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Pequeninos do Senhor


Pedro conheceu Jesus quando já era adulto. Até então, não sabia o que era ter fé. Era um homem rude, simples, pescador, que vivia para a sua família e trabalhava para ter o peixe de cada dia. Isso era pouco, mas o suficiente para uma vida humilde! E Deus viu naquele homem a possibilidade de agir e transformá-lo em pescador de homens (Lucas 5, 10), num líder de comunidades, de povos, de nações... e assim aconteceu!
O seu nome era Simão e Jesus deu-lhe um novo nome, Cefas — Kepha (Aramaico); Petros (Grego); Petrus (Latim); Cefas (Português) —, que quer dizer pedra, e sobre essa pedra quis construir a sua Igreja — Jesus disse para Pedro: «Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, [...] Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja... Eu te darei as chaves do Reino dos Céus (Mateus 16, 15-19). A um homem considerado frágil intelectualmente, Jesus dá-lhe um nome forte, mostrando que o poder não está no controle ou na vontade do homem, mas nas mãos de Deus que molda e que transforma até as pedras do caminho.
Depois do encontro pessoal com Cristo e com um nome novo, Pedro passa a ser seguidor do Mestre!
Bento XVI, cujo nome de batismo é Joseph, teve uma formação cristã exemplar diante de um clima de hostilidade entre o regime nazista e a Igreja Católica. Cresceu num povoado, participando nas atividades litúrgicas com a sua família e comunidade; na adolescência, foi conquistado e deixou-se envolver espiritualmente, sendo despertado para o desejo de se entregar por uma causa maior: Cristo!
Na sua autobiografia, declara que quando era criança o seu caminho com a liturgia foi um processo de contínuo crescimento, e que a liturgia Católica o acompanhou em todas as fases de sua vida.


Mas o que é que Pedro, Bento XVI e, agora Francisco, têm em comum com as crianças?
Assim como eles tiveram, um dia, um encontro com Jesus, o Mestre, o Cristo que os conduziu por um Caminho de fé, de esperança e de amor, e os chamou para a vocação de discípulos e representantes de Cristo na Terra, também as crianças, no mundo de hoje, diante de tantos desafios na formação e na educação cristã, precisam de ser orientadas sob um novo prisma, um novo olhar, para terem um encontro com a pessoa de Jesus, como um amigo que, embora não seja visível, não é abstrato, e mesmo não podendo ser tocado, não é virtual, é real, existe e faz-se presente em todos os momentos.
Numa linguagem atual, dinâmica e realista, os pais e os catequistas atingem as crianças e são instrumentos do amor de Deus através das suas atitudes, do exemplo de prática cristã, elementos que elas compreendem e que afloram a perceção: a coerência entre o falar e o agir, as palavras e as ações. Uma completa a outra e solidifica o conceito!
Cada Padre, Bispo, Cardeal ou Papa teve a sua infância, a sua história pessoal, um chamamento particular em algum momento para servir a Cristo na Igreja. A família e a comunidade cristã são veículos que conduzem as crianças e os jovens para este encontro com Deus, possibilitando o surgimento de novas vocações, verdadeiros convites para o seguimento de Cristo na Igreja, na família e na sociedade!

© Rachel Abdalla — www.pequeninosdosenhor.org —
© Adaptado por Laboratório da fé, 2013

www.pequeninosdosenhor.org


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Rachel Abdalla é fundadora e presidente da Associação Católica Pequeninos do Senhor (desde 1997); membro da 'Equipa de Trabalho' do 'Ambiente Virtual de Formação' da Arquidiocese de Campinas, São Paulo (desde 2011); coordenadora da Catequese da Família da paróquia de Nossa Senhora das Dores, em Campinas, São Paulo (desde 2012); colaboradora da Agência ZENIT – O mundo visto de Roma, na coluna quinzenal de orientação catequética Pequeninos do Senhor (desde 2012). 

Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.5.13 | Sem comentários

Encontro Mundial das Famílias

Em Valência, Espanha: julho de 2006


No V Encontro Mundial das Famílias (2006, em Valência, Espanha), o Papa Bento XVI começou a homilia da eucaristia de encerramento por destacar a família como «comunidade de gerações e garante de um património de gerações». Depois, apresentou o nascimento como fruto de uma projeto amoroso de Deus e não uma «casualidade». Nesse contexto, introduziu o tema da transmissão da fé no contexto familiar: «A família cristã transmite a fé quando os pais ensinam os seus filhos a rezar e rezam com eles; quando os aproximam dos sacramentos e os vão introduzindo na vida da Igreja; quando todos se reúnem para ler a Bíblia, iluminando a vida familiar à luz da fé e louvam a Deus como Pai». Por fim, assinalou o matrimónio entre um homem e uma mulher como a «origem da família».

Queridos irmãos e irmãs!
Nesta Santa Missa que tenho a imensa alegria de presidir, concelebrando com numerosos Irmãos no Episcopado e com um grande número de sacerdotes, dou graças ao Senhor por todas as amadas famílias que se reuniram aqui formando uma multidão jubilosa, e também por muitas outras que, de terras longínquas, seguem esta celebração através da rádio e da televisão. Desejo saudar-vos a todos e expressar-vos o meu grande afecto com um abraço de paz.
Os testemunhos de Ester e Paulo, que ouvimos antes nas leituras, mostram como a família está chamada a colaborar na transmissão da fé. Ester confessa: "No seio da família, ouvi desde criança, Senhor, escolheste Israel entre todos os povos" (4, 16). Paulo segue a tradição dos seus antepassados judeus prestando culto a Deus com consciência pura. Louva a fé sincera de Timóteo e recorda-lhe: "a tua fé, que se encontrava já na tua avó, Loide, e na tua mãe Eunice e que, estou seguro, se encontre também em ti" (2 Tm 1, 5). Nestes testemunhos bíblicos a família compreende não só pais e filhos, mas também avós e antepassados. Assim, a família apresenta-se-nos como uma comunidade de gerações e garante de um património de tradições.
Nenhum homem se deu o ser a si mesmo nem adquiriu sozinho os conhecimentos elementares da vida. Todos recebemos de outros a vida e as verdades básicas para ela, e estamos chamados a alcançar a perfeição em relação e comunhão amorosa com os demais. A família, fundada no matrimónio indissolúvel entre um homem e uma mulher, expressa esta dimensão relacional, filial e comunitária, e é o âmbito no qual o homem pode nascer com dignidade, crescer e desenvolver-se de maneira integral.
Quando uma criança nasce, através do relacionamento dos seus pais começa a fazer parte de uma tradição familiar, que tem raízes muito mais antigas. Com o dom da vida recebe todo um património de experiência. A este respeito, os pais têm o direito e o dever inalienável de o transmitir aos filhos: educá-los no descobrimento da sua identidade, introduzi-los na vida social, na prática responsável da sua liberdade moral e da sua capacidade de amar através da experiência de serem amados e, sobretudo, no encontro com Deus. Os filhos crescem e maturam humanamente na medida em que acolhem com confiança esse património e essa educação que vão assumindo progressivamente.
Deste modo são capazes de elaborar uma síntese pessoal entre o que receberam e o que é novo, e que cada indivíduo e geração estão chamados a realizar.
Na origem de todos os homens e, por conseguinte, em qualquer paternidade e maternidade humana está presente Deus Criador. Por isso os esposos devem acolher a criança que nasce como filho que não é unicamente seu, mas também de Deus, que o ama por si mesmo e o chama à filiação divina. Contudo, qualquer geração, qualquer paternidade e maternidade, e qualquer família tem o seu princípio em Deus, que é Pai, Filho e Espírito Santo.
A Ester, seu pai tinha transmitido, com a memória de seus antepassados e do seu povo, a de um Deus do qual todos procedem e ao qual todos estão chamados a responder. A memória de Deus Pai que elegeu o seu povo e que actua na história para a nossa salvação. A memória deste Pai ilumina a identidade mais profunda dos homens: de onde vimos, quem somos e quanto é grande a nossa dignidade. Certamente, provimos de nossos pais e somos seus filhos, mas também vimos de Deus, que nos criou à sua imagem e nos chamou para sermos seus filhos. Por isso, na origem de todo o ser humano não existe a sorte ou a casualidade, mas um projecto de amor de Deus. Foi o que nos revelou Jesus Cristo, verdadeiro Filho de Deus e homem perfeito. Ele sabia de quem provinha e de quem provimos todos: do amor de seu Pai e nosso Pai.
Portanto, a fé não é uma mera herança cultural, mas uma acção contínua da graça de Deus que chama e da liberdade humana que pode ou não aderir a essa chamada. Mesmo se ninguém responde por outro, sem dúvida os pais cristãos estão chamados a dar um testemunho crível da sua fé e esperança cristã. Devem preocupar-se por que a chamada de Deus e a Boa Nova de Cristo cheguem aos seus filhos com a maior clareza e autenticidade.
Com o passar dos anos, este dom de Deus que os pais contribuíram para apresentar aos olhos dos pequeninos, também precisará de ser cultivado com sabedoria e doçura, fazendo crescer neles a capacidade de discernimento. Deste modo, com o testemunho constante do amor conjugal dos pais, vivido e impregnado de , e com o acompanhamento comprometido da comunidade cristã, será favorecido que os filhos façam seu o dom da fé, descubram com ela o sentido profundo da própria existência e se sintam alegres e gratos por isso.
A família cristã transmite a fé quando os pais ensinam os seus filhos a rezar e rezam com eles (cf. A família cristã no mundo de hoje, 60); quando os aproximam dos sacramentos e os vão introduzindo na vida da Igreja; quando todos se reúnem para ler a Bíblia, iluminando a vida familiar à luz da fé e louvam a Deus como Pai.
Na atual cultura exalta-se com muita frequência a liberdade do indivíduo concebido como pessoa autónoma, como se ele se tivesse feito sozinho e se bastasse a si mesmo, à margem da sua relação com os demais e sem o sentido da responsabilidade para com o próximo. Procura-se organizar a vida social só a partir de desejos subjectivos e transitórios, sem qualquer referência a uma verdade objetiva prévia como a dignidade de cada ser humano e os seus deveres e direitos inalienáveis, a cujo serviço deve estar todo o grupo social.
A Igreja não cessa de recordar que a verdadeira liberdade do ser humano deriva do facto de ter sido criado à imagem e semelhança de Deus. Por isso, a educação cristã é educação da liberdade e para a liberdade. «Nós realizamos o bem não como escravos, que não são livres de agir de outra forma, mas fazemo-lo porque temos pessoalmente a responsabilidade pelo mundo; porque amamos a verdade e o bem, porque amamos o próprio Deus e portanto também as suas criaturas. Esta é a liberdade verdadeira, para a qual o Espírito Santo nos quer conduzir» (Homilia na Vigília de Pentecostes).
Jesus Cristo é o homem perfeito, exemplo de liberdade filial, que nos ensina a comunicar aos demais o seu próprio amor: «Assim como o Pai me tem amor, assim Eu vos amo a vós. Permanecei no meu amor» (João 15, 9). A este propósito o II Concílio do Vaticano ensina que «os cônjuges e pais cristãos, seguindo o seu próprio caminho, se ajudem mutuamente a conservar a graça no decorrer de toda a sua vida, numa grande fidelidade de amor, e que eduquem na doutrina cristã e nas virtudes evangélicas a prole que receberem amorosamente de Deus. Oferecem, assim, a todos o exemplo de um amor incansável e generoso, constróem a fraternidade da caridade e apresentam-se como testemunhas e cooperadores da fecundidade da Mãe Igreja, como símbolo e participação do amor com que Cristo amou a sua Esposa e por Ela se entregou» (Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium», 41).
A alegria amorosa com que os nossos pais nos acolheram e acompanharam nos primeiros passos neste mundo é como um sinal e prolongamento sacramental do amor benevolente de Deus, do qual procedemos. A experiência de sermos acolhidos e amados por Deus e pelos nossos pais é a base sólida que favorece sempre o crescimento e desenvolvimento autênticos do homem, que tanto nos ajuda a amadurecer no caminho para a verdade e para o amor, e a sairmos de nós mesmos para entrarmos na comunhão com o próximo e com Deus.
Para progredir nesse caminho de maturidade humana, a Igreja ensina-nos a respeitar e a promover a maravilhosa realidade do matrimónio indissolúvel entre um homem e uma mulher, que é, além disso, a origem da família. Portanto, reconhecer e ajudar esta instituição é um dos maiores serviços que se possam prestar hoje ao bem comum e ao verdadeiro desenvolvimento dos homens e das sociedades, assim como a melhor garantia para assegurar a dignidade, a igualdade e a verdadeira liberdade da pessoa humana.
Neste sentido, desejo realçar a importância e o papel positivo que realizam as diversas associações familiares eclesiais em favor do matrimónio e da família. Por isso, «desejo convidar todos os cristãos a colaborar, carinhosa e corajosamente, com todos os homens de boa vontade, que vivem a responsabilidade própria no serviço à família» (A família cristã no mundo de hoje, 86), para que unindo as suas forças e com uma pluralidade legítima de iniciativas, contribuam para a promoção do verdadeiro bem da família na sociedade atual.
Voltemos por um momento à primeira leitura desta Missa, tirada do livro de Ester. A Igreja orante viu nesta humilde rainha, que intercede com todo o seu ser pelo seu povo que sofre, uma prefiguração de Maria, que seu Filho nos deu a todos como Mãe; uma prefiguração da Mãe, que protege com o seu amor a família de Deus que peregrina neste mundo. Maria é a imagem exemplar de todas as mães, da sua grande missão como guardiãs da vida, da sua missão de ensinar a arte de viver, a arte de amar.
A família cristã pai, mãe, filhos está portanto chamada a cumprir os objectivos assinalados não como algo imposto de fora, mas como um dom da graça do sacramento do matrimónio infundida nos esposos. Se eles permanecerem abertos ao Espírito e pedirem a sua ajuda, ele não deixará de lhes comunicar o amor de Deus Pai manifestado e encarnado em Cristo. A presença do Espírito ajudará os esposos a não perder de vista a fonte e medida do seu amor e entrega, e a colaborar com ele para o reflectir e encarnar em todas as dimensões da sua vida. Desta forma, o Espírito suscitará neles o anseio do encontro definitivo com Cristo na casa de seu Pai e nosso Pai. É esta a mensagem de esperança que, de Valência, quero fazer chegar a todas as famílias do mundo. Amém!

