Quarta-feira da décima sexta semana


Evangelho segundo Mateus 13, 1-9

Naquele dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira-mar. Reuniu-se à sua volta tão grande multidão que teve de subir para um barco e sentar-Se, enquanto a multidão ficava na margem. Disse muitas coisas em parábolas, nestes termos: «Saiu o semeador a semear. Quando semeava, caíram algumas sementes ao longo do caminho: vieram as aves e comeram-nas. Outras caíram em sítios pedregosos, onde não havia muita terra, e logo nasceram porque a terra era pouco profunda; mas depois de nascer o sol, queimaram-se e secaram, por não terem raiz. Outras caíram entre espinhos e os espinhos cresceram e afogaram-nas. Outras caíram em boa terra e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um. Quem tem ouvidos, oiça».

Saiu o semeador a semear

No tempo de Jesus Cristo, percebemos pela parábola, já era difícil obter frutos. A semente era lançada — «Saiu o semeador a semear» —, mas nem todos os terrenos estavam preparados para a receber e proporcionar o fruto desejado, conforme as capacidades. 
Hoje, parece que ainda é mais difícil, devido às características da sociedade atual. Estamos demasiado agarrados a um sistema capitalista, cujo único objetivo é o lucro pessoal, quase sempre, a qualquer preço. Esta lógica estendeu-se a todas as áreas da sociedade, de tal forma que só nos interessa aquilo que pode trazer-nos algum benefício imediato
A religiosidade sofre também dos mesmos problemas. Em geral, os ensinamentos religiosos têm pouca importância. A não ser que se possam usar para obter algum benefício. A catequese é participada (quase exclusivamente) pelas crianças até obterem o «diploma» da Eucaristia («primeira comunhão») e alguns ainda conseguem aguentar até à Confirmação. É verdade que há homilias, leituras orantes da Palavra de Deus, documentos da Igreja, propostas pastorais, que são «sementes» cheias de capacidade para dar fruto. No entanto, a maioria das vezes, não encontram «terreno» disponível para produzir cem, sessenta ou trinta por um. 
Recentemente, parece surgir uma nova «sementeira» lançada a partir do exemplo do papa Francisco. Quando nos voltarmos para o é verdadeiramente «importante», ainda que não seja o mais «urgente», descobriremos a beleza contida na «semente» e talvez aumente a nossa capacidade de dar fruto, ou melhor, de deixar que a semente cresça e frutifique cem, sessenta ou trinta por um.

© Laboratório da fé, 2013

Décima sexta semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.7.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo sétimo domingo

28 DE JULHO DE 2013

Bento XVI, «Jesus de Nazaré», A Esfera dos Livros, 2007, 177-179


O «Pai Nosso» no evangelho segundo Lucas aparece no contexto do caminho de Jesus para Jerusalém. Lucas introduz a oração do Senhor com a seguinte anotação: «Sucedeu que, estando Ele algures a orar, disse-Lhe, quando acabou, um dos Seus discípulos: 'Senhor, ensina-nos a orar'» (11, 1). Assim, o contexto é o encontro com a ato de orar de Jesus, que desperta nos discípulos o desejo de aprenderem com Ele a rezar. Trata-se de um elemento característico de Lucas, que reserva à oração de Jesus um lugar particularmente relevante no seu evangelho. O conjunto da atividade de Jesus brota da sua oração, é sustentado por ela. Assim, factos essenciais do seu caminho, nos quais progressivamente se revela o seu mistério, aparecem como acontecimentos de oração. A confissão que Pedro faz de Jesus como o Santo de Deus está ligada a um encontro com Jesus orante (Lucas 9, 19s); a transfiguração de Jesus é um acontecimento de oração (Lucas 9, 28s). Por isso, é significativo que Lucas coloque o «Pai Nosso» em relação com a oração pessoal de Jesus. Desta maneira, Ele torna-nos participantes do seu rezar, introduz-nos no diálogo interior do Amor trinitário, eleva por assim dizer as nossas necessidades humanas até ao coração de Deus. Mas isto significa também que as palavras do «Pai Nosso» indicam o caminho para a oração interior, representam orientações fundamentais para a nossa existência, querem conformar-nos à imagem do Filho. O significado do Pai Nosso ultrapassa a mera comunicação de palavras de oração; quer formar o nosso ser, quer exercitar-nos nos sentimentos de Jesus (Filipenses 2, 5). Para a interpretação do «Pai Nosso», isto encerra um duplo significado. Em primeiro lugar, é muito importante escutar com a maior fidelidade possível a palavra de Jesus, tal como a Escritura no-la transmite. Devemos procurar reconhecer, verdadeiramente e o melhor que pudermos, os pensamentos de Jesus que Ele nos queria transmitir com estas palavras. Em segundo lugar, devemos ter presente também que o «Pai Nosso» provém da sua oração pessoal, do diálogo do Filho com o Pai. Isso quer dizer que o mesmo alcança uma profundidade tal que está para além das palavras. Abrange toda a extensão da existência humana de todos os tempos e, portanto, não se pode sondar com uma interpretação meramente histórica, por mais importante que seja. Os grandes orantes de todos os séculos, através da sua íntima união com o Senhor, puderam mergulhar nas profundezas que estão para além da palavra, conseguindo assim desvendar ainda mais a riqueza escondida da oração. E cada um de nós, com a sua relação absolutamente pessoal com Deus, pode encontrar-se acolhido e guardado nesta oração. Incessantemente deve com a sua «mens» — com o próprio espírito — ir ao encontro da «vox», da palavra que nos vem do Filho, deve abrir-se a ela e deixar-se conduzir por ela. Assim abrir-se-nos-á também o coração do Senhor, dando a conhecer a vontade que Ele tem de rezar precisamente com cada um.



  • Reflexão diária a partir do evangelho > > >
  • É de vida partilhada que as nossas vidas se alimentam > > >
  • O Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem > > >
  • O pão nosso de cada dia nos dai hoje [1] > > >
  • O pão nosso de cada dia nos dai hoje [2] > > >
  • Lucas 11, 1-13 — notas exegéticas > > >



Preparar o décimo sétimo domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.7.13 | Sem comentários

Jornada Mundial da Juventude


Na cerimónia de boas vindas, no dia 22 de julho de 2013, o papa Francisco proferiu um discurso onde destaca a importância de acolher com o coração, uma característica própria do povo brasileiro. A estátua de Cristo Redentor é uma imagem visível desse acolhimento: «Vim para encontrar os jovens que vieram de todo o mundo, atraídos pelos braços abertos do Cristo Redentor». Depois, reforça a importância da juventude para o futuro da humanidade. A partir da imagem da língua portuguesa que apresenta os filhos como «a menina dos olhos» dos pais, Francisco convida os adultos a preparar o presente e o futuro dos jovens: «O que vai ser de nós se não tomarmos conta dos nossos olhos?». 

