Histórias, contos e reflexões... fusão entre Ana Caridade e Julinha


fusão entre Ana Caridade e Julinha

Hoje (12 de março) é especial Julinha! Um dia ensinaram-me a sentir a vida através das entranhas, de fazer o exercício de parar contemplar e perceber o sagrado que existe neste respirar... aquele que me ensinou a viver o lado da noite também me mostrou o dia... ensinou-me um conceito que te passo... o da noite dividida! Irei segredar-te com mais profundidade um dia destes. A nossa sociedade ensina-nos pouco a viver em equilíbrio nesta dualidade, uns fogem do dia por querem permanecer na noite outros não querem que anoiteça e iludem-se... neste caminho descobri estes dois lados e percebi que o Amor só se consegue viver assim... nesta morte e vida... neste abandono do controle e na humildade de se desnudar com verdade... na verdade de cada dia deixar cair os véus e filtros. Dói e provoca muita alegria... olhar e ver as fragilidades arranha o ego... assumir as forças, assusta! E quando percebes que a responsabilidade de como está a tua realidade é tua dá-te o poder de agarres e meteres a mão na massa... como tu pintas... é parecido com os quadros que pintas! E podemos criar como queremos! Vou-te mostrar com o barro. Experimentando... permitindo o erro e aprendendo com ele. Foi assim que mais cresci, errando... quando deixei de ser a menina perfeita e passei a ser simplesmente a Ana... quando descalcei os meus sapatos e caminhei com o pés no chão a sentir... ver com os pés, como aprendi com os indígenas. As pessoas despem muito facilmente a roupa que cobre o corpo mas a alma fica tapada... esquecem-se que o melhor está ai. E quando se escuta a voz da alma ficamos mais perto da essência divina em nós. E quando olhas nos olhos de outra alma consegues fazer alquimia. É muito bom quando assim é! Há vezes que tu vais conseguir isso e o Outro não... e vice-versa... o importante é que haja respeito! Sim, respeito é fundamental! Agora brinca... saboreia a chuva de folhas... é tão bela essa simplicidade!

© Ana Teresa Caridade



psicoterapeuta, criativa, narradora oral, professora

Ana Teresa Caridade, natural de Aveiro, vive em Braga, é professora de Educação Moral e Religiosa Católica, psicoterapeuta, criativa, narradora oral e professora de Hatha Yoga. Acredita que pode compilar e cruzar várias áreas: crescimento pessoal e espiritual, arte e comunidade. Explora a dança, o teatro, a música e a narração oral. Sente necessidade de explorar várias técnicas de psicoterapia.
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.4.13 | Sem comentários

François Jacob, Prémio Nobel da Medicina


«Somos feitos de uma estranha mistura de ácidos nucleicos e de memórias, de sonhos e de proteínas, de células e de palavras» — disse um dia François Jacob. «O francês François Jacob, prémio Nobel pelo seu trabalho pioneiro em genética, morreu na sexta-feira [19 de abril de 2013] aos 92 anos», noticia o jornal «Público» desta terça-feira [23 de abril de 2013], dizendo: «Queria ser cirurgião, mas foi combater os nazis. No pós-guerra, escolheu a biologia. Podia ser poético a falar da sua ciência e da sua vida».
E acrescentamos: era um entusiasta daquilo que dá sentido às causas últimas (mas não perdidas) da vida. François Jacob foi um profeta da esperança. «É a esperança que dá sentido à vida. E a esperança baseia-se na perspetiva de poder um dia transformar o mundo atual num mundo possível, julgado melhor. Quando Tristan Bernard foi preso pela Gestapo com a mulher, disse-lhe: ‘O tempo do medo acabou. Agora começa o tempo da esperança’» (François JACOB, «O Jogo dos Possíveis. Ensaio sobre a Diversidade do Mundo Vivo», Gradiva, 1989, 2.ª ed., 137-138).
As mudanças acontecidas ao longo da sua vida, nomeadamente na sua carreira, fizeram dele um homem aberto à novidade, disponível para o sonho de ser sempre outro. Porque ao acordar do sonho, a pessoa «reconstrói-se, religa-se a personagem que se tinha desligado no sono» (François JACOB, «A Estátua Interior. Autobiografia», Dom Quixote, Lisboa 1988, 17). 

Prémio Nobel da Medicina

«François Jacob nasceu em Nancy, no Leste de França, em Junho de 1920. Em 1940, estava a estudar Medicina queria ser cirurgião, quando a França capitulou perante os nazis. Decidiu então alistar-se nas Forças Francesas Livres, o braço armado do movimento de resistência criado em Londres pelo general Charles de Gaulle. Combateu em África e em França e ficou gravemente ferido em Utah Beach, em Agosto de 1944, durante o desembarque aliado na Normandia.
Jacob teve de permanecer hospitalizado durante vários meses e, quando teve alta, como as sequelas dos seus ferimentos lhe vedavam para sempre a prática da cirurgia, virou-se para a biologia um pouco por acaso. Mas rapidamente ficou entusiasmado com a nova ciência que estava a emergir. E os resultados dessa mudança algo tardia de carreira foram, como se provou, excepcionais» (Ana GERSCHENFELD, François JACOB [1920/2013] Geneticista, combatente antinazi e um pouco poeta, Público, 23 de abril de 2013, 26). Em dezembro de 1965 recebeu, em Estocolmo, o Prémio Nobel da Medecina, juntamente com os seus colegas de laboratório André Lwoff e Jacques Monod.