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Papa Bento XVI, V Encontro Mundial das Famílias - Valência, Espanha - 2009
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.5.13 | Sem comentários

Encontro Mundial das Famílias

No México: janeiro de 2009


No VI Encontro Mundial das Famílias (2009, no México), o Papa Bento XVI proferiu um discurso por video-conferência, tendo começado por destacar a importância da santidade na família, alicerçada na confiança em Deus e no vigor da fé, que se alimenta da Palavra. Referiu-se também à família como «fundamento indispensável para a sociedade», destacando-a como «escola de humanidade e de valores». E acrescentou: «É no lar que se aprende a viver verdadeiramente, a valorizar a vida e a saúde, a liberdade e a paz, a justiça e a verdade, o trabalho, a concórdia e o respeito». A terminar, dedicou uma palavra às famílias numerosas e a todas as que vivem dificuldades, inclusive por causa da fé.

[...] Hoje, através dos meios de comunicação, peregrinei espiritualmente até esse Santuário mariano, coração do México e de toda a América, para confiar a Nossa Senhora de Guadalupe todas as famílias do mundo.
2. Este Encontro Mundial das Famílias quis animar os lares cristãos, a fim de que os seus membros sejam pessoas livres e ricas de valores humanos e evangélicos, a caminho da santidade, que é o melhor serviço que nós cristãos podemos oferecer à sociedade actual. A resposta cristã diante dos desafios, que a família e a vida humana em geral devem enfrentar, consiste em refortalecer a confiança no Senhor e o vigor que brota da própria fé, que se alimenta da escuta atenta da Palavra de Deus. Como é bonito reunir-se em família, para permitir que Deus fale ao coração dos seus membros através da sua Palavra viva e eficaz! Na oração, de forma especial mediante a recitação do Rosário como se fez ontem, a família contempla os mistérios da vida de Jesus, interioriza os valores que medita e sente-se chamada a encarná-los na sua vida.
3. A família é um fundamento indispensável para a sociedade e os povos, assim como um bem insubstituível para os filhos, dignos de vir à vida como fruto do amor, da entrega total e generosa dos pais. Como pôs em evidência Jesus, honrando a Virgem Maria e São José, a família ocupa um lugar primário na educação da pessoa. É uma verdadeira escola de humanidade e de valores perenes. Ninguém se deu a vida a si mesmo. Recebemos de outros a vida, que se desenvolve e amadurece com as verdades e os valores que aprendemos no relacionamento e na comunhão com os demais. Neste sentido, a família fundada no matrimónio indissolúvel entre um homem a uma mulher expressa esta dimensão de relacionamento, filial e comunitária, e é o âmbito onde o homem pode nascer com dignidade, crescer e desenvolver-se de maneira integral (cf. Homilia na Santa Missa por ocasião do V Encontro Mundial das Famílias, Valença, 9 de Julho de 2006).
No entanto, esta obra educativa é dificultada por um conceito errado de liberdade, em que o capricho e os impulsos subjectivos do indivíduo são exaltados a ponto de deixar cada um encerrado na prisão do próprio ego. A verdadeira liberdade do ser humano provém do facto de ter sido criado à imagem e semelhança de Deus, e por isso deve ser exercida com responsabilidade, optando sempre pelo bem verdadeiro, a fim de que se transforme em amor, em dom de si mesmo. Para isto, mais do que teorias são precisos a proximidade e o amor característicos da comunidade familiar. É no lar que se aprende a viver verdadeiramente, a valorizar a vida e a saúde, a liberdade e a paz, a justiça e a verdade, o trabalho, a concórdia e o respeito.
4. Hoje mais do que nunca são necessários o testemunho e o compromisso público de todos os baptizados, para reafirmar a dignidade e o valor único e insubstituível da família fundada no matrimónio de um homem com uma mulher e aberto à vida, assim como da vida humana em todas as suas etapas. Devem-se promover também medidas legislativas e administrativas que ajudem as famílias nos seus direitos inalienáveis, necessários para dar continuidade à sua missão extraordinária. Os testemunhos apresentados na celebração de ontem mostram que também hoje a família pode manter-se firme no amor de Deus e renovar a humanidade no novo milénio.
5. Desejo manifestar a minha proximidade e assegurar a minha oração por todas as famílias que dão testemunho de fidelidade em circunstâncias particularmente árduas. Encorajo as famílias numerosas que, vivendo às vezes no meio de contrariedades e incompreensões, dão um exemplo de generosidade e confiança em Deus, desejando que não lhes faltem as ajudas necessárias. Penso inclusive nas famílias que sofrem por causa da pobreza, da enfermidade, da marginalização ou da emigração. E de maneira muito especial nas famílias cristãs que são perseguidas por causa da sua fé. O Papa está muito próximo de todos vós e acompanha-vos no vosso esforço de cada dia. [...]

7. Confio todas as famílias do mundo à protecção da Santíssima Virgem, tão venerada na nobre terra mexicana, sob a denominação de Guadalupe. A Ela, que nos recorda sempre que a nossa felicidade consiste em cumprir a vontade de Cristo (cf. João 2, 5), digo-lhe agora:

Santíssima Mãe de Guadalupe,
que manifestaste o teu amor e a tua ternura
aos povos do continente americano,
enche de alegria e de esperança todos os povos
e todas as famílias do mundo.

A ti, que precedes e orientas o nosso caminho de fé
para a pátria eterna,
confiamos as alegrias, os projectos,
as preocupações e os anseios de todas as famílias.

Ó Maria,
a ti recorremos, confiando na tua ternura de Mãe.
Não desatendas as súplicas que te dirigimos
por todas as famílias do mundo,
neste período crucial da história,
aliás, acolhe todos nós no teu Coração de Mãe
e acompanha-nos no nosso caminho para a pátria celestial.
Amém!

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Papa Bento XVI, 2013



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.5.13 | Sem comentários

Encontro Mundial das Famílias

Em Milão, Itália: maio e junho de 2012


No VII Encontro Mundial das Famílias (2012: Milão, Itália) dedicado ao tema da «Família: o trabalho e a festa», o papa Bento XVI proferiu uma reflexão na homilia da eucaristia de encerramento, onde pôs em destaque estes três elementos — família, trabalho, festa — como «dons de Deus». Em primeiro lugar, o Papa convidou a família a descobrir o amor como imagem da Trindade divina. Depois, referiu-se ao Sacramento do Matrimónio como vocação, tendo dedicado uma palavra de ternura para com os que vivem situações de separação e «falência» do amor. Por fim, refletiu sobre o tema central do encontro: «Família, trabalho, festa: três dons de Deus, três dimensões da nossa vida que se devem encontrar num equilíbrio harmonioso».

[...] Está-nos confiada a tarefa de construir comunidades eclesiais que sejam cada vez mais família, capazes de reflectir a beleza da Trindade e evangelizar não só com a palavra mas – diria eu – por «irradiação», com a força do amor vivido.
Não é só a Igreja que é chamada a ser imagem do Deus Uno em Três Pessoas, mas também a família fundada no matrimónio entre o homem e a mulher. No princípio, de facto, «Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus: Ele os criou homem e mulher. Abençoando-os, Deus disse-lhes: “Crescei e multiplicai-vos”» (Génesis 1, 27-28). Deus criou o ser humano, homem e mulher, com igual dignidade, mas também com características próprias e complementares, para que os dois fossem dom um para o outro, se valorizassem reciprocamente e realizassem uma comunidade de amor e de vida. O amor é o que faz da pessoa humana a autêntica imagem da Trindade, imagem de Deus. Queridos esposos, na vivência do matrimónio, não dais qualquer coisa ou alguma atividade, mas a vida inteira. E o vosso amor é fecundo, antes de mais nada, para vós mesmos, porque desejais e realizais o bem um do outro, experimentando a alegria do receber e do dar. Depois é fecundo na procriação generosa e responsável dos filhos, na solicitude carinhosa por eles e na educação cuidadosa e sábia. Finalmente é fecundo para a sociedade, porque a vida familiar é a primeira e insubstituível escola das virtudes sociais, tais como o respeito pelas pessoas, a gratuidade, a confiança, a responsabilidade, a solidariedade, a cooperação. Queridos esposos, cuidai dos vossos filhos e, num mundo dominado pela técnica, transmiti-lhes com serenidade e confiança as razões para viver, a força da fé desvendando-lhes metas altas e servindo-lhes de apoio na fragilidade. Mas também vós, filhos, sabei manter sempre uma relação de profundo afecto e solícito cuidado com os vossos pais, e as relações entre irmãos e irmãs sejam também oportunidade para crescer no amor.
O projecto de Deus para o casal humano alcança a sua plenitude em Jesus Cristo, que elevou o matrimónio a Sacramento. Com um dom especial do Espírito Santo, queridos esposos, Cristo faz-vos participar no seu amor esponsal, tornando-vos sinal do seu amor pela Igreja: um amor fiel e total. Se souberdes acolher este dom, renovando diariamente o vosso «sim» com fé e com a força que vem da graça do Sacramento, também a vossa família viverá do amor de Deus, tomando por modelo a Sagrada Família de Nazaré. Queridas famílias, pedi muitas vezes, na oração, o auxílio da Virgem Maria e de São José, para que vos ensinem a acolher o amor de Deus como o acolheram eles. A vossa vocação não é fácil de viver, especialmente hoje, mas a realidade do amor é maravilhosa, é a única força que pode verdadeiramente transformar o universo, o mundo. Aos vossos olhos foi oferecido o testemunho de tantas famílias, que indicam os caminhos para crescer no amor: manter um relacionamento perseverante com Deus e participar na vida eclesial, cultivar o diálogo, respeitar o ponto de vista do outro, estar disponíveis para servir, ser paciente com os defeitos alheios, saber perdoar e pedir perdão, superar com inteligência e humildade os possíveis conflitos, concordar as directrizes educacionais, estar abertos às outras famílias, atentos aos pobres, ser responsáveis na sociedade civil. Todos estes são elementos que constroem a família. Vivei-os com coragem, pois na medida em que, com o apoio da graça divina, viverdes o amor mútuo e para com todos, tornar-vos-eis um Evangelho vivo, uma verdadeira Igreja doméstica (cf. Exortação Apostólica sobre a família cristã no mundo de hoje, 49). Quero dedicar uma palavra também aos fiéis que, embora compartilhando os ensinamentos da Igreja sobre a família, estão marcados por experiências dolorosas de falência e separação. Sabei que o Papa e a Igreja vos apoiam na vossa fadiga. Encorajo-vos a permanecer unidos às vossas comunidades, enquanto almejo que as dioceses assumam adequadas iniciativas de acolhimento e proximidade.
No livro do Génesis, Deus confia ao casal humano a sua criação, para que a guarde, cultive e guie de acordo com o seu plano (cf. 1, 27-28; 2, 15). Nesta indicação da Sagrada Escritura, podemos ler a missão que tem o homem e a mulher de colaborar com Deus para transformar o mundo, através do trabalho, da ciência e da técnica. O homem e a mulher são também imagem de Deus nesta obra preciosa, que devem realizar com o mesmo amor do Criador. Vemos que, nas teorias económicas modernas, prevalece muitas vezes uma concepção utilitarista do trabalho, da produção e do mercado. Mas, o projeto de Deus e a própria experiência mostram que não é a lógica unilateral do que me é útil e do maior lucro que pode concorrer para um desenvolvimento harmonioso, o bem da família e para construir uma sociedade justa, porque traz consigo uma competição exasperada, fortes desigualdades, degradação do meio ambiente, corrida ao consumo, mal-estar nas famílias. Antes, a mentalidade utilitarista tende a estender-se também às relações interpessoais e familiares, reduzindo-as a convergências precárias de interesses individuais e minando a solidez do tecido social.
Um último elemento. O homem, enquanto imagem de Deus, é chamado também ao descanso e à festa. A narrativa da criação termina com estas palavras: «Concluída, no sétimo dia, toda a obra que tinha feito, Deus repousou, no sétimo dia, de todo o trabalho por Ele realizado. Deus abençoou o sétimo dia e santificou-o» (Génesis 2, 2-3). Para nós, cristãos, o dia de festa é o Domingo, dia do Senhor, Páscoa da semana. É o dia da Igreja, assembleia convocada pelo Senhor ao redor da mesa da Palavra e do Sacrifício Eucarístico, como estamos a fazer hoje, para nos alimentar d’Ele, entrar no seu amor e viver do seu amor. É o dia do homem e dos seus valores: convivência, amizade, solidariedade, cultura, contacto com a natureza, jogo, desporto. É o dia da família, em que se há-de viver, juntos, o sentido da festa, do encontro, da partilha, também com a participação na Santa Missa. Queridas famílias, mesmo nos ritmos acelerados do nosso tempo, não percais o sentido do dia do Senhor! É como o oásis onde parar para saborear a alegria do encontro e saciar a nossa sede de Deus.
Família, trabalho, festa: três dons de Deus, três dimensões da nossa vida que se devem encontrar num equilíbrio harmonioso. Harmonizar os horários do trabalho e as exigências da família, a profissão e a paternidade e maternidade, o trabalho e a festa é importante para construir sociedades com um rosto humano. Nisto, privilegiai sempre a lógica do ser sobre a do ter: a primeira constrói, a segunda acaba por destruir. É preciso educar-se para crer, em primeiro lugar na família, no amor autêntico: o amor que vem de Deus e nos une a Ele e, por isso mesmo, «nos transforma em um Nós, que supera as nossas divisões e nos faz ser um só, até que, no fim, Deus seja “tudo em todos” (1 Cor 15, 28)» (Encíclica Deus é amor, 18). Amen.

