Ambiente Virtual de Formação


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


O segundo capítulo da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG) é dedicado à definição da Igreja como «Povo de Deus», cuja noção básica reside no sacerdócio comum dos fiéis e já não exclusivamente na hierarquia. Nesta nova conceção eclesial destaca-se o aspeto teológico da Igreja no qual, sob a ótica da fé, todos são iguais, porém, com funções diferenciadas; e não só o aspeto jurídico que reconhece apenas o clero como Igreja.
Na eclesiologia, a nova conceção causou uma verdadeira revolução, pois o conceito dominante de Igreja, desde o Concílio de Trento como «sociedade perfeita e hierarquizada», passou para um modelo circular e aberto ao mundo, como Sacramento e instrumento de Deus que se entende na unidade com todo o género humano.
É de fundamental importância lembrar que o conceito de Povo de Deus inicia-se com Abraão que sai de Ur com destino à terra que Deus lhe indicou. E, a partir de Abraão, Deus escolhe Israel como seu povo, instruindo-o gradualmente, manifestando-Se, revelando-Se a Si mesmo e os desígnios da Sua vontade na História, e santificando aquele povo para Si; depois Deus, com Moisés e Josué, conduz o seu povo para a liberdade, para a Terra prometida, e é por causa deste Povo que Ele deixa de castigar Israel quando alguns pecaram. Tudo aconteceu como preparação e prefiguração da Nova e perfeita Aliança que seria selada em Cristo, Seu Filho Jesus, para redimir definitivamente o seu Povo, na plenitude dos tempos, entregando-Se em sacrifício perfeito para a salvação de toda a humanidade (LG 9).
Cristo, ao estabelecer esse novo pacto, formou com os judeus e com os gentios, um povo segundo o Espírito, constituindo assim, o novo Povo de Deus. Os que crêem em Cristo, renascidos no Batismo, constituem «a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo resgatado… considerado como Povo de Deus» (LG 9).
Embora diferentes, essencialmente entre si e não apenas em grau, o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial hierárquico ordenam-se um para o outro, mutuamente, pois ambos participam, cada qual a seu modo, do sacerdócio único de Cristo. Nos Sacramentos e na prática das virtudes, o povo de Deus exercita o sacerdócio comum de várias formas, de acordo com os seus dons e carismas, participando também da missão profética de Cristo, dando testemunho vivo d’Ele, especialmente pela vida de fé e caridade, oferecendo a Deus o sacrifício do louvor, fruto dos lábios que glorificam o Seu nome (LG 9).
«Cristo Senhor, Pontífice tomado de entre os homens, fez do novo povo um reino de sacerdotes para Deus, seu Pai». Pela regeneração e pela unção do Espírito Santo, os batizados consagram-se para ser edifício espiritual e sacerdócio santo, com a incumbência de ser testemunhas de Cristo e levar ao mundo a esperança que possuem na vida eterna (LG 10).
A LG indica que o senso da fé (consenso universal a respeito da fé e dos costumes) é construído pelo conjunto dos fiéis sustentado pelo Espírito Santo, pela palavra de Deus e sob a direção do Magistério. Este mesmo Espírito «distribui individualmente e a cada um, conforme entende, os seus dons» (1Coríntios 12-11) e as suas graças especiais aos fiéis de todas as classes, tornando-os aptos a assumirem os diversos encargos e ofícios úteis à renovação e maior incremento da Igreja. Assim, os ministérios leigos não decorrem da insuficiência de presbíteros, mas sim porque todos os batizados, em razão do sacerdócio comum, são ministros de Deus, responsáveis diretos também pela Igreja e pela evangelização. Não nos esqueçamos de que o termo «Igreja», na sua origem se refere à «assembleia dos escolhidos» e esta é a ideia que a LG retoma da Igreja primitiva (LG 12).
Todos os seres humanos são chamados a participar do novo Povo de Deus, dilatando-o até aos confins do mundo inteiro e em todos os tempos, para cumprir os desígnios de Deus, que decidiu congregar na unidade todos os seus filhos que andavam dispersos. Assim, Povo de Deus é estendido a todos os povos da terra, aos quais o Espírito Santo inspira o princípio da comunhão e da unidade. Por força desta universalidade, cada parte contribui com os seus dons peculiares para as demais e para toda a Igreja, de modo a crescerem pela comunicação mútua e pelo esforço comum em ordem, a fim de alcançarem a plenitude na unidade.
Este novo Povo de Deus não é específico dos fiéis católicos, mas estende-se aos irmãos cristãos não católicos, os quais veneram a Sagrada Escritura como norma de fé e de vida, e manifestam sincero zelo religioso; e estende-se também aos não cristãos que, embora não tenham recebido ainda o Evangelho, estão destinados, a fazer parte do Povo de Deus que se revela a toda humanidade de modos e formas diversas, os quais não nos é lícito questionar, mas sim aceitar e acolher, buscando a unidade na diversidade destas manifestações (LG 14, 15 e 16).
Na América Latina, especialmente na Conferência de Medellin (1968) e depois de Puebla (1979), a LG foi entusiasticamente recebida e não se pouparam esforços para a colocar em prática; empenho que se consolidou depois, nas outras Conferências. Mas é especialmente nas duas primeiras que se observa o acolhimento da conceção eclesiológica de «Igreja Povo de Deus». Ao laicado, de modo especial, dirigem-se as Conferências Latino-americanas, culminando com a Conferência de Aparecida (2007), exortando ao cumprimento da «Missão Continental». Não se pode deixar de citar, no sentido do protagonismo dos leigos, a Exortação Apostólica Pós-Sinodal sobre a vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo — «Christifidelis Laici», que nos amplia o horizonte de atuação do laicado.
A LG contribuiu para fortalecer as comunidades eclesiais de base (CEBs) que se reúnem nos mais diversos e distantes lugares, mesmo sem a presença dos presbíteros. Disso exigiu-se a formação dos chamados Ministérios Laicais no interior das comunidades e, especialmente, fora delas. Aos poucos, cresce a consciência de que a presença dos leigos no mundo é a presença da Igreja. Nesta perspectiva, a LG fornece a fundamentação teológica para a Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo — «Gaudium et Spes» (As alegrias e esperanças – sinais da Igreja no mundo), Esta constituição Pastoral não pode ser dissociada da LG.
O caráter missionário da Igreja, que surge da obediência ao mandamento de Cristo: «Ide, pois, ensinai todos os povos» (Marcos 16, 15) estende-se a todo o Povo de Deus; este assume, com Paulo, o múnus decorrente do sacerdócio real comum e do profetismo recebido no Batismo: «Ai de mim se eu não evangelizar!» (1Coríntios 9, 16). Cabe, portanto, ao Povo de Deus – clero, religiosos e leigos – assumir juntos e na Igreja, por força dos seus dons e carismas próprios, a missão de evangelizar e levar aos confins da terra a Boa Nova de Jesus, e construir, no aqui e agora do nosso tempo, o verdadeiro Reino de Paz e de Amor, o Reino dos Céus, o Reino de Deus que Jesus iniciou com a sua Vida, Paixão, Morte e Ressurreição (LG 17).

© Ambiente Virtual de Formação — www.ambientevirtual.org.br —
© Arquidiocese de Campinas, Brasil
© Adaptado por Laboratório da fé, 2013



Questões para reflexão

  • Na tua comunidade existem pessoas que conheceram a Igreja pré-conciliar? Existe alguma diferença entre a Igreja pré-conciliar e a atual Igreja como Povo de Deus?
  • No teu modo de ver e viver em Igreja, o novo conceito «Povo de Deus» provoca alguma coisa de positivo na vida comunitária?
  • O que se pode entender pelo conceito de «novo» Povo de Deus?

Partilha connosco a tua reflexão!


