comparamos, queremo-nos avaliar, procuramos uma objetividade inacessível. Queremos sair de nós mesmos, quando Deus nos convida justamente a entrar em nós mesmos. E eu, ouso responder a este convite à interioridade?!



Quinta, 24: E SE ISOLA.

O fariseu é generoso, mas fecha-se em si mesmo... Diante de Deus, dá graças não pelo que Deus faz, mas por aquilo que ele fez a Deus. Enche-se de orgulho; mas a ação de graças não é isso. Toda a sua atitude, todos os seus esforços poderiam conduzir a um único fim revelado pela sua oração: nem quer depender dos outros nem de Deus para ser salvo. Procura uma certeza para si mesmo, graças a uma grande ascese. Eu também me posso esquecer que a autonomia não é um fim em si mesmo. Estou pronto a pagar bem cara a minha independência. Não é fácil dizer: «Tenho necessidade dos outros para viver e ser feliz». A quem é que me agarro para não depender dos outros nem de Deus? O que é que tenho de colocar no devido lugar?



Sexta, 25: UM PUBLICANO COMO EXEMPLO

No tempo de Jesus, os publicanos eram desprezados: eram os cobradores de impostos para o ocupante romano que determinavam o preço das taxas a pagar... Posso interrogar-me sobre quem são os meus «publicanos», os homens desprezados devido às suas traficâncias. Serão os que fogem aos impostos? Um patrão que explora os empregados? Os políticos mentirosos?... Para atualizar a cena, posso imaginar um desses homens a rezar: «Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador»! E Deus acolhe-o! Então sim, também a mim, quem quer que eu seja, apesar das minhas falhas e pecados, Deus acolhe-me quando lhe imploro!



Sábado, 26: TENDE COMPAIXÃO DE MIM

A tradição ortodoxa propõe a repetição, de acordo com o ritmo da respiração, deste pedido: «Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, tende compaixão de mim, pecador». Com o publicano — e porque não com todos os que ontem evoquei —, posso, hoje, dizer esta oração, pedindo a Deus a graça de me abrir a ele e aos outros, quanto me sinto convencido de ser justo ou quando desprezo os outros.



Domingo, 27: A ALEGRIA DE DEUS: CHAMAR OS PECADORES

Não é fácil manter a fasquia que se coloca diante de nós: estar sempre voltado para Deus para lhe implorar, estar sempre pronto a acolher os irmãos sem os desprezar. Mas Jesus é nosso irmão e nosso Deus. Contemplá-lo remete-nos para o único movimento do serviço dos irmãos e da misericórdia de Deus. Como convida Santo Inácio, posso imaginar Cristo meu Senhor diante de mim, preso à cruz, reconhecendo que morreu pelos meus pecados. Posso interrogar-me sobre o que ele me pede e, por amor a ele, o que fazer ao serviço dos outros. Então, teremos a consciência de que vivemos do seu perdão e poderemos acolher aqueles com quem celebramos hoje como irmãos.



© www.versdimanche.com
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

Rezar o domingo trigésimo (Ano C), no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.10.13 | comentários

VIVER O DOMINGO: ao ritmo da liturgia


Vigésima nona semana


As nossas pilhas carregam-se...

Importância da perseverança. Entre outras coisas, para que as nossas ações sejam autênticas; e não fruto de um mero capricho passageiro.
Colocamos todo o empenho naquilo que nos interessa muito. Se algumas das iniciativas que empreendemos na Igreja perdem fulgor é porque, no fundo, não nos interessam grande coisa.
A nível pessoal acontece o mesmo: o que nos interessa tem sempre mais sucesso, porque nos empenhamos a sério... É curioso que, para manter um regime alimentar, se façam sacrifícios que nunca estaríamos dispostos a assumir para suavizar algum dos nossos «defeitos principais»!
Nas comunidades ou grupos, os inícios são quase sempre marcados pelo entusiasmo: vamos fazer isto e aquilo; depois aqueloutro; e ainda mais aquela atividade... Mas continuar (com o entusiasmo inicial) é muito mais duro!
A nível pessoa acontece o mesmo: há momentos em que nos entusiasmamos de tal maneira que nos dispomos a fazer tudo. «A partir de agora, vou falar menos e escutar mais». «Prometo dedicar, diariamente, uns minutos para fazer o exame de consciência». «Dedicarei um tempo do dia para ler um bom livro». «Quando foi a última vez que pedi perdão?!».

...na comunidade e...

A comunidade, como sempre, é uma boa referência e apoio para a constância. Mais tarde ou mais cedo, teremos vergonha de repetir, diante dos outros, sempre os mesmos erros. Talvez isso nos motive para levar mais a sério a mudança! E também acontece que, no grupo, os maus dias de uns são compensados com o entusiasmo de outros. As nossas pilhas carregam-se com uma «pilha» de amigos.
E porque não convencermo-nos de que, com tanto insistir, haverá de chegar o momento em que nos custe menos manter a perseverança. O recomeçar — todas as vezes que seja preciso — há de criar em nós uma motivação que, se não facilitar, pelo menos é mais compensadora: ficamos contentes pela nossa capacidade de insistir, de recomeçar; ficamos entusiasmados pela nossa resistência ao desânimo.
Então, mais do que ações é importante insistir nas motivações. E nada de definir objetivos inatingíveis. Uma ambição sadia, sim! Capazes de reconhecer os nossos pequenos progressos. Porque o «muito» é feito de um conjunto de «poucos». Pouco a pouco, chega-se ao muito! Isto faz parte da pedagogia de qualquer educação positiva.