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© VII Encontro Mundial das Famílias



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.5.13 | Sem comentários

Mês de maio, Mês de Maria


O papa Bento XVI, a 20 de julho de 2008, na conclusão da Jornada Mundial da Juventude, em Sidney (hipódromo de Randwick), na Austrália, fez uma alocução durante a oração do Angelus, onde se referiu à relação de Maria com o Antigo Testamento.

Prezados jovens amigos,
Preparamo-nos agora para rezar juntos a oração encantadora do Angelus. Nela reflectiremos sobre Maria, jovem mulher em diálogo com o Anjo que, em nome de Deus, a convida a uma particular doação de Si mesma, da sua vida, do seu próprio futuro de mulher e mãe. Podemos imaginar como deveria sentir-se Maria naquele momento: cheia de trepidação, totalmente baralhada com a perspectiva que lhe foi apresentada.
O Anjo compreendeu a sua ansiedade e logo procurou tranquilizá-la: «Não tenhas receio, Maria (…). O Espírito Santo virá sobre Ti e a força do Altíssimo estenderá sobre Ti a sua sombra» (Lucas 1, 30.35). Foi o Espírito que lhe deu a força e a coragem para responder ao chamamento do Senhor. Foi o Espírito que a ajudou a compreender o grande mistério que estava para se realizar por meio dela. Foi o Espírito que a envolveu com o seu amor, tornando-a capaz de conceber no seu ventre o Filho de Deus.
Esta cena constitui talvez o momento cardinal na história do relacionamento de Deus com o seu povo. Ao longo do Antigo Testamento, Deus fora-Se revelando de forma parcial mas gradual, como todos fazemos nas nossas relações pessoais. Foi preciso tempo para que o povo eleito aprofundasse a sua relação com Deus. A Aliança com Israel foi uma espécie de período de galanteio, um longo namoro. Chegou depois o momento definitivo, o momento do matrimónio, a realização duma nova e eterna aliança. Naquele momento, Maria, diante do Senhor, representava toda a humanidade: na mensagem do Anjo, era Deus que fazia uma proposta de matrimónio à humanidade; e Maria, em nosso nome, disse sim.
Nas fábulas, a narração termina aqui: e todos, «desde então, viveram felizes e contentes». Na vida real, não é tão fácil… Foram muitas as dificuldades com que Maria Se debateu ao enfrentar as consequências daquele «sim» dito ao Senhor. Simeão profetizou que uma espada haveria de trespassar-lhe o coração. Quando Jesus tinha doze anos, Ela experimentou os piores pesadelos que um progenitor pode viver: durante três dias, teve de aguentar o extravio do Filho. E, depois da atividade pública de Jesus, sofreu a agonia de presenciar a sua crucifixão e morte. Através das várias provações, manteve-se sempre fiel à sua promessa, sustentada pelo Espírito de fortaleza. E foi por isso mesmo recompensada com a glória.
Queridos jovens, também nós devemos permanecer fiéis ao «sim» com que acolhemos a oferta de amizade feita pelo Senhor. Sabemos que Ele nunca nos abandonará. Sabemos que sempre nos apoiará com os dons do Espírito. A «proposta» do Senhor, Maria acolheu-a em nosso nome. E agora, voltemo-nos para ela e peçamos-lhe que nos guie no meio das dificuldades para permanecermos fiéis àquele relacionamento vital que Deus estabeleceu com cada um de nós. Maria é o nosso exemplo e a nossa inspiração. Que Ela interceda por nós junto do seu Filho e, com amor materno, nos proteja dos perigos!

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Papa Bento XVi — Joseph Ratzinger


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.5.13 | Sem comentários

Mês de maio, Mês de Maria


O papa Bento XVI, a 2 de janeiro de 2008, dedicou uma Audiência Geral ao tema «A divina maternidade de Maria», onde aborda o título de «Mãe de Deus» («Theotókos», em grego). Esta definição surge no contexto da reflexão sobre a divindade de Jesus Cristo. Alguns teólogos preferiam que se designasse Maria apenas como Mãe de Cristo («Cristotókos», em grego). Depois de várias discussões, o Concílio de Éfeso, em 431, confirmou esta devoção popular: Maria é Mãe de Deus. «Do título de «Mãe de Deus» derivam depois todos os outros títulos com que a Igreja honra Nossa Senhora, mas este é o fundamental» — afirma Bento XVI.

Queridos Irmãos e Irmãs,
Uma fórmula de bênção muito antiga, referida no Livro dos Números, recita: «Que o Senhor te abençoe e te proteja! Que o Senhor faça resplandecer a Sua face sobre ti e te seja benevolente! Que o Senhor dirija o seu olhar para ti e te conceda a paz!» (6, 24-26). Com estas palavras que a liturgia nos fez ouvir ontem, primeiro dia do ano, gostaria de formular cordiais bons votos a vós, aqui presentes, e a quantos durante estas festas de Natal me manifestaram confirmações de afectuosa proximidade espiritual.
Ontem celebramos a solene festa de Maria, Mãe de Deus. «Mãe de Deus», Theotókos, é o título atribuído oficialmente a Maria no século V, exactamente no Concílio de Éfeso de 431, confirmado pela devoção do povo cristão já a partir do século III, no contexto dos intensos debates daquele período sobre a pessoa de Cristo. Com aquele título ressaltava-se que Cristo é Deus e nasceu realmente de Maria como homem: na verdade, por mais que o debate parecesse verter sobre Maria, ele dizia respeito essencialmente ao Filho. Querendo salvaguardar a plena humanidade de Jesus, alguns Padres sugeriam uma palavra menos forte: em vez do título de Theotókos, propunham o de Christotókos, «Mãe de Cristo»; mas justamente esta sugestão foi vista como uma ameaça à doutrina da plena unidade da divindade com a humanidade de Cristo. Por isso, depois do amplo debate, no Concílio de Éfeso de 431, como disse, foi solenemente confirmada, por um lado, a unidade das duas naturezas, a divina e a humana, na pessoa do Filho de Deus (cf. DS, número 250) e, por outro, a legitimidade da atribuição à Virgem do título de Theotókos, Mãe deDeus (ibid., número 251).
Depois deste Concílio registou-se uma verdadeira explosão de devoção mariana e foram construídas numerosas igrejas dedicadas à Mãe de Deus. Entre elas sobressai a Basílica de Santa Maria Maior, aqui em Roma. A doutrina relativa a Maria, Mãe de Deus, encontrou além disso nova confirmação no Concílio de Calcedónia (451) no qual Cristo foi declarado «verdadeiro Deus e verdadeiro homem (...) nascido de Maria Virgem e Mãe de Deus, na sua humanidade, para nós e para a nossa salvação» (DS, n.º 301). Como se sabe, o II Concílio do Vaticano reuniu num capítulo da Constituição dogmática sobre a Igreja Lumen Gentium, o oitavo, a doutrina sobre Maria, reafirmando a sua divina maternidade. O capítulo intitula-se: «A Bem-Aventurada Virgem, Mãe de Deus, no mistério de Cristo e da Igreja».
A qualificação de Mãe de Deus, tão profundamente ligada às festividades do Natal, é portanto o apelativo fundamental com o qual a Comunidade dos crentes honra, poderíamos dizer, desde sempre a Virgem Santa. Ela exprime bem a missão de Maria na história da salvação. Todos os outros títulos atribuídos a Nossa Senhora encontram o seu fundamento na sua vocação para ser Mãe do Redentor, a criatura humana eleita por Deus para realizar o plano de salvação, centrado no grande mistério da encarnação do Verbo divino. Nestes dias de festa detemo-nos para contemplar no presépio a representação da Natividade. No centro deste cenário encontramos a Virgem Mãe que oferece o Menino Jesus à contemplação de quantos vão adorar o Salvador: os pastores, o povo pobre de Belém, os Magos que vieram do Oriente. Mais tarde, na festa da «Apresentação do Senhor», que celebraremos a 2 de Fevereiro, serão o velho Simeão e a profetisa Ana que receberão das mãos da Mãe o pequeno Menino e O adorarão. A devoção do povo cristão considerou sempre o nascimento de Jesus e a maternidade divina de Maria como dois aspectos do mesmo mistério da encarnação do Verbo divino e por isso nunca considerou a Natividade como algo do passado. Nós somos «contemporâneos» dos pastores, dos magos, de Simeão e de Ana, ao irmos com eles estamos cheios de alegria, porque Deus quis ser o Deus connosco e tem uma mãe, que é a nossa mãe.
Do título de «Mãe de Deus» derivam depois todos os outros títulos com que a Igreja honra Nossa Senhora, mas este é o fundamental. Pensemos no privilégio da «Imaculada Conceição», isto é, no facto de Ela ser imune ao pecado desde a sua conceição: Maria foi preservada de qualquer mancha de pecado porque devia ser a Mãe do Redentor. O mesmo é válido para o título da «Assunção»: Aquela que tinha gerado o Salvador não podia estar sujeita à corrupção derivante do pecado original. E sabemos que todos estes privilégios não são concedidos para afastar de nós Maria, mas ao contrário, para a tornar mais próxima; de facto, estando totalmente com Deus, esta Mulher está muito próxima de nós e ajuda-nos como mãe e como irmã. Também o lugar único e irrepetível que Maria ocupa na Comunidade dos crentes deriva desta sua vocação fundamental para ser a Mãe do Redentor. Precisamente como tal, Maria é também a Mãe do Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja. Justamente por isso, durante o II Concílio do Vaticano, a 21 de Novembro de 1964, Paulo VI atribuiu solenemente a Maria o título de «Mãe da Igreja».
Precisamente porque é Mãe da Igreja, a Virgem é também Mãe de cada um de nós, que somos membros do Corpo místico de Cristo. Da Cruz Jesus confiou a Mãe a cada um dos seus discípulos e, ao mesmo tempo, confiou cada discípulo ao amor da sua Mãe. O evangelista João conclui a breve e sugestiva narração com as palavras: «E, desde aquela hora, o discípulo recebeu-A em sua casa» (João 19, 27). É assim a tradução italiana do texto grego: "εiς tά íδια", ele recebeu-a na sua própria realidade, no seu próprio ser. Desta forma, faz parte da sua vida e as duas vidas compenetram-se; e este aceitá-la (εiς tά íδια) na própria vida é o testamento do Senhor. Portanto, no momento supremo do cumprimento da missão messiânica, Jesus deixa a cada um dos seus discípulos, como herança preciosa, a sua própria Mãe, a Virgem Maria.
Queridos irmãos e irmãs, nestes primeiros dias do ano, somos convidados a considerar atentamente a importância da presença de Maria na vida da Igreja e na nossa existência pessoal. Confiemo-nos a ela para que guie os nossos passos neste novo período de tempo que o Senhor nos concede viver, e nos ajude a ser autênticos amigos do seu Filho e desta forma também artífices corajosos do seu Reino no mundo, Reino da luz e da verdade. Bom Ano a todos! São estes os votos que desejo dirigir a vós aqui presentes e aos vossos queridos nesta primeira Audiência geral de 2008. Que o novo ano, que iniciou sob o sinal da Virgem Maria, nos faça sentir mais vivamente a sua presença materna, de forma que, amparados e confortados pela protecção da Virgem, possamos contemplar com um renovado olhar o rosto do seu Filho Jesus e caminhar mais rapidamente pelas estradas do bem. Mais uma vez, Bom Ano a todos!