Essência das coisas

François Jacob dá um belo contributo a uma profunda preocupação em encontrar o sentido da vida, em descobrir a «essência das coisas», em dar sentido à existência humana, em «organizar o mundo à sua volta».
«E como pessoa? ‘François Jacob não é apenas um investigador. A fé que sempre teve no progresso da ciência é a fé de um espírito lutador, apaixonado e profundamente humanista’, lê-se na biografia do cientista no site do Nobel. ‘Jacob era companhia das melhores para uma conversa, pela sua enorme cultura e experiência de vida’, responde por seu lado António Coutinho» (Ana GERSCHENFELD, 27).

Progredir através do diálogo

Nas suas conversas, na sua maneira de encarar a vida, descobrimos a falácia do fanatismo e a vitalidade do diálogo, do trabalho em equipa.
Não há nada mais perigoso do que as «certezas de ter razão». Com ironia mostra-se adepto das «ideias fixas» quando se assume como única a «condição de mudar de ideias» (François JACOB, «A Estátua Interior. Autobiografia», 19).
«Muito depressa verifiquei as vantagens de trabalhar, não sozinho num canto, mas em estreita ligação com outros habitantes do sótão. Pela eficácia e pela crítica recíproca; mas também pelo prazer, já que o diálogo leva a melhor sobre o monólogo. Muitas vezes, vários membros do grupo combinavam esforços para experiências de objetivos limitados. [...] Para pensar, para progredir, tenho necessidade de discutir. De ensaiar ideias, de as ver saltitar» (François JACOB, «A Estátua Interior. Autobiografia», 263.289).

Felicidade no pormenor

«Um dos mais brilhantes especialistas americanos do bacteriófago, Al Hershey, dizia que, para um biólogo, a felicidade consiste em ultimar uma experiência muito complexa e refazê-la todos os dias modificando somente um pormenor» (François JACOB, «A Estátua Interior. Autobiografia», 243). Quando se pensa ou se pretende fazer crer que só as grandes revoluções podem mudar o mundo, talvez seja importante recordar que a nossa felicidade se pode alcançar «modificando somente um pormenor».
E, mesmo quando surge a depressão, «aqueles dias em que nada andava», mesmo quando é «difícil a pessoa não se considerar estúpida, incapaz», há algo que Jacob recorda como fundamental: «Com efeito, muito depressa aprendi que, para evitar cair no fundo do abismo por cada experiência falhada, o que importava era ter vários ferros na bigorna. Ter conjuntamente vários temas, de modo a que um falhanço aqui pudesse ser compensado por um êxito ali» (François JACOB, «A Estátua Interior. Autobiografia», 243).

Estátua interior

Cada ser humano é uma sucessão de «estranhos» mais do que uma continuidade. São as «transformações e as suas relações» ao longo da existência que permitem reconstruir a nossa identidade. É neste conjunto de sucessões de «estranhos» e de transformações quase diárias que se toma consciência da unidade. Este exercício da busca da identidade é «trajeto que ninguém pode fazer por nós»: «Esta comunicação entre o meu coração e a minha memória, todas estas emoções que ressurgem sob o aguilhão da lembrança, tecem uma rede entre o que sou e o que fui. Obrigam-me à unidade. Como me obriga também o sentimento de uma velha cumplicidade com todas as personagens do meu passado nos eternos debates que formam o diálogo interior. A certeza de que, cada uma a seu tempo, me deram a réplica» (François JACOB, «A Estátua Interior. Autobiografia», 22).
Assim nasce a «estátua» que cada um traz esculpida dentro de si: «Trago assim em mim, esculpida desde a infância, uma espécie de estátua interior que dá continuidade à minha vida e que é a parte mais íntima, o núcleo mais duro do meu carácter. Essa estátua, toda a vida a modelei. Nunca parei de lhe dar retoques. Aperfeiçoei-a. Poli-a. A goiva e o cinzel são, aqui, encontros e combinações. Ritmos que se entrechocam. Folhas soltas de um capítulo que deslizam para outro no calendário das emoções. Terrores evocados pelo que é só suavidade. Uma necessidade de infinito surgida nos estilhaços de uma música. Um prazer que subitamente irrompe sob a severidade de um olhar. Uma exaltação nascida de uma associação de palavras. Todas as perturbações e todos os constrangimentos, as marcas deixadas por uns e por outros, pela vida e pelo sonho» (François JACOB, «A Estátua Interior. Autobiografia», 23).