II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2013


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.6.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo terceiro domingo

30 DE JUNHO DE 2013

Evangelho segundo Lucas 9, 51-62

Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo, Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém e mandou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram numa povoação de samaritanos, a fim de Lhe prepararem hospedagem. Mas aquela gente não O quis receber, porque ia a caminho de Jerusalém. Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram a Jesus: «Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?». Mas Jesus voltou-Se e repreendeu-os. E seguiram para outra povoação. Pelo caminho, alguém disse a Jesus: «Seguir-Te-ei para onde quer que fores». Jesus respondeu-lhe: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça». Depois disse a outro: «Segue-Me». Ele respondeu: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai». Disse-lhe Jesus: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos; tu, vai anunciar o reino de Deus». Disse-Lhe ainda outro: «Seguir-Te-ei, Senhor; mas deixa-me ir primeiro despedir-me da minha família». Jesus respondeu-lhe: «Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás não serve para o reino de Deus».



Segunda, 24: CONNOSCO

Apesar de Jesus ter tomado sozinho e com coragem a decisão de ir para Jerusalém, não faz uma caminhada solitária. Envia mensageiros antes dele. Os discípulos continuam a caminhar com ele. Jesus escolhe deliberadamente viver a sua missão connosco. João Batista, que o batizou e cuja festa de nascimento celebramos hoje, sabe alguma coisa: Jesus não quis começar a sua missão sem receber dele o batismo. Jesus, escolheste caminhar connosco do início até ao fim. Bendito sejas!



Terça, 25: COM ELE

Os mensageiros são enviados «à sua frente». Com que missão? Preparar a vinda de Jesus. Haverá forma de dizer melhor que qualquer iniciativa não se pode fazer senão com ele? Nenhum itinerário pode ser traçado sem que se torne, um dia, o caminho de Jesus. Jesus, dás sentido à nossa vida. Bendito sejas!



Quarta, 26: COM ELAS

Haverá sempre pessoas que recusam acolher Jesus, quer seja na Samaria ou em qualquer outro lugar da terra. Mas sempre que isso aconteça, Jesus recusa dar-lhes a morte. O fogo do céu não cairá sobre elas. Haverá forma melhor de dizer que Jesus nunca perde a esperança e pede-nos para nunca pensarmos num mundo, numa igreja senão com elas? Jesus, não queres a morte de ninguém. Bendito sejas!



Quinta, 27: SEM DOMICÍLIO

A quem, cheio de ardor, tem um vivo desejo de seguir Jesus para todo o lado, Jesus revela a sua identidade de não ter domicílio fixo. Colocar-se no seguimento de Jesus não instala o discípulo, confortavelmente, num edifício da igreja. Pelo contrário, o seguimento de Cristo provoca movimento. Faz caminhar, abre horizontes e ultrapassa todas as fronteiras. Ó Cristo, o mundo é a tua casa. Bendito sejas!



Sexta, 28: SEM MORTE

Àquele que é chamado por Jesus a segui-lo e que, legitimamente, pede para ir primeiro enterrar o pai, a resposta de Jesus é forte, surpreendente, até chocante. Na realidade, para aquele que é chamado a caminhar no seguimento daquele que é «o caminho, a verdade e a vida», a morte já não existe. A morte já morreu, foi vencida. Não tem qualquer poder sobre ele. O anúncio do reino de Deus volta todo o universo para o reino do Vivente. A vida chama à vida. Ó Cristo, a vida contigo, o Vivente, está acima da morte e dos mortos. Bendito sejas!



Sábado, 29: SEM DESPEDIDA

A um outro que também deseja segui-lo, Jesus não autoriza que se vá despedir dos seus familiares. O reino de Deus volta para o futuro. Arrasta tudo à sua passagem. Faz perder tudo para ganhar tudo. Faz passar para último o que era primeiro e coloca em primeiro plano o que era tido como nada e sem futuro. A alegria do Reino altera a ordem das coisas. Ó Cristo, a tua vinda volta-nos para o Pai. Bendito sejas!



Domingo, 30: LIVRES PARA O REINO DE DEUS!

Esta passagem do evangelho dá um novo alento. Um alento de grande liberdade para enfrentar a vida tal como ela é e não como gostaríamos que fosse. Jesus sabe que vai ser elevado do mundo, mas não o evita. Enfrentará vitoriosamente as forças do mundo que vão colocar-se contra ele. Nada fará parar a sua caminhada amorosa: o seu amor para connosco mostrar-se-á ainda mais forte. Esta liberdade que é dada pelo amor é contagiosa. Quem deseja seguir Jesus, coloca-se nos passos de Jesus, é convidado a entrar pouco a pouco numa liberdade renovada pelo reino de Deus. Neste domingo, a forma como vamos à missa testemunhe esta grande liberdade amorosa. Estejamos sempre mais livres para o reino.



© www.versdimanche.com
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

Décimo terceiro domingo, Ano C
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.6.13 | Sem comentários

Décimo segundo domingo


Evangelho segundo Lucas 9, 18-24

Um dia, Jesus orava sozinho, estando com Ele apenas os discípulos. Então perguntou-lhes: «Quem dizem as multidões que Eu sou?». Eles responderam: «Uns, dizem que és João Baptista; outros, que és Elias; e outros, que és um dos antigos profetas que ressuscitou». Disse-lhes Jesus: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Pedro tomou a palavra e respondeu: «És o Messias de Deus». Ele, porém, proibiu-lhes severamente de o dizerem fosse a quem fosse e acrescentou: «O Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas; tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia». Depois, dirigindo-Se a todos, disse: «Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, salvá-la-á».

Quem é Jesus Cristo?

Quem é Jesus Cristo? — eis a questão decisiva para a fé cristã. Jesus não espera que os discípulos digam apenas o que vêem com os olhos, mas que expressem o que vivem com o coração. Jesus não quer uma resposta tirada dos livros. O discípulo é chamado a ter um olhar capaz de mergulhar no mistério de Jesus Cristo, um olhar sem ambiguidades, para encontrar a verdade.
Jesus não comenta as opiniões dos outros, mas interroga diretamente os discípulos. Espera deles uma apreciação mais profunda. O discípulo é chamado a ver mais profundamente, a não contentar-se com o que ouve dizer. É impelido a tomar uma posição.

És o Messias de Deus

«És o Messias de Deus» — responde Pedro, em nome dos discípulos. A resposta de Pedro parece acertada: Jesus é o Messias, o Ungido. Mas eles esperavam um Messias nacionalista que viesse trazer a salvação política e religiosa, libertando-os do poder romano. Por isso, Jesus proíbe-os de «o dizerem fosse a quem fosse», porque também esta resposta de Pedro precisa de purificação. O Filho do homem vai sofrer, ser rejeitado, morto, para ressuscitar ao terceiro dia. Nada a ver com o Messias que eles estavam à espera! O verdadeiro Messias só pode ser entendido à luz do mistério pascal, isto é, da morte e da ressurreição. É importante perceber que tudo em nós tem de passar pelo mistério pascal de Jesus Cristo. O Messias converte-se no «Filho do homem», o modelo de ser humano. Não é o triunfador, o poderoso, mas o que sofre, o que aguenta os rancores e os ódios dos outros, o humilhado e desapreciado... porque não renuncia à sua condição humana. E tudo até ao extremo, até perder a vida por manter essa atitude até ao fim. Ora bem, mas esta fidelidade à condição humana não é apenas para Jesus Cristo, mas para quem o quer seguir.