...na oração

Orar. Precisamos que a nossa vida seja alimentada por uma relação simples e natural com Deus. Faz parte da nossa identidade. As nossas pilhas carregam-se com momentos de oração. Este alimento da presença de Deus faz-se na oração pessoal e também na oração comunitária, de modo particular na eucaristia dominical. Não podemos viver sem o domingo! O domingo é o dia do Senhor, o dia da fé, «elemento qualificante da identidade cristã».
Orar sempre: cada situação da nossa vida pessoal ou comunitária não é indiferente para Deus. Temos de aprender a tratar com Deus as tristezas e as alegrias da vida quotidiana. Para nos deixarmos envolver pela proximidade amorosa de Deus.
Orar sem desanimar: sem perder a esperança. Uma das piores tentações em que podemos cair é pensar que Deus já não pode fazer nada por nós, pela comunidade ou pela humanidade.
Jesus Cristo explica que a oração nasce da fé, está intimamente relacionada com ela. Sem o alimento da oração, Deus começa a perder a importância (DOMINGO: »Encontrará fé sobre a terra?»), acaba por desaparecer. A oração nasce da necessidade de entrar em diálogo com Deus, de explicitar as nossas alegrias e as nossas necessidades (SEGUNDA: «Rico aos olhos de Deus»), as nossas inquietações e desassossegos. «A fé é um dom precioso de Deus, que abre a nossa mente (TERÇA: «Abrirem logo a porta») para O podermos conhecer e amar. Ele quer entrar em relação connosco (QUARTA: «Assim ocupado»), para nos fazer participantes da sua própria vida e encher plenamente a nossa vida de significado (QUINTA: «Eu vim trazer o fogo»), tornando-a melhor e mais bela. Deus ama-nos! Mas a fé pede para ser acolhida, ou seja, pede a nossa resposta pessoal, a coragem de nos confiarmos a Deus e vivermos o seu amor, agradecidos pela sua infinita misericórdia» (Francisco, Mensagem para o Dia Mundial das Missões). Se Deus nos dá o dom da fé, é para o sabermos partilhar (SEXTA: «Porque não sabeis discernir o tempo presente?») à nossa volta! Se a fé é a nossa vida, o nosso tesouro, é também fonte de fecundidade. Se levamos um Evangelho que não seja a nossa própria vida (SÁBADO: «Se não vos arrependerdes...»), como lhe chamaremos boa nova?!

Rezar sempre até haverá quem o faça, mas será que a fé se manterá? Ao longo desta semana, convence-te de que a fé torna-se «adulta» quando a oração é um diálogo e não um papagueado de fórmulas; a fé torna-se «adulta» quando se torna num instrumento a favor da justiça e não uma anestesia para a dureza da vida. Que papel tem a oração na minha vida de fé?

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial,  nos textos publicados neste «Laboratório da fé» a propósito do vigésimo nono domingo.

© Laboratório da fé, 2013

Vigésima nona semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.10.13 | Sem comentários

Palavra para hoje: vigésimo nono domingo


«O episódio de Moisés, no cimo da colina, é um convite à fidelidade a Deus e à oração incessante. Noutras circunstâncias, Deus não escutará o desejo de Moisés (entrar na Terra prometida!), mas, aqui, trata-se da salvação do povo... As mãos de Moisés seguram a «vara de Deus», o instrumento de salvação, tão espantoso como insignificante. Assim, Deus faz-se próximo e combate pelos seus: serão salvos. Não há dúvida que Jesus Cristo está plenamente convencido desta verdade, plenamente convencido graças à sua confiança. Quanto a nós, a proteção divina não nos dispensa de lutar, de rezar. Deus espera que nos envolvamos plenamente no combate, no qual nos assiste e protege. E também espera que lhe dêmos graças na eucaristia.

Pergunta da semana: 

Que papel tem a oração na minha vida de fé?

Palavra de Deus - Lectio divina - imagem de fano
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.10.13 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO VIGÉSIMO NONO

UMA LITURGIA SIMPLES E BELA

No início de um (novo) ano pastoral dedicado à temática da fé celebrada, iniciamos a publicação desta rubrica «CELEBRAR O DOMINGO». Apresentamos algumas sugestões para concretizar o fruto esperado deste ano pastoral: «uma liturgia simples e bela, sinal da comunhão entre Deus e os seres humanos».



Coragem na oração e no anúncio da Palavra

  • A Palavra de Deus deste vigésimo nono domingo (Ano C) é uma fonte de encorajamento: encorajamento a rezar e encorajamento a proclamar a Palavra. Moisés dá-nos um exemplo, através da sua perseverança na oração, embora a sua missão seja bem difícil. «O nosso auxílio vem do Senhor» — eis a expressão de total confiança à qual todos, nós também, somos convidados. Jesus Cristo assegura-nos que Deus faz justiça àqueles que o invocam. É sempre com esta confiança que precisamos de meditar na Palavra; acolher a mensagem de salvação; e anunciá-la como verdadeiras testemunhas de Cristo ressuscitado.
  • «Uma Igreja (terna, pobre) para os pobres» é o tema para o Dia Mundial das Missões. Há, aqui, sugestões de oração e de reflexão que podem ser usadas na celebração eucarística.



Arte de celebrar

«Proclama a palavra», diz Paulo. Para o leitor, o tom a utilizar para esta proclamação permanece um verdadeiro desafio. Alguns são partidários de uma tal distância em relação ao texto, que o sentido do mesmo acaba por não ser recebido pelos ouvintes. Outros são favoráveis a um tipo de leitura que faz viver o texto como o fazem os atores. A verdade situa-se no meio termo entre estes dois extremos: habitar o texto interiormente porque é Palavra de Deus e dar a esta Palavra a oportunidade de ser entendida e compreendida, respeitando o estilo literário e o desenvolvimento da leitura. Isto exige em todos os casos uma cuidada preparação!