© Laboratório da fé, 2013

Prémio Nobel da Medicina
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.4.13 | Sem comentários

Terça-feira da quarta semana de Páscoa


Evangelho segundo João 10, 22-30

Naquele tempo, celebrava-se em Jerusalém a festa da Dedicação do templo. Era inverno e Jesus passeava no templo, sob o Pórtico de Salomão. Então os judeus rodearam-n’O e disseram: «Até quando nos vais trazer em suspenso? Se és o Messias, diz- nos claramente». Jesus respondeu-lhes: «Já vo-lo disse, mas não acreditais. As obras que Eu faço em nome de meu Pai dão testemunho de Mim. Mas vós não acreditais, porque não sois das minhas ovelhas. As minhas ovelhas escutam a minha voz: Eu conheço as minhas ovelhas e elas seguem-Me. Eu dou-lhes a vida eterna e nunca hão-de perecer, ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que Mas deu, é maior do que todos e ninguém pode arrebatar nada da mão do Pai. Eu e o Pai somos um só».

Não acreditais

Há muitos que se dizem cristãos, dizem que seguem o caminho de Jesus Cristo, mas não se mexem, não andam, não correm, não percorrem o caminho de uma vida ressuscitada. E assim não há movimento! 
Estar parado, ficar parado, é sinal de que não se quer ir a lado nenhum. Manifesta o medo que temos em perder o lugar ou a cadeira em que estamos confortavelmente instalados. Jesus Cristo interpela-nos, mas não acreditamos na validade da sua proposta.
«Já vo-lo disse, mas não acreditais. [...] Vós não acreditais, porque não sois das minhas ovelhas». Jesus Cristo não responde com títulos, como pretendiam os judeus. A resposta é dada com a sua ação, com as obras. Não são os títulos (mesmo que religiosos) que nos aproximam de Jesus Cristo. O que faz de nós (ou não) discípulos de Jesus Cristo é a nossa maneira de viver, a nossa conduta pessoal e comunitária. 
Uma vida ressuscitada precisa de exercício, de atividade (desportiva). Implica seguir as indicações do treinador, Jesus Cristo, sem fazer caso de outras propostas ou exemplos dados por aqueles que não pertencem ao seu rebanho. As ovelhas estão sempre em movimento, à procura do melhor pasto; e, claro, sem perder a referência do pastor, que também anda sempre em busca do melhor para as suas ovelhas

© Laboratório da fé, 2013

João 20, 20 - www.laboratoriodafe.net
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.4.13 | Sem comentários

Histórias, contos e reflexões... fusão entre Ana Caridade e Julinha


fusão entre Ana Caridade e Julinha

É tão importante quando me olhas nos olhos e consegues ver a minha alma que comunica com a tua sem uma palavra ser ouvida! Este silêncio que está entre nós é como um cordão que sai de ti e se junta ao que sai de mim e se tocam, abraçam, rodopiam juntos... vejo-os a dançar! Sim, é verdade! Vejo os dançar. Isso faz-me sentir calor no meu coração. Sinto-me segura! Sei que estás comigo e em mim, como também sei que estou em ti! Aceito-te como és e agradeço o que estás a fazer por ti, por mim e comigo. É muito belo ver-te a rasgar com padrões de educação que me levariam ao medo e à repressão. Vejo-te a assumir comigo um compromisso de amor e liberdade em que me deixas experimentar e expressar o que sinto. Gosto tanto de falar contigo! Gosto tanto que me trates como um ser humano que sente! Gosto tanto que me qualifiques e que me ensines a fazer o que não sei! Gosto tanto quando eu erro e tu não me recriminas com berros mas me acolhes com amor e me mostras que o erro é a aprendizagem! Gosto tanto que te transformes e me permites também transformar!

© Ana Teresa Caridade



psicoterapeuta, criativa, narradora oral, professora

Ana Teresa Caridade, natural de Aveiro, vive em Braga, é professora de Educação Moral e Religiosa Católica, psicoterapeuta, criativa, narradora oral e professora de Hatha Yoga. Acredita que pode compilar e cruzar várias áreas: crescimento pessoal e espiritual, arte e comunidade. Explora a dança, o teatro, a música e a narração oral. Sente necessidade de explorar várias técnicas de psicoterapia.
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.4.13 | Sem comentários

Eu digo fé. Tu dizes...


O Laboratório da fé convidou algumas pessoas, crentes ou não crentes, para escreverem um texto sobre a fé. O resultado é apresentado, mensalmente, nesta rubrica intitulada: «Eu digo fé. Tu dizes...». 
O texto que se segue é da autoria do jornalista José Manuel Fernandes.


