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Audiência Geral de 24 de abril de 2013


No contexto do Ano da Fé e das catequeses iniciadas por Bento XVI sobre o conteúdo do «Credo», o papa Francisco dedicou uma catequese à expressão: «De novo há de vir em sua glória para julgar os vivos e os mortos» — no Laboratório da fé apresentamos duas reflexões sobre este tema: De novo há de vir em sua glória; para julgar os vivos e os mortos. Nesta catequese, o Papa põe em destaque as três parábolas que compõe o capítulo 25 do evangelho segundo Mateus: as dez virgens, os talentos e o juízo final.

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!
No Credo professamos que Jesus «virá de novo na glória para julgar os vivos e os mortos». A história humana tem início com a criação do homem e da mulher, à imagem e semelhança de Deus, e conclui-se com o Juízo final de Cristo. Esquecemo-nos muitas vezes destes dois pólos da história, e sobretudo a fé na vinda de Cristo e no Juízo às vezes não é muito clara e sólida no coração dos cristãos. Durante a vida pública, Jesus ponderou frequentemente sobre a realidade da sua última vinda. Hoje, gostaria de meditar sobre três textos evangélicos que nos ajudam a entrar neste mistério: das dez virgens, dos talentos e do Juízo final. Os três fazem parte do sermão de Jesus a respeito do fim dos tempos, no Evangelho de são Mateus.
Antes de tudo recordamos que, com a Ascensão, o Filho de Deus apresentou ao Pai a nossa humanidade, por Ele assumida, e quer atrair todos a Si, chamar o mundo inteiro a ser acolhido nos braços abertos de Deus a fim de que, no fim da história, a realidade inteira seja comunicada ao Pai. Porém, existe este «tempo imediato» entre a primeira vinda de Cristo e a última, que é precisamente o tempo que agora vivemos. É no contexto deste «tempo imediato» que se insere a parábola das dez virgens (cf. Mateus 25, 1-13). Trata-se de dez donzelas que esperam a chegada do Esposo, mas ele atrasa e elas adormecem. Ao anúncio repentino que o Esposo está a chegar, todas se preparam para o receber, mas enquanto cinco delas, sábias, dispõem de óleo para alimentar as suas lâmpadas, as demais, imprudentes, permanecem com as lâmpadas apagadas porque não têm óleo; e enquanto o procuram, o Esposo chega e as virgens imprudentes encontram fechada a porta que introduz na festa nupcial. Batem à porta com insistência, mas já é tarde, e o Esposo responde: não vos conheço. O Esposo é o Senhor, e o tempo de espera da sua chegada é o tempo que Ele nos concede, a todos nós, com misericórdia e paciência, antes da sua vinda derradeira; é um tempo de vigilância; tempo em que devemos manter acesas as lâmpadas da fé, da esperança e da caridade, nas quais conservar aberto o coração para o bem, a beleza e a verdade; tempo para viver segundo Deus, pois não conhecemos nem o dia nem a hora da vinda de Cristo. É-nos pedido que estejamos preparados para o encontro — preparados para um encontro, um encontro bonito, o encontro com Jesus — que significa saber ver os sinais da sua presença, manter viva a nossa fé com a oração e com os Sacramentos, ser vigilantes para não adormecer, para não nos esquecermos de Deus. A vida dos cristãos adormecidos é triste, não é uma vida feliz. O cristão deve ser feliz, na alegria de Jesus. Não adormeçamos!
A segunda parábola, dos talentos, faz-nos meditar sobre a relação entre o modo como usamos os dons recebidos de Deus e a sua vinda, quando nos perguntará como os utilizámos (cf. Mateus 25, 14-30). Conhecemos bem a parábola: antes de partir, o senhor confia a cada servo alguns talentos, a fim de que sejam usados bem durante a sua ausência. Ao primeiro dá cinco, ao segundo dois e ao terceiro um. No período de ausência, os primeiros dois servos multiplicam os seus talentos — trata-se de moedas antigas — enquanto o terceiro prefere enterrar o seu talento e restituí-lo intacto ao senhor. Quando regressa, o senhor julga a acção deles: elogia os primeiros dois, enquanto o terceiro é expulso para as trevas, porque teve medo e manteve escondido o talento, fechando-se em si mesmo. O cristão que se fecha em si próprio, que esconde tudo o que o Senhor lhe deu é um cristão... não é cristão! É um cristão que não dá graças a Deus por tudo o que recebeu! Isto diz-nos que a espera da volta do Senhor é o tempo da ação — nós vivemos no tempo da ação — o tempo para frutificar os dons de Deus, não para nós mesmos mas para Ele, para a Igreja, para os outros, o tempo para procurar fazer crescer sempre o bem no mundo. E em particular, nesta época de crise, hoje é importante não nos fecharmos em nós mesmos, enterrando o nosso talento, as nossas riquezas espirituais, intelectuais e materiais, tudo o que o Senhor nos concedeu, mas abrir-nos, ser solidários e atentos ao próximo. Vi que na praça há muitos jovens: é verdade? Há muitos jovens? Onde estão? A vós, que estais no início do caminho da vida, pergunto: pensastes nos talentos que Deus vos concedeu? Pensastes no modo como não enterrar os talentos! Apostai em ideais grandes, nos ideais que ampliam o coração, nos ideais de serviço que fecundarão os vossos talentos. A vida não nos é concedida para que a conservemos ciosamente para nós mesmos, mas para que a doemos. Caros jovens, tende uma alma grande! Não tenhais medo de sonhar coisas grandes!
Enfim, uma palavra sobre o trecho do juízo final, no qual se descreve a segunda vinda do Senhor, quando Ele julgará todos os seres humanos, os vivos e os mortos (cf. Mateus 25, 31-46). A imagem utilizada pelo evangelista é a do pastor que separa as ovelhas dos cabritos. À direita são postos aqueles que agiram segundo a vontade de Deus, socorrendo o próximo faminto, sequioso, estrangeiro, nu, doente e prisioneiro — eu disse «estrangeiro»: penso nos numerosos estrangeiros que vivem aqui na diocese de Roma: que fazemos por eles? — e à esquerda estão quantos não socorreram o próximo. Isto diz-nos que nós seremos julgados por Deus segundo a caridade, segundo o modo como O tivermos amado nos nossos irmãos, especialmente os mais frágeis e necessitados. Sem dúvida, devemos ter sempre bem presente que somos justificados e salvos pela graça, por um gesto de amor gratuito de Deus, que sempre nos precede; sozinhos, nada podemos fazer. A fé é antes de tudo um dom que recebemos. Mas para que dê fruto, a graça de Deus exige sempre a nossa abertura a Ele, a nossa resposta livre e concreta. Cristo vem trazer-nos a misericórdia de Deus que salva. É-nos pedido que confiemos n’Ele, correspondendo ao dom do seu amor com uma vida boa, feita de gestos animados pela fé e pelo amor.
Estimados irmãos e irmãs, nunca tenhamos medo de olhar para o juízo final; ao contrário, que ele nos leve a viver melhor o presente. Deus oferece-nos este tempo com misericórdia e paciência, a fim de aprendermos todos os dias a reconhecê-lo nos pobres e nos pequeninos, de trabalharmos para o bem e de sermos vigilantes na oração e no amor. Que no final da nossa existência e da história o Senhor possa reconhecer-nos como servos bons e fiéis. Obrigado!

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Audiência Geral



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 9.5.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [28]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

A vinda gloriosa de Jesus Cristo está associada, no «Credo», ao juízo no final dos tempos. Ao proclamarmos que Jesus Cristo «há de vir em sua glória», acrescentamos que essa vinda será «para julgar os vivos e os mortos». [Para ajudar a compreender melhor, ler: Mateus 25, 31-46; Catecismo da Igreja Católica, números 678-682]

«Perante Ele, vão reunir-se todos os povos» — refere o evangelista Mateus para ilustrar o encontro definitivo com Jesus Cristo. A este propósito, o papa Francisco disse: «À direita são postos aqueles que agiram segundo a vontade de Deus, socorrendo o próximo faminto, sequioso, estrangeiro, nu, doente e prisioneiro [...] e à esquerda estão quantos não socorreram o próximo. Isto diz-nos que nós seremos julgados por Deus segundo a caridade, segundo o modo como O tivermos amado nos nossos irmãos, especialmente os mais frágeis e necessitados. Sem dúvida, devemos ter sempre bem presente que somos justificados e salvos pela graça, por um gesto de amor gratuito de Deus, que sempre nos precede; sozinhos, nada podemos fazer. A fé é antes de tudo um dom que recebemos. Mas para que dê fruto, a graça de Deus exige sempre a nossa abertura a Ele, a nossa resposta livre e concreta. Cristo vem trazer-nos a misericórdia de Deus que salva. É-nos pedido que confiemos n’Ele, correspondendo ao dom do seu amor com uma vida boa, feita de gestos animados pela fé e pelo amor. Nunca tenhamos medo de olhar para o Juízo final; ao contrário, que ele nos leve a viver melhor o presente. Deus oferece-nos este tempo com misericórdia e paciência, a fim de aprendermos todos os dias a reconhecê-lo nos pobres e nos pequeninos, de trabalharmos para o bem e de sermos vigilantes na oração e no amor» (Audiência Geral de 24 de abril de 2013).