Se alguém quiser vir comigo

Jesus Cristo não esconde as exigências para o seguir: tomar a cruz todos os dias! Mas também é preciso não se enganar: tomar a própria cruz não é necessariamente imaginar os piores sofrimentos ou tormentos que vão aparecer. A cruz é o lugar supremo do amor. Tomar a sua cruz é assumir a própria vida, no dia a dia, é agarrá-la com unhas e dentes, amando até ao fim.
Jesus Cristo vai ainda mais longe: para o seguir, ele fala de perder a própria vida. «Quem perder a sua vida por minha causa, salvá-la-á». O que é que significa? O que significa «perder» a vida por causa de Jesus Cristo? É tudo uma questão de amor e de confiança. Quem ama verdadeiramente, está disposto a tudo para seguir o amado e viver para ele. Quando sou capaz de me desprender de tudo, incluindo o apego à vida, em favor dos outros, estou verdadeiramente a amar e, portanto, a crescer como ser humano. A minha Vida (com maiúscula) tem cada vez mais força; e a vida (com minúscula) encontra o seu verdadeiro sentido.
Não é fácil entender bem esta passagem do evangelho. Não se trata de anular uma parte de nós para salvar outra! Trata-se de descobrir uma falha na perceção que temos de nós e da vida. Trata-se de nos libertarmos de tudo aquilo que nos prende ao caduco e nos impede de nos elevarmos à plenitude da vida. Esta libertação acontece quando estabelecemos uma escala autêntica de valores e somos capazes de dar a cada coisa a sua verdadeira importância. Não hesitemos! Caminhemos com amor seguindo Jesus Cristo!

© Laboratório da fé, 2013

Décima segunda semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.6.13 | Sem comentários

Palavra para hoje: décimo segundo domingo


«Eis o que diz o Senhor» — assim começa a Liturgia da Palavra. A vontade de Deus em perdoar está presente nesse anúncio que nos convida ao arrependimento. Sim, o tempo da conversão está próximo, é agora; o dinamismo do amor divino está em marcha; faz acontecer o impossível no coração humano: a bondade... É a bondade descoberta por Jesus no mistério da sua vida terrena, que despontará na plenitude da luz. E suscita em nós uma dupla resposta: o compromisso do discipulado e um cântico de louvor: «Vos bendirei toda a minha vida». Sejamos um sinal de bondade e de alegria. Caso contrário, a nossa palavra será menos credível, a Cruz aparecerá como um escândalo intolerável e nunca como comunhão com Jesus Cristo.


Pergunta da semana: 

O que significa «perder» a vida por causa de Jesus Cristo?

Palavra de Deus - Lectio divina - imagem de fano
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.6.13 | Sem comentários
Ao ritmo da liturgia


Décima segunda semana


Quem dizem as multidões que Eu sou?

A maioria das pessoas que não lê o Evangelho, nem tem qualquer base religiosa, não conhece quase nada sobre Jesus Cristo; muito menos tem ideias claras sobre a sua verdadeira identidade. Quando muito, conservam um apreço genérico por Jesus Cristo («um grande homem»), tendo mais por base um desejo do que um conhecimento.
Mas nem todas essas opiniões sobre Jesus Cristo são totalmente erradas. Vale a pena conhecê-las, porque, a partir delas, podemos abrir caminho para o conhecimento da verdadeira natureza de Jesus Cristo, a sua novidade.

E, vós, cristãos, quem dizeis que Eu sou?

Na Igreja, em cada comunidade cristã, existem opiniões profundamente distintas sobre Jesus Cristo. As pessoas que acompanharam Jesus também tinham opiniões diferentes. Até os discípulos não têm a mesma opinião sobre Jesus Cristo (como testemunham os textos do Novo Testamento). Mas havia aspetos básicos que ninguém punha em questão. Tinham comido e vivido com Jesus Cristo, viram como ele falava e como se comportava com as pessoas. Por isso, uma coisa tem de ser clara: antes das interpretações dos Santos, da Tradição, dos documentos papais e dos movimentos eclesiais, está o Evangelho.

Quem dizem as multidões que vós sois?

Hoje, talvez seja esta a pergunta mais importante! A pergunta torna-se mais pertinente e comprometedora para os cristãos. É aqui que se desenvolve a nova evangelização.
Não é por acaso que o evangelho une as perguntas sobre a identidade de Jesus Cristo com indicações destinadas ao «seguidor» de Jesus Cristo (o discípulo, o cristão): negar-se a si mesmo, isto é, renunciar ao egoísmo; tomar a sua cruz todos os dias; estar dispostos a perder/sacrificar a vida (temporal) para ganhar a Vida (eterna), ou seja, para se salvar (DOMINGO: «Quem perder a sua vida por minha causa, salvá-la-á»).
O que significa «perder» a vida por causa de Jesus Cristo? Não se trata de ter uma vida atrofiada. É exatamente ao contrário: a vida torna-se fecunda quando se dá aos outros. É tudo uma questão de confiança e de amor. Em primeiro lugar, ter confiança em Deus, deixar-se tocar pelo Espírito Santo (SEGUNDA: «Cheio do Espírito Santo») que nos diz que somos filhos amados e que podemos viver como filhos de Deus. Em segundo lugar, viver o amor. Quem ama verdadeiramente, está disposto a tudo para seguir o amado e viver para ele. Quando sou capaz de me desprender de tudo (TERÇA: «Apertado o caminho que conduz à vida»), incluindo o apego à vida, em favor dos outros, estou verdadeiramente a amar e, portanto, a crescer como ser humano.
Neste percurso, há sempre necessidade de estar atento às propostas enganadoras (QUARTA: «Acautelai-vos dos falsos profetas») e às «imagens» deturpadas que nos afastam do verdadeiro Messias (QUINTA: «Nunca vos conheci»). Mesmo assim, Jesus Cristo dá-nos uma nova oportunidade (SEXTA: «Eu quero: fica curado») para viver como seus discípulos (SÁBADO: «Segue-Me»).

Esta semana, desafia-nos a um «silêncio» purificador que, à luz do mistério pascal, nos ajude a descobrir a verdadeira identidade do Messias. E, em consequência, perceberemos que seguir Jesus Cristo significa percorrer, como ele, o mesmo caminho que conduz à Vida. Teremos a decisão de Pedro? Ou teremos, também como ele, os nossos altos e baixos?

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial
© Laboratório da fé, 2013

Décima segunda semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.6.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo segundo domingo

23 DE JUNHO DE 2013

Nos três Evangelhos sinópticos aparece, como momento significativo no caminho de Jesus, a hora em que Ele pergunta aos discípulos o que as pessoas pensam d'Ele e como O vêem eles mesmos (Marcos 8, 27-30; Mateus 16, 13-20; Lucas 9, 18-21). Nos três Evangelhos, Pedro responde em nome dos Doze com uma confissão que se distingue claramente da opinião da «multidão». Nos três Evangelhos, Jesus anuncia logo a seguir a sua paixão e ressurreição e, depois deste anúncio do seu destino pessoal, pronuncia um ensinamento sobre o caminho dos discípulos, que consiste em segui-l’O, ao Crucificado. Nos três Evangelhos, porém, este segui-Lo sob o signo da cruz é por Ele explicado de forma essencialmente antropológica, ou seja, como o caminho de «perder-se a si mesmo», que é necessário ao homem, pois sem isso não lhe é possível encontrar-se a si mesmo (Marcos 8, 31 - 9, 1; Mateus 16, 21-28; Lucas 9, 22-27). [...]
A confissão de Pedro só se pode compreender corretamente relacionada com o anúncio da paixão e com as palavras acerca do seguimento: estes três elementos — a palavra de Pedro e a dupla resposta de Jesus — estão inseparavelmente ligados. [...]
De acordo com a sua visão da figura de Jesus, Lucas liga a confissão de Pedro a um momento de oração, começando a narração da história com um paradoxo propositado: «Um dia, quando [Jesus] orava sozinho, estando com Ele os seus discípulos...» (9, 18). Os discípulos são introduzidos no seu estar sozinho, no seu reservadíssimo estar com o Pai. É-lhes permitido vê-Lo como Aquele que fala face a face com o Pai. Podem vê-Lo no íntimo do seu ser, no seu ser Filho, no ponto donde provêm todas as suas palavras, as suas ações, a sua potestade. A eles é concedido ver o que a «multidão» não vê, e desta visão deriva um conhecimento que ultrapassa as «opiniões» da «multidão». Desta vista, dimana a sua fé, a sua confissão; sobre isto, poder-se-á depois edificar a Igreja.
Aqui encontra o seu lugar interior a dupla pergunta de Jesus sobre a opinião da multidão e sobre a convicção dos discípulos. O facto pressupõe que haja, de uma parte, um conhecimento exterior de Jesus, não necessariamente falso mas insuficiente, ao que se contrapõe um conhecimento profundo, ligado ao discipulado, à companhia no caminho, capaz de crescer apenas em tal âmbito. 