José Manuel Fernandes, no Laboratório da fé, 2013
Nasci, na década de 1950, numa família católica da classe média e, como acontecia nessa época com quase todas as crianças, fui baptizado e segui a catequese até à primeira comunhão, uma cerimónia festiva que vivi intensamente. Continuei depois muito ligado à Igreja da minha paróquia, a do Sagrado Coração de Jesus em Lisboa, beneficiando do activismo de um pároco precocemente desaparecido – o padre Aparício – e da excitação da construção e inauguração de um novo templo, para mais uma igreja arquitectonicamente arrojada, filha do talento de Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas. Continuei assim ligado a grupos que funcionavam junto da paróquia, cheguei a ajudar à missa e fiz, quando chegou a altura, o Crisma. Até que a minha vida mudou.
Quando tinha 15 anos e andava no Liceu Pedro Nunes, em Outubro de 1972, a polícia política da ditadura assassinou um estudante, Ribeiro Santos. Esse evento foi o detonador para o meu envolvimento no movimento associativo dos estudantes e, depois, no activismo político. Fi-lo, como era comum na época, numa organização radical, de inspiração marxista-leninista. De facto, no Portugal de Salazar e Caetano não era difícil que a revolta juvenil desembocasse no radicalismo político. Foi assim que me tornei comunista, mas numa sua versão mais radical – o maoismo –, tal como foi assim que, durante alguns anos (poucos, felizmente) vivi para a revolução – fui, como então se dizia, um “soldado da revolução”.
Foi uma adesão total e, por isso, um mergulho num universo dominado por uma ilusão falsamente redentora e totalmente falsa – a ilusão comunista. Mas que era absoluta e impunha uma visão do mundo que se tinha por indiscutível, “científica” e, por isso, materialista. Deus ou a Fé Cristã não tinham lugar nela – não só a religião era vista como o “ópio do povo”, como o ateísmo nos surgia como uma espécie de dogma. Foi uma experiência que descrevi numa troca de cartas com D. Manuel Clemente, Bispo do Porto (Diálogo em Tempos de Escombros, Pedra da Lua, 2010): “Bebi o espírito do tempo e, quase sem transição, tornei-me materialista lendo as vulgatas por onde então se estudava o ‘materialismo dialéctico’ e o ‘materialismo histórico’. Esses textos não permitiam que se ficasse no meio da estrada, não deixavam qualquer espaço para a existência de um Ser que não fosse matéria. Não só me tornei ateu, e ateu militante, como tinha dificuldade em entender que aquela explicação do mundo que me parecia evidentíssima e completa não o fosse já para todos.”
Como é que isso sucedeu? Fazendo um percurso em que o meu interesse pela Ciência desempenhou um papel importante. Como marxista e materialista, eu achava que a ciência ou já explicava tudo, ou iria explicar, e que não havia espaço senão para a matéria e para as suas forças no nosso Universo. Hoje sei que há graus de incerteza que a Ciência nunca suprirá e que basta isso para não podermos demonstrar cientificamente que Deus não existe. Ou que existe. Foi assim que me tornei agnóstico, aquele que não sabe, o que não tem Fé mas também não se opõe aos que têm Fé. Fi-lo por dúvida genuína e não por conveniência, como hoje está na moda. Como escrevi nessa mesma conversa epistolar com D. Manuel, “por vezes, sobretudo em alguns momentos mais intensos, tenho pena de não ter Fé, mas sinto que ter ou ter Fé não é uma decisão racional”, ou seja, que “não posso decidir ‘acreditar’”.
Muitos ateus militantes não aceitam esta posição de “não saber” – e a partir daqui retomo o essencial do que escrevi num livro recente, autobiográfico, Era Uma Vez a Revolução (Aletheia, 2012).
É essa a posição de Richard Dawkins, o autor de A Desilusão de Deus, que recentemente me disse numa entrevista que só lhe interessava saber que “não é possível provar que Deus existe”, que tentar fazê-lo seria uma perda de tempo como a de procurar demonstrar a existência de fadas, pelo que não conseguia “encontrar uma situação em que sentisse que existir Deus era necessário”. Dawkins, mesmo sendo capaz de admitir que as religiões podem ter alguma utilidade – “considero-me agnóstico quanto às religiões” –, entende que “a Fé é a grande desculpa para se escapar à necessidade de pensar e de avaliar a evidência factual”.
A forma como algumas religiões foram instrumentalizadas ao longo da História para os piores fins poder-me-ia levar a aceitar esta argumentação. Afinal ela casa a mesma evidência científica que eu conheço com uma percepção da evolução da Humanidade que associa religião a obscurantismo. Mas há outro ponto de vista que merece ser considerado: aquele que olha para as diferentes religiões e as vê como formas de assegurar o conjunto de valores e regras de comportamento que permitem às sociedades manter-se coesas. Antes de existirem leis formuladas pelos Estados, havia já regras que as pessoas seguiam voluntariamente ao aderirem a uma religião, regras sem as quais é muito difícil imaginar comunidades humanas estruturadas. Como um dia disse Irving Kristol, “as pessoas precisam de religião. É um veículo para que exista uma tradição moral. Trata-se de um papel fundamental que nada pode substituir”.
É de resto muito interessante ler as passagens sobre religião do pequeno ensaio autobiográfico que Kristol escreveu para Neo-Conservatism, The Autobiography of na Idea. Nela ele faz duas distinções importantes. Uma é sobre acreditar ou não na existência de Deus, uma formulação que diz não ter sentido porque o conceito de “existência” não é um conceito divino. Por isso, ele acha que uma pessoa não “acredita” em Deus, antes tem Fé em Deus. “A relação com Deus, escreve ele, não é racionalista”, uma formulação não muito diferente da que utilizei nesses meus diálogos com D. Manuel Clemente. “É por isso que as crianças são ensinadas a rezar, em vez de serem ensinadas nas ‘provas’ da existência de Deus”, conclui.
A outra é sobre a importância que os teólogos cristãos dão, na sua interpretação da Bíblia, ao facto de “a natureza humana colocar inerentes limitações ao destino humano”. O “pecado original” é, no fundo, uma forma de nos alertar para os nossos limites, limites que decorrem da nossa natureza profunda. Kristol recorda que esta doutrina já chocava com a sua crença num socialismo utópico no curto período juvenil em que foi trostkista (movimento que deixou aos 22 anos). No meu caso, foi a descrença na visão optimista da natureza humana que tinha quando era mais novo que também contribuiu para a minha descrença nas utopias socialistas e progressistas. Essa descrença também me fez reaproximar da religião – mas não de voltar a “acreditar”.
Mas há uma outra componente, tão ou mais importante, uma componente moral e cultural. Aqui há uns anos, em conversa com um amigo espanhol muito de esquerda e que nunca perdia uma ocasião para criticar o protestantismo, ele virou-se para mim e disse-me: “Deixa-te de conversas. Nós, os ibéricos, somos todos católicos. Podemos dizer que somos ateus, mas somos católicos. Foi assim que fomos educados”. Essa frase, vinda de quem vinha, fez-me pensar. E não me custou a admitir que, pelo menos culturalmente, somos todos católicos. É essa a matriz da sociedade, são essas as referências dos valores que impregnam tanto o nosso quotidiano como o nosso sistema legal.
Esta admissão de um “catolicismo cultural” é, contudo, insuficiente e, a meu ver, pobre. Quando penso naquilo que sou, e que de alguma forma sempre fui, não me posso dissociar dos valores morais que eram e são os da família onde cresci e das comunidades que integrei. E esses valores, que sempre procurei que dessem um sentido moral à minha vida, são valores do Cristianismo. Ao contrário do que admito possa ter acontecido com outras pessoas da minha geração ou mais velhas, nunca vivi o catolicismo como uma doutrina castradora. Os deveres rigorosos que impunha e impõe nunca deixaram de ser os meus, pois nunca acreditei na ausência de referências e sempre valorizei o dever de se ser exigente, sobretudo quando se começa por se ser exigente consigo mesmo. A preocupação com o outro que encontrei no Cristianismo nunca deixou de estar presente na minha vida, uma preocupação que não é apenas com um “outro” abstracto e longínquo – o pobre, o proletário –, antes uma preocupação que começa com as dificuldades concretas dos que vivem a nosso lado. O sentido da compaixão, a preocupação com a lealdade, a noção de que somos seres limitados e imperfeitos e que isso nos exige humildade e resiliência, o princípio da tolerância sem abdicar daquilo em que se acredita e por que se batalha, todos esses valores que me foram transmitidos pela educação católica sempre me deram balizas morais de acordo com as quais procurei e procuro julgar os meus actos, mesmo quando às vezes tenho menos sucesso. É por isso que sinto que devo muito ao Cristianismo, mesmo não tendo Fé.