Para julgar. «A história humana tem início com a criação do homem e da mulher, à imagem e semelhança de Deus, e conclui-se com o Juízo final de Cristo. Esquecemo-nos muitas vezes destes dois polos da história, e sobretudo a fé na vinda de Cristo e no Juízo às vezes não é muito clara e sólida no coração dos cristãos» (Francisco, Audiência Geral de 24 de abril de 2013). A consciência de um «juízo» está presente desde sempre nos primeiros cristãos, como se pode comprovar em vários textos do Novo Testamento. Mas este conceito de juízo não está relacionado com um processo judicial. Uma infeliz associação produzida no âmbito da cultura romana transformou o «juízo final» num acontecimento dramático e trágico, como se fosse possível uma decisão arbitrária do juiz. «Se confiamos naquele que nos criou, também podemos ter plena confiança naquele que nos chama à salvação» (Olegario González de Cardedal, «Sobre la muerte», ed. Sígueme, Salamanca 2002, 66). Na Bíblia, o juiz, antes de ser aquele que premeia e castiga, é aquele que vela pela ordem e procura o restabelecimento do que foi destruído ou danificado. A imagem de Deus justiceiro é completamente falsa. «Ora, o Filho não veio para julgar, mas para salvar e dar a vida que tem em Si. É pela recusa da graça nesta vida que cada qual se julga já a si próprio» (Catecismo da Igreja Católica, 679). A salvação é um dom de Deus. Mas nem sempre o ser humano decide acolher esse dom. Essa é a nossa responsabilidade (cf. temas 15, 16 e 39). Basta estar atento aos textos do Novo Testamento para perceber que o juízo é uma consequência da liberdade humana, isto é, está dependente das decisões que tomamos durante a existência terrena. Na passagem do evangelho segundo Mateus, o rei não exerce nenhum julgamento. As palavras que pronuncia não são uma sentença, mas uma declaração que constata o comportamento de cada um: uns são benditos e outros malditos em função do que fizeram aos seus irmãos. Esclarece o Catecismo da Igreja Católica (número 682): «Cristo glorioso há de revelar a disposição secreta dos corações, e dará a cada um segundo as suas obras e segundo a aceitação ou recusa que tiver feito da graça».

Os vivos e os mortos. Jesus Cristo virá para «julgar os vivos e os mortos» significa dizer que é para todos os homens e mulheres de todos os tempos. «Nenhuma situação humana pode ser considerada ‘fora de jogo’, relativamente à oferta que Deus faz à liberdade das pessoas. [...] Somos continuamente convidados a não fazer batota, a ser verdadeiros e sinceros, a viver no sinal da coerência límpida e corajosa» (Dionigi Tettamanzi, «Esta é a nossa fé!», Paulinas, Prior Velho 2005, 101-102).

«Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo» (Mateus 25, 34).

© Laboratório da fé, 2013


Credo - esta é a nossa fé - laboratório da fé, 2013  Credo - esta é a nossa fé - laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 9.5.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [27]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

Há uma mudança nos tempos verbais! Até agora o conteúdo do «Credo» situou-se no passado e no presente da História da Salvação. Agora, aponta para o tempo futuro: uma realidade marcada pela vinda gloriosa de Jesus Cristo. [Para ajudar a compreender melhor, ler: João 14, 1-6; Catecismo da Igreja Católica, números 668-677]

«Virei novamente e hei de levar-vos para junto de mim» — diz Jesus Cristo aos discípulos, no contexto do (longo) discurso de despedida relatado no evangelho segundo João. À proximidade com os seus discípulos, lavando-lhes os pés e insistindo no mandamento do amor, mistura-se a tensão do anúncio das negações de Pedro e da traição de Judas (cf. João 13). Agora, Jesus Cristo percebe que o rosto e o coração dos discípulos estão perturbados. Por isso, anima-os a ter fé, a ter confiança nele e no Pai. Tranquiliza os seus amigos. Apesar de todas as contrariedades e situações difíceis, explica-lhes que a esperança humana será levada à plenitude. Porque, no coração de Deus, há lugar para todos os seus filhos. A exortação à confiança está também associada à «partida» de Jesus Cristo para a «casa» do Pai onde preparará um «lugar» para os seus amigos. Mas não devem ficar tristes, pois não se trata de um abandono definitivo; ele voltará: «virei novamente e hei de levar-vos para junto de mim». Os discípulos não compreendem. Em nome de todos, Tomé assume essa incompreensão. Ainda não perceberam qual é a meta nem o caminho para lá chegar: «Não sabemos para onde vais, como podemos nós saber o caminho?». A resposta está no próprio Jesus Cristo. Ele é o caminho. «Jesus esclarece os discípulos de que a sua partida é abrir caminho para a casa do Pai, a meta final para todos» (Bíblia Sagrada, Nota ao texto de João 14, 2-3, Difusora Bíblica, 1758).

De novo há de vir em sua glória. «A fé no regresso de Cristo é o segundo pilar da profissão de fé cristã. Ele, que se fez carne e agora permanece Homem para sempre, que para sempre inaugurou em Deus a esfera do ser humano, chama todo o mundo a entrar nos braços abertos de Deus» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré. Parte II — Da Entrada em Jerusalém até à Ressurreição, Princípia Editora, Cascais 2011, 232). As primeiras comunidades cristãs sempre assumiram esta esperança pela vinda gloriosa de Jesus Cristo, como o comprova, entre outros, o final do livro do Apocalipse (que também encerra a Bíblia): «‘Eis que Eu venho em breve. Feliz o que puser em prática as palavras da profecia deste livro. [...] Sim. Virei brevemente’. — Ámen! Vem, Senhor Jesus!» (Apocalipse 22, 7.20). Este texto reflete a expressão aramaica «Marana thá» («Vinde, Senhor») — ou «Maran atha» («O Senhor veio») — usada pelos (primeiros) cristãos. Conforme escreve Bento XVI, «sabemos, pela ‘Didaché’ (cerca do ano 100), que este brado fazia parte das orações litúrgicas da Celebração Eucarística dos primeiros cristãos, aparecendo aqui concretamente também a unidade dos dois modos de leitura: os cristãos invocam a vinda definitiva de Jesus e ao mesmo tempo veem, com alegria e gratidão, que Ele antecipa já agora a sua vinda, dá entrada já agora no nosso meio» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré. Parte II...», 233). Na verdade, esta esperança pela vinda de Jesus Cristo ainda hoje se mantém no ritual da Eucaristia, quando após o Pai nosso o presidente reza: «enquanto esperamos a vinda gloriosa de Jesus Cristo nosso Salvador». E, antes, há uma aclamação em que a assembleia proclama: «Vinde, Senhor Jesus!» ou «esperando a vossa vinda gloriosa». Ao professarmos a nossa fé na vinda de Jesus Cristo manifestamos a nossa convicção de que a história tem uma meta, um sentido que se revelará pleno, no final dos tempos. Esta dimensão da esperança cristã está bem patente no tempo litúrgico do Advento (período que antecede o Natal). Nele, celebramos a preparação para a vinda histórica de Jesus Cristo e a esperança na vinda no final dos tempos, quando entrarmos definitivamente na vida em Deus. Mas não só: há uma outra vinda. «O tempo do Advento é celebrar e abrir-se à vinda constante de Deus, de Jesus, às nossas vidas e à vida da humanidade. Porque Deus vem agora» (Josep Ligadas, «Advento: o Senhor vem», Paulinas, Prior Velho 2003, 10). Na verdade, é preciso ter claro que o facto de nos referirmos a uma nova vinda não significa que Jesus Cristo se encontra ausente do tempo presente. O próprio Jesus Cristo prometeu estar sempre connosco (cf. Mateus 28, 20).

A esperança pela vinda gloriosa de Cristo provoca a alegria de um dia entrarmos na plenitude da vida em Deus. Mas é também um apelo à nossa responsabilidade: Jesus virá «para julgar».

© Laboratório da fé, 2013


  

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.5.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [26]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

A profissão de fé na Ascensão de Jesus Cristo («subiu aos Céus») tem um complemento que acrescenta: «onde está sentado à direita do Pai». Qual é o sentido desta afirmação? Há um simbolismo relacionado com esta terminologia sobre o qual vamos refletir. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Salmo 110 (109); Catecismo da Igreja Católica, números 659 a 667]

«Disse o Senhor ao meu senhor: ‘Senta-te à minha direita’» — começa por afirmar o salmista. Os exegetas sugerem que se trata de um texto sobre a realeza. Neste sentido, a expressão «ao meu senhor» refere-se ao rei (cf. Bíblia Sagrada, Introdução ao Salmo 110, Difusora Bíblica, 957). Contudo, em vários textos do Novo Testamento, inclusive nos evangelhos, esta expressão é usada para se referir a Jesus Cristo. Por exemplo, nos Atos dos Apóstolos, Pedro serve-se deste salmo para anunciar a ressurreição de Jesus Cristo: «David não subiu ao Céu, mas ele próprio diz: ‘O Senhor disse ao meu Senhor: Senta-te à minha direita [...]. Saiba toda a casa de Israel, com absoluta certeza, que Deus estabeleceu como Senhor e Messias a esse Jesus por vós crucificado» (2, 34-36). No mesmo sentido podemos entender a afirmação no final do evangelho segundo Marcos: «O Senhor Jesus [...] foi arrebatado ao Céu e sentou-se à direita de Deus» (16, 19). Esta relação com Jesus Cristo é também confirmada pelo próprio, aquando do julgamento no tribunal judaico. Trata-se de uma referência comum aos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas). O próprio Jesus Cristo responde: «O Filho do Homem vai sentar-se à direita de Deus» (Lucas 22, 69). «Utilizando o Salmo 110, Jesus anuncia o começo do Reinado messiânico que, a partir da sua Páscoa, será reconhecido pela Igreja» (Bíblia Sagrada, Nota ao texto de Lucas, Difusora Bíblica, 1721).