[...] Aprendi que para ter acesso ao Povo Brasileiro, é preciso ingressar pelo portal do seu imenso coração; por isso permitam-me que nesta hora eu possa bater delicadamente a esta porta. Peço licença para entrar e ficar esta semana convosco. Não tenho ouro nem prata, mas trago o que de mais precioso me foi dado: Jesus Cristo! Venho em seu Nome, para alimentar a chama de amor fraterno que arde em cada coração; e desejo que chegue a todos e a cada um a minha saudação: «A paz de Cristo esteja convosco»! [...]
O motivo principal da minha presença no Brasil, como é sabido, ultrapassa as suas fronteiras. Vim para a Jornada Mundial da Juventude. Vim para encontrar os jovens que vieram de todo o mundo, atraídos pelos braços abertos do Cristo Redentor. Eles querem agasalhar-se no seu abraço para, junto de seu Coração, ouvir de novo o seu potente e claro chamado: «Ide e fazei discípulos entre todas as nações».
Estes jovens provêm dos diversos continentes, falam línguas diferentes, são portadores de variegadas culturas e, todavia, em Cristo encontram as respostas para suas mais altas e comuns aspirações e podem saciar a fome de verdade límpida e de amor autêntico que os irmanem para além de toda diversidade.
Cristo abre espaço para eles, pois sabe que energia alguma pode ser mais potente que aquela que se desprende do coração dos jovens quando conquistados pela experiência da sua amizade. Cristo «bota fé» nos jovens e confia-lhes o futuro de sua própria causa: «Ide, fazei discípulos». Ide para além das fronteiras do que é humanamente possível e criai um mundo de irmãos. Também os jovens «botam fé» em Cristo. Eles não têm medo de arriscar a única vida que possuem porque sabem que não serão desiludidos.
Ao iniciar esta minha visita ao Brasil, tenho consciência de que, ao dirigir-me aos jovens, falarei às suas famílias, às suas comunidades eclesiais e nacionais de origem, às sociedades nas quais estão inseridos, aos homens e às mulheres dos quais, em grande medida, depende o futuro destas novas gerações.
Os pais usam dizer por aqui: «os filhos são a menina dos nossos olhos». Que bela expressão da sabedoria brasileira que aplica aos jovens a imagem da pupila dos olhos, janela pela qual entra a luz regalando-nos o milagre da visão! O que vai ser de nós, se não tomarmos conta dos nossos olhos? Como haveremos de seguir em frente? O meu auspício é que, nesta semana, cada um de nós se deixe interpelar por esta desafiadora pergunta.
E atenção! A juventude é a janela pela qual o futuro entra no mundo. É a janela e, por isso, nos impõe grandes desafios. A nossa geração se demonstrará à altura da promessa contida em cada jovem quando souber abrir-lhe espaço. Isso significa: tutelar as condições materiais e imateriais para o seu pleno desenvolvimento; oferecer a ele fundamentos sólidos, sobre os quais construir a vida; garantir-lhe segurança e educação para que se torne aquilo que ele pode ser; transmitir-lhe valores duradouros pelos quais a vida mereça ser vivida, assegurar-lhe um horizonte transcendente que responda à sede de felicidade autêntica, suscitando nele a criatividade do bem; entregar-lhe a herança de um mundo que corresponda à medida da vida humana; despertar nele as melhores potencialidades para que seja sujeito do próprio amanhã e corresponsável do destino de todos. Com essas atitudes precedemos hoje o futuro que entra pela janela dos jovens.
Concluindo, peço a todos a delicadeza da atenção e, se possível, a necessária empatia para estabelecer um diálogo de amigos. Nesta hora, os braços do Papa se alargam para abraçar a inteira nação brasileira, na sua complexa riqueza humana, cultural e religiosa. Desde a Amazónia até aos pampas, dos sertões até ao Pantanal, dos vilarejos até às metrópoles, ninguém se sinta excluído do afeto do Papa. Depois de amanhã, se Deus quiser, tenho em mente recordar-lhes todos a Nossa Senhora Aparecida, invocando sua proteção materna sobre seus lares e famílias. Desde já a todos abençôo. Obrigado pelo acolhimento!

Rio de Janeiro, 22 de julho de 2013
© Copyright - Libreria Editrice Vaticana

Jornada Mundial da Juventude, Rio de Janeiro, Brasil, 22 de julho de 2013

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.7.13 | Sem comentários

As «chaves» do Concílio


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


A Igreja e o Corpo Místico
Infelizmente, na Idade Média, esta rica eclesiologia eucarística começou a retroceder para segundo plano, sendo substituída por uma visão mais jurídica da Igreja. Houve sempre vozes, como a de São Tomás de Aquino, que mantiveram em primeiro plano as ligações profundas entre a Eucaristia e a Igreja, mas essas seriam mais a exceção do que a regra. Só no século XIX e inícios do século XX é que se começaram a envidar esforços para recuperar elementos desta antiga visão eucarística da Igreja. A mudança histórica ocorrida na Idade Média foi magistralmente explorada, algumas décadas antes do Concílio, pelo teólogo jesuíta Henri de Lubac, numa obra intitulada «Corpus Mysticum» («Corpo Místico»).
Segundo de Lubac, antes do fim da Idade Média, o termo «Corpo Místico» referia-se sobretudo ao Corpo eucarístico de Cristo. No entanto, quando surgiram as controvérsias sobre o realismo da presença de Cristo na Eucaristia, os teólogos medievais começaram a estabelecer a distinção entre o corpo «natural» ou «verdadeiro» de Cristo, nascido da Virgem Maria, e agora presente no pão e no vinho do sacramento, e o caráter «místico» do corpo eclesial de Cristo. À medida que a atenção dos teólogos se ia centrando cada vez mais no realismo da presença de Cristo no sacramento, as antigas convicções relativas à presença e à ação de Cristo no corpo eclesial, e através dele, passaram para segundo plano. O efeito daí resultante foi uma infeliz decomposição da importante ligação entre a Eucaristia e a Igreja, e a Igreja e Cristo, sua Cabeça, a quem encontramos no sacramento.
Quando foi inicialmente aplicado à Igreja, o termo Corpo Místico referia-se à Igreja celeste, à comunhão dos santos no fim dos tempos. Na sequência da Reforma Protestante do século XVI, o contrarreformista jesuíta Roberto Belarmino aplicou sistematicamente a ideia do Corpo Místico de Cristo à comunidade peregrina da Igreja na terra. Tentou refutar a justaposição protestante feita entre a instituição visível da Igreja na terra e a realidade espiritual invisível da verdadeira Igreja.
No século XIX, alguns teólogos, como Johann Adam Möhler e, mais tarde, Matthias Scheeben, começariam a explorar a força da imagem paulina de «corpo» para entender a Igreja. Esse trabalho seria continuado no século XX pelo estudo monumental de Emile Mersch. O papa Pio XII aprofundaria ainda mais essa recuperação na sua Encíclica «Mystici Corporis», embora corroborando a ênfase dada por Belarmino à Igreja institucional visível. De Lubac, o teólogo dominicano Yves Congar e outros defenderiam a necessidade de regressar à eclesiologia eucarística de Paulo, de Agostinho e da tradição patrística.