© José Manuel Fernandes
© Laboratório da fé, 2013


Outros textos publicados no Laboratório da fé 

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.4.13 | 10 comentários
Segunda-feira da quarta semana de Páscoa

Evangelho segundo João 10, 1-10

Naquele tempo, disse Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que não entra no aprisco das ovelhas pela porta, mas entra por outro lado, é ladrão e salteador. Mas aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. O porteiro abre-lhe a porta e as ovelhas conhecem a sua voz. Ele chama cada uma delas pelo seu nome e leva-as para fora. Depois de ter feito sair todas as que lhe pertencem, caminha à sua frente e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz. Se for um estranho, não o seguem, mas fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos». Jesus apresentou-lhes esta comparação, mas eles não compreenderam o que queria dizer. Jesus continuou: «Em verdade, em verdade vos digo: Eu sou a porta das ovelhas. Aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os escutaram. Eu sou a porta. Quem entrar por Mim será salvo: é como a ovelha que entra e sai do aprisco e encontra pastagem. O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância».

Se for um estranho, não o seguem

Numa casa, quando vemos alguém a entrar pela janela pensamos logo num assalto. Jesus Cristo usa a mesma lógica para se distinguir do «ladrão»; este não entra «pela porta, mas entra por outro lado». 
Um ladrão apropria-se do que não lhe pertence; causa dano aos que são roubados. Jesus Cristo alerta para o perigo de sermos confrontados com ladrões, que muitas vezes até se fazem passar por «bons pastores». 
Ora, quando as ovelhas estão atentas, não seguem esses «estranhos», mesmo que se façam passar por pastores. Porque conhecem a voz do verdadeiro pastor. «Se for um estranho, não o seguem, mas fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos».
Quando decidimos fazer uma caminhada, não sabemos o que podemos encontrar pelo caminho. Há «estranhos» a quem não podemos dar ouvidos, nem cair na tentação de os seguir: a violência, o egoísmo, a xenofobia, o ódio... 
Mas há outros tipos de «estranhos» que se apresentam camuflados de «bons» e querem-nos afastar do caminho certo: preocupações laborais ou familiares, desleixo, alguns rituais religiosos ou práticas de piedade, rotina, preguiça...
A melhor maneira de não nos afastarmos do caminho certo — o percurso que queremos percorrer — é parar de vez em quando, passar por postos de controle, usar o GPS... seguir a voz do pastor. Jesus Cristo como treinador e o seu Evangelho como posto de controle são a melhor forma de fortalecermos a nossa vida ressuscitada com uma «atividade desportiva» equilibrada e saudável. 