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Papa Bento XVi — Joseph Ratzinger

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.5.13 | Sem comentários

Mês de maio, Mês de Maria


No contexto do Ano da Fé, o papa Bento XVI dedicou as Audiências Gerais das quartas-feiras ao tema da fé. Em tempo de Advento (19 de dezembro de 2012) refletiu sobre Maria como «ícone da fé obediente». 

Queridos irmãos e irmãs!
No caminho do Advento, a Virgem Maria ocupa um lugar especial, como Aquela que de maneira singular esperou a realização das promessas de Deus, acolhendo na fé e na carne Jesus, o Filho de Deus, em plena obediência à vontade divina. Hoje, gostaria de meditar brevemente convosco a propósito da fé de Maria, a partir do grande mistério da Anunciação.
«Chaîre kecharitomene, ho Kyrios meta sou», «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo!» (Lucas 1, 28). São estas as palavras — citadas pelo evangelista Lucas — com as quais o arcanjo Gabriel se dirige a Maria. À primeira vista, o termo «chaîre» («ave»), parece uma saudação normal, usual no âmbito grego, mas estas palavras, se forem lidas no contexto da tradição bíblica, adquirem um significado muito mais profundo. Este mesmo termo aparece quatro vezes na versão grega do Antigo Testamento e sempre como anúncio de alegria pela vinda do Messias (cf. Sofonias 3, 14; Joel 2, 21; Zacarias 9, 9; Lamentações 4, 21). Portanto, a saudação do anjo a Maria constitui um convite à alegria, a um júbilo profundo, anuncia o fim da tristeza que existe no mundo, diante do limite da vida, do sofrimento, da morte, da maldade e da obscuridade do mal que parece ofuscar a luz da bondade divina. Trata-se de uma saudação que marca o início do Evangelho, da Boa Nova.
Mas por que Maria é convidada a alegrar-se deste modo? A resposta encontra-se na segunda parte da saudação: «o Senhor está contigo». Também aqui, para compreender bem o sentido desta expressão, devemos consultar o Antigo Testamento. No Livro de Sofonias, encontramos esta expressão: «Alegra-te, filha de Sião... O rei de Israel, que é o Senhor, está no meio de ti... O Senhor teu Deus está no meio de ti como Salvador poderoso» (3, 14-17). Nestas palavras existe uma promessa dupla feita a Israel, à filha de Sião: Deus virá como Salvador e fará a sua morada precisamente no meio do seu povo, no ventre da filha de Sião. No diálogo entre o anjo e Maria realiza-se exactamente esta promessa: Maria é identificada com o povo desposado por Deus, é verdadeiramente a Filha de Sião em pessoa; é nela que se cumpre a expetativa da vinda definitiva de Deus, é nela que o Deus vivo faz a sua morada.
Na saudação do anjo, Maria é chamada «cheia de graça»; em grego o termo «graça» («charis») tem a mesma raiz linguística da palavra «alegria». Também nesta expressão é ulteriormente esclarecida a nascente do alegrar-se de Maria: o júbilo provém da graça, ou seja, deriva da comunhão com Deus, do facto de manter um vínculo tão vital com Ele, a ponto de ser morada do Espírito Santo, totalmente plasmada pela obra de Deus. Maria é a criatura que de modo singular abriu totalmente a porta ao seu Criador, colocando-se nas suas mãos sem quaisquer limites. Ela vive inteiramente da e na relação com o Senhor; põe-se em atitude de escuta, atenta a captar os sinais de Deus no caminho do seu povo; está inserida numa história de fé e de esperança nas promessas de Deus, que constitui o tecido da sua existência. E submete-se de maneira livre à palavra recebida, à vontade divina na obediência da fé.
O evangelista Lucas narra a vicissitude de Maria através de um paralelismo requintado com a vicissitude de Abraão. Do mesmo modo como o grande Patriarca é o pai dos crentes, que respondeu à chamada de Deus para sair da terra em que vivia, das suas seguranças, para começar a percorrer o caminho rumo a uma terra desconhecida e possuída só na promessa divina, assim Maria entrega-se com plena confiança à palavra que lhe anuncia o mensageiro de Deus, tornando-se modelo e mãe de todos os crentes.
Gostaria de sublinhar mais um aspecto importante: a abertura da alma a Deus e à sua obra na fé inclui também o elemento da obscuridade. A relação do ser humano com Deus não cancela a distância entre Criador e criatura, não elimina aquilo que o apóstolo Paulo afirma perante as profundezas da sabedoria de Deus: «Quão impenetráveis são os seus juízos e inexploráveis os seus caminhos!» (Romanos 11, 33). Mas precisamente aquele que — como Maria — está aberto de modo total a Deus, consegue aceitar a vontade divina, ainda que seja misteriosa, embora muitas vezes não corresponda à propria vontade e seja uma espada que trespassa a alma, como profeticamente o velho Simeão dirá a Maria no momento em que Jesus é apresentado no Templo (cf. Lucas 2, 35). O caminho de fé de Abraão abrange o momento de alegria pelo dom do filho Isaac, mas inclusive o momento da obscuridade, quando deve subir ao monte Moriá para cumprir um gesto paradoxal: Deus pede-lhe que sacrifique o filho que lhe tinha acabado de doar. No monte, o anjo ordena-lhe: «Não estendas a tua mão sobre o menino, e não lhe faças nada; agora sei que temes a Deus, e não me negaste o teu filho, o teu único filho» (Génesis 22, 12); a confiança plena de Abraão no Deus fiel às promessas não esmorece nem sequer quando a sua palavra é misteriosa e difícil, quase impossível, de aceitar. É assim que acontece para Maria, pois a sua fé vive a alegria da Anunciação, mas passa inclusive através da obscuridade da crucifixão do seu Filho, para poder chegar até à luz da Ressurreição.
Não é diferente inclusive para o caminho de fé de cada um de nós: encontramos momentos de luz, mas vivemos também outros nos quais Deus parece ausente; o seu silêncio pesa no nosso coração e a sua vontade não corresponde à nossa, àquilo que nós gostaríamos. Mas quanto mais nos abrirmos a Deus, acolhermos o dom da fé, depositarmos totalmente nele a nossa confiança — como Abraão e como Maria — tanto mais Ele nos torna capazes, mediante a sua presença de viver cada situação da vida na paz e na certeza da sua fidelidade e do seu amor. No entanto, isto significa sair de nós mesmos e dos nossos projetos, a fim de que a Palavra de Deus seja a lâmpada orientadora dos nossos pensamentos e das nossas acções.
Gostaria de refletir ainda sobre um aspecto que sobressai das narrações sobre a Infância de Jesus, escritas por são Lucas. Maria e José levam o Filho a Jerusalém, ao Templo, para o apresentar e consagrar ao Senhor, como prescreve a lei de Moisés: «Todo o primogénito varão será consagrado ao Senhor» (cf. Lucas 2, 22-24). Este gesto da Sagrada Família adquire um sentido ainda mais profundo, se o interpretarmos à luz da ciência evangélica de Jesus com doze anos que, depois de três dias de procura, é encontrado no Templo a dialogar com os doutores. Às palavras cheias de preocupação de Maria e José: «Filho, porque nos fizeste isto? Olha que teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura», corresponde a resposta misteriosa de Jesus: «Por que me procuráveis? Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai?» (Lucas 2, 48-49). Ou seja, na propriedade do Pai, na casa do Pai, como o é um filho. Maria deve renovar a fé profunda com que disse «sim» na Anunciação; deve aceitar que a precedência seja do verdadeiro Pai de Jesus; deve saber deixar livre aquele Filho que gerou, a fim de que siga a sua missão. E o «sim» de Maria à vontade de Deus, na obediência da fé, repete-se ao longo de toda a sua vida, até ao momento mais difícil da Cruz.
Diante de tudo isto, podemos interrogar-nos: como foi que Maria conseguiu viver este caminho ao lado do Filho, com uma fé tão sólida, também nas obscuridades, sem perder a confiança completa na obra de Deus? Existe uma atitude de fundo que Maria assume perante aquilo que se verifica na sua vida. Na Anunciação, Ela sente-se perturbada ao ouvir as palavras do anjo — trata-se do temor que o homem sente quando é tocado pela proximidade de Deus — mas não é a atitude de quantos têm medo diante daquilo que Deus pode pedir. Maria medita, interroga-se a respeito do significado de tal saudação (cf. Lucas 1, 29). O termo grego utilizado no Evangelho para definir este «meditar» («dielogizeto») evoca a raiz da palavra «diálogo». Isto significa que Maria entra em diálogo íntimo com a Palavra de Deus que lhe foi anunciada, não a considera superficialmente, mas detém-se, deixa-a penetrar na sua mente e no seu coração para compreender aquilo que o Senhor deseja dela, o sentido do anúncio. Outra referência à atitude interior de Maria diante da obra de Deus encontramo-la, ainda no Evangelho de são Lucas, no momento da Natividade de Jesus, depois da adoração dos pastores. Afirma-se que Maria «conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração» (Lucas 2, 19); em grego, o termo é «symballon»; poderíamos dizer que Ela «mantinha unidos», «reunia» no seu coração todos os eventos que lhe estavam a acontecer; colocava cada um dos elementos, cada palavra, cada acontecimento no interior do tudo confrontando-o, conservando-o e reconhecendo que tudo deriva da vontade de Deus. Maria não se limita a uma primeira compreensão superficial daquilo que acontece na sua vida, mas sabe olhar em profundidade, deixa-se interpelar pelos eventos, elabora-os, discerne-os e alcança aquele entendimento que só a fé pode garantir. É a humildade profunda da fé obediente de Maria, que acolhe em si mesma também aquilo que não compreende no agir de Deus, deixando que seja Deus quem abre a sua mente e o seu coração. «Feliz daquela que acreditou que teria cumprimento as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor» (Lucas 1, 45), exclama a sua prima Isabel. É precisamente pela sua fé, que todas as gerações lhe chamarão ditosa.
Caros amigos, a solenidade do Natal do Senhor, que daqui a pouco celebraremos, convida-nos a viver esta mesma humildade e obediência de fé. A glória de Deus não se manifesta no triunfo e no poder de um rei, não resplandece numa cidade famosa, num palácio luxuoso, mas faz a sua morada no ventre de uma virgem, revela-se na pobreza de um menino. A omnipotência de Deus, também na nossa vida, age com a força, muitas vezes silenciosa, da verdade e do amor. Então, a fé diz-nos que no final o poder indefeso daquele Menino vence o ruído das potências do mundo.

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Papa Bento XVI















Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.5.13 | Sem comentários
— última Audiência Geral do Papa Bento XVI — 27 de fevereiro de 2013 —

Venerados irmãos no Episcopado! 
Distintas autoridades! 
Queridos irmãos e irmãs! 

