As «chaves» do Concílio


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


Recebei aquilo que sois
A eclesiologia eucarística do Concílio Vaticano II regressa às raízes da tradição cristã para fundamentar a nossa compreensão da interdependência dinâmica entre a Igreja e a Eucaristia. Como vimos, os escritos de São Paulo sublinham a ligação inseparável entre a comunhão que celebramos na Eucaristia e a unidade da Igreja. De Lubac ajudou-nos a ver que, durante todo o primeiro milénio, a teologia cristã foi marcada pela ideia de que a Eucaristia faz a Igreja, enquanto, no segundo milénio, foi mais realçada a forma como a Igreja faz a Eucaristia. O ensinamento do Concílio Vaticano II reflete um apreço profundo pela Eucaristia como fonte da vida, da oração e da missão da Igreja.
A Igreja realiza-se plenamente cada vez que se reúne para celebrar o memorial da morte e ressurreição de Cristo. O Concílio deve ser creditado pela recuperação das antigas convicções relativas à relação profunda entre a Eucaristia e a Igreja, afirmadas com tanta insistência por Santo Agostinho. Estas estão bem resumidas nas reflexões por ele dirigidas aos membros recém-batizados da sua Igreja sobre o significado da sua participação na Ceia do Senhor:
Assim, se vós sois o Corpo de Cristo e os seus membros, o mistério que encerra aquilo que significais foi colocado sobre a mesa do Senhor; aquilo que recebeis é o mistério que sois vós. É àquilo que sois que respondeis «Ámen», e, respondendo assim, dais o vosso assentimento. Aquilo que ouvis e que vedes é o Corpo de Cristo, e respondeis Ámen. Então, sede membro do Corpo de Cristo, para que esse Ámen seja verdadeiro... Sede aquilo que vedes e recebei aquilo que sois.
Para tornar verdadeiro o nosso «Ámen» ao mistério de Cristo na Eucaristia, as nossas vidas devem tornar-se um reflexo do seu amor de autodoação. É isso que realmente significa ser membro do Corpo. Na celebração do mistério pascal de Cristo, o povo santo de Deus é conduzido da escravidão do pecado e da morte à vida nova e à ressurreição. O amor derramado por Deus em Cristo constitui a base de uma nova humanidade marcada por uma nova forma de viver comum. Como a «Lumen Gentium» afirma, «a participação no corpo e no sangue de Cristo não tem outro efeito senão realizar a nossa transformação naquilo que recebemos» (LG 26). Somos enviados a partir da Eucaristia, onde encontramos e recebemos o amor curativo e reconciliardor de Deus, para sermos pão partido e vinho derramado pelos outros.

© Richard R. Gaillardetz - Catherine E. Clifford
© Paulinas Editora, 2012
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Catherine E. Clifford e Richard R. Gaillardetz, As «chaves» do Concílio, Paulinas Editora, Prior Velho, 2012 (material protegido por leis de direitos autorais)


  • Eclesiologia eucarística [1]  [2]  [3]  [4]  [5]  [6]


Reflexões sobre a Igreja no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.8.13 | Sem comentários

Transfiguração de Jesus Cristo — 6 de agosto


Evangelho segundo Mateus 17, 1-9

Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João seu irmão e levou-os, em particular, a um alto monte e transfigurou-Se diante deles: o seu rosto ficou resplandecente como o sol e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele. Pedro disse a Jesus: «Senhor, como é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Ainda ele falava, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra e da nuvem uma voz dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O». Ao ouvirem estas palavras, os discípulos caíram de rosto por terra e assustaram-se muito. Então Jesus aproximou-se e, tocando-os, disse: «Levantai-vos e não temais». Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus. Ao descerem do monte, Jesus deu-lhes esta ordem: «Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».

Como é bom estarmos aqui!

Jesus Cristo é um personagem especial. Na visão da transfiguração, aparecem três personagens da Bíblia: Jesus, Moisés, Elias. Mas, no final do relato, permanece apenas Jesus Cristo. Desaparecem Moisés e Elias. E algo ainda mais importante: uma nuvem, ao mesmo tempo, opaca e luminosa, manifesta a presença de Deus.
Para os discípulos, educados no judaísmo, Moisés e Elias representam o fundamental da revelação divina: a Lei e os Profetas. Por isso, compreende-se que Pedro se sinta bem naquela situação e sugira que se instalassem definitivamente naquele lugar: «como é bom estarmos aqui!». Assim, Jesus Cristo, Moisés e Elias formavam uma harmonia entre o Antigo e o Novo, a plenitude da revelação divina.
Mas o relato continua, para dizer a Pedro e a cada um de nós, que para nos sentirmos bem «naquele lugar», isto é, na presença de Deus, é preciso escutar Jesus Cristo: «Escutai-O». Esta é a nossa verdadeira riqueza. «Todos conhecemos momentos de graça e de iluminação na nossa vida. É a partir dessa iluminação que retomamos as forças para nos levantarmos e continuarmos» (José Augusto Mourão). O cristão tem de escutar Jesus Cristo. Não basta sentir-se bem com o facto de ter sido batizado ou fazer parte de uma comunidade cristã. É preciso que as palavras de Jesus Cristo penetrem no íntimo de cada um e «transfigurem» a nossa maneira de viver.