© Laboratório da fé, 2013

Nas comunidades cristãs também existem «carreiristas», não é? — questionou o Papa Francisco a propósito deste texto do evangelho, na homilia de hoje, na capela da Casa Santa Marta. São os «ladrões» e «salteadores» de que fala Jesus Cristo, aqueles que procuram o proveito próprio e, por isso, consciente ou inconscientemente enganam o rebanho. 
E como faço para saber se a porta é verdadeira? Pega nas bem-aventuranças e segue-as: sê humilde, pobre, manso, justo... Na verdade, às vezes temos a tentação de sermos donos de nós mesmos e não humildes filhos de Deus.
Jesus Cristo não é apenas a porta: é o caminho, é a estrada. Existem muitos percursos, alguns até parecem mais rápidos, mas não são verdadeiros, são enganadores. Essa é a tentação de procurar outras portas ou outros lugares para entrar no Reino de Deus. Jesus Cristo é a única porta verdadeira. 
Alguns podem dizer: «Padre, o senhor está a ser fundamentalista!». Não, estou apenas a repetir as palavras de Jesus Cristo: «Eu sou a porta das ovelhas». Jesus Cristo é uma porta bela, uma porta de amor, uma porta que não engana, não é falsa. Diz sempre a verdade. Mas com ternura, com amor. 
Às vezes, parece que a porta está fechada: estamos tristes, desolados, temos medo de bater à porta. Não podemos procurar outras portas que possam parecer mais fáceis de abrir, mais confortáveis, mais ao nosso alcance. Procuremos sempre a porta que é Jesus Cristo. Ele nunca desilude, nunca nos engana. (fonte: www.news.va)

João 20, 20 - www.laboratoriodafe.net
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.4.13 | Sem comentários
Ao ritmo da liturgia [no Ciclo C de Cortés (RD-Herder)]


Quarta semana
 de Páscoa

Uma vida ressuscitada: fazer exercício


Uma boa alimentação é imprescindível para fortalecer a nossa vida ressuscitada (Terceira semana de Páscoa). Mas para estarmos sempre «no ponto» é preciso fazer exercício.
A vida cristã pode ser entendida como uma atividade desportiva: uma maratona que tem Jesus Cristo como único treinador (DOMINGO: «As minhas ovelhas escutam a minha voz»), sem fazer caso de outras propostas (SEGUNDA: «Se for um estranho, não o seguem») nem de outros exemplos dados por aqueles que não pertencem ao seu rebanho (TERÇA: «Não acreditais»).
Uma carreira exemplar, à luz do dia (QUARTA: «Aquele que acredita em Mim não fique nas trevas»); e um mundo inteiro para percorrer (QUINTA: «Eles partiram a pregar por toda a parte»), com a verdade e a vida à frente (SEXTA: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida»), que nos hão de conduzir, sem dúvida, até à meta (SÁBADO: «Quem Me vê, vê o Pai»).
Inscrevemo-nos numa carreira desportiva organizada por Jesus Cristo, nosso treinador?

Não podemos ter uma vida saudável sem exercício, mesmo que se trate de exercícios «espirituais». Esta semana vai-nos proporcionar temas para esta reflexão tão «desportiva».

© José Luis Cortés — El ciclo C, Herder Editorial
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor

Páscoa - Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.4.13 | Sem comentários

Histórias, contos e reflexões... fusão entre Ana Caridade e Julinha


Interação com a árvore - com Julinha


Toco-te porque te sinto... a vida circula de ti para mim e de mim para ti... há em nós algo igual e não se vê... fico aqui e converso contigo. Abraço-te. As minhas mãos sentem a tua textura tão rugosa e diferente... e percorro-te. O cheiro deste local é tão suave que me aquieta e impulsiona a vontade de explorar... exploro-te e exploro a terra, as plantas e o meu casaco vermelho... observo as cores que formam a paisagem... não penso... não crio explicações... apenas sinto... e, saboreio!

fusão entre Julinha e Ana Teresa Caridade

«Sino la pregunta más importante
para ver dentro y detrás,
para sopesar el valor de todo lo que vive,
¿ dóooonde
estáaaa el
almaaaa?
¿Dónde está el alma?

Sal al bosque, sal enseguida. Si no sales al bosque,
jamás ocurrirá nada y tu vida no empezará jamás.
Sal al bosque,
sal enseguida».

© Ana Teresa Caridade



psicoterapeuta, criativa, narradora oral, professora

Ana Teresa Caridade, natural de Aveiro, vive em Braga, é professora de Educação Moral e Religiosa Católica, psicoterapeuta, criativa, narradora oral e professora de Hatha Yoga. Acredita que pode compilar e cruzar várias áreas: crescimento pessoal e espiritual, arte e comunidade. Explora a dança, o teatro, a música e a narração oral. Sente necessidade de explorar várias técnicas de psicoterapia.
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.4.13 | Sem comentários
Domingo da quarta semana de Páscoa

Evangelho segundo João 10, 27-30

Naquele tempo, disse Jesus: «As minhas ovelhas escutam a minha voz. Eu conheço as minhas ovelhas e elas seguem-Me. Eu dou-lhes a vida eterna e nunca hão-de perecer e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que Mas deu, é maior do que todos e ninguém pode arrebatar nada da mão do Pai. Eu e o Pai somos um só».