Agradeço-vos por terdes vindo em tão grande número a esta última Audiência Geral do meu pontificado. 
Como o apóstolo Paulo, no texto bíblico que escutamos, também eu sinto no meu coração, sobretudo, o dever de agradecer a Deus, que guia e faz crescer a Igreja, que semeia a sua Palavra e assim alimenta a fé do seu Povo. 
Neste momento, o meu espírito expande-se para abraçar toda a Igreja espalhada pelo mundo; e dou graças a Deus pelas «notícias» que nestes anos do ministério petrino pude receber sobre a fé no Senhor Jesus Cristo e da caridade que está no Corpo da Igreja e faz viver no amor e da esperança que nos abre e nos orienta para a vida em plenitude, até à pátria do Céu. 
Sei que vos levo a todos na oração, num presente que é de Deus, onde recolho todos os encontros, todas as viagens, todas as visitas pastorais. Tudo e todos são recolhidos na oração para confiá-los ao Senhor porque temos pleno conhecimento da sua vontade, com toda a sabedoria e inteligência espiritual, e porque podemos comportar-nos de maneira digna d’Ele, do seu amor, dando fruto em todas as boas obras (cf. Colossenses 1, 9-10). 
Neste momento, há em mim uma grande confiança, porque sei, sabemos todos nós, que a Palavra de verdade do Evangelho é a força da Igreja, é a sua vida. O Evangelho purifica e renova, dá fruto, onde quer que esteja a comunidade dos crentes que escuta e acolhe a graça de Deus na verdade e vive na caridade. Esta é a minha confiança, esta é a minha alegria. 
Quando a 19 de abril de há quase oito anos aceitei assumir o ministério petrino, tive firme esta certeza que sempre me acompanhou. Naquele momento, como já disse várias vezes, as palavras que ressoaram no meu coração foram: «Senhor, o que me pedes?». É um peso grande o que me põe aos ombros, mas se Tu mo pedes, à tua palavra lançarei as redes, seguro de que Tu me guiarás. 
E, realmente, o Senhor guiou-me, esteve a meu lado, pude perceber diariamente a sua presença. Foi um pedaço de caminho da Igreja que teve momentos de alegria e de luz, mas também momentos não fáceis; senti-me como São Pedro com os Apóstolos na barca no lago da Galileia: o Senhor deu-nos muitos dias de sol e de ligeira brisa, dias onde a pesca foi abundante; e houve também momentos em que as águas estavam agitadas e o vento era contrário, como em toda a história da Igreja, e o Senhor parecia dormir. 
Mas sempre soube que naquela barca está o Senhor e sempre soube que a barca da Igreja não é minha, não é nossa, mas é sua e não a deixa afundar; é Ele quem a conduz certamente também através de homens que elegeu, porque assim o quis. Esta foi e é uma certeza que ninguém pode ofuscar. E é por isso que hoje o meu coração está cheio de gratidão a Deus porque nunca deixou que falte à Igreja e a também a mim o seu consolo, luz e amor. 
Estamos no Ano da Fé, que escolhi para reforçar a nossa fé em Deus num contexto que parece pô-lo sempre mais em segundo plano. Desejei convidar-vos a todos para renovar a firme confiança no Senhor, confiar-nos como crianças nos braços de Deus, certos de que esses braços nos amparam sempre e são eles que permitem caminhar cada dia também na fadiga. Desejei que cada um se sentisse amado por aquele Deus que nos deu o seu Filho e que nos mostrou o seu amor sem limites. 
Desejei que cada um sentisse a alegria de ser cristão. Numa bela oração que se reza diariamente pela manhã, diz-se: «Adoro-te meu Deus e amo-te com todo o coração. Agradeço-te por me teres criado, feito cristão...». Sim, estamos contentes pelo dom da fé, é o bem mais precioso, que ninguém nos pode tirar! Agradecemos ao Senhor por isso em cada dia, com a oração e com uma vida cristã coerente. Deus ama-nos, mas espera que também nós o amemos! 
Mas não é só a Deus que quero agradecer este momento. Um Papa não está só na condução da Barca de Pedro, ainda que seja o seu primeiro responsável, e eu nunca me senti só em levar a alegria e o peso do ministério petrino; o Senhor deu-me tantas pessoas que, com generosidade e amor a Deus e à Igreja, me ajudaram e estiveram próximas de mim. 
Em primeiro lugar a vós, queridos irmãos cardeais: a vossa sabedoria, os vossos conselhos, a vossa amizade foram para mim preciosos; aos meus colaboradores; começando pelo meu Secretário de Estado que me acompanhou com fidelidade nestes anos; à Secretaria de Estado e a toda a Cúria Romana, assim como a todos aqueles que, nos diversos sectores, prestam o seu serviço à Santa Sé: são muitos rostos que não aparecem que ficam na sombra, mas no silêncio, na dedicação diária, com espírito de fé e humildade foram para mim um apoio seguro e confiável. Uma recordação especial para a Igreja de Roma, a minha diocese! 
Não posso esquecer os irmãos no Episcopado e no presbiterado, as pessoas consagradas e todo o Povo de Deus: nas visitas pastorais, nos encontros, nas audiências, nas viagens, senti sempre uma grande atenção e profundo afeto; mas também amei a todos e a cada um, sem distinção, com aquela caridade pastoral que dá o coração do Pastor, sobretudo de Bispo de Roma, de Sucessor do Apóstolo Pedro. Em cada dia tive cada um de nós na minha oração, com um coração de pai.
Desejo que a minha saudação e o meu agradecimento chegue a todos: o coração de um Papa estende-se ao mundo inteiro. E desejo expressar a minha gratidão ao Corpo diplomático presente na Santa Sé, que torna presente a grande família das nações. Aqui também penso em todos aqueles que trabalham para uma boa comunicação e agradeço o seu importante serviço. 
Neste ponto, desejo agradecer de coração também a todas as numerosas pessoas em todo o mundo que nas últimas semanas me enviaram sinais comovedores de atenção e de amizade na oração. Sim, o Papa nunca está sozinho, e agora experimento-o novamente de um modo tão grande que toca o coração. O Papa pertence a todos e a muitíssimas pessoas que se sentem próximas dele. 
É certo que recebo cartas dos grandes do mundo: dos Chefes de estado, dos chefes religiosos, dos representantes do mundo da cultura, etc. Mas recebo também muitíssimas cartas de pessoas simples que me escrevem simplesmente de coração e me fazem sentir o seu afeto, que nasce do estar juntos com Jesus Cristo, na Igreja. Estas pessoas não me escrevem como se escreve a um príncipe ou a alguém importante que não se conhece. Escrevem-me como irmãos e irmãs ou como filhos e filhas, com o sentido de uma relação familiar muito afetuosa. 
Aqui se pode tocar com a mão o que é a Igreja: não é uma organização nem uma associação de fins religiosos e humanitários; mas um corpo vivo, uma comunhão de irmãos e irmãs no Corpo de Jesus Cristo, que nos une a todos. Experimentar a Igreja deste modo e poder quase tocar com as mãos a força da sua verdade e do seu amor é motivo de alegria, num tempo em que tantos falam do seu declínio. 
Nestes últimos meses, senti que as minhas forças diminuíram e pedi a Deus com insistência na oração que me iluminasse com a sua luz para me ajudar a tomar a decisão mais junta não para meu bem, mas para o bem da Igreja. Dei este passo com a plena consciência da sua gravidade e também da sua novidade, mas com uma profunda serenidade de espírito. Amar a Igreja significa também ter a coragem de tomar decisões difíceis, sofredoras, tendo sempre primeiro o bem da Igreja e não o bem pessoal. 
Aqui permiti-me voltar uma vez mais ao 19 de abril de 2005. A gravidade da decisão está no facto que desde aquele momento estive sempre e para sempre ocupado no Senhor. Quem assume o ministério petrino nunca mais tem privacidade. Pertence sempre e totalmente a todos, a toda a Igreja. 
À sua vida retira-se, por assim dizer, a dimensão privada. Pude experimentar e experimentei, precisamente agora, que se recebe a vida quando se a dá. E disse que muitas pessoas que amam o Senhor amam também o Sucessor de São Pedro e lhe têm afeto; que o Papa tem verdadeiramente irmãos e irmãs, filhos e filhas em todo o mundo, e que se sente seguro no abraço da sua comunhão; porque não se pertence mais a si mesmo, pertence a todos e todos lhe pertencem. 
O «sempre» é também um «para sempre»: não se pode voltar mais ao privado. A minha decisão de renunciar ao exercício ativo do ministério não revoga isso. Não volto à minha vida privada, a uma vida de viagens, encontros, acolhimentos, conferências, etc. Não abandono a cruz, mas fico de um modo novo diante do Senhor crucificado. 
Já não levo o poder do ofício para o governo da Igreja, mas no serviço da oração fico, por assim dizer, no recinto de São Pedro. São Bento, cujo nome tenho como Papa, é um grande exemplo disso. Ele mostrou-me o caminho para uma vida que, ativa ou passiva, pertence totalmente à obra de Deus. 
Agradeço a todos e a cada um também pelo respeito e pela compreensão com que acolhestes esta decisão tão importante. Continuarei a acompanhar o caminho da Igreja com a oração e a reflexão, com aquela dedicação ao Senhor e à sua Esposa que procurei viver até agora diariamente e que quero viver sempre. 
Peço-vos que me recordeis diante de Deus, e sobretudo que rezeis pelos cardeais chamados a uma tarefa tão relevante; e pelo novo Sucessor do Apóstolo Pedro: que o Senhor o acompanhe com a luz e a força do seu Espírito. 
Invoquemos a intercessão maternal da Virgem Maria, Mãe de Deus e da Igreja, para que nos acompanhe a cada um de nós e a toda a comunidade eclesial; a ela nos entregamos com profunda confiança. 
Queridos amigos! Deus guia a sua Igreja, levanta-a sempre também e sobretudo nos momentos difíceis. Não percamos nunca esta visão de fé, que é a única e verdadeira visão do caminho da Igreja e do mundo. Que no nosso coração, no coração de cada um de nós, esteja sempre a alegre certeza de que o Senhor está ao nosso lado, não nos abandona, está próximo e envolve-nos com o seu amor. Obrigado! 


© Tradução (não oficial) de Laboratório da fé, 2013





Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.2.13 | Sem comentários
— Jesús Bastante — www.religiondigital.com —

«Obrigado a todos os que me acompanharam. 

Nunca me senti só» 


«Um Papa não está só no barco de Pedro e por isso quero agradecer a todos os que me acompanharam. Nunca me senti só». Bento XVI, visivelmente emocionado, acaba de se despedir dos fiéis, que massivamente encheram a praça de São Pedro para presenciar a última despedida. Uma despedida que não é uma fuga, pois como ele mesmo disse: «Não abandono a cruz». Mas «amar a Igreja significa também tomar decisões difíceis», como a da sua renúncia histórica. A primeira que pudemos viver em direto. 
«Quem conduz a barca é o Senhor», recordou o pontífice. Antes de começar a Audiência, Bento XVI deu um passeio no Papamóvel. A manhã era fria, embora solarenga, na praça de São Pedro. Dezenas de milhares de fiéis, preparados com câmaras e bandeiras de diversos países, aproximaram-se para se despedirem do Papa. 
Antes de descer do carro, Bento XVI abençoou várias crianças que lhe foram apresentadas pelo seu secretário pessoal, Georg Gaenswein. No altar improvisado, estavam quase todos os cardeais, que, a partir de amanhã às oito da tarde, serão os responsáveis pelo governo da Sede Vacante até à eleição do novo pontífice. Um deles, seguramente, será o 266.º sucessor de Pedro. 
Bento XVI, visivelmente emocionado, tinha vestido um casaco branco, e com cabeção, como sacerdote que continuará a ser. A primeira leitura foi do apóstolo Paulo aos Colossenses, lida pelos funcionários da Secretaria de Estado em diferentes idiomas. «Deus é generoso», assim concluiu a Carta. 
As suas palavras não foram desperdiçadas. «O Senhor deu-nos muitos dias de sol e de brisa ligeira, dias em que a pesca foi abundante, mas também momentos em que as águas estiveram muito agitadas e o vento contrário, como em toda a história da Igreja e o Senhor parecia dormir», afirmou o Papa, que disse sentir-se como São Pedro com os apóstolos na barca no lago da Galileia e que sempre soube que nessa barca está o Senhor. «Mas sempre soube que a barca da Igreja não é minha, não é nossa, mas sua e não a deixa afundar. É Ele quem a conduz, claro que através dos homens que escolheu. Esta é uma certeza que ninguém pode ofuscar e é por isso que o meu coração está cheio de agradecimento a Deus, porque não me faltou nem a toda a Igreja com o seu consolo, luz e amor», acrescentou. 
Bento XVI agradeceu o trabalho dos membros da Cúria, especialmente do seu Secretário de Estado, Tarcisio Bertone. «O Papa pertence a todos e quero agradecer aos que nestes dias me mandaram mensagens». E realçou que «Deus guia a sua Igreja, sobretudo nos caminhos difíceis». Apesar da sua renúncia, destacou: «não volto à vida privada. Não abandono a cruz». 
«Dei este passo consciente da sua gravidade e novidade. Amar a Igreja significa também tomar decisões difíceis», realçou o Pontífice, que, olhando para os milhares de fiéis congregados em São Pedro, sublinhou que «hoje vemos como a Igreja está viva, num momento em que muitos falam do seu declínio». 
Além disso, Bento XVI assegurou que renunciou ao papado «em plena liberdade», ao perceber que as suas forças diminuíram e não para seu bem particular, «mas para o bem da Igreja». «A barca da Igreja é sua [Jesus Cristo], é Ele quem a conduz, rodeado pelos homens que elege». «Ele conduz-nos e ama-nos», concluiu o pontífice, pedindo aos fiéis que rezem pelos cardeais, que têm a «difícil tarefa» de eleger o seu sucessor.