Quem dizem as multidões que Eu sou?

Os três sinópticos estão de acordo na afirmação de que, segundo a multidão, Jesus seria João Baptista ou Elias ou um dos outros Profetas que teria ressuscitado [...].
Elemento comum a estas concepções é o facto de inserirem Jesus na categoria dos profetas, uma categoria que estava à disposição como chave interpretativa a partir da tradição de Israel. Em todos os nomes referidos para a interpretação da figura de Jesus ressoa de certo modo o momento escatológico, a expetativa de uma viragem que pode ser acompanhada simultaneamente da esperança e do temor. Enquanto Elias personifica mais a esperança da restauração de Israel, Jeremias é uma figura da paixão, o anunciador da falência da forma de Aliança então em vigor e do santuário que representava, por assim dizer, a garantia concreta da mesma; mas ele é também portador da promessa de uma Nova Aliança que nascerá da queda. No seu sofrimento, no seu desaparecimento por entre a obscuridade da contradição, Jeremias é o portador vivo deste duplo destino de queda e renovação.
Todas estas opiniões não são totalmente erradas; traduzem aproximações menores ou maiores ao mistério de Jesus, a partir das quais é possível, sem dúvida, abrir caminho para o núcleo essencial. Mas não atingem a verdadeira natureza de Jesus, a sua novidade. Interpretam-No a partir do passado e de quanto geralmente acontece e é possível, mas não a partir d’Ele mesmo, não na sua unicidade, que não é possível inserir em mais nenhuma categoria. Neste sentido, também hoje se encontra muito claramente a opinião da «multidão» que de algum modo conheceu Cristo, talvez até O tenha estudado cientificamente, mas não O encontrou pessoalmente na sua especificidade e na sua total alteridade [...]


E vós, quem dizeis que Eu sou?

À opinião da multidão contrapõe-se o conhecimento dos discípulos, que se manifesta na confissão de fé. Esta, como aparece expressa? É formulada de modo diferente em cada um dos três sinópticos, e de forma ainda mais diversa em João. Segundo Marcos, Pedro diz a Jesus simplesmente: «Tu és o Cristo [o Messias]» (8, 29). Segundo Lucas, Pedro designa-O como «o Messias [o Ungido] de Deus» (9, 20); e, segundo Mateus, diz: «Tu és o Cristo [o Messias], o Filho do Deus vivo» (16, 16). Em João, por sua vez, a confissão de Pedro é do seguinte teor: «Tu és o Santo de Deus» (6, 29). [...]
Em primeiro lugar, é importante ver que a forma específica do título deve ser compreendida sempre na totalidade de cada um dos Evangelhos e na sua forma particular de tradição. Importante é sempre a ligação com o processo de Jesus, ao longo do qual a confissão dos discípulos aparece de novo como pergunta e acusação. [...] Em Lucas, Pedro reconhece Jesus como «o Messias (Cristo, o Ungido) de Deus». Aqui encontramos de novo o que o velho Simeão já sabia do Menino Jesus: fora-lhe preanunciado como o Messias do Senhor (Lucas 2, 26). Como imagem oposta a esta, temos os «chefes do povo» que zombam de Jesus ao pé da cruz, dizendo: «Salvou os outros; salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito» (Lucas 23, 35). [...]
Mas, do Evangelho de Lucas, convém citar outro acontecimento importante para a fé dos discípulos em Jesus: a história da pesca milagrosa, que termina com o chamamento de Simão Pedro e dos seus companheiros para se tornarem discípulos. Aqueles experimentados pescadores não tinham pescado nada durante toda a noite, e agora Jesus exorta-os a fazerem-se de novo ao largo em pleno dia e a lançarem as redes. Segundo os conhecimentos práticos destes homens, trata-se de uma sugestão pouco sensata, mas Simão responde: «Mestre, (...) porque Tu o dizes, lançarei as redes» (Lucas 5, 5). E segue-se a pesca abundantíssima, que deixa Pedro profundamente impressionado. Em atitude de adoração, lança-se aos pés de Jesus e diz: «Afasta-Te de mim, Senhor, que sou um homem pecador» (5, 8), No sucedido, reconheceu a própria força de Deus, que atua através de Jesus, e este encontro direto com o Deus vivo em Jesus abala-o no mais íntimo de si mesmo. À luz e sob o poder desta presença, o homem reconhece a sua miséria. Não consegue suportar a força formidável de Deus — é espaventosa para ele. Visto ao nível da história das religiões, trata-se de um dos textos mais impressionantes para ilustrar aquilo que acontece quando o homem se encontra inesperada e diretamente exposto à proximidade de Deus; então nada mais consegue fazer senão espaventar-se daquilo que ele é, e pedir para ser libertado da imensidão desta presença. Esta perceção imediata da proximidade do próprio Deus em Jesus exprime-se no título que Pedro usa agora para Jesus: «Kyrios» — Senhor. Trata-se da designação de Deus usada no Antigo Testamento para substituir o nome inefável por Ele revelado junto da sarça ardente. Se antes da saída para o mar Jesus era para Pedro o «epistáta» (significa mestre, professor, rabino), agora reconhece n’Ele o «Kyrios». [...]


Quem é Jesus Cristo?

Qual é a imagem que vemos, quando compomos o mosaico inteiro dos textos? Pois bem, os discípulos reconheceram que Jesus não Se enquadrava em nenhuma das categorias correntes, que Ele era algo mais e diverso quando comparado com «qualquer um dos profetas». Desde o Sermão da Montanha até à vista das suas ações poderosas e da sua faculdade de perdoar os pecados, desde a autoridade da sua pregação até à sua maneira de considerar as tradições da Lei, de tudo isto eles reconheceram que Ele era mais do que «qualquer um dos profetas». Era aquele «profeta» que, como Moisés, falava com Deus face a face como um amigo; era o Messias, mas de um modo diferente de alguém a quem Deus tivesse simplesmente dado um encargo.
N’Ele, as grandes palavras messiânicas revelavam-se, de modo impressionante e inesperado, verdadeiras: «Tu és meu filho, hoje mesmo te gerei» (Salmo 2, 7). Em momentos mais significativos os discípulos, perturbados, davam-se conta: «Este é o próprio Deus».
Não conseguiram articular tudo isto numa resposta perfeita. Utilizaram, com razão, as palavras de promessa da Antiga Aliança: Cristo-Ungido, Filho de Deus, Senhor. São estas as palavras fundamentais em que se concentrou a sua confissão, a qual no entanto continuava ainda à procura caminhando quase às apalpadelas. Tal confissão só pôde encontrar a sua forma completa no momento em que Tomé, depois de tocar as chagas do Ressuscitado, comovido exclamou: «Meu Senhor e meu Deus!» (João 20, 28). Em última instância, porém, mesmo com esta palavra, continuamos sempre a caminho. A mesma é tão sublime que nunca conseguiremos entendê-la totalmente, sempre nos ultrapassa. Ao longo de toda a sua história, a Igreja vive em perene peregrinação para penetrar esta palavra, que só se pode tornar compreensível para nós no contacto com as chagas de Jesus e no encontro com a sua ressurreição, transformando-se depois para nós numa missão.