© Richard R. Gaillardetz - Catherine E. Clifford
© Paulinas Editora, 2012
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Catherine E. Clifford e Richard R. Gaillardetz, As «chaves» do Concílio, Paulinas Editora, Prior Velho, 2012 (material protegido por leis de direitos autorais)


  • Eclesiologia eucarística [1]  [2]  [3]  [4]  [5]  [6]


Reflexões sobre a Igreja no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.7.13 | Sem comentários

Jornada Mundial da Juventude


Entre os dias 23 e 28 de julho de 2013, realiza-se, no Rio de Janeiro, Brasil, a XXVIII Jornada Mundial da Juventude, sob o tema: «Ide e fazei discípulos entre todas as nações». O papa Bento XVI escreveu uma mensagem de preparação para este encontro mundial de jovens, onde destaca a importância da evangelização feita pelos jovens aos outros jovens. Para concretizar este apelo urgente à evangelização, refere a necessidade primeira do encontro pessoal com Jesus Cristo.

Queridos jovens,
[...] A conhecida estátua do Cristo Redentor, que se eleva sobre aquela bela cidade brasileira, será o símbolo eloquente deste convite: os seus braços abertos são o sinal do acolhimento que o Senhor reservará a todos quantos vierem até Ele, e o seu coração retrata o imenso amor que Ele tem por cada um e cada uma de vós. Deixai-vos atrair por Ele! Deixai-vos amar por Ele e sereis as testemunhas de que o mundo precisa.
«Ide e fazei discípulos entre todas as nações» (cf. Mateus 28, 19). Trata-se da grande exortação missionária que Cristo deixou para toda a Igreja e que permanece atual ainda hoje, dois mil anos depois. Agora este mandato deve ressoar fortemente no vosso coração. [...]

1. Um apelo urgente

A história mostra-nos muitos jovens que, através do dom generoso de si mesmos, contribuíram grandemente para o Reino de Deus e para o desenvolvimento deste mundo, anunciando o Evangelho. Com grande entusiasmo, levaram a Boa Nova do Amor de Deus manifestado em Cristo, com meios e possibilidades muito inferiores àqueles de que dispomos hoje em dia. Penso, por exemplo, no Beato José de Anchieta, jovem jesuíta espanhol do século XVI, que partiu em missão para o Brasil quando tinha menos de vinte anos e se tornou um grande apóstolo do Novo Mundo. [...]
Hoje, não poucos jovens duvidam profundamente que a vida seja um bem, e não veem com clareza o próprio caminho. De um modo geral, diante das dificuldades do mundo contemporâneo, muitos se perguntam: E eu, que posso fazer? A luz da fé ilumina esta escuridão, fazendo-nos compreender que toda existência tem um valor inestimável, porque é fruto do amor de Deus. Ele ama mesmo quem se distanciou ou esqueceu d’Ele: tem paciência e espera; mais que isso, deu o seu Filho, morto e ressuscitado, para nos libertar radicalmente do mal. E Cristo enviou os seus discípulos para levar a todos os povos este alegre anúncio de salvação e de vida nova.
A Igreja, para continuar esta missão de evangelização, conta também convosco. Queridos jovens, vós sois os primeiros missionários no meio dos jovens da vossa idade! No final do II Concílio Ecuménico do Vaticano, cujo cinquentenário celebramos neste ano, o Servo de Deus Paulo VI entregou aos jovens e às jovens do mundo inteiro uma Mensagem que começava com estas palavras: «É a vós, rapazes e raparigas de todo o mundo, que o Concílio quer dirigir a sua última mensagem, pois sereis vós a recolher o facho das mãos dos vossos antepassados e a viver no mundo no momento das mais gigantescas transformações da sua história, sois vós quem, recolhendo o melhor do exemplo e do ensinamento dos vossos pais e mestres, ides constituir a sociedade de amanhã: salvar-vos-eis ou perecereis com ela». E concluía com um apelo: «Construí com entusiasmo um mundo melhor que o dos vossos antepassados!» (Mensagem aos jovens, 8 de dezembro de 1965).
Queridos amigos, este convite é extremamente atual. Estamos a passar por um período histórico muito particular: o progresso técnico deu-nos oportunidades inéditas de interação entre os seres humanos e entre os povos, mas a globalização destas relações só será positiva e fará crescer o mundo em humanidade se estiver fundada não sobre o materialismo mas sobre o amor, a única realidade capaz de encher o coração de cada um e unir as pessoas. Deus é amor. O ser humano que esquece Deus fica sem esperança e torna-se incapaz de amar o seu semelhante. Por isso, é urgente testemunhar a presença de Deus para que todos possam experimentá-la: está em jogo a salvação da humanidade, a salvação de cada um de nós. Qualquer pessoa que entenda essa necessidade, não poderá deixar de exclamar com São Paulo: «Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho» (1Coríntios 9, 16).

2. Tornai-vos discípulos de Cristo

Este apelo missionário é dirigido a vós também por outro motivo: é necessário para o nosso caminho de fé pessoal. O Beato João Paulo II escrevia: «É dando a fé que ela se fortalece» (Encíclica Redemptoris missio, 2). Ao anunciar o Evangelho, vós mesmos cresceis num enraizamento cada vez mais profundo em Cristo, tornais-vos cristãos maduros. O compromisso missionário é uma dimensão essencial da fé: não se crê verdadeiramente, se não se evangeliza. E o anúncio do Evangelho não pode ser senão consequência da alegria de ter encontrado Cristo e ter descoberto n’Ele a rocha sobre a qual construir a própria existência. Comprometendo-vos no serviço aos outros e no anúncio do Evangelho, a vossa vida, muitas vezes fragmentada entre tantas atividades diversas, encontrará no Senhor a sua unidade; construir-vos-eis também a vós mesmos; crescereis e amadurecereis em humanidade.
Mas, que significa ser missionário? Significa acima de tudo ser discípulo de Cristo e ouvir sem cessar o convite a segui-Lo, o convite a fixar o olhar n’Ele: «Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração» (Mateus 11, 29). O discípulo, de facto, é uma pessoa que se põe à escuta da Palavra de Jesus (cf. Lucas 10, 39), a quem reconhece como o Mestre que nos amou até ao dom da sua vida. Trata-se, portanto, de cada um de vós deixar-se plasmar diariamente pela Palavra de Deus: ela vos transformará em amigos do Senhor Jesus, capazes de fazer outros jovens entrar nesta mesma amizade com Ele.
Aconselho-vos a guardar na memória os dons recebidos de Deus, para poder transmiti-los ao vosso redor. Aprendei a reler a vossa história pessoal, tomai consciência também do maravilhoso legado recebido das gerações que vos precederam: tantos cristãos que nos transmitiram a fé com coragem, enfrentando obstáculos e incompreensões. Nunca o esqueçamos! Fazemos parte de uma longa cadeia de homens e mulheres que nos transmitiram a verdade da fé e contam connosco para que outros a recebam. Ser missionário pressupõe o conhecimento deste património recebido que é a fé da Igreja: é necessário conhecer aquilo em que se crê, para podê-lo anunciar. Como escrevi na introdução doYouCat, o Catecismo para jovens que vos entreguei no Encontro Mundial de Madrid, «tendes de conhecer a vossa fé como um especialista em informática domina o sistema operacional de um computador. Tendes de compreendê-la como um bom músico entende uma partitura. Sim, tendes de estar enraizados na fé ainda mais profundamente que a geração dos vossos pais, para enfrentar os desafios e as tentações deste tempo com força e determinação» (Prefácio).