© Jesús Bastante — www.religiondigital.com
© Tradução de Laboratório da fé, 2013

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Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.2.13 | Sem comentários
— 27 de fevereiro de 2013 —

Queridos irmãos e irmãs,
No dia dezanove de Abril de dois mil e cinco, quando abracei o ministério petrino, disse ao Senhor: «É um peso grande que colocais aos meus ombros! Mas, se mo pedis, confiado na vossa palavra, lançarei as redes, seguro de que me guiareis». E, nestes quase oito anos, sempre senti que, na barca, está o Senhor; e sempre soube que a barca da Igreja não é minha, não é nossa, mas do Senhor. Entretanto não é só a Deus que quero agradecer neste momento. Um Papa não está sozinho na condução da barca de Pedro, embora lhe caiba a primeira responsabilidade; e o Senhor colocou ao meu lado muitas pessoas que me ajudaram e sustentaram. Porém, sentindo que as minhas forças tinham diminuído, pedi a Deus com insistência que me iluminasse com a sua luz para tomar a decisão mais justa, não para o meu bem, mas para o bem da Igreja. Dei este passo com plena consciência da sua gravidade e inovação, mas com uma profunda serenidade de espírito. > > >

— Tradução integral do texto > > >



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.2.13 | Sem comentários
— Rumores de Ángeles — blog de José Manuel Vidal —

«Não abandono a Igreja... subo ao monte para rezar». Com estas palavras, no domingo [24 de fevereiro], após as 12 horas, Bento XVI, depois de rezar o «Angelus», despedia-se da multidão congregada na praça de São Pedro. E deixava a janela vazia. Já não voltará a aproximar-se dela. A janela do Papa permanecerá fechada até que volte a ser aberta pelo seu sucessor
[Hoje] Bento XVI voltará pela última vez à praça de São Pedro, para celebrar a sua última «Audiência Geral das quartas-feiras» e partilhar a sua última bênção. Mas a partir da escadaria de acesso à Basílica. Não a partir da janela, que deixa de ser protagonista da vida da Igreja e marco da exposição mediática papal, para se converter num testemunho mudo da mudança de Papa e, talvez, de ciclo na Igreja Católica. 
Um encerramento temporal. Desta vez, e pela primeira vez em muitos séculos, não por falecimento, mas pela renúncia do seu inquilino. Um encerramento não obrigatório, mas querido e desejado. Um encerramento contracorrente. Um encerramento, para abrir, de novo, as janelas de toda a Igreja. Para escutar o clamor do mundo e os gritos dos deserdados. Para colocar o relógio da instituição acertado pela hora do mundo. 
Disse Federico Lombardi, porta-voz da Santa Sé, que a do palácio apostólico é «a janela mais querida e amada do mundo». E, certamente, a mais seguida do universo. Uma janela convertida no mais globalizado meio de comunicação. Um meio de comunicação artesanal, mas tremendamente eficaz. A janela do Papa. 
Sem dúvida, a janela mais vitoriada, aplaudida e aclamada do mundo. Quando um fiel ou um turista chega, pela primeira vez, à praça de São Pedro, enquanto fica boquiaberto pela sua beleza e pela sensação de poder que transmite, a primeira pergunta é: «Qual é a janela do Papa? Onde está?». 
E o guia ou o acompanhante aponta para a segunda da esquerda no último piso do palácio pontifício. A primeira é dos aposentos do Papa e está sempre fechada. A segunda é a do seu escritório e, a partir dela, dirige-se à praça e às televisões do mundo para pregar, rezar e abençoar quase todos os domingos do ano. 
Bento XVI estreou-a como Papa no dia um de maio de 2005: «Dirijo-me a vós pela primeira vez desta janela, que a amada figura do meu Predecessor tornou familiar a numerosas pessoas no mundo inteiro». 
[No dia] 24 de fevereiro de 2013, quase oito anos depois, despedia-se com o seu último «Angelus» dominical: «O Senhor chama-me a ‘subir ao monte’, para me dedicar ainda mais à oração e à meditação. Mas isto não significa abandonar a Igreja; pelo contrário, se Deus me pede isto, é precisamente para que eu possa continuar a servi-la com a mesma entrega e o mesmo amor com que o tentei fazer até agora, mas de uma maneira mais adequada à minha idade e às minhas forças». 
Voltou-se e deixou a janela, encurvado, ancião, serene e digno. E a janela fechou-se por trás dele. Só se abrirá para o novo Papa. Uma janela sempre protagonista. 

João Paulo II e João XXIII 

Dela aproximava-se, já quase em silêncio e sem poder articular uma palavra, João Paulo II. E rompia-se o nosso coração, ao vê-lo agonizar em direto perante o olho implacável das câmaras.
Dessa mesma janela aproximou-se, há 50 anos, João XXIII, o Papa Bom, que acabava de inaugurar o Concílio, para escutar os milhares de fiéis que se tinham reunido espontaneamente na Praça de São Pedro. À luz das velas e da lua. Rezavam e pediam pelo êxito do Concílio. E o bom Papa João chegou à janela e improvisou o seu já lendário discurso da lua. E terminou-o pedindo aos presentes que, quando chegassem a casa, dessem um beijo aos seus filhos em nome do Papa.
Um pedido, um gesto, um discurso que atravessou o tempo. Como muitas outras coisas do Papa João. Nada foi em vão, Roncalli foi uma bênção para o mundo e para a Igreja. A sua bondade impregnou o próprio Vaticano. E a sua memória continua viva. Não pode morrer, porque o Papa João transformou-se num mito. 
Naquela noite de 1962, ali em baixo, entre o povo, com uma vela na mão, estava o jovem Joseph Ratzinger, perito conciliar da minoria progressista. 50 anos depois, nessa mesma noite, o povo voltou a encher a praça de São Pedro com velas. Para recordar a «primavera» do Papa Bom. Para pedir um novo sopro de ar fresco na Igreja. 
E, na janela, estava o outrora jovem teólogo, convertido em Bento XVI. E a partir da janela também improvisou um belo discurso. Um discurso, contudo, distinto na tonalidade. Um discurso um pouco mais pessimista. O Papa Ratzinger falou de cinza e de «peixes maus» na rede da Igreja.
Isso sim, terminou com as mesmas palavras de João XXIII: «Quando regressardes a casa, dai aos vossos filhos um beijo da parte do Papa». Dois Papas diferentes, um mesmo gesto e uma mesma esperança que lateja a partir daquela janela. A janela de Deus... temporariamente fechada.

© José Manuel Vidal — www.religiondigital.com
© Tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.2.13 | Sem comentários
— discurso do Papa ao clero de Roma — 14 de fevereiro de 2013 —

Eminência,
Amados Irmãos no Episcopado e no Presbiterado!