© Bento XVI
— «Jesus de Nazaré», excerto das páginas 359 a 379 —
© A Esfera dos Livros, 2012
Os subtítulos são da nossa responsabilidade.



  • Reflexão diária a partir do evangelho > > >
  • Rezar a partir do evangelho > > >
  • As perguntas de Jesus > > >

Décimo segundo domingo, Ano C
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.6.13 | Sem comentários

PROPOSTA PARA O DÉCIMO SEGUNDO DOMINGO


Ao longo de várias semanas, seguindo a proposta de Miquel Raventós, na revista «Misa dominical», sugerimos um texto relacionado com o II Concílio do Vaticano para ser lido na eucaristia dominical: no final da homilia ou no silêncio da comunhão ou quando parecer mais oportuno...

Na Mensagem ao Mundo dos Padres Conciliares, com data de 20 de outubro de 1962, encontramos umas palavras que, mais tarde, irão ressoar na Constituição Dogmática sobre a Igreja no mundo atual — «Gaudium et Spes»: «Reunidos de todas as nações que há debaixo do sol, trazemos nos nossos corações as tribulações de todos os povos que nos estão confiados, as angústias, as dores, os desejos, a esperança. Colocamos a máxima atenção a todas as angústias que hoje afligem todas as pessoas. Por isso, a nossa solicitude volta-se para os mais humildes, os mais pobres e os mais débeis; seguindo Cristo temos de nos compadecer das multidões que passam fome, miséria e ignorância, pondo constantemente diante dos nossos olhos aqueles que, por falta de ajuda adequada, ainda não alcançaram uma condição de vida digna».
Mais adiante, ao falar da paz, fazem esta afirmação: «Confessamos que todos os seres humanos, de qualquer raça ou nação, são todos irmãos». Em cada assembleia dominical ratificamos sempre esta proclamação.
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013



  • Outros textos relacionados com esta proposta
    [1[2[3]

Ano da fé (2012-2013), Papa Francisco
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.6.13 | Sem comentários

As «chaves» do Concílio


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


A luz dos povos é Cristo: por isso, este sagrado Concílio, reunido no Espírito Santo, deseja ardentemente iluminar com a sua luz, que resplandece no rosto da Igreja, todos os homens, anunciando o Evangelho a toda a criatura (cf. Marcos 16, 15). Mas porque a Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano, pretende ela, na sequência dos anteriores Concílios, pôr de manifesto com maior insistência, aos fias e a todo o mundo, a sua natureza e missão universal (LG 1).

Antecedentes
A Constituição Dogmática sobre a Igreja, «Lumen Gentium», é uma tentativa de expressar em traços largos a autocompreensão doutrinal da Igreja Católica. Este parágrafo inicial da Constituição, que dá início ao primeiro capítulo intitulado «O Mistério da Igreja», dá o tom a tudo o que se segue. O termo «mistério» é extraído do Novo Testamento. São Paulo usou a mesma palavra («mysterion» em grego) para se referir à autorrevelação de Deus em Jesus Cristo. Na carta aos Colossenses, Paulo escreve que a sua missão é «levar à plena realização a Palavra de Deus, o mistério escondido ao longo das gerações e que agora Deus manifestou aos seus santos», o mistério é Cristo (Colossenses 1, 25-27; 2, 2-3; 4, 3). O termo «mistério» traz consigo a conotação de qualquer coisa que não pode ser completamente explicada ou entendida. Há algo nele que permanece oculto, velado, escapando à apreensão da nossa inteligência. Contudo, insiste São Paulo, o próprio mistério de Deus e do amor divino pela humanidade foi revelado, a Palavra divina foi-nos dada de forma definitiva em Jesus Cristo. Através dele, o mistério do próprio ser de Deus foi dado a conhecer. Até mesmo este vislumbre real da vida de Deus, que vemos com os olhos da fé, desafia a nossa capacidade de entendimento. As palavras nunca podem definir ou expressar de forma adequada a realidade de Deus ou do seu amor sem limites.
O ensinamento de Paulo é desenvolvido ainda mais na sua carta aos Efésios. Diz-nos ele que na morte e ressurreição de Cristo recebemos o perdão e fomos reconciliados com Deus, como filhos e filhas adotivos de Deus. No seu mistério pascal, Cristo revelou o plano de Deus, desde toda a eternidade, de reunir toda a comunidade humana. «Com toda a sabedoria e inteligência, manifestou-nos o mistério da sua vontade, e o plano generoso que tinha estabelecido, para conduzir os tempos à sua plenitude: submeter tudo a Cristo, reunindo nele o que há no céu e na terra» (Efésios 1, 8-10). O mistério do amor reconciliador de Deus — um amor que derrubou as barreiras e a hostilidade entre Israel e as nações (Efésios 2, 14) — foi-nos revelado pelo Espírito de Deus. A esperança proclamada pelos profetas e pelos apóstolos é atendida e, agora, nós somos chamados a ser testemunhas do amor reconciliador de Deus diante de todos os povos.
Passar do uso paulino do termo «mistério», com referência ao plano salvífico de Deus revelado em Cristo, à sua aplicação pelos autores cristãos primitivos à vida sacramental da Igreja foi um curto passo. O mistério que celebramos nos atos litúrgicos da Igreja é apenas a nossa participação no mistério pascal, o mistério da nossa redenção em Cristo. Traduções latinas da Bíblia e de outros autores latinos utilizavam indiferentemente as palavras mistério ou sacramento para traduzir o termo grego «mysterion». No século IV, os autores cristãos começaram a utilizar esta linguagem para falar das celebrações rituais da Igreja. Exemplo disso encontra-se nas «Catequeses Mistagógicas» de Cirilo de Jerusalém. Esta obra é uma coletânea de ensinamentos ou catequeses dados pelo bispo de Jerusalém a cristãos recém-batizados, nos dias imediatamente a seguir à Páscoa. Cirilo explica os mistérios que esses novos cristãos celebraram na liturgia pascal, recordando a sua passagem pela morte e ressurreição para renascer com Cristo no Batismo, e a sua participação no seu Corpo e no seu Sangue na Eucaristia. Refere-se ao Batismo e à Eucaristia como «mistérios divinos». O seu significado mais profundo, insiste Cirilo, não pode ser discernido em aspetos exteriores. A fé cristã convida-nos a penetrar para além das aparências visíveis dos sacramentos, a fim de apreendermos as realidades sagradas que significam.
Durante a Idade Média, a teologia católica começou a aplicar a categoria de mistério, relacionado como o Corpo Místico de Cristo na Eucaristia, ao Corpo Místico de Cristo que é a Igreja. Os autores medievais entendiam que o fruto da participação na Eucaristia é a unidade, a comunhão com Deus e uns com os outros, que constitui o próprio fundamento da Igreja. No entanto, essa teologia era um pouco abstrata e ignorava, em grande parte, o rosto histórico e humano da Igreja. Muitas destas ideias permaneceram adormecidas durante muitos séculos, sobretudo depois da crise da Reforma protestante, no século XVI. Os reformadores protestantes, segundo os quais a Igreja se tinha desviado tanto do Evangelho que se afastara da própria intenção de Deus ao fundá-la, insistiam em termos por vezes polémicos que a Igreja visível ficara reduzida a um resto ou ruína. Para eles, a verdadeira Igreja de Cristo já não era visível, tendo ficado oculta aos seus olhos, e devia ser entendida mais como uma realidade espiritual conhecida apenas de Deus. Em reação a isto, a teologia católica, encabeçada pelo teólogo jesuíta Roberto Belarmino, deu uma forte ênfase à continuidade entre a realidade visível da Igreja institucional e a verdadeira Igreja estabelecida por Cristo. As ideias do cardeal Belarmino, em particular a forma como ele entendia a Igreja como sociedade visível e «perfeita», munida de tudo o que era necessário para a salvação dos seus membros, dominou os manuais de teologia católica até ao início do século XX. O ensinamento do Concílio Vaticano II constitui um esforço por restabelecer um equilíbrio entre a compreensão das dimensões internas e espirituais da Igreja e a sua realidade humana concreta, histórica e visível. Para consegui-lo, o Concílio regressa à teologia envolvida na compreensão bíblica e patrística de «mysterion», que serve de fundamento a uma teologia mais encarnacional da Igreja e dos sacramentos.