Fé celebrada com a comunidade

  • É ainda uma questão de fé (na sequência dos domingos anteriores); e também de perseverança: um convite a rezar com sinceridade, «sempre sem desanimar». As monições que introduzem as leituras podem ajudar a entender esta atitude: (antes da primeira leitura) «Perseverar na oração: eis a atitude daqueles que esperam no Senhor. Moisés e os seus companheiros dão-nos esse testemunho»; (antes do salmo) «Confiar em Deus, certos de sermos atendidos»: eis o modelo que o salmista nos convida a cantar»; (antes da segunda leitura) «Acolher a salvação pela fé: eis a oração que nos desafia a proclamar, à nossa volta, a Boa Nova do Reino»; (antes do evangelho) «Insistir, nunca desanimar: eis a prece de uma viúva que Jesus nos apresenta como exemplo».
  • O Dia Mundial das Missões não deve ser esquecido! Um dos momentos oportunos situa-se no final da celebração, por exemplo, com estas expressões retiradas da Mensagem do Papa: «Às vezes, estão relaxados o fervor, a alegria, a coragem, a esperança de anunciar a todos a Mensagem de Cristo e ajudar os homens do nosso tempo a encontrá-Lo. [...] Devemos sempre ter a coragem e a alegria de propor, com respeito, o encontro com Cristo e de nos fazermos portadores do seu Evangelho». 



Fé celebrada com a catequese

As mãos levantadas de Moisés, na primeira leitura (Êxodo 17, 8-13), são uma ocasião propícia para explicar (aos mais novos e não só) a importância dos gestos na oração: ajudam a totalidade da pessoa a participar melhor na oração pessoal e mais ainda na oração comunitária. Neste domingo, durante a celebração, pode-se começar por uma explicação simples: braços levantados para as orações de súplica; braços abertos para o louvor; mãos abertas para a oferenda...

© Laboratório da fé, 2013



  • Reflexão diária a partir do evangelho > > >



Celebrar o domingo vigésimo nono (Ano C), no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.10.13 | Sem comentários

NÃO PODEMOS VIVER SEM O DOMINGO!


«Valorizar o domingo como centro de todo o ano litúrgico» — é o primeiro objetivo apresentado no programa pastoral (2013+14) da Arquidiocese de Braga. Com o intuito de «valorizar» o domingo, acompanhando os tempos litúrgicos, propomos um tema a partir da releitura da Carta Apostólica sobre a santificação do domingo — «O dia do Senhor» («Dies Domini»). Este itinerário tem como tema geral: «Não podemos viver sem o domingo!».

Domingo, DIA DA FÉ

Texto de reflexão para o vigésimo nono domingo

    30. [...] Um autor oriental, do início do século III, conta que em toda a região os crentes, já então, santificavam regularmente o domingo. A prática espontânea tornou-se norma sancionada juridicamente: o dia do Senhor ritmou a história da Igreja. Como se poderia pensar que deixe de marcar o seu futuro? Os problemas que, no nosso tempo, podem tornar mais difícil a prática do dever dominical, não deixam de sensibilizar a Igreja permanecendo maternalmente atenta às condições de cada um dos seus filhos. De modo particular, sente-se chamada a um novo esforço catequético e pastoral, para que nenhum deles, nas condições normais de vida, fique privado do abundante fluxo de graças que a celebração do dia do Senhor traz consigo. Dentro do mesmo espírito, tomando posição acerca de hipóteses de reforma do calendário eclesial em concomitância com variações dos sistemas do calendário civil, o II Concílio Ecuménico do Vaticano declarou que a Igreja «só não se opõe àqueles que conservem a semana de sete dias, e com o respetivo domingo». No limiar do terceiro Milénio, a celebração do domingo cristão, pelos significados que evoca e as dimensões que implica, relativamente aos fundamentos mesmos da fé, permanece um elemento qualificante da identidade cristã.



    • Não podemos viver sem o domingo! — textos publicados no Laboratório da fé > > >



    Laboratório da fé celebrada, 2013
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.10.13 | Sem comentários

    A porta da fé [10]


    Estamos a seis semanas de concluir o Ano da Fé, que se iniciou em outubro de 2012 e terminará em novembro de 2013. Semanalmente, apresentamos um número da Carta Apostólica do papa Bento XVI com a qual proclamou o Ano da Fé — «A porta da fé» («Porta Fidei»). E juntamos uma proposta de reflexão elaborada por Pedro Jaramillo. O objetivo é dar um contributo para uma avaliação mais cuidada sobre a forma como estamos a viver o Ano da Fé. Bom proveito!