© Laboratório da fé, 2013

Décima oitava semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.8.13 | Sem comentários

Jornada Mundial da Juventude


Na Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro (Brasil), o papa Francisco, no dia 25 de Julho de 2013, esteve reunido com os jovens da Argentina. Nesse encontro, o Papa insistiu na necessidade de lutar contra a exclusão social dos jovens e dos idosos, «os dois vértices que são o nosso futuro».
No início do discurso, o papa Francisco desafiou os jovens a não se fecharem dentro das igrejas e das paróquias, mas a saírem pelas estradas para testemunharem a fé.
Depois, referiu-se à fé em Jesus Cristo como uma «coisa séria», que não pode ser «espremida» como se faz com uma laranja: Há a espremedura de laranja, há a espremedura de maçã, há a espremedura de banana, mas, por favor, não bebam «espremedura» de fé. A fé é integral, não se espreme
A terminar, recomendou uma dupla leitura: as Bem-aventuranças e o capítulo 25 do evangelho segundo Mateus«lede as Bem-aventuranças, que vos farão bem. Se, depois, quiserdes saber concretamente o que deveis fazer, lede o capítulo 25 de Mateus, que é o regulamento segundo o qual vamos ser julgados. Com essas duas coisas, tendes o Plano de Ação: as Bem-aventuranças e Mateus 25».

Obrigado! Obrigado pela presença! Obrigado por terem vindo! [...]
Quero dizer-vos qual é a consequência que eu espero da Jornada da Juventude: espero que façam barulho. Aqui farão barulho, sem dúvida. Aqui, no Rio, farão barulho, farão certamente. Mas eu quero que se façam ouvir também nas dioceses, quero que saiam, quero que a Igreja saia pelas estradas, quero que nos defendamos de tudo o que é mundanismo, imobilismo, nos defendamos do que é comodidade, do que é clericalismo, de tudo aquilo que é viver fechados em nós mesmos. As paróquias, as escolas, as instituições são feitas para sair; se não o fizerem, tornam-se uma ONG e a Igreja não pode ser uma ONG. Que me perdoem os Bispos e os sacerdotes, se alguns depois lhes criarem confusão. Mas este é o meu conselho. Obrigado pelo que vocês puderem fazer.
Olhem! Eu penso que, neste momento, a civilização mundial ultrapassou os limites, ultrapassou os limites porque criou um tal culto do deus dinheiro, que estamos na presença de uma filosofia e uma prática de exclusão dos dois pólos da vida que constituem as promessas dos povos. A exclusão dos idosos, obviamente: alguém poderia ser levado a pensar que nisso exista, oculta, uma espécie de eutanásia, isto é, não se cuida dos idosos; mas há também uma eutanásia cultural, porque não se lhes deixa falar, não se lhes deixa agir. E a exclusão dos jovens: a percentagem que temos de jovens sem trabalho, sem emprego, é muito alta e temos uma geração que não tem experiência da dignidade ganha com o trabalho. Assim, esta civilização levou-nos a excluir os dois vértices que são o nosso futuro. Por isso os jovens devem irromper, devem fazer-se valer; os jovens devem sair para lutar pelos valores, lutar por estes valores; e os idosos devem tomar a palavra, os idosos devem tomar a palavra e ensinar-nos! Que eles nos transmitam a sabedoria dos povos!
Pensando no povo argentino, de coração sincero peço aos idosos: não esmoreçam na missão de ser a reserva cultura do nosso povo; reserva que transmite a justiça, que transmite a história, que transmite os valores, que transmite a memória do povo. E vocês, por favor, não se ponham contra os idosos: deixem-nos falar, ouçam-nos e sigam em frente. Mas saibam, saibam que neste momento vocês, jovens, e os idosos estão condenados ao mesmo destino: a exclusão. Não se deixem descartar. Claro, para isso acho que vocês devem trabalhar. A fé em Jesus Cristo não é uma brincadeira; é uma coisa muito séria. É um escândalo que Deus tenha vindo fazer-se um de nós. É um escândalo que Ele tenha morrido numa cruz. É um escândalo: o escândalo da Cruz. A Cruz continua a escandalizar; mas é o único caminho seguro: o da Cruz, o de Jesus, o da Encarnação de Jesus. Por favor, não «espremam» a fé em Jesus Cristo. Há a espremedura de laranja, há a espremedura de maçã, há a espremedura de banana, mas, por favor, não bebam «espremedura» de fé. A fé é integral, não se espreme. É a fé em Jesus. É a fé no Filho de Deus feito homem, que me amou e morreu por mim. Resumindo: primeiro, façam-se ouvir, cuidem dos extremos da população que são os idosos e os jovens. Não se deixem excluir e não deixem que se excluam os idosos. Segundo, não «espremam» a fé em Jesus Cristo. Com as Bem-aventuranças… que devemos fazer, Padre? Olhe! Você leia as Bem-aventuranças, que lhe farão bem. Se, depois, você quer saber concretamente o que deve fazer, leia o capítulo 25 de Mateus, que é o regulamento segundo o qual vamos ser julgados. Com essas duas coisas, vocês têm o Plano de Ação: as Bem-aventuranças e Mateus 25. Não precisam de ler mais nada. Isso lhes peço de todo o coração. Está bem? Obrigado por essa unidade. Tenho pena que vocês estejam aí enjaulados; eu lhes digo uma coisa: às vezes também eu sinto isso; e não é uma boa coisa estar enjaulado. Isso lhes confesso de coração, mas paciência! Eu entendo vocês. Também eu gostaria de estar mais perto de vocês, mas entendo que, por razões de segurança, não se pode. Obrigado por terem vindo! Obrigado por rezarem por mim! Isto lhes peço de coração. Preciso. Eu preciso das vossas orações, tenho tanta necessidade. Obrigado por isso! Bem! Eu quero lhes dar a Bênção e, depois, benzeremos a imagem da Virgem que vai percorrer toda a República… e a cruz de São Francisco; viajarão em missão. Mas não esqueçam! Façam-se ouvir; cuidem dos dois extremos da vida: os dois extremos da história dos povos que são os idosos e os jovens; e não «espremam» a fé. E agora façamos uma oração para benzer a imagem da Virgem e, em seguida, dar-lhes a Bênção. [...]