Escutar a voz com alegria

«As minhas ovelhas escutam a minha voz» — escutamos na breve passagem do evangelho segundo João. Neste quarto domingo de Páscoa — o «Domingo do Bom Pastor» — as palavras de Jesus Cristo são dirigidas aos que conhecem a sua voz e a reconhecem. Podemos dizer que nós, no meio de tantas vozes, conhecemos e reconhecemos as palavras de Jesus Cristo. Escutamo-las em cada domingo. E sempre que dedicamos algum tempo a ler uma passagem do Evangelho.
As palavras de Jesus Cristo são sempre uma Boa Nova. Uma Boa Nova que se manifesta na alegria com que é acolhida, como nos testemunha a primeira leitura: «Ao ouvirem estas palavras, os gentios encheram-se de alegria. [...] Entretanto, os discípulos estavam cheios de alegria». Ora, esta Palavra continua a ser uma Boa Notícia para nós, especialmente neste tempo de Páscoa. 


Seguir o Bom Pastor

Hoje, «domingo do Bom Pastor», as palavras de Jesus Cristo dirigem-se a todos, embora ainda haja quem não as tenha escutado. Há irmãos nossos que ainda não tiveram ocasião de saborear esta mensagem cheia de alegria e de vida para quem a acolhe com fé. «As minhas ovelhas escutam a minha voz». Não se trata apenas de ouvir. Trata-se de escutar. A maioria das vezes ouvimos, mas apenas aceitamos o que está de acordo com os nossos interesses. Não estamos abertos à novidade, sobretudo quando a novidade nos obriga a abandonar os nossos esquemas, as nossas seguranças. Escutar significa aproximar-se e acolher o que é dito, mesmo que isso exija mudanças importantes no nosso estilo de vida. «Eu conheço as minhas ovelhas e elas seguem-Me» — acrescenta Jesus Cristo. É preciso entrar nesta (nova) dinâmica! Esta é a primeira decisão de um cristão. A decisão que muda tudo: começar a viver de forma nova a adesão a Jesus Cristo. Escutar a voz de Jesus Cristo é assumir o compromisso de a exercitar: vivê-la no nosso dia a dia. 
Hoje, queremos agradecer a Deus por todos os que nos ensinaram a escutar e a reconhecer a voz de Jesus Cristo: os nossos pais, catequistas, párocos, religiosas e religiosos, missionárias e missionários, leigos comprometidos na missão evangelizadora da Igreja. Ensinaram-nos que a voz do Bom Pastor pode ser escutada através das Sagradas Escrituras, através dos evangelhos. E também através de tantas situações vividas no nosso quotidiano. 

Continuar a missão

O que posso fazer para continuar a missão de Jesus Cristo? Em primeiro lugar, dispor-me a escutar a sua voz. Escutar no sentido apresentamos: acolher o que é dito, mesmo que isso exija mudanças importantes. Recordemos a Mensagem do Papa Bento XVI para este Dia Mundial de Oração pelas Vocações: «Hoje, Jesus, o Ressuscitado, passa pelas estradas da nossa vida. É precisamente no nosso dia a dia que Ele continua a dirigir-nos a sua palavra; chama-nos a realizar a nossa vida com Ele. Ele chama também hoje a segui-l’O. E este apelo pode chegar em qualquer momento. Segui-l’O significa entranhar a própria vontade na vontade de Jesus, dar-Lhe verdadeiramente a precedência, antepô-l’O a tudo o que faz parte da nossa vida: família, trabalho, interesses pessoais, nós mesmos. Significa entregar-Lhe a própria vida, viver com Ele em profunda intimidade». O que posso fazer para continuar a missão de Jesus Cristo?

© Laboratório da fé, 2013

Círio Pascal - rebanho - Pastor - desenho de fano


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.4.13 | Sem comentários

Palavra para hoje: quarto domingo de Páscoa


«Vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas». Jesus Cristo é o único Pastor desta «multidão imensa». Ela é constituída por pessoas de todos os lugares. A pregação do Evangelho aos pagãos não é fruto de um acidente histórico; não acontece apenas porque os judeus não escutaram a mensagem. O anúncio da salvação a todos os povos está inscrito nos desígnios de Deus. A Igreja é uma comunidade de homens e mulheres descendentes das «nações» que acolhem a salvação e se tornam numa «comunidade de crentes». Uma comunidade a quem Jesus Cristo se apresenta como Bom Pastor. Uma comunidade onde se revela o seu mistério: «Eu e o Pai somos um só».
Palavra de Deus - Lectio divina - imagem de fano
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.4.13 | Sem comentários
Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