    Queria agora delinear um percurso que ajude a compreender de maneira mais profunda os conteúdos da fé e, juntamente com eles, também o ato pelo qual decidimos, com plena liberdade, entregar-nos totalmente a Deus. De facto, existe uma unidade profunda entre o ato com que se crê e os conteúdos a que damos o nosso assentimento. O apóstolo Paulo permite entrar dentro desta realidade quando escreve: «Acredita-se com o coração e, com a boca, faz-se a profissão de fé» (Romanos 10, 10). O coração indica que o primeiro ato, pelo qual se chega à fé, é dom de Deus e ação da graça que age e transforma a pessoa até ao mais íntimo dela mesma.
    A este respeito é muito eloquente o exemplo de Lídia. Narra São Lucas que o apóstolo Paulo, encontrando-se em Filipos, num sábado foi anunciar o Evangelho a algumas mulheres; entre elas, estava Lídia. «O Senhor abriu-lhe o coração para aderir ao que Paulo dizia» (Atos 16, 14). O sentido contido na expressão é importante. São Lucas ensina que o conhecimento dos conteúdos que se deve acreditar não é suficiente, se depois o coração – autêntico sacrário da pessoa – não for aberto pela graça, que consente ter olhos para ver em profundidade e compreender que o que foi anunciado é a Palavra de Deus.
    Por sua vez, o professar com a boca indica que a fé implica um testemunho e um compromisso públicos. O cristão não pode jamais pensar que o crer seja um facto privado. A fé é decidir estar com o Senhor, para viver com Ele. E este «estar com Ele» introduz na compreensão das razões pelas quais se acredita. A fé, precisamente porque é um ato da liberdade, exige também assumir a responsabilidade social daquilo que se acredita. No dia de Pentecostes, a Igreja manifesta, com toda a clareza, esta dimensão pública do crer e do anunciar sem temor a própria fé a toda a gente. É o dom do Espírito Santo que prepara para a missão e fortalece o nosso testemunho, tornando-o franco e corajoso.
    A própria profissão da fé é um ato simultaneamente pessoal e comunitário. De facto, o primeiro sujeito da fé é a Igreja. É na fé da comunidade cristã que cada um recebe o Batismo, sinal eficaz da entrada no povo dos crentes para obter a salvação. Como atesta o Catecismo da Igreja Católica, «“Eu creio”: é a fé da Igreja, professada pessoalmente por cada crente, principalmente por ocasião do Baptismo. “Nós cremos”: é a fé da Igreja, confessada pelos bispos reunidos em Concílio ou, de modo mais geral, pela assembleia litúrgica dos crentes. “Eu creio”: é também a Igreja, nossa Mãe, que responde a Deus pela sua fé e nos ensina a dizer: “Eu creio”, “Nós cremos”» [17].
    Como se pode notar, o conhecimento dos conteúdos de fé é essencial para se dar o próprio assentimento, isto é, para aderir plenamente com a inteligência e a vontade a quanto é proposto pela Igreja. O conhecimento da fé introduz na totalidade do mistério salvífico revelado por Deus. Por isso, o assentimento prestado implica que, quando se acredita, se aceita livremente todo o mistério da fé, porque o garante da sua verdade é o próprio Deus, que Se revela e permite conhecer o seu mistério de amor [18].
    Por outro lado, não podemos esquecer que, no nosso contexto cultural, há muitas pessoas que, embora não reconhecendo em si mesmas o dom da fé, todavia vivem uma busca sincera do sentido último e da verdade definitiva acerca da sua existência e do mundo. Esta busca é um verdadeiro «preâmbulo» da fé, porque move as pessoas pela estrada que conduz ao mistério de Deus. De facto, a própria razão do ser humano traz inscrita em si mesma a exigência «daquilo que vale e permanece sempre» [19]. Esta exigência constitui um convite permanente, inscrito indelevelmente no coração humano, para caminhar ao encontro d’Aquele que não teríamos procurado se Ele mesmo não tivesse já vindo ao nosso encontro [20]. É precisamente a este encontro que nos convida e abre plenamente a fé.

    [17] Catecismo da Igreja Católica, 167
    [18] Cf. Conc. Ecum. Vat. I, Const. dogm. sobre a fé católica Dei Filius, cap. III: DS 3008-3009; Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 5
    [19] Bento XVI, Discurso no «Collège des Bernardins» (Paris, 12 de Setembro de 2008):AAS 100 (2008), 722
    [20] Cf. Santo Agostinho, Confissões, 13, 1

    A porta da fé [Carta Apostólica para o Ano da Fé - «Porta Fidei»]

    • A porta da fé — números publicados no Laboratório da fé > > >



    Aspetos que se podem sublinhar

    • A distinção entre o «ato de fé» e os conteúdos de fé. O ato de fé é a entrega total e livre de tudo o que somos a Deus. Mas ato de fé e conteúdos de fé não se podem separar.
    • O Papa vê refletida esta união no texto de Paulo: «Acredita-se com o coração e, com a boca, faz-se a profissão de fé» (Romanos 10, 10). E vê-o confirmado no exemplo de Lídia: «O Senhor abriu-lhe o coração para aderir ao que Paulo dizia» (Atos 16, 14). Os conteúdos das verdades não é suficiente, se o coração não está aberto à graça. A fé não se resume a palavras «crentes»; precisa também de um «coração crente».
    • A «profissão com a boca» indica também que a fé implica um testemunho e um compromisso públicos. Contra a tendência da «privatização» da fé: o cristão não pode pensar que acreditar é um ato privado. A fé tem necessariamente repercussões na vida pública.
    • Por ser um ato da liberdade, a fé exige também uma responsabilidade social daquilo em que se acredita.
    • É o dom do Espírito Santo que capacita para a missão e fortalece o nosso testemunho tornando-o franco e corajoso.
    • A própria profissão de fé é, ao mesmo tempo, um ato pessoal e comunitário. O primeiro sujeito da fé é a Igreja. Na fé da comunidade, recebemos o batismo, entrando assim na comunidade dos que acreditam. Por isso, dizemos «creio» e «cremos».
    • Em que é que acreditamos? Na fé da Igreja. Daí a importância de conhecer os conteúdos da fé. Porque não acreditamos por conta própria, mas com e na fé da Igreja. O conhecimento da fé não é parcial (escolho o que me interessa), mas por ele somos introduzidos na totalidade do mistério salvador de Deus. Ao crer, aceitamos livremente a totalidade do mistério da fé.
    • É preciso olhar com simpatia e proximidade para as muitas pessoas que não reconhecem dentro de si e para si o dom da fé, mas procuram com sinceridade o sentido último e a verdade definitiva da sua existência e do mundo. Esta procura é um verdadeiro «preâmbulo da fé», como uma «sala de espera», porque leva as pessoas ao caminho que conduz ao mistério de Deus.