Senhor, Tu deixaste no meio de nós a tua Mãe para que nos acompanhasse.
Que Ela cuide de nós e nos proteja o nosso caminho, o nosso coração, a nossa fé.
Que nos faça discípulos como Ela o foi, e missionários como Ela o foi também.
Que nos ensine a sair pelas estradas.
Que nos ensine a sair de nós mesmos. [...]
Que Ela, com a sua mansidão, a sua paz, nos indique o caminho.
Senhor, Tu és um escândalo! 
Tu és um escândalo: o escândalo da Cruz. 
Uma Cruz que é humildade, mansidão; 
uma Cruz que nos fala da proximidade de Deus. [...]

Muito obrigado! Vemo-nos nestes dias. Que Deus lhes abençoe. Rezem por mim. Não se esqueçam!

Rio de Janeiro, 25 de julho de 2013
© Copyright - Libreria Editrice Vaticana

Papa Francisco, no encontro com os jovens da Argentina, na Jornada Mundial da Juventude, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.8.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo nono domingo

11 DE AGOSTO DE 2013

Evangelho segundo Lucas 12, 32-48

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Não temas, pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o reino. Vendei o que possuís e dai-o em esmola. Fazei bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável nos Céus, onde o ladrão não chega nem a traça rói. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração. Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que esperam o seu senhor ao voltar do casamento, para lhe abrirem logo a porta, quando chegar e bater. Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar, encontrar vigilantes. Em verdade vos digo: cingir-se-á e mandará que se sentem à mesa e, passando diante deles, os servirá. Se vier à meia-noite ou de madrugada, felizes serão se assim os encontrar. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que hora viria o ladrão, não o deixaria arrombar a sua casa. Estai vós também preparados, porque na hora em que não pensais virá o Filho do homem». Disse Pedro a Jesus: «Senhor, é para nós que dizes esta parábola, ou também para todos os outros?». O Senhor respondeu: «Quem é o administrador fiel e prudente que o senhor estabelecerá à frente da sua casa, para dar devidamente a cada um a sua ração de trigo? Feliz o servo a quem o senhor, ao chegar, encontrar assim ocupado. Em verdade vos digo que o porá à frente de todos os seus bens. Mas se aquele servo disser consigo mesmo: ‘O meu senhor tarda em vir’, e começar a bater em servos e servas, a comer, a beber e a embriagar-se, o senhor daquele servo chegará no dia em que menos espera e a horas que ele não sabe; ele o expulsará e fará que tenha a sorte dos infiéis. O servo que, conhecendo a vontade do seu senhor, não se preparou ou não cumpriu a sua vontade, levará muitas vergastadas. Aquele, porém, que, sem a conhecer, tenha feito acções que mereçam vergastadas, levará apenas algumas. A quem muito foi dado, muito será exigido; a quem muito foi confiado, mais se lhe pedirá».



Segunda, 5: TENDE OS RINS CINGIDOS... CINGIR-SE-Á!

O evangelho do próximo domingo é composto de duas pequenas parábolas. A primeira é literalmente surpreendente ao anunciar uma estranha inversão de papeis. O convite que faz aos discípulos é claro: «Tende os rins cingidos». O que acontece no final? O senhor «cingir-se-á e mandará que se sentem à mesa». O que é dito aos discípulos será feito pelo Mestre e Senhor! Hoje, medito neste paradoxo com um tabuleiro ou um pano de cozinha na mão: esta atitude de serviço remete para mim, como discípulo, e para Jesus, como Mestre.



Terça, 6: AS VOSSAS LÂMPADAS... A LUZ!

Depois da atitude de serviço, imitando o Mestre, as lâmpadas acesas. É fácil fazer o paralelo com a festa da Transfiguração deste seis de agosto, onde o rosto de Jesus brilha com uma nova intensidade e onde as suas vestes assumem uma brancura resplandecente. Jesus, Luz da Luz, afirma o nosso Credo. Hoje, rezo com uma vela acesa: esta luz que seguro remete para mim, como discípulo, e para Jesus, como a verdadeira luz que ilumina o mundo.



Quarta, 7: O MESTRE... SERVO!

A inversão dos papeis continua: os servos esperam o mestre que, à chegada, põe-se a servi-los. O Mestre torna-se o servo. Recém-chegado, o Mestre não se senta à mesa, mas, ao contrário, serve cada um dos servos que convida a sentarem-se à mesa. Hoje, rezo tanto na posição de sentado na mesa da sala da minha casa, como de pé pronto para servir: estas duas posições remetem para mim, como discípulo, e para Jesus, como servo.



Quinta, 8: BODA DE CASAMENTO

Há uma espécie de segredo nesta pequena parábola. Está discretamente sugerido pela referência à boda de casamento para a qual o mestre tinha sido convidado. E também é sugerido pela atitude do Mestre que dá uma prova de amor, de respeito e de carinho para com os seus servos: um amor que é expresso mais pelos atos do que pelas palavras. Hoje, rezo com a ajuda da minha memória para me lembrar de uma boda de casamento em que participei: essa refeição remete para mim, como discípulo, e para Jesus que ama os seus até ao fim.



Sexta, 9: A QUE HORAS?

A primeira parábola e a segunda insistem na incerteza do regresso do Mestre ou da vinda do ladrão. Não se sabe quando acontecerá: pode ser muito tarde, à hora de dormir, «à meia-noite ou de madrugada», ou até a uma hora que nem sequer imaginamos (um momento totalmente imprevisto, que nos apanha de surpresa). Por outras palavras, ninguém controla ou conhece antecipadamente a hora em que Jesus vem ter comigo. Hoje, rezo com um relógio, um calendário, uma agenda...: estes instrumentos, que servem para gerir o tempo, remetem para mim, como discípulo, e para Jesus, como aquele que pode chegar a qualquer momento.



