As «chaves» do Concílio


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


Pois, comunicando o seu Espírito, constituiu como seu Corpo todos os seus irmãos, chamados de entre todos os povos.
É nesse Corpo que a vida de Cristo se difunde nos que crêem, unidos de modo misterioso e real, por meio dos sacra­mentos, a Cristo padecente e glorioso. Ao participar realmente do Corpo do Senhor, na fração do pão eucarístico, somos eleva­dos à comunhão com Ele e entre nós. «Porque há um só pão, nós, que somos muitos, formamos um só corpo, visto partici­parmos todos do único pão» (1Coríntios 10, 17). E deste modo nos tornamos todos membros desse corpo (cf. 1Coríntios 12, 27), sendo «individualmente membros uns dos outros» (LG 7).

Antecedentes
Os bispos reunidos no Concílio Vaticano II acharam que já não era adequado falar da Igreja apenas em termos das suas estruturas institucionais e jurídicas, aplicando a noção de «Igreja militante» ou o modelo de uma «sociedade perfeita» de Roberto Belarmino. Para melhor expressar a vocação da Igreja tanto nas suas dimensões divina/espiritual como humana/institucional, optaram por uma abordagem mais sacramental. Isso reflete-se no conceito da «Lumen Gentium» da Igreja como sacra­mento de unidade ou de comunhão desejado por Deus para toda a humanidade (LG 1). A Igreja como «koinonia-comunhão» é apre­sentada ainda como povo peregrino reunido e conduzido por Deus no seu caminho através da história para a plena realização da sua chamada. O conceito da Igreja como sacramento é moldado por uma teologia encarnacional centrada numa compreensão de como o amor de Deus nos é revelado na humanidade de Jesus de Nazaré e através dele. Ao dizer que a Igreja é como um sacramento, a «Lumen Gentium» afirma que Cristo continua a operar no mundo, nessa mesma comunidade humana e por meio dela. Vimos que o Espírito Santo suscita a nossa comunhão ou «koinonia» com Cristo e uns com os outros, permitindo que a Igreja seja esse sinal e agente de comunhão no mundo. A comunhão, tal como o Vaticano II entende a Igreja, é mais aprofundada nas reflexões conciliares sobre a ligação entre a Eucaristia e a vida da Igreja. Um regresso ao ensinamento do Novo Testamento e dos Padres da Igreja foi decisivo para a redescoberta de uma eclesiologia eucarística por parte da teologia católica.


Participando («koinonia») no Corpo de Cristo

Os escritos neotestamentários de São Paulo mantêm conti­nuamente em equilíbrio a nossa relação pessoal de comunhão com Cristo e a nossa comunhão com todos os fiéis batizados, simultaneamente significada na Eucaristia. Para São Paulo, o vín­culo de unidade que celebramos na Ceia do Senhor não pode ser reduzido a uma ligação entre o crente individual e Cristo. A comunhão em que somos incorporados mediante o dom do Espírito tem uma dimensão tanto vertical como horizontal. A nossa relação com Cristo é inseparável de uma longa e nova série de relações — na qual nos introduz — com todos aqueles que pertencem ao seu Corpo e que constituem as primícias de uma nova humanidade transformada na sua imagem. Quando surgem divisões, na comunidade de Corinto, à mesa do Senhor, Paulo não hesita em criticar a sua incapacidade de discernir a presença do seu Corpo — não só no pão e no vinho, mas também nas suas relações mútuas. Quando os irmãos não mostram reverência pelos outros ou os tratam injustamente, Paulo considera a sua participação na Eucaristia uma forma de «idolatria» ou de falso culto. Nesse contexto, recorda-lhes a «koi­nonia» de que todos participam (1Coríntios 10, 16-17). O ensinamento de Paulo é uma exortação a seguir uma ética consistente em termos de atos comunitários; os seus atos devem ser conformes com a realidade que celebram na Eucaristia.
Essa eclesiologia eucarística será mais desenvolvida nos escri­tos de Santo Agostinho, o qual explica que de cada vez que recebemos a Eucaristia, a realidade que recebemos através dos sinais sacramentais do pão e do vinho é, ao mesmo tempo, o Corpo e o Sangue de Cristo e a unidade da Igreja. Comentando a carta de Paulo aos Colossenses, afirma ele: «Tornais-vos o pão, ou seja, o corpo de Cristo». Agostinho leva por diante a linha de pensamento paulina que une o Corpo eucarístico e o Corpo eclesial. São dois aspetos indivisíveis de uma única realidade. Tornamo-nos mais profundamente incorporados em Cristo através do me­morial eucarístico. Com efeito, o significado central da Eucaristia é o amor, o amor de Cristo derramado por nós no mistério pascal, o mesmo amor do qual participamos de cada vez que pomos de parte os nossos interesses pessoais e nos voltamos para os outros. Por isso, Agostinho argumentava que a Eucaristia era uma pedagogia da vida cristã, onde aprendemos que o amor a Deus e o amor ao próximo não são realidades separadas. A experiência do amor de Deus amplia a nossa capacidade de amar os outros.