    Interiorizando

    • Examino se confundo a minha fé com o facto de «saber muitas coisas», mas sem me preocupar que essas coisas desçam ao meu coração. Pode-se saber muita teologia (ter muitos conhecimentos sobre Deus), mas não viver uma vida teologal (de acordo com a fé que se professa, na entrega generosa a Deus).

    • Examino se penso que a fé é um assunto puramente privado, que não deve ter nenhum tipo de reflexo nos aspetos sociais da minha vida (família, trabalho, política, economia...). Esta maneira de pensar, que se chama «privatização da fé», entra tão facilmente em nós que acabamos por pensar que a fé nos serve apenas para «arrumar» os nossos assuntos com Deus. E nada mais!

    • Examino se me apercebo de que uma verdadeira «confissão de fé» é profundamente missionária. Não acredito «sozinho», mas acredito, pessoalmente, «na comunidade». «Esta é a nossa fé. Está é a fé da Igreja»... acredito nisto? Ou ando por aí inventando verdades que não correspondem à fé da Igreja de quem sou membro? Parece mentira, mas é muito fácil «inventar verdades» (sobretudo, aqueles que se dedicam à pregação), porque «as pessoas gostam».

    • Examino se dou importância aos conteúdos da fé, que não são os meus conteúdos, mas os conteúdos da fé da Igreja. Às vezes, não apresentamos os conteúdos da fé eclesial, mas fazemos as pessoas acreditar em coisas que não pertencem à fé da Igreja (muita gente confunde isso com «ser mais crente»).

    • Examino se, a partir da minha fé, estou próximo daqueles que, embora não sendo crentes, procuram com sinceridade o sentido da vida... Às vezes, ficamos fechados e não abrimos o coração a quem sinceramente procura Deus, embora não o saiba... Não serve dizer: só os católicos é que me interessam. Uma atitude pouco missionária!

    © Pedro Jaramillo
    © Tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

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    Bento XVI, Carta Apostólica «A porta da fé»
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.10.13 | Sem comentários
    PREPARAR O DOMINGO VIGÉSIMO NONO

    Comparar Deus com um juiz iníquo: do que Jesus se havia de lembrar! O evangelista narra a história de um magistrado que não se interessava muito pela justiça; mas a insistência maçadora de uma mulher viúva fá-lo sair da letargia e aceder ao seu pedido. A parábola quer mostrar como há de ser a nossa oração, a nossa relação com Deus.
    A oração, nesta perspetiva, deve ser segundo este princípio: «orar sempre sem desanimar». É uma oração que nasce da confiança de que Deus faz sempre justiça — não como o juiz da parábola —, porque nos ama, porque nos escolheu como seus filhos e filhas. Mas, deseja que o pedido seja feito por nós, que a nossa oração não desfaleça, que nunca percamos a confiança. Deus está sempre do nosso lado.
    Jesus explica que a oração nasce da fé, está intimamente relacionada com ela. Nasce da necessidade de entrar em diálogo com Deus, de explicitar as nossas alegrias e as nossas necessidades, as nossas inquietações e desassossegos. Mas, em algumas ocasiões, converte-se num grito desesperado, quando estamos perante uma situação sem saída. «Eu vos digo que lhes fará justiça bem depressa» — afirma Jesus. No entanto, para que isso aconteça é necessária a atitude de fé, de confiança em Deus, que está sempre ao lado de quem sofre a injustiça.

    © Javier Velasco-Arias

    © La Biblia compartida — blogue de Javier Velasco-Arias y Quique Fernández
    © tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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    • Reflexão diária a partir do evangelho > > >



    Preparar o domingo vigésimo nono, Ano C, no Laboratório da fé
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.10.13 | Sem comentários

    Mistério da fé! [2]


    O Catecismo da Igreja Católica [CIC] apresenta, no segundo capítulo, um esquema uniforme em relação ao aprofundamento da Liturgia e dos Sacramentos. Assim, em cada tema há a preocupação em responder a quatro questões: «Quem celebra?»; «Como celebrar?»; «Quando celebrar?»; «Onde celebrar?». Vamos seguir a mesma sequência. Por isso, começamos por questionar: Quem celebra na Liturgia? [Para ajudar a compreender melhor, ler: Apocalipse 7, 9-14; Catecismo da Igreja Católica, números 1135 a 1144]

    «O louvor, a glória, a sabedoria, a ação de graças, a honra, o poder e a força 

    devem ser dadas ao nosso Deus»

    — é uma das aclamações referidas pelo autor do livro do Apocalipse, na descrição de uma «visão» da liturgia que acontece nos Céus. O centro desta liturgia celeste é ocupado pelo «trono de Deus» onde está sentado o «Cordeiro», isto é, Jesus Cristo. Nela participa também uma «multidão enorme», que se encontra de «de pé» em sinal de vitória. É uma multidão incontável («que ninguém podia contar») constituída por «todas as nações, tribos, povos e línguas», isto é, os cristãos. Vestem-se com «túnicas brancas», porque já participam da vitória do «Cordeiro». Há ainda referência a «anjos», «anciãos» e «quatro seres vivos».
    Sem ignorar que se trata de uma «visão» profética, o livro do Apocalipse ajuda-nos a perceber a centralidade da liturgia celeste; esta é o modelo, a fonte de inspiração de toda a liturgia terrena, como afirma o Catecismo da Igreja Católica: «na liturgia da terra, participamos, saboreando-a de antemão, na liturgia celeste, celebrada na cidade santa de Jerusalém, para a qual nos dirigimos como peregrinos e onde Cristo está sentado à direita de Deus» (1090); «através das suas ações litúrgicas, a Igreja peregrina participa já, por antecipação, na liturgia do céu» (1111).