Sábado, 10: ELE VOLTARÁ!

Último ensinamento das parábolas: uma certeza. Jesus voltará. Não é o eterno ausente, nem aquele que abandona o mundo à sua sorte. Não, Jesus voltará. Esta é a nossa fé. Esta é a nossa esperança. Hoje, rezo olhando para a linha do horizonte, bem longe de mim: este horizonte remete para mim, como discípulo, e para Jesus que já vem na minha direção, ao nosso encontro.



Domingo, 11: FELIZES OS SERVOS QUE ESTÃO VIGILANTES

Jesus revela-nos uma bem-aventurança muito estranha. Vigiar, estar preparado, estar alerta... não são atitudes que tenham algo para nos fazer felizes. Quando se espera o autocarro, o comboio ou o metro que tarda a chegar, não é propriamente a alegria que nos domina, mas muito mais a irritação e a impaciência! Pois bem, com Jesus, é exatamente ao contrário, porque a sua chegada é certa. Em primeiro lugar, na eucaristia, onde se dá em alimento para que, cada vez mais, a nossa vida se torne semelhante à dele. E, depois, naquele dia em que todos seremos saciados. Mas também quando ajudamos os necessitados, visitamos os presos, etc. Aí, é certo, Jesus já vem ao nosso encontro e nos prepara para o dia D em que o veremos face a face.



© www.versdimanche.com
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

Preparar o décimo nono domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.8.13 | Sem comentários
Ao ritmo da liturgia


Décima oitava semana


Enquanto quisermos ter mais, nunca teremos o suficiente

A sociedade do consumo está saturada, já consumiu os próprios consumidores. A felicidade que as coisas prometiam proporcionar revelou-se mais como fonte de ansiedade e até de infelicidade. Agora, os criadores de necessidades precisam de inventar maneiras de tirar proveito da crise e, esgotada a bolha imobiliária, criar novas necessidades de valor mais reduzido...
A vida consumista tem êxito porque todos ou quase todos continuam a deixar-se influenciar por esse estilo de vida: não haveria nenhum problema em usar um vestido antigo, se todos abdicássemos do que está na moda; não haveria nenhum problema em ter um carro antigo enquanto funcionasse; não haveria problema em ganhar menos do que o vizinho, se todos tivéssemos o suficiente para viver. Mas há! Porque vivemos de comparações, de inveja, da avareza, do desejo desmedido de ter cada vez mais.
Os cristãos, supostamente, deveriam ter uma atitude diferente, uma alternativa. Quem possui bens imperecíveis de alta qualidade, não deveria ter tanto interesse pelos bens materiais. Seria o fim da consumismo e do capitalismo! Mas o problema é que foram os cristãos que criaram (e continuam a alimentar) esta sociedade profundamente consumista.
Jesus Cristo convida a não viver dependentes da acumulação de riquezas sem fim, pensando que esse é o caminho da vida (DOMINGO: «O que preparaste, para quem será?»). Por esse caminho só se chega à infelicidade e à morte.
Nós, cristãos somos — teríamos de ser — pessoas que vivem de outra maneira, que põem em primeiro lugar as relações pessoais sinceras (SEGUNDA: «Jesus viu uma grande multidão e, cheio de compaixão»), o carinho (TERÇA: «Como é bom estarmos aqui!»), o gosto pela sobriedade, o desfrute da simplicidade (QUARTA: «Faça-se como desejas»), da beleza gratuita, da natureza, da vida em si mesma (QUINTA: «Feliz de ti»). Mas, para isso, é preciso «estar preparados» (SEXTA: «Entraram com ele para o banquete nupcial»): aprender o gosto da generosidade e do desprendimento (SÁBADO: «Dará muito fruto»), na família, na escola, na catequese...

Nesta semana, aprendamos que a «verdadeira riqueza» não consiste em ter muito, mas em aprender a viver com simplicidade, permitindo-nos ser mais desprendidos e generosos. Como é que o Evangelho ilumina as opções da minha vida?

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial
© Laboratório da fé, 2013

Décima oitava semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.8.13 | Sem comentários

Palavra para hoje: décimo oitavo domingo


«Tudo é vaidade»! Pode ser desconcertado entender esta proposta sem ilusões, no início da Liturgia da Palavra. O salmo acrescenta mais um toque pessimista: «Vós reduzis o homem ao pó da terra». E se for nesta precariedade que somos confortados na esperança de uma Criação renovada? E se for esta esperança a dar toda a força à palavra de Paulo: «ressuscitastes com Cristo»? Hoje, a ação de Cristo está presente em cada assembleia, com o seu dinamismo. É Jesus Cristo que nos reúne na Eucaristia, quando cada um diz ao outro: «ressuscitastes com Cristo». Após a celebração, como dizer que há uma esperança maior do que este mundo? Como dizê-lo sem um esforço por viver um pouco a verdadeira solidariedade?


Pergunta da semana: 

Como é que o Evangelho ilumina as opções da minha vida?