A renovação eclesiológica* dos séculos XIX e XX
no século XIX, Johann Adam Möhler (1796-1838) começara a tentar chegar a um entendimento mais profundo da Igreja em todas as suas dimensões. Sob a influência do idealismo romântico, na Universidade de Tubinga, retomou os escritos de Paulo e dos Padres da Igreja primitiva para redescobrir uma forma mais holística de entender a Igreja como uma realidade dinâmica e viva, como comunidade humana complexa, imbuída do dom do Espírito de Deus. Apresentou um conceito de Igreja como continuação da encarnação de Cristo na história humana. Como Edward Hahnenberg observa, com razão, o génio de Möhler «foi considerar a Igreja não como uma simples portadora do mistério da fé, mas como um aspeto desse próprio mistério». Sob a influência de Möhler, e mais tarde de Matthias Scheeben, a ideia de Igreja como «mistério» começou a ganhar terreno na segunda metade do século XIX.
Um projeto inicial de Constituição sobre a Igreja foi apresentado aos bispos, reunidos para o Concílio Vaticano I, a 21 de janeiro de 1870. O seu primeiro capítulo intitulava-se «A Igreja é o Corpo Místico de Cristo». Esse projeto nunca foi oficialmente debatido pelos bispos do Vaticano I, visto que muitos manifestaram sérias reservas em relação à tentativa de falar da Igreja como «Corpo Místico de Cristo». Consideravam essa abordagem demasiado vaga e preferiram definir a Igreja com base na sua estrutura concreta. Um projeto subsequente regressou à imagem preferida, derivada de Belarmino, da Igreja como «sociedade perfeita», centrando-se mais na sua forma visível e institucional. Só em 1943, no ensinamento contido na encíclica do papa Pio XII «Mystici Corporis», seria incluída uma eclesiologia mais encarnacional no magistério católico oficial. Pio XII tentou desposar a noção predominante da Igreja como sociedade visível com a noção da Igreja como Corpo Místico de Cristo, mais orientada para a Bíblia. No Vaticano II, vemos um esforço no sentido de desenvolver o ensinamento de Pio XII e de integrar de forma ainda mais plena as perspetivas das tradições bíblica e patrística. O uso feito pelo Concílio de uma abordagem encarnacional é sobretudo visível no primeiro capítulo da «Lumen Gentium»:
Porém, a sociedade organizada hierarquicamente e o Corpo místico de Cristo, o agrupamento visível e a comunidade espiritual, a Igreja terrestre e a Igreja ornada com os dons celestes, não devem ser consideradas como duas entidades, mas como uma única realidade complexa, formada pelo duplo elemento humano e divino. Apresenta, por essa razão, uma grande analogia com o mistério do Verbo encarnado. Pois, assim como a natureza assumida serve ao Verbo divino de instrumento vivo de salvação, a Ele indissoluvelmente unido, de modo semelhante a estrutura social da Igreja serve ao Espírito de Cristo, que a vivifica, para o crescimento do corpo (LG 8).
Note-se que a Igreja não é diretamente identificada com a encarnação em Cristo. Mantém-se uma distância crítica entre a comunidade humana reunida na Igreja, Corpo de Cristo, e o próprio Cristo, Palavra divina encarnada. A Igreja é comparada, por «analogia»**, com a encarnação da Palavra de Deus na natureza humana de Cristo.

* Eclesiologia: ramo da teologia dedicado à reflexão sobre a «ecclesia», ou seja, sobre a Igreja, com a sua missão, estruturas e ministérios.
** Analogia: meio para explicar qualquer coisa comparando-a com outra, reconhecendo algumas semelhanças ou similaridades entre ambas. No raciocínio teológico, pode-se encontrar uma analogia ou reconhecer alguma semelhança entre realidades divinas e humanas, embora tendo o cuidado de reconhecer as diferenças necessárias entre elas.

© Richard R. Gaillardetz - Catherine E. Clifford
© Paulinas Editora, 2012
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização da editora

Catherine E. Clifford e Richard R. Gaillardetz, As «chaves» do Concílio, Paulinas Editora, Prior Velho, 2012 (material protegido por leis de direitos autorais)


  • A Igreja é como um sacramento [2] 

Há atualidade na Lumen Gentium?
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.6.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo segundo domingo

23 DE JUNHO DE 2013

Evangelho segundo Lucas 9, 18-24

Um dia, Jesus orava sozinho, estando com Ele apenas os discípulos. Então perguntou-lhes: «Quem dizem as multidões que Eu sou?». Eles responderam: «Uns, dizem que és João Baptista; outros, que és Elias; e outros, que és um dos antigos profetas que ressuscitou». Disse-lhes Jesus: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Pedro tomou a palavra e respondeu: «És o Messias de Deus». Ele, porém, proibiu-lhes severamente de o dizerem fosse a quem fosse e acrescentou: «O Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas; tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia». Depois, dirigindo-Se a todos, disse: «Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, salvá-la-á».



Os evangelhos (por certo que já ouvimos dizer isto muitas vezes) não são livros de história; são, sobretudo, o eco da primitiva comunidade cristã. No centro desta fé está Jesus, o Cristo, morto e ressuscitado para nossa salvação.
Cada evangelista tem uma prioridade, mas todos convidam a professar a fé em Jesus, que é da nossa família humana e da família de Deus.
Por isso, a pergunta de Jesus aos discípulos: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» aparece nos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas). E, em João, encontramos o «Eu sou» que se vai dando a conhecer ao longo de todo o evangelho.
Não nos parece estranho que Lucas comece por dizer que Jesus estava em oração. Este é um dos pontos característicos de Lucas. No contexto de oração, onde Deus é o centro, formula aos seus discípulos as perguntas sobre a sua identidade. Estas perguntas ressoam no coração do ser humano de hoje. Teremos a decisão de Pedro? Ou teremos, também como ele, os nossos altos e baixos?

© Miquel Raventós, Misa dominical
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013



Lucas 9, 18-24

És o Messias de Deus.

O Filho do homem tem de sofrer muito...