Onde está sentado à direita do Pai. A expressão «está sentado» remete para uma situação solene e triunfal. A expressão «à direita» remete para uma situação hierárquica, isto é, trata-se de alguém «importante». Nas relações humanas, ainda hoje faz parte do protocolo dar um destaque especial à pessoa que é convidada a sentar-se à direita. Atribuir esta situação a Jesus Cristo é proclamar a sua honra. Mas é claro que se trata apenas de uma linguagem simbólica. Ao dizê-lo em relação a Jesus Cristo, não afirmamos uma postura corporal. Trata-se de evidenciar o estatuto especial de Jesus Cristo. Na Carta aos Efésios, Paulo põe em destaque a plenitude do Universo atribuída a Jesus Cristo pelo Pai: «ressuscitou-o dos mortos e sentou-o à sua direita, no alto do Céu, muito acima de todo o Poder, Principado, Autoridade, Potestade e Dominação e de qualquer outro nome que seja nomeado, não só neste mundo, mas também no que há de vir» (Efésios 1, 20-23). Na limitação da nossa linguagem para falar de Deus, esta é uma imagem visual simbólica que só tem sentido se ajudar a perceber melhor a presença de Jesus Cristo em Deus. O Catecismo da Igreja Católica [CIC] sublinha esta afirmação atribuindo-lhe duas características: a honra de Jesus Cristo (CIC 663) e a inauguração do Reino de Deus (CIC 664). «Com isto não se alude a um espaço cósmico distante, onde Deus tenha, por assim dizer, erigido o seu trono e, nele, dado um lugar também a Jesus. Deus não se encontra num espaço ao lado de outros espaços. Deus é Deus — Ele é o pressuposto e o fundamento de todo o espaço existente, mas não faz parte dele. A relação de Deus com todos os espaços é a de Senhor e Criador. A sua presença não é espacial, mas, precisamente, divina. ‘Sentar-se à direita de Deus’ significa participar na soberania própria de Deus sobre todo o espaço. [...] Ele entra na comunhão de vida e de poder com o Deus vivo, na situação de superioridade de Deus sobre todo o espaço. [...] Uma vez que está junto do Pai, Jesus não está longe, mas sim perto de nós. Agora já não se encontra num lugar concreto do mundo, como antes da ‘ascensão’; no seu poder, que supera todo e qualquer espaço, está presente junto de todos, podendo ser invocado por todos, através de toda a história e em todos os lugares» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré. Parte II — Da Entrada em Jerusalém até à Ressurreição, Princípia Editora, Cascais 2011, 229-230).

«A Ascensão leva-nos a conhecer esta realidade tão consoladora para o nosso caminho: em Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, a nossa humanidade foi levada para junto de Deus; Ele abriu-nos a passagem; Ele é como um chefe de grupo, quando se escala uma montanha, que chega ao cimo e nos puxa para junto de si, conduzindo-nos para Deus» (Francisco, Audiência Geral, 17 de abril de 2013).

© Laboratório da fé, 2013


  
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.4.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [25]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

Estamos no coração da nossa fé cristã — dissemos a propósito dos temas anteriores: «Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras». Agora, continuando a reflexão central da fé cristã, afirmamos a Ascensão de Jesus Cristo: «subiu aos Céus». [Para ajudar a compreender melhor, ler: Atos dos Apóstolos 1, 1-11; Catecismo da Igreja Católica, números 659 a 667]

«Elevou-se à vista deles e uma nuvem subtraiu-o a seus olhos» — descreve o início do livro dos Atos dos Apóstolos, ao referir-se à Ascensão de Jesus, depois de se ter mostrado (aparecido) vivo «durante quarenta dias» aos discípulos. Nesta frase, podemos considerar dois temas: a subida e a nuvem. «Com esta expressão — ‘elevou-se à vista deles’ —, que corresponde à experiência sensível e espiritual dos apóstolos, evoca-se o movimento ascensional, uma passagem da terra ao céu, sobretudo como sinal de outra ‘passagem’: Cristo passa ao estado de glorificação em Deus. O primeiro significado da Ascensão é precisamente este: revelar que o Ressuscitado entrou na intimidade celestial de Deus» (João Paulo II, Audiência Geral de 12 de abril de 1989). A temática da nuvem completa esta dimensão com o sinal bíblico da presença de Deus. Entre outros, «a nuvem recorda-nos o momento da transfiguração, em que uma nuvem luminosa pousou sobre Jesus e os discípulos (cf. Mateus 17, 5; Marocs 9, 7; Lucas 9, 34-35). Recorda-nos a hora do encontro entre Maria e o mensageiro de Deus, Gabriel, o qual lhe anuncia que a força do Altíssimo ‘estenderá sobre ela a sua sombra’ (cf. Lucas 1, 35). Recorda-nos a tenda sagrada de Deus na Antiga Aliança, onde a nuvem é o sinal da presença do Senhor (cf. Êxodo 40, 34-35), o qual, inclusive durante a peregrinação no deserto, precede Israel como nuvem (cf. Êxodo 13, 21-22). A afirmação sobre a nuvem é claramente teológica. Apresenta o desaparecimento de Jesus não como uma viagem em direção às estrelas, mas como a entrada no mistério de Deus» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré. Parte II — Da Entrada em Jerusalém até à Ressurreição, Princípia Editora, Cascais 2011, 228).

Subiu aos Céus. Não podemos entender esta expressão como uma referência de espaço e de tempo. Apesar de conhecermos a descrição visual da Ascensão, o termo «céus» não pode ser confundido com a abóbada celeste. Aqui, os «céus» simbolizam o ser de Deus. Ao dizermos que Jesus «subiu aos Céus», afirmamos que está no ser de Deus, participa na vida de Deus. «A ascensão aos Céus constitui a etapa final da peregrinação terrena de Cristo, Filho de Deus, consubstancial ao Pai, que se fez homem para nossa salvação. Mas esta última etapa permanece intimamente ligada à primeira, isto é, com a sua ‘descida dos Céus’, ocorrida na Encarnação» (João Paulo II, Audiência Geral de 5 de abril de 1989). A presença física de Jesus Cristo na nossa história está assinalada pela descida dos Céus e pela subida aos Céus. Não esqueçamos que se trata de uma linguagem imperfeita (cf. tema 16): subida e descida são referências de espaço e de tempo, que não podem ser tomadas de forma literal. «A Ascensão é a comprovação da sua Encarnação. A subida de Jesus aos céus põe na claridade o compromisso de Deus com a nossa humanidade» (Mons. Christophe Dufour, «Cinco pequenas catequeses sobre o Credo», ed. Salesianas, Porto 2012, 46).

Quarenta dias. «Jesus Cristo subiu aos Céus no mesmo dia em que ressuscitou, quer dizer, no domingo de Páscoa. A sua saída do túmulo e a sua ascensão constituíram um mesmo acontecimento. [...] S. Marcos, por exemplo, apresenta Jesus a subir ao céu no domingo de Páscoa (16, 19). Também S. Lucas diz que a ressurreição de Jesus (24, 3), a aparição aos discípulos de Emaús (versiculo 13), a despedida (v. 44), e a ascensão (v. 51), aconteceram no mesmo dia de Páscoa» (Ariel Alvarez Valdés, «Enigmas da Bíblia. Novo Testamento», Difusora Bíblica, Fátima 2005, 153-154). Então, porque é que o livro dos Atos dos Apóstolos faz referência a quarenta dias? Não se trata de uma referência temporal, mas simbólica; «Na Bíblia, usa-se muitas vezes este número para significar a ‘passagem’ de um período para outro, o ‘fim’ de uma geração e o início de outra. [...] Usou o número simbólico quarenta, para dizer que, com a ascensão de Jesus, havia terminado um ciclo (o da tarefa que Jesus tinha de realizar na terra), e teve início outro (o do trabalho a ser desenvolvido pelos apóstolos em lugar de Jesus)» (Ariel A. Valdés, 154-156).

Esta afirmação — «subiu aos Céus» — desperta o nosso compromisso de discípulos: temos de deixar de olhar para as nuvens, para fazermos o mesmo caminho inaugurado por Jesus Cristo.

© Laboratório da fé, 2013
Credo niceno-constantinopolitano: Ascensão — Laboratório da fé  Credo niceno-constantinopolitano: Ascensão — Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.4.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [24]

Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

No «Credo niceno-constantinopolitano», proclamamos que a ressurreição de Jesus Cristo aconteceu «ao terceiro dia, conforme as Escrituras». Neste tema continuamos a refletir sobre a Ressurreição (cf. tema 22), para perceber que o acontecimento está relacionado com as promessas do Antigo Testamento e com as palavras (e a vida) de Jesus Cristo. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Primeira Carta aos Coríntios 15, 1-11; Catecismo da Igreja Católica, números 638 a 658]

«Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras» — escreve Paulo, por volta do ano 56, na Primeira Carta aos Coríntios. Para esclarecer qualquer dúvida que existisse entre os cristãos de Corinto — «como é que alguns de entre vós dizem que não há ressurreição dos mortos?» (15, 12), Paulo recorda o conteúdo central da «confissão de fé» aceite pelas comunidades cristãs e constituída por dois acontecimentos inter-relacionados: a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Hoje, esta afirmação paulina é apresentada como «a profissão de fé mais importante e significativa» (José Antonio Pagola, «Jesus. Uma abordagem histórica», Gráfica de Coimbra 2, Coimbra 2008, 430) dos primeiros anos do cristianismo, «o primeiro e mais antigo testemunho escrito sobre a ressurreição de Cristo» (João Paulo II, Audiência Geral de 29 de janeiro de 1989). Bento XVI considera-a a «chave da cristologia paulina: tudo gira à volta deste centro gravitacional. Todo o ensinamento do apóstolo Paulo parte do e chega sempre ao mistério daquele que o Pai ressuscitou da morte» (Bento XVI, «A alegria da fé», Paulinas Editora, Prior Velho 2012, 40-41). Neste texto, sai reforçada a garantia de que a morte e a ressurreição fazem parte do plano salvador de Deus.

Conforme as Escrituras. Esta expressão «mais do que referir-se a este ou àquele texto bíblico, situa estes mistérios no desígnio divino da salvação revelado nas Escrituras» (Bíblia Sagrada, Difusora Bíblica, nota explicativa (3-5), na página 1884). O Catecismo da Igreja Católica (CIC) sugere: «a ressurreição de Cristo é o cumprimento das promessas do Antigo Testamento e do próprio Jesus, durante a sua vida terrena. A expressão ‘segundo as Escrituras’ indica que a ressurreição de Cristo cumpriu essas predições» (CIC 652). Os relatos pascais dos evangelhos destacam a relação intrínseca entre o acontecimento e o que tinha sido anunciado. Em Marcos, «um jovem» recorda às mulheres: «Ele precede-vos a caminho da Galileia; lá o vereis, como vos tinha dito» (16, 7). Em Mateus, «o anjo» diz às mulheres: «ressuscitou, como tinha tido» (28, 6). Em Lucas, esta relação é ainda mais evidente ao relacionar a fé na ressurreição com as palavras de «dois homens em trajes resplandecentes»: «‘Lembrai-vos de como vos falou, quando ainda estava na Galileia, dizendo que o Filho do Homem tinha de ser entregue às mãos dos pecadores, ser crucificado e ressuscitar ao terceiro dia’. Recordaram-se então das suas palavras» (24, 6-8). É ainda no evangelho segundo Lucas que esta íntima relação se evidencia nos relatos da experiência pascal dos discípulos de Emaús e de outros reunidos com os Onze apóstolos. Aos discípulos a caminho de Emaús, Jesus Cristo diz: «‘Não tinha o Messias de sofrer essas coisas para entrar na sua glória?’. E, começando por Moisés e seguindo por todos os Profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, o que lhe dizia respeito» (24, 26-27). A seguir, Jesus Cristo lembra: «‘Estas foram as palavras que vos disse, quando ainda estava convosco: que era necessário que se cumprisse tudo quanto a meu respeito está escrito em Moisés, nos Profetas e nos Salmos’. Abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras e disse-lhes: ‘Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar de entre os mortos, ao terceiro dia’» (24, 44-46).