3. Ide!

Jesus enviou os seus discípulos em missão com este mandato: «Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura! Quem crer e for batizado será salvo» (Marcos 16, 15-16). Evangelizar significa levar aos outros a Boa Nova da salvação, e esta Boa Nova é uma pessoa: Jesus Cristo. Quando O encontro, quando descubro até que ponto sou amado por Deus e salvo por Ele, nasce em mim não apenas o desejo, mas a necessidade de fazê-lo conhecido pelos demais. No início do Evangelho de João, vemos como André, depois de ter encontrado Jesus, se apressa em conduzir a Ele o seu irmão Simão (cf. 1, 40-42). A evangelização parte sempre do encontro com o Senhor Jesus: quem se aproximou d’Ele e experimentou o seu amor, quer logo partilhar a beleza desse encontro e a alegria que nasce dessa amizade. Quanto mais conhecemos a Cristo, tanto mais queremos anunciá-lo. Quanto mais falamos com Ele, tanto mais queremos falar d’Ele. Quanto mais somos conquistados por Ele, tanto mais desejamos levar outras pessoas para Ele.
Pelo Batismo, que nos gera para a vida nova, o Espírito Santo vem habitar em nós e inflama a nossa mente e o nosso coração: é Ele que nos guia para conhecer a Deus e entrar em uma amizade sempre mais profunda com Cristo. É o Espírito que nos impulsiona a fazer o bem, servindo os outros com o dom de nós mesmos. Depois, através do sacramento da Confirmação, somos fortalecidos pelos seus dons, para testemunhar de modo sempre mais maduro o Evangelho. Assim, o Espírito de amor é a alma da missão: Ele nos impele a sair de nós mesmos para «ir» e evangelizar. Queridos jovens, deixai-vos conduzir pela força do amor de Deus, deixai que este amor vença a tendência de fechar-se no próprio mundo, nos próprios problemas, nos próprios hábitos; tende a coragem de «sair» de vós mesmos para «ir» ao encontro dos outros e guiá-los ao encontro de Deus.

4. Alcançai todos os povos

Cristo ressuscitado enviou os seus discípulos para dar testemunho de sua presença salvífica a todos os povos, porque Deus, no seu amor superabundante, quer que todos sejam salvos e ninguém se perca. Com o sacrifício de amor na Cruz, Jesus abriu o caminho para que todo o homem e toda a mulher possa conhecer a Deus e entrar em comunhão de amor com Ele. E constituiu uma comunidade de discípulos para levar o anúncio salvífico do Evangelho até os confins da terra, a fim de alcançar os homens e as mulheres de todos os lugares e de todos os tempos. Façamos nosso esse desejo de Deus!
Queridos amigos, estendei o olhar e vede ao vosso redor: tantos jovens perderam o sentido da sua existência. Ide! Cristo também precisa de vós. Deixai-vos envolver pelo seu amor, sede instrumentos desse amor imenso, para que alcance a todos, especialmente aos «afastados». Alguns encontram-se geograficamente distantes, enquanto outros estão longe porque a sua cultura não dá espaço para Deus; alguns ainda não acolheram o Evangelho pessoalmente, enquanto outros, apesar de o terem recebido, vivem como se Deus não existisse. A todos abramos a porta do nosso coração; procuremos entrar em diálogo com simplicidade e respeito: este diálogo, se vivido com uma amizade verdadeira, dará seus frutos. Os «povos», aos quais somos enviados, não são apenas os outros Países do mundo, mas também os diversos âmbitos de vida: as famílias, os bairros, os ambientes de estudo ou de trabalho, os grupos de amigos e os locais de lazer. O jubiloso anúncio do Evangelho destina-se a todos os âmbitos da nossa vida, sem exceção.
Gostaria de destacar dois campos, nos quais deve fazer-se ainda mais solícito o vosso empenho missionário. O primeiro é o das comunicações sociais, em particular o mundo da internet. Como tive já oportunidade de dizer-vos, queridos jovens, «senti-vos comprometidos a introduzir na cultura deste novo ambiente comunicador e informativo os valores sobre os quais assenta a vossa vida! [...] A vós, jovens, que vos encontrais quase espontaneamente em sintonia com estes novos meios de comunicação, compete de modo particular a tarefa da evangelização deste “continente digital”» (Mensagem para o XLIII Dia Mundial das Comunicações Sociais, 24 de maio de 2009). Aprendei, portanto, a usar com sabedoria este meio, levando em conta também os perigos que ele traz consigo, particularmente o risco da dependência, de confundir o mundo real com o virtual, de substituir o encontro e o diálogo direto com as pessoas por contatos na rede.
O segundo campo é o da mobilidade. Hoje são sempre mais numerosos os jovens que viajam, seja por motivos de estudo ou de trabalho, seja por diversão. Mas penso também em todos os movimentos migratórios, que levam milhões de pessoas, frequentemente jovens, a se transferir e mudar de Região ou País, por razões económicas ou sociais. Também estes fenómenos se podem tornar ocasiões providenciais para a difusão do Evangelho. Queridos jovens, não tenhais medo de testemunhar a vossa fé também nesses contextos: para aqueles com quem vos deparareis, é um dom precioso a comunicação da alegria do encontro com Cristo.

5. Fazei discípulos!

Penso que já várias vezes experimentastes a dificuldade de envolver os jovens da vossa idade na experiência da fé. Frequentemente tereis constatado que em muitos deles, especialmente em certas fases do caminho da vida, existe o desejo de conhecer a Cristo e viver os valores do Evangelho, mas tal desejo é acompanhado pela sensação de ser inadequados e incapazes. Que fazer? Em primeiro lugar, a vossa solicitude e a simplicidade do vosso testemunho serão um canal através do qual Deus poderá tocar o seu coração. O anúncio de Cristo não passa somente através das palavras, mas deve envolver toda a vida e traduzir-se em gestos de amor. A ação de evangelizar nasce do amor que Cristo infundiu em nós; por isso, o nosso amor deve conformar-se sempre mais ao d’Ele. Como o bom Samaritano, devemos manter-nos solidários com quem encontramos, sabendo escutar, compreender e ajudar, para conduzir, quem procura a verdade e o sentido da vida, à casa de Deus que é a Igreja, onde há esperança e salvação (cf. Lucas 10, 29-37). Queridos amigos, nunca esqueçais que o primeiro ato de amor que podeis fazer ao próximo é partilhar a fonte da nossa esperança: quem não dá Deus, dá muito pouco. Aos seus apóstolos, Jesus ordena: «Fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei» (Mateus 28, 19-20). Os meios que temos para «fazer discípulos» são principalmente o Batismo e a catequese. Isto significa que devemos conduzir as pessoas que estamos evangelizando ao encontro com Cristo vivo, particularmente na sua Palavra e nos Sacramentos: assim poderão crer n’Ele, conhecerão a Deus e viverão da sua graça. Gostaria que cada um de vós se perguntasse: Alguma vez tive a coragem de propor o Batismo a jovens que ainda não o receberam? Convidei alguém a seguir um caminho de descoberta da fé cristã? Queridos amigos, não tenhais medo de propor aos jovens da vossa idade o encontro com Cristo. Invocai o Espírito Santo: Ele vos guiará para entrardes sempre mais no conhecimento e no amor de Cristo, e vos tornará criativos na transmissão do Evangelho.