Palavra de Deus - Lectio divina - imagem de fano
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.8.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo oitavo domingo

4 DE AGOSTO DE 2013

Carlos Maria Antunes, «Só o Pobre se faz Pão», Paulinas, 2013, 116-118


A propósito de que a vida não depende dos bens e da necessidade de nos preservarmos da ganância, no Evangelho de Lucas (12, 16-21), Jesus diz esta parábola: «Havia um homem rico, a quem as terras deram uma grande colheita. E pôs-se a discorrer, dizendo consigo: 'Que hei de fazer, uma vez que não tenho onde guardar a minha colheita?' Depois continuou: 'Já sei o que vou fazer: deito abaixo os meus celeiros, construo uns maiores e guardarei lá o meu trigo e todos os meus bens. Depois, direi a mim mesmo: Tens muitos bens em depósito para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te.' Deus, porém, disse-lhe: 'Insensato! Nesta mesma noite, vai ser reclamada a tua vida; e o que acumulaste para quem será?'». Não nos reconheceremos facilmente nesta parábola? A tentação de acumular mais e mais, e de encontrar aí uma segurança face a um futuro sempre incerto, preside à orientação de muitas vidas. Manifesta-se aqui um medo do amanhã. Seduz-nos tanto o futuro programado e garantido, como se tudo dependesse de nós. E vamos dizendo: «mais vale um pássaro na mão do que dois a voar». O que não nos damos conta é que, ao não aceitar a provisoriedade própria da vida, nos fechamos à possibilidade do novo, do revelado, do inesperado. Cercamos a vida nos limites dos próprios «celeiros» que vamos construindo.
E que fazer com esse medo, que nem sequer ousamos verbalizar, e que se chama morte? O medo do futuro é sempre, em última análise, medo da morte. Na tradição monástica sempre se deu visibilidade à morte. E ao contrário do que muitos pensam, isso nada tem de mórbido. Trata-se de uma grande sabedoria de vida. Quem vive ameaçado pela morte, não vive. Viver implica um grande desapego face à própria vida. Só se vive intensamente quando se está consciente que a qualquer momento podemos partir. Não podemos esquecer a nossa condição de peregrinos; e estes não constroem «celeiros», levam apenas uma pequena mochila com o mais essencial para a viagem.



  • Lucas 12, 13-21 — notas exegéticas > > >
  • A vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens > > >



Preparar o décimo oitavo domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.8.13 | Sem comentários

As «chaves» do Concílio


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


Vaticano II: comunhão eclesial e assembleia eucarística
Os ardentes debates sobre a natureza e a missão da Igreja, que tiveram lugar durante o Concílio, basearam-se de modo considerável sobre o trabalho realizado nas décadas anteriores ao Concílio, para recuperar as antigas ligações bíblicas e patrísticas entre a Eucaristia e a Igreja. Contudo, é significativo que a «Lumen Gentium» quase tenha deixado de adotar a ideia de Corpo Místico como imagem global da Igreja. O Concílio teve o cuidado de limitar as suas afirmações quanto ao significado de «mistério» atestado nas Escrituras e na grande tradição da Igreja, que remonta às primeiras testemunhas [do Evangelho]. A noção da Igreja como mistério ou sinal sacramental de comunhão serve como uma das principais categorias para entender a vocação da Igreja no magistério conciliar. Na sua reflexão sobre a Igreja como Corpo de Cristo, a «Lumen Gentium» faz uma afirmação subtil acerca do corpo eclesial: «Pois, comunicando o seu Espírito, Cristo constitui misteriosamente [ou misticamente] como seu Corpo todos os seus irmãos, chamados de entre todos os povos» (LG 7). O aspeto misterioso ou místico da Igreja deriva de Cristo ressuscitado e do seu Espírito. A humanidade redimida é unida a Cristo de uma forma misteriosa, mas real, na Igreja. Não deriva de nós nem pertence aos membros da Igreja propriamente ditos, mas a Cristo, cuja graça atua continuamente em nós. Essa graça não é nada senão o amor que recebemos quando nos encontramos com Cristo e somos alimentados no mistério do seu Corpo eucarístico.
A visão da Igreja como Corpo de Cristo, segundo o Vaticano II, tem por base o vínculo místico de comunhão com Cristo que une todos aqueles que participam no sacramento da Eucaristia. A noção de «koinonia-communio» é fundamental para a visão conciliar daquilo que nós somos chamados a ser. Essa comunhão íntima com Deus e a unidade que partilhamos uns com os outros realiza-se mais intensamente de cada vez que nos reunimos para celebrar a Eucaristia: o sacramento do Corpo e do Sangue de Cristo transforma-nos no Corpo vivo da Igreja, o Corpo de Cristo ressuscitado no mundo.
Sempre que participamos de forma plena e consciente na ação litúrgica, somos transformados mais plenamente à semelhança de Cristo. A nossa ação de graças e louvor a Deus é uma medida da oblação de nós mesmos aos outros, em amizade e amor. Aprendemos diariamente com Cristo a amar mais e a crescer no amor por Ele e uns pelos outros. É tão fundamental a realização sacramental da Igreja na liturgia que a «Lumen Gentium» se refere à celebração da Eucaristia como «fonte e cume da vida cristã» (LG 11). O povo sacerdotal de Deus oferece esse sacrifício com Cristo. «Assim, fortalecidos pelo corpo de Cristo na comunhão eucarística, manifestam de uma forma concreta aquela unidade do Povo de Deus que esse santíssimo sacramento adequadamente significa e admiravelmente realiza» (LG 11). Na sua ação litúrgica comum e através dela, a comunidade de fé entra em comunhão de amor com Cristo e uns com os outros. A sua vocação é serem agentes dessa mesma comunhão no mundo.
A graça que recebemos no Batismo e que é renovada cada vez que celebramos o mistério pascal na Eucaristia permite-nos crescer à imagem e semelhança de Cristo. Paulo escreve aos Efésios que os inúmeros dons do Espírito são concedidos aos membros da Igreja «para edificação do Corpo de Cristo, até que cheguemos todos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao homem adulto, à medida completa da plenitude de Cristo» (4, 12-13). Com um sentido de humildade escatológica, a «Lumen Gentium» reconhece que todos os membros do Corpo de Cristo «devem ser formados à sua semelhança» e reconhece que nesta vida terrena permanecemos «peregrinos numa terra estrangeira, seguindo as suas pegadas na tribulação e na opressão» (LG 7). A alguns poderá ser pedido que suportem verdadeiras injustiças, perseguições, sofrimentos e morte, como testemunhas do seu amor. Contudo, para a maior parte de nós, a chamada a reproduzir o sacrifício de Cristo chega-nos através do nosso encontro com os outros na nossa família, local de trabalho e comunidade. Os altos e baixos da vida quotidiana constituem o caminho que temos de percorrer à medida que vamos crescendo até chegar à medida total da plenitude de Cristo e a reproduzir a imagem da sua morte e ressurreição. Todas as experiências da vida são ocasiões para aprendermos a medida do perdão e do amor de Deus por nós e por todos os homens. Nós crescemos até à plena estatura de Cristo, não só como cristãos individuais, mas como um corpo inteiro. A ligação orgânica entre a cabeça e o corpo garante que este «recebe um crescimento que vem de Deus» (Colossenses 2, 19). Dando continuidade à obra que começou em nós, Cristo continua a «encher todo o corpo com as riquezas da sua glória» (LG 7).
A Constituição sobre a Sagrada Liturgia, cuja publicação precedeu a elaboração final da reflexão do Concílio sobre a Igreja na «Lumen Gentium», apontou, desde o início da deliberação conciliar, a importância da eclesiologia eucarística para a autocompreensão da Igreja. Abordámos esta ideia ao considerar de que modo a participação é uma das chaves da reforma litúrgica levada a cabo pelo Concílio, mas vale bem a pena repeti-lo aqui: «Todos se devem convencer de que a principal manifestação da Igreja consiste numa participação perfeita e ativa de todo o Povo santo de Deus nas mesmas celebrações litúrgicas, sobretudo na mesma Eucaristia, numa única oração, ao redor do único altar a que preside o Bispo rodeado pelo seu presbitério e pelos seus ministros» (SC 41). A «principal manifestação da Igreja» é a Igreja local, entendida como assembleia eucarística. Experimentamos o que significa ser Igreja e vemos que cada comunidade local tem tudo o que é necessário para ser Igreja (a pregação do Evangelho, a celebração dos sacramentos e a boa ordenação de muitos carismas e ministérios ao serviço de todos), quando todos nós nos reunimos em oração. Isto é especialmente verdade quando participamos na grande oração de ação de graças da Igreja, em que renovamos a nossa participação no mistério pascal, e a partir da qual somos enviados como testemunhas ao mundo.
Contudo, nenhuma Igreja local é autossuficiente ou completa sem as outras. Cada Igreja local está consciente da sua ligação com todas as outras comunidades cristãs locais, tanto em termos sincrónicos (no contexto presente) como diacrónicos (com as comunidades de crentes ao longo da história). Segundo o Concílio, a Igreja universal é uma comunhão de comunidades eucarísticas ou de Igrejas locais, unidas pelo Espírito de Deus (LG 23). A «Lumen Gentium» afirma que a Igreja de Cristo está presente cada vez que o povo de Deus se reúne na igreja local para ouvir o Evangelho de Cristo e participar no mistério da Ceia do Senhor. Por muito pequenas e pobres que as Igrejas locais possam ser, Cristo está atuante em cada uma delas, garantindo assim que a Igreja una, santa, católica e apostólica se realiza em cada lugar (LG 26). Na Eucaristia, somos constituídos como Corpo de Cristo, que é a Igreja.