    Liturgia: quem celebra?

    «Em toda a liturgia cristã, o que se celebra e se vive é o mistério da nossa salvação realizado em Jesus Cristo. A Santíssima Trindade é a origem, o conteúdo e o centro de toda a liturgia cristã» (Arquidiocese de Braga, «Programa Pastoral 2013+14: Fé Celebrada», Braga 2013, 12). Na verdade, a liturgia é sempre obra da Santíssima Trindade: «Deus Pai é bendito e adorado como fonte de todas as bênçãos da criação e da salvação, com que nos abençoou no seu Filho, para nos dar o Espírito da adoção filial» (CIC 1110). Na liturgia — à imagem da «visão» do Apocalipse —, há vários tipos de participantes. Quem preside à celebração é sempre o «Cordeiro» (Jesus Cristo). «É o próprio Cristo Senhor que em todos os eventos litúrgicos terrenos celebra a Liturgia cósmica, que envolve anjos e seres humanos, vivos e falecidos, passado, presente e futuro, o Céu e a terra» (YOUCAT. Catecismo Jovem da Igreja Católica, 170). A liturgia é exercício da presença de Jesus Cristo, isto é, a continuação no tempo da sua ação sacerdotal mediante a qual se realiza a obra da nossa salvação. «Para realizar tão grande obra, Cristo está sempre presente na sua igreja, especialmente nas ações litúrgicas» (Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia — «Sacrosanctum Concilum» [SC], 7). A liturgia é uma manifestação da presença real, santificadora e redentora de Jesus Cristo. Esta presença de Jesus Cristo acontece na assembleia. «Está presente quando a Igreja reza e canta, Ele que prometeu: ‘Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles’ (Mateus 18, 20)» (SC 7) [cf. tema 1]. Porque é expressão da Igreja, a assembleia cristã tem de possuir as mesmas características: crente («apostólica»; aberta («católica»); reconciliada («una»); ativa ou dinâmica («santa»). Então, «é toda a comunidade, o Corpo de Cristo unido à sua Cabeça, que celebra» (CIC 1140); «a assembleia que celebra é a comunidade dos batizados. [...] Este ‘sacerdócio comum’ é o de Cristo, único sacerdote, participado por todos os seus membros» (CIC 1141). No entanto, na assembleia, «nem todos os membros têm a mesma função», como refere a Carta aos Romanos (12, 4). Assim, temos ministérios ordenados (bispos, presbíteros e diáconos) e «ministérios particulares» («Mesmo os acólitos, os leitores, comentadores, e os membros do coro desempenham um verdadeiro ministério litúrgico» (SC 29; CIC 1143). Podemos concluir que «toda a assembleia é ‘liturga’, cada qual segundo a sua função» (CIC 1144).

    O Catecismo da Igreja Católica, como acontece várias vezes neste apartado, recupera uma afirmação do documento conciliar (SC 29) para lembrar: «Nas celebrações litúrgicas, limite-se cada um, ministro ou simples fiel, ao exercer o seu ofício, a fazer tudo e só o que é da sua competência, segundo a natureza do rito e as leis litúrgicas».






    Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 16.10.13 | Sem comentários

    PREPARAR O DOMINGO VIGÉSIMO NONO


    Evangelho segundo Lucas 18, 1-8

    Naquele tempo, Jesus disse aos seus discípulos uma parábola sobre a necessidade de orar sempre sem desanimar: «Em certa cidade vivia um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens. Havia naquela cidade uma viúva que vinha ter com ele e lhe dizia: ‘Faz-me justiça contra o meu adversário’. Durante muito tempo ele não quis atendê-la. Mas depois disse consigo: ‘É certo que eu não temo a Deus nem respeito os homens; mas, porque esta viúva me importuna, vou fazer-lhe justiça, para que não venha incomodar-me indefinidamente’». E o Senhor acrescentou: «Escutai o que diz o juiz iníquo!... E Deus não havia de fazer justiça aos seus eleitos, que por Ele clamam dia e noite, e iria fazê-los esperar muito tempo? Eu vos digo que lhes fará justiça bem depressa. Mas quando voltar o Filho do homem, encontrará fé sobre a terra?».



    Deus não havia de fazer justiça aos seus eleitos?

    Antes de chegar a Jerusalém, Jesus conta aos seus discípulos a parábola do juiz e da viúva (Lucas 18, 1-8), uma pequena história tipicamente bíblica: a prova de força entre um juiz sem consciência e uma pobre viúva, arquétipo da pessoa indefesa e desamparada, que tem razão e, por isso, esgrime a sua única arma, a incansável inoportunidade. Com esta parábola, Lucas quer ilustrar um dos seus temas teológicos prediletos (a oração), ao mesmo tempo que faz o elogio da paciência ativa ou fidelidade perseverante, força invencível dos débeis que não se refugiam no desalento ou na resignação. O relato pode-se dividir em quatro partes: uma introdução; a parábola; a sua aplicação; e, por último, uma reflexão final. 
    A introdução resume o tema fundamental deste ensinamento de Jesus, a perseverança na oração, com duas expressões: «orar sempre, sem desanimar» (versículo 1). A parábola põe em cena duas personagens: o juiz e a viúva que reclama justiça. Um é varão poderoso, iníquo e sem escrúpulos; ela é uma mulher pobre, indefesa e totalmente desprotegida. Graças unicamente à sua infatigável e inoportuna insistência, consegue que o juiz lhe faça justiça (versículos 2-5). Jesus utiliza esta história para fazer refletir sobre a eficácia da oração dirigida a Deus através de um argumento «a fortiori»: se um juiz iníquo e injusto está disposto a ceder perante a insistência de uma pobre viúva, quanto mais o fará o juiz justo e perfeito que é Deus (versículos 6-8a). Por outras palavras, o crente pode ter a certeza de que Deus escuta sempre a sua prece. A reflexão final convida a um exame de consciência (versículo 8b).

    © tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
    A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



    • Reflexão diária a partir do evangelho > > >



    Preparar o domingo vigésimo nono, Ano C, no Laboratório da fé
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.10.13 | Sem comentários

    REZAR O DOMINGO VIGÉSIMO NONO

    20 DE OUTUBRO DE 2013

    Evangelho segundo Lucas 18, 1-8

    Naquele tempo, Jesus disse aos seus discípulos uma parábola sobre a necessidade de orar sempre sem desanimar: «Em certa cidade vivia um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens. Havia naquela cidade uma viúva que vinha ter com ele e lhe dizia: ‘Faz-me justiça contra o meu adversário’. Durante muito tempo ele não quis atendê-la. Mas depois disse consigo: ‘É certo que eu não temo a Deus nem respeito os homens; mas, porque esta viúva me importuna, vou fazer-lhe justiça, para que não venha incomodar-me indefinidamente’». E o Senhor acrescentou: «Escutai o que diz o juiz iníquo!... E Deus não havia de fazer justiça aos seus eleitos, que por Ele clamam dia e noite, e iria fazê-los esperar muito tempo? Eu vos digo que lhes fará justiça bem depressa. Mas quando voltar o Filho do homem, encontrará fé sobre a terra?».



    Segunda, 14: REZAR É FALAR

    Jesus procura explicar como se pode rezar. Talvez já tenhamos necessidade de falar sobre sobre a oração; e sabemos o quanto é difícil explicar que é preciso rezar sempre sem desanimar. Os que se interrogam sobre a oração possuem um grande desejo de encontrar Deus, mas não sabem como fazê-lo, por falta de sinais, de sentimento, de soluções para as questões colocadas... desânimo. Peço a Deus que abra o meu coração e a minha inteligência às questões daqueles que procuram Deus; e, como Jesus fez, que me ajude a encontrar as parábolas que exprimam as nossas palavras.



    Terça, 15: REZAR É EXISTIR

    Rezar sem desanimar é ter plena consciência da presença de Deus em todas as coisas da minha existência. Mesmo quando, em determinados momentos, é necessário registar na agenda o encontro da oração, como se faz com os encontros profissionais, familiares ou pessoais. Não é preciso perder muito tempo na inútil hierarquia entre oração e ação. Peço a Deus que abra o meu coração e a minha inteligência à dimensão do tempo e ao bom senso, que me farão compreender que não há diferença entre rezar e agir, porque agir é «trocar Deus por Deus».



    Quarta, 16: REZAR É ESPERAR

    Rezar é esperar. Imaginemos alguém que se instala num lugar onde se sente bem, aconchegado em casa, numa igreja (aquecida), num caminho da montanha, com algum de tempo para si. Não se passa nada de particular, a não ser a solidão e o silêncio que se apoiam pacificamente. Os pensamentos vão e vêm. As imagens da vida quotidiana sobrepõem-se. Peço a Deus que abra o meu coração e a minha inteligência à certeza que me ele me espera antes de eu chegar ao local do encontro com aquele que o meu coração ama.



    Quinta, 17: REZAR É PEDIR

    Frequentemente, reencontramos na pessoa idosa, o adulto que se conheceu, e, no adulto, o adolescente e a criança que tinha sido. Ao longo da vida, cada um(a) faz o seu caminho, aprofunda as suas convicções, descobre o que tem de melhor. Quando rezamos acontece algo parecido, porque podemos ter a desagradável impressão de nos estarmos a repetir, sem que o essencial esteja presente. Peço a Deus que acolha o que sou em todas as fases da minha vida, com a grande convicção de que caminho para a felicidade através do pedido insistente da sua graça.



    Sexta, 18: REZAR É VIVER

    São Lucas, que hoje celebramos, é o evangelista que melhor descreve os evangelho da infância. Não é certo que tenha sido contemporâneo dos acontecimentos narrados. Diz-se que era médico e que acompanhou Paulo nas suas viagens. Pode ter sido um dos primeiros pagãos convertidos. Então, de onde lhe vem este conhecimento íntimo do Verbo que se fez carne? Peço a Deus que me inspire, através do seu Espírito, como ser hoje palavra Viva que revela a todos a presença de Cristo Ressuscitado que nos precede na Galileia.



    Sábado, 19: REZAR É AMAR

    Rezar sem desanimar: dia e noite! Isto quer dizer que não há hora nem regras específicas. Não está escrito «não incomodar» na porta do Mestre. Ela está totalmente aberta. Ele espera-nos a qualquer momento. Recordemos outra parábola apresentada por Jesus: «O Reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra: dia e noite, quer esteja acordado ou a dormir, a semente germina e cresce, sem ele saber como» (Marcos 4, 26-27). Eis a conclusão: Deus não tem necessidade das nossas orações, mas sim do nosso amor!