A leitura do evangelho segundo Lucas atinge aqui um ponto crucial, que recapitula a primeira parte (manifestação da personalidade de Jesus) e, ao mesmo tempo, prepara a segunda (o longo caminho para Jerusalém). Lucas 9, 18-24 procura responder às muitas interrogações que rodeavam a pessoa de Jesus e se podem resumir na pergunta: «Quem é Jesus?»; eis a questão decisiva para a fé cristã. Lucas recorda a ocasião em que o próprio Jesus apresenta esta questão decisiva aos seus discípulos.
Podemos dividir o texto em três partes: a definição verdadeira de Jesus (versículos 18 a 21); o primeiro anúncio da Paixão (versículo 22); as condições para o discipulado (versículos 23 e 24). A cena não é introduzida por uma indicação geográfica ou temporal, mas pela referência à oração de Jesus. Recordemos que, no evangelho segundo Lucas, a oração está presente em todos os momentos importantes da vida do Mestre. Acontece que Jesus quer fazer um balanço da opinião geral, quer saber o que o povo pensa dele. O resultado não manifesta um fracasso, mas uma insuficiência: pensam que é um profeta. Não estão totalmente errados, mas não é exato. Jesus é muito mais do que um profeta. A seguir, questiona os próprios discípulos e Pedro responde decidido: «És o Messias de Deus», isto é, o Ungido pelo Espírito Santo (cf. 4, 18), o Filho de Deus.
Jesus impõe silêncio, porque quer explicar esta definição com uma catequese apropriada. Não quer que os discípulos associem o título de «Messias» apenas ao conceito de glória e de vitória. Por isso, anuncia-lhes a Paixão, para que entendam que Jesus é um Salvador que salva mediante a entrega pessoal pelo bem da humanidade, um Messias que liberta mediante o sangue na cruz e a recusa dos poderosos: os anciãos, os príncipes dos sacerdotes e os escribas (versículo 22).
O evangelho une este primeiro anúncio da Paixão com umas indicações destinadas ao «seguidor» de Jesus (o discípulo, o cristão): negar-se a si mesmo, ou seja, renunciar ao egoísmo; tomar a sua cruz todos os dias; estar dispostos a perder/sacrificar a vida (temporal) para ganhar a Vida (eterna), ou seja, para se salvar. Seguir Jesus significa percorrer o mesmo caminho, aceitando os sofrimentos, sacrifícios e dificuldades de uma vida por amor.

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



  • Reflexão diária a partir do evangelho > > >
  • Rezar a partir do evangelho > > >
  • As perguntas de Jesus > > >
  • A confissão de Pedro > > >

Décimo segundo domingo, Ano C
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.6.13 | Sem comentários

Histórias, contos e reflexões... fusão entre Ana Caridade e Julinha


Histórias, contos e reflexões... fusão entre Ana Caridade e Julinha, foto de Ana Cardetas

As crianças são grandes mestres nesta aprendizagem de ser humano, de humanização... observo-as! Ao trabalhar também a criança interior percebo como é tão simples e complexo interagir com elas. O período de gestação, parto e primeiros anos de vida são fundamentais, eu diria, determinantes para o adulto que cada um é. A compreensão da realidade é, por vezes, distorcida o que leva a perceções e conceções irreais que se tornam a sua realidade. A criança não tem os filtros de compreensão de um adulto mas por outro lado a sua pureza e ingenuidade permite-lhe Sentir, estar presente em cada momento em que está, entregue, ao que dói e ao prazer do que lhe traz felicidade. O sorriso é tão natural! As lágrimas, fora as manipulações típicas de criança, são sentidas e libertadoras! Não há máscaras! E se lhes dermos espaço e tempo para as escutar elas libertam e transmutam! Elas falam por metáforas... criam histórias para falarem do que não conseguem dizer numa linguagem adulta. Se estivermos atentos, elas dão-nos sinais do que se passa no seu interior. Eu vejo a arte como uma forma simples de elas poderem comunicar e expressar! A sua criatividade está ao rubro! Coloquem-lhes barro, marcadores, tintas, plasticina, caixas de areia, livros e peçam para elas continuarem as histórias e vejam o universo que descobrem! É só deixar que elas fluam em liberdade e sentirem que está ali alguém que apenas ESTÁ! Elas SENTEM QUANDO SE ESTÁ OU NÃO COM ELAS!

© Ana Teresa Caridade



psicoterapeuta, criativa, narradora oral, professora

Ana Teresa Caridade, natural de Aveiro, vive em Braga, é professora de Educação Moral e Religiosa Católica, psicoterapeuta, criativa, narradora oral e professora de Hatha Yoga. Acredita que pode compilar e cruzar várias áreas: crescimento pessoal e espiritual, arte e comunidade. Explora a dança, o teatro, a música e a narração oral. Sente necessidade de explorar várias técnicas de psicoterapia.
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.6.13 | Sem comentários

Sexta-feira da décima primeira semana


Evangelho segundo Mateus 6, 19-23

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Não acumuleis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os destroem e os ladrões os assaltam e roubam. Acumulai tesouros no Céu, onde a traça e a ferrugem não os destroem e os ladrões não os assaltam nem roubam. Porque onde estiver o teu tesouro, aí estará o teu coração. A lâmpada do teu corpo são os olhos. Se o teu olhar for límpido, todo o teu corpo ficará iluminado. Mas se o teu olhar for mau, todo o teu corpo andará nas trevas. E se a luz que há em ti são trevas, como serão grandes essas trevas!».

Não acumuleis tesouros na terra

Jesus Cristo fala da relação do ser humano com a posse de bens, de riquezas materiais. Ontem como hoje, esta relação está marcada pelo desejo que, quando se torna desmedido, resvala para a cobiça e a inveja. Hoje, a grande diferença é que tudo isto se vive numa dimensão global: cobiça e inveja globais.
Todos conhecemos que a sociedade atual coloca mais empenho no capital financeiro do que no capital produtivo. Este dedica-se a produzir bens para consumo. Aquele dedica-se a acumular riquezas, investir na bolsa, nos mercados financeiros, nas bolsas.
Talvez não esteja ao nosso alcance — ou pelo à grande maioria de nós — mudar o sistema económico da sociedade. Mas todos podemos «educar» a nossa relação com o dinheiro. A finalidade dos bens materiais tem de ser a produtividade e não a acumulação. É urgente que cada um de nós se questione sobre a forma como se relaciona com a acumulação de dinheiro.
«Não acumuleis tesouros na terra». Jesus Cristo ensina que o nosso maior «tesouro» não está no dinheiro que acumulamos, mas na capacidade de gerar uma cadeia de amor à nossa volta com todos os seres humanos.

© Laboratório da fé, 2013

Décima primeira semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.6.13 | Sem comentários

Ambiente Virtual de Formação


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


Sem sombra de dúvidas, a Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG) é um dos documentos mais importantes do II Concílio do Vaticano, pois trouxe aos leigos e leigas, e à própria Igreja enquanto instituição hierárquica – conhecida e respeitada no período pré-conciliar como uma «sociedade perfeita fora da qual não existe salvação» – uma nova imagem da Igreja como «Povo de Deus», formada por todos os batizados em Cristo, e com Ele transformados num Reino de sacerdotes para Deus. Sacerdotes, profetas e reis que, independentemente do sacerdócio comum ou do sacerdócio ministerial, participam do Sacerdócio único de Cristo (Hebreus 5, 1-10).
Pelo conteúdo e pelas profundas implicações para o futuro, a elaboração e a votação da LG foram um tanto conturbadas e muito discutidas. Ao texto inicial, elaborado em quatro capítulos, foram apresentadas cerca de quatro mil emendas, o que resultou na alteração para sete capítulos, originando a primeira Constituição Dogmática deste Concílio. O Frei e depois Bispo, Boaventura Kloppenburg, na Introdução Geral dos Documentos do Concílio afirma que, tal como a «Dei Verbum», a «Lumen Gentium» é dogmática porque «teve a intenção formal de ensinar, propor doutrinas e mesmo doutrinas novas». Com o texto consolidado, o documento foi aprovado e solenemente promulgado pelo Papa Paulo VI a 21 de dezembro de 1964; todavia, a novidade deste documento provocou, e provoca ainda hoje, uma certa dificuldade de aceitação dentro da própria Igreja.

A LG está dividida em 8 capítulos:
  • I – O Mistério da Igreja; 
  • II – O Povo de Deus; 
  • III – A Constituição Hierárquica da Igreja e em especial o Episcopado; 
  • IV – Os leigos; 
  • V – Vocação Universal à Santidade na Igreja; 
  • VI – Os Religiosos; 
  • VII – A Índole Escatológica da Igreja Peregrina e sua União com a Igreja Celeste; 
  • VIII – A Bem-Aventurada Virgem Maria Mãe de Deus no Mistério de Cristo e da Igreja. 