© Richard R. Gaillardetz - Catherine E. Clifford
© Paulinas Editora, 2012
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Catherine E. Clifford e Richard R. Gaillardetz, As «chaves» do Concílio, Paulinas Editora, Prior Velho, 2012 (material protegido por leis de direitos autorais)


  • Eclesiologia eucarística [1]  [2]  [3]  [4]  [5]  [6]


Reflexões sobre a Igreja no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.7.13 | Sem comentários
Ao ritmo da liturgia


Décima quarta semana


Sempre a partir do Evangelho

Seguir Jesus Cristo e estar à sua disposição (ser «missionário») tem uma técnica! Sempre a partir do Evangelho, claro, é preciso aprendê-la e renová-la continuamente.
Evangelizar não é algo que acontece espontaneamente: ou porque não sabemos como fazê-lo, ou porque temos vergonha, ou porque somos preguiçosos... Por isso, é tão importante uma comunidade que te acolha; e que também te estimule, que te «obrigue» a ser consequente com a tua fé professada.
Quanto às técnicas... não seria hora de mudar alguma coisa depois de dois mil anos? Podemos continuar com os mesmos ritos medievais, mesmo que agora o façamos em português? Podemos continuar a falar, hoje, como o fazia São Tomás de Aquino, num tempo em que não havia internet? Quanto tempo vamos continuar a viver «cristalizados»? 
Na evangelização, existe muita rotina e muita repetição. Atualmente, fala-se de uma «nova evangelização». Mas porque não começamos pelas raízes, corre-se o risco de se ficar por uma nova frustração (a dizer que a culpa é sempre dos outros).
Como vivo, no dia a dia, a dimensão missionária da fé? 
Seguir Jesus Cristo não é só para a nossa realização pessoal, mas para fazer com que se torne presente o reino de Deus (DOMINGO: «Está perto de vós o reino de Deus»).
Eis alguns conselhos (diários) para concretizar esta missão: antes de começar, deixa que o teu coração se encha de Deus (SEGUNDA: «Tem confiança»); invoca a sua presença, na oração (TERÇA: «Pedi ao Senhor da seara»); para ser eficaz, é preciso escutar as pessoas, conhecer os seus problemas, a começar pelos mais frágeis e pelos que estão mais afastados (QUARTA: «Ide primeiramente às ovelhas perdidas»); pratica boas obras (QUINTA: «Receberá cem vezes mais»), pois nada convence mais do que o exemplo de vida; não te conformes com a caridade: procura e combate as causas do mal (SEXTA: «Aquele que perseverar até ao fim, esse será salvo»); podes fazer tudo isto sozinho, mas é muito melhor acompanhado, a começar pela companhia de Jesus Cristo (SÁBADO: «Também Eu Me declararei por ele»).

Não te preocupes demasiado com os resultados. Ao longo desta semana, deixa-te iluminar por esta máxima: «A vossa alegria não depende dos resultados, mas de saber que os vossos nomes estão escritos entre os que trabalham pelo reino de Deus, como Jesus Cristo».

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial
© Laboratório da fé, 2013

Décima quarta semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.7.13 | Sem comentários

Palavra para hoje: décimo quarto domingo


A leitura de Isaías começa pelo anúncio de uma Boa Nova para Jerusalém. Uma fantasia? Não. Virá o tempo em que Jerusalém será o ponto a partir do qual a luz de Deus brilhará sobre todo o mundo. A alegria que Deus promete acontecerá com uma evidente simplicidade: «Como a mãe que anima o seu filho, também Eu vos confortarei». Mas tudo tem um preço. Paulo testemunha-o: «trago no meu corpo os estigmas de Jesus». É para esta cruz, que precede a Ressurreição, que Jesus Cristo caminhou com o desejo apaixonado de nos «enriquecer com a sua pobreza» (2Coríntios 8, 9); vai em frente no seu caminho, enriquecido por uma Boa Nova. Anuncia-o com sabedoria e prodigalidade: Deus é dom incessante.


Pergunta da semana: 

Como vivo, no dia a dia, a dimensão missionária da fé?

Palavra de Deus - Lectio divina - imagem de fano
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.7.13 | Sem comentários
Encuentros con la Palabra — blogue de Hermann Rodríguez Osorio

Certo dia, um turista que foi visitar um sábio que vivia numa cabana, no meio de uma montanha. Ao entrar, deu conta que o velho tinha apenas um colchão no chão e alguns livros amontoados desordenadamente. O visitante, estranhando, perguntou: «Desculpe, mas onde estão os seus móveis?». O ancião olhou com calma para o visitante e respondeu: «Onde estão os seus?». «Mas eu estou aqui apenas de passagem», replicou o turista. O sábio sorriu ligeiramente e continuou: «Eu também estou de passagem nesta vida; e mal seria de mim se tivesse que carregar toda a vida os armários do meu passado».
Quando Jesus enviou os setenta e dois discípulos à sua frente a todos os lugares aonde havia de ir, deu-lhes estas instruções: «A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao dono da seara que mande trabalhadores para a sua seara. Ide: Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos. Não leveis bolsa nem alforge nem sandálias, [...] comei e bebei do que tiverem, que o trabalhador merece o seu salário». Jesus queria que os seus discípulos fossem sem muitos seguranças, para aprenderem a colocar a confiança apenas nele e não nos meios que tinham para realizar a missão.
Parece que há uma relação proporcional entre a quantidade de meios que temos para realizar a nossa missão e a confiança que depositamos em Deus. Quanto mais meios, menos confiança em Deus. Quanto menos meios, mais confiança. Os meios não são maus. Por certo que são necessários para realizar muitas coisas que consideramos necessárias e boas para nós e para os que nos rodeiam. Mas não podemos esquecer o perigo de andar tão preocupados com o dinheiro, a comida, as sandálias. A missão é do Senhor. Ele é o Dono da colheita. Por isso, não só temos de lhe pedir que mande trabalhadores para recolher a colheita, mas também que mande os meios necessários para construir o reino neste mundo.
Isto não quer dizer que não temos de trabalhar, muito menos que não temos de pedir a Deus pelo que nos pre-ocupa e ocupa. «A Deus rogando, e com o maço dando», afirma o provérbio popular. Neste sentido, temos de viver aquilo que Santo Inácio de Loyola tinha sempre presente em todas as tarefas, segundo nos conta o Padre Pedro de Ribadeneira, um dos seus biógrafos: «Nas coisas que realizava de serviço a Nosso Senhor, usava todos os meios humanos para as executar com cuidado e eficácia, como se delas dependesse o êxito; e de tal maneira confiava em Deus e estava dependente da Divina Providência, como se não fizessem faltam todos os meios humanos de que dispunha». Como quem diz: «Há que fazer as coisas como se tudo dependesse de nós e nada de Deus. Mas há que confiar em Deus como se tudo dependesse dele e nada de nós».
A mensagem central que os setenta e dois tinham para anunciar era a iminência do reino: «Está perto de vós o reino de Deus». Hoje, temos que anunciar o mesmo aos nossos contemporâneos. Por isso, como o sábio, deveríamos estar livres de bagagem, sem carregar a nossa vida com todos os armários do nosso passado.