© Richard R. Gaillardetz - Catherine E. Clifford
© Paulinas Editora, 2012
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Catherine E. Clifford e Richard R. Gaillardetz, As «chaves» do Concílio, Paulinas Editora, Prior Velho, 2012 (material protegido por leis de direitos autorais)


  • Eclesiologia eucarística [1]  [2]  [3]  [4]  [5]  [6]


Reflexões sobre a Igreja no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.8.13 | Sem comentários
Encuentros con la Palabra — blogue de Hermann Rodríguez Osorio

Enquanto viajava pelas montanhas, uma mulher sábia encontrou um formoso diamante, num riacho. No dia seguinte, cruzou-se no caminho com outro viajante; ao saber que estava esfomeado, ofereceu-lhe parte da comida que trazia consigo. Ao abrir a bolsa para tirar os alimentos, o homem viu a pedra preciosa no fundo do saco e ficou maravilhado. O viajante pediu o diamante à mulher; esta, sem hesitar, tirou-o da bolsa e deu-lho. O homem foi-se embora maravilhado com a sua incrível sorte, pois sabia que o valor da pedra era suficientemente alto para conseguir viver bem durante o resto da vida. Mas, dias mais tarde, depois de ter procurado a mulher, encontrou-a, devolveu-lhe a joia, e disse-lhe: — Estive a pensar... tenho consciência do valor desta pedra e vou devolve-la, mas espero que em contrapartida me dê algo ainda mais valioso. Depois de um silêncio continuou: — Dê-me essa qualidade que lhe permitiu oferecer-me este tesouro com generosidade e desprendimento
O texto do evangelho para o décimo oitavo domingo apresenta um homem que pede algo inesperado: «'Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo'. Jesus respondeu-lhe: 'Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?'». Esta situação proporciona um ensinamento de Jesus que convém recordar: «Guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens». É também uma ocasião para o Senhor contar uma parábola muito bela: «O campo dum homem rico tinha produzido excelente colheita. Ele pensou consigo: ‘Que hei-de fazer, pois não tenho onde guardar a minha colheita? Vou fazer assim: Deitarei abaixo os meus celeiros para construir outros maiores, onde guardarei todo o meu trigo e os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: Minha alma, tens muitos bens em depósito para longos anos. Descansa, come, bebe, regala-te’. Mas Deus respondeu-lhe: ‘Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma. O que preparaste, para quem será?’. Assim acontece a quem acumula para si, em vez de se tornar rico aos olhos de Deus».
É impressionante a insistência de Jesus e dos evangelhos neste tema da liberdade que devemos ter perante os bens materiais. Não se trata de um convite a não ter, mas a ter de tal maneira que não ponhamos aí o «valor» das nossas vidas. A vida não depende de possuir muitas coisas, mas da nossa capacidade em partilhá-las com os outros, generosamente. Não é rico o que tem muito, mas o que precisa de menos para viver satisfeito. Ignacio Ellacuría, um dos jesuítas assassinados em El Salvador há alguns anos, dizia que a única salvação para o nosso mundo era criar a civilização da austeridade partilhada. Viver com mais simplicidade, sonhar menos com o que nos falta e agradecer mais o que temos. Um mundo e um país em que alguns esbanjam e desbaratam, enquanto a grande maioria não tem o mínimo para sobreviver como seres humanos, não é sustentável a longo prazo.
A parábola que o Senhor nos conta é um convite a não viver dependentes da acumulação de riquezas sem fim, pensando que esse é o caminho da vida. Por esse caminho só se chega à morte. Por isso, peçamos ao Senhor que não nos ofereça diamantes formosos e belos, mas a capacidade de dar com generosidade e desprendimento.