Neste estudo, os capítulos da «Lumen Gentium» serão tratados em cinco fichas assim nomeadas: O Mistério da Igreja; O Povo de Deus; Uma Igreja Ministerial; Vocação à santidade e índole escatológica da Igreja; A Bem-Aventurada Virgem.

O Mistério da Igreja
O primeiro capítulo da LG aborda o Mistério da Igreja, afirmando que «Cristo é a luz dos povos» cuja claridade resplandece na face de uma Igreja que se mostra em Cristo, ao mundo, como sacramento ou sinal, e também como instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano. «E, retomando os ensinamentos dos Concílios anteriores, deseja oferecer aos seus fiéis e a todo o mundo, um ensinamento mais preciso sobre a sua natureza e a sua missão universal» (LG 1). Ao expor que «as presentes condições do mundo tornam ainda mais urgente este dever da Igreja, a fim de que todos os seres humanos… alcancem também a unidade total em Cristo», a LG assume a necessidade de dialogar com a modernidade, com as demais confissões cristãs e com as religiões não cristãs.
Aborda também o plano divino para a salvação, pela bondade, sabedoria, e vontade livre e insondável do Pai Eterno ao criar o mundo, decidindo elevar os humanos à participação da sua vida divina, não os abandonando quando pecaram em Adão, mas proporcionando-lhes sempre os auxílios necessários para se salvarem, na perspetiva de Cristo Redentor, Aquele que cumprindo a vontade do Pai Eterno em plena obediência aos seus desígnios, instaurou na Terra o Reino dos Céus cujo mistério nos revelou e consumou a redenção resgatando o género humano, oferecendo a salvação (LG 2).
A Igreja, ou seja, o Reino de Cristo, já presente em mistério, cresce visivelmente no mundo pelo poder de Deus. Ela é parte do plano de salvação de Deus. Ela não é nossa, é de Deus. A sua missão é ser o lugar, o espaço, a comunidade onde a humanidade pode encontrar Deus em Jesus Cristo e ser santificada no seu Espírito Santo. Por isso, a Igreja, preparada pelo Pai, fundada pelo Filho e continuamente santificada pelo Espírito, é semente do Reino de Deus que nela já atua misteriosamente. É nela que se experimenta, de modo mais intenso, o Reino trazido por Jesus!
O início e o crescimento da Igreja são expressos no sangue e na água que brotaram do lado aberto de Jesus crucificado (João 19, 34), e anunciados nas palavras do Senhor acerca da Sua morte na cruz: «Quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a mim» (João 12, 32). Sempre que no altar se celebra o sacrifício da cruz, no qual «Cristo, nossa Páscoa, foi imolado» (1Coríntios 5,7), realiza-se também a obra da nossa redenção. Pelo Sacramento do Pão Eucarístico, ao mesmo tempo, é representada e realizada a unidade dos fiéis, que «constituem um só corpo em Cristo» (1Coríntios 10, 17). Todos os seres humanos são chamados a esta união com Cristo, luz do mundo, do qual vimos, por quem vivemos, e para o qual caminhamos (LG 3).
Consumada a obra confiada ao Filho, Deus envia o Espírito Santo para santificar a Igreja que nascia, para assim dar acesso aos crentes até ao Pai, por Cristo, num só Espírito. Pelo Espírito da vida, fonte que jorra para a vida eterna, o Pai dá vida aos humanos mortos pelo pecado, até que um dia ressuscitem em Cristo os seus corpos mortais. Este Espírito que habita na Igreja e no coração dos fiéis, como num templo, leva a Igreja ao conhecimento da verdade total, unificando-a na comunhão e no mistério, dotando-a e dirigindo-a com os diversos dons hierárquicos e carismáticos, embelezando-a com os seus frutos e rejuvenescendo-a com a força do Evangelho (LG 4). Enriquecida pelos dons do seu Fundador, a Igreja recebe a missão de anunciar e estabelecer em todos os povos, o Reino de Cristo e de Deus, constituindo-se, ela mesma, na Terra, a semente e o início deste Reino.
O mistério da Santa Igreja manifesta-se na sua fundação. O Senhor Jesus deu início à Sua Igreja pregando a Boa Nova do advento do Reino de Deus prometido desde há séculos nas Escrituras: «cumpriu-se o tempo, o Reino de Deus está próximo» (Marcos 1,15; Mateus 4,17). Este Reino manifesta-se na palavra, nas obras e na presença de Cristo (LG 5).
A Igreja dá-nos a conhecer a sua natureza íntima, servindo-se das várias imagens vislumbradas na Sagrada Escritura: como redil, cuja única e necessária porta é Cristo (João 10, 1-10); como rebanho, do qual o próprio Deus é Pastor em Cristo (João 10, 11; 1Pedro 5, 4); como lavoura ou campo de Deus (1Coríntios 3, 9), onde cresce a oliveira antiga, cuja raiz santa são os patriarcas e da qual se obteve e se completará a reconciliação dos judeus e dos gentios (Romanos 11, 13-26); como construção de Deus (1Coríntios 3, 9), na qual Cristo se comparou à pedra que os construtores rejeitaram e que se tornou a pedra angular (Mateus 21, 42); e, ainda, como Jerusalém celeste e Nossa Mãe (Gálatas 4, 26) descrita no Livro do Apocalipse (19, 7; 21, 2.9; 22, 17) como a «Esposa Imaculada» do «Cordeiro Imaculado» (LG 6).
Refere-se, ainda, como Corpo Místico de Cristo (1Coríntios 12, 13) cuja Cabeça é o próprio Cristo e cujos membros são os seus filhos configurados com Cristo pelo Batismo, formando o corpo da Igreja. Entre os membros existe a diversidade de funções, e esta diferença provém dos dons do Espírito Santo que os distribui conforme as necessidades da Igreja para formarem um corpo único, assim como o corpo humano, cujos membros se devem conformar com a Cabeça, que é o Cristo Senhor, imagem do Deus invisível (LG 7).
Cristo como único mediador, constitui e sustenta indefectivelmente [que não pode falhar ou deixar de ser; apoio indefectível; certo, infalível] a sua Igreja Santa sobre a terra, como organismo visível, comunidade de fé, de esperança e de amor e, por meio dela, comunica a todos a verdade e a graça (presença de Deus nos seres humanos). No entanto, esta Igreja é uma sociedade dotada de órgãos hierárquicos, além de ser também o corpo místico de Cristo; é uma assembleia visível e uma comunidade espiritual. A Igreja terrestre e a Igreja ornada com os dons celestes não devem ser consideradas como duas entidades, mas como uma única realidade complexa, formada pelo duplo elemento humano e divino. É, portanto, ao mesmo tempo uma Igreja visível e espiritual, que continua seu peregrinar entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus, anunciando a cruz e a morte do Senhor, até que Ele venha e se manifeste em luz total no final dos tempos (LG 8).

© Ambiente Virtual de Formação — www.ambientevirtual.org.br —
© Arquidiocese de Campinas, Brasil
© Adaptado por Laboratório da fé, 2013



Questões para reflexão

  • Sendo Jesus Cristo a «Luz dos povos», em que perspetiva é que a Igreja também pode ser chamada «luz dos povos»?
  • Partindo do pressuposto que a «Lumen Gentium» proporcionou uma nova visão da Igreja e do seu relacionamento com o mundo, parece-te importante ou necessário que seja conhecida, difundida e estudada? Após este estudo sobre a Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium», o que destacas de importante para a vida dos fiéis e da Igreja
  • Das várias imagens da Igreja que a «Lumen Gentium» apresenta, para ti, qual delas é a que a melhor a identifica? Acrescentarias alguma outra imagem para apresentar a Igreja?

Partilha connosco a tua reflexão!


II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2013

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.6.13 | Sem comentários
  • Recentes
  • Arquivo
  • Comentários