© Hermann Rodríguez Osorio, SJ

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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Décimo quarto domingo, Ano C
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.7.13 | Sem comentários

PROPOSTA PARA O DÉCIMO QUARTO DOMINGO


Ao longo de várias semanas, seguindo a proposta de Miquel Raventós, na revista «Misa dominical», sugerimos um texto relacionado com o II Concílio do Vaticano para ser lido na eucaristia dominical: no final da homilia ou no silêncio da comunhão ou quando parecer mais oportuno...

No dia 29 de setembro de 1963, «sob a égide do arcanjo São Miguel, celestial protector do Povo de Deus», teve lugar o discurso de Paulo VI, na abertura do segundo período conciliar. Um longo discurso, digno de ser lido pausadamente.
Sublinhamos dois aspetos, sem pretensão de resumir o documento: a continuidade da obra começada por João XXIII; a centralidade da figura de Cristo.
Retomando as palavras de João XXIII, Paulo VI recorda um dos objetivos do Concílio: «para que o sagrado depósito da doutrina cristã seja conservado e proposto com maior eficácia»; investigar e expor a doutrina eclesiástica como «pedem os nossos tempos». «Nenhuma outra luz se veja sobre esta reunião que não seja Cristo, luz do mundo; nenhuma outra verdade interesse as nossas almas, que não sejam as palavras do Senhor, nosso único mestre; nenhuma outra aspiração nos guie, que não seja o desejo de Lhe sermos absolutamente fiéis».
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013



  • Outros textos relacionados com esta proposta
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Ano da fé (2012-2013), Papa Francisco
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.7.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo quarto domingo

7 DE JULHO DE 2013

Evangelho segundo Lucas 10, 1-12.17-20

Naquele tempo, designou o Senhor setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. E dizia-lhes: «A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao dono da seara que mande trabalhadores para a sua seara. Ide: Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos. Não leveis bolsa nem alforge nem sandálias, nem vos demoreis a saudar alguém pelo caminho. Quando entrardes nalguma casa, dizei primeiro: ‘Paz a esta casa’. E se lá houver gente de paz, a vossa paz repousará sobre eles; senão, ficará convosco. Ficai nessa casa, comei e bebei do que tiverem, que o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa. Quando entrardes nalguma cidade e vos receberem, comei do que vos servirem, curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: ‘Está perto de vós o reino de Deus’. Mas quando entrardes nalguma cidade e não vos receberem, saí à praça pública e dizei: ‘Até o pó da vossa cidade que se pegou aos nossos pés sacudimos para vós. No entanto, ficai sabendo: Está perto o reino de Deus’. Eu vos digo: Haverá mais tolerância, naquele dia, para Sodoma do que para essa cidade». Os setenta e dois discípulos voltaram cheios de alegria, dizendo: «Senhor, até os demónios nos obedeciam em teu nome». Jesus respondeu-lhes: «Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago. Dei-vos o poder de pisar serpentes e escorpiões e dominar toda a força do inimigo; nada poderá causar-vos dano. Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos antes porque os vossos nomes estão escritos nos Céus».



O evangelho segundo Lucas também é chamado evangelho do Espírito Santo. Este é, justamente, um dos aspetos mais característicos, não só do evangelho, mas de toda a obra de Lucas: evangelho e Atos dos Apóstolos. O Espírito Santo é citado cerca de sessenta vezes; e podemos afirmar, com razão, que está presente desde o início até ao fim da obra. No primeiro capítulo do evangelho, encontramos quatro referências. Cito as duas primeiras. No anúncio do nascimento do Batista diz: «será cheio do Espírito Santo desde o ventre materno» (cf. Lucas 1, 15). No anúncio do nascimento de Jesus, o anjo diz a Maria: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra» (cf. Lucas 1, 35).
O mesmo acontece no primeiro capítulo do Atos dos Apóstolos: também é citado por quatro vezes (cf. Atos 1, 2.5.8.16). No prólogo (cf. Atos 1, 8), Jesus, o Vivente, diz: «Quando o Espírito Santo descer sobre vós, recebereis a força para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia, na Samaria, e até aos confins do mundo». É o mesmo Espírito que conduz a Igreja, hoje se sempre.