6. Firmes na fé

Diante das dificuldades na missão de evangelizar, às vezes sereis tentados a dizer como o profeta Jeremias: «Ah! Senhor Deus, eu não sei falar, sou muito novo». Mas, também a vós, Deus responde: «Não digas que és muito novo; a todos a quem eu te enviar, irás» (Jeremias 1, 6-7). Quando vos sentirdes inadequados, incapazes e frágeis para anunciar e testemunhar a fé, não tenhais medo. A evangelização não é uma iniciativa nossa nem depende primariamente dos nossos talentos, mas é uma resposta confiante e obediente à chamada de Deus, e portanto não se baseia sobre a nossa força, mas na d’Ele. Isso mesmo experimentou o apóstolo Paulo: «Trazemos esse tesouro em vasos de barro, para que todos reconheçam que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós» (2Coríntios 4, 7).
Por isso convido-vos a enraizar-vos na oração e nos sacramentos. A evangelização autêntica nasce sempre da oração e é sustentada por esta: para poder falar de Deus, devemos primeiro falar com Deus. E, na oração, confiamos ao Senhor as pessoas às quais somos enviados, suplicando-Lhe que toque o seu coração; pedimos ao Espírito Santo que nos torne seus instrumentos para a salvação dessas pessoas; pedimos a Cristo que coloque as palavras nos nossos lábios e faça de nós sinais do seu amor. E, de modo mais geral, rezamos pela missão de toda a Igreja, de acordo com a ordem explícita de Jesus: «Pedi, pois, ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!» (Mateus 9, 38). Sabei encontrar na Eucaristia a fonte da vossa vida de fé e do vosso testemunho cristão, participando com fidelidade na Missa ao domingo e sempre que possível também durante a semana. Recorrei frequentemente ao sacramento da Reconciliação: é um encontro precioso com a misericórdia de Deus que nos acolhe, perdoa e renova os nossos corações na caridade. E, se ainda não o recebestes, não hesiteis em receber o sacramento da Confirmação ou Crisma preparando-vos com cuidado e solicitude. Juntamente com a Eucaristia, é o sacramento da missão, porque nos dá a força e o amor do Espírito Santo para professar sem medo a fé. Encorajo-vos ainda à prática da adoração eucarística: permanecer à escuta e em diálogo com Jesus presente no Santíssimo Sacramento, torna-se ponto de partida para um renovado impulso missionário.
Se seguirdes este caminho, o próprio Cristo vos dará a capacidade de ser plenamente fiéis à sua Palavra e de testemunhá-Lo com lealdade e coragem. Algumas vezes sereis chamados a dar provas de perseverança, particularmente quando a Palavra de Deus suscitar reservas ou oposições. Em certas regiões do mundo, alguns de vós sofrem por não poder testemunhar publicamente a fé em Cristo, por falta de liberdade religiosa. E há quem já tenha pagado com a vida o preço da própria pertença à Igreja. Encorajo-vos a permanecer firmes na fé, certos de que Cristo está ao vosso lado em todas as provas. Ele vos repete: «Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus» (Mateus 5, 11-12).

7. Com toda a Igreja

Queridos jovens, para permanecer firmes na confissão da fé cristã nos vários lugares onde sois enviados, precisais da Igreja. Ninguém pode ser testemunha do Evangelho sozinho. Jesus enviou em missão os seus discípulos juntos: o mandato «fazei discípulos» é formulado no plural. Assim, é sempre como membros da comunidade cristã que prestamos o nosso testemunho, e a nossa missão torna-se fecunda pela comunhão que vivemos na Igreja: seremos reconhecidos como discípulos de Cristo pela unidade e o amor que tivermos uns com os outros (cf. João 13, 35). Agradeço ao Senhor pela preciosa obra de evangelização que realizam as nossas comunidades cristãs, as nossas paróquias, os nossos movimentos eclesiais. Os frutos desta evangelização pertencem a toda a Igreja: «um é o que semeia e outro o que colhe», dizia Jesus (João 4, 37).
A propósito, não posso deixar de dar graças pelo grande dom dos missionários, que dedicam toda a sua vida ao anúncio do Evangelho até os confins da terra. Do mesmo modo bendigo o Senhor pelos sacerdotes e os consagrados, que ofertam inteiramente as suas vidas para que Jesus Cristo seja anunciado e amado. Desejo aqui encorajar os jovens chamados por Deus a alguma dessas vocações, para que se comprometam com entusiasmo: «Há mais alegria em dar do que em receber!» (Atos 20, 35). Àqueles que deixam tudo para segui-Lo, Jesus prometeu o cêntuplo e a vida eterna (cf. Mateus 19, 29).
Dou graças também por todos os fiéis leigos que se empenham por viver o seu dia-a-dia como missão, nos diversos lugares onde se encontram, tanto em família como no trabalho, para que Cristo seja amado e cresça o Reino de Deus. Penso particularmente em quantos atuam no campo da educação, da saúde, do mundo empresarial, da política e da economia, e em tantos outros âmbitos do apostolado dos leigos. Cristo precisa do vosso empenho e do vosso testemunho. Que nada – nem as dificuldades, nem as incompreensões – vos faça renunciar a levar o Evangelho de Cristo aos lugares onde vos encontrais: cada um de vós é precioso no grande mosaico da evangelização!

8. «Aqui estou, Senhor!»

Em suma, queridos jovens, queria-vos convidar a escutar no íntimo de vós mesmos o chamamento de Jesus para anunciar o seu Evangelho. Como mostra a grande estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, o seu coração está aberto para amar a todos sem distinção, e seus braços estendidos para alcançar a cada um. Sede vós o coração e os braços de Jesus. Ide testemunhar o seu amor, sede os novos missionários animados pelo seu amor e acolhimento. Segui o exemplo dos grandes missionários da Igreja, como São Francisco Xavier e muitos outros.
No final da Jornada Mundial da Juventude em Madrid, dei a bênção a alguns jovens de diferentes continentes que partiam em missão. Representavam a multidão de jovens que, fazendo eco às palavras do profeta Isaías, diziam ao Senhor: «Aqui estou! Envia-me» (Isaías 6, 8). A Igreja tem confiança em vós e vos está profundamente grata pela alegria e o dinamismo que trazeis: usai os vossos talentos generosamente ao serviço do anúncio do Evangelho. Sabemos que o Espírito Santo se dá a quantos, com humildade de coração, se tornam disponíveis para tal anúncio. E não tenhais medo! Jesus, Salvador do mundo, está connosco todos os dias, até o fim dos tempos (cf. Mateus 28, 20). [...]
A Virgem Maria, Estrela da Nova Evangelização, também invocada sob os títulos de Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora de Guadalupe, acompanhe cada um de vós na vossa missão de testemunhas do amor de Deus. A todos, com especial carinho, concedo a minha Bênção Apostólica.