© Hermann Rodríguez Osorio, SJ

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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  • Lucas 12, 13-21 — notas exegéticas > > >
  • Viver implica um grande desapego face à vida > > >



Preparar o décimo oitavo domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.8.13 | Sem comentários

PROPOSTA PARA O DÉCIMO OITAVO DOMINGO


Ao longo de várias semanas, seguindo a proposta de Miquel Raventós, na revista «Misa dominical», sugerimos um texto relacionado com o II Concílio do Vaticano para ser lido na eucaristia dominical: no final da homilia ou no silêncio da comunhão ou quando parecer mais oportuno...

Vale a pena recordar às palavras de Paulo VI, na sessão pública de encerramento do Concílio, no dia sete de dezembro de 1965. «Num tempo em que o esquecimento de Deus se torna habitual», o Papa faz esta profissão de fé: «Deus existe. Sim, Deus existe; realmente existe; vive; é pessoal; é providente, dotado de infinita bondade, não só bom em si mesmo mas imensamente bom para nós; é o nosso criador, a nossa verdade, a nossa felicidade».
E insiste de novo no olhar sobre o mundo de hoje: «Nunca talvez como no tempo deste Concílio a Igreja se sentiu na necessidade de conhecer, avizinhar, julgar rectamente, penetrar, servir e transmitir a mensagem evangélica».
E também no olhar sobre os homens e mulheres de hoje: «Na verdade, a Igreja, reunida em Concílio, entendeu sobretudo fazer a consideração sobre si mesma e sobre a relação que a une a Deus; e também sobre o ser humano, o humano tal qual ele se mostra realmente no nosso tempo».
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013



  • Outros textos relacionados com esta proposta
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Ano da fé (2012-2013), Papa Francisco
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.8.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo oitavo domingo

04 DE AGOSTO DE 2013

Evangelho segundo Lucas 12, 13-21

Naquele tempo, alguém, do meio da multidão, disse a Jesus: «Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo». Jesus respondeu-lhe: «Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?». Depois disse aos presentes: «Vede bem, guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens». E disse-lhes esta parábola: «O campo dum homem rico tinha produzido excelente colheita. Ele pensou consigo: ‘Que hei-de fazer, pois não tenho onde guardar a minha colheita? Vou fazer assim: Deitarei abaixo os meus celeiros para construir outros maiores, onde guardarei todo o meu trigo e os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: Minha alma, tens muitos bens em depósito para longos anos. Descansa, come, bebe, regala-te’. Mas Deus respondeu-lhe: ‘Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma. O que preparaste, para quem será?’. Assim acontece a quem acumula para si, em vez de se tornar rico aos olhos de Deus».



O que preparaste, para quem será?

Continuamos na secção central do evangelho segundo Lucas. Enquanto caminha para Jerusalém, Jesus vai partilhando ensinamentos sobre vários temas. No texto proposto para o décimo oitavo domingo, lemos o início (12, 13-21) de uma lição sobre o valor dos bens temporais, que continuará em 12, 22-34 com uma série de aplicações práticas, culminando na famosa sentença: «Onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração» (versículo 34).
No fragmento inicial do capítulo doze, que poderia ter como título «a verdadeira riqueza», podemos distinguir dois momentos: um episódio a propósito dos irmãos que discutem sobre uma herança (versículos 13-15) e a parábola do rico insensato que não pôde desfrutar da sua riqueza (versículos 16-21). O episódio é secundário; serve para introduzir o conselho sapiencial e a parábola que se segue. Alguém pede ao Mestre que, com a sua autoridade, intervenha em seu favor, num litígio familiar; mas Jesus dá-lhe a entender que para isso existem os juízes. A sua missão é de outra ordem.
O aviso sapiencial do versículo 15 antecipa a lição da parábola: muita riqueza não dá nem garante a vida; portanto, «guardai-vos de toda a avareza». A expressão «de toda a avareza» traduz o grego «pleonexia» que significa o desejo insaciável de possuir cada vez mais. A parábola do rico insensato é uma ilustração gráfica do aviso precedente. Lucas faz uma caricatura do homem completamente materializado, que só pensa nas suas riquezas e na forma de as armazenar para poder desfrutar da vida («il dolce far niente» — «o gosto de não fazer nada»), no resto dos seus dias, esquecendo-se de que a vida está nas mãos de Deus. Quando menos espera, a morte bate à sua porta e todas as riquezas inevitavelmente passam para outro. De que lhe serviu ter acumulado tanto? O versículo 21, o último deste texto, serve de introdução para os versículos seguintes (22-34): na linguagem evangélica, enriquecer diante de Deus significa partilhar os bens com quem precisa e está carente.