© Miquel Raventós, Misa dominical
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013



Lucas 10, 1-12.17-20

A vossa paz repousará sobre eles


Situada no início do «caminho para Jerusalém» (Lucas 9, 51 — 19, 28), a página do evangelho referente ao décimo quarto domingo (Lucas 10, 1-20) oferece-nos uma síntese sobre a missão cristã. Nela, distinguem-se três partes: versículos 1-12 (várias instruções aos discípulos); versículos 13-16 — omitidos no texto litúrgico (ameaças contra os insubmissos); versículos 17-20 (o regresso dos discípulos).
Lucas apresenta Jesus a organizar uma missão para as povoações que vai visitar. Desta vez, envia 72 discípulos, para indicar que a missão não é exclusiva dos Doze, mas de toda a comunidade eclesial. O número escolhido é emblemático e indica tanto a fonte da missão (os 70 anciãos de Israel, antecipação da Igreja), como os destinatários, isto é, o número das nações pagãs enumeradas no «mapa das nações», no livro dos Génesis (capítulo 10), que indica a totalidade dos povos da terra. Assim, o horizonte da missão da Igreja é universal. Além disso, no primeiro versículo, encontramos uma bela definição de discípulo e missionário: vai «à frente» de Jesus, precede-o como precursor. Jesus envia-os «dois a dois», para que o seu testemunho tenha valor jurídico como exigia a lei (Deuteronómio 17, 6; 19, 15).
Os compromissos principais do missionário são três. Primeiro, a oração, «pedi», pois a fecundidade missionária nasce do contacto vivo e pessoal com Deus. Segundo, anunciar o Evangelho com paz, serenidade e valentia, mesmo perante a ameaça de perseguição («como cordeiros para o meio de lobos»). Propor, nunca impor ou forçar. Terceiro, ter uma vida sóbria e austera. Definitivamente, viver segundo o estilo de Jesus (cf. 9, 58).
Terminado o trabalho, os discípulos voltam para junto do Senhor. O mal afasta-se («obedeciam») perante a força avassaladora do Evangelho. O entusiasmo é inevitável, mas Jesus trava-o, para entenderem que a verdadeira alegria não está no poder ou no êxito, mas em ter os nomes «escritos nos Céus» (versículo 20).

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



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Décimo quarto domingo, Ano C
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.7.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [36]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

«Desde o século IV, todas as comunidades cristãs fazem, na sua profissão de fé, esta afirmação: ‘Creio na Igreja santa’. Qual é o verdadeiro significado desta ‘verdade’ que ganhou lugar no credo dos cristãos?» (Manuel Madureira Dias, «Igreja, que dizes de ti mesma? Reflexões sobre a Lumen Gentium», Paulinas Editora, Prior Velho, 2013, 170). [Para ajudar a compreender melhor, ler: Efésios 5, 25-27; Catecismo da Igreja Católica, números 823-829; para um aprofundamento sobre a Igreja propomos a leitura da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» — do II Concílio do Vaticano]

«Santa e imaculada» — são as duas características que a Carta aos Efésios relaciona com a Igreja em virtude do amor de Jesus Cristo. Ao falar da relação entre os esposos, Paulo sugere como modelo a relação de Jesus Cristo com a Igreja. Ele amou-a e entregou-se por ela, «para a santificar». Neste contexto, o autor da Carta aos Efésios retoma o simbolismo nupcial utilizado pelos profetas (Oseias, Jeremias, Isaías) para descrever o amor de Deus pelo seu povo. É este amor de Deus que se torna a fonte da santidade da Igreja. «A Igreja é, no dizer da Lumen Gentium, constituída por Cristo como ‘novo Povo de Deus, como nação santa, que, agora, é verdadeiro Povo de Deus’, na sequência do Povo da Antiga Aliança, e que foi constituído por Deus ‘para que o servisse na santidade’. [...] O plano de Deus em relação ao seu Povo é um só: que esse Povo seja santo. Aliás, as afirmações sobre a santidade de Deus, feitas pelo Antigo Testamento, têm sempre, unido a elas, o convite para que ele seja santo, porque Deus é Santo. E, para que não restem dúvidas [...], os apelos à santidade repetem-se, para eles, com boas razões, em diversas passagens dos livros do Novo Testamento (Manuel Madureira Dias, 156-157).