Considero um dom particular da Providência que, antes de deixar o ministério petrino, tenha ainda podido ver o meu clero, o clero de Roma. É sempre uma grande alegria ver como a Igreja vive, como, em Roma, a Igreja está viva; há pastores que, no espírito do Pastor Supremo, guiam o rebanho do Senhor. Realmente é um clero católico, universal, e isto corresponde à essência da Igreja de Roma: ter nela a universalidade, a catolicidade de todos os povos, de todas as raças, de todas as culturas. Ao mesmo tempo, sinto-me muito grato ao Cardeal Vigário, que ajuda a despertar, a encontrar as vocações também em Roma, porque se Roma deve ser, por um lado, a cidade da universalidade, por outro, há-de ser uma cidade com a sua própria fé forte e robusta, da qual nascem também vocações. E estou convencido de que, com a ajuda do Senhor, podemos encontrar as vocações que Ele próprio nos dá, guiá-las, ajudá-las a amadurecer, e assim servir para o trabalho na vinha do Senhor.
Hoje professastes o Credo diante do túmulo de São Pedro: no Ano da Fé, parece-me muito oportuno, talvez mesmo necessário, este acto do clero de Roma se reunir no túmulo do Apóstolo a quem o Senhor disse: «A ti confio a minha Igreja. Sobre ti edifico a minha Igreja» (cf. Mt 16, 18-19). Diante do Senhor, juntamente com Pedro, confessastes: «Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo» (cf. Mt 16, 15-16). É assim que a Igreja cresce: juntamente com Pedro, confessando Cristo, seguindo Cristo. E façamo-lo sempre. Eu estou muito agradecido pela vossa oração, que pude sentir – como disse quarta-feira – quase fisicamente. Embora agora me retire, na oração continuo sempre unido a todos vós e tenho a certeza de que também vós estareis unidos a mim, apesar de permanecer oculto para o mundo.
Devido às condições da minha idade, não pude preparar, para hoje, um grande e verdadeiro discurso, como alguém poderia esperar; eu pensava mais numa breve conversa sobre o Concílio Vaticano II, tal como eu o vi. Começo por uma curiosidade: em 1959, tinha sido nomeado professor da Universidade de Bonn, onde fazem seus estudos os alunos, os seminaristas da diocese de Colónia e de outras dioceses vizinhas. Foi assim que entrei em contacto com o Cardeal de Colónia: o Cardeal Frings. O Cardeal Siri, de Génova, – no ano 1961, acho eu – organizou uma série de conferências sobre o Concílio feitas por vários Cardeais europeus, e convidara também o Arcebispo de Colónia para realizar uma das conferências que tinha por título: O Concílio e o mundo do pensamento moderno.
O Cardeal convidou-me – o mais novo dos professores – para lhe redigir um projecto; ele gostou do projecto, e propôs ao povo de Génova o texto como eu o escrevera. Pouco tempo depois, o Papa João convida-o para ir ter com ele, e o Cardeal estava cheio de medo por ter talvez dito algo de não correcto, algo de falso, e consequentemente ser chamado para uma admoestação, talvez mesmo para lhe tirar o cardinalato. Na verdade, quando o seu secretário o viu vestido para a audiência, o Cardeal disse: «Talvez use agora pela última vez estas vestes». Depois entrou; o Papa João vem ao seu encontro, abraça-o e diz: «Obrigado, Eminência! O senhor disse as coisas que queria dizer eu, mas não tinha encontrado as palavras». Assim, o Cardeal sabia que estava no caminho certo, e convidou-me para ir com ele ao Concílio, inicialmente como seu perito pessoal; depois, no decurso do primeiro período – em Novembro de 1962, creio eu – fui nomeado também perito oficial do Concílio.
Então partimos para o Concílio não apenas com alegria, mas também com entusiasmo. Havia uma expectativa incrível. Esperávamos que tudo se renovasse, que viesse verdadeiramente um novo Pentecostes, uma nova era da Igreja, pois esta apresentava-se ainda bastante robusta naquele tempo, a prática dominical ainda boa, as vocações ao sacerdócio e à vida religiosa, apesar de já um pouco reduzidas no número, ainda eram suficientes. Contudo, tinha-se a sensação de que a Igreja não caminhava, ia diminuindo, parecia mais uma realidade do passado que a portadora do futuro. E, naquele momento, esperávamos que esta situação se alterasse, mudasse; que a Igreja fosse de novo força do futuro e força do presente. E sabíamos que a relação entre a Igreja e o período moderno tinha sido, desde o princípio, um pouco contrastante, a começar do erro da Igreja no caso de Galileu Galilei; pensava-se em corrigir este início errado e encontrar de novo a união entre a Igreja e as forças melhores do mundo, para abrir o futuro da humanidade, para abrir o verdadeiro progresso. Por isso, estávamos cheios de esperança, de entusiasmo e também de vontade de contribuir com a nossa parte para isso. Lembro-me que o Sínodo Romano era considerado um modelo negativo. Disse-se – não sei se era verdade – que tivessem lido os textos preparados na Basílica de São João e que os membros do Sínodo tivessem aclamado, aprovado aplaudindo, e assim se teria realizado o Sínodo. Os Bispos disseram: Não, não façamos assim! Somos Bispos, nós mesmos somos o sujeito do Sínodo; não queremos apenas aprovar aquilo que foi feito, mas queremos ser nós o sujeito, os condutores do Concílio. O próprio Cardeal Frings, que era conhecido pela sua fidelidade absoluta, quase escrupulosa, ao Santo Padre, neste caso disse: Encontramo-nos aqui com outra função. O Papa convocou-nos como Padres, para sermos Concílio ecuménico, um sujeito que renove a Igreja. Assim queremos assumir esta nossa função.
O primeiro momento, em que se manifestou esta atitude, foi logo no primeiro dia. Estavam previstas, para este primeiro dia, as eleições das Comissões e tinham sido preparadas, de modo – procurou-se – imparcial, as listas, os nomes; seriam estas listas que se deviam votar. Mas os Padres disseram imediatamente: Não! Não queremos simplesmente votar listas já feitas. Somos nós o sujeito. Então teve-se de adiar as eleições, porque os próprios Padres queriam conhecer-se um pouco, queriam eles próprios preparar listas. E assim se fez. O Cardeal Liénart de Lille e o Cardeal Frings de Colónia disseram publicamente: Assim não pode ser. Queremos fazer as nossas listas e eleger os nossos candidatos. Não era um acto revolucionário, mas um acto de consciência, de responsabilidade por parte dos Padres conciliares.
Começava assim uma intensa actividade para se conhecerem, horizontalmente, uns aos outros; e isso não foi deixado ao acaso. No «Colégio dell’Anima», onde eu morava, tivemos muitas visitas: sendo o Cardeal muito conhecido, vimos lá Cardeais de todo o mundo. Recordo-me bem da figura alta e magra de Mons. Etchegaray, que era Secretário da Conferência Episcopal Francesa, dos encontros com Cardeais, etc. E isto havia de ser típico durante todo o Concílio: pequenos encontros transversais. Foi assim que conheci grandes figuras como Padre de Lubac, Daniélou, Congar, etc. Conhecemos vários Bispos; recordo-me particularmente do Bispo Elchinger de Estrasburgo, etc. E esta era já uma experiência da universalidade da Igreja e da realidade concreta da Igreja, que não recebe simplesmente imperativos de cima, mas conjuntamente cresce e caminha, sempre sob a guia – naturalmente – do Sucessor de Pedro.
Como disse, todos vinham com grandes expectativas; nunca se realizara um Concílio com estas dimensões, mas nem todos sabiam como fazer. Os mais preparados – digamos, aqueles com intenções mais definidas – eram o episcopado francês, alemão, belga, holandês, a chamada «aliança do Reno». E, na primeira parte do Concílio, eram eles que indicavam a estrada; depois, rapidamente se alargou a actividade e todos progressivamente participaram na criatividade do Concílio. Os franceses e os alemães tinham vários interesses em comum, embora com matizes bastante diferentes. O intento primeiro, inicial, simples – simples, aparentemente – era a reforma da liturgia, iniciada já com Pio XII, que tinha reformado a Semana Santa; o segundo, a eclesiologia; o terceiro, a Palavra de Deus, a Revelação; e, finalmente, também o ecumenismo. Os franceses, muito mais do que os alemães, tinham ainda como problema para tratar a situação das relações entre a Igreja e o mundo.
Começamos pelo primeiro. Depois da Primeira Guerra Mundial, crescera, precisamente na Europa central e ocidental, o movimento litúrgico, uma redescoberta da riqueza e profundidade da liturgia, que até então estava quase fechada no Missal Romano do sacerdote, enquanto o povo rezava pelos seus livros de oração, feitos de acordo com o coração da gente, de modo que se procurava traduzir os conteúdos altos, a linguagem elevada da liturgia clássica em palavras mais sentimentais, mais próximas do coração das pessoas. Tratava-se, porém, quase de duas liturgias paralelas: o sacerdote com os ajudantes, que celebrava a Missa segundo o Missal, e os leigos que rezavam, durante a Missa, com os seus livros de oração, sabendo substancialmente o que se realizava no altar. Mas agora fora redescoberta precisamente a beleza, a profundidade, a riqueza histórica, humana, espiritual do Missal e a necessidade que não houvesse só um representante do povo, um pequeno ajudante, a dizer: «Et cum spiritu tuo», etc, mas que fosse realmente um diálogo entre o sacerdote e o povo, que realmente a liturgia do altar e a liturgia do povo fosse uma única liturgia, uma participação activa, que as riquezas chegassem ao povo; e assim foi redescoberta, renovada a liturgia.
Agora olhando retrospectivamente, eu acho que foi muito bom ter começado pela liturgia, aparecendo assim o primado de Deus, o primado da adoração. Deste modo a frase «operi Dei nihil praeponatur» da Regra de São Bento (cf. 43, 3) aparece como a regra suprema do Concílio. Alguém criticara o Concílio por ter falado sobre muitas coisas, mas não sobre Deus. Ora ele falou sobre Deus! E o seu primeiro e substancial acto foi falar sobre Deus e abrir todas as pessoas, todo o povo santo, à adoração de Deus, na celebração comunitária da liturgia do Corpo e Sangue de Cristo. Neste sentido, para além de factores práticos que desaconselhavam começar imediatamente com temas controversos, é realmente – podemos dizer – um acto providencial que, nos inícios do Concílio, esteja a liturgia, esteja Deus, esteja a adoração. Agora não quero entrar nos detalhes da discussão, mas vale a pena voltar sempre, mais além das aplicações práticas, ao próprio Concílio, à sua profundidade e às suas ideias essenciais.
Eu diria que havia diversas: sobretudo o Mistério Pascal como centro do ser cristão e, consequentemente, da vida cristã, do ano, do tempo cristão, expresso no tempo pascal e no domingo que é sempre o dia da Ressurreição. Sempre de novo começamos o nosso tempo com a Ressurreição, o encontro com o Ressuscitado, e, do encontro com o Ressuscitado, saímos para o mundo. Neste sentido, é uma pena que hoje o domingo se tenha transformado em fim de semana, quando na verdade é o primeiro dia, é o início. Interiormente devemos ter isto presente: é o início, o início da Criação, é o início da recriação na Igreja, encontro com o Criador e com Cristo Ressuscitado. Também este duplo conteúdo do domingo é importante: é o primeiro dia, isto é, a festa da criação, o nosso fundamento continua a ser a Criação, acreditamos em Deus Criador; e encontro com o Ressuscitado, que renova a Criação; o seu verdadeiro objectivo é criar um mundo que seja resposta ao amor de Deus.
Depois havia princípios: a inteligibilidade, em vez de ficar fechados numa língua desconhecida, não falada, e também a participação activa. Infelizmente, estes princípios foram também mal compreendidos. Inteligibilidade não quer dizer banalidade, porque os grandes textos da liturgia – ainda que proferidos, graças a Deus, na língua materna – não são facilmente inteligíveis, precisam de uma formação permanente do cristão para que ele cresça e entre cada vez mais em profundidade no mistério, e assim possa compreender. E o mesmo se diga da Palavra de Deus: se se pensa na leitura diária do Antigo Testamento, e mesmo na leitura das Cartas Paulinas, dos Evangelhos, quem pode afirmar que a compreende imediatamente só porque a leitura está na sua própria língua? Só uma formação permanente do coração e da mente pode realmente criar inteligibilidade e uma participação que é mais do que uma actividade exterior, que é uma entrada da pessoa, do meu ser na comunhão da Igreja e, deste modo, na comunhão com Cristo.
Segundo tema: a Igreja. Sabemos que o Concílio Vaticano I fora interrompido por causa da guerra franco-alemã e assim passou à história com a sua unilateralidade, ou seja, como um fragmento, já que a doutrina sobre o primado – que foi definida, graças a Deus, naquele momento histórico da Igreja, e se revelou muito necessária nos tempos sucessivos – era apenas um elemento numa eclesiologia prevista e preparada mais vasta. Assim o que ficou foi o fragmento. E podia-se dizer que, se o fragmento permanece assim como é, tendemos para uma unilateralidade: a Igreja seria apenas o primado. Por isso, desde o início, havia esta intenção de completar a eclesiologia do Concílio Vaticano I, em data a encontrar, para que se tivesse uma eclesiologia completa. Também neste tema pareciam óptimas as condições, visto que, depois da Primeira Guerra Mundial, renascera o sentido da Igreja de um modo novo. Disse Romano Guardini: «Nas almas, começa a despertar a Igreja», e um bispo protestante falava do «século da Igreja». Sobretudo voltava-se a encontrar o conceito – que estava previsto também pelo Vaticano I – do Corpo Místico de Cristo. Queria-se afirmar e dar a entender que a Igreja não é tanto uma organização, algo de estrutural, jurídico, institucional – embora também o seja – como sobretudo é um organismo, uma realidade vital, que entra na minha alma, de tal modo que eu próprio, precisamente com a minha alma crente, sou elemento constitutivo da Igreja como tal. Neste sentido, escrevera Pio XII a Encíclica Mystici Corporis Christi, ou seja, como um passo para completar o Concílio Vaticano I.
Eu diria que a discussão teológica dos anos 30 e 40, e mesmo nos anos 20, se desenrolara completamente sob este signo da expressão «Mystici Corporis». Foi uma descoberta que criou tanta alegria naquele tempo, e foi também neste contexto que cresceu a fórmula: Nós somos a Igreja, a Igreja não é uma estrutura; nós, os próprios cristãos juntos, todos nós somos o Corpo vivo da Igreja. Naturalmente isto é válido no sentido que o nós, o verdadeiro «nós» dos crentes, juntamente com o «Eu» de Cristo é a Igreja; cada um de nós, não «um nós», um grupo que se declara Igreja. Isso não! Este «nós somos Igreja» exige precisamente a minha inserção no grande «nós» dos crentes de todos os tempos e lugares. Assim temos a primeira ideia: completar a eclesiologia de modo teológico, mas continuando também de modo estrutural, ou seja, ao lado da sucessão de Pedro, da sua função única, definir melhor também a função dos Bispos, do Corpo Episcopal. E, para fazer isso, encontrou-se a palavra «colegialidade», muito discutida, com discussões acesas, diria mesmo, um pouco exageradas. Mas era a palavra – talvez houvesse ainda outra, mas esta servia – para exprimir que os Bispos, juntos, são a continuação dos Doze, do Corpo dos Apóstolos. Dissemos: só um Bispo, o de Roma, é sucessor de um determinado apóstolo, de Pedro. Todos os outros tornam-se sucessores dos Apóstolos, entrando no Corpo que continua o Corpo dos Apóstolos. Precisamente assim o Corpo dos Bispos, o colégio, é a continuação do Corpo dos Doze, e deste modo se vê a sua necessidade, a sua função, os seus direitos e deveres. A muitos aparecia como uma luta pelo poder, e talvez algum tenha pensado também ao seu poder, mas substancialmente não se tratava de poder, mas da complementaridade dos factores e do completamento do Corpo da Igreja com os Bispos, sucessores dos Apóstolos, como pedra angular; e cada um deles, unido a este grande Corpo, é pedra angular da Igreja.