É muito sugestivo que o Credo da fé cristã afirme tal como foi formulado no século IV: «Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigénito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: [...] gerado, não criado». Mais ainda: há um Concílio da antiguidade (Concílio de Toledo, no ano 675) que afirma: «o Filho foi gerado e nasceu do seio do Pai». Ou seja, Deus Pai tem um filho, que nasce do seu seio, porque foi gerado por ele. Nós não costumamos dizer que o pai gera e muito menos que tem um seio. A que gera, a que dá à luz, a que transporta a criança no seu seio, é a mãe, embora evidentemente o pai intervenha na geração. Em todo o caso, entrar por estas questões de tipo sexual para ver até que ponto se podem aplicar a Deus parece-me um equívoco. Porque Deus está para além das distinções sexuais. Em todo o caso, uma boa analogia para entender a «geração» em Deus seria a da inteligência humana que gera a palavra.
Pois bem, o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus. Daqui se deduz que, em certo sentido, Deus é semelhante ao ser humano. E, portanto, tem que integrar na sua realidade divina o que no nosso contexto se chama masculino e feminino. De facto, na Sagrada Escritura, atribuem-se a Deus qualidade tanto masculinas como femininas. O Antigo Testamento apresenta várias vezes o amor de Deus pelo seu povo sob a figura de uma mãe. O profeta Isaías (49, 14-15) compara Deus com uma mulher que não esquece o filho gerado nas suas entranhas. Em Isaías 66, 13 diz-se que Yahvé consola como uma mãe; no Salmo 131 compara-se Deus com o regaço de uma mãe; e, noutros textos, o amor de Deus é comparado ao amor de uma mãe que leva o povo no próprio seio, dando-o à luz com dor, alimentando-o e consolando-o (Isaías 42, 14; 46, 3-4).

Parábola do filho pródigo ou do pai misericordioso

Naquela que é conhecida como a parábola do filho pródigo, a reação do pai diante do filho que volta evoca as entranhas maternas: «ainda ele estava longe quando o pai o viu; comovido nas suas entranhas, correu ao seu encontro e lançou-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos» (Lucas 15, 20). Aqui, as características são mais maternas que paternas. Trata-se de um pai com sentimentos e entranhas maternas. Para caracterizar o Pai do Céu não bastam as características do pai terreno; é preciso junta também as perfeições da mãe. Só assumindo as duas figuras de pai-mãe expressamos o que acreditamos pela fé: há um mistério último, acolhedor, fonte e princípio de tudo, que nos convida à comunhão, do qual tudo procede e para o qual tudo se encaminha: o pai e mãe celestial.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.4.13 | Sem comentários
Sexta-feira da terceira semana de Páscoa

Evangelho segundo João 6, 52-59

Naquele tempo, os judeus discutiam entre si: «Como pode Jesus dar-nos a sua carne a comer?». Então Jesus disse-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia. A minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e Eu nele. Assim como o Pai, que vive, Me enviou e Eu vivo pelo Pai, também aquele que Me come viverá por Mim. Este é o pão que desceu do Céu; não é como o dos vossos pais, que o comeram e morreram: quem comer deste pão viverá eternamente». Assim falou Jesus, ao ensinar numa sinagoga, em Cafarnaum.

Este é o pão que desceu do Céu; não é como o dos vossos pais

Jesus Cristo oferece uma comida saudável, capaz de alimentar a «fome» mais profunda do ser humano. Mas, para que seja tomada como alimento que regenera a nossa vida ressuscitada é preciso que seja mastigado com calma, em (longos) momentos de tranquilidade. Uma pausa em cada dia para sintonizar com a presença de Deus — nada melhor do que a oração iluminada pela Palavra de Deus proposta pela liturgia de cada dia — ajuda-nos a saborear a qualidade deste alimento oferecido por Jesus Cristo.
«Este é o pão que desceu do Céu; não é como o dos vossos pais». Alimentar-se deste pão é deixar que a nossa vida se una à vida ressuscitada de Jesus Cristo, para que a nossa seja também uma vida ressuscitada, para que este alimento se torne na «carne da nossa carne». É unir-se totalmente a Ele, de forma que a maneira de viver de Jesus Cristo seja também a maneira de viver daqueles que se alimentam deste «pão que desceu do Céu».

© Laboratório da fé, 2013

A propósito dos textos litúrgicos de hoje, na homilia , na capela da Casa Santa Marta, o Papa Francisco salientou que a voz de Jesus Cristo passa pela inteligência e vai ao coração. Ela vai ao coração porque é Palavra de amor, bela, produz amor, faz amar. Os doutores da lei respondem apenas com a cabeça. Não sabem que a Palavra de Deus fala ao coração. Quando entra a ideologia na Igreja, quando entra a ideologia na inteligência do Evangelho, não se entende mais nada. E esses ideólogos — como sabemos da História da Igreja — acabam por se tornar em intelectuais sem talento, moralistas sem bondade. Nem falemos de beleza, porque disso eles não entendem nada. Ao contrário, a estrada do amor, a estrada do Evangelho é simples: é a estrada que os santos entenderam. Os santos são os que levam a Igreja por diante! Peçamos hoje ao Senhor pela Igreja. Que o Senhor a liberte de qualquer interpretação ideológica e abra o coração da Igreja, da nossa Mãe Igreja, ao Evangelho simples, àquele Evangelho puro que nos fala de amor, que produz amor é tão bonito! E que nos torna mais belos, com a beleza da santidade. (fonte: www.news.va)

João 20, 20 - www.laboratoriodafe.net
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.4.13 | Sem comentários
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