Santa. A santidade da Igreja é resumida, no Catecismo da Igreja Católica (número 867), com esta afirmação: «A Igreja é santa: é seu autor o Deus santíssimo; Cristo, seu Esposo, por ela se entregou para a santificar; vivifica-a o Espírito de santidade. Embora conte no seu seio pecadores, ela é ‘sem pecado feita de pecadores’». Em primeiro lugar, a Igreja é santa na sua origem. Ela tem a sua fonte na santidade de Deus. «A Igreja é santa, antes de mais, pela sua pertença a Deus, em Cristo, pelo Espírito Santo. Deus escolheu-a em Cristo, fez aliança com ela, consagrou-a, e fez dela lugar da sua habitação. Esta é, pois, a grande razão da santidade da Igreja» (Manuel Madureira Dias, 171). Aliás, qualquer abordagem sobre a Igreja tem sempre como primeira referência o próprio Deus. Por isso, o que dissemos sobre a unidade da Igreja (cf. tema 34), dizemos também sobre a sua santidade. «A unidade da Igreja não tem origem em si mesma, mas na santidade de Deus que a envia em missão ao coração do mundo. A santidade da Igreja não é mais evidente que a sua unidade. É aos olhos da fé que a Igreja é indefetivelmente santa. Não é santa pelas pessoas que a compõem e que seriam melhores que os outros. É a Igreja que Deus santifica sem cessar. É, ao mesmo tempo, santa e chamada a purificar-se vivendo do perdão do Pai. [...] A Igreja deve pedir cada dia a Deus a santificação e a santidade» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 155-156). A origem da Igreja é também a sua meta. «A Igreja, à qual todos somos chamados e na qual por graça de Deus alcançamos a santidade, só na glória celeste alcançará a sua realização acabada, quando vier o tempo da restauração de todas as coisas» (Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» [LG], 48). Entretanto, como membros, não podemos afirmar a santidade da Igreja sem assumirmos, pessoal e comunitariamente, um compromisso de conversão, de permanente arrependimento e uma disponibilidade para renovar a nossa maneira de viver. «A Igreja, contendo pecadores no seu próprio seio, simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação, exercita continuamente a penitência e a renovação» (LG 4). Neste sentido, podemos afirmar que a Igreja também é santa na sua missão, ou melhor, é «santificante»: tem como finalidade contribuir para a santificação de todos os seus membros. «A Igreja, unida a Cristo, é santificada por Ele. Por Ele e n’Ele torna-se também santificante» (Catecismo da Igreja Católica, 824). O II Concílio do Vaticano, na Constituição Dogmática sobre a Igreja («Lumen Gentium»), apresenta um capítulo (número 39 a 42) onde recorda a «vocação de todos à santidade na Igreja».

Una e santa na sua origem, a Igreja tem como missão levar a unidade e a santidade a todos os seres humanos. A sua missão é universal, isto é, católica.

© Laboratório da fé, 2013

Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé  Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.7.13 | Sem comentários

A missão no Laboratório da fé


Era noite, a rua estava deserta. O frio vagueava por todo o lado. Um velho, descalço e sujo cantava na rua esta canção:

Menino de rua
Perdido na lama escura.
Olhando a lua,
o único gesto de doçura,
que o Criador Te deu.
Estás só, sem ninguém.
A guerra deixou-te órfão,
sem amor de pai nem mãe
à procura de uma mão
que te dê um pouco de céu.
A alegria que me dás,
é o sorriso que não tenho
e que tua alma leda traz
sempre que ao teu encontro venho.
Vou partir!
Levando o teu sorriso.
Um dia voltarei...
Para amar
O que não amei.
Voltarei...
Não para ser mais um
Mas para ser contigo...

Parei para ouvir aquela doce melodia, que me trouxe paz à porta da vida. Não lhe dei moedas. Em silêncio sentei-me ao seu lado.
— A canção é verdadeira, perguntei-lhe eu.
— É, respondeu ele, com um olhar mais triste, do que a noite que nos envolvia.
— Estou a ver que já foi aventureiro.
— Foi à muito tempo. Era eu jovem e sonhador. Andava na universidade e até pensei em ser um grande homem. Parti, como voluntário para a Angola e em 2 meses realizei o maior sonho da minha vida. Amar sem medida, andar com os bolsos vazios e com o coração cheio de felicidade. Dormi na rua, ao lado de crianças abandonadas. Comi com elas, os restos que deitavam no contentor da Mutamba. Senti que não era ninguém e que era tudo ao mesmo tempo. Um dia, num abrigo encontrei o menino mais maravilhoso que conheci até hoje. Chamava-se Jerry, era um nome americano que ele tinha adoptado, quando viu pela primeira vez televisão. Jerry, tinha 10 anos, era engraxador de sapatos e lavava carros em frente à Assembleia Nacional. Ganhava para comer uma baguete com atum. Aquele miúdo era deslumbrante. Tinha uma alegria invulgar e era verdadeiramente companheiro daqueles que tinham tido a mesma sorte que ele. Os pais tinham morrido na guerra. Ele tinha sido levado para o campo de refugiados de Viana, que ficava a 20 quilómetros de Luanda. Como não tinha comida, decidiu fugir para a cidade e ali estava como um dos sobreviventes das noites frias e dos balas sem compaixão... Ensinei-lhe algumas letras e até lhe dei aulas de boas-maneiras, para pedir dinheiro aos senhores ricos que dormiam nos hotéis da cidade. Ele aprendia tudo e pagava os favores que lhe faziam com um sorriso profundo que tocava bem lá dentro... Aprendi muitas coisas com ele. No dia do meu regresso a Portugal fiz-lhe uma promessa, que um dia havia de voltar para sempre. Tenho gravado no meu coração o olhar dele. No dia em que me vim embora, senti que alguém tinha morrido para ele e via o caixão partir. Abanou as mãos para dizer adeus e deixou as lágrimas como sinal de despedida. No percurso que fiz para o aeroporto não disse uma palavra, foram quilómetros de olhares perdidos em recordações que cheiravam a saudade. A noite apoderou-se de mim e levou-me, mais uma vez, a repensar o porquê de partir, quando ainda muito havia para partilhar. A única coisa que me deu ânimo foi a promessa que lhe tinha feito, mas...(as lágrimas lavavam a cara do velho).