Vaticano, 18 de outubro de 2012.
© Copyright 2012 - Libreria Editrice Vaticana

Jornada Mundial da Juventude, Rio de Janeiro, Brasil, 23 a 28 de julho de 2013


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.7.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo sétimo domingo

28 DE JULHO DE 2013

Evangelho segundo Lucas 11, 1-13

Naquele tempo, estava Jesus em oração em certo lugar. Ao terminar, disse-Lhe um dos discípulos: «Senhor, ensina-nos a orar, como João Baptista ensinou também os seus discípulos». Disse-lhes Jesus: «Quando orardes, dizei: ‘Pai, santificado seja o vosso nome; venha o vosso reino; dai-nos em cada dia o pão da nossa subsistência; perdoai-nos os nossos pecados, porque também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende; e não nos deixeis cair em tentação’». Disse-lhes ainda: «Se algum de vós tiver um amigo, poderá ter de ir a sua casa à meia-noite, para lhe dizer: ‘Amigo, empresta-me três pães, porque chegou de viagem um dos meus amigos e não tenho nada para lhe dar’. Ele poderá responder lá de dentro: ‘Não me incomodes; a porta está fechada, eu e os meus filhos estamos deitados e não posso levantar-me para te dar os pães’. Eu vos digo: Se ele não se levantar por ser amigo, ao menos, por causa da sua insistência, levantar-se-á para lhe dar tudo aquilo de que precisa. Também vos digo: Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis; batei à porta e abrir-se-vos-á. Porque quem pede recebe; quem procura encontra e a quem bate à porta, abrir-se-á. Se um de vós for pai e um filho lhe pedir peixe, em vez de peixe dar-lhe-á uma serpente? E se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião? Se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem!».



Segunda, 22: ESTAR EM ORAÇÃO

Esta semana, no coração do verão, o evangelho conduz-nos ao coração da oração cristã com o Pai nosso. Tudo começa pela oração de Jesus que são Lucas relata como um facto habitual, ordinário, mas não banal: «Estava Jesus em oração em certo lugar». Hoje, escolho o meu «certo lugar» para «estar em oração», para recitar tranquilamente um «Pai nosso».



Terça, 23: FALAR AO PAI

Dos ensinamentos de Jesus, retemos que a oração é uma conversação com alguém, aquele que é seu Pai e nosso Pai. Não Deus, mas Pai. Não Senhor, mas Pai. Hoje, entro em oração dirigindo-me a alguém que ouso chamar Pai. E repito o seu nome várias vezes, voltando-me para ele. E por que não fazê-lo a pensar, um de cada vez, nos países da Europa onde Brígida, cuja festa hoje celebramos, é padroeira?



Quarta, 24: CINCO PEDIDOS

A oração que Jesus nos ensina para dirigir ao Pai contém cinco pedidos, unidos entre eles como os cinco dedos da mão. Hoje, lentamente, falo com o Pai para lhe mencionar as cinco coisas que pedi de acordo com o ensinamento de Jesus. E não hesito em usar os dedos da minha mão!



Quinta, 25: TUDO POR UM AMIGO

Jesus completa o seu ensinamento com a pequena história de um amigo incómodo. Aí, também a oração se faz relação, e de que maneira! São Tiago, hoje festejado, viveu esta amizade incómoda com Jesus. Então, com ele, falo ao Pai da relação pessoal que desejo aprofundar com ele.



Sexta, 26: QUEM PROCURA ENCONTRA

O ensinamento seguinte de Jesus está cheio de verbos no imperativo e no futuro, ou então no presente, nas formulações mais proverbiais. Escolho um tempo para saborear todos os verbos. Para acreditar melhor na promessa que transmitem, recorro aos parentes de Maria, Ana e Joaquim, cuja festa celebramos, hoje.



Sábado, 27: ESPÍRITO SANTO

Se não soubermos o que pedir na oração dirigida ao Pai, Jesus conta uma outra pequena história entre um filho e um pai com propostas engraçadas. Jesus recorda repetidamente uma evidência: um pai não sabe dar senão coisas boas ao seu filho. Repara no que aplica à oração. E se eu pedir o melhor para mim?



Domingo, 28: OUSAMOS DIZER

Sim, que ousadia nesta oração do Pai nosso! Realizemos verdadeiramente o que Jesus nos diz para fazer, quando nos convida a entrar em oração desta maneira, isto é, como ele. Aprender a rezar — é o pedido inicial dos discípulos — conduz-nos a recordar as nossas maneiras de conversar com os familiares, particularmente com aquele e aquele que nos deu a vida, com aquele ou aquela que a recebeu através de nós. A oração cristã é uma questão de geração (gestação). Faz-nos nascer na condição de filho, filha de Deus, de irmão, irmã de Jesus, de irmão, irmã dos discípulos de todos os tempos e lugares. Que a oração nos transforme dessa forma, uma vez que temos a ousadia de dirigir ao Pai de todos.



© www.versdimanche.com
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

Preparar o décimo sétimo domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.7.13 | Sem comentários

Domingo da décima sexta semana


Evangelho segundo Lucas 10, 38-42

Naquele tempo, Jesus entrou em certa povoação e uma mulher chamada Marta recebeu-O em sua casa. Ela tinha uma irmã chamada Maria, que, sentada aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra. Entretanto, Marta atarefava-se com muito serviço. Interveio então e disse: «Senhor, não Te importas que minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe que venha ajudar-me». O Senhor respondeu-lhe: «Marta, Marta, andas inquieta e preocupada com muitas coisas, quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada».