«Resumindo: A Ressurreição de Cristo é o cumprimento das promessas e das profecias feitas ao povo eleito no Antigo Testamento; A ressurreição é a confirmação da divindade de Jesus; A ressurreição de Cristo realiza a justificação, cria o homem novo, trazendo a todos a adoção como filhos de Deus; A ressurreição de Cristo é a transformação do mundo, que participa na renovação escatológica (cf. Carta aos Romanos 8, 19); A ressurreição de Cristo é a antecipação da nossa. É ‘princípio e fonte da nossa ressurreição futura’ (CIC 655). No encontro com o Ressuscitado revela-se o sentido pleno da Escritura (veja-se a experiência de Emaús: cf. Lucas 24, 27)» ((Rui Alberto, «Eu creio, Nós cremos. Encontros sobre os fundamentos da fé», ed. Salesianas, Porto 2012, 121-122).

  

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 11.4.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [23]

Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

A ressurreição de Jesus Cristo está na base da fé cristã (cf. Catecismo da Igreja Católica, 571). A afirmação da ressurreição é o primeiro «credo» cristão. O cristianismo tem o seu primeiro fundamento no «acontecimento pascal»: morte e ressurreição de Jesus Cristo. «Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã é também a vossa fé» — escreve Paulo na Primeira Carta aos Coríntios (15, 14). Os discípulos revelam que há um acontecimento que transforma as suas vidas: o crucificado ressuscitou, está vivo. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Atos dos Apóstolos 10, 34-43; Catecismo da Igreja Católica, números 638 a 658]

«Deus ressuscitou-o, ao terceiro dia» — afirma Pedro na casa do centurião romano Cornélio. Os evangelhos (Mateus 28, Marcos 16, Lucas 24, João 20) descrevem a experiência pessoal («aparição») dos discípulos que testemunham o Crucificado-Ressuscitado. No discurso de Pedro, em Cesareia, na casa de Cornélio percebe-se que a ressurreição não é fruto de um acaso ou um facto isolado; a ressurreição é o culminar do estilo de vida assumido por Jesus Cristo, é a plenitude da sua missão. Em primeiro lugar, Pedro afirma que Jesus de Nazaré foi «ungido» por Deus; depois, refere a ação realizada por Jesus em diversos lugares («fazendo o bem»; «curando»); em seguida, Pedro testemunha a morte na cruz («madeiro») e a ressurreição ao terceiro dia; o discurso termina com as consequências da fé cristã neste «acontecimento pascal». Há uma nova maneira de viver iluminada pela existência terrena de Jesus Cristo que culmina com a ressurreição.

Ressuscitou. A ressurreição de Jesus Cristo assinala o cumprimento do projeto salvador. Toda a história da salvação é lida a partir deste acontecimento. Apesar de ser o centro da fé cristã, infelizmente há muita confusão (entre os próprios cristãos) sobre o verdadeiro significado da ressurreição. «Trata-se de um acontecimento real e transcendente, verificável pelos seus sinais, mas que permanece oculto. Tem a Trindade como protagonista. A ressurreição acontece pelo poder do Pai que ressuscita, do Filho que vence a morte e do Espírito que vivifica (cf. Catecismo da Igreja Católica, 648). É um acontecimento transcendente, não está documentado historicamente. Mas é real; há uma série de manifestações que indiciam a realidade da ressurreição» (Rui Alberto, «Eu creio, Nós cremos. Encontros sobre os fundamentos da fé», ed. Salesianas, Porto 2012, 121). Em primeiro lugar, precisamos de entender que a ressurreição não se pode associar às categorias de espaço e de tempo onde nos situamos atualmente. A ressurreição não consiste em regressar a uma existência espácio-temporal (situada no espaço e no tempo). A ressurreição não é uma reanimação do cadáver. A morte não é anulada na ressurreição (cf. temas 21 e 22)! «Pelo contrário, a morte é definitivamente superada. Trata-se da entrada numa vida totalmente diferente, imperecível, eterna, ‘celestial’» (Hans Küng, «Credo. A Profissão de Fé Apostólica explicada ao Homem Contemporâneo», Instituto Piaget, Coleção «Crença e Razão» 14, Lisboa 1997, 130). A ressurreição também não consiste na continuidade desta existência espácio-temporal. Em rigor, não podemos falar de um «depois» da morte, pois a dimensão temporal deixa de ter sentido: «a eternidade não é determinada por um antes nem por um depois temporais. Pelo contrário, significa uma nova vida na esfera de Deus, invisível, incompreensível, que rompe com as dimensões de espaço e tempo» (Hans Küng, 131). É o que habitualmente designamos por «céus». A ressurreição permite afirmar que a morte não é a afirmação do «Nada», mas do «Tudo»: «o crente sabe que a morte é a passagem para Deus, é a retirada para junto de Deus, nesse domínio que supera todas as ideias, que nenhum Homem alguma vez viu, alheio ao nosso toque, entendimento, reflexão e fantasia! A palavra mistério é bem empregue para descrever a ressurreição para a vida nova, porquanto se trata do domínio primordial de Deus» (Hans Küng, 131). 

Ao terceiro dia. Dizer que Jesus Cristo «ressuscitou ao terceiro dia» é mais do que uma referência cronológica. Entre os judeus, acredita-se que Deus não deixa o justo sofrer mais de três dias (cf. Genesi Rabbah 91, 7). Na Bíblia, expressa a novidade da ação de Deus. Afirma o profeta Oseias (6, 2): «Dar-nos-á de novo a vida em dois dias, ao terceiro dia nos levantará, e viveremos na sua presença». 

A ressurreição de Jesus Cristo inaugura esse tempo novo vivido na plenitude da presença de Deus. É o cumprimento de todas as promessas e profecias. Jesus Cristo «ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras».

  


© Laboratório da fé, 2013

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.4.13 | Sem comentários
— reflexão semanal sobre o credo niceno-constantinopolitano —

A temática que estamos a refletir — crucificação e morte de Jesus Cristo — termina com uma expressão forte: «e foi sepultado». Com esta afirmação fica de lado qualquer suspeita sobre a morte de Jesus Cristo. Além disso, «a permanência do corpo de Cristo no túmulo constitui o laço real entre o estado passível de Cristo antes da Páscoa e o seu estado glorioso atual de ressuscitado» (Catecismo da Igreja Católica, 625). [Para ajudar a compreender melhor, ler: Lucas 23, 50-56; Catecismo da Igreja Católica, números 624 a 630]

«Descendo-o da cruz, envolveu-o num lençol e depositou-o num sepulcro» — é assim que o evangelho segundo Lucas descreve a ação de José de Arimateia, um «homem reto e justo [...] que esperava o Reino de Deus». De acordo com os procedimentos romanos (cf. tema 20), o crucificado ficava abandonado na cruz sem ter direito a sepultura. «Enquanto os romanos abandonavam os corpos dos justiçados na cruz aos abutres, os judeus faziam questão de que eles fossem sepultados; havia lugares atribuídos pela autoridade judiciária para isso mesmo. Neste sentido, o pedido de José enquadra-se nos costumes judiciários judaicos. [...] Sobre a própria deposição, os evangelistas transmitem-nos uma série de informações importantes. Antes de mais sublinha-se que José foi depositar o corpo do Senhor num sepulcro novo, de sua propriedade, no qual ainda ninguém fora sepultado (cf. Mateus 27, 60; Lucas 23, 53; João 19, 41). Nisto se dá prova de um respeito profundo por este defunto. Assim como no ‘Domingo de Ramos’ Ele se serviu de um jumentinho que ainda ninguém montara (cf. Marcos 11, 2), assim também agora é depositado num sepulcro novo» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré. Parte II — Da Entrada em Jerusalém até à Ressurreição, Princípia Editora, Cascais 2011, 186)

E foi sepultado. A sepultura de Jesus Cristo, narrada por todos os evangelistas, remete-nos, em primeiro lugar, para o mistério da Encarnação. Jesus Cristo assumiu totalmente a nossa condição humana (exceto no pecado). Por isso, fez também a experiência da morte. «A morte de Cristo foi uma verdadeira morte, na medida em que pôs fim à sua existência humana terrena» (Catecismo da Igreja Católica, 627). A profissão da nossa fé atesta-o, no «Credo niceno-constantinopolitano», ao sublinhar que depois de ter sido crucificado e ter padecido, Jesus Cristo «foi sepultado». Esta afirmação, como recorda João Paulo II, é a «confirmação de que a sua morte foi real e não aparente. [...] Jazia no sepulcro em estado de cadáver [...], no estado e condição de todos os seres humanos» (Audiência Geral de 11 de janeiro de 1989). Por outro lado, a sepultura de Jesus Cristo também nos remete para o mistério da Redenção ou Salvação. Só assumindo a totalidade da nossa natureza humana é que Jesus Cristo poderia redimir e salvar o ser humano. De facto, esta expressão — «e foi sepultado» — que à primeira vista pode parecer uma simples anotação cronológica é um dado «cujo significado se insere no horizonte mais amplo de toda a Cristologia. Jesus Cristo é o Verbo que se fez carne para assumir a condição humana e tornar-se semelhante a nós em tudo, exceto no pecado (cf. Hebreus 4, 15). Tornou-se verdadeiramente ‘um de nós’ (cf. Constituição Dogmática sobre a Igreja no mundo atual — «Gaudium et Spes» — 22), para poder realizar a nossa redenção, graças à profunda solidariedade estabelecida com cada membro da família humana. Nessa condição de homem verdadeiro, sofreu inteiramente a condição do ser humano, até à morte, à qual se segue, habitualmente, a sepultura, pelo menos no mundo cultural e religioso em que esteve inserido e viveu. A sepultura de Cristo é, pois, objeto da nossa fé enquanto nos propõe de novo o mistério do Filho de Deus que se fez homem e foi até ao extremo da existência humana» (João Paulo II, Audiência Geral de 11 de janeiro de 1989). Jesus Cristo estabeleceu uma articulação perfeita entre a salvação, a vontade de Deus e o bem do ser humano. Nisto consiste a nossa salvação. Ao introduzir a sepultura de Jesus Cristo no contexto da História da Salvação estamos a proclamar que a morte não teve nem tem a última palavra. De facto, o silêncio de Deus aquando da morte de Jesus Cristo é unicamente uma parte do mistério de Sábado Santo.