Missão no Laboratório da fé, 2013 — Padre João Miguel Torres Campos

— Bonita história! Disse-lhe eu para não o fazer chorar mais.
— Disse bem, história! Porque eu nunca cumpri a promessa que fiz. E isso, marcou para sempre o meu destino. Eu trabalhei durante muitos anos num orfanato, até ao dia em que fui despedido. E com isso, foi pagando um pouco da dívida que tinha para com o Jerry. Amei outros como ele. Gostei da vida que tive. O meu mundo tornou-se mais eloquente quando abri os braços e fui pai e mãe de quem necessitava do meu amor, do meu sorriso e carinho
— A vida tem destas coisas. Nem sempre podemos medir o futuro como queríamos. Não podemos parar no tempo e medir as coisas pelo lado sentimental, temos que deixar falar os acontecimentos que impossibilitaram o cumprimento dessa promessa, mesmo que isso lhe custe muito.
O Jerry, foi para mim, uma forma bonita, completa, de viver a vida. Ele não era noite, mas era sempre madrugada a raiar no nascer de cada dia e que tocava em mim música de felicidade, mesmo quando a tristeza batia à porta da vida. Ninguém como ele me ensinou a viver. Agora deixo-o bailar em mim, mesmo quando já não dançamos a mesma música, embora tenha a certeza que nos tocamos mutuamente. Acredito que ele é a voz e a palavra que nunca irão acabar, por isso ele ainda continua a ser nas minhas canções. Agora canto nesta rua a história que mudou a minha vida. A história do menino de rua, para que outros como eu amem as crianças. Amem os Jerry’s que andam por aí.

Padre João Miguel Torres Campos

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.7.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo quarto domingo

7 DE JULHO DE 2013

Evangelho segundo Lucas 10, 1-12.17-20

Naquele tempo, designou o Senhor setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. E dizia-lhes: «A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao dono da seara que mande trabalhadores para a sua seara. Ide: Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos. Não leveis bolsa nem alforge nem sandálias, nem vos demoreis a saudar alguém pelo caminho. Quando entrardes nalguma casa, dizei primeiro: ‘Paz a esta casa’. E se lá houver gente de paz, a vossa paz repousará sobre eles; senão, ficará convosco. Ficai nessa casa, comei e bebei do que tiverem, que o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa. Quando entrardes nalguma cidade e vos receberem, comei do que vos servirem, curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: ‘Está perto de vós o reino de Deus’. Mas quando entrardes nalguma cidade e não vos receberem, saí à praça pública e dizei: ‘Até o pó da vossa cidade que se pegou aos nossos pés sacudimos para vós. No entanto, ficai sabendo: Está perto o reino de Deus’. Eu vos digo: Haverá mais tolerância, naquele dia, para Sodoma do que para essa cidade». Os setenta e dois discípulos voltaram cheios de alegria, dizendo: «Senhor, até os demónios nos obedeciam em teu nome». Jesus respondeu-lhes: «Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago. Dei-vos o poder de pisar serpentes e escorpiões e dominar toda a força do inimigo; nada poderá causar-vos dano. Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos antes porque os vossos nomes estão escritos nos Céus».



Segunda, 1: DOIS A DOIS

Um discípulo nunca está por sua conta. Partilha a missão com outros, trabalha para Outro. Tornar-se discípulo não se improvisa! Ser enviado dois a dois dá segurança, permite mútua assistência e, sobretudo, evita tomar-se por Deus, anunciar-se a si mesmo. Na minha oração, nomeio os meus companheiros de jornada.



Terça, 2: À FRENTE DELE

A evangelização não é uma estratégia. Mas não se trata de ir para qualquer sítio ou não definir objetivos. Jesus sabe onde vai e envia os discípulos a esses lugares aonde havia de ir. A orientação está bem definida. Peço para ser reconhecido como enviado à frente dele.



Quarta, 3: COMO CORDEIROS

O que caracteriza os cordeiros é a doçura e a fragilidade. Um cordeiro é uma presa fácil, sem defesa. Também os discípulos, porque não têm senão o Evangelho para anunciar. «Quando sou fraco, então é que sou forte», diz São Paulo. É o que experimenta São Tomé, cuja festa celebramos hoje. Esforço-me por ser como um cordeiro.



Quinta, 4: PARA O MEIO DE LOBOS

Ainda pior! O que Jesus diz parece desumano. Qual a finalidade de ir para o massacre? Porque Jesus não escolhe outro caminho. Oferecendo o seu amor, sabe que não será recebido; e será confrontado com o mal e com o ódio. Ele é o cordeiro que tira o pecado do mundo. Com ele, olho com lucidez para o mal que habita o mundo.



Sexta, 5: SEM BOLSA NEM SANDÁLIAS

O discípulo vai sem nada nos pés, sem qualquer proteção. Transporta apenas o amor do seu Deus, tendo apenas confiança nele. Bela ideia que ainda não tinha percebido. Hoje, deponho o que me protege, o que me prende e me impede de estar disponível para Deus e para o reino.



Sábado, 6: TODOS ALEGRES

Não vimos os discípulos partir, mas vemo-los regressar. Entendemos as instruções de Jesus: a sua palavra é eficaz. Os demónios são-lhe submissos. Que experiência! Fazer recuar o mal. Dou graças por tudo o que recebo na minha missão de batizado.