Andas inquieta e preocupada com muitas coisas

No «caminho para Jerusalém», o evangelista quer mostrar qual é o verdadeiro perfil do discípulo, daquele ou daquela que quer seguir Jesus Cristo. É neste contexto que se insere o episódio deste domingo, em casa de Marta e de Maria.
A primeira tentação que temos de superar ao escutar (ler) o texto é querer estabelecer uma comparação e oposição entre a ação de Marta e a contemplação de Maria. Não é isso que está em causa! O que conta é a atitude de cada uma delas.
«Marta atarefava-se com muito serviço. Interveio então e disse: ‘Senhor, não Te importas que minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe que venha ajudar-me’». Marta, absorvida pelo trabalho e dominada pelo cansaço, sente-se abandonada pela irmã e incompreendida por Jesus Cristo: «Não te importas que minha irmã me deixe sozinha a servir?». 
Calma! — diz Jesus: «Andas inquieta e preocupada com muitas coisas». Jesus Cristo destaca a ansiedade do desabafo. Em nenhum momento, critica a atitude de serviço de Marta. Aliás, o serviço é também uma atitude fundamental para ser discípulo. Jesus Cristo não critica a ocupação de Marta. De facto, se analisarmos com atenção, Jesus Cristo não diz a Marta que o que ela está a fazer é errado. E acrescenta: «Maria escolheu a melhor parte». O que significa que o que Marta fazia também era bom. O que está em causa, na resposta de Jesus Cristo, é o convite a não se deixar absorver pelo trabalho a ponto de perder a paz. Jesus Cristo não despreza o esforço de Marta no cumprimento das atividades domésticas. Mas quer assinalar as prioridades; e ensinar a distinguir entre o «importante» e o «urgente». O que Jesus Cristo critica é a inquietação e a preocupação de Marta com coisas menos fundamentais. Até podem ser as mais «urgentes». Mas não são as mais «importantes». Eis um ponto importante para a nossa reflexão. Basta estar atento para perceber que muitas vezes parece que não vemos mais nada à nossa frente senão o trabalho ou as coisas que temos para fazer. Calma! — diz-nos também Jesus: «andas inquieto e preocupado com muitas coisas». É fundamental definir prioridades. E saber definir o que não se pode deixar de fora dos nossos horários, calendários, agendas e programações. Quando nos ocupamos demasiado com o «urgente», é muito fácil descuidarmos o mais «importante».
Então, como podemos proceder perante as coisas «urgentes» e as coisas «importantes» da nossa vida? Esta é a questão! E difícil é a resposta. O segredo está em ser capaz de manter o equilíbrio. Trata-se de aprender a sentir que o que fazemos tem um sabor especial quando está associado a uma paz interior, que para nós é sinal da presença de Deus. Quanto mais se apodera de nós um estilo de vida marcado pela inquietação e preocupação por muitas coisas, tanto mais corremos o risco de perder o verdadeiro sentido da vida. É fundamental termos tempo na nossa vida para amar, escutar, partilhar, rezar... São momentos para encontrar Deus. Mas, muitas vezes, o nosso ativismo não nos deixa tempo ou disposição para «perder» um bocado de tempo a sentir a presença de Deus na nossa vida. Procuremos refletir tranquilamente ao longo desta semana: Tenho disponibilidade para acolher Deus na minha vida?

© Laboratório da fé, 2013

Décima sexta semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.7.13 | Sem comentários

Palavra para hoje: décimo sexto domingo


O Deus de Abraão vem até nós, hoje. Não vemos o seu rosto, mas reconhecêmo-lo em cada assembleia. Ele torna-se presente em todos os lugares onde há seres humanos. A sua postura é quase sempre a do estrangeiro; aquele para quem olhamos com pena, mas que espera a nossa hospitalidade, tal como Jesus esperou de Marta e de Maria. Duas irmãs, tão próximas e tão diferentes, que acolheram em casa; ele, o amigo em quem cada um põe a sua confiança e que faz confiança em cada um. A Igreja surge como filigrana nestas figuras de hospitalidade. Corajosa, embora às vezes olhe apenas para si mesma e se refugie na moral, tem uma missão simples mas também difícil: anunciar «Cristo no meio de vós, esperança da glória».


Pergunta da semana: 

Tenho disponibilidade para acolher Deus na minha vida?

Palavra de Deus - Lectio divina - imagem de fano
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.7.13 | Sem comentários
Ao ritmo da liturgia


Décima sexta semana


Aprender a definir as (verdadeiras) prioridades

Geralmente, o evangelho convida-nos a estar ao lado de Marta: mãos à obra, a curar e a fazer o bem... até que compreendemos que Maria tem uma (enorme) parte da razão. Tudo o que fazemos é muito débil se não é sustentado por motivações fortes e convicções profundas. Embora não haja «melhor teoria do que uma boa prática», nós, cristãos, sabemos que há algo mais para além da prática, da ação.
Não podemos ter qualquer tipo de receio em reconhecer que o melhor é uma síntese entre a vida ativa e a contemplativa. Não nos faltam exemplos de equilíbrio entre estas duas atitudes!
O que acontece é que, enquanto sabemos bem o que a vida ativa representa, à volta do contemplativo surge sempre uma suspeita de infantilismo, de fuga à realidade, ou até de insanidade mental. Alguns santos tiveram que sofrer estas acusações.
É preciso aprender a dedicar algum tempo a educar a nossa mentalidade para uma atitude contemplativa sadia e frutuosa, aliás, a única capaz de dar um sabor especial à nossa maneira de viver. Basta estar atento para perceber que muitas vezes parece que não vemos mais nada à nossa frente senão o trabalho ou as coisas que temos para fazer (DOMINGO: «Andas inquieta e preocupada com muitas coisas»). Calma! É fundamental definir prioridades. E saber definir o que não se pode deixar de fora dos nossos horários, calendários, agendas e programações (SEGUNDA: «No dia do Juízo»). Quando nos ocupamos demasiado com o «urgente», é muito fácil descuidarmos o mais «importante» (TERÇA: «Permanecei em Mim»).
É preciso abrir espaço ao silêncio, à reflexão, à oração, ao diálogo em profundidade, à leitura (QUARTA: «Saiu o semeador a semear»), ao louvor, à ação de graças... Por que não recuperar ou incentivar à prática do «exame de consciência» (QUINTA: «Que queres?») ou de retiros espirituais? E, claro, também dedicar tempo à amizade, ao carinho (SEXTA: «Felizes os vossos olhos porque vêem e os vossos ouvidos porque ouvem!»), ao amor, à natureza, à beleza, à música, à estética... a tudo aquilo que alimenta a dimensão espiritual (SÁBADO: «boa semente») de cada pessoa, de cada um de nós.

Muitas vezes, o nosso ativismo não nos deixa tempo ou disposição para «perder» um bocado de tempo a sentir a presença de Deus na nossa vida. Procuremos refletir tranquilamente ao longo desta semana: Tenho disponibilidade para acolher Deus na minha vida?

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial
© Laboratório da fé, 2013

Décima sexta semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.7.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo sexto domingo

21 DE JULHO DE 2013

Evangelho segundo Lucas 10, 38-42

Naquele tempo, Jesus entrou em certa povoação e uma mulher chamada Marta recebeu-O em sua casa. Ela tinha uma irmã chamada Maria, que, sentada aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra. Entretanto, Marta atarefava-se com muito serviço. Interveio então e disse: «Senhor, não Te importas que minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe que venha ajudar-me». O Senhor respondeu-lhe: «Marta, Marta, andas inquieta e preocupada com muitas coisas, quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada».



Marta recebeu-O em sua casa.
Maria escolheu a melhor parte.