    Domingo, 20: REZAR É ACREDITAR

    Rezar sem desanimar é «acreditar». Hoje, celebramos o Dia Mundial das Missões. A eucaristia deste domingo será celebrada pela «evangelização dos povos». Hoje, toda a Igreja reza, precisamente, como resposta à pergunta de Cristo apresentada no evangelho: «Quando voltar o Filho do homem, encontrará fé sobre a terra?». Se Deus nos dá o dom da fé, é para o sabermos partilhar à nossa volta! Se a fé é a nossa vida, o nosso tesouro, é também fonte de fecundidade. É por isso que, ao longo deste dia, vou pedir a Deus que abra o meu coração e a minha inteligência ao seu mistério, para melhor o conhecer, amar e servir.



    © www.versdimanche.com
    © tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

    Rezar o domingo vigésimo nono, Ano C, no Laboratório da fé

    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.10.13 | Sem comentários

    VIVER O DOMINGO: ao ritmo da liturgia


    Vigésima oitava semana


    Agradecer faz bem ao coração

    O facto de sermos boas pessoas (com todos os «mas» que se possam acrescentar) é fruto apenas da nossa formação religiosa? Quem mais teve intervenção na formação da nossa personalidade (outras pessoas, ambientes, acontecimentos...)? É o momento para lhes dar graças. E também a Deus, que colocou no nosso caminho, com providência paterna, tudo o que nos constitui como pessoas.
    Hoje, fixamo-nos (como no caso do samaritano agradecido) em tudo aquilo que, desde fora da nossa confissão religiosa — e, às vezes, em claro conflito com ela —, nos influenciou positivamente: literatura, cinema, música, arte... Obrigado, muitíssimo obrigado! Pensemos em cineastas, músicos criadores e intérpretes, pais e mães não crentes que são amorosíssimos com os seus filhos (biológicos ou adotivos), humoristas que nos fazem rir e outros que nos fazem pensar, organizações não governamentais que trabalham pelas causas mais nobres... Obrigado, muitíssimo obrigado!
    De facto, a graça de Deus chega até nós das mais variadas formas. Deus não pede autorização a ninguém para agir, para fazer o que lhe apraz. Uma das miopias da nossa Igreja consistiu (ainda consiste?) em apresentar-se como a única distribuidora das graças de Deus. A experiência, mil vezes por dia, desmente esta argumentação.
    Felizmente, não temos de escolher entre Deus e o Universo ou outra realidade qualquer: para nós, Deus é maior do que o Universo, é maior do que tudo o resto; a procura de Deus passa por tudo o que de melhor, de mais belo, de mais verdadeiro, de mais justo, podemos encontrar na vida.
    A fé é o dom do encontro com Jesus Cristo; e um esforço de descoberta da sua ação nas nossas vidas. A fé permite acolher a salvação (DOMINGO: «A tua fé te salvou»), dom gratuito de Deus; depois conduz ao agradecimento e à ação de graças; depois leva ao canto de glória a Deus, ao louvor pelas suas maravilhas!
    Como é que damos graças? Estamos à espera de grandes milagres (SEGUNDA: «Nenhum sinal lhe será dado») para nos sentirmos agradecidos? Parece que os cristãos têm medo da alegria, da música, da dança, do entusiasmo (TERÇA: «O vosso interior está cheio de rapina e perversidade»)... Pensemos nas nossas comunidades, nas nossas paróquias: tão frias e formalistas (QUARTA: «Desprezais a justiça e o amor de Deus»), sempre na defensiva, com uma linguagem eclesiástica tão desfasada da vida real...
    O coração agradecido dilata-se pela força do amor (QUINTA: «Se morrer, dará muito fruto»). Agradecer é esticar ao máximo o coração. O agradecimento vence a distância do egoísmo, faz-nos viver em paz connosco e com os outros (SEXTA: «A vossa paz repousará sobre eles»), predispõe-nos à comunhão. O agradecimento faz-nos maiores do que alguma vez sonhámos, quando nos pede para amar sem medo (SÁBADO: «Não vos preocupeis»), para romper os limites instituídos de um amor mesquinho. O agradecimento é o melhor indicador para medir a «saúde espiritual» do nosso coração, isto é, a nossa fé.

    O que posso fazer para ter mais fé? Esta semana mostra-nos que a fé não consiste simplesmente em cumprir ordens, mas também em proclamar a boa nova da salvação, em reconhecer a graça recebida. Só quem faz a experiência de um verdadeiro encontro com Jesus Cristo se pode abrir a uma vida nova com um coração agradecido.

    A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial,  nos textos publicados neste «Laboratório da fé» a propósito do vigésimo oitavo domingo e na homilia proposta no guião «Outubro Missionário 2013».

    © Laboratório da fé, 2013

    Vigésima oitava semana, no Laboratório da fé, 2013
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.10.13 | Sem comentários

    Palavra para hoje: vigésimo oitavo domingo


    «A Palavra, o tesouro de Israel, é oferecida a todos como o foi a Naamã, o general sírio atacado pela lepra. A fé no profeta Eliseu tornou-se instrumento de cura e conversão. E é inserido no grupo dos «eleitos». O estatuto de «estrangeiro» é evocado da primeira leitura até ao evangelho. Dez leprosos interpelam Jesus chamando-o pelo nome, algo raro nos evangelhos: «Jesus, Mestre, tem compaixão de nós». Só um estrangeiro voltará para dar graças. O Senhor dir-lhe-á: «A tua fé te salvou». De Roma, onde está prisioneiro, Paulo envia a Timóteo o seu testamento: «Tudo suporto por causa dos eleitos, para que obtenham a salvação que está em Cristo Jesus»; foram «eleitos» sem qualquer distinção entre os filhos de Israel e os estrangeiros.

    Pergunta da semana: 

    O que posso fazer para ter mais fé?

    Palavra de Deus - Lectio divina - imagem de fano
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.10.13 | Sem comentários
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