Domingo, 7: ESTÁ PERTO DE VÓS O REINO DE DEUS

Enviados, os discípulos voltam para junto de Jesus, cheios com tudo o que viram e experimentaram. Voltam com as mãos vazias, os pés descalços, mas o coração cheio de gratidão e de alegria. Também nós, voltamos para junto de Jesus, neste domingo, reencontrando os nossos irmãos e irmãs na fé; e apresentamos os nossos dons, juntamente com toda a assembleia, oferecendo-os ao Pai, por Jesus, o Cristo. O Espírito santifica-os e santifica-nos. Sim, o Reino de Deus está perto sempre que Cristo nos oferece o dom do seu corpo e do seu sangue, para nos tornarmos o seu corpo no mundo. Sim, o Reino de Deus está perto sempre que rezamos «Livra-nos do mal». Deixemos que a alegria habite o nosso coração, acolhendo-a com um dom do Pai.



© www.versdimanche.com
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

Décimo quarto domingo, Ano C
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.7.13 | Sem comentários

Terça-feira da décima terceira semana


Evangelho segundo Mateus 8, 23-27

Naquele tempo, Jesus subiu para o barco e os discípulos acompanharam-n’O. Entretanto, levantou-se no mar tão grande tormenta que as ondas cobriam o barco. Jesus dormia. Aproximaram-se os discípulos e acordaram-n’O, dizendo: «Salva-nos, Senhor, que estamos perdidos». Disse-lhes Jesus: «Porque temeis, homens de pouca fé?». Então levantou-Se, falou imperiosamente ao vento e ao mar e fez-se grande bonança. Os homens ficaram admirados e disseram: «Quem é este homem, que até o vento e o mar Lhe obedecem?».

Porque temeis, homens de pouca fé?

A leitura deste relato pode ser feita com à luz do tema do seguimento (conforme a proposta para esta décima terceira semana: seguir Jesus Cristo). O texto começa por dizer que «Jesus subiu para o barco e os discípulos acompanharam-n'O», isto é, seguiram com ele. Depois, surgem as consequências do seguimento de Jesus Cristo.
A consequência mais evidente neste relato é a «tempestade». Mais do que a situação meteorológica que coloca em perigo a vida dos discípulos, percebe-se nas palavras de Jesus Cristo o medo dos discípulos associado à falta de confiança: «Porque temeis, homens de pouca fé?». 
Na verdade, o grande obstáculo que impede de seguir Jesus Cristo é o comodismo. Por isso, a «tempestade» não é sinal de uma situação negativa, mas de uma provocação à novidade, a enfrentar novos desafios, a abandonar o comodismo, a assumir um novo estilo de vida, a reproduzir o Evangelho no dia a dia. Temos medo! «A novidade causa sempre um pouco de medo, porque nos sentimos mais seguros se temos tudo sob controle» (Francisco, na homilia de Pentecostes). 
A situação de «tempestade» abalou a confiança dos discípulos, aumentou o medo, sentiram-se «perdidos». O discípulo precisa de aprender a ter confiança e a acreditar que a última palavra é sempre de Jesus Cristo. Apesar das «tempestades», a fé em Jesus Cristo proporciona sempre uma «grande bonança».

© Laboratório da fé, 2013

Décima terceira semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.7.13 | Sem comentários

Domingo da décima terceira semana


Evangelho segundo Lucas 9, 51-62

Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo, Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém e mandou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram numa povoação de samaritanos, a fim de Lhe prepararem hospedagem. Mas aquela gente não O quis receber, porque ia a caminho de Jerusalém. Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram a Jesus: «Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?». Mas Jesus voltou-Se e repreendeu-os. E seguiram para outra povoação. Pelo caminho, alguém disse a Jesus: «Seguir-Te-ei para onde quer que fores». Jesus respondeu-lhe: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça». Depois disse a outro: «Segue-Me». Ele respondeu: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai». Disse-lhe Jesus: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos; tu, vai anunciar o reino de Deus». Disse-Lhe ainda outro: «Seguir-Te-ei, Senhor; mas deixa-me ir primeiro despedir-me da minha família». Jesus respondeu-lhe: «Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás não serve para o reino de Deus».