Agora, abre-se a porta para a «última» palavra de Deus: Jesus Cristo, que «foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado», é o mesmo que «ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras». Ele «é a mesma pessoa do ‘Vivente’ que pode dizer: ‘Estive morto e eis-Me vivo pelos séculos dos séculos’ (Apocalipse 1, 18)» (Catecismo da Igreja Católica, 625).
  

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.3.13 | Sem comentários
— reflexão semanal sobre o credo niceno-constantinopolitano — 

Neste tema damos continuidade à reflexão anterior (20: Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos) para aprofundar os sofrimentos associados à morte de Jesus Cristo. A expressão usada no «Credo» é «padeceu». Trata-se de uma palavra «que, no Credo, resume toda a vida de Jesus: entre o seu nascimento e a sua morte, Ele sofreu» (Mons. Christophe Dufour, «Cinco pequenas catequeses sobre o Credo», Edições Salesianas, Porto 2012, 46). Podemos saber o que terá acontecido? «A fé pode esforçar-se por investigar as circunstâncias da morte de Jesus» (Catecismo da Igreja Católica, 573). [Para ajudar a compreender melhor, ler: Marcos 14, 32 — 15, 41; Catecismo da Igreja Católica, números 571 a 623] 

«[Pilatos] depois de mandar flagelar Jesus, entregou-o para ser crucificado» — refere o evangelho segundo Marcos sobre um dos momentos que antecedeu a crucificação de Jesus e que lhe infligiu grande sofrimento. Além dos relatos evangélicos, existem testemunhos históricos (por exemplo: Flávio Josefo e de Tácito) que documentam o que sucedeu a Jesus Cristo. É certo que, entre os romanos, a flagelação era uma das etapas da condenação à morte na cruz. A cruz, como instrumento de suplício, é de origem persa. Gregos, cartagineses e romanos aplicavam-na como pena capital aos criminosos (cf. tema 20). Além da flagelação, os relatos indicam que Jesus foi coroado de espinhos e ultrajado, antes de ser crucificado. «Os soldados de Pilatos começaram realmente a intervir de maneira oficial quando o prefeito lhes deu ordem para flagelarem Jesus. A flagelação, neste caso, não era um castigo independente, nem mais um jogo dos soldados. Formava parte do ritual da execução» (José Antonio Pagola, «Jesus. Uma abordagem histórica», Gráfica de Coimbra 2, Coimbra 2008, 410-411). 

Padeceu. O dicionário indica que o verbo «padecer» tem os seguintes significados: (verbo transitivo) sofrer de (mal físico ou espiritual); ser atormentado ou afligido por; suportar; aguentar; consentir em; permitir que; (verbo intransitivo) ser ou estar doente; sofrer dores físicas ou espirituais (http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa/padecer). O que terá vivido realmente Jesus Cristo nestes momentos? Por certo que o sofrimento mais intenso terá sido durante a permanência na cruz. De facto, a crucifixão produzia uma morte lenta e dolorosa por asfixia. Mas «os seus sofrimentos começaram ainda antes de ser preso, quando se encontrava sozinho a rezar, no Monte das Oliveiras. Segundo S. Lucas (o único evangelista que narra este episódio), nesse momento, sofreu uma forte crise emocional que lhe provocou o chamado «suor de sangue». […] Já há vários dias que Jesus sabia que a sua situação era difícil e que as autoridades o procuravam para o matar. Portanto, naquela noite, encontrava-se num estado emocional crítico, que aumentava com o passar as horas, o que o levou a suar sangue. Segundo os especialistas, o seu corpo fica muito debilitado e a pele fica extremamente sensível, pelo que deve ser internado imediatamente. Jesus, não só não foi internado, como foi ainda submetido a toda uma série de ultrages infames. Por isso, a morte foi mais rápida do que o que era de esperar» (Ariel Alvarez Valdés, «Enigmas da Bíblia. Novo Testamento», Difusora Bíblica, Fátima 2005, 168). Depois seguiu-se a prisão. Os evangelhos (Marcos, Mateus, Lucas) descrevem várias humilhações que foram infligidas a Jesus, entre as quais bofetadas e açoites. No dia seguinte, após o interrogatório judaico, Jesus foi submetido ao tribunal romano e condenado à morte na cruz. Mas, como era costume entre os romanos, antes de ser morto era flagelado. «O instrumento usado para açoitar foi o ‘flagrum’, composto por um pequeno cabo de madeira, do qual saíam duas ou três correias de couro com uns 50 cm de comprimento e em cujas pontas havia umas pequenas bolas de chumbo que serviam para arrancar pedaços de carne a cada chicotada, e assim lesionar mais ainda o corpo» (Ariel Alvarez Valdés, 169). A seguir, como se não bastasse os soldados colocaram-lhe uma coroa de espinhos sobre a cabeça. «Aqueles espinhos voltaram a ser cravados, uma e outra vez, por causa dos movimentos de cabeça que Jesus deve ter feito enquanto tentava respirar pendurado na cruz. Portanto, o sofrimento de tal coroação acompanhou-o até ao momento da sua morte» (Ariel Alvarez Valdés, 170). 

A terminar é importante referir que não são os sofrimentos (de Jesus) que nos salvam. O que nos salva é o amor e a fidelidade com que Jesus viveu toda a sua vida, e também os sofrimentos e a morte. Jesus salva-nos pelo testemunho de amor. «Só o amor é digno de fé» (Hans Urs von Balthasar).
  

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.3.13 | Sem comentários
— reflexão semanal sobre o credo niceno-constantinopolitano —

O «Credo», como já dissemos no tema anterior (19: «e se fez homem»), passa da referência à encarnação e nascimento para a condenação e morte de Jesus Cristo: «Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado». Neste tema, refletimos sobre a primeira parte desta afirmação. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Atos dos Apóstolos 13, 26-29; Catecismo da Igreja Católica, números 595-623

«Exigiram a Pilatos que o mandasse matar» — proclama Paulo nesta catequese descrita no capítulo treze do livro dos Atos dos Apóstolos. «A tradição cristã elaborou respostas, a catequese forjou fórmulas: Jesus morto pelos nossos pecados, o sacrifício que dá a vida. Com o risco de, por vezes, nos fazer esquecer o choque que representavam para os primeiros discípulos o fracasso e a condenação à morte do seu mestre. [...] A sentença e a execução foram romanas. Mas a acusação política [...] parece mais uma montagem jurídica doutro processo. [...] O verdadeiro conflito foi religioso [...]. Era preciso que a questão fosse vital para Jesus e mortal para as autoridades religiosas para se chegar a uma tal rutura» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 97-98). 

Também por nós. A primeira afirmação desta frase está em sintonia com dois temas anteriores: a causalidade humana (cf. tema 15: «E por nós, homens») e o motivo (cf. tema 16: «e para nossa salvação, desceu dos Céus»). Jesus vem ao mundo «por nós» e dá a sua vida «também por nós». Entre um e outro «por nós» desenvolve-se a vida terrena de Jesus Cristo. Ora, este reforço da causalidade humana, agora associada à crucificação de Jesus produziu uma teologia que se esquematiza da seguinte forma: criação - paraíso - pecado - culpa - castigo - perda do paraíso - sofrimento - eleição de um povo - encarnação - cruz - redenção pelo sangue - igreja - fé - batismo - salvação ou céu. Nesta sequência, o maior ênfase foi dado à relação entre o pecado (humano) e a cruz (de Jesus Cristo). Daqui nasceu uma forte acentuação do sentimento de culpa e do sofrimento. E pouco ou nada se disse sobre a causa histórica da morte de Jesus. O aspeto doutrinal impôs-se sobre o contexto histórico vivido por Jesus, nomeadamente através dos escritos paulinos. [Sobre a temática da salvação pela cruz vamos continuar a refletir nos próximos temas]. Em contrapartida, através dos Evangelhos, podemos reconhecer que a morte de Jesus é consequência da sua maneira de viver: Jesus morreu assim porque viveu assim, isto é, foi fiel à sua missão. Isto não nega a injustiça nem a crueldade do poder religioso (judaico) e do poder civil (romano). A maneira de viver de Jesus — purificar a religião de normas desumanas, acolher os pecadores, denunciar as injustiças, preferir os mais pobres — provocou a ira do poder religioso que fez tudo para obter a condenação e a morte de Jesus Cristo. Habilmente, transformaram uma acusação religiosa numa acusação política (cf. Lucas 23, 5; João 19, 12). Assim, Jesus «foi crucificado sob Pôncio Pilatos». 

Foi crucificado. A prática da crucificação é de origem persa. Foi usada, em primeiro lugar, pelos «bárbaros», como castigo político e militar. Foi adotada também pelos gregos e, mais tarde, pelos romanos. Estes introduzem a flagelação, antes de colocarem sobre os ombros do condenado o madeiro transversal da cruz. Era assim conduzido ao lugar do suplício. O condenado, quase nu, podia ser colocado com a cabeça para cima ou para baixo. Parece ter sido uma prática comum dos romanos contra os judeus. Além de uma morte lenta, o crucificado normalmente ficava abandonado na cruz, sem ter direito a sepultura. A cruz era um «sinal de vergonha», «o suplício mais cruel e mais repugnante» (cf. B. Sesboüé, «Creer. Invitación a la fe católica para las mujeres y los hombres del siglo XXI». Ed. San Pablo, Madrid 2000, 312-314). 