Estes eram, digamos, os dois elementos fundamentais; entretanto, à procura de uma visão teológica completa da eclesiologia, já depois dos anos 40, nos anos 50, surgira alguma crítica ao conceito de Corpo de Cristo: «místico» seria demasiado espiritual, demasiado exclusivo; entrara então em jogo o conceito de «Povo de Deus». E, justamente, o Concílio aceitou este elemento, que nos Padres aparece considerado como expressão da continuidade entre Antigo e Novo Testamento. Nos livros do Novo Testamento, a expressão «Laos tou Theou», que corresponde a textos do Antigo Testamento, significa – parece-me, apenas com duas excepções – o antigo Povo de Deus, os judeus que são, entre os povos («goim») do mundo, «o» Povo de Deus. E os outros… nós, pagãos, não somos por natureza o Povo de Deus, tornamo-nos filhos de Abraão e, consequentemente, Povo de Deus quando entramos em comunhão com Cristo, o único que é descendente de Abraão. E, entrando em comunhão com Ele, fazendo-se um só com Ele, também nós somos Povo de Deus. Por outras palavras, o conceito «Povo de Deus» implica a continuidade dos Testamentos, a continuidade da história de Deus com o mundo, com os homens, mas implica também o elemento cristológico. Só através da cristologia é que nos tornamos Povo de Deus, e assim se combinam os dois conceitos. E o Concílio decidiu criar uma construção trinitária da eclesiologia: Povo de Deus Pai, Corpo de Cristo, Templo do Espírito Santo.
Mas só depois do Concílio é que foi posto em evidência um elemento que se encontra um pouco escondido no próprio Concílio: a ligação entre Povo de Deus e Corpo de Cristo é precisamente a comunhão com Cristo na união eucarística; aqui tornamo-nos Corpo de Cristo. Podemos dizer que a relação entre Povo de Deus e Corpo de Cristo cria uma nova realidade: a comunhão. Poder-se-ia dizer que, depois do Concílio, foi descoberto como, na realidade, o próprio Concílio levara a encontrar este conceito: a comunhão como conceito central. Eu diria que, no Concílio, filologicamente tal conceito não estava ainda totalmente amadurecido, mas é fruto do Concílio que o conceito de comunidade se tenha tornado progressivamente a expressão da essência da Igreja, comunhão nas diferentes dimensões: comunhão com o Deus Trinitário – sendo Ele próprio comunhão entre Pai, Filho e Espírito Santo –, comunhão sacramental, comunhão concreta no episcopado e na vida da Igreja.
Ainda mais conflituoso era o problema da Revelação. Tratava-se da relação entre Escritura e Tradição, e aqui apareciam sobretudo os exegetas interessados numa maior liberdade; sentiam-se um pouco – digamos – em situação de inferioridade relativamente aos protestantes, que faziam as grandes descobertas, enquanto os católicos se viam um pouco como «deficientes» pela necessidade de se submeter ao Magistério. Por conseguinte, aqui estava em jogo uma luta também muito concreta: Que liberdade têm os exegetas? Como se pode ler bem a Escritura? Que quer dizer Tradição? Era uma batalha pluridimensional que não posso mostrar agora; o importante é que a Escritura é de certeza a Palavra de Deus, e a Igreja está sob a Escritura, obedece à Palavra de Deus, não está acima da Escritura. E, no entanto, a Escritura só é Escritura porque existe a Igreja viva, o seu sujeito vivo; sem o sujeito vivo da Igreja, a Bíblia é apenas um livro que abre, se abre para diferentes interpretações sem dar uma derradeira clareza.
Como disse, aqui a batalha era difícil, tendo sido decisiva uma intervenção do Papa Paulo VI. Esta intervenção mostra toda a delicadeza de um pai, a sua responsabilidade pelo andamento do Concílio, mas também o seu grande respeito pelo mesmo. Tinha nascido a ideia de que a Bíblia é completa, tudo se encontra nela; por conseguinte, não há necessidade da Tradição, e o Magistério não tem nada a dizer. Então o Papa enviou ao Concílio – parece-me – 14 formas de uma frase que devia ser inserida no texto sobre a Revelação e dava-nos, dava aos Padres a liberdade de escolher uma das 14 formas, mas disse: uma deve ser escolhida, para tornar completo o texto. Recordo-me, mais ou menos, da forma «non omnis certitudo de veritatibus fidei potest sumi ex Sacra Scriptura», isto é, a certeza da Igreja sobre a fé não nasce apenas de um livro isolado, mas tem necessidade do sujeito que é a Igreja iluminada, guiada pelo Espírito Santo. Só assim é que a Escritura fala e tem toda a sua autoridade. Esta frase que escolhemos na Comissão Doutrinal, uma das 14 formas, é decisiva – diria – para mostrar a indispensabilidade, a necessidade da Igreja e deste modo compreender o que quer dizer Tradição, o Corpo vivo no qual vive, desde o início, esta Palavra e do qual recebe a sua luz, no qual ela nasceu. O próprio Cânon é um facto eclesial: que estes escritos sejam a Escritura resulta da iluminação da Igreja, que encontrou em si este Cânon da Escritura; encontrou, não criou. E sempre e só nesta comunhão da Igreja viva é que se pode realmente também compreender, ler a Escritura como Palavra de Deus, como Palavra que nos guia na vida e na morte.
Como disse, esta era uma batalha bastante difícil, mas graças ao Papa e graças – digamo-lo – à luz do Espírito Santo, que estava presente no Concílio, criou-se um documento que é um dos mais belos e inovadores de todo o Concílio e que deve ser estudado ainda muito mais. É que também hoje a exegese tende a ler a Escritura fora da Igreja, fora da fé, apenas no chamado espírito do método histórico-crítico – um método importante, mas não até ao ponto de poder dar soluções como última certeza; só se acreditarmos que estas não são palavras humanas, mas palavras de Deus, e só se se vive no sujeito vivo ao qual falou e fala Deus, é que podemos interpretar bem a Sagrada Escritura. E aqui – como disse no prefácio do meu livro sobre Jesus (cf. I volume) – há ainda muito a fazer para se chegar a uma leitura verdadeiramente no espírito do Concílio. Aqui a aplicação do Concílio ainda não é completa, está ainda por fazer.
E, finalmente, o ecumenismo. Não quero entrar agora nestes problemas, contudo era óbvio – sobretudo depois das «paixões» sofridas pelos cristãos no tempo do nazismo – que os cristãos poderiam encontrar a unidade, pelo menos procurar a unidade, mas era claro também que só Deus pode dar a unidade. E estamos ainda a caminho… E, com estes temas, a «aliança do Reno» tinha – por assim dizer – feito o seu trabalho.
O horizonte da segunda parte do Concílio é muito mais vasto. Apresentava-se, com grande urgência, o tema: O mundo de hoje, a época moderna, e a Igreja; e, relacionado com o mesmo, os temas da responsabilidade pela construção deste mundo, da sociedade, a responsabilidade pelo futuro deste mundo e esperança escatológica, a responsabilidade ética do cristão, onde poderá encontrar os seus guias; e, depois, a liberdade religiosa, o progresso e a relação com as outras religiões. Nesta altura, participam realmente na discussão todas as latitudes presentes no Concílio; não só a América, os Estados Unidos…, com um grande interesse pela liberdade religiosa. No terceiro período, estes disseram ao Papa: Não podemos voltar para casa sem levar, na nossa bagagem, uma declaração sobre a liberdade religiosa votada pelo Concílio. Todavia o Papa, com firmeza e decisão, teve a paciência de levar o texto para o quarto período, a fim de encontrar uma maturação e um consenso suficientemente completos entre os Padres do Concílio. Como dizia, jogaram um papel forte no Concílio não só os norte-americanos, mas também a América Latina, bem conhecedora da miséria do povo, de um continente católico, e da responsabilidade da fé pela situação daquela gente. E de igual modo a África, a Ásia, que viram a necessidade do diálogo inter-religioso; despontaram problemas que nós, alemães, – é justo que o diga – no início não tínhamos visto. Não posso agora descrever tudo isto. O grande documento «Gaudium et spes» analisou muito bem os problemas da escatologia cristã e progresso do mundo, da responsabilidade pela sociedade de amanhã e responsabilidade do cristão face à eternidade, tendo assim também renovado a ética cristã, os fundamentos. Mas inesperadamente – digamos – cresceu, ao lado deste grande documento, outro documento que dava resposta, de forma mais sintética e concreta, aos desafios do tempo: a «Nostra aetate». Desde o início, estavam presentes os nossos amigos judeus, que nos disseram a nós, alemães, sobretudo, mas não só a nós, que depois dos tristes acontecimentos deste século nazista, da década nazista, a Igreja Católica deve dizer uma palavra sobre o Antigo Testamento, sobre o povo judeu. Diziam: embora seja claro que a Igreja não é responsável pelo Shoah, todavia uma grande parte daqueles que cometeram tais crimes eram cristãos; devemos aprofundar e renovar a consciência cristã, mesmo sabendo bem que os verdadeiros crentes sempre resistiram contra essas coisas. Tornava-se assim claro que a relação com o mundo do antigo Povo de Deus devia ser objecto de reflexão. É compreensível também que os países árabes – os Bispos dos países árabes – não tivessem ficado felizes com esta possibilidade: temiam em certa medida uma glorificação do Estado de Israel, que naturalmente não queriam. E disseram: Uma indicação verdadeiramente teológica sobre o povo judeu é boa, é necessária, mas, se falardes disso, falai também do Islão; só assim se restabelecerá o equilíbrio; também o Islão é um grande desafio, e a Igreja deve esclarecer igualmente a sua relação com o Islão. Eis uma realidade que então nós quase não compreendemos: um pouco, sim, mas não muito. Hoje sabemos como era necessário!
E quando começámos a trabalhar também sobre o Islão, disseram-nos: Mas há também outras religiões no mundo: na Ásia inteira! Pensai no Budismo, no Hinduísmo.... E assim, em vez de uma Declaração pensada inicialmente apenas sobre o antigo Povo de Deus, criou-se um texto sobre o diálogo inter-religioso, antecipando aquilo que só trinta anos depois é que se manifestou em toda a sua intensidade e importância. Não posso entrar agora neste tema, mas se alguém ler o texto, verá que é muito denso e preparado verdadeiramente por pessoas que conheciam as realidades, e indica brevemente, com poucas palavras, o essencial. Nele se vê também o fundamento para um diálogo, na diferença, na diversidade, na fé sobre a unicidade de Cristo, que é um, não sendo possível, para um crente, pensar que as religiões todas não passem de variações de um tema. Não! Há uma realidade do Deus vivo que falou, e é um Deus, é um Deus encarnado, e portanto uma Palavra de Deus, que é realmente Palavra de Deus. Mas há também a experiência religiosa, com uma certa luz humana da criação, e por conseguinte é necessário e possível entrar em diálogo e, assim, abrir-se um ao outro e abrirem-se todos à paz de Deus, de todos os seus filhos, de toda a sua família.
Portanto, estes dois documentos – A liberdade religiosa e a «Nostra aetate» – juntos com a «Gaudium et spes» são uma trilogia muito importante, cuja importância se foi manifestando apenas com o passar das décadas, e ainda estamos a trabalhar para compreender melhor este conjunto formado pela unicidade da Revelação de Deus, a unicidade do único Deus encarnado em Cristo, e a multiplicidade das religiões, com as quais procuramos a paz, e também o coração aberto pela luz do Espírito Santo, que ilumina e guia para Cristo.
Agora quero acrescentar ainda um terceiro ponto: havia o Concílio dos Padres – o verdadeiro Concílio – mas havia também o Concílio dos meios de comunicação, que era quase um Concílio aparte. E o mundo captou o Concílio através deles, através dos mass-media. Portanto o Concílio, que chegou de forma imediata e eficiente ao povo, foi o dos meios de comunicação, não o dos Padres. E enquanto o Concílio dos Padres se realizava no âmbito da fé, era um Concílio da fé que faz apelo ao intellectus, que procura compreender-se e procura entender os sinais de Deus naquele momento, que procura responder ao desafio de Deus naquele momento e encontrar, na Palavra de Deus, a palavra para o presente e o futuro, enquanto todo o Concílio – como disse – se movia no âmbito da fé, como fides quaerens intellectum, o Concílio dos jornalistas, naturalmente, não se realizou no âmbito da fé, mas dentro das categorias dos meios de comunicação actuais, isto é, fora da fé, com uma hermenêutica diferente. Era uma hermenêuticos política: para os mass-media, o Concílio era uma luta política, uma luta de poder entre diversas correntes da Igreja. Era óbvio que os meios de comunicação tomariam posição por aquela parte que se lhes apresentava mais condizente com o seu mundo. Havia aqueles que pretendiam a descentralização da Igreja, o poder para os Bispos e depois, valendo-se da expressão «Povo de Deus», o poder do povo, dos leigos. Existia esta tripla questão: o poder do Papa, em seguida transferido para o poder dos bispos e para o poder de todos, a soberania popular. Para eles, naturalmente, esta era a parte que devia ser aprovada, promulgada, apoiada. E o mesmo se passava com a liturgia: não interessava a liturgia como acto da fé, mas como algo onde se fazem coisas compreensíveis, algo de actividade da comunidade, algo profano. E sabemos que havia uma tendência – invocava mesmo um fundamento na história – para se dizer: A sacralidade é uma coisa pagã, eventualmente do próprio Antigo Testamento. No Novo, conta apenas que Cristo morreu fora: fora das portas, isto é, no mundo profano. Portanto há que acabar com a sacralidade, o próprio culto deve ser profano: o culto não é culto, mas um acto do todo, da participação comum, e deste modo a participação vista como actividade. Estas traduções, banalizações da ideia do Concílio, foram virulentas na prática da aplicação da reforma litúrgica; nasceram numa visão do Concílio fora da sua chave própria de interpretação, da fé. E o mesmo se passou também com a questão da Escritura: a Escritura é um livro, histórico, que deve ser tratado historicamente e nada mais, etc.
Sabemos como este Concílio dos meios de comunicação era acessível a todos. Por isso, acabou por ser o predominante, o mais eficiente, tendo criado tantas calamidades, tantos problemas, realmente tanta miséria: seminários fechados, conventos fechados, liturgia banalizada... enquanto o verdadeiro Concílio teve dificuldade em se concretizar, em ser levado à realidade; o Concílio virtual era mais forte que o Concílio real. Mas a força do Concílio era real, estava presente e, pouco a pouco, vai-se realizando cada vez mais e torna-se a verdadeira força, que constitui também a verdadeira reforma, a verdadeira renovação da Igreja. Parece-me que, passados cinquenta anos do Concílio, vemos como este Concílio virtual se desfaz em pedaços e desaparece, enquanto se afirma o verdadeiro Concílio com toda a sua força espiritual. E é nossa missão, precisamente neste Ano da Fé, começando deste Ano da Fé, trabalhar para que o verdadeiro Concílio, com a própria força do Espírito Santo, se torne realidade e seja realmente renovada a Igreja. Temos esperança de que o Senhor nos ajudará. Eu, retirado, com a minha oração estarei sempre convosco e, juntos, caminhemos com o Senhor, na certeza de que vence o Senhor! Obrigado!

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Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.2.13 | Sem comentários
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