Segue-me... vai anunciar o reino de Deus

A totalidade da obra escrita por Lucas tem como ponto de referência a cidade de Jerusalém. Primeiro, no evangelho, tudo se encaminha e conflui para Jerusalém. Depois, nos Atos dos Apóstolos, a partir de Jerusalém, a Boa Nova espalha-se até aos limites do mundo. O texto do evangelho deste domingo é o ponto de viragem que abre a parte central: o caminho para Jerusalém. «Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo, Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém». É um longo caminho, não só geográfico e espacial, mas também espiritual e teológico, em direção ao último destino do Messias. No texto deste domingo, podemos distinguir dois temas: a atitude a tomar com aqueles que não aceitam Jesus (versículos 52 a 56) e a disposição daqueles que o seguem (versículos 57 a 62). Hoje, fixamo-nos neste segundo tema.
No evangelho, Jesus Cristo está sempre a caminho. Por isso, para estar com ele, é preciso segui-lo, caminhar com ele, seguir o mesmo ritmo, pisar as suas pegadas. Por outras palavras, para seguir Jesus Cristo é preciso adotar o seu estilo de vida
«Segue-me... vai anunciar o reino de Deus». As condições para o seguir são dadas pelo próprio Jesus Cristo: estar desprendido em relação às coisas e aos apoios humanos e materiais; não adiar a decisão de evangelizar, mesmo que se possa apresentar (supostas) boas desculpas; não ceder perante a nostalgia do passado, mas trabalhar afincadamente na missão. 
Aceito as condições de Jesus Cristo para ser seu discípulo? Não nos enganemos! O grande obstáculo que impede de seguir Jesus Cristo é o nosso comodismo. Dá-nos medo levar a sério as condições apresentadas por Jesus Cristo. Porque sabemos que nos exige viver de forma mais livre e generosa. Mas nós somos escravos de uma determinada maneira de viver. Temos medo da novidade, de assumir um novo estilo de vida. Em maio (homilia no dia de Pentecostes), o papa Francisco disse: «A novidade causa sempre um pouco de medo, porque nos sentimos mais seguros se temos tudo sob controle, se somos nós a construir, programar, projetar a nossa vida de acordo com os nossos esquemas, as nossas seguranças, os nossos gostos. E isto verifica-se também quando se trata de Deus. Muitas vezes seguimo-lo e acolhemo-lo, mas até um certo ponto; sentimos dificuldade em abandonar-nos a Ele com plena confiança; temos medo que Deus nos faça seguir novas estradas, faça sair do nosso horizonte frequentemente limitado, fechado, egoísta, para nos abrir aos seus horizontes».
«Segue-me... vai anunciar o reino de Deus» — é o convite que Jesus Cristo nos dirige neste domingo. Quase sempre se apresenta o seguimento de Jesus Cristo como uma renúncia. E soa-nos mal pensar que temos de renunciar. Mas, efetivamente, não se trata de renunciar; trata-se de escolher seguir Jesus Cristo. Quem deseja seguir Jesus Cristo, coloca-se nos seus passos, é convidado a entrar pouco a pouco numa liberdade renovada pelo reino de Deus. Hoje, e ao longo desta semana estejamos sempre mais livres, mais abertos à novidade do reino de Deus! E aceitemos o convite de Jesus Cristo: «Segue-me... vai anunciar o reino de Deus».

© Laboratório da fé, 2013

Décima terceira semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.7.13 | Sem comentários
Ao ritmo da liturgia


Décima terceira semana


Reproduzir na vida o Evangelho

Num determinado momento, decidimos seguir Jesus Cristo. O que significa seguir Jesus Cristo, hoje? Não é necessário ir para o seminário ou entrar para um convento. Nem sequer cumprir apenas e escrupulosamente todos os preceitos da Igreja. Seguir Jesus Cristo, hoje, significa reproduzir na nossa vida o Evangelho de Jesus Cristo.
Como não somos maus, quando fazemos a experiência da presença de Jesus Cristo no caminho da nossa vida, compreendemos que nada melhor nos podia acontecer; e queremos segui-lo. Apesar das nossas hesitações e incongruências, queremos estar com Jesus Cristo. Isso faz-nos bem. Faz com que a nossa vida esteja mais cheia, mais plena.
Nesta semana, cada um tome a sua vida e avalie o que lhe trouxe o facto de «ser cristão». E o que teria sucedido se não optasse por seguir Jesus Cristo.
Depois, examine também as desvantagens trazidas pelo facto de ter decidido seguir Jesus Cristo. Se não há nenhuma desvantagem, é motivo para desconfiar... porque seguir Jesus Cristo deveria, em princípio, confrontar-nos com aquelas situações em que nos parece mais agradável não estar comprometido com a fé cristã; por exemplo, poder entregar-se à preguiça, ao «carpe diem» (gozar a vida).
Como saberei se estou a seguir Jesus Cristo? Se vivo a bondade universal. Se estou sempre e em todos os sentidos com os mais débeis da sociedade. Se trabalho pelo reino de Deus e não por outros «reinos» (DOMINGO: «Segue-me... vai anunciar o reino de Deus»). Se sigo Jesus Cristo (SEGUNDA: «Seguir-Te-ei para onde fores») encontrarei a plenitude da vida, para mim e para os outros!
O grande obstáculo que impede de seguir Jesus Cristo é o nosso comodismo. Temos medo da novidade, de assumir um novo estilo de vida. Em maio (homilia no dia de Pentecostes), o papa Francisco disse: «A novidade causa sempre um pouco de medo, porque nos sentimos mais seguros se temos tudo sob controle (TERÇA: «Porque temeis, homens de pouca fé?»), se somos nós a construir, programar, projetar a nossa vida de acordo com os nossos esquemas, as nossas seguranças (QUARTA: ««Se não vir... se não meter... não acreditarei»), os nossos gostos. E isto verifica-se também quando se trata de Deus. Muitas vezes seguimo-lo e acolhemo-lo, mas até um certo ponto; sentimos dificuldade em abandonar-nos a Ele com plena confiança (QUINTA: «Filho, tem confiança»); temos medo que Deus nos faça seguir novas estradas (SEXTA: «Segue-Me»), faça sair do nosso horizonte frequentemente limitado, fechado, egoísta, para nos abrir aos seus horizontes [...]. A novidade que Deus traz à nossa vida é verdadeiramente o que nos realiza (SÁBADO: «Ninguém põe remendo de pano novo em vestido velho»), o que nos dá a verdadeira alegria, a verdadeira serenidade, porque Deus nos ama e quer apenas o nosso bem».

Esta semana, perguntemo-nos: Aceito as condições de Jesus Cristo para ser seu discípulo? Viver como Jesus Cristo vai-te trazer muitas complicações. Mas também uma enorme satisfação interior e profunda. Além disso, se não segues Jesus Cristo, quem é que vais seguir?

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial
© Laboratório da fé, 2013

Décima terceira semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.7.13 | 2 comentários
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