Sob Pôncio Pilatos. Apenas três seres humanos são nomeados no Credo: Jesus Cristo, Maria... e Pôncio Pilatos. Porquê? Há certamente uma preocupação em situar historicamente o acontecimento da condenação de Jesus à morte na cruz. «Pronunciar este ‘nome histórico’ no Símbolo da fé é já um modo de dizer que a fé cristã crê em factos. Professa como verdadeiro e digno de confiança, até fazer com que se torne critério decisivo de escolha e de vida, um facto real, o da paixão e da morte de Jesus, na cruz» (Dionigi Tettamanzi, «Esta é a nossa fé!», Paulinas, Prior Velho 2005, 62). 

A morte na cruz, que parece proclamar o triunfo do ódio (humano), torna-se, em Jesus Cristo, na maior prova de amor de Deus pela humanidade.

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.3.13 | Sem comentários
— reflexão semanal sobre o credo niceno-constantinopolitano — 

O «Credo niceno-constantinopolitano» une o Batismo (cf. tema 38) ao perdão dos pecados: «Professo um só batismo para remissão dos pecados». Esta afirmação surge no contexto da fé no Espírito Santo e na Igreja. «Fazer objeto da nossa profissão de fé ‘a remissão dos pecados’ é, antes de tudo, caminhar uma vez mais ao encontro do dom do Espírito Santo e da origem batismal da pertença à Igreja» (Dionigi Tettamanzi, «Esta é a nossa fé!», Paulinas, Prior Velho 2005, 128). [Para ajudar a compreender melhor, ler: João 20, 19-23; Catecismo da Igreja Católica, números 976-980, 1263-1266 e 1279

«Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados» — esta missão confiada por Cristo ressuscitado aos apóstolos, no relato do evangelho segundo João, está associada ao dom do Espírito Santo. A Igreja recorda-o na forma sacramental da reconciliação: «enviou o Espírito Santo para remissão dos pecados». Este dom do Espírito Santo, oferecido na tarde do dia de Páscoa — «o primeiro da semana» — lembra o «sopro» do ato criador (cf. Génesis 2, 7) e inaugura uma nova criação. Assim como, no início, o «sopro» de Deus comunicou ao ser humano o dom da vida, agora o «sopro» de Deus comunica ao ser humano o dom de uma vida nova, uma «recriação». «Estamos aqui no coração do Evangelho. O perdão é oferecido desde a primeira à última página. O pecado é aí comparado a uma dívida, e o perdão é um crédito de amor. Aqui está todo o Evangelho, este Evangelho que os apóstolos proclamaram, o Evangelho do perdão dos pecados. Nós somos salvos, porque somos amados, perdoados, reconciliados. O pecado mata em nós a vida eterna. Em Cristo, Deus vem restaurá-la, repará-la, curá-la» (Mons. Christophe Dufour, «Cinco pequenas catequeses sobre o Credo», Edições Salesianas, Porto 2012, 74). 

O projeto salvador — professado no «Credo» —, que ilumina toda a história, tem a marca do amor incondicional do Pai, dado a conhecer pelo Filho e vive no coração humano pelo Espírito Santo. 

Para remissão dos pecados. «A ‘remissão dos pecados’ deve ser lida sobre o fundo da experiência de ingresso numa vida nova e de superação de um mundo velho. Ela é ‘recriação do coração’. Os seus efeitos são: a libertação de uma condição de escravidão, de dependência, de inautenticidade e, por vezes, de falsidade; a vitória sobre os medos que bloqueiam a alegria de viver, como o medo dos outros ou da morte; a iluminação do sentido verdadeiro das coisas» (Dionigi Tettamanzi, 131). Neste sentido, tendo presente o «mundo velho» do mal e do pecado, «o Deus revelado na Bíblia é fiel e nunca se esquecerá das suas criaturas: a sua ‘memória’ de ternura e de perdão envolve a nossa existência, é como o seio em que o nosso coração pode repousar em paz. Esta ‘memória’ estende-se até abraçar o nosso pecado: ao perdoar-nos, Deus não anula a consistência do nosso ato, mas tem-no em conta. Por isso, é necessário que à sua oferta de perdão corresponda a progressiva conversão do nosso coração: Deus não ‘salta’ sobre o homem, mas procura-o, ama-o e perdoa sobretudo o homem que, ao cometê-lo, se exprimiu. Então, a memória do pecado entra na alegria da comunhão reencontrada que, de um lado, é sinal do amor do Pai que nunca se esqueceu da sua criatura, e do outro, da dignidade do filho perdido que regressa à casa paterna, não como se nada tivesse acontecido, mas com a consciência de ter de apelar a uma imensa gratuidade de amor, a que deve corresponder com a gratidão de toda a sua vida. Então, ‘não esquecer’ não se opõe a ‘perdoar’, porque quem perdoa não esquece, mas assume o passado de um modo inteiramente novo na memória do amor. É assim que Deus faz ao perdoar-nos: não destrói o nosso passado, mas assume-o na paz, para que toda a nossa vida seja reconciliada e celebre a glória do seu amor. Este perdão, pela vontade que Jesus manifestou em confiar a missão da reconciliação aos Apóstolos, passa através do ministério da Igreja: o pecador é alcançado na sua vida quotidiana concreta e reconciliado ao mesmo tempo com o Pai e com a comunidade. Ao confessar humildemente o seu próprio pecado e ao abrir-se na fé ao dom da reconciliação, o pecador é tornado uma nova criatura pelo Espírito Santo que lhe foi infundido e pode viver o novo início do amor, no seguimento de Jesus e do seu Evangelho. A vida ressurge da morte, o perdão recebido faz-se perdão oferecido, o amor impossível torna-se possível, apesar da fragilidade da condição humana. É o milagre da remissão dos pecados e da reconciliação!» (Bruno Forte, «Eis o Mistério da Fé: crer, viver, testemunhar», Paulinas Editora, Prior Velho 2012, 19-20).
 

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 28.2.13 | Sem comentários
— reflexão semanal sobre o credo niceno-constantinopolitano — 

No «Credo niceno-constantinopolitano», depois da referência à Igreja — una, santa, católica e apostólica —, acrescenta-se o tema do Batismo interligando-o com a Igreja e com o perdão dos pecados: «Professo um só batismo para remissão dos pecados». Neste tema dedicamos a nossa atenção apenas à primeira parte da frase: «Professo um só batismo», a «porta de entrada» na vida de fé. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Mateus 28, 16-20; Catecismo da Igreja Católica, números 976-980 e 1213 a 1284] 

«Batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo» — é a missão que Jesus Cristo ressuscitado confia aos discípulos, conforme o relato do evangelho segundo Mateus. A presença terrena de Jesus Cristo continua com a presença missionária dos discípulos. São enviados para «fazer» novos discípulos «ensinando-os a cumprir tudo» o que aprenderam com Jesus. Este discipulado concretiza-se na adesão aos ensinamentos de Jesus Cristo e na participação na vida da Trindade através da celebração do Sacramento do Batismo. Com esta referência bíblica confirma-se que desde o tempo dos Apóstolos o Batismo tornou-se essencial para a adesão à fé cristã, juntamente com o acolhimento do Evangelho, a Boa Nova de Jesus Cristo. «Os elementos essenciais do Batismo estão todos aqui: o anúncio de tudo o que Jesus fez e ensinou; o acolhimento do dom, expresso mediante a confissão da fé; a efusão da água em nome da Trindade. Quem recebe o Batismo já não está só: o Deus que é amor acolhe-o e vem habitar no seu coração! Graças a este amor, o batizado é inserido numa companhia de amigos que nunca o abandonará, tanto na vida como na morte: a família de Deus, a Igreja» (Bruno Forte, «Eis o Mistério da Fé: crer, viver, testemunhar», Paulinas Editora, Prior Velho 2012, 30). 

Professo um só batismo. A referência ao Sacramento do Batismo é uma particularidade do «Credo niceno-constantinopolitano» (no «Credo Batismal» e no «Símbolo dos Apóstolos» não há qualquer referência). O termo «batismo» tem origem no verbo grego («baptizein») que significa «mergulhar», «imergir» (cf. Catecismo da Igreja Católica [CIC], 1214). É a designação mais comum para referir o Sacramento que é «o fundamento de toda a vida cristã» (CIC 1213). Mas também pode ter outras designações, como «banho da regeneração» ou «iluminação» (cf. CIC 1215-1216). São Gregório Nazianzeno descreve-o assim: «O Batismo é o mais belo e magnífico dos dons de Deus [...] Chamamos-lhe dom, graça, unção, iluminação, veste de incorruptibilidade, banho de regeneração, selo e tudo o que há de mais precioso. Dom, porque é conferido àqueles que não trazem nada: graça, porque é dado mesmo aos culpados: batismo, porque o pecado é sepultado nas águas; unção, porque é sagrado e régio (como aqueles que são ungidos); iluminação, porque é luz irradiante; veste, porque cobre a nossa vergonha; banho, porque lava; selo, porque nos guarda e é sinal do senhorio de Deus» (citado pelo CIC, no número 1216). O Sacramento do Batismo é o primeiro Sacramento da Iniciação Cristã. Esta é constituída pelos sacramentos do Batismo, Confirmação e Eucaristia. É a «porta de entrada» na vida da Igreja. «É o sacramento pelo qual os seres humanos se tornam membros do corpo da Igreja, edificados uns com os outros em morada de Deus no Espírito, e em sacerdócio real e povo santo; é também o vínculo sacramental da unidade que existe entre todos os que são assinalados por ele» (Ritual Romano da Celebração do Batismo das Crianças, «Preliminares Gerais», 4). No batismo das crianças, a pergunta inicial feita aos pais — Que pedis à Igreja de Deus...? — pode ter as seguintes resposta: o Batismo; a fé; a graça de Cristo; a entrada na Igreja; a vida eterna. No batismo dos adultos, a pergunta — Que vens pedir à Igreja de Deus? — tem uma única resposta: «a fé»; mas depois à pergunta — Para que te serve a fé? — a resposta pode ser: para alcançar a vida eterna; a graça de Cristo; ser admitido na Igreja. «O Batismo é o sacramento da fé. Mas a fé tem necessidade da comunidade dos crentes. Só na fé da Igreja é que cada um dos fiéis pode crer. A fé que se requer para o Batismo não é uma fé perfeita e amadurecida, mas um princípio chamado a desenvolver-se» (CIC 1253). Professar «um só Batismo» significa «mergulhar no abandono da fé e emergir-se mediante o dom de si mesmo, abrindo as asas do coração à força do vento do Espírito. Só assim nos podemos elevar, podemos subir até Deus» (Dionigi Tettamanzi, «Esta é a nossa fé!», Paulinas, Prior Velho 2005, 130). 