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



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Preparar o décimo oitavo domingo, ano C, no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.8.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [42]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

A última palavra do «Credo» é comum à maioria das orações: «termina com a palavra hebraica Ámen, palavra que se encontra com frequência no final das orações do Novo Testamento. Do mesmo modo, a Igreja termina com um ‘Ámen’ as suas orações» (Catecismo da Igreja Católica [CIC], 1061). [Para ajudar a compreender melhor, ler: 2Coríntios 1, 18-22; Catecismo da Igreja Católica, números 1061-1065]

«Graças a Ele, nós podemos dizer o ‘ámen’ para glória de Deus» — explica Paulo no início da Segunda Carta aos Coríntios. O termo «ámen» faz parte do património linguístico da Sagrada Escritura e, consequentemente, da Igreja. «Se considerarmos a Sagrada Escritura, vemos que este ‘ámen’ é pronunciado no fim dos Salmos de bênção e de louvor, como por exemplo no Salmo 41: ‘Tu me ajudarás, porque vivo com sinceridade, e me farás viver sempre na tua presença. Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, desde agora e para sempre. Ámen, ámen!» (versículos 13-14). Ou então exprime adesão a Deus, no momento em que o povo de Israel regressa cheio de alegria do exílio babilónico e diz o seu ‘sim’, o seu ‘ámen’ a Deus e à sua Lei. No Livro de Neemias narra-se que, depois deste regresso, ‘Esdras abriu o livro (da Lei) à vista de todo o povo, pois achava-se num lugar elevado, acima da multidão. Quando o escriba abriu o livro, todo o povo se levantou. Então, Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus, e e todo o povo respondeu, levantando as mãos: Ámen, ámen!’ (Neemias 8, 5-6).Por conseguinte, desde os primórdios o ‘ámen’ da liturgia judaica tornou-se o ‘ámen’ das primeiras comunidades cristãs» (Bento XVI, Audiência Geral de 30 de maio de 2012). Por fim, o último livro da Sagrada Escritura começa (cf. Apocalipse 1, 6) e termina (cf. Apocalipse 22, 21) com o «ámen» da Igreja.

Ámen. A raiz hebraica e aramaica («‘aman»), tem o significado de «tornar estável», «consolidar», «estar certo», «dizer a verdade». A partir da tradução grega, tornou-se comum associar «ámen» a «assim seja». Na linguagem popular, tomou o sentido de desejo ou resignação. Contudo, na oração não é resignação nem desejo, mas manifestação de segurança e de consentimento: era a resposta que os noivos pronunciavam perante a pergunta se queriam aceitar-se como marido e esposa. Por isso, o «ámen» não é uma mera conclusão: é também expressão de compromisso e segurança. Por outro lado, o «ámen» expressa a fidelidade recíproca entre Deus e o ser humano, entre Deus e nós (cf. CIC 1062). Neste sentido, dizer «ámen», no final do Credo, é repetir a primeira palavra — «Creio» —, reconhecendo a Trindade como único fundamento e sentido da vida. Então, eu acredito porque antes Deus acreditou e acredita em mim, amou-me e ama-me em cada momento da vida. Assim se exprimiu o papa Bento XVI (Audiência Geral de 30 de maio de 2012): «No ‘sim’ fiel de Deus insere-se o ‘ámen’ da Igreja que ressoa em cada gesto da liturgia: ‘ámen é a resposta da fé que encerra sempre a nossa oração pessoal e comunitária, e que expressa o nosso ‘sim’ à iniciativa de Deus. Muitas vezes respondemos por hábito com o nosso ‘ámen’ na oração, sem entender o seu significado profundo. [...] A oração é o encontro com uma Pessoa viva que deve ser ouvida e com a qual dialogar; é o encontro com Deus que renova a sua fidelidade inabalável, o seu ‘sim’ ao ser humano, a cada um de nós, para nos doar a sua consolação no meio das tempestades da vida e para nos levar a viver, unidos a Ele, uma existência cheia de alegria e de bem, que encontrará o seu cumprimento na vida eterna. Na nossa oração somos chamados a dizer ‘sim’ a Deus, a responder com este ‘ámen’ da adesão, da fidelidade a Ele de toda a nossa vida. Esta fidelidade nunca a podemos conquistar com as nossas próprias forças, não é apenas fruto do nosso compromisso quotidiano; ela vem de Deus e está fundada no ‘sim’ de Cristo, que afirma: o meu alimento é cumprir a vontade do Pai. É neste ‘sim’ que devemos entrar, entrar neste ‘sim’ de Cristo, na adesão à vontade de Deus, para chegar a afirmar com Paulo que já não somos nós que vivemos, mas é o próprio Cristo que vive em nós. Então, o ‘ámen’ da oração pessoal e comunitária envolverá e transformará toda a nossa vida de consolação de Deus, uma vida mergulhada no Amor».

A nossa fé não pode ser só uma fé professada. Tem de ser também uma fé celebrada, vivida, anunciada, contemplada. «A vida cristã de cada dia será, então, o ‘Ámen’ ao ‘Creio’ da profissão de fé do nosso Batismo: ‘Que o teu Símbolo seja para ti como um espelho. Revê-te nele, para ver se crês tudo quanto dizes crer. E alegra-te todos os dias na tua fé’» (CIC 1064).

© Laboratório da fé, 2013

Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé  Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.8.13 | Sem comentários
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