GERAR VIDA


O tempo de Advento, ano após ano, introduz o mistério que revoluciona a compreensão de Deus, mas também a compreensão do ser humano: o mistério da Incarnação, o mistério de Deus que se faz ser humano para viver connosco e dar corpo aquela mudança através da qual o ser humano se torna participante da vida de Deus. Advento é anúncio da vinda de Deus ao nosso mundo, à nossa vida. E como qualquer anúncio mexe connosco. Interrogamo-nos sobre a validade do anúncio, sobre as alterações que provocará a sua concretização, sobre a forma como nos vamos preparar, sobre o que podemos fazer para acolher/rejeitar a novidade anunciada. Tudo isto se concretiza num tempo no qual se potencia a dimensão da espera. É o tempo da gravidez, da gestação!

Advento: gerar vida

«Dias virão, em que cumprirei a promessa que fiz à casa de Israel e à casa de Judá: Naqueles dias, naquele tempo, farei germinar para David um rebento». As palavras transmitidas pelo profeta Jeremias assumem uma nova dimensão quando as colocamos no contexto da Incarnação. O rebento prometido já germinou na nossa humanidade: Jesus Cristo. E quer germinar, hoje. Sim, o Advento é também presente. A história do povo bíblico foi um longo advento. O nosso presente é advento que projeta para o futuro. Hoje, o Advento conduz-nos ao Natal e projeta-nos para a vinda gloriosa no final dos tempos (Parusia). O que veio há dois mil anos, que virá no final da história, é o mesmo que vem, agora, em cada dia, à nossa vida pessoal e comunitária (eclesial e social). Que importa que Jesus tenha nascido em Belém — pergunta Orígenes — se não nasce hoje no teu coração? Esta atualização do Advento é tão importante que não nos podemos preparar para o Natal nem para a Parusia, se não deixamos nascer Jesus Cristo tanto nas rotinas quotidianas como na novidade imprevista dos acontecimentos da Igreja (a ação do papa Francisco, o Ano da Misericórdia) e da sociedade (o grito daqueles que acreditam que outro mundo é possível). Daqui brota um desafio: gerar Jesus Cristo na nossa vida, promover uma espiritualidade da gestação.
«A palavra ‘gestação’ remete-nos para a experiência humana mais poderosa e mais frágil, mais comovente, mais alegre e, por vezes, mais dolorosa que existe. Evoca, em primeiro lugar, as palavras e os gestos do homem e da mulher que se amam e que se unem para dar a vida. [...] Juntos, dão a vida a um novo ser [...]. A palavra ‘gestação’ é rica de múltiplas conotações, que abrem perspetivas de uma grande densidade existencial: o dom da vida, a complementaridade do masculino e do feminino, a reciprocidade das trocas, o nascimento para uma nova identidade; uma atitude de acolhimento e de dom, de prazer, de alegria e também de sofrimento, aceitando o luto, a travessia do desconhecido e a surpresa frente ao imprevisível da vida…» (Uma nova oportunidade para o Evangelho. Para uma pastoral da gestação, ed. Paulinas). O Advento é uma obra de gestação: deixar gerar em nós a novidade de Jesus Cristo, deixar-se gerar para essa vida nova, entre outros, através do encontro com a palavra de Deus (Bíblia), que ressoa nos relatos primordiais, através do encontro com a Palavra de Deus (Jesus Cristo), que ressoa nos acontecimentos quotidianos e nos outros seres humanos.

Laboratório da Fé anunciada

No início da vida cristã, na base da identidade do discípulo missionário, está o «encontro pessoal com Jesus Cristo». Anunciar a fé, anunciar a alegria do Evangelho, é, em primeiro lugar, gerar esse encontro na própria vida. Por isso, o Papa convida cada cristão «em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele» (Francisco, Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual — «Evangelii Gaudium» [EG], 3). E os bispos da América Latina e do Caribe declaram: «Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria» (Documento de Aparecida, 29). Trata-se de uma alegria que bebe «na fonte do amor maior, que é o de Deus, a nós manifestado em Jesus Cristo» (EG 7). Esta é a «fonte da ação evangelizadora. Porque, se alguém acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de o comunicar aos outros?» (EG 8).

© Laboratório da fé, 2015




Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.11.15 | Sem comentários
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