Pelo Sacramento do Batismo todos os pecados são perdoados...
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.2.13 | Sem comentários
— texto semanal publicado no «Diário do Minho» —

A reduplicação da divindade de Jesus Cristo expressa no «Credo» não acrescenta, apenas reforça a doutrina trinitária acerca de Deus. O que se proclama, de novo, é a natureza divina de Jesus Cristo por inteiro. Jesus Cristo é Deus a partir do próprio Deus: «Deus verdadeiro de Deus verdadeiro». [Para ajudar a compreender melhor, ler: 1João 2, 21-25; Catecismo da Igreja Católica, números — os mesmos do tema anterior — 249-256; 261-262] 

«Todo aquele que nega o Filho fica sem o Pai; aquele que confessa o Filho tem também o Pai» — este comentário da Primeira Carta de João revela as linhas essenciais da falsa doutrina defendida pelos «anticristos», como os classifica o autor da Carta. Esta heresia considerava impossível o mistério da Encarnação. Mas, para o autor da Carta, negar a divindade de Jesus significava não estar em comunhão com o Pai (Deus). Negar a identidade de Jesus Cristo (verdadeiro Deus e verdadeiro homem) significava ser «anticristo». Podemos depreender através de toda a Primeira Carta de João que se tratava de uma doutrina bastante difundida e com muita aceitação entre os cristãos. 


Deus verdadeiro de Deus verdadeiro. Esta reduplicação do «Credo» sugere de novo uma ligação profunda na Trindade de Deus; aqui, entre o Pai e o Filho (Jesus Cristo). «O essencial não é que Cristo tenha pregado uma verdade divina, mas que ele, real e fisicamente, é a própria verdade divina. Não é unicamente profeta e pregador, mas realidade fisicamente existente sobre a Terra. Ele é o próprio Deus. Com isso, o acesso a Deus não é simplesmente a aceitação de umas verdades pela via da transcendência. É algo mais profundo. É que a via mística da transcendência é ele» (Xavier Zubiri, «El problema filosófico de la historia de las religiones», Alianza Ed., Madrid, 1993, 329-330). 

Como já vimos em temas anteriores, foram várias as (falsas) doutrinas que puseram em causa a identidade divina e humana de Jesus Cristo. Agora, apresentamos mais uma falsa doutrina, uma «heresia» (doutrina ou linha de pensamento que é contrária ao ensino oficial). 

Gnosticismo. A doutrina gnóstica ultrapassa a dimensão cristã. É uma conceção religiosa muito antiga e que se infiltrou na Igreja gerando uma heresia com a qual já se defrontaram os Apóstolos e os primeiros cristãos, entre os quais podemos assinalar Santo Ireneu (130-200) na obra «Contra os Hereges». Existem diversas correntes de gnosticismo. Em geral, os adeptos desta doutrina (gnósticos) acreditam que existem dois deuses: um deus bom e outro mau. O mundo foi criado pelo deus mau. Por isso, para eles tudo o que é material tem de ser desprezado. O espiritual é o que interessa, porque é obra do deus bom. Para compreender a totalidade desta doutrina é necessário um aprofundamento maior. Aqui, situamo-nos apenas no âmbito da afirmação da divindade de Jesus Cristo. Ora, para os gnósticos, Jesus Cristo não é nem Deus nem humano. O deus bom enviou ao mundo o seu mensageiro, Jesus Cristo. Este seria uma espécie de «avatar» portador da «gnose» (um conhecimento revelado a alguns escolhidos e que leva à salvação, que consiste na libertação da carne, da matéria). Por isso, Jesus não teria tido um corpo de verdade, mas apenas um corpo aparente (docetismo: doceta quer dizer aparente). Esta doutrina põe em causa a identidade de Jesus Cristo, porque nega quer a divindade quer a humanidade. Um conhecimento destas afirmações gnósticas ajuda-nos não só a perceber a dinâmica da elaboração do «Credo niceno-constantinopolitano», mas também a compreender melhor alguns dos escritos do Novo Testamento. A Primeira Carta de João foi escrita para combater esta heresia. «A Carta não foi escrita apenas para reavivar a fé em Cristo e o amor aos irmãos; parece ser, antes de mais, um escrito polémico: perante a ameaça de erros graves, apresenta fórmulas claras e confissões obrigatórias da fé, como garantia da fé genuína e sinal da ortodoxia (4, 1-3). Parece que se enfrenta com os gnósticos, que afirmavam ter um conhecimento direto de Deus e negavam tanto a vinda de Deus ‘em carne mortal’ (4, 2) como a identidade entre o Cristo celeste e o Jesus terreno (2, 22). Para eles, o Jesus não passava de um mero instrumento de que o Cristo celeste se tinha servido para comunicar a sua mensagem, descendo a Ele por ocasião do Batismo e abandonando-o por ocasião da Paixão; e assim negavam a Incarnação e a morte do Filho de Deus, e o seu valor redentor» (Bíblia Sagrada, Introdução às Cartas de João, ed. Difusora Bíblica, Fátima 2008, 2013). 

O gnosticismo (cristão) é uma falsa doutrina que tem ganho ascendente nas novas formas de religiosidade.

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.2.13 | Sem comentários
— texto semanal publicado no «Diário do Minho» —

O «Credo Niceno-constantinopolitano» contém várias expressões relativas à divindade de Jesus Cristo, o Filho, a Segunda Pessoa da Trindade, como mostram as reflexões anteriores (cf. temas 8 a 11). No Concílio realizado em Niceia, no ano 325, introduz-se no «Credo» uma nova terminologia, que pretende estabelecer uma distinção muito clara entre «gerado» e «criado». Daí resultou a expressão atribuída a Jesus Cristo quando proclamamos o «Credo»: «gerado, não criado». [Para ajudar a compreender melhor, ler: Salmo 2; Catecismo da Igreja Católica, números 238-242] 

«Tu és meu filho, Eu hoje te gerei» — é uma frase original do Salmo 2, que o Novo Testamento e a tradição cristã utilizam para se referirem a Jesus Cristo; e desta forma atestam a geração do Filho, a Segunda Pessoa da Trindade. O Salmo 2 está relacionado com a entronização do rei; utiliza o termo «filho» em sentido figurado aplicado ao rei. Para o salmista, no dia da sua entronização, o rei era «gerado» por Deus. Vários exegetas explicam este versículo dizendo que «eu hoje te gerei», quer dizer «neste dia eu te designei para seres ungido como rei». Assim, de acordo com esta interpretação, estabelecia-se uma relação direta entre a realeza e a divindade. Digamos que, para o povo bíblico, o rei não era apenas uma escolha humana, mas também uma eleição divina. O profeta Natan, aquando da revelação das promessas de Deus a David, usa uma terminologia idêntica: «eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho». Também esta expressão será retomada pelo autor da Carta aos Hebreus (1, 5) para aplicá-la a Jesus Cristo. A citação do Salmo 2 — «Tu és meu filho, Eu hoje te gerei» — é aplicada a Jesus Cristo por três vezes no Novo Testamento: uma no livro dos Atos dos Apóstolos (13, 33); e duas na Carta aos Hebreus (1, 5; 5, 5). 

Esta frase aplicada a Jesus Cristo tem sido relacionada, pela tradição cristã, com momentos diferentes da vida do Filho de Deus. Alguns referem-na unida à Encarnação; outros ao Batismo, no Jordão; outros à Ressurreição; outros à Ascensão; outros à própria afirmação de Filho de Deus. Todas estas ligações não se opõem e, por isso, são válidas. E, em qualquer caso, não contradizem, antes contribuem para dar sentido ao que estamos a refletir: Jesus Cristo é Deus, gerado pelo Pai e não resultado do ato criador. 


Gerado, não criado. Esta afirmação é consequência das reflexões provocadas no Concílio de Niceia (325). No contexto da divindade de Jesus Cristo, nesse Concílio, dá-se destaque, pela primeira vez, à distinção entre geração e criação. Perante doutrinas que pretendiam afirmar o contrário, o Concílio afirma que Jesus Cristo faz parte de Deus. Ele não é criado por Deus. O Filho é gerado pelo Pai. Através do uso destes dois termos — gerado e criado — estabelece-se a distinção entre a criação de «de todas as coisas visíveis e invisíveis» (cf. temas 5 e 6) e a geração do Filho no «seio» do Pai. É claro que esta linguagem não é exata para expressar a realidade de Deus (e da Trindade). É, como todas as linguagens humanas, uma aproximação possível ao indizível que é Deus. O uso do termo «gerado» está intimamente relacionado com a expressão anterior do «Credo»: «nascido do Pai antes de todos os séculos» (cf. tema 9). A esse propósito relembramos a reflexão de Hilário de Poitiers: «Se alguém quiser zangar-se com a sua própria inteligência por não conseguir compreender o mistério dessa geração, que saiba, pelo menos, que eu também sofro ainda mais que ele por o ignorar. Não sei, mas não me inquieto...». A distinção entre a geração do Filho e a criação do universo é decisiva para compreender a identidade de Jesus Cristo: «o Filho está do lado de Deus que cria, é a Sua Palavra, o Seu Verbo, eterno como Ele. [...] A verdadeira aposta destas primeiras reflexões da Igreja sobre a identidade de Jesus consiste em perceber que a filiação não é, de per si, uma inferioridade. ‘Vir de’, ‘tender, ir para’, é uma relação. E, para Cristo, não é uma relação acrescentada ao que Ele é, como as relações que podemos adquirir. Esta relação de origem e de vocação (o Filho vem do Pai e vai para o Pai) constitui-O, é o Seu próprio ser. [...] O Pai a quem o Novo Testamento continua a dar como próprio o nome de Deus, é também relacional. Se não há Filho sem Pai, também não há Pai sem Filho. [...] Esta interdependência não é inferioridade, mas partilha e comunhão» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 69). 