No caminho para Jerusalém, Jesus é acolhido em Betânia, em casa de uma família amiga composta por três irmãos: Marta, Maria e Lázaro. Lucas conta um episódio, que não se encontra nos outros evangelhos, cujas protagonistas são Marta e Maria (Lucas 10, 38-42). Recordemos que Lucas gosta de narrar factos em que as mulheres estão presentes.
Segundo a interpretação tradicional, Marta e Maria são duas personagens simbólicas, que representam o trabalho e a contemplação. O mesmo esquema parece seguir o autor do quarto evangelho, na ressurreição de Lázaro (João 11, 20.30) e na unção em Betânia (João 12, 2-3). Na realidade, o elemento fundamental do ensinamento de Jesus é muito diferente do que é proposto pela interpretação tradicional. O que interessa não é tanto o que Marta ou Maria realizam, ações certamente distintas, mas a atitude de fundo com que atuam. Não se trata de comparar ação e contemplação, para desqualificar a primeira e enaltecer a segunda, mas de dar a primazia à escuta da Palavra de Deus que deve preceder, alimentar e suportar qualquer opção religiosa e humana. Por isso, Maria converte-se no modelo do verdadeiro discípulo. Lucas apresenta-a numa posição típica do discípulo: «sentada aos pés de Jesus, a escutar a sua palavra. Escutar é aceitar, conservar e saborear na profunda intimidade do ser, tal como fazia Maria de Nazaré (cf. 2, 19.51).
No fundo, também Maria desejava escutar Jesus, mas deixou-se absorver pelo serviço. Queria fazer várias coisas ao mesmo tempo, enquanto Maria se concentrou numa só. Marta queixa-se do comportamento da irmã, mas Jesus não a apoia. Em lugar de censurar a negligência, Jesus responde a Marta com a intenção de a aconselhar e ajudar a refletir. O serviço em demasia, às vezes, pode resultar em dispersão. Podem-se fazer muitas coisas por Jesus, esquecendo o essencial, isto é, a escuta da sua palavra.

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



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    Décimo sexto domingo, Ano C
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.7.13 | Sem comentários

    PROPOSTA PARA O DÉCIMO SEXTO DOMINGO


    Ao longo de várias semanas, seguindo a proposta de Miquel Raventós, na revista «Misa dominical», sugerimos um texto relacionado com o II Concílio do Vaticano para ser lido na eucaristia dominical: no final da homilia ou no silêncio da comunhão ou quando parecer mais oportuno...

    Sublinhamos dois fragmentos do discurso de Paulo VI, na abertura do terceiro período conciliar, no dia 14 de setembro de 1964. O primeiro assinala o que representa o Concílio para os padres conciliares: «O Concílio representa para nós um momento de profunda docilidade interior, momento de adesão perfeita e filial à palavra do Senhor, momento de tensão fervorosa, de súplica e de amor, momento de embriaguez espiritual. Que bem se aplicam ao acontecimento singular, que estamos a realizar, as expressões poéticas de S. Ambrósio: 'Bebamos com alegria a embriaguez sóbria do espírito'».
    Mais adiante encontramos esta referência, ainda hoje surpreendente, sobre a centralização romana: «A centralização será sempre moderada e encontrará compensação no cuidado atento de se fornecerem aos pastores locais as faculdades convenientes e os serviços úteis. A centralização nada tem de artifício para exaltar; é apenas serviço, irmãos, é interpretação do espírito unitário e hierárquico da Igreja; é o ornamento, a força e a beleza inerentes à promessa de Cristo, que Ele vai concedendo à sua Igreja, conforme os tempos o permitem». Cinquenta anos depois ainda nos surpreendemos com estas palavras!
    © tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013



    • Outros textos relacionados com esta proposta
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    Ano da fé (2012-2013), Papa Francisco
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.7.13 | Sem comentários
    Encuentros con la Palabra — blogue de Hermann Rodríguez Osorio

    Se me estou a lembrar bem, há alguns meses, circulou pela internet uma história de um mestre que entrou numa sala de aulas com um vasilha de cristal muito grande e encheu-a de pedras diante dos alunos. Depois de a encher, perguntou as estudantes: Acham que esta vasilha está cheia? Sim, responderam todos ao mesmo tempo. Então, o mestre tirou da mala uma saca com alguns pedras mais pequenas e deixou-as cair dentro da vasilha, nos espaços que existiam entre as pedras maiores. O mestre voltou a perguntar: Agora sim, acham que esta vasilha está cheia? Houve um momento de dúvida e hesitação nas respostas. O mestre pegou numa saca com areia e largou-a lentamente sobre a vasilha. Pouco a pouco, a areia foi enchendo os espaços deixados entre as pedras grandes e as pequenas. Por fim, o mestre perguntou: Será que desta vez a vasilha está cheia? Alguém se atreveu a dizer que não. De modo que o mestre tirou uma garrafa de água e regou todo o conteúdo até praticamente encher a vasilha. Não recordo se mesmo assim a vasilha ficou cheia, porque ocorre-me que se poderia junto alguma coisa para pintar a água ou deitar sal que acaba por se dissolver na água.
    No final da história, o mestre pergunta aos estudantes: quais são as pedras maiores das vossas vidas? Se não as colocarmos no início, depois não haverá espaço para elas. É fundamental definir prioridades e saber o que é que não se pode deixar fora dos nossos horários, calendários, agendas e programações. Quando nos ocupamos do «urgente», é muito provável deixarmos o mais «importante» fora das nossas vidas. Algo parecido acontece com Marta, no evangelho do décimo sexto domingo.
    «Naquele tempo, Jesus entrou em certa povoação e uma mulher chamada Marta recebeu-O em sua casa. Ela tinha uma irmã chamada Maria, que, sentada aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra. Entretanto, Marta atarefava-se com muito serviço. Interveio então e disse: 'Senhor, não Te importas que minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe que venha ajudar-me'. O Senhor respondeu-lhe: 'Marta, Marta, andas inquieta e preocupada com muitas coisas, quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada'».
    Isto não quer dizer que Jesus estava a patrocinar a preguiça de Maria. Nem muito menos a desprezar o esforço de Marta no cumprimento das atividades domésticas. Mas Jesus quer assinalar as prioridades e distinguir entre o «importante» e o «urgente». O que Maria estava a fazer era a ouvir as palavras de Jesus. Muitas vezes, o nosso ativismo não nos dá tempo para nos sentarmos a escutar o mestre, num pequeno momento de oração, ou então para escutar os outros. Quanto tempo dedicamos a escutar os que vivem connosco? Muitas vezes, temos coisas para dizer, mas não as dizemos porque não vemos nos outros a disposição para se sentarem, tranquilamente; nem queremos «perder» um bocado de tempo a escutar os outros ou a escutar Deus
    Zenão de Elias, vários séculos antes de Cristo, dizia: «Deram-nos duas orelhas e uma única boca, para escutarmos mais e falarmos menos». Recordar esta experiência de Jesus com Marta e Maria deve interrogar-nos sobre as nossas prioridades; e a rever se temos colocado no seu devido lugar as pedras mais «importantes», antes das «urgentes»...

    © Hermann Rodríguez Osorio, SJ

    © tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
    A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



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    Décimo sexto domingo, Ano C
    Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.7.13 | Sem comentários
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