A divindade de Jesus Cristo, o Filho, nada tira à divindade do Pai. Pelo contrário, revela a própria natureza divina que é relação e comunhão interpessoal: o Filho é «consubstancial ao Pai».

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.2.13 | Sem comentários
— reflexão semanal sobre o credo niceno-constantinopolitano — 

No início do Credo, proclamamos que Deus é Pai Criador (cf. temas 5 e 6). Agora, no centro do Credo, voltamos a referir o ato criador para o associar a Jesus Cristo: «Por Ele todas as coisas foram feitas». E, mais adiante, voltaremos a associá-lo com o Espírito Santo. Na verdade, «embora a obra da criação seja particularmente atribuída ao Pai, é igualmente verdade de fé que o Pai, o Filho e Espírito Santo são o único e indivisível princípio da criação» (Catecismo da Igreja Católica, 316). Agora, vamos aprofundar a relação de Jesus Cristo com o ato criador. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Colossenses 1, 12-20; Catecismo da Igreja Católica, números 290-294

«Todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele» — é uma aclamação que faz parte do hino recolhido ou adaptado por Paulo na Carta aos Colossenses. As afirmações deste hino fazem parte de um contexto cultural e filosófico em que se pensava que o céu e a terra estavam povoados por potências misteriosas. Por isso, sem qualquer dúvida, afirma que Jesus Cristo tem a primazia sobre todas as coisas. Na linguagem litúrgica, em especial na solene Vigília, diante do Círio Pascal cantamos que o Senhor Jesus Cristo ressuscitado é Alfa (A) e o Omega (Ω). O Alfa é a primeira letra do alfabeto grego. O Omega é a última. Jesus Cristo é o princípio e o fim de todas as coisas. «Em virtude da sua altíssima dignidade, Cristo precede ‘todas as coisas’, não só por causa da sua eternidade, mas também e sobretudo pela sua obra criadora e providente: ‘porque n’Ele foram criadas todas as coisas’. [...] Paulo indica-nos uma verdade muita importante: a história tem uma meta, uma direção. A história orienta-se rumo à humanidade unida em Cristo, ao homem perfeito, ao humanismo perfeito. Por outras palavras, São Paulo diz-nos: sim, há progresso na história. Há por assim dizer uma evolução da história. Progresso é tudo o que nos aproxima de Cristo e assim nos aproxima da humanidade unida, do verdadeiro humanismo. Desta forma, no interior destas indicações esconde-se também um imperativo para nós: trabalhar pelo progresso é o que todos nós queremos. Podemos fazê-lo, trabalhando pela aproximação dos homens a Cristo; podemos fazê-lo, conformando-nos pessoalmente a Cristo, caminhando deste modo na linha do progresso autêntico» (Bento XVI, Audiência Geral de 4 de janeiro de 2006).

Por Ele todas as coisas foram feitas. Esta afirmação faz a passagem entre a natureza divina e humana de Jesus Cristo, no «Credo niceno-constantinopolitano». É o coração do Credo! É o coração da História! «No princípio existia o Verbo. [...] Por Ele é que tudo começou a existir; e sem Ele nada veio à existência», refere o prólogo do evangelho segundo João (1, 1.3). Esta centralidade de Jesus Cristo já está anunciada no Antigo Testamento através dos conceitos de «Palavra» e de «Sabedoria». Jesus Cristo é a Palavra de Deus que chama todas as coisas à existência: «Deus disse...» (cf. Génesis 1). Jesus Cristo é a Sabedoria de Deus, que acompanha o ato criador como sublinha o livro dos Provérbios (8, 22-31). «Na Sagrada Escritura a criação também está muitas vezes ligada à Palavra divina que irrompe e age: ‘O céu foi feito com a palavra de Javé, e o Seu exército com o sopro da Sua boca... Porque Ele diz e a coisa acontece... Ele envia as Suas ordens à terra, e a Sua palavra corre velozmente’ (Salmo 33, 6.9; 147, 15). Na literatura sapiencial veterotestamentária é a Sabedoria divina personificada que dá origem ao cosmos, atuando o projeto da mente de Deus (cf. Provérbios 8, 22-31). Já foi dito que João e Paulo na Palavra e na Sabedoria de Deus verão o anúncio da ação de Cristo ‘por Quem tudo existe e por meio do Qual também nós existimos’ (1Coríntios 8, 6), porque é ‘por meio d’Ele que (Deus) também criou o mundo’ (Hebreus 1, 2)» (João Paulo II, Audiência Geral de 26 de janeiro de 2000). Esta centralidade de Jesus Cristo é também evidenciada nos documentos da Igreja. Por exemplo, na Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual («Gaudium et Spes»): « A chave, o centro e o fim de toda a história humana encontram-se no seu Senhor e mestre» (número 10). «O Senhor [Jesus Cristo] é o fim da história humana, o ponto para onde tendem os desejos da história e da civilização, o centro do género humano, a alegria de todos os corações e a plenitude das suas aspirações» (número 45). 

Na Liturgia, todas as Orações Eucarística concluem com a solene proclamação da centralidade de Jesus Cristo em sintonia com a Trindade: «Por Cristo, com Cristo, em Cristo, a Vós Deus Pai, todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre. Amén».
 

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.2.13 | Sem comentários
— reflexão semanal sobre o credo niceno-constantinopolitano — 

O Catecismo da Igreja Católica, no número 242, resume assim este tema: «No primeiro concílio ecuménico de Niceia, em 325, a Igreja confessou que o Filho é ‘consubstancial’ ao Pai, quer dizer, um só Deus com Ele. O segundo concilio ecuménico, reunido em Constantinopla em 381, guardou esta expressão na sua formulação do Credo de Niceia e confessou ‘o Filho unigénito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos, luz da luz. Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai’». [Para ajudar a compreender melhor, ler: João 14, 6-14; Catecismo da Igreja Católica, números 234-242 e 249-256

«Quem me vê, vê o Pai» — responde Jesus, no evangelho segundo João, ao pedido do apóstolo Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai!». «O modo tipicamente cristão de considerar Deus passa sempre através de Cristo. É Ele o Caminho, e ninguém vai ao Pai senão por meio d’Ele. [...] Cristo, o Filho predileto, é por excelência o revelador do Pai. O verdadeiro rosto de Deus é-nos revelado só por Aquele que ‘está no seio do Pai’. A expressão original grega do Evangelho de João (cf. 1, 18) indica uma relação íntima e dinâmica de essência, de amor, de vida do Filho com o Pai» (João Paulo II, Audiência Geral de 20 de setembro de 2000). O diálogo entre Jesus e Filipe destaca a relação de profunda intimidade entre Jesus e o Pai: não se pode conhecer Um sem o Outro. Para o Papa Bento XVI, «estas palavras são as mais nobres do evangelho de João» (Audiência Geral de 6 de setembro de 2006). Mas não é fácil captar tudo que é dito. Os apóstolos também tiveram dificuldade em perceber esta essência de Deus revelado em Jesus Cristo. O mesmo sucedeu nos primeiros anos do cristianismo. Aliás, ainda hoje é preciso a abertura à fé para acolher a totalidade deste mistério divino. 

Ao longo dos tempos, para tentar dizer o indizível do mistério da Santíssima Trindade, «a Igreja teve de elaborar uma terminologia própria, com a ajuda de noções de origem filosófica: ‘substância’, ‘pessoa’ ou ‘hipóstase’, ‘relação’, etc. Ao fazer isto, a Igreja não sujeitou a fé a uma sabedoria humana, mas deu um sentido novo, inédito, a estes termos, chamados a exprimir também, desde então, um mistério inefável, ‘transcendendo infinitamente tudo quanto podemos conceber a nível humano’» (Catecismo da Igreja Católica, 251). 

Consubstancial ao Pai. O termo «consubstancial» é a tradução da palavra grega (homoousios) que designa a mesma (homo) substância ou essência (ousios); assim, afirmamos que o Filho e o Pai possuem a mesma substância. Esta expressão colocada no «Credo» é uma resposta clara ao arianismo (cf. tema 10): uma heresia (falsa doutrina) que defendia que Jesus Cristo não era Deus, mas apenas uma criatura que atingiu uma perfeição especial. O Concílio de Niceia (325) reafirmou a plena identidade divina do Filho e do Pai. «Daí, a acumulação, pelos Padres de Niceia, de expressões convergentes, não-escriturísticas, que tiveram de ser acrescentadas ao Credo da Igreja e do seu batismo. Mesmo o consubstancial ao Pai, o homoousios com traduções hesitantes, não foi inserido por causa da significação clara que poderia ter tido anteriormente num sistema filosófico admitido por todos. As precisões filosóficas sobre a natureza ou a substância só virão cinquenta ou cem anos mais tarde, com os grandes bispos teólogos: Basílio Magno († 379); Gregório Nazianzeno († 390); Gregório de Nissa († 394) e, no Ocidente, Agostinho de Hipona († 430). Santo Ambrósio conta-nos que a palavra ‘consubstancial’ só foi adotada em Niceia — quando outras assembleias de bispos a tinham julgado suspeita — porque tinha sido abertamente rejeitada por Ario e os seus» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 69). Para reforçar a verdadeira doutrina, os Concílios seguintes (Constantinopla e Calcedónia) insistiram nos termos acrescentados no Concílio de Niceia (cf. temas 10 a 12). A expressão — «consubstancial ao Pai» — que encerra esta temática, defende que Jesus Cristo não é uma criatura especial, mas é Deus, faz parte de Deus, é gerado em Deus e possui a mesma essência de Deus. Ao contrário do que diziam os defensores do arianismo não está em causa o monoteísmo (um só Deus). O Pai e o Filho, com o Espírito Santo, constituem a Trindade de Um único Deus: um só Deus em três Pessoas. 

Apesar de todas estas fórmulas, é importante recordar que as palavras do Credo não impedem a busca das melhores expressões para dizer Deus. A linguagem (ontem como hoje) será sempre imperfeita, incapaz de explicar a plenitude do mistério de Deus.

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.2.13 | Sem comentários
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